Não é segredo para ninguém que me conhece: gosto de política. Não a nego, nem a minimizo. Para mim, ela é a mais nobre das atividades humanas, aquela capaz de qualificar a vida em sociedade. Talvez por isso, minha memória pessoal sobre um dos elementos-chave da política — as eleições — remonte à infância. A primeira de que me recordo aconteceu em 1982, municipal e estadual ao mesmo tempo. Eu tinha apenas seis anos. Guardo na lembrança Tancredo Neves enfrentando Eliseu Rezende pelo governo de Minas, e, em Taiobeiras, a disputa entre Nen Sena e Jorge pela prefeitura.
É justamente daí que vem minha primeira memória da imagem e do nome de Geraldo Sarmento de Sena — Nen Sena: vereador, presidente da Câmara, juiz de paz, vice-prefeito, prefeito e esposo de prefeita. Uma carreira política extensa, sólida e irretocável.
Mais do que os cargos, Nen Sena foi um homem que atravessou o cenário conturbado da vida pública com uma biografia limpa. Em uma época em que a educação ainda não era vista como prioridade, ele investiu maciçamente na escolarização do povo de Taiobeiras. Foi em seu mandato que se construíram algumas das maiores escolas do município. Enquanto hoje há quem se apresse em municipalizar responsabilidades do Estado, ele conseguiu o inverso: estadualizou o 2º grau (atual Ensino Médio) local, garantindo maior estrutura e qualidade. Também foi dele o mérito de dar ao Poder Executivo Municipal uma sede digna.
Mas Nen Sena foi além da política institucional: foi amigo, conselheiro, alguém capaz de transcender diferenças geracionais e ideológicas. Como fundador do PSDB histórico em Taiobeiras, demonstrou ser um democrata entusiasmado, um batalhador pelas boas ideias e um homem confiante no progresso humano.
Com sua partida nesta data (12/08/2025), Taiobeiras perde um de seus grandes pais fundadores, mas herda um legado que a História há de reconhecer.
Nen Sena: Presente!
Por Levon Nascimento
Blog
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Nen Sena: Presente!
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A nova era global de ódio aos pobres
Por Levon Nascimento
Nos últimos anos, o mundo tem assistido à consolidação de uma racionalidade política que combina elementos do passado mais sombrio com novas formas de exclusão. O nazifascismo, que historicamente legitimou a perseguição e o extermínio de grupos considerados “indesejáveis”, ressurge hoje sob roupagens adaptadas, mas com a mesma lógica de hierarquizar vidas e descartar as que não se encaixam no ideal de pureza social. “O fascismo não é um fenômeno morto, mas uma gramática política que se atualiza” (TRAVERSO, 2019). Essa atualização se manifesta em práticas estatais e urbanas que violam diretamente os direitos humanos, em especial dos mais pobres.
O higienismo social, originado no século XIX como política de saúde pública, rapidamente se converteu em instrumento de controle moral e espacial, associando pobreza à sujeira, doença e criminalidade (CHALHOUB, 1996). Essa ideologia segue viva nas remoções forçadas de pessoas em situação de rua e na chamada “arquitetura hostil” — picos de metal, bancos com divisórias, pedras sob viadutos — que expulsa os indesejáveis da paisagem urbana. No Brasil, o Padre Júlio Lancellotti denuncia que “é proibido ser pobre na cidade” (LANCELLOTTI, 2022), e sua atuação resultou na Lei 14.489/22, que proíbe tais dispositivos, mas não impede que gestores sigam buscando formas de invisibilizar a pobreza.
A aporofobia, conceito criado por Adela Cortina (2017), descreve precisamente essa aversão aos pobres, não apenas como preconceito individual, mas como política de Estado. Trata-se de uma recusa ativa em conviver com a presença do outro que nada possui. Ao contrário do racismo ou xenofobia, que podem se suavizar diante da riqueza, a aporofobia é implacável: mesmo o nacional ou o branco, se pobre, será alvo de hostilidade. “Não é o estrangeiro que incomoda, é o pobre” (CORTINA, 2017). Essa hostilidade é visível no aumento da criminalização da mendicância em cidades de diferentes países.
A necropolítica, conceito formulado por Achille Mbembe (2018), ajuda a compreender como governos decidem, conscientemente, quais vidas merecem ser protegidas e quais podem ser expostas à morte. Durante a pandemia de Covid-19 no Brasil, a gestão de Jair Bolsonaro minimizou riscos, atrasou vacinas e estimulou aglomerações, aumentando a mortalidade entre os mais pobres e periféricos (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 2021). “O poder de matar ou deixar morrer é o exercício último da soberania” (MBEMBE, 2018, p. 71). Essa escolha política configurou um crime ético contra as populações vulneráveis.
No cenário internacional, exemplos recentes evidenciam a continuidade dessa lógica. Em agosto de 2025, o governo de Donald Trump em Washington, D.C., determina a remoção em massa de acampamentos de pessoas em situação de rua com apoio de forças federais (THE GUARDIAN, 2025). A medida, classificada por ativistas como higienista e autoritária, não oferece alternativas de moradia, apenas “limpa” o espaço público de corpos indesejados. Não se trata de política social, mas de um gesto simbólico de exclusão, alinhado à estética política neofascista.
O neofascismo contemporâneo, como alerta Stanley (2018), não precisa replicar a estética dos anos 1930 para ser reconhecido: basta retomar a essência de suas práticas — nacionalismo agressivo, culto à força, inimigos internos e desumanização dos pobres. No Brasil, esse padrão se manifesta no bolsonarismo, que, ao desprezar a vida dos pobres e priorizar agendas de militarização, reforça a ideia de que o Estado deve servir apenas a quem pode pagar. “A democracia morre quando a desigualdade se naturaliza” (STANLEY, 2018).
O fio que une nazifascismo, higienismo social, aporofobia, necropolítica e neofascismo contemporâneo é a institucionalização do desprezo. Trata-se de um projeto que, em vez de combater a pobreza, combate o pobre; que, em vez de garantir direitos, retira-os; que, em vez de acolher, expulsa. Denunciar essa lógica não é apenas exercício intelectual, mas uma obrigação ética: cada banco dividido, cada viaduto cercado, cada morte evitável é uma evidência de que, no século XXI, o ódio aos pobres deixou de ser vergonha e voltou a ser política oficial.
Referências
CHALHOUB, Sidney. Cidade febril: cortiços e epidemias na Corte imperial. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
CORTINA, Adela. Aporofobia: o rechazo al pobre. Barcelona: Paidós, 2017.
LANCELLOTTI, Júlio. “É proibido ser pobre na cidade”. Folha de S.Paulo, 19 fev. 2022.
MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: n-1 edições, 2018.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. WHO Coronavirus Disease (COVID-19) Dashboard. Genebra, 2021. Disponível em: https://covid19.who.int. Acesso em: 11 ago. 2025.
STANLEY, Jason. How Fascism Works: The Politics of Us and Them. Nova York: Random House, 2018.
THE GUARDIAN. Trump deploys federal forces to clear homeless encampments in DC. Londres, 8 ago. 2025.
TRAVERSO, Enzo. The New Faces of Fascism. Londres: Verso, 2019.Créditos: Homem dorme nas escadarias em frente ao Teatro Municipal, no Rio de Janeiro (Luiz Souza/NurPhoto/Getty Images).
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Taiobeiras: entre avanços e desigualdades no coração do Alto Rio Pardo
Texto de Levon Nascimento, produzido a partir da observação e análise de dados disponíveis no IBGE Cidades
Taiobeiras, localizada no Norte de Minas Gerais, apresenta um perfil socioeconômico que combina avanços significativos com limitações estruturais persistentes. Com população estimada em 34.392 habitantes em 2024, segundo o IBGE, e Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) de 0,670 em 2010, o município alcançou melhoria contínua nas últimas décadas, especialmente em longevidade (0,815), mas mantém fragilidades nos componentes educação (0,578) e renda (0,639) (IBGE, 2010). Essa discrepância reflete a combinação de um sistema de ensino básico com bons índices recentes — taxa de escolarização de 6 a 14 anos próxima de 99% e IDEB de 6,8 nos anos iniciais (2019) — com o baixo nível educacional histórico da população adulta.
No campo econômico, o Produto Interno Bruto per capita, de R$ 16.085,74 em 2021 (IBGE), é superior ao de parte dos municípios da região imediata de Salinas, mas inferior à média da região intermediária de Montes Claros e ao patamar estadual. A economia municipal é fortemente concentrada em serviços e na administração pública, que juntos respondem por cerca de 80% do valor adicionado bruto, enquanto a indústria é incipiente e a agropecuária, embora presente, tem baixo valor agregado. Essa estrutura produtiva, associada à elevada dependência de transferências governamentais, limita a autonomia fiscal e a capacidade de atração de investimentos privados, restringindo as oportunidades de trabalho qualificado e incentivando a migração de jovens.
Os indicadores sociais expõem desafios ainda mais urgentes. A mortalidade infantil, de 14,42 óbitos por mil nascidos vivos em 2023, permanece acima da média nacional e supera a de cidades vizinhas como Salinas, que registra aproximadamente 5,8 (IBGE, 2023). Embora o município tenha ampliado sua capacidade hospitalar, com destaque para o Hospital Santo Antônio e sua inclusão na Rede de Atendimento ao AVC, a persistência de taxas elevadas indica que problemas estruturais, como a cobertura incompleta de saneamento básico, continuam afetando a saúde pública. Em 2010, apenas 16,1% dos domicílios possuíam esgotamento sanitário adequado; dados mais recentes sugerem avanço para cerca de 47% (IBGE, 2022), ainda insuficiente para garantir padrões adequados de salubridade.
A comparação com a região imediata reforça a necessidade de políticas estruturantes. Apesar de Taiobeiras apresentar desempenho econômico ligeiramente superior ao de parte dos municípios vizinhos, seus indicadores sociais revelam desigualdades e vulnerabilidades comparáveis ou até mais acentuadas. A falta de diversificação produtiva e a insuficiência de políticas de desenvolvimento humano que articulem educação acadêmica de jovens e adultos, qualificação profissional e infraestrutura básica impedem que o município converta seu papel de polo regional em ganhos sustentáveis de qualidade de vida.
Conclui-se que Taiobeiras enfrenta um paradoxo: mesmo reunindo condições para liderar o desenvolvimento da microrregião de Salinas, ainda convive com déficits estruturais que comprometem seu potencial. Investimentos prioritários em saneamento, atenção primária à saúde, diversificação econômica e qualificação educacional são essenciais para romper o ciclo de dependência fiscal e de baixo dinamismo econômico. Sem enfrentar essas fragilidades de forma integrada e planejada, o município continuará oscilando entre avanços pontuais e limitações crônicas, incapaz de alcançar níveis mais elevados de desenvolvimento humano e equidade social.
Referências
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Cidades@: Taiobeiras – panorama. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mg/taiobeiras/panorama. Acesso em: 6 jul. 2025.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Pesquisa de Informações Básicas Municipais – Taiobeiras. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mg/taiobeiras/pesquisa/19/143491. Acesso em: 6 jul. 2025.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Produto Interno Bruto dos Municípios – Taiobeiras. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mg/taiobeiras/pesquisa/10102/122229. Acesso em: 7 jul. 2025.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Indicadores de Saneamento – Taiobeiras. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mg/taiobeiras/pesquisa/24/76693. Acesso em: 8 jul. 2025.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Indicadores de Saúde – Taiobeiras. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mg/taiobeiras/pesquisa/21/28134?ano=2023. Acesso em: 8 jul. 2025.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Mapa municipal de Taiobeiras – MG. Disponível em: https://geoftp.ibge.gov.br/cartas_e_mapas/mapas_municipais/colecao_de_mapas_municipais/2022/MG/taiobeiras/A0_3168002_MM.pdf. Acesso em: 9 jul. 2025.
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Fé para romper a indiferença, não para lucrar
Vivemos tempos estranhamente silenciosos diante da dor. Enquanto milhões sofrem com fome, violência — como nas ruas de todo o mundo, em geral, e em Gaza, no particular —, abandono ou solidão, seguimos com nossas rotinas apressadas, rostos grudados nas telas e corações distraídos. A era da indiferença, como muitos a chamam, é marcada por uma anestesia coletiva: vemos tudo, mas não sentimos quase nada. É como se o sofrimento alheio tivesse perdido o peso, como se os laços humanos tivessem sido substituídos por curtidas, lucros e algoritmos.
Essa indiferença não surgiu do nada. Ela se construiu aos poucos, num mundo que valoriza mais o desempenho do que a presença, mais a eficiência do que a empatia. Mais o lucro do que o ser humano. Somos levados a acreditar que não temos tempo para cuidar, para ouvir, para sofrer com o outro. E assim, nos tornamos especialistas em nos proteger das dores que não são nossas, às vezes até estimulados pelo discurso da toxicidade alheia. Porém, essa proteção cobra caro: nos desumaniza. Perdemos a capacidade de chorar com quem chora, de nos alegrar com quem se levanta.
É nesse contexto que a encíclica Dilexit Nos (outubro de 2024), do Papa Francisco (1936 – 2025), brilha como uma luz em meio ao cansaço espiritual da atualidade. Ao propor o Coração de Jesus como símbolo e fonte de amor verdadeiro — humano e divino — Francisco nos convidou a romper o gelo que endurece o mundo. Ele falou de um “mundo sem coração”, dominado por tecnologias que nos unem superficialmente, mas nos afastam na essência. A Dilexit Nos não é um chamado à religiosidade superficial (muito louvor e pouca compreensão), mas à conversão profunda: para que deixemos de viver como espectadores e voltemos a ser irmãos.
A encíclica nos lembra que o coração é lugar de verdade, de feridas, de ternura e também de decisão. E é a partir desse lugar que podemos reconstruir o tecido esgarçado da solidariedade. Ser cristão — ou simplesmente humano — nessa era da indiferença é escolher, todos os dias, não se calar diante do sofrimento, não se conformar com a exclusão e não se render ao conforto da apatia. O amor que nos é revelado no Coração de Cristo é exigente, mas profundamente libertador: nos chama a ser presença, escuta, abraço.
Superar a era da indiferença não exige heróis, mas corações despertos. Exige menos pressa e mais atenção. Menos julgamento e mais compaixão. A Dilexit Nos aponta um caminho espiritual e humano para reencontrarmos o que de mais essencial existe em nós: a capacidade de amar e ser afetado pelo outro. Porque no fim das contas, só um mundo com coração pode ser verdadeiramente justo e habitável.
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Hiroshima: Há exatamente 80 anos, o mundo conheceu o inferno
Por Levon Nascimento
Era 6 de agosto de 1945, 8h15 da manhã, horário local, quando o avião B-29, batizado de Enola Gay, lançou sobre Hiroshima a primeira bomba atômica usada em combate: Little Boy. A explosão ocorreu a cerca de 600 metros do solo, no coração da cidade.
Três dias depois, seria a vez de Nagasaki.
Esses dois ataques nucleares — os únicos da história em um cenário de guerra — não atingiram alvos militares. Foram os corpos de civis que arderam. Homens, mulheres, crianças, idosos… vidas comuns, vidas inteiras, desapareceram em segundos. Nenhuma trincheira. Nenhuma chance.
E não foram grupos terroristas, como Hamas, Al-Qaeda, Talibã ou Hezbollah, que acionaram as bombas. Tampouco foram os comunistas, os socialistas, a União Soviética, a China ou a Coreia do Norte. Não foram os negros, os LGBTQIAPN+, os petistas, o MST ou o MTST.
As bombas caíram por decisão do governo dos Estados Unidos da América. E não, isso não nos leva ao ódio contra o povo estadunidense.
Mas é impossível ignorar que o comando partiu do imperialismo capitalista ocidental — que se apoia no poder do Estado e de suas forças armadas para alimentar um sistema global movido por ganância, medo, terror e morte.
Lembrar de Hiroshima e Nagasaki, hoje, é mais do que olhar para o passado. É reconhecer os reflexos dessa tragédia no presente: a ascensão de uma extrema-direita violenta, nos EUA e no Brasil bolsonarista; o genocídio do povo palestino em Gaza; a volta de políticas econômicas predatórias que empurram milhões ao desemprego e à fome, como as prometidas por Donald Trump.
Como nos alertou o Papa Francisco na Laudato Si’: “Tudo está interligado.” E infelizmente, isso vale também para os ciclos de violência, exploração e injustiça.
Fazer memória é resistir. É não permitir que a insanidade volte a tomar o lugar da razão. Que o horror volte a se repetir.
Que nunca mais uma manhã seja escurecida por bombas que caem do céu.
Imagem: Redes sociais da internet. -

Viralatismo no calor dos trópicos
A síndrome de vira-lata, ou simplesmente viralatismo, é uma postura psicossocial marcada pela desvalorização da própria cultura em favor de expressões estrangeiras, geralmente de origem colonialista e tidas como mais avançadas ou superiores. Trata-se, em essência, de uma forma de baixa autoestima coletiva e intelectual.
É o desejo inconsciente — e por vezes explícito — de ser europeu ou estadunidense, como se isso acrescentasse algum valor à existência que não se encontra no simples fato de ser brasileiro. Como se houvesse um status maior em negar suas raízes do que em afirmá-las.
O viralatismo prospera onde o pensamento crítico enfraquece. Quanto menos se lê, quanto mais se consome sem reflexão, quanto menos se alimenta a inteligência com conteúdos de substância, mais se está vulnerável a essa síndrome que aliena e distorce a própria identidade.
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Será que a gente precisa vencer na vida?
Resumo de leituras de Levon Nascimento
“Vencer na vida” — quem nunca ouviu essa expressão como se fosse uma meta natural, quase uma sentença? Desde pequenos, somos atravessados por essa ideia como se ela fosse a luz no fim do túnel: para uns, vencer é ter muito dinheiro; para outros, estabilidade, respeito, ou talvez um diploma pendurado na parede. Há ainda quem enxergue a vitória como um estado subjetivo, de autorrealização. Mas, em quase todas essas versões, existe um pano de fundo comum: a meritocracia — a crença de que, com esforço e força de vontade, todo mundo chega lá.
O site A Firma Preta (2024) resume bem essa lógica: trata-se de uma “narrativa que associa sucesso a consumo e reconhecimento”. E não faltam estudos acadêmicos para reforçar o quanto esse ideal de sucesso está entranhado nas promessas da educação, da performance e da autoimagem (UFBA, 2019; LIPOVETSKY, 1986).
No entanto, quando olhamos de perto, essa ideologia começa a mostrar suas contradições — e feridas. Ela pressiona especialmente quem já nasce em desvantagem: jovens, pretos, pobres, mulheres. Sob o mito de que todos têm as mesmas chances, transforma a exclusão em culpa pessoal. A pesquisa da UFBA (2019) é clara: para os jovens das periferias, buscar um emprego formal vira quase uma fuga do abismo social — uma estratégia para escapar da vulnerabilidade —, mesmo quando a porta do mercado está fechada para eles.
Com mulheres e pessoas negras, o peso é ainda maior. Elas enfrentam a dureza das estruturas desiguais e, ainda assim, são responsabilizadas pelos “fracassos” que o próprio sistema impõe. Como explica Demarchi (2010), a meritocracia funciona como um mecanismo de “naturalização das desigualdades”, mascarando injustiças sociais sob a aparência de incompetência individual.
E os paradoxos não param por aí. Na escola pública, por exemplo, ensina-se com convicção que “estudar abre portas” (UNESP, 2015). Mas quem frequenta essas escolas sabe que as portas não são as mesmas para todos — e que há trancas invisíveis para muitos. Lipovetsky (1986) alerta que até mesmo a busca por felicidade interior, vendida como alternativa ao sucesso material, virou uma exigência sufocante. A nova regra é ter que dar certo por fora e por dentro, ser bem-sucedido e ainda parecer autêntico, calmo, resiliente.
Essa lógica esconde um jogo cruel: ao eleger o indivíduo como único responsável por sua trajetória, ignora que o ponto de partida não é o mesmo para todos. Para quem nasce nas bordas da sociedade, “vencer na vida” é como correr uma maratona com pedras nos sapatos — e ainda sorrir para as câmeras. O fracasso vira motivo de vergonha. A Firma Preta (2024) chama atenção para isso: essa cultura gera “ansiedade e culpa”, e mina silenciosamente a saúde mental de quem não consegue alcançar o inalcançável.
Talvez por isso seja urgente repensar o que significa “vencer”. Será que essa palavra precisa continuar sendo um troféu que poucos alcançam? E se vencer fosse, simplesmente, viver com dignidade, com tempo para respirar, com afeto e segurança? Talvez, como sugerem tantas vozes dissidentes, a verdadeira vitória seja existir sem ter que se justificar o tempo todo.REFERÊNCIAS
DEMARCHI, Guilherme Silva. Crítica da ideologia meritocrática. 2010. Disponível em: https://www.academia.edu/download/104695524/2010_GuilhermeDemarchiSilva.pdf. Acesso em: 1 ago. 2025.
FIRMA PRETA. Vencer na vida é uma ideologia? Substack, 2024. Disponível em: https://firmapreta.substack.com/p/vencer-na-vida-e-uma-ideologia. Acesso em: 1 ago. 2025.
LIPOVETSKY, Gilles. A era do vazio. 1986. Disponível em: https://www.academia.edu/download/56368823/Gilles_Lipovetsky_-_A_Era_Do_Vazio_1.pdf. Acesso em: 1 ago. 2025.
UFBA. Jovens e trabalho no contexto baiano. Repositório Institucional, 2019. Disponível em: https://repositorio.ufba.br/handle/ri/32266. Acesso em: 1 ago. 2025.
UNESP. Meritocracia na educação pública. Repositório Institucional, 2015. Disponível em: https://repositorio.unesp.br/entities/publication/c8f4ad2d-4bc5-40ba-b7d7-ab165d328b47. Acesso em: 1 ago. 2025. -

Lei Magnitsky contra o Brasil: Soberania não se negocia!
O que está em jogo, mais do que a reputação de um magistrado ou um episódio isolado de política internacional, é a própria soberania do Brasil. A decisão do governo dos Estados Unidos, ainda sob influência do trumpismo, de aplicar a chamada Lei Magnitsky ao ministro Alexandre de Moraes escancara uma nova forma de agressão externa: a guerra híbrida travestida de moralidade internacional.
Criada em 2012 como resposta à morte do advogado russo Sergei Magnitsky após denúncias de corrupção, a lei foi idealizada para punir graves violações de direitos humanos e atos de corrupção sistêmica. No entanto, ao ser utilizada agora contra um ministro da Suprema Corte brasileira, ela se revela distorcida, transformada em instrumento de pressão política. As acusações da política de extrema-direita de Trump ignoram por completo o fato de que as decisões de Moraes passaram pelo crivo do plenário do STF e foram respaldadas por fundamentos constitucionais. A imposição de sanções, como o bloqueio de bens e a proibição de transações com entidades americanas, expõe um ato de ingerência e desrespeito à autonomia das instituições brasileiras.
Trata-se de uma escalada agressiva que deve ser lida no contexto mais amplo da atual relação entre Brasil e Estados Unidos. Em um curto intervalo, Washington adotou uma série de medidas que ferem diretamente os interesses nacionais. Em 9 de julho de 2025, tarifas de 50% foram anunciadas sobre exportações brasileiras, coincidindo com as investigações sobre a tentativa de golpe bolsonarista. Dias depois, vieram as restrições de visto a ministros do STF. Por fim, em 30 de julho, Moraes foi sancionado. A cronologia não deixa dúvidas: não se trata de episódios isolados, mas de uma campanha articulada. Como bem afirmou o líder do governo na Câmara, Lindbergh Farias: “Não é um ataque a um ministro, é um ataque ao Brasil”.
O cenário se agrava com a atuação de setores da extrema-direita brasileira, antipatrióticos e traidores do Brasil, que se aliaram a interesses estrangeiros. Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente réu em tentativa de abolição violenta da democracia, licenciado da Câmara dos Deputados, teve papel central nessa ofensiva. Reportagens internacionais, como as do Washington Post, mostram que ele se comportou como verdadeiro agente estrangeiro, incentivando empresas brasileiras a levarem seus investimentos aos Estados Unidos, ao passo que celebrava as sanções a Moraes como “marco histórico”. Essa postura se inscreve na lógica do entreguismo e da sabotagem econômica contra o próprio país natal. Mais do que deslealdade institucional, trata-se de um comportamento que fere diretamente o Código de Ética Parlamentar e a ordem constitucional. A ausência de um tipo penal específico para o crime de lesa-pátria não exime a gravidade desses atos — eles devem ser enfrentados com responsabilização política urgente.
Diante dessa conjuntura hostil, a reação do Brasil precisa ser estratégica e equilibrada. Firme, porém inteligente. A Advocacia-Geral da União, pelas palavras de Jorge Messias, já sinalizou que todas as medidas legais serão adotadas para proteger as instituições brasileiras, inclusive em instâncias internacionais. É fundamental, no entanto, que o país não entre no jogo da retaliação econômica: o protecionismo de curto prazo, segundo estudos do Peterson Institute, só é eficaz em 23% dos casos e pode agravar as tensões comerciais. A prioridade deve ser a defesa da ordem constitucional, como reiterou o ministro Flávio Dino ao afirmar que Moraes está apenas cumprindo seu dever institucional.
Essa coesão entre os Poderes é a principal arma contra as tentativas de desestabilização. Em paralelo, a diplomacia brasileira deve intensificar a articulação com blocos e países que valorizem o multilateralismo, como os BRICS e a União Europeia. É preciso isolar o unilateralismo norte-americano e construir uma frente internacional de defesa da legalidade e da soberania.
Como destacou o próprio Jorge Messias, “soberania não se negocia”. A tentativa de transformar o Brasil em um laboratório para ações extraterritoriais de Washington deve ser enfrentada com toda a energia do Estado brasileiro e com a mobilização de sua sociedade civil. Este é o momento de união nacional — acima de partidos, ideologias e disputas internas. O ataque a Moraes é uma farsa jurídica e uma tentativa de proteger um aliado político de Trump (Jair Bolsonaro), ao custo da própria Independência do Brasil. Ceder seria admitir que o país pode ser governado de fora, voltar a ser colônia de fato. E isso, a História nos ensina, sempre termina em subordinação e atraso.
A grandeza de uma nação não está em sua submissão, mas em sua capacidade de resistir. O Brasil, com sua democracia ainda jovem, tem o dever de reagir à altura. Porque uma pátria que se respeita, se defende.
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Taiobeiras e a caverna de Platão
por Levon Nascimento
Por décadas, Taiobeiras aprendeu a se ver pelas sombras que tremulam na parede. Alimentada por frases de efeito como “terra dos vencedores” e “cidade empreendedora”, foi se acostumando a confundir brilho com luz, movimento com progresso, aparência com verdade. A alegoria da caverna de Platão, escrita há mais de dois mil anos, nunca fez tanto sentido: enquanto muitos se encantam com as imagens cuidadosamente produzidas para as redes sociais, para as campanhas publicitárias e os eventos de marketing institucional, outros lutam para sair da escuridão — e encaram o desconforto de enxergar aquilo que não querem mostrar.
E o que se vê, quando se olha com coragem, são feridas abertas. Taiobeiras tem sido marcada, há muito tempo, pela hegemonia de grupos conservadores, herdeiros de um ciclo político que atravessa gerações — da UDN à ARENA, do coronelismo às oligarquias mais modernas, sempre com novos nomes, mas velhas práticas. A cultura clientelista, disfarçada de eficiência ou liderança, sufoca a democracia com promessas rasas e favores. É o “joelismo sem Joel”, como me peguei pensando um dia — um sistema que sobrevive à queda de seus próprios líderes, porque mantém intacta a estrutura de poder e de privilégios. E, enquanto isso, quem vive nas margens continua à deriva. A renda se concentra. O debate político empobrece. E o silêncio, muitas vezes, é comprado, cooptado ou simplesmente imposto.
A realidade, contudo, insiste em escapar da maquiagem. Em 2016 e 2017, Taiobeiras esteve entre as cidades mais violentas da região. O número de homicídios cresceu quase 30% em apenas um ano (10° BPMMG, 2017 apud NASCIMENTO, 2018, p. 35). Quem perdeu a vida — ou perdeu um filho — sabe que não se trata de estatística, mas de um luto que se repete. Jovens negros, pobres e periféricos pagaram o preço de uma sociedade de mercado, desumanizada. A herança do autoritarismo fez irradiar a violência.
Foi nesse vácuo que floresceu um novo discurso: o do empreendedorismo redentor. Agora, quem fracassa não é vítima de um sistema injusto, mas de sua própria incompetência. A responsabilidade social virou responsabilidade individual. A pobreza virou culpa. E o sucesso, privilégio travestido de mérito.
Mas a caverna não aprisiona só pela política e pela economia. Ela se estende à cultura, ao meio ambiente, à memória coletiva. Em 2023, o pequizeiro centenário do Cruzeiro — mais que uma árvore, um símbolo de fé e identidade comunitária — foi derrubado por uma motosserra. O gesto, longe de ser apenas técnico ou administrativo, foi brutal em sua simbologia. Revelou um modelo de desenvolvimento que atropela o que não entende, que finge não ouvir os clamores da terra e da gente, e que chama de “progresso” o que, no fundo, é destruição.
Essa prisão simbólica, construída tijolo por tijolo ao longo de décadas, também ajuda a explicar por que ideias autoritárias encontram tanto eco em nossa cidade. Em 2022, quando me perguntaram como Bolsonaro venceu em Taiobeiras, respondi sem hesitar: não foi ruptura, foi continuidade. O conservadorismo daqui não é um acidente. É parte de uma construção histórica, feita de exclusão, de silenciamentos e de valores coloniais que ainda nos atravessam. Vivemos uma cultura em que o “ter” vale mais do que o “ser”, e em que os modos de vida das classes trabalhadoras são engolidos por um modelo de aparência burguesa e solitária. Mesmo na cidade, onde vive mais de 80% da população, falta a prática de solidariedade e organização coletiva que, por vezes, resiste com mais força no campo. Desde os anos 1970, o agronegócio molda não só a economia, mas o imaginário local, concentrando renda e padronizando mentalidades.
Taiobeiras será, de fato, uma cidade empreendedora — no melhor sentido da palavra — quando descobrir que o maior investimento possível é na dignidade de seu povo. O maior lucro, a justiça. O maior feito, a liberdade compartilhada. Romper com as sombras exige coragem, mas é também um gesto de amor. Amor à cidade, às suas histórias escondidas, às vozes caladas, às sementes que ainda resistem no chão. Nenhuma caverna dura para sempre quando há quem se levante, quem questione e, sobretudo, quem escolha caminhar para fora dela. Porque há luz. E ela começa onde termina o medo de ver. -

Encontrão das CEBs de Taiobeiras: Ainda rezo pelo Reino
Faz quase três décadas. Lembro como se fosse agora. Eu, ainda jovem, no 1º Encontrão das CEBs de Taiobeiras, de microfone em punho, saudava cada comunidade que chegava ao salão comunitário do Marruaz com entusiasmo e fé. Bradava palavras de vida: Viva o Povo de Deus! Viva o novo jeito de ser Igreja! Viva a caminhada do povo de Jesus! Viva a justiça e a fraternidade!
As Comunidades Eclesiais de Base marcaram profundamente minha formação, tanto na fé quanto na cidadania. O jovem Levon que despertava ali nascia de uma teologia que não separa a vida da fé. Uma teologia encarnada no chão do povo. Serei eternamente grato por isso.
Vieram o 2º Encontrão, o 3º, e tantos outros. Parecia que aquele sonho jamais acabaria. Foram momentos de comunhão, esperança e compromisso com o Evangelho vivo nas comunidades.
Sigo até hoje dando testemunho. Defendo, propago e conto, com orgulho, a bela história das CEBs de Taiobeiras nos espaços onde atuo. Sem cobranças, mas com profunda admiração. Mais de dez livros meus fazem referência ao espírito e ao programa das CEBs. Eles estão em mim — e eu sigo com eles.
Por isso, neste dia em que mais um Encontrão das CEBs acontece em Taiobeiras, rezo com todo o meu coração para que um novo ardor missionário se irrompa. Que o Espírito Santo continue a soprar entre os pequenos, os simples e os sonhadores.
Venha o Teu Reino, Senhor. O mundo precisa dele mais do que nunca.
Crédito da fotografia: Frei Gilvander.
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O que há por detrás da ideologia empreendedora em Taiobeiras?
Taiobeiras, no norte de Minas Gerais, orgulha-se de ser “cidade de gente vencedora” e “terra do espírito empreendedor” — frases que se repetem em discursos oficiais, campanhas midiáticas e até nas salas de aula. Celebrar o talento e o esforço é legítimo, mas essa narrativa pode esconder uma armadilha: reduzir o sucesso humano apenas ao lucro e ao mérito individual, encobrindo desigualdades profundas e cultivando mentalidades excludentes e até mesmo supremacistas.
Estudos sobre o empreendedorismo no Brasil mostram que quase 40% dos trabalhadores por conta própria atuam por necessidade, não por escolha ou oportunidade (Raasch et al., 2020). Em Taiobeiras, muitos dos chamados “empreendedores” são agricultores familiares ou trabalhadores em serviços essenciais — muitos na informalidade — que lutam pela sobrevivência, não pelo enriquecimento. A retórica do “vencedor nato”, portanto, ignora aqueles que enfrentam falta de crédito, infraestrutura precária, ausência de formação humanística e políticas públicas moldadas apenas para atender aos interesses de oligarquias locais.
Por trás dessa exaltação, há um projeto ideológico. Como apontam Leite e Lindôso (2018), o neoliberalismo transformou o empreendedorismo em uma “resposta individualizada a problemas sociais”, transferindo para o cidadão a culpa pelo desemprego, pobreza e ausência de perspectivas estruturantes, as quais somente alguns têm acesso. Enquanto muitos sonham em “virar o próprio chefe”, os direitos trabalhistas vão sendo negligenciados, e a condição humana do trabalhador é deixada de lado. Mascara-se a exploração por meio da promessa de riqueza que só vem para alguns por motivos óbvios e historicamente determinados.
A meritocracia vendida como solução é, na verdade, um mito perverso. Quando se insinua que “quem não vence é porque não se esforçou” (Costa, 2009), apagam-se os fatores estruturais que moldam a realidade: heranças familiares, apadrinhamentos político-econômicos, informações privilegiadas, acesso desigual à educação e privilégios históricos de propriedade. Isso constrói uma hierarquia simbólica que marginaliza quem não se encaixa no perfil idealizado do “empreendedor de sucesso”.
A saída está em repensar o próprio conceito de sucesso. A educação, aqui, é chave. É urgente educar filosoficamente o taiobeirense. Ser grande não é apenas acumular bens econômicos. Há um mundo vasto a ser descoberto — e é fundamental se lançar nele com criticidade e sensibilidade. Em vez de reforçar clichês, poderia se valorizar histórias da coletividade: produções culturais e artísticas, trajetórias intelectuais, realizações nos esportes, na música, no fazer alternativo. Isso também é vitória. Isso também é potência transformadora.
No fim das contas, a pergunta persiste: quem perde quando uma cidade só celebra os “vencedores” do dinheiro? Taiobeiras só será verdadeiramente empreendedora quando entender que o maior lucro é a dignidade compartilhada. Como diz um velho ditado sertanejo: “Sozinho você corre rápido; junto, você vai longe”. O espírito coletivo, e não o individualismo, é o único caminho para um desenvolvimento que realmente não deixe ninguém para trás.
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O Rubicão do Brasil
A seguir, uma síntese opinativa dos textos jornalísticos que li no domingo, 20 de julho de 2025.
Imagine um general romano parado à beira de um rio estreito no norte da Itália, em 49 a.C. Seu nome é Júlio César. A lei proíbe que ele cruze esse córrego chamado Rubicão com suas tropas — pois fazê-lo seria declarar guerra a Roma. Ele hesita, sabendo que não haverá volta. Então profere a frase famosa: “Alea iacta est” (a sorte está lançada). Ao avançar, desencadeia uma guerra civil, mas também redefine o destino de um império.
Hoje, o Brasil se vê diante de seu próprio Rubicão geopolítico. Não por ambição, como César, mas “por necessidade de sobrevivência“. Os EUA de Trump lançaram um ataque sem precedentes: tarifas de 50% sobre nossos produtos, bloqueio de vistos de autoridades do STF e do Ministério Público, e retórica que trata nossa soberania como um incômodo (BRASIL 247, 2025a).
A geografia das relações internacionais explica o contexto:
- Antes do Rubicão: O Brasil mantinha parcerias equilibradas com EUA, Europa e Ásia.
- Depois do Rubicão: Trump transformou o comércio em “jogo de soma zero” — se os EUA ganham, alguém precisa perder. Seu projeto é um “Império hobbesiano”, de vigilância e controle total do mundo, baseado na força bruta (BRASIL 247, 2025b).
Mas há uma diferença crucial:
“Não se trata de antiamericanismo. O Brasil é simplesmente pró-Brasil“ (Julián Marías, citado em BRASIL 247, 2025c).
Enquanto Trump tenta nos encurralar, Lula reúne-se no Chile com presidentes da Espanha, Chile, Colômbia e Uruguai. Juntos, publicaram em 20/07/2025 um manifesto claro: “Não cabe imobilismo nem medo” diante de autoritarismos (LULA et al., 2025). A mensagem ecoa César, mas com propósito oposto — não à conquista, mas a defesa do multilateralismo.
Internamente, até governadores bolsonaristas criticaram as tarifas de Trump, e o agronegócio buscou diálogo com Lula para tentar reverter a tragédia encomendada por Jair Bolsonaro ao filho Eduardo, em missão de traição à Pátria brasileira na Casa Branca (BRASIL 247, 2025d).
A travessia redefine nosso lugar no mundo:
- Submeter o país a um império que vê autonomia como afronta.
- Ou intensificar alianças com o Sul Global, destino de 63% das nossas exportações (BRASIL 247, 2025a).
O Brasil não escolheu esta crise. Foi empurrado a ela pela família traidora de Bolsonaro. Mas enquanto César cruzou por ambição, nós o fazemos por um imperativo nobre:
“Autonomia não é discurso. É sobrevivência“ (BRASIL 247, 2025b).
A sorte está lançada. Resta saber se seremos espectadores da história… ou seus autores.
REFERÊNCIAS
AGÊNCIA GOV. Lula, Boric, Sánchez, Orsi e Petro escrevem: “Não cabe imobilismo nem medo”. Notícias, 2025. Disponível em: https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202507/lula-boric-sanchez-orsi-e-petro-escrevem-nao-cabe-imobilismo-nem-medo. Acesso em: 20 jul. 2025.
BRASIL 247. Alvo do império, o Brasil tem um líder em papel inédito e precisa valorizá-lo: Lula. Editoriais 247, 2025a. Disponível em: https://www.brasil247.com/editoriais247/alvo-do-imperio-o-brasil-tem-um-lider-em-papel-inedito-e-precisa-valoriza-lo-lula. Acesso em: 20 jul. 2025.
BRASIL 247. Lula viaja ao Chile onde participa de cúpula de presidentes em defesa da democracia. América Latina, 2025b. Disponível em: https://www.brasil247.com/americalatina/lula-viaja-ao-chile-onde-participa-de-de-cupula-de-presidentes-em-defesa-da-democracia. Acesso em: 20 jul. 2025.
BRASIL 247. O Brasil está sendo forçado a cruzar um Rubicão geopolítico. Blog, 2025c. Disponível em: https://www.brasil247.com/blog/o-brasil-esta-sendo-forcado-a-cruzar-um-rubicao-geopolitico. Acesso em: 20 jul. 2025.
BRASIL 247. Trump está querendo enfraquecer o principal líder da esquerda mundial, que é o Brasil, diz Mantega. Entrevistas, 2025d. Disponível em: https://www.brasil247.com/entrevistas/trump-esta-querendo-enfraquecer-o-principal-lider-da-esquerda-mundial-que-e-o-brasil-diz-mantega. Acesso em: 20 jul. 2025.
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Bolsonaro traiu o Brasil. Mas, quem duvidava disso?
Em um enredo que mistura tragédia grega, farsa política e reality show, a família Bolsonaro elevou a “traição à pátria” de crime hediondo a plataforma de carreira. Nas últimas semanas, assistimos a um espetáculo digno de roteiristas de Hollywood: Eduardo Bolsonaro, instalado nos EUA como lobista de si mesmo, implorava a Donald Trump que “defendesse meu pai”. O resultado? Trump, em gesto de “solidariedade”, anunciou tarifas de 50% sobre produtos brasileiros – um abraço de urso, uma amizade de onça.
Jair Bolsonaro, que antes se vestia de verde-amarelo até para dormir, agora financia o filho com 2 milhões para conspirar contra o Brasil do exterior. Enquanto isso, em Brasília, o ex-presidente recebe a PF de pijama e é presenteado com uma tornozeleira eletrônica – acessório que, diga-se, combina mais com seu novo estilo de vida do que as botas de capitão. O mesmo homem que gritava “Brasil acima de tudo” agora sussurra “Trump acima do Brasil” (Trump above Brazil) nos ouvidos do magnata.
Eduardo pedia a Trump sanções seletivas contra ministros do STF, sonhando com a Lei Magnitsky como “sniper jurídico”. O que ganhou? Uma bomba atômica tarifária que desemprega brasileiros, estrangula o agronegócio e afunda a indústria. Como bem resumiu um analista: “Pediam um sniper e ganharam uma bomba atômica”. A reação do clã? Um lacônico “lamento” – eco assustadoramente familiar dos tempos pandêmicos. “Quer que eu faça o quê? Não sou coveiro” – disse o Jair em vez de comprar vacinas.
Enquanto o país calcula prejuízos bilionários, Bolsonaro posa de vítima: “Suprema humilhação”, lamenta, ao vestir a tornozeleira. Ignora que a humilhação real é ver um ex-presidente acusado de atentar contra a soberania nacional, traição em Seu mais alto grau. Seu conselho a Lula? “Negocie com Trump!”. Sim, o mesmo Trump que ele armou contra o Brasil. Quem duvidava que a hipocrisia atingiria níveis olímpicos?
Até ex-diplomatas, homens de linguagem comedida, romperam o decoro: “É um caso claro de traição à pátria”. Lula, em tom cáustico, sintetizou: “Quem se abraça na bandeira americana é patriota falso”. E o STF, ao impor a tornozeleira e bloquear contatos com embaixadas, enviou um recado: traidores não merecem salvo-conduto, mas monitoramento constante.
Eduardo, do exílio dourado, ameaça seu próprio país: “Ninguém bate de frente com Trump!”. Esqueceu que, em 2025, seu pai virou apenas um pé-frio com tornozeleira, e o Brasil, um país que aprendeu: patriotismo de hashtag não paga a conta do desemprego.
Para os Bolsonaros, “Brasil acima de tudo” era slogan, não promessa. Já para o resto do país, a piada acabou – e a conta chegou.
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O álibi de Trump: defendendo Bolsonaro para atacar o Brasil
A carta de Donald Trump em defesa de Jair Bolsonaro, divulgada em 17 de julho de 2025, foi chamada pelo governo Lula de “efeito nulo”. Mas a verdade é mais grave: a suposta solidariedade ao ex-presidente brasileiro é uma cortina de fumaça para atacar nossos interesses econômicos. Trump mesmo admitiu ao justificar tarifas de 50% contra o Brasil: “Estamos fazendo isso porque eu posso” (G1, 2025).
Por trás do discurso de “liberdade”, esconde-se uma guerra comercial. Eduardo Bolsonaro, atuando nos EUA, pressionou Trump após pedidos de condenação de seu pai, como confessou em nota: “Mantivemos diálogo com autoridades americanas […] para apresentar a realidade do Brasil” (GGN, 18.jul.2025). O resultado? Tarifas que atingem US$ 20 bilhões em exportações brasileiras de aço, petróleo e aviação.
O alvo real é nossa soberania econômica. A agência comercial americana (USTR) ataca o Pix, sistema público usado por 170 milhões de brasileiros, acusando-o de “prática desleal”. Para o jornalista Luís Nassif, isso revela o pânico das empresas americanas ante um sistema que reduziu o domínio de Visa e Mastercard (NASSIF, 2025).
A contradição é gritante: Trump alega defender liberdades, mas tenta estrangular uma ferramenta que democratizou o acesso financeiro. Como alertou o economista Paul Krugman: “É tudo sobre punir o Brasil por julgar Bolsonaro” (apud NASSIF, 2025).
O custo é real: as tarifas podem reduzir nosso PIB em 0,4% (GOLDMAN SACHS, 2025). Mas a reação uniu o Brasil: 72% dos brasileiros rejeitam as medidas (Datafolha, jul.2025), e até governadores de oposição buscam saídas diplomáticas.
Como sintetizou Lula: “O Brasil não é quintal de ninguém” (2023). A defesa de Bolsonaro é só um cavalo de Troia para enfraquecer um país que ousa desafiar a hegemonia econômica americana – com BRICS, moedas locais e tecnologia própria. A medida judicial que restringe Bolsonaro em julho de 2025 simboliza o fim dessa aliança tóxica.
A lição de Nassif ecoa: sem autonomia industrial e tecnológica, seremos reféns.Fontes:
– G1. “Governo Lula reage a tarifas de Trump”. 17.jul.2025.
– GGN. “Eduardo Bolsonaro admite lobby por medidas contra Brasil”. 18.jul.2025.
– FOLHA DE S.PAULO. “Impacto das tarifas nas exportações”. 16.jul.2025.
– USTR. “Investigação sobre práticas comerciais do Brasil”. 15.jul.2025.
– NASSIF, L. “A indústria do cartão e o Pix”. GGN, 10.jul.2025.
– MDIC. “Balança comercial Brasil-EUA”. 14.jul.2025.
– GOLDMAN SACHS. “Relatório de impacto tarifário”. 19.jul.2025.
– DATAFOLHA. “Avaliação da política externa”. Jul.2025.
– ESTADÃO. “Governadores buscam diálogo com EUA”. 20.jul.2025.
– VALOR ECONÔMICO. “Haddad classifica tarifas como agressão”. 17.jul.2025.
– LULA. Discurso na Cúpula do Mercosul. 2023. -

Brasil Soberano: Quando a Constituição vira escudo
Texto voltado para alunos que vão fazer o ENEM. Tema: Soberania nacional.
Em julho de 2025, o Brasil acorda com uma notícia pesada: Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, decide cobrar uma tarifa de 50% sobre tudo o que o Brasil exporta para lá. A medida passa a valer no dia 1º de agosto.
O motivo? Trump alega que o Brasil está censurando redes sociais americanas e critica o julgamento de um ex-presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, acusado de não respeitar o resultado das eleições democráticas e tentar dar um golpe de Estado. Ele chama o processo no Supremo Tribunal Federal (STF) de “vergonha internacional” e “caça às bruxas”.
Mas essa não é só uma briga comercial. É um ataque direto à soberania do Brasil, ou seja, ao direito de decidir os próprios caminhos sem interferência de outros países. Esse direito está logo no começo da nossa Constituição de 1988, no Artigo 1º: o Brasil é um Estado Democrático de Direito fundado na soberania popular.
A resposta do governo brasileiro vem rápida e com base na lei. O atual Presidente do Brasil, Lula, usa a Lei de Reciprocidade Econômica, mostrando que o país também sabe se defender. Ele cita o Artigo 4º da Constituição, que fala da não-intervenção nos assuntos internos de outros países. Em um discurso no Congresso da UNE (União Nacional dos Estudantes), o Presidente Lula afirma: “Esse país só é soberano porque o povo brasileiro tem orgulho dele.”E anuncia: “Vamos cobrar imposto das empresas digitais norte-americanas.”
Ou seja, a resposta é clara: se tentam prejudicar o Brasil, o país reage – mas sempre respeitando as regras do jogo.
O problema fica ainda mais sério porque Trump tenta dar palpite em decisões da Justiça brasileira. Ele pede a anistia do ex-presidente acusado de tentar um golpe, algo que ataca diretamente o Artigo 5º da Constituição, que garante a independência do nosso Judiciário. Como diz Rubens Ricupero, ex-embaixador do Brasil nos Estados Unidos: “É uma intervenção inaceitável contra a soberania nacional.”
Essa situação traz uma lição importante: a Constituição de 1988 não é só um papel guardado em Brasília. Ela é um escudo real que protege o Brasil de ameaças externas e internas. Quando o Presidente Lula declara que Trump “não é imperador do mundo”, ele repete a ideia de Ulysses Guimarães, que em 1988 chama a Constituição de “repúdio ao autoritarismo”.
Outro ponto importante da crise é a liberdade de expressão. Trump acusa o Brasil de censura, mas esquece que o Artigo 220 da Constituição diz que é proibido restringir a liberdade de imprensa. Só que a mesma Constituição também afirma que as plataformas digitais precisam ser responsabilizadas se espalharem fake news, discurso de ódio ou ameaças à democracia. Como o atual Presidente Lula diz na UNE: “Não aceitamos que, em nome da liberdade de expressão, se façam agressões e mentiras.”
O STF (Supremo Tribunal Federal) decide recentemente que as big techs precisam moderar postagens criminosas. Isso não é censura; é proteger a sociedade.
Se você vai fazer a redação do ENEM, esse caso é um ótimo exemplo para discutir temas como:
1. Soberania popular (Art. 1º da Constituição): o povo brasileiro decide os caminhos do país. As manifestações das “Diretas Já” e a eleição de 2022 mostram isso.
2. Autodeterminação (Art. 4º): cada país tem o direito de resolver seus problemas sem interferência externa. Por isso, o Presidente da República afirma: “Somos um país soberano.”
3. Função social do Estado (Art. 3º): quando um país mais rico impõe tarifas pesadas, isso prejudica a economia e aumenta as desigualdades. Isso vai contra a Constituição, que quer um Brasil mais justo e menos desigual.
O ministro Ayres Britto resume bem: “A harmonia entre os Poderes é desejável, mas a independência é imprescindível.”
Em 2025, o Brasil está sendo testado justamente nessa independência. E o seu papel, jovem, é entender que soberania não é um discurso vazio; é a base da democracia.
O Artigo 3º da Constituição diz que devemos construir “uma sociedade livre, justa e solidária”. Isso significa que o Brasil não pode ser submisso a interesses estrangeiros.
💡 Dica para o ENEM: Use a frase do Presidente Lula – “O Brasil não é refém de ninguém” – para mostrar como a soberania está ligada à dignidade humana. O Artigo 1º, III da Constituição diz que a dignidade é um dos pilares do Estado brasileiro.
Fontes:
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. 1988.
Carta de Donald Trump ao governo brasileiro (09/07/2025). Tradução: Agência Brasil.
Discurso do Presidente da República no 60º CONUNE (17/07/2025). G1 e Teletime.
RICUPERO, Rubens. Entrevista à CartaCapital (09/07/2025). -

O livro Memorial da Juventude de Taiobeiras (2010)
O Memorial da Juventude de Taiobeiras (NASCIMENTO; NASCIMENTO, 2010) é uma obra que celebra a trajetória transformadora dos jovens taiobeirenses, tecendo memória afetiva e política de suas lutas desde a década de 1970. Mais do que um registro histórico, o livro é um tributo às gerações que “não aceitaram ser tratadas como mera mercadoria” e “ousaram construir o futuro no coletivo” (p. 5), superando individualismos e preconceitos. Taiobeiras, município mineiro marcado pela cultura sertaneja e pela resistência, revela em suas páginas uma juventude “sonhadora, capaz e atuante” (p. 13), cuja identidade se forjou na luta por justiça social e expressão cultural.
A obra destaca a emergência de grupos pioneiros como O Beija-flor (1974), dedicado a campanhas solidárias, o JUVITA (1976), inspirado na caridade vicentina, e o JUAC (1978), focado em ação comunitária no bairro Vila Formosa. Essas iniciativas pavimentaram o caminho para a chegada da Pastoral da Juventude (PJ) em 1987, um marco que amplificou o protagonismo juvenil. Sob a PJ, os jovens transcenderam o assistencialismo, desenvolvendo uma “formação social e política” (p. 27) articulada em cinco dimensões: afetividade, espiritualidade, cidadania, sociabilidade e ação concreta. Surgiram dezenas de grupos urbanos e rurais, como o JULEST (1992), que adotou a pedagogia freireana para formar consciência crítica, e a Tri-União (1992), aliança entre coletivos para atuar em bairros periféricos.
O Dia Nacional da Juventude (DNJ), celebrado anualmente desde 1989, tornou-se palco de reivindicações e expressões culturais. Temas como “Juventude, cadê a Educação?” (1989), “Juventude: do nosso suor, a riqueza de quem?” (1990) e “Ouça o Eco(logia) da Vida” (1992) (p. 33, 35, 42) ecoaram nas ruas de Taiobeiras, mobilizando a comunidade para causas urgentes. A Campanha da Carriola, ação perene de arrecadação de alimentos e roupas, e o Grito dos Excluídos, manifestação contra as desigualdades no 7 de setembro, simbolizam o engajamento contínuo da juventude, que “soube ‘gritar’ pelos direitos de todos” (p. 80). Intercâmbios com cidades vizinhas fortaleceram redes de colaboração, materializando o “conceito de Rede de Juventude” (p. 82) na prática.
A cultura emerge como eixo vital dessa história. Projetos como a Banda Divina Providência, com repertório que honrava as raízes do Norte de Minas e Vale do Jequitinhonha, e o Coral Cantarte, fruto de um trabalho musical sistemático na Escola Tancredo Neves, demonstram como a arte foi instrumento de emancipação. O projeto Cantarte, premiado pelo edital Microprojetos Mais Cultura, capacitou jovens em música entre 2010, reforçando que “educar é mais do que apenas ensinar a ler e a escrever” (p. 103). Poesias produzidas pelos alunos, como “A dor da rejeição” (p. 124) e “Canção do coração” (p. 125), revelam a sensibilidade gerada nesse processo.
Textos reflexivos encerram a obra com chamados à autonomia e ao combate ao preconceito. Levon do Nascimento argumenta que o jovem autônomo é aquele que “consegue unir o conhecimento […] com a capacidade de criar e transformar” (p. 128), recusando-se a ser “marionete dos sistemas econômico e político”. Já o ensaio “Conceito e preconceito” (p. 129-130) alerta que apenas o “verdadeiro contato solidário” desfaz estereótipos, convidando a uma ética do encontro.
Este memorial, portanto, é um testemunho vibrante de como a juventude de Taiobeiras “teceu sonhos” (p. 64) e transformou dor em esperança, deixando um legado indelével: a certeza de que, nas palavras do poeta Zé Vicente, “miremos bem no espelho da memória. Faremos jovem e linda nossa história” (p. 9).
Referência:
NASCIMENTO, Flaviana Costa Sena; NASCIMENTO, Levon. Memorial da Juventude de Taiobeiras. Belo Horizonte: Editora O Lutador, 2010. -

Norte de Minas: Um Brasil profundo entre cerrados, sertões e fronteiras
Este texto é um artigo de opinião construído a partir da reflexão sobre os estudos de João Batista de Almeida Costa e Geová Nepomuceno Mota, considerando os conteúdos de Norte de Minas: Cultura Catrumana, Suas Gentes, Razão Liminar (COSTA, 2021), Fronteira regional no Brasil: o entre-lugar da identidade e do território baianeiros em Minas Gerais (COSTA, 2002) e O fenômeno religioso da romaria sob a perspectiva da fé cristã: a romaria ao Santuário de Bom Jesus da Lapa (MOTA, 2012). A abordagem tem por objetivo promover um olhar sensível e crítico sobre o Norte de Minas, suas gentes e seus territórios, respeitando as referências dos autores citados.
Por Levon Nascimento
Quando se fala em Minas Gerais, o imaginário nacional costuma evocar as montanhas históricas, o ouro colonial, as cidades barrocas e a mineiridade da prosa mansa. Mas quem olha para o mapa percebe que, ao Norte, Minas guarda um território diferente, um sertão que não se encaixa nos estereótipos das Gerais. O Norte de Minas é outra coisa. É mistura de cerrado e caatinga, de Minas e Bahia, de catrumano e baianeiro. “É um sertão de múltiplas vozes, marcado por fronteiras simbólicas e sociais, onde se misturam o vaqueiro e o lavrador, o catrumano e o baianeiro, o religioso e o profano” (COSTA, 2021).
Escrever sobre o Norte de Minas é, portanto, falar do Brasil profundo. Daquele Brasil que as capitais não enxergam, mas que resiste com teimosia às injustiças históricas. É falar de um povo que conhece a dureza da terra, o tempo da seca e o tempo da esperança. Que celebra a vida nos batuques dos quilombos, nas rodas de São Gonçalo, nas romarias ao Bom Jesus da Lapa/BA. “As práticas dos romeiros revelam a força da religiosidade popular nordestina e sertaneja, que transita entre o catolicismo oficial e as expressões locais de devoção, muitas vezes permeadas por elementos mágicos e simbólicos” (MOTA, 2012). “É um Brasil que, como disse Guimarães Rosa, ‘ajunta de tudo, os extremos, delimita, aproxima, propõe transição, une ou mistura: no clima, na flora, na fauna, nos costumes, na geografia, lá se dão encontro, concordemente, as diferentes partes do Brasil’” (ROSA, 1978 apud COSTA, 2002).
O Norte de Minas nunca foi prioridade no projeto mineiro. Durante séculos, a política e a economia do estado giraram em torno do ouro, do café e das cidades históricas. Enquanto isso, o Norte ficou relegado ao esquecimento, visto como periferia, como sertão inóspito, como problema a ser resolvido ou ignorado (COSTA, 2021).
Mas essa exclusão não foi apenas econômica. Ela também foi simbólica. “O Norte de Minas é ‘o outro’ dentro de Minas. Seus habitantes carregam o estigma de não serem os mineiros típicos. Falam diferente, comem diferente, rezam diferente. São chamados de baianeiros, como se fossem quase baianos, quase nordestinos, quase mineiros” (COSTA, 2002). Essa identidade liminar – entre ser e não ser – é, na verdade, uma riqueza cultural, mas o preconceito insiste em tratá-la como desvio.
O Norte de Minas é, historicamente, um território de fronteira. Não apenas uma linha no mapa, mas um lugar onde culturas se misturam e se reinventam. “Durante a colonização, o sertão foi palco de conflitos entre a Bahia e Minas, disputa que terminou com a anexação do território norte-mineiro à capitania das Minas Gerais no século XVIII” (COSTA, 2002). Desde então, essa região carrega em si a marca da fronteira, do entre-lugar, da encruzilhada.
Essa condição fronteiriça molda o jeito de ser das pessoas. O baianeiro – como se autodenomina boa parte da população – sabe transitar entre as tradições mineiras e nordestinas. Nas feiras, ouve-se o forró e o aboio, mistura-se o feijão tropeiro com o mocotó, o baião com o frango com pequi. “É o sertão em sua síntese, uma cultura plural e viva, que resiste mesmo diante das ameaças do agronegócio e da monocultura que avança sobre os Gerais” (COSTA, 2021).
Se há algo que une esse povo, além da terra, é a fé. A religiosidade popular no Norte de Minas é um traço fundamental da identidade regional. E ela não é a fé do altar de ouro das catedrais, mas a fé do chão de terra batida, dos terços rezados em roda, das promessas feitas nas estradas de poeira. “É a fé do romeiro que sai de casa com o bornal nas costas, atravessa o sertão e vai até o Bom Jesus da Lapa, levando esperança e pagando promessas” (MOTA, 2012).
A romaria é, mais do que um evento religioso, um ritual de pertencimento. “Quem vai à Lapa, vai também para reencontrar os seus, para reafirmar a própria existência diante do sagrado e da sociedade” (MOTA, 2012). É um ato de resistência cultural, um modo de dizer: “nós existimos, com nossa fé, nossa cultura e nosso jeito de viver”.
Apesar de sua riqueza cultural, o Norte de Minas continua sendo uma das regiões mais vulneráveis do Brasil. A pobreza, a seca e a falta de políticas públicas ainda marcam a paisagem. Mas essa realidade não é sinônimo de passividade. “As comunidades tradicionais da região – quilombolas, geraizeiros, veredeiros, apanhadores de flores, indígenas Xakriabá – vêm se organizando para afirmar seus direitos e preservar seus modos de vida” (COSTA, 2021).
O batuque ressoa como denúncia e celebração. As festas, as danças, as folias de reis, os Catopês, Marujos e Caboclinhos de Montes Claros, as Camponesas e Margaridas de Taiobeiras, as práticas agrícolas sustentáveis e os modos de cuidar da terra são parte de uma luta maior: a de permanecer no território, enfrentando o avanço do agronegócio e a lógica do capital que vê o cerrado apenas como commodity.
O Norte de Minas é o Brasil profundo. É a síntese de um país marcado por contradições, fronteiras e encontros. Não podemos continuar a ignorar essa região como se fosse um apêndice esquecido de Minas Gerais ou do Nordeste.
Ouvir as vozes do sertão norte-mineiro é essencial para entender o Brasil real. “Um Brasil que vive nas veredas, nos currais, nas romarias, nos batuques e nas lutas diárias pela dignidade” (COSTA, 2021). Como disse João Batista de Almeida Costa, “não se trata de romantizar o sertão, mas de reconhecer as gentes que ali vivem e resistem” (COSTA, 2021).
O Norte de Minas não é apenas um lugar no mapa. É um território de memória, cultura e esperança. E, mais do que nunca, merece ser ouvido, respeitado e incluído.
REFERÊNCIAS:
COSTA, João Batista de Almeida. Norte de Minas: cultura catrumana, suas gentes, razão liminar. Montes Claros: Editora Unimontes, 2021.
COSTA, João Batista de Almeida. Fronteira regional no Brasil: o entre-lugar da identidade e do território baianeiros em Minas Gerais. Sociedade e Cultura, v. 5, n. 1, p. 53-64, 2002.
MOTA, Geová Nepomuceno. O fenômeno religioso da romaria sob a perspectiva da fé cristã: a romaria ao Santuário de Bom Jesus da Lapa. Montes Claros: Editora Unimontes, 2012.
ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 10. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1976.
FOTOGRAFIA:
SANTOS, Eliana Alves dos. As Camponesas de Taiobeiras. 2024. Disponível em: https://www.facebook/eliana.alvesdossantos.94. Acesso em: 16 jul. 2025.
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SOB O PEQUIZEIRO SAGRADO: a epopeia do Cruzeiro que trouxe a chuva
Tentei transformar em prosa as 164 sextilhas de Hermínio Miranda Costa, publicadas em 1997 sob o título Santo Cruzeiro dos Martírios, sobre o monumento de mesmo nome, em Taiobeiras. Eis o resultado:
O sol do Alto Rio Pardo não dava trégua. Era 1897, e a seca mais cruel em décadas transformara os gerais de Taiobeiras num deserto de poeira e silêncio. O gado tombava nas cercanias da Taboca, as veredas secaram e os olhos do povo, acostumados à esperança, viam seus sonhos virarem areia.
Foi então, sob a sombra retorcida de um pequizeiro antigo, árvore sagrada do sertão mineiro, que os moradores se reuniram e fizeram uma promessa ousada, quase desesperada:
“Se Deus nos mandar chuva, ergueremos um Cruzeiro santo onde a estrada para Matrona cruza o descampado!”
Homens de barba grisalha, mulheres com crianças no colo, jovens de olhos úmidos de fé: todos partiram em romaria. Vieram a pé, das roças distantes, carregando pedras na cabeça, botijas d’água nas costas, flores nas mãos e esperança no coração. Caminharam do Coqueiro, onde as cacimbas já tinham secado; do Catolé, trazendo imagens de santos em panos vermelhos; e do Curral Queimado, com os pés sangrando entre pedregulhos.
Até os bravos do Mato Grosso, em Rio Pardo de Minas, atravessaram léguas e léguas sob um céu de chumbo, trazendo nos ombros imagens santas, madeiras e um sonho coletivo. À frente, João Velho conduzia o terço, sua voz rouca rompendo o silêncio dos gerais:
“Não é esmola que pedimos, Senhor…
É justiça para a terra!”Quando chegaram ao descampado marcado pela fé, o milagre começou a acontecer. No exato momento em que ajoelharam na terra rachada, uma brisa fresca, improvável, quase impossível, soprou entre eles. Parecia um suspiro dos próprios gerais, aliviados pela devoção do povo.
Ali mesmo, com as mãos calejadas de quem sabe manejar enxada e esperança, começaram a erguer o madeiro santo. Clementino, carpinteiro de Salinas, liderou o trabalho. Seu serrote, como quem esculpe a fé, moldava a cruz enquanto o povo cantava:
“Madeiro pesado, dor redimida…
Cravaremos aqui a nossa vida!”No dia 2 de julho de 1897, enquanto o sol se escondia atrás de nuvens escuras, o Cruzeiro dos Martírios foi fincado no chão ressequido. Dizem os mais velhos que, na mesma hora, Zezinho Costa selou o casamento ali mesmo, e as primeiras gotas de chuva tocaram a testa das crianças: bênção para quem espera com paciência de sertanejo.
Mas o verdadeiro milagre estava nos símbolos pendurados na cruz: os cravos, lembrando o sofrimento que se transforma em esperança; a coroa de espinhos entrelaçada com flores de sempre-viva; e a escada de José de Arimateia, porque naquele instante, o céu encontrou o chão, ao alcance dos humildes do sertão.
Anos depois, quando a seca voltou a ameaçar, o povo retornou em procissão. Desta vez, já havia uma igrejinha, construída por Dona Josefa, que doara o terreno. Durante um temporal, as paredes de barro desabaram, mas a imagem de Nossa Senhora do Amparo permaneceu intacta entre os escombros – sinal claro de que a fé resiste até às tempestades.
Em 1997, no centenário do Cruzeiro, a cidade celebrou com foguetes e missa campal. O vigário, erguendo a voz ao vento, anunciou:
“Esta cruz é testemunha!
Enquanto o geraizeiro tiver coragem de semear em terra seca e esperar a chuva, o sertão viverá!”E nas noites de lua cheia, quando o vento varre o cerrado em silêncio, alguns juram ouvir sussurros. São as 164 sextilhas de Hermínio Miranda, poeta geraizeiro, que eternizou em versos a coragem de um povo que nunca deixou de acreditar.
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