O Evangelho da Transfiguração do Senhor (cf. Lucas 9,28b-36), meditado no 2º domingo da Quaresma deste ano, permite fazer uma reflexão menos racionalista dos mistérios divinos, sem dirigir para um sentimentalismo estéril ou para uma alienação religiosa primária.A Transfiguração do Senhor no Monte Tabor, com toda aquela luminosidade irradiante e alocução de uma voz transcendente que provém da nuvem, aponta para a valorização da mística, inerente ao mistério cristão. Mística tão esquecida nas práticas burocráticas de nossas vidas paroquiais e nos rituais litúrgicos congêneres. Mística tão excessivamente abusada em “teologias” populistas de pouco fôlego e de muito barulho, achegadas a uma pirotecnia da fé.
Não, a transfiguração não é pretexto para pregações milagreiras ou devotadas ao mundo mágico dos mitos, das curas e das pretensas “libertações”. A irradiante luz que alvejou as roupas do Senhor não apontavam, em nenhum instante sequer, para uma vivência da fé de maneira individualista, nem para a conformação com os problemas do mundo, à espera de um reino meramente pós-morte. Ao contrário, quando os apóstolos quiseram ali ficar, levantando tendas para melhor se aconchegarem àquele momento de sutil tranquilidade espiritual, o Senhor novamente lhes deu a missão de descerem e não contarem o que viram até a sua Ressurreição gloriosa (vitória sobre o mundo e sobre a morte). Em outras palavras, Jesus ordena manter a fé na verdade vista e escutada no Monte Tabor, no segredo do coração, porém com os pés bem fincados no sopé do monte, na planície da vida, no vale dos enfrentamentos humanos.
A transfiguração vista pelos apóstolos abriu-lhes os olhos da fé. Fez com que ao avistarem as realidades celestes, preparassem o coração e a mente para as realidades terrestres. Não os fez se conformarem. Não lhes tornou egoístas a ponto de ficarem com a impressão daquele momento apenas para si. Impulsionou-os a descer e a viver aquela transfiguração no relacionamento com os demais irmãos e irmãs, sem que houvesse a necessidade de verbalizar tudo o que experimentaram naquele instante.
A fé, ao contrário do que alguns dizem, quando não é alienada e conformista, torna-se força motriz dos fieis para a transfiguração do mundo, para a transformação dos corações, para edificação do Reino de Deus no universo tangível aos nossos sentidos, abrindo caminho para o intangível. Enxergar com os olhos da fé não significa apagar os erros de nossa humanidade transgressora. Qualifica-nos para o exercício da correção mútua e fraterna.
Desçamos do monte. Caminhemos com o Senhor na História dos homens… até a Ressurreição.
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