Listagens de “maiores déspotas e genocidas da história” costumam chocar – e devem chocar. Mas também revelam algo menos evidente: os critérios e os filtros de quem classifica. Ao percorrê-las, salta aos olhos a recorrência de líderes asiáticos, africanos e do antigo bloco socialista, enquanto Europa Ocidental e Américas aparecem de modo residual. A pergunta que se impõe não é defensiva, mas crítica: o mal político é absoluto ou sua classificação é atravessada por vieses históricos, jurídicos e ideológicos?
Não se trata de negar os fatos. Regimes como os de Hitler, Stalin, Mao Tsé-Tung, Pol Pot ou Leopoldo II produziram mortes em massa amplamente documentadas, muitas vezes por políticas estatais explícitas de extermínio, fome induzida e terror sistemático. Esses casos se tornaram paradigmas do genocídio “clássico” porque concentraram poder em figuras identificáveis e deixaram registros administrativos claros. A historiografia não os relativiza – e não deve relativizá-los. O problema emerge quando esse paradigma se torna a régua única do horror histórico.
A violência praticada pelo Ocidente liberal – Espanha, Portugal e Inglaterra, anteriormente; Estados Unidos, na atualidade –, raramente se encaixa nesse molde personalista. Ela foi (e é), em grande medida, estrutural, difusa e prolongada: colonização, escravidão atlântica, extermínio indígena, guerras imperiais, sanções econômicas letais. Milhões morreram não por decretos assinados por um único déspota, mas por sistemas que operaram durante séculos com legitimidade política, econômica e moral. A ausência de um “nome-símbolo” não diminui a gravidade; apenas dificulta a nomeação do crime.
As Américas exemplificam essa ambiguidade. O genocídio indígena foi real, persistente e fundacional, mas raramente personificado em um único líder. As ditaduras latino-americanas de direita produziram terror de Estado, desaparecimentos e assassinatos – quase sempre sob o manto da Guerra Fria –, enquanto experiências revolucionárias armadas também cometeram graves violações. Países de menor escala demográfica e classificações jurídicas restritivas tendem a invisibilizar esses horrores em comparações globais baseadas apenas em números absolutos.
O debate se torna ainda mais sensível ao se considerar os Estados Unidos. Não se trata de um regime despótico interno – ao menos não era até Trump reascender em janeiro de 2025 –, tampouco é consenso classificá-lo como genocida em sentido jurídico estrito. Ainda assim, é o único país a ter utilizado armas nucleares contra civis, protagoniza guerras recorrentes, apoiou (e apoia) ditaduras e se beneficia de uma ordem internacional que diminui sua própria responsabilização. Aqui não cabe a equiparação simplista, mas a constatação de um imperialismo estruturalmente violento, cujos efeitos humanos são incontornáveis.
Do outro lado do mapa, África, Oriente Médio, Rússia e Extremo Oriente tampouco formam um bloco homogêneo. Há ditaduras de esquerda e de direita, regimes laicos e teocráticos, Estados hipercentralizados e Estados colapsados. Reduzi-los a um “Oriente violento” em oposição a um “Ocidente civilizado” é uma leitura empobrecida, mais útil à geopolítica do que à compreensão histórica. A barbárie não é atributo cultural; é possibilidade política.
Parte decisiva do viés classificatório nasce do direito internacional. Genocídio exige intenção explícita de destruir um grupo enquanto tal. Muitas violências ocidentais operaram por negligência deliberada – como fez Bolsonaro com 700 mil vidas brasileiras em plena pandemia do novo coronavírus, ou o estadista Churchill diante da grande fome indiana –, racismo estrutural, exploração econômica ou eufemismos como “danos colaterais”. Assim, o mal explícito é mais facilmente condenado do que o mal normalizado. A técnica jurídica, quando isolada, pode se tornar instrumento de esquecimento.
O resultado é um espelho quebrado: condenamos corretamente os crimes alheios, mas frequentemente atenuamos os nossos, chamando massacres de “guerra”, fomes de “ineficiência” e dominação de “ordem internacional”. A crítica madura não consiste em inverter culpados, mas em reconhecer que nenhuma civilização, ideologia ou hemisfério possui monopólio do erro, da indiferença ou da violência.
Pensar a relatividade da classificação despótica e genocida não é relativizar o sofrimento das vítimas. Ao contrário: é ampliar o campo de responsabilidade, incorporando processos, estruturas e cumplicidades históricas. Somente assim a história deixa de ser um tribunal seletivo e passa a cumprir sua função ética: iluminar, com igual rigor, os horrores do Ocidente e do Oriente, da esquerda e da direita, do passado distante e do presente que ainda insiste em se justificar. Não podemos normalizar Trump sobre o mundo, Putin na Ucrânia ou Netanyahu em Gaza.



















