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  • O que é Sociologia

    O que é Sociologia

    Por Levon Nascimento, professor de Sociologia e Inclusão Social no Bacharelado em Direito da Faculdade Taiobeiras (FAC TAIÔ). Mestre em Políticas Públicas. Doutorando em Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável.

    A Sociologia nasce como um esforço rigoroso de compreender aquilo que, à primeira vista, parece comum: a vida em sociedade. O texto de Eva Maria Lakatos e Marina de Andrade Marconi, utilizado como referência para esta postagem, nos convida justamente a dar esse passo – sair do senso comum e entrar no campo da ciência, onde os fenômenos sociais são observados, analisados e explicados com método e lógica.

    Para começar, é fundamental entender o que é ciência. Longe de ser apenas um conjunto de informações, a ciência é uma forma organizada de conhecer o mundo, baseada em observação, interpretação e verificação. No caso das Ciências Sociais, esse olhar se volta para o chamado “nível superorgânico” – isto é, tudo aquilo que emerge das relações humanas: cultura, linguagem, instituições, valores e formas de organização social.

    Nesse universo, a Sociologia ocupa um lugar especial. Enquanto áreas como o Direito, a Economia ou a Política analisam aspectos específicos da vida social – normas, produção de riqueza ou poder –, a Sociologia busca compreender a sociedade como um todo. Ela investiga as relações entre indivíduos e grupos, os processos de cooperação e conflito, as desigualdades e as formas de organização social, sempre com uma postura objetiva, sem emitir juízos de valor.

    Outro ponto essencial do texto é a ideia de que a realidade social pode ser estudada por diferentes métodos. Assim como um pesquisador da natureza utiliza instrumentos para compreender o mundo físico, o sociólogo recorre a métodos como o histórico, o comparativo ou o estatístico para investigar os fenômenos sociais. Cada método oferece uma lente distinta, permitindo enxergar a sociedade sob múltiplas perspectivas – seja analisando o passado, comparando culturas ou identificando padrões numéricos.

    Por fim, o texto revela algo particularmente importante para iniciantes: estudar Sociologia é, antes de tudo, aprender a olhar o mundo de forma crítica. Aquilo que parece natural – como as leis, os costumes ou as desigualdades – passa a ser visto como resultado de processos históricos, culturais e sociais. Em outras palavras, a Sociologia nos ensina que a sociedade não é algo dado, mas construído – e, portanto, passível de transformação.

    Esse é o seu ponto de partida: começar a perceber que, por trás de cada fato social, existe uma lógica que pode (e deve) ser compreendida.

    Referência:

    LAKATOS, Eva Maria; MARCONI, Marina de Andrade. Sociologia geral. 7. ed. rev. e ampl. 15. reimp. São Paulo: Altas, 2016. p. 21-41.

  • Seres humanos humanizados

    Seres humanos humanizados

    A animalização das palavras é também uma forma de desumanização, sinal de uma visão violenta da sociedade, ainda que disfarçada de autoelogio.

    Desconfie de quem se autodenomina “macho alfa” e reduz mulheres a “fêmeas”. O ser humano não se define pelo instinto bruto, mas pela capacidade de superá-lo.

    O homem é homem porque se civilizou, não o contrário. Foi ao transcender a lógica predatória que construiu ética, dignidade e respeito à vida.

    O chamado “macho alfa” não representa força: representa regressão. É a exaltação do predador, não do cidadão.

    E há um risco real nisso. Discursos como o da chamada “red pill” operam como uma droga ideológica: seduzem, distorcem e, em casos extremos, naturalizam relações abusivas, inclusive levando mulheres a tolerarem a própria violência.

    É preciso lucidez. Nem todo discurso de força é, de fato, humano.

    Por Levon Nascimento

  • Direito com propósito: entre Kafka e o Alto Rio Pardo

    Direito com propósito: entre Kafka e o Alto Rio Pardo

    Por Levon Nascimento, mestre em Políticas Públicas e doutorando em Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável

    Há histórias que não envelhecem. Há histórias que nos perseguem. Há histórias que nos interrogam e, por vezes, nos acusam. O Processo, de Franz Kafka, é uma dessas.

    Josef K. acorda em uma manhã qualquer e descobre que está sendo processado. Não sabe por quem. Não sabe por quê. Não sabe sequer qual é a acusação que pesa sobre si. Ainda assim, o processo segue. Avança. Se impõe. E, quanto mais ele tenta compreender, mais se afasta da compreensão. O que se revela, ao longo da narrativa, não é apenas um sistema jurídico opaco, mas um mundo em que o Direito perdeu o seu sentido ou, talvez, nunca o tenha tido.

    Essa imagem inquietante não pertence apenas à literatura. Ela nos serve como advertência.

    Porque o Direito pode ser isso: instrumento de opressão, engrenagem burocrática, ritual vazio. Mas não deve ser.

    E é precisamente nesse ponto que se abre o verdadeiro debate: o que é, afinal, o Direito, e para que ele serve?

    O Direito não nasce nos códigos. Não começa nas leis. Ele emerge da vida social, das relações humanas, dos conflitos que atravessam o cotidiano e das tentativas, sempre imperfeitas, de organizá-los. É linguagem, é poder, é norma, mas, acima de tudo, é construção histórica. E, por isso mesmo, carrega em si uma ambiguidade fundamental: pode servir à dominação ou à libertação.

    Quando se fala em formação jurídica, especialmente em regiões como o Alto Rio Pardo mineiro, essa ambiguidade deixa de ser teórica e se torna concreta. Aqui, o Direito não é uma abstração distante. Ele se manifesta nas dificuldades de acesso à justiça, nas desigualdades persistentes, nos conflitos por terra, nas questões ambientais, nas vulnerabilidades sociais que marcam a vida de tantas comunidades.

    É nesse cenário que a formação jurídica ganha densidade e urgência.

    A criação de um curso de Direito em Taiobeiras não é apenas um marco educacional. É um acontecimento histórico regional. Representa a interiorização do saber jurídico, a ampliação de oportunidades e, sobretudo, a possibilidade de formar profissionais comprometidos com a realidade que os cerca. Não se trata apenas de ensinar normas, mas de formar sujeitos capazes de interpretá-las criticamente e aplicá-las com responsabilidade social.

    O próprio projeto pedagógico do curso aponta nessa direção ao afirmar que o Direito deve ser compreendido como instrumento de transformação social e de construção da cidadania. Essa afirmação, longe de ser meramente formal, estabelece um horizonte ético para a atuação profissional. Significa dizer que o bacharel em Direito não pode se limitar ao domínio técnico; deve desenvolver sensibilidade social, capacidade de diálogo e compromisso com os direitos humanos.

    Nesse sentido, a formação jurídica contemporânea exige mais do que conhecimento dogmático. Exige compreensão da sociedade. Exige escuta. Exige posicionamento.

    Não por acaso, disciplinas introdutórias já colocam o estudante diante de temas como desigualdade social, inclusão e direitos humanos. Isso porque o Direito não se exerce no vazio. Ele se realiza na vida concreta, nos conflitos reais, nas histórias singulares que chegam aos fóruns, aos escritórios, às instituições públicas.

    E é justamente aí que se define o propósito do Direito.

    Não basta conhecer a lei. É preciso saber a quem ela serve.

    Não basta interpretar normas. É preciso compreender contextos.

    Não basta aplicar o Direito. É preciso transformá-lo quando necessário.

    O Estado Democrático de Direito, frequentemente invocado, mas nem sempre plenamente realizado, é a estrutura que deveria impedir que o mundo de Kafka se torne realidade. Nele, ninguém é acusado sem saber por quê. Ninguém é julgado sem defesa. Ninguém é condenado sem prova. Trata-se de um modelo que se sustenta na legalidade, na transparência e na garantia de direitos.

    Mas esse modelo não se mantém sozinho. Ele depende de instituições e, sobretudo, de pessoas.

    Depende de advogados, juízes, promotores, defensores, professores, pesquisadores. Depende de profissionais que compreendam o Direito não como privilégio, mas como responsabilidade.

    Os caminhos que se abrem a quem ingressa na formação jurídica são múltiplos. Vão desde as carreiras tradicionais até novas áreas de atuação que dialogam com as transformações sociais e tecnológicas do nosso tempo. No entanto, independentemente da escolha profissional, há um elemento que deve permanecer constante: o compromisso com a justiça.

    E aqui, mais uma vez, o Alto Rio Pardo se impõe como horizonte concreto.

    Formar juristas nesta região significa, também, formar agentes de desenvolvimento local. Significa preparar profissionais capazes de contribuir com a construção de políticas públicas, de fortalecer o acesso à justiça, de mediar conflitos e de promover a cidadania em contextos historicamente marcados por desigualdades.

    O Direito, nesse espaço, precisa ser vivido como prática social transformadora.

    Precisa sair dos livros e caminhar pelas ruas.

    Precisa dialogar com as comunidades.

    Precisa reconhecer a diversidade cultural e social que compõe o território.

    Se assim não for, corre o risco de repetir Kafka, não como literatura, mas como realidade.

    E talvez essa seja a maior lição que se pode extrair de O Processo: não a descrição de um sistema distante, mas o alerta sobre aquilo que o Direito jamais deve se tornar.

    Que não haja, entre nós, processos sem sentido.

    Que não haja cidadãos sem voz.

    Que não haja justiça sem humanidade.

    E que os novos estudantes de Direito, que agora iniciam sua trajetória no Alto Rio Pardo mineiro, compreendam desde o início que sua formação não é apenas acadêmica, é também ética, social e histórica.

    Porque, no fim das contas, o Direito só faz sentido quando tem propósito.

    E propósito, aqui, tem nome, tem lugar e tem urgência: o nosso Alto Rio Pardo mineiro.

  • Entre déspotas e silêncios: a relatividade do mal político na história global

    Entre déspotas e silêncios: a relatividade do mal político na história global

    Listagens de “maiores déspotas e genocidas da história” costumam chocar – e devem chocar. Mas também revelam algo menos evidente: os critérios e os filtros de quem classifica. Ao percorrê-las, salta aos olhos a recorrência de líderes asiáticos, africanos e do antigo bloco socialista, enquanto Europa Ocidental e Américas aparecem de modo residual. A pergunta que se impõe não é defensiva, mas crítica: o mal político é absoluto ou sua classificação é atravessada por vieses históricos, jurídicos e ideológicos?

    Não se trata de negar os fatos. Regimes como os de Hitler, Stalin, Mao Tsé-Tung, Pol Pot ou Leopoldo II produziram mortes em massa amplamente documentadas, muitas vezes por políticas estatais explícitas de extermínio, fome induzida e terror sistemático. Esses casos se tornaram paradigmas do genocídio “clássico” porque concentraram poder em figuras identificáveis e deixaram registros administrativos claros. A historiografia não os relativiza – e não deve relativizá-los. O problema emerge quando esse paradigma se torna a régua única do horror histórico.

    A violência praticada pelo Ocidente liberal – Espanha, Portugal e Inglaterra, anteriormente; Estados Unidos, na atualidade –, raramente se encaixa nesse molde personalista. Ela foi (e é), em grande medida, estrutural, difusa e prolongada: colonização, escravidão atlântica, extermínio indígena, guerras imperiais, sanções econômicas letais. Milhões morreram não por decretos assinados por um único déspota, mas por sistemas que operaram durante séculos com legitimidade política, econômica e moral. A ausência de um “nome-símbolo” não diminui a gravidade; apenas dificulta a nomeação do crime.

    As Américas exemplificam essa ambiguidade. O genocídio indígena foi real, persistente e fundacional, mas raramente personificado em um único líder. As ditaduras latino-americanas de direita produziram terror de Estado, desaparecimentos e assassinatos – quase sempre sob o manto da Guerra Fria –, enquanto experiências revolucionárias armadas também cometeram graves violações. Países de menor escala demográfica e classificações jurídicas restritivas tendem a invisibilizar esses horrores em comparações globais baseadas apenas em números absolutos.

    O debate se torna ainda mais sensível ao se considerar os Estados Unidos. Não se trata de um regime despótico interno – ao menos não era até Trump reascender em janeiro de 2025 –, tampouco é consenso classificá-lo como genocida em sentido jurídico estrito. Ainda assim, é o único país a ter utilizado armas nucleares contra civis, protagoniza guerras recorrentes, apoiou (e apoia) ditaduras e se beneficia de uma ordem internacional que diminui sua própria responsabilização. Aqui não cabe a equiparação simplista, mas a constatação de um imperialismo estruturalmente violento, cujos efeitos humanos são incontornáveis.

    Do outro lado do mapa, África, Oriente Médio, Rússia e Extremo Oriente tampouco formam um bloco homogêneo. Há ditaduras de esquerda e de direita, regimes laicos e teocráticos, Estados hipercentralizados e Estados colapsados. Reduzi-los a um “Oriente violento” em oposição a um “Ocidente civilizado” é uma leitura empobrecida, mais útil à geopolítica do que à compreensão histórica. A barbárie não é atributo cultural; é possibilidade política.

    Parte decisiva do viés classificatório nasce do direito internacional. Genocídio exige intenção explícita de destruir um grupo enquanto tal. Muitas violências ocidentais operaram por negligência deliberada – como fez Bolsonaro com 700 mil vidas brasileiras em plena pandemia do novo coronavírus, ou o estadista Churchill diante da grande fome indiana –, racismo estrutural, exploração econômica ou eufemismos como “danos colaterais”. Assim, o mal explícito é mais facilmente condenado do que o mal normalizado. A técnica jurídica, quando isolada, pode se tornar instrumento de esquecimento.

    O resultado é um espelho quebrado: condenamos corretamente os crimes alheios, mas frequentemente atenuamos os nossos, chamando massacres de “guerra”, fomes de “ineficiência” e dominação de “ordem internacional”. A crítica madura não consiste em inverter culpados, mas em reconhecer que nenhuma civilização, ideologia ou hemisfério possui monopólio do erro, da indiferença ou da violência.

    Pensar a relatividade da classificação despótica e genocida não é relativizar o sofrimento das vítimas. Ao contrário: é ampliar o campo de responsabilidade, incorporando processos, estruturas e cumplicidades históricas. Somente assim a história deixa de ser um tribunal seletivo e passa a cumprir sua função ética: iluminar, com igual rigor, os horrores do Ocidente e do Oriente, da esquerda e da direita, do passado distante e do presente que ainda insiste em se justificar. Não podemos normalizar Trump sobre o mundo, Putin na Ucrânia ou Netanyahu em Gaza.

  • A cadela do fascismo está sempre no cio

    A cadela do fascismo está sempre no cio

    A frase que intitula este artigo é uma formulação consagrada do pensamento de Bertolt Brecht, extraída do alerta final de A resistível ascensão de Arturo Ui (1941): “o ventre que gerou a besta ainda é fértil”. Na tradição política e cultural do século XX, sobretudo na Europa e na América Latina, a imagem foi vertida de modo mais cru e direto – “a cadela do fascismo está sempre no cio” – para sublinhar uma verdade incômoda: o fascismo não é um desvio histórico encerrado em 1945, mas uma possibilidade permanente, sempre pronta a reaparecer quando as condições sociais, econômicas e políticas o favorecem.

    Vivemos hoje uma dessas quadras históricas. A crise estrutural da democracia liberal – incapaz de responder às angústias materiais e simbólicas das maiorias – abriu espaço para soluções autoritárias travestidas de moralidade, ordem e eficiência. O neoliberalismo, ao precarizar o trabalho, desmontar políticas sociais e reduzir o Estado à lógica do mercado, produz frustração, ressentimento e medo. Como lembra Renato Janine Ribeiro, a direita neoliberal, ao rejeitar a justiça social e a tributação redistributiva, cria o terreno fértil no qual a extrema-direita prospera, funcionando como seu braço sujo, aquilo que faz o trabalho que a direita “respeitável” não quer assumir explicitamente.

    Esse fenômeno não é abstrato nem distante. Ele tem nomes, rostos e fatos concretos. No Brasil, o bolsonarismo – com Jair Bolsonaro, seus filhos e uma constelação de parlamentares como Nikolas Ferreira – normalizou o elogio à ditadura, a deslegitimação das eleições, o ataque às instituições e o flerte aberto com a violência política. Os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, precedidos por acampamentos e financiamentos empresariais, não foram “excessos”, mas a expressão lógica de uma cultura política que despreza a democracia quando ela contraria seus interesses.

    No plano internacional, o quadro é igualmente alarmante. Donald Trump, nos Estados Unidos, não apenas atacou sistematicamente a imprensa, o Judiciário e o processo eleitoral, como estimulou políticas de perseguição a imigrantes, negros e minorias, legitimando a violência policial e a mentira como método. Como analisou o psicanalista Justin Frank, trata-se de uma liderança que mobiliza feridas narcísicas coletivas, criando uma identificação emocional entre líder e seguidores baseada no ressentimento, na negação da realidade e na construção de inimigos internos.

    Um elemento central desse neofascismo é o uso instrumental da religião. Igrejas e lideranças religiosas são mobilizadas para sacralizar a política, demonizar adversários e justificar desigualdades como vontade divina. No Brasil, a teologia da prosperidade e o moralismo seletivo funcionam como cimento ideológico: prometem ordem num mundo em crise, ao custo da exclusão, do ódio e da submissão. O fascismo, aqui, veste terno, carrega Bíblia e fala em nome da “família”, enquanto corrói direitos e naturaliza a violência.

    As novíssimas tecnologias informacionais completam o quadro. Redes sociais, algoritmos, desinformação em massa e bolhas digitais permitem a disseminação rápida de mentiras, teorias conspiratórias e discursos de ódio, sem mediação crítica. A política transforma-se em espetáculo permanente, e a verdade deixa de ser um critério comum. Como mostram inúmeros estudos e reportagens, não se trata de espontaneidade, mas de estratégia: financiar influenciadores, atacar jornalistas, desacreditar a ciência e capturar emocionalmente audiências.

    Por isso, o alerta de Brecht – e de Renato Janine Ribeiro – permanece atual e urgente. A cadela do fascismo segue no cio porque suas condições materiais e simbólicas seguem dadas: desigualdade, medo, precarização, cinismo político e ausência de projetos emancipatórios claros. Enfrentá-la exige mais do que indignação moral; exige democracia substantiva, justiça social, regulação do capital, educação crítica e coragem política para nomear o problema sem rodeios. Vigilância e compromisso não são retórica: são condições de sobrevivência democrática.

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  • Papa Francisco versus Jeffrey Epstein

    Papa Francisco versus Jeffrey Epstein

    O que lentamente se desvela sob a poeira espessa da chamada “lista Epstein” não é apenas o inventário grotesco de crimes individuais — abusos, exploração, violência e tráfico humano —, mas a anatomia moral de um sistema. Um sistema no qual banqueiros, magnatas e operadores políticos se entrelaçam nas sombras para servir aos interesses de uma elite global intoxicada por poder. Entre os nomes e conexões que emergem, aparece também o circuito ideológico: viagens financiadas para influenciadores travestidos de ortodoxia católica, campanhas digitais sistemáticas contra aquele que ousou confrontar os ídolos do mercado.

    Segundo relatos amplamente divulgados, o financista teria confidenciado a Steve Bannon — estrategista ligado a Donald Trump e influente nos círculos da família Jair Bolsonaro — a frase que soa como síntese de um projeto: “Eu vou derrubar Francisco”. Não era apenas uma divergência teológica. Era a percepção de que havia, em Roma, uma voz que desorganizava a engrenagem.

    Papa Francisco foi atacado com fúria desproporcional. Chamaram-no de ingênuo, de herege, de comunista. Acusaram-no de trair a tradição — quando, na verdade, retornava à fonte mais radical do Evangelho. Sua fidelidade não foi à lógica das armas, mas à paz. Não ao lucro predatório, mas à Ecologia Integral. Não à indiferença diante das migrações forçadas, mas ao acolhimento dos pobres e descartados. Denunciou o massacre em Gaza, clamou pelo fim da guerra na Ucrânia, confrontou a idolatria do dinheiro dentro e fora da própria Igreja.

    E isso tem preço.

    Os poderosos deste mundo — financeiros, midiáticos, políticos — não toleram profetas. Muito menos quando o profeta ocupa a Cátedra de Pedro e fala em nome dos que não têm voz. Francisco tornou-se incômodo porque desmontava a teologia do mercado, porque desmascarava o nacionalismo travestido de fé, porque recordava que o cristianismo não é uma bandeira identitária, mas uma cruz carregada ao lado dos crucificados da história.

    Epstein foi preso em 2019. Um arquivo humano dos subterrâneos do capitalismo ocidental. Um mês depois, morreu em circunstâncias que jamais cessarão de levantar perguntas. O escândalo, contudo, não terminou com ele; apenas revelou a extensão da podridão estrutural.

    Francisco, ao contrário, não recuou. Foi até o fim. Até a Páscoa de seu Senhor e Mestre. Permaneceu com os pobres, com os migrantes, com a Casa Comum ferida, com as vítimas da guerra. Não se curvou à lógica do medo nem ao cálculo do poder.

    Enquanto uns sucumbem nas celas do escândalo, outros atravessam a história como testemunhas.

    Francisco: santo súbito!

  • A lista de Epstein

    A lista de Epstein

    A chamada “lista de Epstein” — e todo o processo que a envolve — expõe denúncias gravíssimas e relações obscuras entre figuras poderosíssimas do capitalismo global e redes de exploração e abuso. Nesse universo de poder, Donald Trump e outros bilionários aparecem como personagens centrais de um sistema profundamente corrompido, ao passo que Jair Bolsonaro surge como um de seus aliados políticos mais explícitos.

    Não é casual, portanto, que esse mesmo bloco de poder tenha se articulado contra o Papa Francisco, justamente por ele ter sido uma das vozes mais firmes na denúncia das injustiças estruturais, da mercantilização da vida e da idolatria do dinheiro.

    Se há algo que possa ser chamado de “besta do Apocalipse” ou “anticristo” em nosso tempo, ele não se apresenta em figuras míticas, mas nas engrenagens concretas desse sistema econômico desumanizante, amplamente revelado nos escândalos ligados a Epstein.

    O mais triste é ver setores da extrema-direita cristã curvarem-se diante desse poder, confundindo fé com submissão ao capital. Nesse sentido, assumir uma posição de esquerda — comprometida com justiça social, dignidade humana e solidariedade — é, a meu ver, estar muito mais próximo do ensinamento de Cristo do que das forças que o negam.


    Nome de Trump aparece em registros de voos ligados à Epstein — Foto: Reprodução
  • Otelina: Semente dos Gerais

    Otelina: Semente dos Gerais

    Dona Otelina Rodrigues dos Santos partiu nesta semana que ora se encerra, a poucos passos de completar seus 76 anos de vida – que chegariam em 20 de março próximo. Partiu cedo, é verdade, mas carregada de tempo vivido, de chão pisado e de gente cuidada.

    Filha dos gerais da Lagoa Dourada, em Taiobeiras, Otelina fez da própria existência um longo ato de doação. Por onde passou – e especialmente na comunidade da Lagoa Grande – deixou raízes profundas, fincadas na família extensa, no trabalho coletivo e na fé partilhada.

    Mulher afrodescendente, liderança comunitária e sindical, zeladora do Apostolado da Oração, presidenta de associação, guardiã do cerrado e do pequi. Mulher de luta, de palavra firme e mãos abertas. Madrinha de muitos. Como o pequizeiro generoso, que no tempo certo se cobre de frutos, Otelina fez florescer gente. E agora, nestes dias finais de janeiro, todo esse povo por ela cuidado, abraçado e amadrinhado se revela como fruto maduro de um legado maternal, pastoral, militante e profundamente espiritual.

    Velórios e sepultamentos são, por natureza, instantes de dor. E assim foi. Não poderia ser diferente. Ainda assim, ao acompanhar os ritos fúnebres de Otelina, vi algo raro: beleza. Uma beleza simples, quase sagrada. O corpo de Otelina desceu à sepultura no cemitério da Lagoa Dourada sob a sombra benfazeja de um pequizeiro frondoso, carregado de frutos. A luz do sol filtrava-se por entre os galhos, desenhando claridades mansas sobre a terra. Na noite anterior, de chuva – daquelas que os gerais sempre precisam – pequis haviam caído ao chão. Dentro da sepultura, antes que a urna baixasse por completo, os frutos estavam ali: sinais silenciosos, mas eloquentes.

    Otelina, catadora de pequi. Mulher que extraiu o óleo, que ajudou seu Hermelino a sustentar a família com os frutos do cerrado. Mulher que conhecia o tempo da colheita e o valor da espera. Ao fim, tornou-se também ela semente. Boa semente. Como os pequis que recolheu ao longo da vida, agora repousa na terra, certa de que seu exemplo há de brotar, geração após geração, nos gerais que tanto amou.

  • Mabaço

    Mabaço

    Por Levon Nascimento

    Desde criança, cresci ouvindo uma história curiosa que sempre despertou minha atenção: diziam que meu avô materno, Manoel José do Nascimento, era mabaço de seu irmão Manoel João do Nascimento. Baianos do sudoeste da Bahia, quase na divisa com o Norte de Minas Gerais, usavam – e ainda usam – essa palavra peculiar para dizer algo simples e poderoso: gêmeo. O que parecia apenas um regionalismo pitoresco escondia, na verdade, uma herança histórica profunda.

    “Mabaço” não nasceu ali, nem por acaso. A palavra vem do quimbundo, idioma africano falado no antigo Reino do Ndongo, na região que hoje corresponde a parte de Angola. Durante o período colonial, o quimbundo ganhou enorme relevância, sobretudo por sua presença em Luanda, centro político e econômico da colônia. Essa centralidade fez com que muitos termos do quimbundo fossem incorporados ao português falado em Angola.

    Com o tráfico de pessoas escravizadas, essas palavras atravessaram o Atlântico junto com histórias, saberes e modos de nomear o mundo. No Brasil, sobreviveram no vocabulário cotidiano, especialmente em regiões marcadas pela forte presença africana. Assim, quando alguém no interior da Bahia diz que dois irmãos são “mabaços”, não está apenas usando uma palavra antiga: está, sem saber, preservando um fragmento vivo da história africana no português brasileiro.

    O que parecia apenas uma lembrança de família revela-se, portanto, um elo linguístico entre continentes, tempos e identidades – prova de que a língua guarda memórias que nem sempre percebemos, mas que continuam a falar por nós.

  • O que foi o tempo dos revoltosos no Norte de Minas?

    O que foi o tempo dos revoltosos no Norte de Minas?

    Em abril de 2026, será lançado o livro A COLUNA PRESTES NOS GERAIS DE MINAS, revisitando este grande fato histórico que teve o Alto Rio Pardo como palco há cem anos

    Por Levon Nascimento

    A Coluna Prestes foi um dos acontecimentos políticos e militares mais marcantes da história do Brasil republicano. Entre 1924 e 1927, um grupo de jovens oficiais do Exército percorreu cerca de 25 mil quilômetros pelo interior do país, denunciando as injustiças da Primeira República, como a fraude eleitoral, o poder dos coronéis e a ausência de políticas públicas para a população pobre. Em abril de 1926, essa marcha chegou ao Norte de Minas Gerais, deixando marcas profundas na memória da região.

    O Brasil da década de 1920 era governado por elites agrárias que se revezavam no poder, principalmente São Paulo e Minas Gerais, no chamado sistema do “café com leite”. Nesse contexto, a maioria da população não tinha direito ao voto e vivia sob forte controle político local. O movimento conhecido como tenentismo surgiu como reação a essa realidade, defendendo reformas como o voto secreto, a moralização da política e a ampliação da educação pública.

    Ao entrar no Norte de Minas, a Coluna Prestes encontrou um sertão marcado pela pobreza, pelo isolamento e pela dominação dos grandes proprietários de terra. Para a população local, pouco integrada à política nacional, a chegada dos “revoltosos” foi cercada de medo e incerteza. Muitas famílias abandonaram suas casas e se esconderam no mato, sem distinguir claramente quem eram os rebeldes e quem eram as tropas do governo.

    Um aspecto importante desse episódio foi a violência praticada pelas tropas legalistas, enviadas pelo governo federal para perseguir a Coluna. Em diversos relatos históricos e de memória oral, essas forças aparecem como responsáveis por saques, espancamentos e destruição de propriedades, o que aumentou o sofrimento da população sertaneja. Essa situação contribuiu para a confusão generalizada e para o trauma coletivo vivido na região.

    A Coluna Prestes, por sua vez, adotava uma disciplina rígida e, em muitos casos, buscava negociar com comerciantes e moradores locais para obter alimentos e suprimentos. Embora tenha recorrido a requisições forçadas, há registros de tentativas de pagamento e de respeito às comunidades, o que diferencia sua atuação daquela das tropas governistas em vários momentos.

    No Norte de Minas Gerais, a Coluna realizou uma de suas manobras militares mais conhecidas: o chamado “Laço Húngaro”. Essa estratégia permitiu que os revoltosos enganassem as forças que os perseguiam, escapando do cerco e retornando à Bahia. A manobra demonstra a capacidade estratégica de Luiz Carlos Prestes e explica por que a Coluna nunca foi derrotada militarmente.

    Um episódio simbólico ocorreu em Taiobeiras, então chamada Bom Jardim das Taiobeiras. Ali, o comerciante João Rêgo dialogou com os revoltosos e conseguiu proteger a comunidade por meio da negociação. Segundo a memória local, Luiz Carlos Prestes teria deixado moedas como forma de pagamento pelos produtos retirados da loja, gesto que ficou marcado como sinal de respeito e reciprocidade em meio ao conflito.

    O contato com a miséria do sertão teve impacto profundo sobre Prestes e outros integrantes da Coluna. A marcha revelou os limites das ideias liberais defendidas pelos tenentes, que não conseguiam responder às desigualdades estruturais do campo brasileiro. Essa experiência foi decisiva para a radicalização política de Prestes nos anos seguintes, levando-o a defender transformações mais profundas na sociedade brasileira.

    A passagem da Coluna Prestes pelo Norte de Minas deixou um legado ambíguo: ao mesmo tempo em que gerou medo e sofrimento, também revelou as contradições do Estado brasileiro e a violência praticada em nome da “ordem”. Para a História, esse episódio ajuda a compreender a distância entre o Brasil oficial e o Brasil profundo, além da importância da memória das populações locais.

    Estudar esse tema hoje, à luz da Base Nacional Comum Curricular (BNCC: EF09HI et al. e EM13CHS et. al.), permite desenvolver a análise crítica das fontes, compreender diferentes perspectivas sobre o passado e refletir sobre cidadania, poder e justiça social. A Coluna Prestes, ao cruzar os gerais de Minas, não apenas fez história: provocou perguntas que seguem atuais sobre democracia, desigualdade e participação popular.

  • A Coluna Prestes nos Gerais de Minas

    A Coluna Prestes nos Gerais de Minas

    Lançamento em abril de 2026 – Paco Editorial

    Em abril de 2026, o Brasil celebra o centenário da passagem da Coluna Prestes pelo Norte de Minas Gerais — e também o lançamento de uma das obras mais aguardadas sobre o tema: A Coluna Prestes nos Gerais de Minas, organizada pelo historiador e professor Levon Nascimento, de Taiobeiras (MG), pela Paco Editorial. O livro reúne 15 autores e autoras em uma coletânea que renova a historiografia brasileira ao deslocar o eixo narrativo dos grandes centros urbanos para o sertão mineiro e baiano — o território do chamado “Brasil profundo”, onde a Coluna viveu, lutou e foi lembrada.

    Com prefácio de padre João Carlos Siqueira e posfácio de Milton Pena Santiago, a obra está dividida em oito capítulos temáticos que abordam, de modo multidisciplinar, as dimensões política, social, militar, educativa e simbólica do movimento tenentista. Participam da coletânea os pesquisadores e pesquisadoras Levon Nascimento, Márcia Sant’Ana Lima Barreto, Lídio Barreto Filho, Luiz Eduardo de Souza Pinto, Pedro Abder Nunes Raim Ramos, Sidney Batista Azevedo, Fabiano Alves Pereira, Vladimir Mendes Patrício, Joandina Maria de Carvalho, Maria de Fátima Magalhães Mariani, Leleco Pimentel, Silvânia Alves de Freitas, Mônica Rodrigues Teixeira, Padre João Carlos Siqueira e Milton Pena Santiago, formando um mosaico de vozes e perspectivas que se complementam.

    A coletânea articula história oral, micro-história, história regional e análise documental, explorando a tensão entre a propaganda oficial do governo Artur Bernardes — que retratava os revoltosos como “bandidos e sediciosos” — e as memórias transmitidas de geração em geração nas comunidades do Alto Rio Pardo, de Salinas, Taiobeiras e Condeúba. Como explica o organizador, a Coluna não é tratada como um mito distante, mas como uma experiência concreta vivida por famílias sertanejas, marcadas pelo medo, pela negociação e pela solidariedade popular. O livro resgata episódios emblemáticos, como o do comerciante João Rêgo, que negociou a paz em Taiobeiras, e a célebre “Manobra do Laço Húngaro”, exemplo da inteligência tática de Luiz Carlos Prestes e de sua tropa.

    Entre as contribuições, destaca-se o capítulo de Levon Nascimento, que combina pesquisa documental e memória familiar para reconstituir a passagem da Coluna pelo Norte de Minas. Márcia Sant’Ana Lima Barreto e Lídio Barreto Filho exploram o contexto político da Primeira República e as origens do tenentismo, enquanto Luiz Eduardo de Souza Pinto e Pedro Abder Nunes Raim Ramos traçam uma instigante biografia política de Prestes, evitando a hagiografia e revelando suas contradições humanas e ideológicas. Fabiano Alves Pereira investiga a dimensão militar e a mobilidade como método, e Sidney Batista Azevedo analisa o coronelismo mineiro e a propaganda legalista que tentou criminalizar os revoltosos.

    Na fronteira entre história e memória, Joandina Maria de Carvalho e Maria de Fátima Magalhães Mariani estudam a “Bahia próxima”, registrando narrativas orais que revelam como o povo reinterpretou a Coluna ao longo das décadas. Vladimir Mendes Patrício questiona “como o povo viu a Coluna Prestes”, propondo uma história “vista de baixo”, enquanto Leleco Pimentel, Silvânia Alves de Freitas e Mônica Rodrigues Teixeira investigam a surpreendente “Pedagogia da Coluna” — as escolas itinerantes, os diálogos formativos e o ideal educativo que aproximam o movimento das futuras teorias de Paulo Freire e da educação popular libertadora.

    O livro encerra-se com um posfácio reflexivo de Milton Pena Santiago, que propõe uma leitura reconciliadora da história: entre academia e sabedoria popular, entre o Brasil das capitais e o Brasil dos sertões. A Coluna Prestes nos Gerais de Minas é, assim, mais do que um registro histórico — é um exercício de escuta e reparação simbólica. Cada capítulo reafirma que a memória não é ruína, mas construção viva; e que o sertão, longe de ser apenas cenário, é sujeito histórico essencial na formação da nação.

    Com uma linguagem envolvente, acessível e sensível, a obra organizada por Levon Nascimento convida o leitor a revisitar um dos episódios mais fascinantes da história brasileira, unindo rigor científico e emoção narrativa. Em meio ao centenário da Coluna Prestes, o livro surge como um tributo à resistência, à justiça e à esperança — valores que continuam atravessando os Gerais de Minas e inspirando novas gerações de leitores, educadores e sonhadores.

  • Prestação de Contas: Governo Lula leva desenvolvimento e inclusão a Taiobeiras

    Prestação de Contas: Governo Lula leva desenvolvimento e inclusão a Taiobeiras

    Contra dados e fatos não há argumentos.Veja o que Lula já investiu em Taiobeiras em seu 3º mandato.
    Por Levon Nascimento

    O Governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem garantido, desde 2023, uma série de investimentos que fortalecem o desenvolvimento econômico e social de Taiobeiras (MG). Em apenas dois anos, o município recebeu mais de R$ 196 milhões em transferências diretas do governo federal — sendo R$ 99,4 milhões em 2024 e R$ 96,7 milhões em 2023 — valores aplicados em obras, programas sociais, saúde, habitação, cultura e agricultura.

    Na área social, o Bolsa Família é um dos pilares do apoio às famílias de baixa renda: 3.929 famílias taiobeirenses são beneficiadas, com média de R$ 656,99 mensais, e 86,49% delas são chefiadas por mulheres. Esse dado reforça a política de inclusão e combate à pobreza liderada pelo governo federal.

    Na saúde, o impacto é igualmente expressivo. O Mais Médicos conta hoje com 16 profissionais atuando no município, ampliando o acesso da população à atenção básica. O Brasil Sorridente mantém uma equipe de saúde bucal e um Centro de Especialidades Odontológicas custeado pelo governo federal. Além disso, o governo Lula garantiu R$ 6,39 milhões em repasses para o cumprimento do piso nacional da enfermagem, assegurando valorização e estabilidade aos profissionais da área. Pela Farmácia Popular, 3.043 pessoas foram atendidas em 2024, a maior parte com medicamentos gratuitos.

    A cultura também foi valorizada: Taiobeiras recebeu R$ 324 mil pela Lei Paulo Gustavo e R$ 263 mil pela Lei Aldir Blanc, destinados ao fomento de iniciativas culturais locais e à valorização de artistas da região.

    No campo, o incentivo à produção rural tem fortalecido tanto o agronegócio quanto a agricultura familiar. Em 2024, o Plano Safra garantiu 18 contratos de crédito que somaram R$ 5,7 milhões, enquanto o Pronaf firmou 326 contratos, totalizando R$ 5,8 milhões, beneficiando centenas de pequenos produtores e famílias agricultoras.

    A habitação também avançou: o programa Minha Casa, Minha Vida assegurou 128 moradias populares, com R$ 13,2 milhões investidos, e mais dois novos empreendimentos já selecionados atenderão 71 famílias de baixa renda, reforçando o direito à moradia digna.

    Esses resultados demonstram que Taiobeiras tem recebido atenção constante e concreta do Governo Federal. As ações coordenadas entre os ministérios e programas estratégicos reafirmam o compromisso do presidente Lula com o desenvolvimento regional, a justiça social e a melhoria da vida dos brasileiros — uma gestão marcada por competência, diálogo e capacidade de reconstruir o país com foco nas pessoas.

    Fonte: Secretaria de Comunicação da Presidência da República.

    Leia também: Dilexi te: o que a primeira exortação do Papa Leão XIV tem a dizer a Taiobeiras?

  • Dilexi te: o que a primeira exortação do Papa Leão XIV tem a dizer a Taiobeiras?

    Dilexi te: o que a primeira exortação do Papa Leão XIV tem a dizer a Taiobeiras?

    Por Levon Nascimento

    A exortação apostólica Dilexi te, do Papa Leão XIV, publicada em 4 de outubro de 2025, é um manifesto espiritual e social sobre o amor para com os pobres. O texto nasce como continuidade da encíclica Dilexit nos, de Francisco, e como herança de sua preocupação pastoral pelos marginalizados. Leão XIV abre seu pontificado convocando a Igreja a reencontrar, nos pobres, o rosto vivo de Cristo. O documento denuncia a cultura do descarte, o mito da meritocracia e o conformismo religioso que esquece o Evangelho vivido como serviço. O amor, recorda o Papa, não é abstração moral, mas compromisso histórico — é o verbo que faz Deus descer à sarça ardente dos sofrimentos humanos.

    O plano de trabalho da Dilexi te pode ser compreendido em três eixos principais. O primeiro é teológico: Deus escolhe os pobres não por ideologia, mas porque o amor divino se revela onde há dor, exclusão e clamor. O segundo é eclesial: a Igreja deve ser pobre e para os pobres, seguindo o exemplo de São Lourenço e São Francisco de Assis. O terceiro é prático e cultural: a opção pelos pobres implica educação libertadora, cuidado com os doentes e compromisso com as novas escravidões contemporâneas — do consumo, do individualismo e das desigualdades.

    Para Leão XIV, amar é ver, cuidar, perdoar e construir. Amar é ver — e, portanto, enxergar os invisíveis, os desfigurados pelas estatísticas e pelos rótulos. Amar é cuidar — não como quem faz beneficência, mas como quem reconhece o outro como parte de si. Amar é perdoar — em tempos de polarização, redescobrir a ternura como força política. E amar é construir — porque a caridade cristã, quando autêntica, não consola apenas: transforma estruturas e mentalidades. O Papa escreve com vigor: “Não estamos no horizonte da beneficência, mas no da Revelação” — ou seja, Deus fala por meio dos pobres.

    E o que essa exortação tem a dizer a Taiobeiras? Antes de tudo, que o desenvolvimento sem compaixão é vazio. A cidade, entre avanços e desigualdades, vive o paradoxo de se orgulhar do empreendedorismo enquanto muitos sobrevivem na informalidade e na carência de serviços essenciais. Dilexi te confronta diretamente esse modelo: o progresso autêntico é aquele que não exclui. A meritocracia, lembra Leão XIV, é “uma falsa visão segundo a qual só têm mérito os que tiveram sucesso na vida”. Em Taiobeiras, essa crítica ressoa no cotidiano: enquanto alguns exibem conquistas, outros carregam invisibilidades que o discurso da “terra dos vencedores” prefere ignorar.

    O Papa propõe um antídoto: o amor concreto, que se traduz em políticas públicas, justiça social e cultura do cuidado. Se o cristianismo local quiser ser fiel ao Evangelho, deve olhar para os pobres como protagonistas da história, não como destinatários de campanhas sazonais. Amar, aqui, significa reconhecer a dignidade dos agricultores familiares, das mulheres trabalhadoras, dos jovens sem oportunidades. É perceber que o rosto de Cristo está nas filas do hospital, nos bairros sem saneamento, nos professores que persistem sem estrutura.

    Dilexi te também convida Taiobeiras a revisar suas referências. Como os monges que uniam oração e trabalho, a cidade precisa integrar espiritualidade e ação social, fé e responsabilidade pública. Ser “cidade empreendedora” deve significar criar oportunidades solidárias, fortalecer cooperações, garantir educação libertadora e promover o bem comum. É tempo de superar o individualismo competitivo e reencantar o sentido de comunidade.

    Em última instância, Dilexi te é um chamado a amar de modo civilizatório. Para Taiobeiras, isso significa transformar o amor em política de vida: educar com ternura, administrar com empatia, crescer sem deixar ninguém para trás. O Papa Leão XIV fala à cidade com a clareza dos profetas: a fé que não toca a carne dos pobres é sombra, não luz. Amar — diz o título da exortação — é o verbo que sustenta a esperança. Que Taiobeiras, redescobrindo esse amor, encontre o caminho entre o que já avançou e o que ainda falta nascer.

  • Livro: A Coluna Prestes nos Gerais de Minas

    Livro: A Coluna Prestes nos Gerais de Minas

    TAIOBEIRAS, MG – No centenário da passagem da Coluna Prestes pelo Norte de Minas Gerais, será lançado em abril de 2026 o livro “A Coluna Prestes nos Gerais de Minas”, organizado pelo professor e historiador Levon Nascimento. A obra reúne artigos de pesquisadores, educadores e militantes que revisitam a histórica marcha liderada por Luiz Carlos Prestes, com foco especial na região do Alto Rio Pardo mineiro.

    📘 Sobre a Obra

    O livro é uma coletânea de textos que abordam desde a trajetória da Coluna Prestes (1924–1927) até seus desdobramentos políticos, sociais e culturais na região norte-mineira. A publicação conta com a colaboração dos seguintes autores:

    Levon Nascimento (organizador)
    Fabiano Alves Pereira
    Joandina Maria de Carvalho
    Leleco Pimentel
    Lídio Barreto Filho
    Luiz Eduardo de Souza Pinto
    Márcia Sant’Ana Lima Barreto
    Maria de Fátima Magalhães Mariani
    Milton Pena Santiago
    Mônica Rodrigues Teixeira
    Padre João Carlos Siqueira
    Pedro Abder Nunes Raim Ramos
    Sidney Batista Azevedo
    Silvânia Aparecida de Freitas
    Vladimir Mendes Patrício

    🧠 Destaques do Conteúdo

    • Capítulo 1: A passagem da Coluna pelo Norte de Minas Gerais, com ênfase em Taiobeiras e a estratégia do “Laço Húngaro”.
    • Capítulo 2: Trajetória de Luiz Carlos Prestes, do tenentismo ao comunismo.
    • Capítulo 3: Origens do tenentismo e o contexto político da Primeira República.
    • Capítulo 4: A marcha de 25 mil km e seu significado histórico.
    • Capítulo 5: A Coluna Prestes em Minas Gerais.
    • Capítulo 6: Memórias e representações na Bahia fronteiriça.
    • Capítulo 7: O legado de Prestes para a educação e as lutas trabalhistas.
    • Capítulo 8: A visão do povo sobre os “revoltosos”.

    🗺️ Contexto Histórico

    Em abril de 1926, a Coluna Prestes adentrou o território mineiro pela região do Alto Rio Pardo, onde executou a famosa manobra do “Laço Húngaro” para escapar do cerco das tropas legalistas. O livro recupera memórias locais, relatos orais e documentos históricos que revelam tanto o medo quanto a esperança despertados pela passagem dos revoltosos.

    🎯 Objetivo da Publicação

    Além de celebrar o centenário da passagem da Coluna, a obra busca:

    • Valorizar a memória regional e a identidade geraizeira.
    • Difundir pesquisas inéditas sobre o tema.
    • Estimular o debate sobre justiça social, democracia e resistência.
    • Servir como material educativo para escolas e comunidades.

    📅 Lançamento

    O livro será lançado em abril de 2026, com eventos presenciais em Taiobeiras/MG e outras cidades da região, além de divulgação nacional por meio de parceiros editoriais e institucionais.

    📧 Contato para Imprensa e Divulgação

    Levon Nascimento
    Organizador da obra
    E-mail: levon.nascimento@educacao.mg.gov.br
    WhatsApp: (38) 9 9202-9044

    “A Coluna Prestes nos Gerais de Minas” não é apenas um livro de história. É um convite para revisitar o passado com os pés no presente e os olhos no futuro.

    📖 Preparem-se para mergulhar em uma das epopeias mais fascinantes da história brasileira.

    Participe do apoio coletivo para a publicação do livro A COLUNA PRESTES NOS GERAIS DE MINAS, participando da vakinha virtual. Clique neste link: https://www.vakinha.com.br/vaquinha/apoio-para-publicar-o-livro-a-coluna-prestes-nos-gerais-de-minas

  • A falta que nos faz o Papa Francisco diante do genocídio em Gaza

    A falta que nos faz o Papa Francisco diante do genocídio em Gaza

    Por Levon Nascimento

    Há momentos na história em que uma voz se torna maior do que qualquer cargo ou instituição. Durante o papado de Francisco, essa voz se ergueu como um clamor contra as guerras, um chamado insistente para que o mundo não se acostumasse ao sofrimento humano. Ele não apenas discursava; telefonava, chamava pelo nome, dizia “não tenham medo”. E é justamente essa presença, terna e firme, que hoje nos falta diante da brutalidade que se desenrola em Gaza. O genocídio em curso, negado por uns e silenciado por outros, expõe a ferida mais profunda da humanidade: a capacidade de justificar a morte em massa em nome da segurança, da política ou da vingança.

    Francisco, mesmo debilitado pela bronquite que o acompanhou até seus últimos dias, ousava sonhar com uma visita a Gaza. Não por protagonismo, mas porque compreendia o peso simbólico de estar ao lado dos que sofrem. Sua ausência deixa um vazio não apenas religioso, mas profundamente humano. É duro constatar que, sem ele, a Santa Sé volta a se esconder atrás de comunicados cautelosos, evitando palavras como “genocídio”, como se a clareza pudesse ferir a neutralidade. Mas neutralidade diante da morte não é virtude, é cumplicidade.

    As manifestações que marcaram seu papado não foram apenas rituais. Ele esteve ao lado dos migrantes afogados no Mediterrâneo, denunciou a guerra na Síria, chorou pelas crianças da Ucrânia. Nunca aceitou que a violência fosse normalizada como parte do jogo geopolítico. É por isso que sua falta dói tanto agora: porque sabemos que ele não hesitaria em dizer que Gaza é um escândalo moral, um crime contra a humanidade. Para Francisco, paz não era apenas ausência de guerra, mas presença de justiça.

    Se estivesse vivo, Francisco provavelmente faria o que sempre fez: ligaria para um padre em Gaza, perguntaria pelos nomes das crianças, pediria que não perdessem a esperança. Pequenos gestos que, na verdade, são gigantescos, porque humanizam o que a guerra desumaniza. Ele sabia que a compaixão concreta é mais poderosa do que qualquer discurso diplomático. E diante da ofensiva terrestre israelense e do apagão das comunicações, o que falta é justamente alguém que nos lembre que, por trás das trincheiras, estão famílias como as nossas, mães como as nossas, crianças que poderiam ser nossos filhos.

    Hoje, mais do que nunca, sentimos a falta desse pastor que ousou ser humano em um mundo desumanizado. O genocídio em Gaza não pede apenas relatórios e resoluções: pede lágrimas, coragem e ação. Que a memória de Francisco nos incomode, nos mova e nos faça compreender que a fé — e também a humanidade — se mede pelo lado em que escolhemos estar quando a vida é esmagada.

  • Anistia nunca mais: por que o Brasil não pode perdoar golpistas que querem implantar a ditadura de novo

    Anistia nunca mais: por que o Brasil não pode perdoar golpistas que querem implantar a ditadura de novo

    A Lei da Anistia de 1979, apesar de suas graves limitações — como o perdão aos torturadores e ditadores —, teve um papel histórico: permitiu a incorporação dos que lutavam contra o regime militar à vida política e abriu caminho para a redemocratização. Foi nesse processo que emergiram lideranças como Ulysses Guimarães, Lula, Dilma Rousseff, Fernando Henrique Cardoso, Brizola e Luiz Carlos Prestes, culminando na eleição indireta de Tancredo Neves. A anistia, naquele contexto, funcionou como uma ponte para a democracia.

    O cenário atual é muito diferente. Vivemos em plena democracia e, por isso, propor anistia para os envolvidos na tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 não significaria reconciliação, mas sim impunidade. Diferentemente de 1979, não há um regime autoritário a ser superado. O que existe é uma tentativa frustrada de destruir o Estado democrático de direito. Conceder perdão a extremistas de direita seria um convite para novos atentados contra as instituições.

    A história mostra que a indulgência com golpistas nunca ensinou a lição necessária. Juscelino Kubitschek, por exemplo, concedeu anistia a militares que tentaram derrubá-lo em sucessivas conspirações. O resultado foi que eles continuaram tramando até conseguirem, em 1964, instalar uma ditadura que perseguiu, torturou e matou opositores. A lógica é clara: quando golpistas percebem que não serão punidos, voltam a agir com ainda mais ousadia.

    O voto recente do ministro Alexandre de Moraes no Supremo Tribunal Federal foi exemplar. Em exposição firme e didática, ele demonstrou que os crimes de 8 de janeiro foram uma tentativa organizada de golpe de Estado, com ataques ao Congresso, ao STF e ao Palácio do Planalto. Não se tratou de “pichação” ou “protesto pacífico”, mas de uma ofensiva coordenada para romper a ordem constitucional. Julgar e punir esses crimes não é vingança: é defesa da democracia.

    É a primeira vez que a Justiça brasileira enfrenta golpistas com verdadeiro rigor. Que isso sirva de lição. Perdoar novamente, como em tantos episódios do passado, seria repetir os erros que custaram caro ao país. O Brasil precisa mostrar que democracia não é negociável: quem tenta destruí-la deve responder por seus atos, sem atalhos, sem anistia e sem impunidade.

  • Anistia agora mata a democracia e pode matar você no futuro

    Anistia agora mata a democracia e pode matar você no futuro

    A anistia em questão refere-se a um projeto de lei em debate no Congresso Nacional que busca perdoar investigados, processados e condenados por participação na tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023 — incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro, militares, financiadores, articuladores e fomentadores da ruptura democrática e instalação de uma ditadura liderada pela extrema-direita. A proposta não é apenas uma medida jurídica, mas um gesto político que visa resgatar a elegibilidade de Bolsonaro e aliviar a situação dos réus e condenados que atentaram recentemente contra a democracia no Brasil.

    Esse movimento ganha fôlego dentro do PL e do Centrão, com líderes como Sóstenes Cavalcante e o governador paulista Tarcísio de Freitas articulando um texto que abarca crimes contra a democracia, desinformação e manifestações violentas, ampliando o alcance da anistia. Trata-se de uma manobra para apagar as consequências jurídicas do maior ataque institucional desde a redemocratização, recolocando o ex-presidente no jogo eleitoral e alimentando o discurso mentiroso de perseguição de seus apoiadores.

    O histórico do processo mostra que a tentativa de golpe foi estruturada de forma minuciosa. O chamado “Punhal Verde-Amarelo”, revelado pela Polícia Federal, configurava plano militar para depor o STF e assassinar Alexandre de Moraes, Alckmin e Lula. Quem mais seria assassinado depois? É fácil imaginar. Indiciamentos, confissões e documentos comprobatórios já foram reunidos nos autos que tramitam no Supremo Tribunal Federal, reforçando a gravidade da ação criminosa. Não se tratou de uma manifestação espontânea, mas de uma conspiração golpista organizada para implantar um novo regime de terror no país.

    No plano jurídico, especialistas e ministros do STF têm sido taxativos: não há respaldo constitucional para anistiar crimes contra a ordem democrática, uma vez que a democracia é cláusula pétrea da Constituição Federal. Alexandre de Moraes já declarou considerar inconstitucional qualquer projeto desse tipo, e juristas como o advogado Kakay reforçam que a proposta carece de fundamento legal. Portanto, o perdão político pretendido colide diretamente com a própria essência do Estado de Direito.

    No campo político, a articulação da anistia recebeu críticas até de veículos de comunicação tradicionalmente conservadores. O Estadão qualificou como “pornográfico” o acordo no Congresso para salvar os golpistas, enquanto O Globo criticou o governador Tarcísio de Freitas por articular a medida, colocando-o como cúmplice de uma pauta antidemocrática. O Brasil 247, por sua vez, classificou a iniciativa como fruto da “escória do Congresso Nacional”, denunciando sua essência fisiológica e oportunista.

    A própria comunidade jurídica reforça que não há espaço para absolvição nesse caso. Como lembrou o advogado Fernando Fernandes, as provas reunidas — muitas delas confissões explícitas — tornam impossível a defesa dos acusados. Se o projeto prosperar, não se estará promovendo justiça, mas apenas decretando a impunidade de quem atentou contra o regime democrático e autorizando-os a matar milhões de brasileiros que não pensam como a extrema-direita.

    Minha posição é clara: sou radicalmente contra a anistia a réus por tentativa de golpe de Estado no Brasil. Conceder perdão legal a quem atentou contra as instituições democráticas, por conveniência ou ganho político, equivaleria a legitimar a violência política e enfraquecer a própria democracia. Reconciliação nacional não se faz com impunidade, mas com responsabilização. O Brasil precisa consolidar o respeito às regras constitucionais e não abrir precedentes para que novos golpes sejam ensaiados sob a promessa de esquecimento futuro.

  • A Coluna Prestes no Norte de Minas: entre o mito e a realidade

    A Coluna Prestes no Norte de Minas: entre o mito e a realidade

    Em 1926, o Norte de Minas Gerais foi palco de um episódio marcante da história brasileira: a passagem da Coluna Prestes. Liderados por Luiz Carlos Prestes, um grupo de jovens militares idealistas percorria o país combatendo o governo oligárquico da época, defendendo bandeiras como o voto secreto e a moralização política. Sua incursão de dez dias pela região (19 a 29 de abril) revelou o abismo entre o Brasil urbano e a realidade do sertão.

    Apesar de serem os “revoltosos”, a maior violência partiu das próprias tropas do governo, os chamados “legalistas”. Financiadas pelo poder federal, milícias comandadas por coronéis como Horácio de Matos agiam com brutalidade, saqueando cidades, extorquindo civis e espalhando um rastro de terror. Para a população local, era difícil distinguir quem era quem, e o medo das represálias oficiais muitas vezes era maior do que o medo da própria Coluna.

    A estratégia militar de Prestes foi brilhante. Encurralado por forças superiores em Serra Nova, município de Rio Pardo de Minas, ele executou a famosa manobra do “Laço Húngaro”, uma série de movimentos circulares que confundiu completamente os perseguidores. Essa astúcia permitiu que a Coluna escapasse do cerco e continuasse sua marcha, demonstrando superioridade tática mesmo estando em menor número e com menos recursos.

    Um dos episódios mais simbólicos dessa passagem ocorreu em Taiobeiras (26/04/1926). Enquanto a maioria da população fugiu para o mato, o comerciante João Rêgo decidiu ficar e negociar. Ele recebeu os soldados da Coluna, abriu seu armazém e lhes forneceu suprimentos. Em um gesto de surpreendente honra, Luiz Carlos Prestes lhe pagou, deixando para trás uma bota cheia de moedas. Esse caso mostra que a iniciativa e a coragem local podiam mitigar a violência do conflito.

    A experiência no sertão mineiro foi um choque para os jovens tenentes de formação urbana. O contato direto com a miséria extrema e a estrutura de poder dos coronéis fez Prestes questionar suas convicções liberais. Aquele idealismo mostrou-se insuficiente para resolver os problemas profundos do Brasil rural, acelerando um processo de radicalização que mais tarde o levaria ao comunismo.

    A memória que ficou na região é um trauma duplo. Não foi apenas a passagem rápida dos rebeldes, mas a violência sistemática e predatória das tropas legalistas, que agiam em nome do Estado, que deixou marcas profundas na população. O episódio ficou na história local como um momento de medo, mas também de resistência e astúcia.

    Por fim, a passagem da Coluna Prestes pelo Norte de Minas é mais que uma simples nota de rodapé histórica. Ela simboliza o encontro (e desencontro) entre dois Brasis e foi decisiva para a transformação ideológica de seu principal líder, mostrando que a realidade do sertão pode ser a mais poderosa professora de política.

    Em breve, o livro: OS REVOLTOSOS PELO NORTE DE MINAS GERAIS: CENTENÁRIO DA COLUNA PRESTES (1926-2026). Um século depois, a história dos chamados “revoltosos” volta a ganhar voz! Organizado por Levon Nascimento, o livro reúne pesquisadores e guardiões da memória sertaneja para revisitar a passagem da Coluna Prestes pelo Norte de Minas — um episódio que mexeu com comunidades inteiras, entre medos, estratégias militares e lembranças que atravessaram gerações. Autores: Fabiano Alves Pereira · Joandina Maria de Carvalho · Leleco Pimentel · Levon Nascimento · Lídio Barreto Filho · Luiz Eduardo de Souza Pinto · Márcia Sant’Ana Lima Barreto · Maria de Fátima M. Mariani · Milton Pena Santiago · Monica Rodrigues Teixeira · Padre João Carlos Siqueira · Pedro Abder Nunes Raim Ramos · Sidney Batista Azevedo · Silvânia Aparecida de Freitas · Vladimir Mendes Patrício. Uma obra que mistura história, memória e emoção, trazendo à tona episódios que marcaram Taiobeiras e toda a região do Alto Rio Pardo. Falta pouco para esse encontro entre o sertão e a história do Brasil. Prepare-se para caminhar novamente com a Coluna Prestes — agora pelas páginas deste livro.

  • Pequenos corpos, grandes riscos: por que regular as redes já?

    Pequenos corpos, grandes riscos: por que regular as redes já?

    O influenciador Felca expôs como perfis com crianças sexualizadas lucram no TikTok e em outras redes da internet, denunciando um problema grave: a adultização infantil. Mas antes disso, a própria primeira-dama Janja já havia alertado sobre a necessidade de regular a plataforma, em conversa com autoridades da China. O motivo é simples: não é seguro.

    Adultização vai além da erotização precoce. Inclui exploração laboral disfarçada de “influenciador mirim”, exposição emocional cruel e uso da intimidade como mercadoria. 93% das crianças e adolescentes brasileiros estão online — são 24,5 milhões de vidas vulneráveis aos algoritmos que premiam o extremo.

    Fotos inocentes viram combustível para redes criminosas. Crises infantis se tornam “conteúdo”. Estudos mostram que adolescentes com +3h/dia em redes têm 60% mais risco de depressão. E políticos que deveriam proteger a infância preferem travar a regulação — para continuar usando essas mesmas redes como fábrica de discurso de ódio.

    O PL 2.628/2022 é um passo urgente: idade mínima para redes, verificação robusta, punição financeira para plataformas que lucram com a violação da infância. Outros países já avançaram: Austrália e União Europeia restringem acesso para menores de 16.

    Proteger a infância não é censura, é dever. Não se trata de impedir que pais postem fotos do aniversário dos filhos, mas de evitar que essa imagem seja explorada por criminosos. Não é liberdade lucrar com a inocência violada. É crueldade.

    Hoje, nossas crianças não estão brincando no quintal — estão expostas numa vitrine global, aberta 24 horas por dia para quem pagar por atenção. E a cada dia sem ação, fechamos mais um olho e deixamos que o outro seja vendido ao algoritmo.

    Referências
    CETIC.br. TIC Kids Online Brasil 2024: principais resultados. São Paulo: Cetic.br/NIC.br, 2025. Disponível em: https://cetic.br/media/analises/tic_kids_online_brasil_2024_principais_resultados.pdf. Acesso em: 15 ago. 2025.
    CETIC.br. TIC Kids Online Brasil 2024 (livro eletrônico). São Paulo: Cetic.br/NIC.br, 2025. Disponível em: https://cetic.br/media/docs/publicacoes/2/20250512154312/tic_kids_online_2024_livro_eletronico.pdf. Acesso em: 15 ago. 2025.
    BRASIL. Senado Federal. Projeto de Lei n.º 2.628, de 2022. Brasília, DF. Disponível em: https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/154901. Acesso em: 15 ago. 2025.
    CÂMARA DOS DEPUTADOS. Denúncia sobre uso indevido de imagens de crianças motiva 32 projetos na Câmara. Brasília, DF, 12 ago. 2025. Disponível em: https://www.camara.leg.br/noticias/1187375-denuncia-sobre-uso-indevido-de-imagens-de-criancas-motiva-32-projetos-na-camara-dos-deputados/. Acesso em: 15 ago. 2025.
    EXAME. Janja defende sua fala na China sobre TikTok: “Não há protocolo que me faça calar”. São Paulo, 19 maio 2025. Disponível em: https://exame.com/brasil/janja-defende-sua-fala-na-china-sobre-tiktok-nao-ha-protocolo-que-me-faca-calar/. Acesso em: 15 ago. 2025.
    CORREIO BRAZILIENSE. “Não há protocolo que me faça calar”, diz Janja sobre fala a Xi Jinping. Brasília, DF, 19 maio 2025. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2025/05/7150331-nao-ha-protocolo-que-me-faca-calar-diz-janja-sobre-fala-a-xi-jinping.html. Acesso em: 15 ago. 2025.
    REUTERS. Australia widens teen social media ban to YouTube, scraps exemption. Sydney, 30 jul. 2025. Disponível em: https://www.reuters.com/legal/litigation/australia-widens-teen-social-media-ban-youtube-scraps-exemption-2025-07-29/. Acesso em: 15 ago. 2025.
    EUROPEAN COMMISSION. Are there any specific safeguards for data about children? Bruxelas, s.d. Disponível em: https://commission.europa.eu/law/law-topic/data-protection/rules-business-and-organisations/legal-grounds-processing-data/are-there-any-specific-safeguards-data-about-children_pt. Acesso em: 15 ago. 2025.
    FORBES BRASIL. Adolescência: o perigo invisível das redes sociais para os jovens. 23 abr. 2025. Disponível em: https://forbes.com.br/forbes-tech/2025/04/adolescencia-o-perigo-invisivel-das-redes-sociais-para-os-jovens/. Acesso em: 15 ago. 2025.

  • O “Perigo Social” que atingiu Laudemir, o gari

    O “Perigo Social” que atingiu Laudemir, o gari

    A jornalista Lais Gouveia, com bisturi afiado, nos apresentou o retrato falado de uma criatura que prolifera no Brasil como dengue em água parada: o fubango de autoestima inflada e valores morais murchos. Não é apenas uma figura folclórica ou uma aberração de reality show. É a engrenagem humana de um projeto socialmente letal, fundado na arrogância da aparência, na exclusão meticulosa e na violência — tanto a que se disfarça em “opinião” quanto a que mata de fato. Foi assim que o gari Laudemir de Souza Fernandes, de 44 anos, trabalhador, pai, cidadão, acabou morto em Belo Horizonte, enquanto o suspeito de matá-lo seguiu para a academia, porque, afinal, bíceps não se fazem sozinhos.

    Começa pelo prato principal dessa dieta mental: “anabolizante com batata doce”. Leitura, nem pensar, um veneno! Não é só nutrição; é liturgia. O corpo como altar e arma, o culto à hipertrofia como substituto de caráter. “No pain, no game”, berra diante do espelho, ignorando que a dor que importa é a dos outros — invisível, descartável ou, na melhor das hipóteses, motivo de piada. O corpo é a blindagem e o atestado de “superioridade natural” do que se acha a viver num jogo de seleção artificial.

    O figurino desse espécime é um desfile de pretensão barata: “duas horas na fila da Disney com moletom da Tommy Hilfiger”. Aqui, consumo não é prazer; é hierarquia. Cada marca é uma cerca elétrica invisível separando “gente de bem” da “gentalha que estraga o glamour dos aeroportos”. Glamour, claro, entendido como apartheid social — aquele em que pobre é tolerado como funcionário, nunca como passageiro. Laudemir não foi vítima apenas de um crime; foi vítima de uma lógica que elimina fisicamente quem ousa existir fora do lugar designado.

    A fé, quando existe, é um fast-food espiritual: “café com Deus Pai” e “frases motivacionais do André Valadão”. É a versão gospel do coaching, onde Deus é personal trainer da sua conta bancária e a pobreza é vista como erro estratégico de quem “não correu atrás”. A teologia da prosperidade aqui serve de cimento para a moral do esgoto: direitos humanos são só para “humanos direitos”, ou seja, clones do próprio fubango.

    E há, por baixo de toda essa pose, a mais patética das couraças: a síndrome de vira-lata. É o sujeito que ostenta a bandeira dos Estados Unidos na camiseta, mas acha cafona a brasilidade. Camisa da seleção brasileira só como uniforme da guerra cultural de extrema-direita. Que fala mal do próprio país como quem comenta o tempo — automático, preguiçoso —, e se refere à cultura nacional como coisa menor, “brega”, “pobre”, “inadequada”. Que só respeita lei, arte e soberania quando vêm carimbadas com selo de importação. E, ironicamente, é capaz de matar um brasileiro para provar a si mesmo que pertence a um clube que jamais o aceitará como membro legítimo.

    Na playlist cultural, uma sinfonia do vazio: “foto do braço no volante ao som de Gusttavo Lima”. É a ostentação pasteurizada, a vida filtrada em Instagram Stories, o volante como cetro de um reinado imaginário. Botox aos litros, placas dentárias que refletem o sol e um vocabulário que não resiste a dois parágrafos sem o “Você sabe com quem está falando?”. Quando a máscara escorrega e o privilégio é ameaçado, o fubango responde com esse SOS aristocrático, denunciando a crença mais íntima: existem vidas que valem menos que um treino de tríceps.

    E é aqui que a coisa deixa de ser caricatura e vira protocolo de guerra social. O fubango não é um acidente isolado; é um manual vivo de desumanização. Ele circula nas academias, nos aeroportos, nas timelines e, o que é mais preocupante, nas urnas. Alimenta e é alimentado por um Brasil que confunde força com virtude e confere imunidade moral a quem ostenta o pacote completo: bíceps, marca, desprezo e complexo de inferioridade cultural.

    Por isso, reconhecer e nomear esse arquétipo é mais que sátira: é medida de segurança pública. Atrás do moletom da Tommy, da frase motivacional, da bandeira estrangeira no peito e do sorriso de porcelana, há sempre o risco do soco, do tiro ou da indiferença que mata. E quando ele perguntar, com o peito estufado e o maxilar travado, “Você sabe com quem está falando?”, a única resposta possível é clara, seca e sem reverência: “Sim. Com um perigo social.”