Categoria: Artigo

  • Quando Deus fala

    Quando Deus fala

    * Levon Nascimento

    É incrível como o Evangelho de Jesus pode ser às vezes desconcertante. E isso é muito bom!

    Deus “gritou” pela boca da bispa episcopal de Washington, Mariann Budde, na cara de Donald Trump, um dia após sua segunda posse como presidente dos EUA.

    Profetizou a religiosa:

    “As pessoas que colhem em nossas plantações, limpam nossos prédios, trabalham em granjas, frigoríficos e hospitais podem não ter a documentação adequada, mas a grande maioria dos imigrantes não é criminosa.

    Peço que tenha misericórdia, Sr. Presidente, daqueles em nossas comunidades cujos filhos temem que seus pais sejam levados embora. Que ajude aqueles que estão fugindo de zonas de guerra e perseguição em suas próprias terras a encontrar compaixão e boas-vindas aqui.

    Há crianças gays, lésbicas e transgêneros em famílias democratas, republicanas e independentes, algumas que temem por suas vidas”.

    Mariann Budde está certa e foi corajosa. Seguiu a tradição das mulheres da bíblia. Afinal, foi a própria Virgem Maria, mãe de Jesus, segundo o evangelista Lucas, que disse: “Derruba os poderosos de seus tronos e eleva os humildes; dispersa os ricos sem nada e enche de bens os famintos”.

    Como de hábito, Trump classificou a missa em questão como “desagradável” e exigiu um pedido de desculpas da bispa, chamando-a de “nojenta e pouco inteligente”.

    Vindos dele tais xingamentos, creio que a episcopisa de Washington só tem a se orgulhar da missão evangélica cumprida.

    Como diz o canto de comunhão: “Se calarem a voz dos profetas, as pedras falarão”.

    * Professor de História.

  • Balanço de 2024

    Balanço de 2024

    * Levon Nascimento

    O trabalhador mais explorado se vê como o “empreendedor” que, “ao se esforçar muito (ser explorado por um patrão anônimo) e mudar o mindset (mentalidade )”, se tornará o “vencedor”, consumidor de neo-bugigangas com obsolescência programada.

    Saíram vitoriosos os discursos dos coaches, o individualismo extremo, que nega a solidariedade entre os iguais e estimula a rivalidade entre “as inimigas invejosas”, a heresia da Teologia da Prosperidade e a religião de mercado.

    Falar a essas pessoas sobre direitos humanos básicos, meio ambiente e crise climática, cidadania, democracia, coletividade, garantias fundamentais e consciência de classe não encontra mais eco e significado em seus cotidianos.

    Some-se a isso o dinheiro do Orçamento Secreto nas campanhas das direitas locais, a burocratização da utopia nos governos de esquerda, as oligarquias de mandatos dentro do PT e a sabotagem à militância histórica, como correu conosco aqui em Taiobeiras, e tem-se o quadro de derrota das pautas e candidaturas progressistas.

    Isso explica as vitórias eleitorais e anti-civilizatórias, avassaladoras, da centro-direita e, relativas, da extrema-direita.

  • É preciso apontar para a esperança

    É preciso apontar para a esperança

    * Levon Nascimento

    Em 15 de junho de 2024, participei do Encontro Municipal do Partido dos Trabalhadores em Taiobeiras, no qual foi oficializada a Federação Brasil da Esperança no município, junto com o Partido Verde, para as eleições proporcionais.

    No mesmo evento, mulheres e homens da classe trabalhadora apresentaram as suas pré-candidaturas a vereadora, vereador e prefeito, para o pleito de 2024.

    Perguntei-me, no íntimo, o que de fato fazíamos ali. O que significa a nossa luta neste mundo de hoje?

    Enquanto…

    1. o governo de extrema-direita de Israel mata milhares de vidas palestinas, especialmente crianças, idosos e mulheres;
    2. Trump, com seu discurso negacionista, racista e xenófobo, lidera as pesquisas de intenção de votos para a presidência dos Estados Unidos;
    3. a extrema-direita europeia, anti-imigração, anti-negros e anti-latinos, faz barba, cabelo e bigode nas eleições parlamentares da União Europeia;
    4. as mudanças climáticas provocam, em todo o planeta, dilúvios bíblicos e secas homéricas, calor excessivo e derretimento das geleiras, desabrigados ambientais e desequilíbrios econômicos crescentes, com efeitos devastadores aos países do Sul global e às populações mais pobres do mundo;
    5. no Brasil, o nazifascismo bolsonarista continua popular e impune, apesar do genocídio de 700 mil vidas perdidas pela negligência na pandemia, da tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023 e da corrupção concreta e ideológica que propagou nos infernais quatro anos de Bolsonaro na presidência;
    6. o agronegócio, a mineração predatória e o desmatamento para fins econômicos continuam a envenenar o solo e as águas, aprovando mais e mais agrotóxicos; matando indígenas e grilando terras; apoiando o armamentismo e financiando o processo de ignorância cultural do povo brasileiro;
    7. a alienação religiosa e cultural leva dominados a emularem o papel dos dominadores; a explorados sem consciência da exploração; aos pobres negando os próprios direitos e destruindo suas próprias identidades étnicas e culturais;
    8. Artur Lira e seu bando, hipócritas, usam o nome de Deus para proteger estupradores, atacam o direito das mulheres sobre o arbítrio do próprio corpo e chantageiam o Governo democraticamente eleito pela maioria dos brasileiros;
    9. Em Taiobeiras, muitos perderam a vontade de decidir sobre o seu próprio destino, terceirizando a uma elite – que já se bastou a si própria e perpetuou-se no tempo – o poder de comandar os rumos da coletividade.

    O que nós, da classe trabalhadora, fazemos na luta política diante de todo esse enredo maligno?

    Não tenho respostas prontas para a pergunta que me fiz. Mas, admito suposições. Suponho que, fazendo mais do mesmo não teremos realidade novas.

    É preciso que rompamos com a sociedade que se acomodou com o discurso dos “especialistas em coisa nenhuma”, dos coaches de mensagens sentimentalistas e vazias e dos mascates da fé.

    Mais do que eleições, miremos na formação do povo e na superação do individualismo. É pela cultura que renovaremos a esperança da nossa gente por justiça social e inclusão humana.

    Vencer uma eleição é necessário. Porém, mais do que um mandato, necessitamos de refundar o caráter antissistêmico da esquerda política. Não dá mais para nos conformarmos com a falácia de que o capitalismo é o fim da história. Temos de descortinar o dia posterior, a luz no fim do túnel, a esperança em vez do “é assim mesmo”.

    É urgente apontar à esperança!

    * Professor de História. Graduado em Ciências Sociais pela Unimontes. Mestre em Estado, Governo e Políticas Públicas pela Flacso/Fundação Perseu Abramo. Doutorando em Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável pela Escola Superior Dom Helder Câmara. Pré-candidato a Prefeito de Taiobeiras.

  • Com o que deveremos nos preocupar nas eleições municipais?

    Com o que deveremos nos preocupar nas eleições municipais?

    * Levon Nascimento

    O Governo do Presidente Lula tem feito o dever de casa daquilo que lhe compete, apesar da gritaria da mídia alinhada ao mercado financeiro, da óbvia oposição de extrema-direita ou da sabotagem do chamado “centrão”. Uso das palavras do jornalista Mario Vitor Santos, colunista do Brasil 247, em artigo de 04/06/2024: “um governo com emprego beirando recorde histórico, inflação em queda e salários em recuperação”.

    É claro que temáticas artificiais e inócuas, produzidas pelas usinas de fake news e besteirol, a serviço de interesses in(confessos) dos liberais xucros, estarão na pauta das eleições municipais: ideologia de gênero, armamentismo da população, combate ao comunismo, Deus, Pátria, Família, etc. Também os negacionismos ridículos baterão o ponto, como à ciência, às mudanças climáticas e às vacinas. A Terra Plana capotará. Teorias conspiratórias, globalismo e outras sandices, também.

    Porém, para quem tem mais de dois neurônios, que sabe do valor do Estado laico e entende que a família precisa é de saúde, moradia, emprego, salário com poder de compra e educação para as crianças, a pauta verdadeira das eleições deverá girar em torno dos problemas reais do povo; e das competências básicas das municipalidades em resolver a vida das pessoas.

    E é aí que surge o dever do império da responsabilidade para as candidaturas sérias, que de fato se apresentarão com propósito de viabilidade. Candidatos a vereadores/as, vices e prefeitos/as, que se propõem a fazer história e a deixar legado para as gerações futuras, deverão abandonar o terraplanismo e o verde-amarelismo de ocasião, e se pautarem pela racionalidade honesta, na hora de conversar com as pessoas. Campanha eleitoral também é momento de educação popular.

    Sola de sapato, ouvido e saliva, à exaustão, deverão ser usados para encontrar o povo, ouvir suas necessidades e debater com as bases sociais acerca das concretas necessidades dos cidadãos e cidadãs, que vivem é no município, como disse alguma raposa política do passado, em grandiloquente síntese de razão e veracidade.

    Que o eleitor e a eleitora compreendam que só se pode cobrar dos candidatos e candidatas, nesta eleição, aquilo que é de competência do nível municipal da federação. Esqueçam-se das motociatas e bravatas, bem como dos coaches de internet. Eles vivem nas bolhas das redes, não no universo real em que eu e você precisamos de políticas públicas para melhorar, de fato, as nossas vidas.

    É momento de exigir: a universalização da rede de coleta e tratamento de esgoto sanitário; a melhoria da iluminação pública; sistemas eficientes de drenagem das águas das chuvas; estradas rurais em permanente estado de boa conservação; escola pública com segurança e qualidade pedagógica; sistema de saúde que atenda às reais demandas de quem não pode pagar pelos tratamentos; apoio à educação do campo; políticas de meio ambiente voltadas para a mitigação da crise climática; adesão dos municípios ao Programa Minha Casa Minha Vida, alimentação saudável, ar puro e livre de venenos em nossas cidades e campo; etc.

    Se vender o voto, votar no candidato festeiro ou seguir os rebanhos religiosos da política, mais uma vez dará um tiro no pé. É urgente pensar com a própria cabeça.

    A Prefeitura e a Câmara de Vereadores não podem fazer de tudo. Há coisas que são o papel da sociedade, como a solidariedade e a organização cidadã. Mas, aquilo que é de responsabilidade objetiva de prefeito e vereadores, eles devem fazer com o máximo de qualidade e presteza.

    Deixem o Presidente Lula trabalhar naquilo que é competência do Poder Executivo federal. Deixem a oposição fazer o seu papel em Brasília. Agora, é o momento de decidir a vida do município.

    * Professor de História. Graduado em Ciências Sociais pela Unimontes. Mestre em Políticas Públicas pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais. Doutorando em Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável pela Escola Superior Dom Helder Câmara. Autor de oito livros.

  • E você, quem é o seu Jesus?

    E você, quem é o seu Jesus?

    * Levon Nascimento

    Jesus nasceu na Palestina durante o período da ocupação romana, por volta de 753 da fundação de Roma. Mais tarde, o antigo calendário juliano seria modificado e o ano de seu nascimento tornado o número 1. Erros à parte, alguns estudiosos dizem que Jesus na verdade nasceu uns 7 a 8 anos antes da data inaugural do calendário cristão. Pouco importa. Fosse hoje, muitas bombas norte-americanas vendidas ao governo de Israel cairiam sobre sua cabeça.

    O fato certo é que Jesus viveu na periferia do mundo antigo. Uma espécie de Sul global da época, como agora são o Brasil, a África, o Haiti e… a Palestina (Gaza). O trabalho de seus parentes e amigos enriquecia a elite judaica, complacente, e o Império Romano, invasor.

    Maria, sua mãe, séculos depois elevada pela devoção popular e a oficialidade religiosa a Rainha do Céu, Mãe de Deus e Madonna – Ops! Calma calabreso! Madonna, em italiano, é Nossa Senhora – era uma mulher bem consciente da realidade em que vivia. De acordo com o evangelista Lucas (1,52-53), é dela as frases: “Derruba do trono os poderosos e eleva os humildes; despede os ricos de mãos vazias e enche de bens os famintos”. Nos dias atuais, seria cancelada, acusada de lacração e comunismo.

    Voltando a Jesus, seus principais adversários eram os religiosos fariseus. Gente que ia assiduamente às sinagogas, as capelas locais, e ao templo de Jerusalém. Conheciam bem as leis e os textos bíblicos. Achavam-se, por isso, melhores do que as outras pessoas. Espécie de classe média, “gente de bem, família como Deus criou”, os fariseus detestavam as mulheres, os estrangeiros e toda sorte de gente estranha que andava com Jesus. Foram eles os responsáveis pela denúncia que levou à sua prisão, tortura e morte.

    Jesus não vivia com o Antigo Testamento debaixo do braço, mas testemunhava seus preceitos de maneira muito prática, sem extremos ou fanatismo.

    Jesus não era contra os ricos, porém preferia andar com os pobres. Aos ricos, mostrava a efemeridade dos bens que tinham, e quanto tais riquezas lhes escravizava. Aos pobres, repartia pão e defendia das pedradas dos fariseus.

    Jesus não era comunista, como dizem alguns amigos bem intencionados; pois seria um anacronismo. O marxismo só surgiria uns dezoito séculos à frente. Na verdade, o socialismo/comunismo é que imitaria alguns preceitos da prática cristã, como a sociedade comunal em que viveram os primeiros seguidores de Jesus.

    As doutrinas bíblico-religiosas afirmam que Jesus é o filho de Deus, o Cristo esperado pelos judeus messiânicos; o próprio Deus, na Santíssima Trindade, com o Pai e o Espírito Santo; ou o espírito mais evoluído a passar pela Terra. Como crente de uma dessas fés, eu professo alguns componentes de tais doutrinas sobre Jesus. Mas não é isso que vem ao caso neste texto.

    Trato aqui do Jesus histórico. Aquele que não aceitaria a confusão de seu nome com a diabólica Teologia da Prosperidade, pregada na maioria das denominações cristãs de agora pelos coaches da fé; nem cruzadas, charlatanismo, mercantilização da crença alheia, exclusão, guerras, armamentismo, tortura, fascismo e outras aberrações do passado e do presente.

    Como escreve o bispo Dom Vicente Ferreira, há uma “ruptura entre o Cristo da fé e o Jesus histórico”. Igualmente, outros têm se tornado telegrafistas de Maria, conforme seus interesses particulares. Toda expressão cristã que não se calça na historicidade de Jesus é fanatismo ou má fé, mato no meio da roça de feijão, joio no trigo. Deve ser combatida.

    Mais fácil Jesus abraçar um ateu de boa vontade do que um religioso cristão de mercado. Jesus, hoje, seria crucificado pela maioria dos que se dizem seus seguidores.

    O Jesus histórico é o ser humano excelente. Sua divindade se revela em sua condição humana amorosa.

    E você, quem é o seu Jesus?

    * Professor de História.

  • Taiobeiras: a morte tem odor de esgoto e veneno

    Taiobeiras: a morte tem odor de esgoto e veneno

    * Levon Nascimento

    À tardezinha, um fedor paira no ar. Com o perdão da má expressão, é catinga de merda, mesmo. Esgoto não-tratado lançado a céu aberto.

    De uns dias para cá, primeiro achei que fossem os registros do fogão que estavam abertos. Parecia gás de cozinha. Não era. Está em todo lugar, pela casa, no quintal, na rua, nos ares. É veneno. É fumaça de agrotóxico.

    Alguns amigos e familiares me dirão que eu não deveria expor isso aqui. Só tenho a perder: pessoalmente e politicamente. As pessoas não gostam de que apontemos os problemas do lugar em que vivemos. Afinal, fazemos a melhor festa de maio da região, não é!? A propaganda oficial nos condiciona a dizer que somos a melhor do Alto Rio Pardo, quiçá do Norte de Minas. Nenhuma palavra pode ser dita para manchar a reputação da cidade, sob pena de sermos chamados de traidores.

    Mas de que valeria minha vida e minha participação política, não fossem elas voltadas a defender o bem-comum, o bem-viver e o bem-estar da coletividade? Para mim, nunca foi projeto pessoal de poder. É e será ad eternum a luta pela vida plena, em abundância, para todos os seres humanos e para o planeta, nossa Casa Comum.

    Que me critiquem os “pró-vida” de ocasião, que só enxergam ameaças de morte no aborto e nas orientações sexuais alheias. Eles chafurdam na suicida teologia da prosperidade e no tradicionalismo oco e estéril. Valorizam mais as vestes e alfaias do que a Criação divina expressa no rosto humano e na Mãe Natureza.

    O fato é que a metáfora da arca de Noé nunca foi tão precisa quanto nestes tempos de crise climática e de adoração do empreendedorismo da ganância. As pessoas bebem, comem e festejam, alienadas do que ocorre ao seu redor. O calor do aquecimento global, as enchentes torrenciais e o envenenamento da comida e dos ares pelo agro-pop estão aí, para quem quiser ver, sentir e cheirar. Mas, entretidos por coaches e líderes de extrema-direita, os indivíduos recusam a verdade e crucificam os que lhes ousam dizer.

    Taiobeiras, nestes dias de festa e alegria, de ganhos e emoções, de vaidades e torpes poderes, está impregnada do odor de esgoto e de veneno. É um projeto irracional em nome do lucro e do poder de alguns. O salário, como no caso do pecado, é a morte.

    Lutemos pela vida, enquanto ela se deixa encontrar.

    * professor de História, doutorando em Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável, mestre em Políticas Públicas, graduado em Ciências Sociais.

  • Emergência climática e a Laudate Deum

    Emergência climática e a Laudate Deum

    O planeta está esquentando. O calorão do fim do ano passado, o dilúvio no Rio Grande do Sul, neste mês, e uma infinidade de outros acontecimentos comprovam, praticamente, o que a ciência já vinha alertando há anos.

    Não são necessários profetas do terror e do medo. Não é castigo de um Deus cruel e sanguinário, que para punir os pecadores mata os inocentes. É ciência. É capitalismo predatório. É questão ambiental e climática. Sem negacionismo e fake news!

    Os estudos científicos mostram que esse aquecimento é acelerado pela ação humana, através da emissão dos Gases de Efeito Estufa.

    Trata-se do Antropoceno, período histórico-geológico marcado pela presença e ação do ser humano sobre a natureza.

    Se você é cristão ou, simplesmente, pessoa de boa vontade, recomendo que leia a este livreto da foto. Trata-se da Exortação Apostólica Laudate Deum, sobre a Crise Climática, lançada pelo Papa Francisco em 04 de outubro de 2023.

    Vamos ver o que ainda é possível ser feito…

    #papafrancisco #laudatosi #laudatedeum #criseclimática  #mudançaclimática

  • Mudanças Climáticas: Há culpados pelas inundações no Rio Grande do Sul?

    Mudanças Climáticas: Há culpados pelas inundações no Rio Grande do Sul?

    A tragédia das inundações no Rio Grande do Sul tem culpados, sim! E não é Deus, nem São Pedro, nem Lula.

    Os políticos de direita ou extrema-direita, quando precisam da ajuda dos governantes de esquerda, têm a mania de dizer: “-Sem ideologia, agora! Não é hora de buscar culpados! É hora de união!”.

    Foi o que fez e disse o governador gaúcho, tucano, Eduardo Leite, pego com as calças na mão pelo maior desastre climático da história do Brasil, quando teve de pedir socorro ao Presidente Lula.

    Dias antes, o tucano, em vez de ligar e ir pelos canais corretos, quis dar uma de bonzão dando ultimatos ao presidente por rede social.

    O mesmo governador que, 15 dias antes, havia recebido relatórios dos institutos climáticos, a anunciar o caos que viria, e nada fez.

    O mesmo governador que modificou, no ano passado, o código florestal do Rio Grande do Sul, abrindo a porteira para a boiada do desmatamento desenfreado do bioma dos pampas, predominante naquele estado.

    O mesmo governador que ataca as políticas sociais e ambientais do Governo Lula e namora com o discurso negacionista e antipreservacionista do agro e da extrema-direita.

    Aliás, cadê os políticos bolsonaristas que falavam que Mudança Climática não existe? Inclusive, um deputado gaúcho do Partido Novo, muito idolatrado por certos inteligentinhos daqui. Cadê Mourão? Cadê Ricardo Sales? Cadê Bolsonaro, numa hora dessas? De certo, andando de Jetski.

    As chuvas disruptivas do Sul têm culpado. Não é Deus e nem São Pedro. É a Mudança Climática, fruto da emissão desenfreada de CO2 na atmosfera e da ganância do grande capital mundial. Não adianta negar. Se negar se afoga.

    Abraçar o Acordo de Paris e reduzir as emissões eram para ontem. Já passamos do ponto de não retorno. O calorão do fim do ano, as pandemias, as avalanches de mosquitos da dengue e as enchentes torrenciais, agora, são a nova realidade. Precisa-se de políticas públicas de mitigação, de consciência ética e ecológica e do combate à acumulação de capital desordenada, que drena a riqueza de bilhões de pessoas para apenas algumas poucas centenas de seres humanos.

    E ao povo, acreditar menos nas fake news da extrema-direita – que só trabalha para o lucro ganancioso do agro, que não está nem aí para as mudanças climáticas, pois mora nas melhores mansões, protegidas das intempéries, com ar condicionado e água potável – já é um bom começo.

    Sim, governador Leite, agora é hora de união. Inclusive, o Nordeste, que tantos os sulistas atacam com racismo e xenofobia, lidera as regiões do país em ajuda aos irmãos gaúchos. Mas é preciso apontar o dedo para os culpados, sim! E o senhor é um deles.

    Créditos da imagem: Reprodução da internet.

  • Em 2026, 100 anos da passagem de Luiz Carlos Prestes em Taiobeiras

    Em 2026, 100 anos da passagem de Luiz Carlos Prestes em Taiobeiras

    * Levon Nascimento

    Único grande fato da História do Brasil que teve Taiobeiras como pano de fundo de seu desenrolar, a Coluna Prestes caminha para completar 100 anos.

    Em 26 de abril de 2026, terá se completado o centenário da passagem do Capitão Luiz Carlos Prestes, líder da revolta tenentista conhecida como Coluna Prestes, pelo vilarejo de Taiobeiras, então distrito do município de Salinas.

    Naquela segunda, 26/04/1926, os revoltosos, como os combatentes de Prestes ficaram conhecidos por aqui, vinham da espetacular manobra militar batizada como “Laço Húngaro”, uma mostra da genialidade do “Cavaleiro da Esperança”. Deram um nó tático, nos desfiladeiros de Serra Nova, município de Rio Pardo de Minas, nas tropas legalistas e mercenárias a serviço do Governo Federal do presidente coronelista Artur Bernardes, deixando-as desnorteadas.

    Ao atravessar Taiobeiras, encontram o povoado deserto. As famílias fugiram para o Grama. Somente o comerciante João Rêgo e sua família permaneceram. Atenderam bem aos revolucionários. No final, Prestes o pagou com um coturno cheio de moedas. Era o preço da Guerra Civil brasileira.

    A Coluna Prestes, que durou de 1925 a 1927, percorreu 25 mil quilômetros de Brasil, pregando a luta contra o regime oligárquico do café-com-leite, que vigorava na política nacional.

    Prestes, seu líder, nas palavras do poeta Pablo Neruda, foi o dirigente revolucionário latino-americano que “teve uma vida tão trágica e portentosa quanto” nenhum outro.

    Referências:
    COTRIM, Dário Teixeira. O Laço Húngaro: Uma estratégia militar bem sucedida. 1. ed. Montes Claros: Millennium, 2008.
    MIRANDA, Avay. Taiobeiras: Seus fatos históricos. 1. ed. Brasília: Thesaurus, 1997. V. I.
    PRESTES, Anita Leocádia. Luiz Carlos Prestes: Patriota, revolucionário, comunista. 2. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2011.

  • Lula, Israel, holocausto e genocídio

    Lula, Israel, holocausto e genocídio

    Holocausto é a palavra para designar o genocídio de 6 milhões de judeus em 13 anos de governo nazista na Alemanha sob Hitler.

    Não foi o único genocídio da história humana e nem o maior. Basta lembrar das dezenas de milhões de indígenas massacrados na colonização das Américas e da escravização de populações negras capturadas na África e dispersas pelo mundo em navios tumbeiros.

    Repudiamos o holocausto judeu. No entanto, o sofrimento dos judeus no passado – e mesmo a violência do terrorismo do Hamas em 07/10/2023 – não autoriza o atual governo de extrema-direita de Israel a cometer genocídio, uma espécie de holocausto reverso, contra dezenas de mulheres de crianças, mulheres e inocentes palestinos.

    Foi essa a fala de Lula, contra a morte de milhares, a favor da paz e responsabilizando os culpados. Ele está certo, pois fala a verdade. Lula foi o primeiro presidente brasileiro a visitar Israel e a honrar a memória das vítimas do holocausto. Lula defende a solução pacífica de dois Estados: um palestino e um israelense no território da antiga Terra Santa.

    E mais: usar a Bíblia para justificar os crimes atuais do Estado israelense é, além de ignorância religiosa e política, estupidez e pecado (de quem se diz cristão).

  • Sem anistia para os golpistas do 8 de janeiro

    Sem anistia para os golpistas do 8 de janeiro

    Em 8 de janeiro de 2023, apenas oito dias após a posse do Presidente Lula, eleito pela terceira vez, democraticamente, pelo voto da maioria dos brasileiros, um novo golpe de Estado foi tentado no Brasil. Mais um, em nossa história interminável de golpismo.

    Centenas de pessoas, enraivecidas pela lavagem cerebral cultivada em suas mentes, nos últimos dez anos, pela extrema-direita sanguinária, marcharam para Brasília num domingo. Invadiram as sedes dos três poderes da República e destruíram os prédios públicos, as obras de arte, defecaram, atentaram contra a vida de policiais. Acharam que poderiam fazer voltar ao poder o ex-presidente, genocida, responsável pela morte de 700 mil brasileiros por negligência durante a pandemia. Queriam esfolar, prender, matar. A morte brilhava em seus olhos emburrecidos pela pregação do ódio bolsonarista.

    Foi um fenômeno dos novos tempos (ou dos velhos, pois no nazismo e no fascismo do século XX também era assim). Queriam tirar do poder o governo democraticamente eleito para por no lugar uma ditadura comandada pelas forças armadas, pelo pior do agrobusiness, por neoescravocratas racistas, por pastores vendilhões do templo e por uma desclassificada classe política nazifascista. Suas bandeiras eram a morte, o armamentismo, o ódio de classe, de raça e aos pobres, a intolerância política e ideológica, o negacionismo científico, o fanatismo religioso e o retrocesso das conquistas sociais e trabalhistas duramente construídas pelo povo brasileiro.

    Foi a Intentona dos “Patriotários”: gente que se chamava de patriota, mas que não duvidou em nenhum momento de que destruir o que é público e, pior, a democracia, nada tem de amor pela Pátria. Gente que “fez faculdade” através de vídeos de fake news e autoajuda charlatã dos coaches de WhatsApp. Alguns até de boa vontade, mas de coração invadido pela ruindade e malignidade bolsonarista.

    O golpe daquele 8 de janeiro foi controlado. A idiotia e o mau-caratismo tentam fazer crer que foi a esquerda, e não ela própria, a extrema-direta, a responsável pelo quebra-quebra brasiliense. Mas, como disse Tancredo Neves, certa vez: “morto o dragão do autoritarismo, tarefa mais difícil é retirar sua carcaça fedida do meio da praça”. Assim, é preciso condenar exemplarmente os mandantes, os financiadores e as autoridades que flertaram ou condescenderam com a traição da Constituição e da democracia brasileiras. “Traidor da Constituição é traidor da Pátria”, declarou o velho Ulysses Guimarães ao promulgar a Constituição de 1988.

    Sem anistia para os golpistas.

  • A cultura do descarte

    A cultura do descarte

    O consumismo é consequência direta do capitalismo, que é o grande “demônio” dos tempos de hoje. Diferentemente da satisfação das necessidades fundamentais, o consumo excessivo é artificialmente estimulado e doentiamente estabelecido para enriquecer uns poucos, às custas da destruição inconsequente de todos e de tudo. Do consumismo das coisas, nasce a cultura do descarte das pessoas, que é ainda pior. Está presente em todos os lugares e situações.

    Nos ambientes mais ligados à economia do capital, empregos, mídia, comércios, relações de trabalho, nem se fala! Você vale enquanto produz. Pode ser o mais destacado e proativo “colaborador”, o mais brilhante “empreendedor”, o artista mais talentoso. Adoeceu, ficou ansioso, angustiado, tirou licença, caiu um pouco de produção… torna-se objeto para refugo.

    Pior é na família, nas comunidades e movimentos da Igreja, nas amizades… Não se iluda! O descarte também ocorre sem cerimônia nesses espaços “virtuosos”, onde o discurso da preocupação com a salvação do próximo faz parte do repertório. Assimilaram os piores exemplos da sociedade do capital. O esquecimento é praxe. Você e eu estamos a passar por isso. A lata de lixo do ostracismo está reservada para nós.

    É a obsolescência das relações humanas imitando à das coisas. Gente que não presta mais. O meio ambiente natural e o social poluídos pelo desenfreio do consumo, consumindo-se. Isso é real, cruel e anticristão.

    Se quisermos ter futuro, viver e ser felizes, mais do que votos de feliz ano novo, precisamos enfrentar o capitalismo e sua cultura de descarte, em todas as dimensões.

  • A chuva chegou ao sertão!

    A chuva chegou ao sertão!

    É tempo de Advento, o período litúrgico que prepara para a celebração do Natal de Jesus.

    Diz uma canção composta especialmente para ser cantada neste período adventício nas igrejas: “Das alturas orvalhem os céus/ E as nuvens que chovam justiça/ Que a terra se abra ao amor/ E germine o Deus-salvador”.

    Para além dos fenômenos naturais, meteorológicos e físicos; e dos antrópicos, como a crise climática, vejo também a chuva que chegou como “misericórdia divina”. É a integração mística enxergada por uma mente que sabe distinguir a integralidade e a interligação da criação divina, sem os negacionismos e os fanatismos típicos do deep state da religião

    Retomando os elementos da canção e unindos-os aos fenômenos naturais, digo que a chuva que chega vem das alturas do divino coração amoroso. Peço que ela traga-nos além da água que aplaca a sede da terra, também a justiça e a equidade, que a humanidade anseia neste tempo de ganância desenfreada do ídolo-mercado capitalista. Desejo que a terra molhada se abra ao amor e à sensatez da preservação do meio ambiente, nossa casa-comum, passando a reverenciar tudo e todos como dons de Deus e não como oportunidades mercadológicas. Mais contemplação e menos empreendedorismo. A primeira é de Deus; o segundo vem do maligno.

    Por fim, que venha Jesus, o Emanuel-Deus-conosco, em sua ciclicidade natalina, para nos abraçar com carinho, para terminar com as guerras e o fascismo e, por fim, para redimir a criação inteira, que geme em dores de parto.

    Marana-ta! Vem, Senhor Jesus!

  • “Comunista, graças a Deus!”

    “Comunista, graças a Deus!”

    Lênin não acreditava em céu ou inferno, pois era ateu. Porém, a julgar pelo propósito dele, que era derrotar a burguesia que adora o capital e despreza o próximo, e conhecendo o que diz o Evangelho de Jesus, sou da humilde opinião de que é mais fácil Lênin se encontrar no Paraíso do que os seus difamadores religiosos entrarem no Reino dos céus.

    Falo isso porque assisti a um vídeo produzido pelo gabinete do ódio do bolsonarismo, feito para difamar o ministro Flávio Dino, católico de esquerda, novo escolhido de Lula para o STF.

    No vídeo, em uma entrevista antiga, Dino diz que é “comunista, graças a Deus!”, numa referência ao seu antigo partido, o PCdoB. Hoje ele é do PSB. Nenhum problema. Os primeiros cristãos, segundo os Atos dos Apóstolos, também eram “comunistas, graças a Deus”, pois “tinham tudo em comum e dividiam seus bens com alegria”. Aliás, Jesus ameaçou os “capitalistas” da época com um chicote, no templo, “porque faziam da casa do Pai um mercado”, e em outra passagem disse categoricamente que era “mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino do céus”.

    Mas o que tem Lênin a ver com isso?

    É que no tal vídeo, Dino diz seguir a cartilha de Lênin. Mentirosamente, o vídeo feito para gente que nunca leu uma orelha de livro de Ciência Política ou História, faz uso do mais sujo fanatismo religioso. Diz que Lênin recebeu seu “decálogo” diretamente do inferno. Ignoram que além de político, Lênin foi um dos mais prestigiados intelectuais da política, da economia e da filosofia de sua época. Um decálogo para Lênin é pouco.

    Enfim, tanto quanto Cristo foi condenado pelos religiosos de seu tempo, mal comparando, com todos os nossos defeitos humanos, todas as lideranças que enfrentam o capitalismo e os ricos do mundo, como Lênin, Mandela, Dilma, Lula e Dino, são massacradas por gente que se diz de Deus; gente cujo “o lugar é o céu”. Nem que seja o céu da boca da onça.

  • Torpes Labéus: novo livro de Levon Nascimento

    Torpes Labéus: novo livro de Levon Nascimento

    * Por Levon Nascimento

    A produção de um livro é um tipo de operação que muita gente não vê, porém é árdua, exaustiva e complexa. Em outras palavras, dá trabalho… muito trabalho! É necessário valorizar, incentivar, comprar e, principalmente, LER.

    Meu novo livro, TORPES LABÉUS, que será lançado em dezembro próximo, é uma espécie de diário, que retrata os dez últimos anos de nossa história social, política e cultural. Como é um diário, traz a visão e a opinião do autor sobre os fatos ocorridos. Será uma fonte a mais de pesquisa para quem deseja entender sobre como chegamos nessa era de Torpes Labéus.

    A capa é do talentoso @cigania, o exórdio do amigo escritor rio-pardense @vladepatricio e o epílogo do amigo moçambicano @juma_acha.

  • Obras do novo Governo Lula em Taiobeiras

    Obras do novo Governo Lula em Taiobeiras

    #lula | #taiobeiras | Já tem obra do novo Governo Lula em Taiobeiras. A obra da foto é na Praça de Esportes. Mas tem muito mais. É Lula com o nosso povo! Do Zema e do Bolsonaro, ninguém sabe, ninguém viu.

  • Derrubaram pé de pequi do Cruzeiro em Taiobeiras

    Derrubaram pé de pequi do Cruzeiro em Taiobeiras

    Um dia para chorar!

    Derrubaram o pequizeiro do Santo Cruzeiro, árvore histórica e tombada, patrimônio natural, histórico e cultural de Taiobeiras. Era um dos três elementos do conjunto que se compõe com o Santo Cruzeiro dos Martírios e a capelinha.

    Foi sob sua sombra que os peregrinos dos gerais, em penitência por chuva, no longínquo 1896, fizeram a promessa de erguer um cruzeiro ornamentando com os instrumentos do martírio de Cristo se alcançassem a benção do fim da seca.

    Graça conquistada, pagaram o compromisso em 2 de julho de 1897, levantando a grande cruz ao lado do pequizeiro.

    No mínimo, 150 anos de memórias sucumbiram pela motosserra em questão de segundos. A dor da destruição!

    É importante que a lei seja aplicada, com direito à defesa, para punir os eventuais responsáveis. E a nós, resta chorar, feito o dia de hoje (21/07/2023), em que até os céus vertem lágrimas sobre Taiobeiras.

    #taiobeiras #patrimoniocultural #patrimoniohistorico #cultura #historia

  • Como podemos interpretar a vinda de Maduro ao Brasil? Pergunta de João Victor Almeida

    Como podemos interpretar a vinda de Maduro ao Brasil? Pergunta de João Victor Almeida

    Resposta:

    Como a retomada das boas relações do Brasil com seus vizinhos.

    Não foi só Maduro quem veio nesta terça a Brasília, mas todos os presidentes sul-americanos. É uma tradição brasileira, desde o Barão do Rio Branco, manter política de boa vizinhança com as Nações sul-americanas. Bom hábito cultivado, inclusive, no Estado Novo (1937-1945) e na Ditadura Militar (1964-1985), quebrado apenas na gestão ignorante e nazifascista de Jair Bolsonaro (2019-2022).

    Lula, ao receber Maduro, muito mais do que uma opção ideológica, reafirma a liderança natural do Brasil sobre esta parte do globo. Inclusive, Lula conseguiu de Maduro um acordo para a retomada dos pagamentos de dívidas venezuelanas para com o nosso BNDES.

    Todas as ações internacionais de Lula, até agora, resultaram em ganhos financeiros, econômicos, políticos e geoestratégicos para o país. A choradeira da extrema-direita e da mídia é apenas mais um reflexo da mente colonizada que guia nossa elite do atraso.

    Imagine se Lula e Janja tivessem recebido jóias de centenas de milhões da ditadura da Arábia Saudita…

  • De novo a Barragem de Berizal? O porquê de insistir no assunto

    De novo a Barragem de Berizal? O porquê de insistir no assunto

    Levon Nascimento, levon2012@yahoo.com.br

    Há uma grande sensibilidade do Governo Lula para com a Barragem de Berizal. É o que pude sentir nas palavras do Ministro Waldez Góes, em Montes Claros, durante o 1º Fórum “Desenvolve Sudeste” do Ministério da Integração e Desenvolvimento Regional (29/05/2023).

    Mas, também nas manifestações do Ministro, o Presidente Lula somente se comprometerá com a efetivação da obra se as condicionantes levantadas pelos diversos órgãos competentes estiverem todas resolvidas, pois há um ordenamento legal a ser seguido. E Lula, com sabemos, é um legalista por excelência. Prova disso foi sua obediência ao Poder Judiciário nacional, mesmo quando lhe era infligida a injustiça máxima de sua condenação sem provas por um juiz “suspeito e incompetente” (sentença proferida pela própria Suprema Corte constitucional).

    É compreensível que os cidadãos se encontrem cansados da novela “da barragem” e descrentes dos órgãos de Estado. Exigir que entendam esses meandros, quando a luta pela sobrevivência faz a pauta do cotidiano, é um tanto ingênuo.

    Para isso, os lutadores sociais e os atores políticos precisam agir na compreensão técnica sobre o que são essas condicionantes e a quais órgãos elas competem.

    Não basta só pedir a um Ministro, ou mesmo ao Presidente, fazer discurso e fotografar. Eu mesmo discursei e fotografei. É absolutamente insuficiente. Necessária se faz uma força-tarefa multidisciplinar e suprapartidária, técnica e política (na melhor acepção do interesse da polis), que verifique ponto a ponto o que entrava a obra e busque soluções para cada um deles.

    Ao contrário das falácias da extrema-direita que desgovernou o país por seis anos, o Governo Lula é de atenção, diálogo e ação. Ação dentro da factualidade e da legalidade, sobretudo levando em conta o povo trabalhador, os agricultores e as agricultoras familiares, as famílias trabalhadoras, a população pobre e em insegurança hídrica. Sem revanchismos, porém sem tergiversações.

    O primeiro passo, a meu ver, é retomar consistentemente a organização do Território da Cidadania do Alto Rio Pardo, para na transversalidade das políticas públicas, decidir com “os de baixo” os rumos de nossa região. A barragem será para todos, como deve ser.

    Outra coisa: a região tem de compreender que a melhor chance dessa obra virar realidade é com Lula; e não deixar a ideologia atrasada do colonialismo neoliberal fechar a janela de oportunidade da história.

    #OBrasilVoltou #OBrasilFelizDeNovo

  • Frei Feliciano e o ato de ler

    Frei Feliciano e o ato de ler

    Na manhã de 30 de abril de 2023, um dia raramente nublado e fresco em Montes Claros – cidade costumeiramente quente, como o sol do Norte de Minas – resolvi bater perna pelo centro. Domingo e em véspera de feriado, tudo totalmente esvaziado e com lojas fechadas, por óbvio. Passei em frente ao local de uma antiga loja de livros (este ponto pintado de verde, na foto que acompanha o texto). Não sei o que funciona ali agora. Mas a história que vou contar a seguir me veio à memória de imediato.

    Em novembro de 1994, fui eleito delegado-jovem da Paróquia São Sebastião de Taiobeiras para a 4ª Assembleia de Pastoral da então Diocese de Montes Claros. Era um evento grande, que durava quatro dias, no qual eram decididos os compromissos da Igreja e as diretrizes pastorais católicas para o Norte de Minas.

    Fomos para a assembleia no carro da paróquia. Dirigindo, o próprio pároco, Frei Feliciano van Sambeek, um franciscano holandês, bonachão, gente muito boa, alto, cabelos branquíssimos, bochechas rosadas, como é comum aos nativos dos Países Baixos, riso fácil, que falava num sotaque engraçado, meio que assoviando ao final das frases. Ele gostava de tocar teclado e cantar. Até que tentou isso durante as missas, mas era difícil conciliar a presidência da celebração e a atividade musical. Além de nós, iam também a Irmã Laudeci, representando as religiosas da paróquia; Vitor Hugo, conselheiro paroquial; e mais outras duas pessoas, também escolhidas para a delegação taiobeirense em Montes Claros.

    O evento começaria à noite, com missa solene na Catedral. No restante dos dias, a programação seguiria na Casa de Pastoral do bairro Santo Antônio. Como chegamos no início da tarde, fomos caminhar pelo centro de Montes Claros.

    No “Quarteirão do Povo Simeão Ribeiro”, rua transformada em galeria comercial, onde o trânsito de veículos automotores é impedido até a atualidade, que leva até a praça da primeira Matriz montes-clarense, entramos numa livraria.

    Distraidamente, todos nós a observarmos os produtos à venda, assistimos ao Frei Feliciano pegar um livro e dizer: – “Este foi o primeiro que li, ainda jovem, quando estava aprendendo português para vir em missão ao Brasil”. Era “Dom Casmurro”, originalmente lançado em 1899, de Machado de Assis. – “Muito bom! Muito bom! É o maior autor da sua língua”. O frade tinha o hábito de repetir duplicadamente as expressões de exclamação.

    Todo esse rodeio, até aqui, para eu revelar que senti vergonha naquele momento. Envergonhado pelo motivo de que ali eu era um jovem que cursava o 3º ano Técnico em Contabilidade, equivalente ao 3º ano do Ensino Médio, e jamais lera Machado de Assis. Já ouvira falar, mas jamais tivera a iniciativa de conhecer. Nem a ele, como a nenhum de tantos outros e outras, da honorável galeria de escritores nacionais.

    Senti-me acanhado, pois um estrangeiro conhecia melhor a literatura do meu país, mais do que eu, brasileiro, estudante, jovem, liderança dos grupos da minha cidade, blá, blá, blá, etc. Quando a gente é novo se acha, né?

    Eu até que lia. O primeiro que consumi inteiramente foi “O Burrinho Alpinista” (de Iêda Dias da Silva), na 2ª série. Mas era o indicado pela escola. O zero-um, de fato, que considero, foi “A Ilha Perdida” (de Maria José Dupré), na 4ª série, que me abriu as portas para a Coleção Vaga-Lume, da Editora Ática. Também os clássicos, como “A Escrava Isaura” e “O Seminarista”, ambos de Bernardo Guimarães, eu já tinha lido naquela ocasião. O Pequeno Príncipe (Antoine de Saint-Exupéry), O menino do dedo verde (Maurice Druon), Os meninos da Rua Paulo (Ferenc Molnár), também já constavam do meu currículo. Mas era pouco. Muito Pouco! Muito Pouco! – parafraseando Frei Feliciano. Faltava o “bruxo do Cosme Velho”, como alcunhavam ao Joaquim.

    Joaquim Maria Machado de Assis nasceu e viveu a maior parte da vida no século XIX. Filho de um “mulato” (palavra racista usada aqui para destacar o quanto o racismo é insidioso, inclusive na cultura) brasileiro com uma mulher branca, imigrante portuguesa.

    Escritor brilhante e fundador da Academia Brasileira de Letras, fez sucesso justamente no momento em que a recém-nascida República buscava branquear o Brasil através da política de importação de imigrantes brancos famintos, que viviam na miséria da Europa industrializada, doando-lhes terras e recursos no Sul do país, enquanto empurrava os negros recentemente alforriados para morros e favelas; e defenestrava os poucos povos indígenas que sobraram dos tempos coloniais.

    Machado foi “clareado” nas fotos e nos livros. Não era suportável para as classes dirigentes racistas brasileiras, que o maior escritor das Américas, do hemisfério Sul e, quiçá, da própria língua portuguesa, fosse um pardo.

    Sentir vergonha da própria ignorância, longe de baixa autoestima, num tempo como agora em que muitos se orgulham do próprio desconhecimento e se proclamam “coaches do abstrato”, deveria ser prática comum para quem deseja “superar os desafios” e “vencer na vida”, se é que isto é possível (muita ironia envolvida).

    Vergonha na cara não mata. No mínimo, melhora o vocabulário.

    Frei Feliciano, que foi pároco de Taiobeiras entre 1993 e 1995, partiu para a morada eterna em 2 de junho de 2021, aos 92 anos de idade, e eu, hoje, pelo menos sei quem são Capitu e Bentinho.