Tentei transformar em prosa as 164 sextilhas de Hermínio Miranda Costa, publicadas em 1997 sob o título Santo Cruzeiro dos Martírios, sobre o monumento de mesmo nome, em Taiobeiras. Eis o resultado:
O sol do Alto Rio Pardo não dava trégua. Era 1897, e a seca mais cruel em décadas transformara os gerais de Taiobeiras num deserto de poeira e silêncio. O gado tombava nas cercanias da Taboca, as veredas secaram e os olhos do povo, acostumados à esperança, viam seus sonhos virarem areia.
Foi então, sob a sombra retorcida de um pequizeiro antigo, árvore sagrada do sertão mineiro, que os moradores se reuniram e fizeram uma promessa ousada, quase desesperada:
“Se Deus nos mandar chuva, ergueremos um Cruzeiro santo onde a estrada para Matrona cruza o descampado!”
Homens de barba grisalha, mulheres com crianças no colo, jovens de olhos úmidos de fé: todos partiram em romaria. Vieram a pé, das roças distantes, carregando pedras na cabeça, botijas d’água nas costas, flores nas mãos e esperança no coração. Caminharam do Coqueiro, onde as cacimbas já tinham secado; do Catolé, trazendo imagens de santos em panos vermelhos; e do Curral Queimado, com os pés sangrando entre pedregulhos.
Até os bravos do Mato Grosso, em Rio Pardo de Minas, atravessaram léguas e léguas sob um céu de chumbo, trazendo nos ombros imagens santas, madeiras e um sonho coletivo. À frente, João Velho conduzia o terço, sua voz rouca rompendo o silêncio dos gerais:
“Não é esmola que pedimos, Senhor…
É justiça para a terra!”
Quando chegaram ao descampado marcado pela fé, o milagre começou a acontecer. No exato momento em que ajoelharam na terra rachada, uma brisa fresca, improvável, quase impossível, soprou entre eles. Parecia um suspiro dos próprios gerais, aliviados pela devoção do povo.
Ali mesmo, com as mãos calejadas de quem sabe manejar enxada e esperança, começaram a erguer o madeiro santo. Clementino, carpinteiro de Salinas, liderou o trabalho. Seu serrote, como quem esculpe a fé, moldava a cruz enquanto o povo cantava:
“Madeiro pesado, dor redimida…
Cravaremos aqui a nossa vida!”
No dia 2 de julho de 1897, enquanto o sol se escondia atrás de nuvens escuras, o Cruzeiro dos Martírios foi fincado no chão ressequido. Dizem os mais velhos que, na mesma hora, Zezinho Costa selou o casamento ali mesmo, e as primeiras gotas de chuva tocaram a testa das crianças: bênção para quem espera com paciência de sertanejo.
Mas o verdadeiro milagre estava nos símbolos pendurados na cruz: os cravos, lembrando o sofrimento que se transforma em esperança; a coroa de espinhos entrelaçada com flores de sempre-viva; e a escada de José de Arimateia, porque naquele instante, o céu encontrou o chão, ao alcance dos humildes do sertão.
Anos depois, quando a seca voltou a ameaçar, o povo retornou em procissão. Desta vez, já havia uma igrejinha, construída por Dona Josefa, que doara o terreno. Durante um temporal, as paredes de barro desabaram, mas a imagem de Nossa Senhora do Amparo permaneceu intacta entre os escombros – sinal claro de que a fé resiste até às tempestades.
Em 1997, no centenário do Cruzeiro, a cidade celebrou com foguetes e missa campal. O vigário, erguendo a voz ao vento, anunciou:
“Esta cruz é testemunha!
Enquanto o geraizeiro tiver coragem de semear em terra seca e esperar a chuva, o sertão viverá!”
E nas noites de lua cheia, quando o vento varre o cerrado em silêncio, alguns juram ouvir sussurros. São as 164 sextilhas de Hermínio Miranda, poeta geraizeiro, que eternizou em versos a coragem de um povo que nunca deixou de acreditar.
