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  • Livros de Levon Nascimento

    Livros de Levon Nascimento

    O escritor Levon Nascimento resolveu compartilhar alguns de seus livros já publicados em versão impressa no universo digital da internet, em formato PDF, para consulta dos interessados.

    Os livros podem ser baixados gratuitamente e compartilhados, no entanto, quem o fizer deve sempre citar a autoria e dar os devidos créditos em caso de citações das obras.

    1. Memorial da Juventude de Taiobeiras (2010): conta a história da Pastoral da Juventude em Taiobeiras/MG. Escrito em parceria com Flaviana Costa Sena Nascimento e patrocinado pelo Projeto Mais Cultura do Ministério da Cultura brasileiro.
    2. Sexagenarius Reflexões pelos 60 anos de Taiobeiras (2014): é uma coletânea de artigos do autor, analisando criticamente o contexto do município de Taiobeiras/MG.
    3. Crer e Lutar (2017): é um livro contendo crônicas, contos e reflexões variadas do autor acerca do recrudescimento fascista na sociedade brasileira e mundial.
    4. Vidas Interrompidas Juventude, violência e políticas públicas em Taiobeiras – Minas Gerais (2018): é a dissertação de mestrado defendida pelo autor (Levon Nascimento) junto ao programa de Maestria en Políticas Públicas ofertado pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), em parceria com a Fundação Perseu Abramo.
  • Artigo do Levon: Minha conversa com um apoiador do ex-capitão

    Artigo do Levon: Minha conversa com um apoiador do ex-capitão

    * Levon Nascimento

    – Ah! Mas, como pode o Papa Francisco receber Lula, um ladrão?

    – Jesus Cristo andou com os pobres, as adúlteras, as prostitutas, os publicanos e os pecadores. Além do mais, foi crucificado entre ladrões.

    – Ah! Mas o Lula é um condenado!

    – Mas Jesus nos ordena a não julgar para não sermos julgados.

    – Ah! Mas o Lula foi condenado pela Lei dos homens.

    – Sim! Foi condenado num processo cheio de controvérsias, que segundo grandes especialistas em direito do mundo inteiro, que leram a peça condenatória, não tem as provas demonstrativas de roubo e culpa. Basta lembrar que quem condenou Lula foi um juiz político que se aproveitou da situação para virar ministro do principal beneficiado da prisão do petista. Logo, não foi um juiz imparcial.

    – Ah! Mas, se está respondendo processo é porque tem culpa no cartório.

    – Pode ser e pode não ser. Jesus também foi vítima de um processo e foi condenado. Ele tinha culpa?

    – Heresia! Você está comparando Jesus com Lula?

    – Não. Mas o exemplo de Jesus serve para todos os seres humanos, sem distinção. Somos todos imagem e semelhança de Deus.

    – Ah! Mas por que o Papa não recebe o Bolsonaro?

    – O Papa, como líder religioso, recebe lideranças do mundo inteiro, de direita, de esquerda, de centro. Basta o Bolsonaro marcar uma audiência. Mas, no dia da canonização da irmã Dulce no Vaticano, Bolsonaro preferiu não ir e foi receber “a bênção” do Edir Macedo. Direito dele, claro.

    – Ah! Mas, por que você defende tanto o Lula?

    – Lula é um ser humano como eu e você. Mas é uma grande liderança nascida da pobreza e que representa o povo humilde e humilhado num país de cultura escravocrata. No governo dele, pela primeira vez, existiram políticas públicas visando a melhoria de vida dos mais pobres, das mulheres, dos negros, dos gays, dos trabalhadores, dos estudantes. E isso ninguém pode negar.

    – Ah! Mas o Bolsonaro está mudando o Brasil.

    – Não é o que dizem os números. O desemprego aumenta as agressões através da informalidade, a pobreza se multiplica e as políticas em favor dos mais necessitados são interrompidas ou destruídas. O obscurantismo e a anti-ciência transbordam, e as milícias e corrupções se escancaram, muito mais do que em outros tempos. Só o grande capital especulativo está tendo vantagens. E isto não é bom para o Brasil e nem para a maioria dos brasileiros.

    – Ah! Mas você é um petista que tem bandido de estimação. Não tem conversa com você.

    – Na democracia a gente pode ser petista ou filiado a qualquer outro tipo de partido político ou ideologia democrática. O que não pode é idolatrar torturador e psicopata, como faz o Bolsonaro em relação ao tal de Ulstra, nem ser envolvido com o crime organizado das milícias, que salta aos olhos de quem acompanha a cena política atual.

    – Ah! Petista é tudo igual! Vocês são viciados.

    – Não! Petista é cidadã e cidadão, geralmente com uma história de defesa dos direitos humanos e um bom conhecimento de conjuntura política. Não é melhor do que ninguém, mas também não é pior. Vamos buscar o diálogo e vamos respeitar a todos. Porém, queremos respeito a nossos pontos de vista. Também, respeitemos o Papa, que é um homem iluminado, a serviço do bem-comum do Evangelho, e ao Lula, que culpado ou inocente, tem o direito de buscar a bênção de Deus como qualquer um de nós. Abraços.

    * Professor de História, sociólogo e mestre em Políticas Públicas.

  • Artigo do Levon: Quando vão queimar os livros?

    Artigo do Levon: Quando vão queimar os livros?

    * Levon Nascimento


    Logo pela manhã, li a notícia de que a Secretaria de Educação do Estado de Rondônia havia enviado ofício sigiloso às bibliotecas escolares ordenando que obras literárias dos grandes mestres brasileiros fossem retiradas de circulação.

    Dentre os autores: Machado de Assis, Nelson Rodrigues, Euclides da Cunha, Osvald de Andrade, Rubem Braga, etc. Explicito: até o maior escritor da Língua Portuguesa, o “mulato” Joaquim Maria Machado de Assis!


    Em que pese o recuo do secretário de educação rondoniense, após vazado o ofício sigiloso, é bom lembrar a quem não sabe que o governo de Rondônia está alinhado ao pensamento de Jair Bolsonaro e ao famigerado Escola Sem Partido, batalha fanática de extrema-direita que apregoa o risco de um tal de marxismo cultural, simplesmente inexistente.

    Para essa gente, qualquer arte e pensamento crítico é comunismo. Eles odeiam a inteligência.
    Também é preciso ressaltar que toda ditadura proíbe a leitura de livros que considera oponentes à sua ideologia. É na democracia que há liberdade para o pensamento e a expressão. Estamos em ditadura no Brasil?

    Que se ressalte que o governo Bolsonaro planeja financiar apenas peças teatrais e obras cinematográficas que falem o seu idioma fundamentalista. Volto a perguntar: estamos numa democracia?

    Porém, o que mais me admirou na notícia é que no tal ofício de Rondônia havia uma ordem expressa para que “todos os livros de Rubem Alves” fossem suprimidos.

    Rubem Alves, já falecido, foi um pensador e escritor presbiteriano brasileiro que, sem abdicar de sua fé, tornou-se um ilustre combatente pelas letras contra a famigerada ditadura militar brasileira (1964-1985). Falava de fé, política, educação, cidadania e participação.

    Não por acaso, tenho há mais de vinte anos um exemplar de sua obra “Conversas sobre política” (Editora Verus). Didático, cristão e contundente, este livro não me sai de vista. Inspira-me muito.

    Daí que quero aproveitar a deixa para questionar vários amigos evangélicos (não todos, evidentemente), alguns deles presbiterianos, que ainda se comprazem de apoiar a ideologia que dá sustentação a Bolsonaro, convencidos de que participam de uma verdadeira cruzada cristã pela restauração moral do Brasil, em nome de Cristo. Respeito-os, mas os considero equivocados.

    Pergunto-lhes: o autêntico cristianismo, inclusive aquele a que Rubem Alves foi filiado e testemunha, combina com a perseguição ideológica e a falta de liberdade que se anunciam sem desfaçatez no Brasil?

    Quanto às obras censuradas, leiam-nas antes que as fogueiras sejam acesas. Foi assim na Alemanha de Hitler.

    * Levon Nascimento é professor de História e mestre em Políticas Públicas.

  • Artigo do Levon: Existe espaço para uma candidatura de esquerda em Taiobeiras?

    Artigo do Levon: Existe espaço para uma candidatura de esquerda em Taiobeiras?

    * Levon Nascimento

    A busca pela resposta da pergunta acima precisa ser cuidadosamente pensada por quem deseja uma Taiobeiras melhor e mais justa.

    No segundo turno da eleição presidencial de 2018, diante da campanha política mais escandalosa e viciada que o Brasil já viveu na era democrática, Fernando Haddad, do PT, alcançou em Taiobeiras 34,7% dos votos válidos, contra 65,3% do ex-capitão expulso do Exército, candidato da extrema-direita.

    Parece pouca a votação de Haddad, sobretudo em comparação com o resultado norte-mineiro, região em que está Taiobeiras, onde o candidato petista venceu em mais de 90% dos municípios.

    No entanto, estamos a tratar de Taiobeiras, município fortemente alinhado à visão aristocrática da sociedade, historicamente dominada por um alinhamento a princípios de direita.

    Não custa lembrar de que em Taiobeiras não venceram Vargas, Juscelino e Lula, os três presidentes mais populares da história brasileira.

    Na política local, em linha do tempo, prevaleceram sucessivamente a UDN, a ARENA e o PSDB, os partidos em que periodicamente se organizaram as oligarquias brasileiras anti-povo, mesmo com metade da população vivendo com uma média de menos de meio salário mínimo per capita, segundo dados do CadÚnico em 2016. Com a crise econômica persistente, nada faz supor que esse indicador tenha melhorado na atualidade.

    Além do mais, praticamente não houve campanha orgânica de Haddad no município. Daí que a sua votação quase que espontânea revela que há um público de cerca de 5.600 pessoas (e suas respectivas famílias) que não se deixou dominar pela avalanche de fake news e ódio fascista.

    Também, nada faz supor que os votos dados ao ex-capitão expulso do Exército são necessariamente expressões do pensamento fascista. O mais correto seria entender que uma grande parte da população se deixa guiar pelo pensamento hegemônico no município. Uma candidatura diferenciada na proximidade municipal poderia despertar a atenção de parte desse público para uma agenda de conquistas coletivas, retirando-o da bolha bolsonarista.

    Em que pese a fragilidade da representação de esquerda no município, admito, esse quadro revela que há espaço para uma candidatura à prefeitura alinhada aos princípios de igualdade social e econômica para a maioria do povo.

    O eleitorado de Haddad não se deixou encabrestar e há chances de crescer entre os votos de Bolsonaro, explorando a identidade de classe trabalhadora e sofredora, que une a maioria dos taiobeirenses.

    Penso além: acredito que seria a oportunidade de politizar temas que dizem respeito às condições da maioria do povo, que vive em situação de vulnerabilidade social, econômica, racial e de gênero.

    O candidato da esquerda poderia furar o bloqueio da falta de debate das candidaturas tradicionais, que invariavelmente focam em ataques pessoais e comparações de personalidade dos competidores. Seria a chance ideal de qualificar a disputa política, dando-lhe o que deveria ser comum: opção de fato ao eleitor.

    Resta organização, desprendimento e coragem a quem sonha com uma Taiobeiras do século XXI, distante do pensamento escravocrata do século XIX.

    * Levon Nascimento é professor de História e mestre em Políticas Públicas.

  • Taiobeiras aos 66 anos: um sonho de generosidade (Artigo de Levon Nascimento)

    Taiobeiras aos 66 anos: um sonho de generosidade (Artigo de Levon Nascimento)

    Taiobeiras nasceu da imigração dos baianos, tropeiros que vinham para Minas Gerais em busca de uma vida melhor. Era terra de passagem, que aos poucos se tornou o lar definitivo de muita gente. Hoje é a somatória de culturas, esperanças e sonhos de um povo.

    O povo de Taiobeiras – eu diria, o nosso povo – é plural, diverso, intenso e tem sonhos muito claros. Não se trata somente do sonho materialista de enriquecer. Falo do sonho de construir uma vida digna, bonita e cheia de significados.

    Primeiro, Taiobeiras pertenceu a Rio Pardo de Minas. Depois, a Salinas. A luta pela emancipação, o sonho de ser uma cidade que se destaca, não foi só das famílias tradicionais e ricas. Todo o povo trabalhador, homens, mulheres e jovens, participaram desse esforço de ser cidade. E continuam lutando para participar.

    Nos últimos anos, viveu-se um clima de muita tristeza em Taiobeiras por causa da violência que tirou a vida de muitos jovens. Eu acredito que a luta pela paz, pela cultura de paz, pelo respeito à vida, não para nunca. Todo dia é preciso começar de novo. Temos que incutir na cabeça dos jovens, com políticas públicas e bons exemplos, o gosto pela paz e pela vida digna.

    Taiobeiras é sem dúvida uma cidade muito bonita, destaque no Alto Rio Pardo e Norte de Minas. Mas é preciso que fique ainda mais bela – de outro tipo de beleza, proporcionando oportunidades de igualdade ao nosso povo. Ninguém pode ser discriminado em Taiobeiras por raça, religião, orientação sexual, condição econômica ou opção política. Que os direitos de emprego, respeito e valorização sejam para todos os taiobeirenses. Sonho com isso.

    Eu aprendi a entender o mundo enxergando Taiobeiras. É uma relação de família, de amor. Aqui eu fiz a minha vida. Aqui eu me fiz como gente. Meus livros, meus textos, minhas abordagens sempre partiram da realidade taiobeirense. Eu não sou quem sou sem que Taiobeiras seja o que é.

    Nestes 66 anos de emancipação política e de autonomia, como diz a canção, que a festa seja dentro de nossas almas, por generosidade. Uma salva de palmas para a nossa cidade de Taiobeiras!

    * Levon Nascimento é professor de História e mestre em Políticas Públicas.

  • O projeto de poder

    * Levon Nascimento

    – O poder… Ah! O poder! Que mal há em ti?
    – Todos e nenhum.
    – Mas, como? Que mistério é esse, o teu?
    – Ora, todos os vícios e malícias humanas passam por mim; ou pelo desejo de me possuir.
    – Então, de fato, tu és maligno!?
    – Não. Em verdade, eu não tenho essência ou alma, como queira. Sou como o vidro translúcido. Nada se agarra em mim. Diria que minha grande característica é a de ser escorregadio, como a pedra coberta pelo musgo.
    – Ora, se tu não és em essência, por que tantos te querem?
    – Não me querem por quem sou ou pelo que eu sou, mas pelo que ambicionam ser, cada um e cada uma.
    – Não entendo. Querem-te para quererem a si próprios.
    – Sim, para se afirmarem quem são.
    – Mas, e o mal que tu dizes ter e que também afirmas não ser?
    – É! Não tenho o mal. Nem sou o mal. Sou um intermeio. Por mim podes amar e odiar, construir e destruir, elevar e fazer cair.
    – Então, o que há de bom em ti?
    – Se queres servir, não há melhor meio do que por mim. Se queres dominar, também o farás, se me dominar.
    – Então, a escolha está em mim?
    – Se me queres apenas para ti, serás consumido por mim. Se me queres por bem-querer aos teus semelhantes, para servi-los de bem-comum, serei teu parceiro.

  • A frase de Morgan Freeman sobre Consciência Negra

    Levon Nascimento

    Volta e meia, perto do dia 20 de novembro de cada ano, aparecem pessoas postando uma suposta frase dita pelo famoso ator negro estadunidense Morgan Freeman (O Todo Poderoso e outros filmes). A seguir: “O dia em que pararmos de nos preocupar com Consciência Negra, Amarela ou Branca e nos preocuparmos com Consciência Humana, o racismo desaparece”.

    Essa frase, aparentemente correta e de boa vontade, deixa subentender que o racismo existe porque se insiste em ressaltar as “consciências” das diferentes raças.

    Fica parecendo que a “culpa” pela existência do racismo é de quem insiste em denunciá-lo. Logo, se parássemos de falar de “cultura negra”, por exemplo, o racismo contra negros deixaria de existir.

    Idem para as políticas afirmativas, como as cotas para negros, pardos e indígenas em universidades, também a título de exemplo.

    O que esse texto atribuído ao ator norte-americano não esclarece é que o racismo contra negros passou a existir, há cerca de 500 anos, por conta da ganância do sistema econômico capitalista nascido na Europa, que incutiu na cabeça daqueles seres humanos a trágica ideia de que os povos não brancos não teriam consciência, logo não seriam tão humanos quanto os europeus-brancos.

    Portanto, celebrar a consciência negra, ou outras consciências não-brancas, não é estímulo ao racismo ou à separação. Pelo contrário, é ressaltar que todos, além dos povos brancos, também têm consciência e, portanto, são tão humanos quanto.

    Cuidado com as frases feitas. Elas podem esconder justamente aquilo que aparentemente parecem combater.

  • Artigo: Conformados com o farelo da Casa Grande, por Levon Nascimento

    Artigo: Conformados com o farelo da Casa Grande, por Levon Nascimento

    *Levon Nascimento

    Dia desses, num espaço público da cidade, eu lia um panfleto deixado propositalmente para que as pessoas o levassem de graça, publicado por um proletário que se contenta em beliscar os farelos que lhe caem da mesa da Casa Grande local. Lamentando, ele afirmava que o Presidente (assim mesmo, com “p” maiúsculo) recebe críticas injustas, xingamentos e acusações de gente que torce para que o Brasil não dê certo. Mais: que não se pode atacar daquele jeito o chefe da pátria (com “p” minúsculo, escreveu), que deve reagir com bravura. AI-5?

    Lembrei-me na hora de que o dito escritor não se incomodou quando o ex-presidente Lula tornou-se vítima (e ainda é) de bullying por ter perdido um dedo da mão no chão de fábrica, nem quando a ex-presidenta Dilma, xingada aos palavrões pela classe média paulista na abertura da Copa do Mundo de 2014, foi caricaturizada nas tampas do reservatório de combustível dos carros, a simular um estupro, no tempo em que o litro da gasolina ainda custava R$ 2,80 e o botijão de gás de cozinha se comercializava a R$ 40,00. Antes pelo contrário, ele aplaudiu e justificou: “o gigante acordou!”

    Por que me espanto? Afinal, se os atingidos forem a representação do operário ou da mulher, tudo pode.

    Fui além, para não ficar só no campo da esquerda, recordei-me da época em que Dona Lia (PSDB) era prefeita de Taiobeiras (1993-1996). Ainda adolescente, eu não tinha a capacidade reflexiva e o arcabouço teórico para compreender e externar o que sentia, mas já me incomodava o machismo e a misoginia com que a única representante do sexo feminino a ocupar a cadeira principal do Paço do Bom Jardim era tratada nas ruas e nos demais ambientes sociais. Não! Nunca foi crítica política ou de oposição de ideias, mas insultos baixos pelo fato único e exclusivo de a chefe do executivo municipal ser uma mulher, era óbvio.

    Nas eleições municipais de 1996, enquanto Dona Lia apoiava a candidatura a prefeito de seu vice, Donato Rodrigues, pai do atual governante de Taiobeiras, Danilo Mendes Rodrigues (PSDB), o ex-governador Newton Cardoso, visivelmente embriagado, subiu no palanque do adversário, que terminaria por vencer o pleito, e xingou a prefeita fazendo referência ao órgão genital feminino, para delírio e aplauso da multidão.

    De lá para cá, pouca coisa mudou por aqui em matéria de avanço civilizatório. Muitos dos que orgasticamente celebraram a misoginia direcionada a Dona Lia, mulheres inclusive, aplaudem os despautérios preconceituosos de Bolsonaro. Cotas continuam a serem vistas como privilégio para negros; apenas uma mulher alcançou a vereança e a esquerda jamais conseguiu lograr vitória. É um município de lordes ingleses situado no polígono das secas, em que a metade da população precisa de algum programa social para complementar a renda, sem deixar de se portar como milordes e miladies, of course!

    As agressões brutais e covardes à honra, à moral, à condição operária e/ou feminina de Lula, Dilma e Dona Lia, bem além de suas opções partidárias, em contraposição à justa crítica política ou às necessárias denúncias de possível envolvimento com os criminosos milicianos, dirigidas a Bolsonaro, como os distintos tipos de indignação que despertam, em diferentes figuras, demonstram o nível civilizatório do brasileiro comum (e do taiobeirense, em particular), como o escriba do folhetim: dóceis e subalternos para com as forças hegemônicas do machismo, da misoginia e do neoliberalismo escravocrata; porém brutos e cruéis em relação aos ícones de destaque da emancipação trabalhadora e feminina.

    Tenho cá comigo que a luta presente está muito além de nomes: Lula, Dilma, Dona Lia, Bolsonaro ou quem quer que seja. É o enfrentamento fundamental entre o ser humano decaído, sombrio e ruim contra o ser humano que evolui à generosidade, ao respeito e ao amor.

    Escriba, saia de debaixo da mesa. A vida é bem mais gostosa do que as migalhas que lhe caem.

  • Declaração de voto

    * Levon Nascimento

    O Brasil passa por um golpe e pelo pior ataque à democracia desde a ditadura militar (1964 a 1985).

    As pessoas de boa vontade, os democratas e humanistas, e os que sonham com uma sociedade mais justa precisam reagir politicamente.

    Nestas eleições, além de garantir a vitória dos candidatos majoritários (governador, senadores e presidente da República) afinados com as pautas do povo trabalhador, é necessário escolher o maior número possível de deputados estaduais e federais que garantam conquistas e evitem a retirada de direitos (Reforma da Previdência, entrega dos recursos naturais, etc.).

    Temos excelentes companheiros e companheiras de luta para serem nossos (as) representantes na Assembleia Legislativa de Minas Gerais e na Câmara dos Deputados, em Brasília. Fiquei com o coração partido de não poder votar em todos.

    Beatriz Cerqueira, grande lutadora das causas da educação em Minas, merece voto para deputada estadual.

    Rogério Correia, um dos parlamentares mais aguerridos e comprometidos de Minas Gerais, merece voto para deputado federal.

    Padre João, parlamentar importantíssimo no Congresso Nacional, aliado dos movimentos populares, merece voto para deputado federal.

    Mas tive de fazer uma escolha.

    Escolhi pensando na capacidade de luta parlamentar, que todos os citados anteriormente têm de sobra, mas também a partir das necessidades de representação regional do Norte de Minas.

    *Escolhi Leninha 13456, minha candidata a deputada estadual. Mulher, negra, militante das causas sociais, revelação política, uma legítima representante dos povos trabalhadores norte-mineiros.*

    *Escolhi Paulo Guedes 1378, meu candidato a deputado federal. Sertanejo e parlamentar de coragem, grande líder dos povos norte-mineiros.*

    Não tiro nenhum voto dos companheiros do Partido dos Trabalhadores e aliados de esquerda. Precisamos de Beatriz Cerqueira, Rogério Correia, Padre João, Leninha e Paulo Guedes nos parlamentos. Todos eles são importantes e necessários para a garantia da democracia e das conquistas do povo.

    *Com Dilma 133 (Senadora), Miguel Corrêa 130 (Senador), Fernando Pimentel 13 (Governador) e Lula-Haddad-Manu 13 (Presidente), vamos à luta!*

    Professor Levon Nascimento e família
    Taiobeiras, 10/09/2018.
  • A culpa é do professor: outro "p" deste país

    * Levon Nascimento

    Utilizar erroneamente as redes sociais é fonte de dores de cabeça. Um dia da caça, outro do caçador. Embora este texto não seja sobre redes sociais, mas a respeito do suicídio profissional que se cometeu ao tratar os professores de Taiobeiras como larápios, na semana que passou, através das ditas ferramentas de comunicação virtual.

    Para ser professor o cidadão tem que fazer graduação superior, pós-graduação lato sensu e vários cursos de aperfeiçoamento ao longo da carreira, como em qualquer profissão liberal: médicos, advogados, enfermeiros, engenheiros, etc.

    Mas são mal pagos. Ultimamente nem têm recebido em dia, além do parcelamento dos salários ao longo do mês. Isso sem falar do desrespeito cotidiano de alunos malcriados, estruturas escolares sucateadas e a concorrência, pelo interesse dos estudantes, com a mídia venal e o tráfico.

    No entanto, geralmente os pais de alunos, que empurram os rebentos aos cuidados dos “mestres”, têm colocado a culpa nesses pela crise financeira pela qual passa o setor de educação.

    A Constituição de 1988 é muita clara em dizer que educação é direito de todos e dever do Estado, da família e da sociedade.

    Acontece que o Estado brasileiro, no pós-golpe de 2016, tem retirado recursos, acabou com a regra de destinação dos royalties do Pré-Sal para as escolas e trata os professores como estorvo e não como ativo.

    Enquanto os altos escalões da República ganham acima do teto, viajam para receberem premiações escusas em paraísos fiscais e auferem auxílio-moradia mesmo tendo casa na cidade em que trabalham, professores são tratados como culpados pela falta de recursos públicos, pelos baixos índices educativos do país (como se fossem os únicos responsáveis por isso) e ainda têm que sustentar a atividade de ensino com recursos próprios, pois sem isso não conseguem trabalhar.

    Nem se fala do risco de aprovação da lei de censura “escola com mordaça”.

    É o xerox das atividades, a vaquinha para a festa do dia das crianças e do estudante, os refrigerantes para servir na recepção dos pais e mães de alunos no dia da festa da família na escola. Tudo sai do bolso dos professores. Além de serem babás de algumas crianças cujas famílias não se importam (ou não podem?) em ofertar o mínimo de ensinamentos para saberem viver em coletividade com respeito.

    Pois não é que em Taiobeiras esses mesmos professores estão sendo acusados de “viajar para praia às custas dos pais”? Aliás, para as “melhores praias do Brasil”. Tudo na teia do Mark Zuckerberg.

    É triste ver proletário atacando proletário, pobre atacando pobre, pais de alunos atacando professores. Enquanto isso, os grandes riem de nós.

    Rede social aceita tudo. No passado era o papel. Com outros ditados, “quem conversa demais dá bom dia a cavalo”, “muito ajuda quem não atrapalha” e fulano “calado é um poeta”.

    Viva as professoras e os professores deste país!

    * Professor de história, escritor e mestre em Estado, Governo e Políticas Públicas.
  • Sobre a crise dos combustíveis

    Esqueça um pouco do disco arranhado da corrupção. Vamos discutir o país? Sobre a crise dos combustíveis.

    Os governos Lula e Dilma pensavam a Petrobrás pela ótica do interesse do Estado brasileiro, visando o desenvolvimento econômico nacional a longo prazo. Nunca foram comunistas. A lógica era a de um capitalismo moderado (se é que isso seja possível).


    Os liberais do PSDB, juntos com Temer, que lhes serve, pensam na Petrobrás como um instrumento de ganhos privados (particulares), servindo às ordens das petroleiras estrangeiras.


    Ao assumir a presidência, Temer nomeou o tucano Pedro Parente, ex-ministro de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), para presidente da Petrobrás.


    Ao contrário da época de Dilma, em que a presidência da Petrobrás controlava os preços dos combustíveis até onde era possível (Dilma chegou a ser processada por não deixar a livre concorrência determinar o preço da gasolina), Pedro Parente passou a deixar “o mercado” conduzir os preços.


    O interesse do “mercado” é sempre o do lucro dos acionistas, gente rica, muitos estrangeiros, pouco se importando se está caro ou não para os consumidores comuns.


    Ou seja, a crise que temos agora é fruto do LIBERALISMO ECONÔMICO que algumas pessoas, equivocadamente, defendem como sendo o “novo” remédio para o país.


    O correto é defender o controle público do Brasil sobre suas reservas de combustíveis fósseis, assim como sobre outros setores estratégicos para o desenvolvimento nacional.


    Nada de intervenção militar, que não resolveria os problemas econômicos da Nação. Nada de histeria e maluquice. A saída é pela democracia e por eleições livres, com a participação de todos os partidos políticos, expondo com clareza o projeto de cada um para o Brasil.

  • Qual justiça?

    * Levon Nascimento
    A derrotar o pedido de HC para Lula, os seis ministros do STF alegaram que é preciso interpretar a Constituição Federal segundo a vontade das ruas. Seria como na Idade Média, em que mulheres eram queimadas nas fogueiras da inquisição porque uma grande quantidade de homens bradava nas ruas que elas estavam possuídas pelo demônio. A justiça se dava na base do grito.
    A Constituição diz que ninguém pode ser considerado culpado antes de que o processo transite em julgado, ou seja, sem que o processo chegue ao final. Mas, a Constituição não existe mais no Brasil. Nem a democracia.
    Muita gente a favor da prisão do ex-presidente Lula lembrou que no país os processos demoram muito e que a justiça tarda e acaba não sendo feita.
    Mas alguns problemas precisam ser levantados. Lula foi condenado já em segunda instância, apesar de vários juristas, a maioria deles longe de ser petista, afirmarem que seu processo tem falhas graves, que não apresentou provas e que se baseou apenas em delações premiadas ( quando o sujeito já condenado, denuncia outro em troca de ganhar redução da pena e de não perder parte do dinheiro roubado com corrupção).
    Dessa forma, Lula estaria sendo vítima de um processo político e não se teria 100% de certeza de que realmente é culpado do crime que lhe imputam.
    Quando se observa que os políticos dos partidos adversários a Lula jamais foram julgados e nem sequer passaram perto do tipo de tratamento que é dado ao líder petista, começa-se a dar razão a esses juristas que questionam o processo em que Lula foi condenado por conta do tal tríplex do Guarujá.
    Aécio Neves, com malas e gravações, está livre. Michel Temer, com áudio, malas e outros escândalos, está na presidência. Geraldo Alckimin, José Serra, FHC, Eduardo Azeredo, com processos prescrevendo por causa da lentidão da Justiça, que jamais prendeu tucanos. Até Eduardo Cunha, ninguém sabe como realmente se encontra.
    Dá para desconfiar de que, na verdade, trata-se de uma imensa perseguição a Lula, justamente porque ele é o líder absoluto nas pesquisas de intenção de votos a presidente da República para as eleições de 2018.
    Também contribuiu para se passar da desconfiança à certeza de que é uma perseguição política implacável, a campanha de grupos de direita, da Rede Globo e dos demais veículos da grande mídia, de setores privilegiados do Judiciário e até de parte das Forças Armadas contra Lula.
    É um processo político para impedir eleitoralmente o líder político mais bem avaliado da história brasileira. Justamente aquele que governou criando políticas que redistribuíram renda, melhorou a economia do país e incluiu milhões de brasileiros pobres à condição de sujeitos de direito, com acesso aos bens da cidadania.
    Dá para se ver que o processo que condenou Lula, na verdade, não ouviu a voz das ruas. Pelo menos não das ruas onde vivem os trabalhadores, os mais humildes, os que foram incluídos pela cidadania na era petista. E nem deveria. Os tribunais devem se ater à letra da lei. No caso do STF, sua missão seria a de ser o último guardião da Constituição Federal. Nela está escrito que ninguém será considerado culpado antes do trânsito em julgado de um processo.
    A Justiça, ao não conceder o HC a Lula, permite que o ex-presidente seja preso a qualquer momento, antes que seu processo termine. Supondo que, futuramente, nas instâncias superiores se descubra que ele não é culpado do que o acusam, já será tarde demais. O ex-presidente terá experimentado a cadeia, sido humilhado e seu legado político vilipendiado. Da mesma forma, não poderá disputar a eleição, permitindo que candidatos fascistas, que desprezam a democracia, ocupem o seu espaço.
    Os seis ministros do STF que disseram estar ouvindo os clamores das ruas e da sociedade para não concederem o direito de Lula responder a todo o processo em liberdade, fizeram igual a Pôncio Pilatos no histórico julgamento de Jesus. Mesmo não encontrando crime algum no Filho de Deus, mandou surrá-lo, coroá-lo de espinhos e matá-lo numa cruz porque a multidão, manipulada pelos sacerdotes do templo (uma espécie de Rede Globo da época), gritava histérica a favor da condenação do nazareno na porta do palácio do governador romano da Palestina ocupada.
    Antes que digam que estou comparando Lula com o Filho de Deus e que dessa forma cometo sacrilégio ou blasfêmia, digo em minha defesa que a analogia se restringe à forma como ambos os julgamentos foram conduzidos: parciais, manipulados, a serviço dos grandes e poderosos, contra réus inocentes, em desserviço do bem comum e da coletividade.
    Ademais, Jesus mesmo nos ensinou a ter fome e sede de Justiça. É o que resta aos brasileiros progressistas, nacionalistas e solidários nesta triste hora da Nação. Justiça que não seja a praticada pelo Poder Judiciário.
  • O jejum de Dallagnol

    O procurador da República Deltan Dallagnol informou que está em jejum e oração para que o STF permita que o ex-presidente Lula vá para a cadeia, por conta do tal tríplex do Guarujá. Dallagnol é evangélico e jejuou na Páscoa.
    O papel de um procurador é levantar as provas para embasar a acusação que faz a um réu. Sem provas não há crime. O procurador tem todos os meios e instrumentos legais para coletar as provas, se elas realmente existirem.

    No caso, em quatro anos, o procurador não conseguiu nenhuma prova contra Lula, a não ser delações de presos que ganhariam redução de pena caso citassem o nome de Luiz Inácio Lula da Silva, o que só reforça a tese de que o ex-presidente é inocente em relação às acusações que o procurador Deltan Dallagnol e sua equipe lhe fazem.
    Daí, do lado jurídico e moral, o procurador comete injustiça, pois visa prender alguém mesmo sem possuir provas concretas de que ele cometeu um crime. Do ponto de vista religioso e cristão, para quem tem fé, é mais execrável ainda, pois usa o nome de Deus e abusa de práticas sacrossantas (jejum e orações) para mobilizar pela prisão de uma pessoa contra quem ele não conseguiu produzir uma única prova substancial (que seria sua função).
    Se é que realmente Deltan Dallagnol, que é da Igreja Batista, acredita em Deus…

  • Taiobeiras e a superação da violência

    * Levon Nascimento
    A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), órgão máximo da Igreja Católica no país, escolheu “Fraternidade e superação da violência” como tema da Campanha da Fraternidade de 2018, atividade sugerida para o tempo litúrgico da Quarema, sob o lema retirado do Evangelho de Mateus, “Em Cristo somos todos irmãos” (Mt 23,8).
    Enquanto isso, assistimos a uma atividade de intervenção militar federal no estado do Rio de Janeiro, sob a qual pairam dúvidas se é realmente para resolver os graves problemas na segurança pública da sociedade fluminense ou se para ressuscitar os moribundos números de popularidade do Governo Federal. A julgar pelas imagens escandalosas de crianças negras e faveladas tendo as mochilas escolares reviradas por agentes armados com material de guerra, temo que a segunda opção, a do marketing político, seja a mais provável.
    Em Taiobeiras, a violência permanece a assustar. Os jovens são as maiores vítimas – e dentre esses, os jovens pobres. De acordo com o Armazém de Dados da PMMG, no período de 1º de janeiro de 2016 a 26 de dezembro de 2017, Taiobeiras ocupou a 5ª posição no ranking de homicídios entre as 61 cidades que compõem a 11ª Região da Polícia Militar de Minas Gerais. À frente de nós, respectivamente, apenas Montes Claros, Janaúba, Jaíba e Nova Porteirinha. E, enquanto esses municípios apresentaram variação de queda de 2016 para 2017, nossa cidade subiu 29% neste mesmo espaço temporal. No Alto Rio Pardo, a cidade mais próxima de Taiobeiras em número de mortes violentas é Salinas. Mesmo assim, encontra-se oito casas abaixo, em 13º lugar na 11ª RPM, e apresentando estabilidade de um ano para o outro.
    Conforme dados extraídos do Cadastro Único de programas sociais do Governo Federal, 50,07% da população de Taiobeiras se encontravam em posição de maior ou menor grau de vulnerabilidade em 2016, apresentando baixíssima renda. Isto equivale à metade dos habitantes do município. Em maio daquele ano, cerca de 7.500 taiobeirenses sobreviveram com, no máximo, R$ 77,00 per capita. Pelo agravamento da crise econômica e com a retirada de direitos patrocinada pelo golpe de Estado, não creio que a situação tenha melhorado, se é que não piorou.
    Muito se especula sobre as causas dessa violência taiobeirense. Sou pela tese de que, aliado a este nosso fosso social, em que metade do povo se encontra na pobreza extrema, há uma questão processual e histórica. Sempre fomos complacentes com a agressividade, de todas as formas: de homens contra mulheres, da exploração sexual de crianças e adolescentes, da grilagem de terras que expulsou os pequenos do campo, das formas de trabalho análogas à escravidão, num passado não tão remoto, e dos jovens deserdados pelas instituições, assimilados e manietados pelo tráfico de drogas.
    É evidente que não é problema só de Taiobeiras. Todos os estudiosos da área de criminalidade e segurança pública apontam para a interiorização da violência nas duas primeiras décadas do século, que chega às pequenas cidades e até ao meio rural. A expansão da dinâmica globalizada, com relações de trabalho mais impessoais, apelo acentuado ao consumismo e quebra dos antigos laços comunitários de sociabilidade, contribui para que se reproduza nas localidades menores o processo de individualização e mercantilização da vida que já se conhecia nas grandes cidades do Brasil e do mundo.
    Ocorre que em lugares pobres, vulneráveis e historicamente condescendentes com práticas de agressões aos direitos humanos, como em Taiobeiras, essa nova realidade global veio se somar negativamente, inflacionando dores e tragédias, dando-lhes um caráter ainda mais brutal e cruel.
    Melhor do que apostar em saídas fascistoides, que vomitam nas redes sociais e nas conversas de boteco os bordões do tipo “bandido bom é bandido morto” ou “morreu porque era do tráfico”, acredito que o esforço em Taiobeiras deve se concentrar na execução de políticas públicas sociais e de segurança que se sirvam de inteligência informacional, zelo pela pessoa humana e capacidade orçamentária e profissional de articulação, eficiência e efetividade para ações integradas entre o “social” e a “segurança”.
    É um caminho longo, que não permite aventuras como a intervenção do Rio. Sabendo que “em Cristo somos todos irmãos”, como professa a Igreja, é necessária a paciência fraternal para salvar os que se desgarraram do caminho da paz.
    * Levon Nascimento é mestrando em Estado, Governo e Políticas Públicas pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso Brasil) e Fundação Perseu Abramo. Sua dissertação tem como tema “políticas públicas e a violência em Taiobeiras”.
  • O que a escola pode ou não pode ensinar?

    Provavelmente, você já recebeu uma mensagem via WhatsApp, de pessoas que se dizem “a favor da Família”, com o seguinte teor:

    *NA ESCOLA* NÃO se aprende sobre:
    1 – Sexo
    2 – Ideologia de Gênero
    3 – Ativismo LGBT
    4 – Comunismo
    5 – Esquerdismo
    6 – Islamismo

    Veja o que acho da mensagem, a qual considero de uma vulgaridade e imbecilidade sem tamanho.

    Quanto ao que a escola deve ou não deve ensinar, é uma decisão do corpo docente, amparado por sua formação intelectual, acadêmica e por procedimentos colegiados que respeitem preceitos legais, laicos e científicos.

    Por exemplo:

    1) Por qual motivo um de professor de História não poderia ensinar sobre a factualidade da Revolução Russa, que instituiu o socialismo naquele país euro-asiático em 1917, ou sobre o pensamento de Karl Marx, tanto quanto de Adam Smith, opostos entre si?

    2) Por qual motivo o professor de Ciências não poderia falar sobre sexo, sexualidade, reprodução humana e educação sexual?

    3) Por qual motivo um professor de Educação Religiosa não poderia abordar a filosofia, os valores e o conjunto de crenças do Islamismo?

    4) Por que um projeto pedagógico não poderia remeter, via debate democrático, às pautas LGBT+, uma vez que a presença e emancipação de alunos LGBTs no meio escolar cada vez se fazem notar mais?

    Enfim, tenho receio dessa onda de “receitas” por WhatsApp. Elas tendem a querer ditar “o que pode” e “o que não pode”, condensando-se numa nova maneira de autoritarismo, sutil, mas tão nefasta quanto os antigos “Index Proibitorum” medievais.

    A escola é o lugar da experiência, do tocar no intocável, o espaço privilegiado daquilo que justamente faz a roda da civilização humana rodar e progredir.
  • Será que tem violência que é boa?

    A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), órgão máximo da Igreja Católica no Brasil, divulgou um manifesto onde afirma que: “É pecado grave usar o nome de Deus ou qualquer religião para praticar ou justificar a violência”.

    Daí, um grupo de católicos tradicionalistas, extremistas mesmo, que apoia a intervenção militar de Temer contra os pobres e negros das favelas do Rio de Janeiro, desafiou os bispos e lançou uma carta na qual concluem mais ou menos assim: “Lembramos novamente: existem tipos de violência que não são ruins, mas que, pelo contrário, são muito necessários e que são nossa obrigação!”

    Segundo essa gente, os bispos estariam apoiando o “discurso do PT”. É isso mesmo! A onda agora é assim: se tem uma coisa ou ideia com a qual você não concorda, grite bem alto que a pessoa que está propondo tal coisa/ideia é petista, comunista ou sei lá o que “ista”, que pega.

    Pergunto a esses católicos, “mais católicos” do que os bispos:
    * Quais tipos de violências não são ruins?
    * Pregar um homem inocente ou culpado numa cruz, pode?
    * Queimar mulheres vivas em fogueiras, depois de torturá-las e seviciá-las, acusando-as de serem comparsas do diabo, pode?
    * Matar milhões de índios ou negros porque algum clérigo disse que eles não tinham alma, pode?
    * Molestar crianças e adolescentes em seminários ou conventos, para onde os pais os haviam enviado pensando que estavam sob a proteção de homens ou mulheres de Deus, pode?

    O Papa Francisco está enfrentando uma barra para representar Jesus, tendo como “recursos humanos” tais figuras obtusas. Mas estamos firmes com Francisco, que tem muitos sacerdotes, religiosas e leigos comprometidos com o bem comum ao seu lado, rumo a Jesus, que é muito melhor do que essa patuleia.
  • Paraíso do Tuiuti foi a campeã do povo!

    Escrito em 12 de fevereiro de 2018 (Segunda de Carnaval).
    A Escola de Samba Paraíso do Tuiuti levou à Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, um desfile relembrando os 130 anos do fim da escravidão negra no Brasil, questionando se a escravidão realmente acabou. Destaque para as alegorias que representaram os manifestantes idiotas que pediram o impeachment de Dilma (os patos da Fiesp com camisas amarelas da CBF, servindo de fantoches da elite financeira), um vampiro presidente e a maldita reforma trabalhista de Temer, que matou a CLT de Getúlio Vargas. Enfim, a escola mostrou o Golpe de 2016 na avenida.
    Escrito em 14 de fevereiro de 2018 (Quarta de Cinzas).
    Por um décimo de ponto venceu o carnaval do Rio de Janeiro a escola de samba (Beija-Flor) que levou à avenida a velha narrativa de que o maior problema do Brasil é a corrupção. Quem pensa com a cabeça da mídia concorda. Narração que joga o povo contra a política e a entrega nas mãos dos corruptores do mercado, representados pelos “salvadores da Pátria”.
    No entanto, surpreendente mesmo é ficar em segundo a agremiação que trouxe à pauta o que 9 entre 10 pesquisadores de ciências sociais consideram o efetivo motivo de nosso subdesenvolvimento: a exploração brutal da maioria de trabalhadores por uma minoria perdulária, antipatriótica e ligada a interesses estrangeiros.
    E ela fez isso sem passar ao largo do assunto corrupção, retratada em suas alas de patos marionetes. Os patos amarelos, como se sabe, foram instigados pelos verdadeiros corruptores contra as políticas públicas que reduziram desigualdades.
    Naqueles idos de 2016, eles iam com a camisa da honestíssima CBF às ruas bater panelas e gritar contra a pequena ascensão dos pobres ao mercado de trabalho e de consumo. Ao final, representavam mesmo era o nosso perverso e desigual modelo civilizatório – e não a moralidade e o bem público.
    E a Tuiuti revelou isso na tela da maior emissora golpista, desnudando a cara de quem com as mãos conduzia os fantoches. O silêncio dos apresentadores da Globo foi ensurdecedor.
    Segundo essa escola, que levou à Sapucaí as mais modernas interpretações sociológicas, o grande mal do Brasil é que, da escravidão à Lava-jato, a casa grande ainda não deixou de fustigar a senzala, haja vista a Reforma Trabalhista, que matou a CLT e retira direitos de quem mais trabalha, e a partidarização da Justiça, inerte para os direitistas e carrasca contra líderes e partidos ligados ao campo popular.
    Para mim, o segundo lugar da Paraíso do Tuiuti, a furar o bloqueio da narrativa global da “corrupção moral” e a escancarar o “ranço escravocrata” dos “manifestoches” pátrios e dos “vampirões neoliberais”, faz dela a GRANDE CAMPEÃ de 2018.

    Sua mensagem: “Não sou escravo de nenhum senhor”.

    #TuiutiCampeã.
  • Come sardinha e arrota caviar

    Daí o pseudo-capitalista decadente brasileiro – mais para um proletário metido a burguês, que come sardinha e arrota caviar – se acha o máximo da inteligência humana quando posta nas redes sociais que nos Estados Unidos não existe direito a férias remuneradas e que os pedreiros de lá compram Honda Civic.

    Provavelmente, pensa, que se tal regra vigorasse aqui em Banânia (pseudônimo do Brasil depois do golpe de 2016, dado por ninguém menos que Reinaldo Azevedo, o ex-colunista da hidrófoba Veja) seríamos a quintessência do desenvolvimento mundial.

    Mal sabe ele que cidadãos americanos que experimentam viver em países onde as férias duram 30 dias e são remuneradas (Suécia, Austrália, Alemanha, etc.) nem pensam em voltar ao país de origem.

    Outra, nas terras do Tio Sam, quem não paga um plano de saúde morre à míngua, sem SUS, nem nada, como mostra o documentário Sicko (SOS Saúde) do cineasta estadunidense Michel Moore.

    Ah, e de acordo com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), o país mais rico da Terra tem o pior índice de pobreza entre as nações mais desenvolvidas do planeta: 14,5% da população viviam na miséria absoluta em 2016, apesar de morarem no país que consome sozinho quase um terço de todos os recursos materiais produzidos no mundo.

    P.S.: Os deputados americanos, que impedem projetos para que o país tenha direitos trabalhistas, têm direito a um mês inteiro de férias remuneradas. São parecidos com os congêneres brasileiros do Parlamento e do Judiciário.
  • Artigo: A fé e a vida

    * Levon Nascimento

    Quando comecei a participar ativamente da Igreja, nas pastorais sociais católicas, durante a juventude, uma das coisas que eu tinha como objetivo era que aquilo deveria me tornar uma pessoa melhor. Leia-se: menos egoísta, menos preconceituoso, mais honesto, mais solidário, mais compreensivo com o outro, engajado nas lutas sociais por um mundo justo, etc.

    Já se passou um bom tempo de lá para cá. Evidentemente que não me tornei perfeito. Muito pelo contrário. Mas eu continuo acreditando nisso e buscando. A fé me conduziu ao universo da militância política, conforme aprendi nas CEBs: “unir fé e vida”.

    E é justamente aí que esbarra a minha inconformidade, porque vejo muita gente religiosa bradando “Deus” e regras bíblicas, entoando louvores e orações “acaloradas”, mas na vida real sem apresentar qualquer vontade ou disposição para a justiça, à aceitação da diferença ou à prática solidária, no máximo um velho assistencialismo piegas.

    Escandaliza-me, gente que se entrega à mesquinharia, aos preconceitos, ao racismo, à intolerância, à acumulação corrupta, aos privilégios e que se soma ao ideário político fascista (pós-verdade, fake news, cultura do ódio), enquanto diz ser a favor da moral, da família e de Jesus.

    Sinceramente, nunca foi desse tipo de religião que eu quis me aproximar. Nem quero.
  • Bravismundo

    Bravismundo critica todos os políticos, xinga, fala mal, diz que é contra a corrupção, que vai votar em branco, nulo ou que vai rasgar o título, etc.

    Também é a favor da liberação das armas, mesmo com os especialistas falando que cidadão comum armado tem muito mais chances de morrer durante um assalto do que aquele que esteja desarmado. Isso deve ser conversa “dos direitos humanos”, resmunga Bravismundo, enquanto pensa em votar naquele candidato que disse que vai liberar rifle para todos, isso se não rasgar o título antes.

    Porém, na hora em que um deputado golpista chega à cidade, daqueles que salvaram Temer duas vezes da investigação; ou que aprovaram a saída de Dilma, mesmo sem crime de responsabilidade por parte dela; ou que votaram a favor da reforma trabalhista que retira os direitos conquistados desde a época de Getúlio Vargas; ou que aprovaram o limite de gastos com saúde, educação e seguridade social no fim de 2016, aí Bravismundo faz festa, fala manso e ainda chama de doutor.


    No fundo, no fundo, Bravismundo sente uma pontinha de inferioridade diante do “doutor deputado”. Aí ele desconta a frustração em cima daquele pessoal que consegue enxergar a realidade, criticar e lutar por direitos.

    Bravismundo não consegue entender essa gente de sindicato, de partido de esquerda, de movimento social. Deve ser tudo cambada de ladrão, comunista, cubano, venezuelano, igual aos políticos lá de Brasília. Menos o doutor deputado que apertou a mão de Bravismundo, claro!

    Bravismundo é fã do juiz da Lava-jato. Para ele, o juiz vai botar essa bandidagem toda na cadeia. Afinal, no Brasil a lei é para todos e os juízes são pessoas inteligentes que não tem lado político. Na verdade, podia até decretar pena de morte, ele pensa e diz.

    Bravismundo não vê problema no fato desse juiz ganhar acima do teto constitucional e ainda levar um por fora através do imoral auxílio-moradia de quase R$ 5 mil para os magistrados. Afinal, o juiz está limpando o Brasil. Bravismundo é contra esse tal de Bolsa Família, que sustenta vagabundo com R$ 85,00 por mês, inventado por aquele Lula. Por que não ensina os pobres a pescar ao invés de dar o peixe?

    Bravismundo também concorda com aqueles rapazes que trabalham na prefeitura desde que o tataravô deles chegou nas caravelas de Cabral. Os rapazes falam para Bravismundo que tem de privatizar, que o Estado deve ser mínimo e que empresa privada funciona melhor do que estatal. Bravismundo acha certo, afinal são moços estudados que estão falando. Tão estudados que trabalham na prefeitura, na câmara de vereadores e de assessores dos políticos, sem nunca terem enfrentado emprego numa empresa particular.

    Outro dia, Bravismundo foi pegar um remédio na secretaria de saúde e não tinha o medicamento. Bravismundo fez um arraso no Facebook por causa disso. Deve ser culpa da crise que a Dilma criou. Bravismundo nem se lembrou que Dilma saiu da presidência já tem quase dois anos. Cravou: “É culpa do PT”. Teve que comprar na farmácia particular, porque empresa privada é melhor do que pública e o Estado tem que ser mínimo, sem privilégios, nem medicamentos.

    Bravismundo também quer gravar um vídeo falando do “Brasil que ele quer para o futuro” e enviar para aparecer na Globo. Mesmo com a Globo passando aquela novela que ele chama de imoral, mas que não perde um dia sequer. Só no domingo, porque não tem, aí ele vê o Sílvio Santos entrevistando o Temer e apoiando a ideia de que os brasileiros tem de ser aposentar só aos 65 anos de idade. Mas só os brasileiros que não são militares, juízes, promotores e deputados. “Tá certo”, pensa Bravismundo, senão a previdência social vai quebrar. Detalhe: Bravismundo tem 43 anos de idade, trabalha desde os 15, não é militar, juiz, promotor e nem deputado.

    Conheço vários eleitores Bravismundos. Eles são pobres e trabalhadores, mas não entendem que “a história da humanidade é a história da luta de classes”.

    Os golpistas, inclusive os de toga (juízes), estão mandando e desmandando no país por culpa de Bravismundo, que late muito nas redes, mas é adestrado na vida real.