Mabaço

Por Levon Nascimento

Desde criança, cresci ouvindo uma história curiosa que sempre despertou minha atenção: diziam que meu avô materno, Manoel José do Nascimento, era mabaço de seu irmão Manoel João do Nascimento. Baianos do sudoeste da Bahia, quase na divisa com o Norte de Minas Gerais, usavam – e ainda usam – essa palavra peculiar para dizer algo simples e poderoso: gêmeo. O que parecia apenas um regionalismo pitoresco escondia, na verdade, uma herança histórica profunda.

“Mabaço” não nasceu ali, nem por acaso. A palavra vem do quimbundo, idioma africano falado no antigo Reino do Ndongo, na região que hoje corresponde a parte de Angola. Durante o período colonial, o quimbundo ganhou enorme relevância, sobretudo por sua presença em Luanda, centro político e econômico da colônia. Essa centralidade fez com que muitos termos do quimbundo fossem incorporados ao português falado em Angola.

Com o tráfico de pessoas escravizadas, essas palavras atravessaram o Atlântico junto com histórias, saberes e modos de nomear o mundo. No Brasil, sobreviveram no vocabulário cotidiano, especialmente em regiões marcadas pela forte presença africana. Assim, quando alguém no interior da Bahia diz que dois irmãos são “mabaços”, não está apenas usando uma palavra antiga: está, sem saber, preservando um fragmento vivo da história africana no português brasileiro.

O que parecia apenas uma lembrança de família revela-se, portanto, um elo linguístico entre continentes, tempos e identidades – prova de que a língua guarda memórias que nem sempre percebemos, mas que continuam a falar por nós.


Descubra mais sobre Professor Levon Nascimento

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Comentários

Deixe um comentário