por Levon Nascimento
Por décadas, Taiobeiras aprendeu a se ver pelas sombras que tremulam na parede. Alimentada por frases de efeito como “terra dos vencedores” e “cidade empreendedora”, foi se acostumando a confundir brilho com luz, movimento com progresso, aparência com verdade. A alegoria da caverna de Platão, escrita há mais de dois mil anos, nunca fez tanto sentido: enquanto muitos se encantam com as imagens cuidadosamente produzidas para as redes sociais, para as campanhas publicitárias e os eventos de marketing institucional, outros lutam para sair da escuridão — e encaram o desconforto de enxergar aquilo que não querem mostrar.
E o que se vê, quando se olha com coragem, são feridas abertas. Taiobeiras tem sido marcada, há muito tempo, pela hegemonia de grupos conservadores, herdeiros de um ciclo político que atravessa gerações — da UDN à ARENA, do coronelismo às oligarquias mais modernas, sempre com novos nomes, mas velhas práticas. A cultura clientelista, disfarçada de eficiência ou liderança, sufoca a democracia com promessas rasas e favores. É o “joelismo sem Joel”, como me peguei pensando um dia — um sistema que sobrevive à queda de seus próprios líderes, porque mantém intacta a estrutura de poder e de privilégios. E, enquanto isso, quem vive nas margens continua à deriva. A renda se concentra. O debate político empobrece. E o silêncio, muitas vezes, é comprado, cooptado ou simplesmente imposto.
A realidade, contudo, insiste em escapar da maquiagem. Em 2016 e 2017, Taiobeiras esteve entre as cidades mais violentas da região. O número de homicídios cresceu quase 30% em apenas um ano (10° BPMMG, 2017 apud NASCIMENTO, 2018, p. 35). Quem perdeu a vida — ou perdeu um filho — sabe que não se trata de estatística, mas de um luto que se repete. Jovens negros, pobres e periféricos pagaram o preço de uma sociedade de mercado, desumanizada. A herança do autoritarismo fez irradiar a violência.
Foi nesse vácuo que floresceu um novo discurso: o do empreendedorismo redentor. Agora, quem fracassa não é vítima de um sistema injusto, mas de sua própria incompetência. A responsabilidade social virou responsabilidade individual. A pobreza virou culpa. E o sucesso, privilégio travestido de mérito.
Mas a caverna não aprisiona só pela política e pela economia. Ela se estende à cultura, ao meio ambiente, à memória coletiva. Em 2023, o pequizeiro centenário do Cruzeiro — mais que uma árvore, um símbolo de fé e identidade comunitária — foi derrubado por uma motosserra. O gesto, longe de ser apenas técnico ou administrativo, foi brutal em sua simbologia. Revelou um modelo de desenvolvimento que atropela o que não entende, que finge não ouvir os clamores da terra e da gente, e que chama de “progresso” o que, no fundo, é destruição.
Essa prisão simbólica, construída tijolo por tijolo ao longo de décadas, também ajuda a explicar por que ideias autoritárias encontram tanto eco em nossa cidade. Em 2022, quando me perguntaram como Bolsonaro venceu em Taiobeiras, respondi sem hesitar: não foi ruptura, foi continuidade. O conservadorismo daqui não é um acidente. É parte de uma construção histórica, feita de exclusão, de silenciamentos e de valores coloniais que ainda nos atravessam. Vivemos uma cultura em que o “ter” vale mais do que o “ser”, e em que os modos de vida das classes trabalhadoras são engolidos por um modelo de aparência burguesa e solitária. Mesmo na cidade, onde vive mais de 80% da população, falta a prática de solidariedade e organização coletiva que, por vezes, resiste com mais força no campo. Desde os anos 1970, o agronegócio molda não só a economia, mas o imaginário local, concentrando renda e padronizando mentalidades.
Taiobeiras será, de fato, uma cidade empreendedora — no melhor sentido da palavra — quando descobrir que o maior investimento possível é na dignidade de seu povo. O maior lucro, a justiça. O maior feito, a liberdade compartilhada. Romper com as sombras exige coragem, mas é também um gesto de amor. Amor à cidade, às suas histórias escondidas, às vozes caladas, às sementes que ainda resistem no chão. Nenhuma caverna dura para sempre quando há quem se levante, quem questione e, sobretudo, quem escolha caminhar para fora dela. Porque há luz. E ela começa onde termina o medo de ver.
Taiobeiras e a caverna de Platão

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