O dia passa. Você se esquece daquela cena. Outro dia chega. E você mais uma vez se encontra na calçada margeando a rua. Ao dar um passo para atravessá-la, tropeça e cai. De repente, alguém lhe dá a mão em apoio para que se levante. Aturdido pela queda e pela vergonha do tombo, rapidamente você aceita o apoio recebido e se esforça para levantar. Seus olhos, em outro instante enigmático, fitam aqueles mesmos de outro dia.Aquela mesma pessoa do ônibus – não tão gorda como você imagina, um pouco mais alta do que pensa, com um sorriso solidário, expressando uma dignidade que está acima da classe social, negra de fato, sem grandes atributos físicos de beleza, mas com uma rapidez de atitude impressionante, que lhe faz achá-la bela – está à sua frente, a lhe oferecer a mão e a lhe ajudar a se por de pé.
Deus lhe pague! – você diz – entre a dor da queda e a surpresa da nova imagem que avista. É a mesma pessoa. Mas você tem uma realidade nova diante dos olhos. Conversam. A pessoa também se recorda de que lhe vira outro dia. Ela também imagina que você é forte, saudável e ágil. Só então percebe que você precisa de ajuda para se locomover, que seus ossos são frágeis e de que sua saúde é precária.
Cada pessoa vê a outra do seu ponto de vista. A imaginação, muitas vezes mal-treinada pelo desprezo aos valores humanos, tece características irreais sobre os demais semelhantes. Somente o verdadeiro contato solidário é capaz de levar à criação de uma real consciência sobre a identidade do próximo.
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