Blog

  • A falta que nos faz o Papa Francisco diante do genocídio em Gaza

    A falta que nos faz o Papa Francisco diante do genocídio em Gaza

    Por Levon Nascimento

    Há momentos na história em que uma voz se torna maior do que qualquer cargo ou instituição. Durante o papado de Francisco, essa voz se ergueu como um clamor contra as guerras, um chamado insistente para que o mundo não se acostumasse ao sofrimento humano. Ele não apenas discursava; telefonava, chamava pelo nome, dizia “não tenham medo”. E é justamente essa presença, terna e firme, que hoje nos falta diante da brutalidade que se desenrola em Gaza. O genocídio em curso, negado por uns e silenciado por outros, expõe a ferida mais profunda da humanidade: a capacidade de justificar a morte em massa em nome da segurança, da política ou da vingança.

    Francisco, mesmo debilitado pela bronquite que o acompanhou até seus últimos dias, ousava sonhar com uma visita a Gaza. Não por protagonismo, mas porque compreendia o peso simbólico de estar ao lado dos que sofrem. Sua ausência deixa um vazio não apenas religioso, mas profundamente humano. É duro constatar que, sem ele, a Santa Sé volta a se esconder atrás de comunicados cautelosos, evitando palavras como “genocídio”, como se a clareza pudesse ferir a neutralidade. Mas neutralidade diante da morte não é virtude, é cumplicidade.

    As manifestações que marcaram seu papado não foram apenas rituais. Ele esteve ao lado dos migrantes afogados no Mediterrâneo, denunciou a guerra na Síria, chorou pelas crianças da Ucrânia. Nunca aceitou que a violência fosse normalizada como parte do jogo geopolítico. É por isso que sua falta dói tanto agora: porque sabemos que ele não hesitaria em dizer que Gaza é um escândalo moral, um crime contra a humanidade. Para Francisco, paz não era apenas ausência de guerra, mas presença de justiça.

    Se estivesse vivo, Francisco provavelmente faria o que sempre fez: ligaria para um padre em Gaza, perguntaria pelos nomes das crianças, pediria que não perdessem a esperança. Pequenos gestos que, na verdade, são gigantescos, porque humanizam o que a guerra desumaniza. Ele sabia que a compaixão concreta é mais poderosa do que qualquer discurso diplomático. E diante da ofensiva terrestre israelense e do apagão das comunicações, o que falta é justamente alguém que nos lembre que, por trás das trincheiras, estão famílias como as nossas, mães como as nossas, crianças que poderiam ser nossos filhos.

    Hoje, mais do que nunca, sentimos a falta desse pastor que ousou ser humano em um mundo desumanizado. O genocídio em Gaza não pede apenas relatórios e resoluções: pede lágrimas, coragem e ação. Que a memória de Francisco nos incomode, nos mova e nos faça compreender que a fé — e também a humanidade — se mede pelo lado em que escolhemos estar quando a vida é esmagada.

  • Anistia nunca mais: por que o Brasil não pode perdoar golpistas que querem implantar a ditadura de novo

    Anistia nunca mais: por que o Brasil não pode perdoar golpistas que querem implantar a ditadura de novo

    A Lei da Anistia de 1979, apesar de suas graves limitações — como o perdão aos torturadores e ditadores —, teve um papel histórico: permitiu a incorporação dos que lutavam contra o regime militar à vida política e abriu caminho para a redemocratização. Foi nesse processo que emergiram lideranças como Ulysses Guimarães, Lula, Dilma Rousseff, Fernando Henrique Cardoso, Brizola e Luiz Carlos Prestes, culminando na eleição indireta de Tancredo Neves. A anistia, naquele contexto, funcionou como uma ponte para a democracia.

    O cenário atual é muito diferente. Vivemos em plena democracia e, por isso, propor anistia para os envolvidos na tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 não significaria reconciliação, mas sim impunidade. Diferentemente de 1979, não há um regime autoritário a ser superado. O que existe é uma tentativa frustrada de destruir o Estado democrático de direito. Conceder perdão a extremistas de direita seria um convite para novos atentados contra as instituições.

    A história mostra que a indulgência com golpistas nunca ensinou a lição necessária. Juscelino Kubitschek, por exemplo, concedeu anistia a militares que tentaram derrubá-lo em sucessivas conspirações. O resultado foi que eles continuaram tramando até conseguirem, em 1964, instalar uma ditadura que perseguiu, torturou e matou opositores. A lógica é clara: quando golpistas percebem que não serão punidos, voltam a agir com ainda mais ousadia.

    O voto recente do ministro Alexandre de Moraes no Supremo Tribunal Federal foi exemplar. Em exposição firme e didática, ele demonstrou que os crimes de 8 de janeiro foram uma tentativa organizada de golpe de Estado, com ataques ao Congresso, ao STF e ao Palácio do Planalto. Não se tratou de “pichação” ou “protesto pacífico”, mas de uma ofensiva coordenada para romper a ordem constitucional. Julgar e punir esses crimes não é vingança: é defesa da democracia.

    É a primeira vez que a Justiça brasileira enfrenta golpistas com verdadeiro rigor. Que isso sirva de lição. Perdoar novamente, como em tantos episódios do passado, seria repetir os erros que custaram caro ao país. O Brasil precisa mostrar que democracia não é negociável: quem tenta destruí-la deve responder por seus atos, sem atalhos, sem anistia e sem impunidade.

  • Anistia agora mata a democracia e pode matar você no futuro

    Anistia agora mata a democracia e pode matar você no futuro

    A anistia em questão refere-se a um projeto de lei em debate no Congresso Nacional que busca perdoar investigados, processados e condenados por participação na tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023 — incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro, militares, financiadores, articuladores e fomentadores da ruptura democrática e instalação de uma ditadura liderada pela extrema-direita. A proposta não é apenas uma medida jurídica, mas um gesto político que visa resgatar a elegibilidade de Bolsonaro e aliviar a situação dos réus e condenados que atentaram recentemente contra a democracia no Brasil.

    Esse movimento ganha fôlego dentro do PL e do Centrão, com líderes como Sóstenes Cavalcante e o governador paulista Tarcísio de Freitas articulando um texto que abarca crimes contra a democracia, desinformação e manifestações violentas, ampliando o alcance da anistia. Trata-se de uma manobra para apagar as consequências jurídicas do maior ataque institucional desde a redemocratização, recolocando o ex-presidente no jogo eleitoral e alimentando o discurso mentiroso de perseguição de seus apoiadores.

    O histórico do processo mostra que a tentativa de golpe foi estruturada de forma minuciosa. O chamado “Punhal Verde-Amarelo”, revelado pela Polícia Federal, configurava plano militar para depor o STF e assassinar Alexandre de Moraes, Alckmin e Lula. Quem mais seria assassinado depois? É fácil imaginar. Indiciamentos, confissões e documentos comprobatórios já foram reunidos nos autos que tramitam no Supremo Tribunal Federal, reforçando a gravidade da ação criminosa. Não se tratou de uma manifestação espontânea, mas de uma conspiração golpista organizada para implantar um novo regime de terror no país.

    No plano jurídico, especialistas e ministros do STF têm sido taxativos: não há respaldo constitucional para anistiar crimes contra a ordem democrática, uma vez que a democracia é cláusula pétrea da Constituição Federal. Alexandre de Moraes já declarou considerar inconstitucional qualquer projeto desse tipo, e juristas como o advogado Kakay reforçam que a proposta carece de fundamento legal. Portanto, o perdão político pretendido colide diretamente com a própria essência do Estado de Direito.

    No campo político, a articulação da anistia recebeu críticas até de veículos de comunicação tradicionalmente conservadores. O Estadão qualificou como “pornográfico” o acordo no Congresso para salvar os golpistas, enquanto O Globo criticou o governador Tarcísio de Freitas por articular a medida, colocando-o como cúmplice de uma pauta antidemocrática. O Brasil 247, por sua vez, classificou a iniciativa como fruto da “escória do Congresso Nacional”, denunciando sua essência fisiológica e oportunista.

    A própria comunidade jurídica reforça que não há espaço para absolvição nesse caso. Como lembrou o advogado Fernando Fernandes, as provas reunidas — muitas delas confissões explícitas — tornam impossível a defesa dos acusados. Se o projeto prosperar, não se estará promovendo justiça, mas apenas decretando a impunidade de quem atentou contra o regime democrático e autorizando-os a matar milhões de brasileiros que não pensam como a extrema-direita.

    Minha posição é clara: sou radicalmente contra a anistia a réus por tentativa de golpe de Estado no Brasil. Conceder perdão legal a quem atentou contra as instituições democráticas, por conveniência ou ganho político, equivaleria a legitimar a violência política e enfraquecer a própria democracia. Reconciliação nacional não se faz com impunidade, mas com responsabilização. O Brasil precisa consolidar o respeito às regras constitucionais e não abrir precedentes para que novos golpes sejam ensaiados sob a promessa de esquecimento futuro.

  • A Coluna Prestes no Norte de Minas: entre o mito e a realidade

    A Coluna Prestes no Norte de Minas: entre o mito e a realidade

    Em 1926, o Norte de Minas Gerais foi palco de um episódio marcante da história brasileira: a passagem da Coluna Prestes. Liderados por Luiz Carlos Prestes, um grupo de jovens militares idealistas percorria o país combatendo o governo oligárquico da época, defendendo bandeiras como o voto secreto e a moralização política. Sua incursão de dez dias pela região (19 a 29 de abril) revelou o abismo entre o Brasil urbano e a realidade do sertão.

    Apesar de serem os “revoltosos”, a maior violência partiu das próprias tropas do governo, os chamados “legalistas”. Financiadas pelo poder federal, milícias comandadas por coronéis como Horácio de Matos agiam com brutalidade, saqueando cidades, extorquindo civis e espalhando um rastro de terror. Para a população local, era difícil distinguir quem era quem, e o medo das represálias oficiais muitas vezes era maior do que o medo da própria Coluna.

    A estratégia militar de Prestes foi brilhante. Encurralado por forças superiores em Serra Nova, município de Rio Pardo de Minas, ele executou a famosa manobra do “Laço Húngaro”, uma série de movimentos circulares que confundiu completamente os perseguidores. Essa astúcia permitiu que a Coluna escapasse do cerco e continuasse sua marcha, demonstrando superioridade tática mesmo estando em menor número e com menos recursos.

    Um dos episódios mais simbólicos dessa passagem ocorreu em Taiobeiras (26/04/1926). Enquanto a maioria da população fugiu para o mato, o comerciante João Rêgo decidiu ficar e negociar. Ele recebeu os soldados da Coluna, abriu seu armazém e lhes forneceu suprimentos. Em um gesto de surpreendente honra, Luiz Carlos Prestes lhe pagou, deixando para trás uma bota cheia de moedas. Esse caso mostra que a iniciativa e a coragem local podiam mitigar a violência do conflito.

    A experiência no sertão mineiro foi um choque para os jovens tenentes de formação urbana. O contato direto com a miséria extrema e a estrutura de poder dos coronéis fez Prestes questionar suas convicções liberais. Aquele idealismo mostrou-se insuficiente para resolver os problemas profundos do Brasil rural, acelerando um processo de radicalização que mais tarde o levaria ao comunismo.

    A memória que ficou na região é um trauma duplo. Não foi apenas a passagem rápida dos rebeldes, mas a violência sistemática e predatória das tropas legalistas, que agiam em nome do Estado, que deixou marcas profundas na população. O episódio ficou na história local como um momento de medo, mas também de resistência e astúcia.

    Por fim, a passagem da Coluna Prestes pelo Norte de Minas é mais que uma simples nota de rodapé histórica. Ela simboliza o encontro (e desencontro) entre dois Brasis e foi decisiva para a transformação ideológica de seu principal líder, mostrando que a realidade do sertão pode ser a mais poderosa professora de política.

    Em breve, o livro: OS REVOLTOSOS PELO NORTE DE MINAS GERAIS: CENTENÁRIO DA COLUNA PRESTES (1926-2026). Um século depois, a história dos chamados “revoltosos” volta a ganhar voz! Organizado por Levon Nascimento, o livro reúne pesquisadores e guardiões da memória sertaneja para revisitar a passagem da Coluna Prestes pelo Norte de Minas — um episódio que mexeu com comunidades inteiras, entre medos, estratégias militares e lembranças que atravessaram gerações. Autores: Fabiano Alves Pereira · Joandina Maria de Carvalho · Leleco Pimentel · Levon Nascimento · Lídio Barreto Filho · Luiz Eduardo de Souza Pinto · Márcia Sant’Ana Lima Barreto · Maria de Fátima M. Mariani · Milton Pena Santiago · Monica Rodrigues Teixeira · Padre João Carlos Siqueira · Pedro Abder Nunes Raim Ramos · Sidney Batista Azevedo · Silvânia Aparecida de Freitas · Vladimir Mendes Patrício. Uma obra que mistura história, memória e emoção, trazendo à tona episódios que marcaram Taiobeiras e toda a região do Alto Rio Pardo. Falta pouco para esse encontro entre o sertão e a história do Brasil. Prepare-se para caminhar novamente com a Coluna Prestes — agora pelas páginas deste livro.

  • Pequenos corpos, grandes riscos: por que regular as redes já?

    Pequenos corpos, grandes riscos: por que regular as redes já?

    O influenciador Felca expôs como perfis com crianças sexualizadas lucram no TikTok e em outras redes da internet, denunciando um problema grave: a adultização infantil. Mas antes disso, a própria primeira-dama Janja já havia alertado sobre a necessidade de regular a plataforma, em conversa com autoridades da China. O motivo é simples: não é seguro.

    Adultização vai além da erotização precoce. Inclui exploração laboral disfarçada de “influenciador mirim”, exposição emocional cruel e uso da intimidade como mercadoria. 93% das crianças e adolescentes brasileiros estão online — são 24,5 milhões de vidas vulneráveis aos algoritmos que premiam o extremo.

    Fotos inocentes viram combustível para redes criminosas. Crises infantis se tornam “conteúdo”. Estudos mostram que adolescentes com +3h/dia em redes têm 60% mais risco de depressão. E políticos que deveriam proteger a infância preferem travar a regulação — para continuar usando essas mesmas redes como fábrica de discurso de ódio.

    O PL 2.628/2022 é um passo urgente: idade mínima para redes, verificação robusta, punição financeira para plataformas que lucram com a violação da infância. Outros países já avançaram: Austrália e União Europeia restringem acesso para menores de 16.

    Proteger a infância não é censura, é dever. Não se trata de impedir que pais postem fotos do aniversário dos filhos, mas de evitar que essa imagem seja explorada por criminosos. Não é liberdade lucrar com a inocência violada. É crueldade.

    Hoje, nossas crianças não estão brincando no quintal — estão expostas numa vitrine global, aberta 24 horas por dia para quem pagar por atenção. E a cada dia sem ação, fechamos mais um olho e deixamos que o outro seja vendido ao algoritmo.

    Referências
    CETIC.br. TIC Kids Online Brasil 2024: principais resultados. São Paulo: Cetic.br/NIC.br, 2025. Disponível em: https://cetic.br/media/analises/tic_kids_online_brasil_2024_principais_resultados.pdf. Acesso em: 15 ago. 2025.
    CETIC.br. TIC Kids Online Brasil 2024 (livro eletrônico). São Paulo: Cetic.br/NIC.br, 2025. Disponível em: https://cetic.br/media/docs/publicacoes/2/20250512154312/tic_kids_online_2024_livro_eletronico.pdf. Acesso em: 15 ago. 2025.
    BRASIL. Senado Federal. Projeto de Lei n.º 2.628, de 2022. Brasília, DF. Disponível em: https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/154901. Acesso em: 15 ago. 2025.
    CÂMARA DOS DEPUTADOS. Denúncia sobre uso indevido de imagens de crianças motiva 32 projetos na Câmara. Brasília, DF, 12 ago. 2025. Disponível em: https://www.camara.leg.br/noticias/1187375-denuncia-sobre-uso-indevido-de-imagens-de-criancas-motiva-32-projetos-na-camara-dos-deputados/. Acesso em: 15 ago. 2025.
    EXAME. Janja defende sua fala na China sobre TikTok: “Não há protocolo que me faça calar”. São Paulo, 19 maio 2025. Disponível em: https://exame.com/brasil/janja-defende-sua-fala-na-china-sobre-tiktok-nao-ha-protocolo-que-me-faca-calar/. Acesso em: 15 ago. 2025.
    CORREIO BRAZILIENSE. “Não há protocolo que me faça calar”, diz Janja sobre fala a Xi Jinping. Brasília, DF, 19 maio 2025. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2025/05/7150331-nao-ha-protocolo-que-me-faca-calar-diz-janja-sobre-fala-a-xi-jinping.html. Acesso em: 15 ago. 2025.
    REUTERS. Australia widens teen social media ban to YouTube, scraps exemption. Sydney, 30 jul. 2025. Disponível em: https://www.reuters.com/legal/litigation/australia-widens-teen-social-media-ban-youtube-scraps-exemption-2025-07-29/. Acesso em: 15 ago. 2025.
    EUROPEAN COMMISSION. Are there any specific safeguards for data about children? Bruxelas, s.d. Disponível em: https://commission.europa.eu/law/law-topic/data-protection/rules-business-and-organisations/legal-grounds-processing-data/are-there-any-specific-safeguards-data-about-children_pt. Acesso em: 15 ago. 2025.
    FORBES BRASIL. Adolescência: o perigo invisível das redes sociais para os jovens. 23 abr. 2025. Disponível em: https://forbes.com.br/forbes-tech/2025/04/adolescencia-o-perigo-invisivel-das-redes-sociais-para-os-jovens/. Acesso em: 15 ago. 2025.

  • O “Perigo Social” que atingiu Laudemir, o gari

    O “Perigo Social” que atingiu Laudemir, o gari

    A jornalista Lais Gouveia, com bisturi afiado, nos apresentou o retrato falado de uma criatura que prolifera no Brasil como dengue em água parada: o fubango de autoestima inflada e valores morais murchos. Não é apenas uma figura folclórica ou uma aberração de reality show. É a engrenagem humana de um projeto socialmente letal, fundado na arrogância da aparência, na exclusão meticulosa e na violência — tanto a que se disfarça em “opinião” quanto a que mata de fato. Foi assim que o gari Laudemir de Souza Fernandes, de 44 anos, trabalhador, pai, cidadão, acabou morto em Belo Horizonte, enquanto o suspeito de matá-lo seguiu para a academia, porque, afinal, bíceps não se fazem sozinhos.

    Começa pelo prato principal dessa dieta mental: “anabolizante com batata doce”. Leitura, nem pensar, um veneno! Não é só nutrição; é liturgia. O corpo como altar e arma, o culto à hipertrofia como substituto de caráter. “No pain, no game”, berra diante do espelho, ignorando que a dor que importa é a dos outros — invisível, descartável ou, na melhor das hipóteses, motivo de piada. O corpo é a blindagem e o atestado de “superioridade natural” do que se acha a viver num jogo de seleção artificial.

    O figurino desse espécime é um desfile de pretensão barata: “duas horas na fila da Disney com moletom da Tommy Hilfiger”. Aqui, consumo não é prazer; é hierarquia. Cada marca é uma cerca elétrica invisível separando “gente de bem” da “gentalha que estraga o glamour dos aeroportos”. Glamour, claro, entendido como apartheid social — aquele em que pobre é tolerado como funcionário, nunca como passageiro. Laudemir não foi vítima apenas de um crime; foi vítima de uma lógica que elimina fisicamente quem ousa existir fora do lugar designado.

    A fé, quando existe, é um fast-food espiritual: “café com Deus Pai” e “frases motivacionais do André Valadão”. É a versão gospel do coaching, onde Deus é personal trainer da sua conta bancária e a pobreza é vista como erro estratégico de quem “não correu atrás”. A teologia da prosperidade aqui serve de cimento para a moral do esgoto: direitos humanos são só para “humanos direitos”, ou seja, clones do próprio fubango.

    E há, por baixo de toda essa pose, a mais patética das couraças: a síndrome de vira-lata. É o sujeito que ostenta a bandeira dos Estados Unidos na camiseta, mas acha cafona a brasilidade. Camisa da seleção brasileira só como uniforme da guerra cultural de extrema-direita. Que fala mal do próprio país como quem comenta o tempo — automático, preguiçoso —, e se refere à cultura nacional como coisa menor, “brega”, “pobre”, “inadequada”. Que só respeita lei, arte e soberania quando vêm carimbadas com selo de importação. E, ironicamente, é capaz de matar um brasileiro para provar a si mesmo que pertence a um clube que jamais o aceitará como membro legítimo.

    Na playlist cultural, uma sinfonia do vazio: “foto do braço no volante ao som de Gusttavo Lima”. É a ostentação pasteurizada, a vida filtrada em Instagram Stories, o volante como cetro de um reinado imaginário. Botox aos litros, placas dentárias que refletem o sol e um vocabulário que não resiste a dois parágrafos sem o “Você sabe com quem está falando?”. Quando a máscara escorrega e o privilégio é ameaçado, o fubango responde com esse SOS aristocrático, denunciando a crença mais íntima: existem vidas que valem menos que um treino de tríceps.

    E é aqui que a coisa deixa de ser caricatura e vira protocolo de guerra social. O fubango não é um acidente isolado; é um manual vivo de desumanização. Ele circula nas academias, nos aeroportos, nas timelines e, o que é mais preocupante, nas urnas. Alimenta e é alimentado por um Brasil que confunde força com virtude e confere imunidade moral a quem ostenta o pacote completo: bíceps, marca, desprezo e complexo de inferioridade cultural.

    Por isso, reconhecer e nomear esse arquétipo é mais que sátira: é medida de segurança pública. Atrás do moletom da Tommy, da frase motivacional, da bandeira estrangeira no peito e do sorriso de porcelana, há sempre o risco do soco, do tiro ou da indiferença que mata. E quando ele perguntar, com o peito estufado e o maxilar travado, “Você sabe com quem está falando?”, a única resposta possível é clara, seca e sem reverência: “Sim. Com um perigo social.”

  • Nen Sena: Presente!

    Nen Sena: Presente!

    Não é segredo para ninguém que me conhece: gosto de política. Não a nego, nem a minimizo. Para mim, ela é a mais nobre das atividades humanas, aquela capaz de qualificar a vida em sociedade. Talvez por isso, minha memória pessoal sobre um dos elementos-chave da política — as eleições — remonte à infância. A primeira de que me recordo aconteceu em 1982, municipal e estadual ao mesmo tempo. Eu tinha apenas seis anos. Guardo na lembrança Tancredo Neves enfrentando Eliseu Rezende pelo governo de Minas, e, em Taiobeiras, a disputa entre Nen Sena e Jorge pela prefeitura.

    É justamente daí que vem minha primeira memória da imagem e do nome de Geraldo Sarmento de Sena — Nen Sena: vereador, presidente da Câmara, juiz de paz, vice-prefeito, prefeito e esposo de prefeita. Uma carreira política extensa, sólida e irretocável.

    Mais do que os cargos, Nen Sena foi um homem que atravessou o cenário conturbado da vida pública com uma biografia limpa. Em uma época em que a educação ainda não era vista como prioridade, ele investiu maciçamente na escolarização do povo de Taiobeiras. Foi em seu mandato que se construíram algumas das maiores escolas do município. Enquanto hoje há quem se apresse em municipalizar responsabilidades do Estado, ele conseguiu o inverso: estadualizou o 2º grau (atual Ensino Médio) local, garantindo maior estrutura e qualidade. Também foi dele o mérito de dar ao Poder Executivo Municipal uma sede digna.

    Mas Nen Sena foi além da política institucional: foi amigo, conselheiro, alguém capaz de transcender diferenças geracionais e ideológicas. Como fundador do PSDB histórico em Taiobeiras, demonstrou ser um democrata entusiasmado, um batalhador pelas boas ideias e um homem confiante no progresso humano.

    Com sua partida nesta data (12/08/2025), Taiobeiras perde um de seus grandes pais fundadores, mas herda um legado que a História há de reconhecer.

    Nen Sena: Presente!

    Por Levon Nascimento

  • A nova era global de ódio aos pobres

    A nova era global de ódio aos pobres

    Por Levon Nascimento

    Nos últimos anos, o mundo tem assistido à consolidação de uma racionalidade política que combina elementos do passado mais sombrio com novas formas de exclusão. O nazifascismo, que historicamente legitimou a perseguição e o extermínio de grupos considerados “indesejáveis”, ressurge hoje sob roupagens adaptadas, mas com a mesma lógica de hierarquizar vidas e descartar as que não se encaixam no ideal de pureza social. “O fascismo não é um fenômeno morto, mas uma gramática política que se atualiza” (TRAVERSO, 2019). Essa atualização se manifesta em práticas estatais e urbanas que violam diretamente os direitos humanos, em especial dos mais pobres.

    O higienismo social, originado no século XIX como política de saúde pública, rapidamente se converteu em instrumento de controle moral e espacial, associando pobreza à sujeira, doença e criminalidade (CHALHOUB, 1996). Essa ideologia segue viva nas remoções forçadas de pessoas em situação de rua e na chamada “arquitetura hostil” — picos de metal, bancos com divisórias, pedras sob viadutos — que expulsa os indesejáveis da paisagem urbana. No Brasil, o Padre Júlio Lancellotti denuncia que “é proibido ser pobre na cidade” (LANCELLOTTI, 2022), e sua atuação resultou na Lei 14.489/22, que proíbe tais dispositivos, mas não impede que gestores sigam buscando formas de invisibilizar a pobreza.

    A aporofobia, conceito criado por Adela Cortina (2017), descreve precisamente essa aversão aos pobres, não apenas como preconceito individual, mas como política de Estado. Trata-se de uma recusa ativa em conviver com a presença do outro que nada possui. Ao contrário do racismo ou xenofobia, que podem se suavizar diante da riqueza, a aporofobia é implacável: mesmo o nacional ou o branco, se pobre, será alvo de hostilidade. “Não é o estrangeiro que incomoda, é o pobre” (CORTINA, 2017). Essa hostilidade é visível no aumento da criminalização da mendicância em cidades de diferentes países.

    A necropolítica, conceito formulado por Achille Mbembe (2018), ajuda a compreender como governos decidem, conscientemente, quais vidas merecem ser protegidas e quais podem ser expostas à morte. Durante a pandemia de Covid-19 no Brasil, a gestão de Jair Bolsonaro minimizou riscos, atrasou vacinas e estimulou aglomerações, aumentando a mortalidade entre os mais pobres e periféricos (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 2021). “O poder de matar ou deixar morrer é o exercício último da soberania” (MBEMBE, 2018, p. 71). Essa escolha política configurou um crime ético contra as populações vulneráveis.

    No cenário internacional, exemplos recentes evidenciam a continuidade dessa lógica. Em agosto de 2025, o governo de Donald Trump em Washington, D.C., determina a remoção em massa de acampamentos de pessoas em situação de rua com apoio de forças federais (THE GUARDIAN, 2025). A medida, classificada por ativistas como higienista e autoritária, não oferece alternativas de moradia, apenas “limpa” o espaço público de corpos indesejados. Não se trata de política social, mas de um gesto simbólico de exclusão, alinhado à estética política neofascista.

    O neofascismo contemporâneo, como alerta Stanley (2018), não precisa replicar a estética dos anos 1930 para ser reconhecido: basta retomar a essência de suas práticas — nacionalismo agressivo, culto à força, inimigos internos e desumanização dos pobres. No Brasil, esse padrão se manifesta no bolsonarismo, que, ao desprezar a vida dos pobres e priorizar agendas de militarização, reforça a ideia de que o Estado deve servir apenas a quem pode pagar. “A democracia morre quando a desigualdade se naturaliza” (STANLEY, 2018).

    O fio que une nazifascismo, higienismo social, aporofobia, necropolítica e neofascismo contemporâneo é a institucionalização do desprezo. Trata-se de um projeto que, em vez de combater a pobreza, combate o pobre; que, em vez de garantir direitos, retira-os; que, em vez de acolher, expulsa. Denunciar essa lógica não é apenas exercício intelectual, mas uma obrigação ética: cada banco dividido, cada viaduto cercado, cada morte evitável é uma evidência de que, no século XXI, o ódio aos pobres deixou de ser vergonha e voltou a ser política oficial.

    Referências
    CHALHOUB, Sidney. Cidade febril: cortiços e epidemias na Corte imperial. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
    CORTINA, Adela. Aporofobia: o rechazo al pobre. Barcelona: Paidós, 2017.
    LANCELLOTTI, Júlio. “É proibido ser pobre na cidade”. Folha de S.Paulo, 19 fev. 2022.
    MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: n-1 edições, 2018.
    ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. WHO Coronavirus Disease (COVID-19) Dashboard. Genebra, 2021. Disponível em: https://covid19.who.int. Acesso em: 11 ago. 2025.
    STANLEY, Jason. How Fascism Works: The Politics of Us and Them. Nova York: Random House, 2018.
    THE GUARDIAN. Trump deploys federal forces to clear homeless encampments in DC. Londres, 8 ago. 2025.
    TRAVERSO, Enzo. The New Faces of Fascism. Londres: Verso, 2019.

    Créditos: Homem dorme nas escadarias em frente ao Teatro Municipal, no Rio de Janeiro (Luiz Souza/NurPhoto/Getty Images).

  • Taiobeiras: entre avanços e desigualdades no coração do Alto Rio Pardo

    Taiobeiras: entre avanços e desigualdades no coração do Alto Rio Pardo

    Texto de Levon Nascimento, produzido a partir da observação e análise de dados disponíveis no IBGE Cidades

    Taiobeiras, localizada no Norte de Minas Gerais, apresenta um perfil socioeconômico que combina avanços significativos com limitações estruturais persistentes. Com população estimada em 34.392 habitantes em 2024, segundo o IBGE, e Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) de 0,670 em 2010, o município alcançou melhoria contínua nas últimas décadas, especialmente em longevidade (0,815), mas mantém fragilidades nos componentes educação (0,578) e renda (0,639) (IBGE, 2010). Essa discrepância reflete a combinação de um sistema de ensino básico com bons índices recentes — taxa de escolarização de 6 a 14 anos próxima de 99% e IDEB de 6,8 nos anos iniciais (2019) — com o baixo nível educacional histórico da população adulta.

    No campo econômico, o Produto Interno Bruto per capita, de R$ 16.085,74 em 2021 (IBGE), é superior ao de parte dos municípios da região imediata de Salinas, mas inferior à média da região intermediária de Montes Claros e ao patamar estadual. A economia municipal é fortemente concentrada em serviços e na administração pública, que juntos respondem por cerca de 80% do valor adicionado bruto, enquanto a indústria é incipiente e a agropecuária, embora presente, tem baixo valor agregado. Essa estrutura produtiva, associada à elevada dependência de transferências governamentais, limita a autonomia fiscal e a capacidade de atração de investimentos privados, restringindo as oportunidades de trabalho qualificado e incentivando a migração de jovens.

    Os indicadores sociais expõem desafios ainda mais urgentes. A mortalidade infantil, de 14,42 óbitos por mil nascidos vivos em 2023, permanece acima da média nacional e supera a de cidades vizinhas como Salinas, que registra aproximadamente 5,8 (IBGE, 2023). Embora o município tenha ampliado sua capacidade hospitalar, com destaque para o Hospital Santo Antônio e sua inclusão na Rede de Atendimento ao AVC, a persistência de taxas elevadas indica que problemas estruturais, como a cobertura incompleta de saneamento básico, continuam afetando a saúde pública. Em 2010, apenas 16,1% dos domicílios possuíam esgotamento sanitário adequado; dados mais recentes sugerem avanço para cerca de 47% (IBGE, 2022), ainda insuficiente para garantir padrões adequados de salubridade.

    A comparação com a região imediata reforça a necessidade de políticas estruturantes. Apesar de Taiobeiras apresentar desempenho econômico ligeiramente superior ao de parte dos municípios vizinhos, seus indicadores sociais revelam desigualdades e vulnerabilidades comparáveis ou até mais acentuadas. A falta de diversificação produtiva e a insuficiência de políticas de desenvolvimento humano que articulem educação acadêmica de jovens e adultos, qualificação profissional e infraestrutura básica impedem que o município converta seu papel de polo regional em ganhos sustentáveis de qualidade de vida.

    Conclui-se que Taiobeiras enfrenta um paradoxo: mesmo reunindo condições para liderar o desenvolvimento da microrregião de Salinas, ainda convive com déficits estruturais que comprometem seu potencial. Investimentos prioritários em saneamento, atenção primária à saúde, diversificação econômica e qualificação educacional são essenciais para romper o ciclo de dependência fiscal e de baixo dinamismo econômico. Sem enfrentar essas fragilidades de forma integrada e planejada, o município continuará oscilando entre avanços pontuais e limitações crônicas, incapaz de alcançar níveis mais elevados de desenvolvimento humano e equidade social.

    Referências

    INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Cidades@: Taiobeiras – panorama. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mg/taiobeiras/panorama. Acesso em: 6 jul. 2025.

    INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Pesquisa de Informações Básicas Municipais – Taiobeiras. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mg/taiobeiras/pesquisa/19/143491. Acesso em: 6 jul. 2025.

    INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Produto Interno Bruto dos Municípios – Taiobeiras. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mg/taiobeiras/pesquisa/10102/122229. Acesso em: 7 jul. 2025.

    INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Indicadores de Saneamento – Taiobeiras. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mg/taiobeiras/pesquisa/24/76693. Acesso em: 8 jul. 2025.

    INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Indicadores de Saúde – Taiobeiras. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mg/taiobeiras/pesquisa/21/28134?ano=2023. Acesso em: 8 jul. 2025.

    INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Mapa municipal de Taiobeiras – MG. Disponível em: https://geoftp.ibge.gov.br/cartas_e_mapas/mapas_municipais/colecao_de_mapas_municipais/2022/MG/taiobeiras/A0_3168002_MM.pdf. Acesso em: 9 jul. 2025.

  • Fé para romper a indiferença, não para lucrar

    Fé para romper a indiferença, não para lucrar

    Vivemos tempos estranhamente silenciosos diante da dor. Enquanto milhões sofrem com fome, violência — como nas ruas de todo o mundo, em geral, e em Gaza, no particular —, abandono ou solidão, seguimos com nossas rotinas apressadas, rostos grudados nas telas e corações distraídos. A era da indiferença, como muitos a chamam, é marcada por uma anestesia coletiva: vemos tudo, mas não sentimos quase nada. É como se o sofrimento alheio tivesse perdido o peso, como se os laços humanos tivessem sido substituídos por curtidas, lucros e algoritmos.

    Essa indiferença não surgiu do nada. Ela se construiu aos poucos, num mundo que valoriza mais o desempenho do que a presença, mais a eficiência do que a empatia. Mais o lucro do que o ser humano. Somos levados a acreditar que não temos tempo para cuidar, para ouvir, para sofrer com o outro. E assim, nos tornamos especialistas em nos proteger das dores que não são nossas, às vezes até estimulados pelo discurso da toxicidade alheia. Porém, essa proteção cobra caro: nos desumaniza. Perdemos a capacidade de chorar com quem chora, de nos alegrar com quem se levanta.

    É nesse contexto que a encíclica Dilexit Nos (outubro de 2024), do Papa Francisco (1936 – 2025), brilha como uma luz em meio ao cansaço espiritual da atualidade. Ao propor o Coração de Jesus como símbolo e fonte de amor verdadeiro — humano e divino — Francisco nos convidou a romper o gelo que endurece o mundo. Ele falou de um “mundo sem coração”, dominado por tecnologias que nos unem superficialmente, mas nos afastam na essência. A Dilexit Nos não é um chamado à religiosidade superficial (muito louvor e pouca compreensão), mas à conversão profunda: para que deixemos de viver como espectadores e voltemos a ser irmãos.

    A encíclica nos lembra que o coração é lugar de verdade, de feridas, de ternura e também de decisão. E é a partir desse lugar que podemos reconstruir o tecido esgarçado da solidariedade. Ser cristão — ou simplesmente humano — nessa era da indiferença é escolher, todos os dias, não se calar diante do sofrimento, não se conformar com a exclusão e não se render ao conforto da apatia. O amor que nos é revelado no Coração de Cristo é exigente, mas profundamente libertador: nos chama a ser presença, escuta, abraço.

    Superar a era da indiferença não exige heróis, mas corações despertos. Exige menos pressa e mais atenção. Menos julgamento e mais compaixão. A Dilexit Nos aponta um caminho espiritual e humano para reencontrarmos o que de mais essencial existe em nós: a capacidade de amar e ser afetado pelo outro. Porque no fim das contas, só um mundo com coração pode ser verdadeiramente justo e habitável.

  • Hiroshima: Há exatamente 80 anos, o mundo conheceu o inferno

    Hiroshima: Há exatamente 80 anos, o mundo conheceu o inferno

    Por Levon Nascimento

    Era 6 de agosto de 1945, 8h15 da manhã, horário local, quando o avião B-29, batizado de Enola Gay, lançou sobre Hiroshima a primeira bomba atômica usada em combate: Little Boy. A explosão ocorreu a cerca de 600 metros do solo, no coração da cidade.

    Três dias depois, seria a vez de Nagasaki.

    Esses dois ataques nucleares — os únicos da história em um cenário de guerra — não atingiram alvos militares. Foram os corpos de civis que arderam. Homens, mulheres, crianças, idosos… vidas comuns, vidas inteiras, desapareceram em segundos. Nenhuma trincheira. Nenhuma chance.

    E não foram grupos terroristas, como Hamas, Al-Qaeda, Talibã ou Hezbollah, que acionaram as bombas. Tampouco foram os comunistas, os socialistas, a União Soviética, a China ou a Coreia do Norte. Não foram os negros, os LGBTQIAPN+, os petistas, o MST ou o MTST.

    As bombas caíram por decisão do governo dos Estados Unidos da América. E não, isso não nos leva ao ódio contra o povo estadunidense.

    Mas é impossível ignorar que o comando partiu do imperialismo capitalista ocidental — que se apoia no poder do Estado e de suas forças armadas para alimentar um sistema global movido por ganância, medo, terror e morte.

    Lembrar de Hiroshima e Nagasaki, hoje, é mais do que olhar para o passado. É reconhecer os reflexos dessa tragédia no presente: a ascensão de uma extrema-direita violenta, nos EUA e no Brasil bolsonarista; o genocídio do povo palestino em Gaza; a volta de políticas econômicas predatórias que empurram milhões ao desemprego e à fome, como as prometidas por Donald Trump.

    Como nos alertou o Papa Francisco na Laudato Si’: “Tudo está interligado.” E infelizmente, isso vale também para os ciclos de violência, exploração e injustiça.

    Fazer memória é resistir. É não permitir que a insanidade volte a tomar o lugar da razão. Que o horror volte a se repetir.

    Que nunca mais uma manhã seja escurecida por bombas que caem do céu.

    Imagem: Redes sociais da internet.

  • Viralatismo no calor dos trópicos

    Viralatismo no calor dos trópicos

    A síndrome de vira-lata, ou simplesmente viralatismo, é uma postura psicossocial marcada pela desvalorização da própria cultura em favor de expressões estrangeiras, geralmente de origem colonialista e tidas como mais avançadas ou superiores. Trata-se, em essência, de uma forma de baixa autoestima coletiva e intelectual.

    É o desejo inconsciente — e por vezes explícito — de ser europeu ou estadunidense, como se isso acrescentasse algum valor à existência que não se encontra no simples fato de ser brasileiro. Como se houvesse um status maior em negar suas raízes do que em afirmá-las.

    O viralatismo prospera onde o pensamento crítico enfraquece. Quanto menos se lê, quanto mais se consome sem reflexão, quanto menos se alimenta a inteligência com conteúdos de substância, mais se está vulnerável a essa síndrome que aliena e distorce a própria identidade.

  • Será que a gente precisa vencer na vida?

    Será que a gente precisa vencer na vida?

    Resumo de leituras de Levon Nascimento

    “Vencer na vida” — quem nunca ouviu essa expressão como se fosse uma meta natural, quase uma sentença? Desde pequenos, somos atravessados por essa ideia como se ela fosse a luz no fim do túnel: para uns, vencer é ter muito dinheiro; para outros, estabilidade, respeito, ou talvez um diploma pendurado na parede. Há ainda quem enxergue a vitória como um estado subjetivo, de autorrealização. Mas, em quase todas essas versões, existe um pano de fundo comum: a meritocracia — a crença de que, com esforço e força de vontade, todo mundo chega lá.

    O site A Firma Preta (2024) resume bem essa lógica: trata-se de uma “narrativa que associa sucesso a consumo e reconhecimento”. E não faltam estudos acadêmicos para reforçar o quanto esse ideal de sucesso está entranhado nas promessas da educação, da performance e da autoimagem (UFBA, 2019; LIPOVETSKY, 1986).

    No entanto, quando olhamos de perto, essa ideologia começa a mostrar suas contradições — e feridas. Ela pressiona especialmente quem já nasce em desvantagem: jovens, pretos, pobres, mulheres. Sob o mito de que todos têm as mesmas chances, transforma a exclusão em culpa pessoal. A pesquisa da UFBA (2019) é clara: para os jovens das periferias, buscar um emprego formal vira quase uma fuga do abismo social — uma estratégia para escapar da vulnerabilidade —, mesmo quando a porta do mercado está fechada para eles.

    Com mulheres e pessoas negras, o peso é ainda maior. Elas enfrentam a dureza das estruturas desiguais e, ainda assim, são responsabilizadas pelos “fracassos” que o próprio sistema impõe. Como explica Demarchi (2010), a meritocracia funciona como um mecanismo de “naturalização das desigualdades”, mascarando injustiças sociais sob a aparência de incompetência individual.

    E os paradoxos não param por aí. Na escola pública, por exemplo, ensina-se com convicção que “estudar abre portas” (UNESP, 2015). Mas quem frequenta essas escolas sabe que as portas não são as mesmas para todos — e que há trancas invisíveis para muitos. Lipovetsky (1986) alerta que até mesmo a busca por felicidade interior, vendida como alternativa ao sucesso material, virou uma exigência sufocante. A nova regra é ter que dar certo por fora e por dentro, ser bem-sucedido e ainda parecer autêntico, calmo, resiliente.

    Essa lógica esconde um jogo cruel: ao eleger o indivíduo como único responsável por sua trajetória, ignora que o ponto de partida não é o mesmo para todos. Para quem nasce nas bordas da sociedade, “vencer na vida” é como correr uma maratona com pedras nos sapatos — e ainda sorrir para as câmeras. O fracasso vira motivo de vergonha. A Firma Preta (2024) chama atenção para isso: essa cultura gera “ansiedade e culpa”, e mina silenciosamente a saúde mental de quem não consegue alcançar o inalcançável.

    Talvez por isso seja urgente repensar o que significa “vencer”. Será que essa palavra precisa continuar sendo um troféu que poucos alcançam? E se vencer fosse, simplesmente, viver com dignidade, com tempo para respirar, com afeto e segurança? Talvez, como sugerem tantas vozes dissidentes, a verdadeira vitória seja existir sem ter que se justificar o tempo todo.

    REFERÊNCIAS
    DEMARCHI, Guilherme Silva. Crítica da ideologia meritocrática. 2010. Disponível em: https://www.academia.edu/download/104695524/2010_GuilhermeDemarchiSilva.pdf. Acesso em: 1 ago. 2025.
    FIRMA PRETA. Vencer na vida é uma ideologia? Substack, 2024. Disponível em: https://firmapreta.substack.com/p/vencer-na-vida-e-uma-ideologia. Acesso em: 1 ago. 2025.
    LIPOVETSKY, Gilles. A era do vazio. 1986. Disponível em: https://www.academia.edu/download/56368823/Gilles_Lipovetsky_-_A_Era_Do_Vazio_1.pdf. Acesso em: 1 ago. 2025.
    UFBA. Jovens e trabalho no contexto baiano. Repositório Institucional, 2019. Disponível em: https://repositorio.ufba.br/handle/ri/32266. Acesso em: 1 ago. 2025.
    UNESP. Meritocracia na educação pública. Repositório Institucional, 2015. Disponível em: https://repositorio.unesp.br/entities/publication/c8f4ad2d-4bc5-40ba-b7d7-ab165d328b47. Acesso em: 1 ago. 2025.

  • Lei Magnitsky contra o Brasil: Soberania não se negocia!

    Lei Magnitsky contra o Brasil: Soberania não se negocia!

    O que está em jogo, mais do que a reputação de um magistrado ou um episódio isolado de política internacional, é a própria soberania do Brasil. A decisão do governo dos Estados Unidos, ainda sob influência do trumpismo, de aplicar a chamada Lei Magnitsky ao ministro Alexandre de Moraes escancara uma nova forma de agressão externa: a guerra híbrida travestida de moralidade internacional.

    Criada em 2012 como resposta à morte do advogado russo Sergei Magnitsky após denúncias de corrupção, a lei foi idealizada para punir graves violações de direitos humanos e atos de corrupção sistêmica. No entanto, ao ser utilizada agora contra um ministro da Suprema Corte brasileira, ela se revela distorcida, transformada em instrumento de pressão política. As acusações da política de extrema-direita de Trump ignoram por completo o fato de que as decisões de Moraes passaram pelo crivo do plenário do STF e foram respaldadas por fundamentos constitucionais. A imposição de sanções, como o bloqueio de bens e a proibição de transações com entidades americanas, expõe um ato de ingerência e desrespeito à autonomia das instituições brasileiras.

    Trata-se de uma escalada agressiva que deve ser lida no contexto mais amplo da atual relação entre Brasil e Estados Unidos. Em um curto intervalo, Washington adotou uma série de medidas que ferem diretamente os interesses nacionais. Em 9 de julho de 2025, tarifas de 50% foram anunciadas sobre exportações brasileiras, coincidindo com as investigações sobre a tentativa de golpe bolsonarista. Dias depois, vieram as restrições de visto a ministros do STF. Por fim, em 30 de julho, Moraes foi sancionado. A cronologia não deixa dúvidas: não se trata de episódios isolados, mas de uma campanha articulada. Como bem afirmou o líder do governo na Câmara, Lindbergh Farias: “Não é um ataque a um ministro, é um ataque ao Brasil”.

    O cenário se agrava com a atuação de setores da extrema-direita brasileira, antipatrióticos e traidores do Brasil, que se aliaram a interesses estrangeiros. Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente réu em tentativa de abolição violenta da democracia, licenciado da Câmara dos Deputados, teve papel central nessa ofensiva. Reportagens internacionais, como as do Washington Post, mostram que ele se comportou como verdadeiro agente estrangeiro, incentivando empresas brasileiras a levarem seus investimentos aos Estados Unidos, ao passo que celebrava as sanções a Moraes como “marco histórico”. Essa postura se inscreve na lógica do entreguismo e da sabotagem econômica contra o próprio país natal. Mais do que deslealdade institucional, trata-se de um comportamento que fere diretamente o Código de Ética Parlamentar e a ordem constitucional. A ausência de um tipo penal específico para o crime de lesa-pátria não exime a gravidade desses atos — eles devem ser enfrentados com responsabilização política urgente.

    Diante dessa conjuntura hostil, a reação do Brasil precisa ser estratégica e equilibrada. Firme, porém inteligente. A Advocacia-Geral da União, pelas palavras de Jorge Messias, já sinalizou que todas as medidas legais serão adotadas para proteger as instituições brasileiras, inclusive em instâncias internacionais. É fundamental, no entanto, que o país não entre no jogo da retaliação econômica: o protecionismo de curto prazo, segundo estudos do Peterson Institute, só é eficaz em 23% dos casos e pode agravar as tensões comerciais. A prioridade deve ser a defesa da ordem constitucional, como reiterou o ministro Flávio Dino ao afirmar que Moraes está apenas cumprindo seu dever institucional.

    Essa coesão entre os Poderes é a principal arma contra as tentativas de desestabilização. Em paralelo, a diplomacia brasileira deve intensificar a articulação com blocos e países que valorizem o multilateralismo, como os BRICS e a União Europeia. É preciso isolar o unilateralismo norte-americano e construir uma frente internacional de defesa da legalidade e da soberania.

    Como destacou o próprio Jorge Messias, “soberania não se negocia”. A tentativa de transformar o Brasil em um laboratório para ações extraterritoriais de Washington deve ser enfrentada com toda a energia do Estado brasileiro e com a mobilização de sua sociedade civil. Este é o momento de união nacional — acima de partidos, ideologias e disputas internas. O ataque a Moraes é uma farsa jurídica e uma tentativa de proteger um aliado político de Trump (Jair Bolsonaro), ao custo da própria Independência do Brasil. Ceder seria admitir que o país pode ser governado de fora, voltar a ser colônia de fato. E isso, a História nos ensina, sempre termina em subordinação e atraso.

    A grandeza de uma nação não está em sua submissão, mas em sua capacidade de resistir. O Brasil, com sua democracia ainda jovem, tem o dever de reagir à altura. Porque uma pátria que se respeita, se defende.

  • Taiobeiras e a caverna de Platão

    Taiobeiras e a caverna de Platão

    por Levon Nascimento

    Por décadas, Taiobeiras aprendeu a se ver pelas sombras que tremulam na parede. Alimentada por frases de efeito como “terra dos vencedores” e “cidade empreendedora”, foi se acostumando a confundir brilho com luz, movimento com progresso, aparência com verdade. A alegoria da caverna de Platão, escrita há mais de dois mil anos, nunca fez tanto sentido: enquanto muitos se encantam com as imagens cuidadosamente produzidas para as redes sociais, para as campanhas publicitárias e os eventos de marketing institucional, outros lutam para sair da escuridão — e encaram o desconforto de enxergar aquilo que não querem mostrar.

    E o que se vê, quando se olha com coragem, são feridas abertas. Taiobeiras tem sido marcada, há muito tempo, pela hegemonia de grupos conservadores, herdeiros de um ciclo político que atravessa gerações — da UDN à ARENA, do coronelismo às oligarquias mais modernas, sempre com novos nomes, mas velhas práticas. A cultura clientelista, disfarçada de eficiência ou liderança, sufoca a democracia com promessas rasas e favores. É o “joelismo sem Joel”, como me peguei pensando um dia — um sistema que sobrevive à queda de seus próprios líderes, porque mantém intacta a estrutura de poder e de privilégios. E, enquanto isso, quem vive nas margens continua à deriva. A renda se concentra. O debate político empobrece. E o silêncio, muitas vezes, é comprado, cooptado ou simplesmente imposto.

    A realidade, contudo, insiste em escapar da maquiagem. Em 2016 e 2017, Taiobeiras esteve entre as cidades mais violentas da região. O número de homicídios cresceu quase 30% em apenas um ano (10° BPMMG, 2017 apud NASCIMENTO, 2018, p. 35). Quem perdeu a vida — ou perdeu um filho — sabe que não se trata de estatística, mas de um luto que se repete. Jovens negros, pobres e periféricos pagaram o preço de uma sociedade de mercado, desumanizada. A herança do autoritarismo fez irradiar a violência.

    Foi nesse vácuo que floresceu um novo discurso: o do empreendedorismo redentor. Agora, quem fracassa não é vítima de um sistema injusto, mas de sua própria incompetência. A responsabilidade social virou responsabilidade individual. A pobreza virou culpa. E o sucesso, privilégio travestido de mérito.

    Mas a caverna não aprisiona só pela política e pela economia. Ela se estende à cultura, ao meio ambiente, à memória coletiva. Em 2023, o pequizeiro centenário do Cruzeiro — mais que uma árvore, um símbolo de fé e identidade comunitária — foi derrubado por uma motosserra. O gesto, longe de ser apenas técnico ou administrativo, foi brutal em sua simbologia. Revelou um modelo de desenvolvimento que atropela o que não entende, que finge não ouvir os clamores da terra e da gente, e que chama de “progresso” o que, no fundo, é destruição.

    Essa prisão simbólica, construída tijolo por tijolo ao longo de décadas, também ajuda a explicar por que ideias autoritárias encontram tanto eco em nossa cidade. Em 2022, quando me perguntaram como Bolsonaro venceu em Taiobeiras, respondi sem hesitar: não foi ruptura, foi continuidade. O conservadorismo daqui não é um acidente. É parte de uma construção histórica, feita de exclusão, de silenciamentos e de valores coloniais que ainda nos atravessam. Vivemos uma cultura em que o “ter” vale mais do que o “ser”, e em que os modos de vida das classes trabalhadoras são engolidos por um modelo de aparência burguesa e solitária. Mesmo na cidade, onde vive mais de 80% da população, falta a prática de solidariedade e organização coletiva que, por vezes, resiste com mais força no campo. Desde os anos 1970, o agronegócio molda não só a economia, mas o imaginário local, concentrando renda e padronizando mentalidades.

    Taiobeiras será, de fato, uma cidade empreendedora — no melhor sentido da palavra — quando descobrir que o maior investimento possível é na dignidade de seu povo. O maior lucro, a justiça. O maior feito, a liberdade compartilhada. Romper com as sombras exige coragem, mas é também um gesto de amor. Amor à cidade, às suas histórias escondidas, às vozes caladas, às sementes que ainda resistem no chão. Nenhuma caverna dura para sempre quando há quem se levante, quem questione e, sobretudo, quem escolha caminhar para fora dela. Porque há luz. E ela começa onde termina o medo de ver.

  • Encontrão das CEBs de Taiobeiras: Ainda rezo pelo Reino

    Encontrão das CEBs de Taiobeiras: Ainda rezo pelo Reino

    Faz quase três décadas. Lembro como se fosse agora. Eu, ainda jovem, no 1º Encontrão das CEBs de Taiobeiras, de microfone em punho, saudava cada comunidade que chegava ao salão comunitário do Marruaz com entusiasmo e fé. Bradava palavras de vida: Viva o Povo de Deus! Viva o novo jeito de ser Igreja! Viva a caminhada do povo de Jesus! Viva a justiça e a fraternidade!

    As Comunidades Eclesiais de Base marcaram profundamente minha formação, tanto na fé quanto na cidadania. O jovem Levon que despertava ali nascia de uma teologia que não separa a vida da fé. Uma teologia encarnada no chão do povo. Serei eternamente grato por isso.

    Vieram o 2º Encontrão, o 3º, e tantos outros. Parecia que aquele sonho jamais acabaria. Foram momentos de comunhão, esperança e compromisso com o Evangelho vivo nas comunidades.

    Sigo até hoje dando testemunho. Defendo, propago e conto, com orgulho, a bela história das CEBs de Taiobeiras nos espaços onde atuo. Sem cobranças, mas com profunda admiração. Mais de dez livros meus fazem referência ao espírito e ao programa das CEBs. Eles estão em mim — e eu sigo com eles.

    Por isso, neste dia em que mais um Encontrão das CEBs acontece em Taiobeiras, rezo com todo o meu coração para que um novo ardor missionário se irrompa. Que o Espírito Santo continue a soprar entre os pequenos, os simples e os sonhadores.

    Venha o Teu Reino, Senhor. O mundo precisa dele mais do que nunca.

    Crédito da fotografia: Frei Gilvander.

  • O que há por detrás da ideologia empreendedora em Taiobeiras?

    O que há por detrás da ideologia empreendedora em Taiobeiras?

    Taiobeiras, no norte de Minas Gerais, orgulha-se de ser “cidade de gente vencedora” e “terra do espírito empreendedor” — frases que se repetem em discursos oficiais, campanhas midiáticas e até nas salas de aula. Celebrar o talento e o esforço é legítimo, mas essa narrativa pode esconder uma armadilha: reduzir o sucesso humano apenas ao lucro e ao mérito individual, encobrindo desigualdades profundas e cultivando mentalidades excludentes e até mesmo supremacistas.

    Estudos sobre o empreendedorismo no Brasil mostram que quase 40% dos trabalhadores por conta própria atuam por necessidade, não por escolha ou oportunidade (Raasch et al., 2020). Em Taiobeiras, muitos dos chamados “empreendedores” são agricultores familiares ou trabalhadores em serviços essenciais — muitos na informalidade — que lutam pela sobrevivência, não pelo enriquecimento. A retórica do “vencedor nato”, portanto, ignora aqueles que enfrentam falta de crédito, infraestrutura precária, ausência de formação humanística e políticas públicas moldadas apenas para atender aos interesses de oligarquias locais.

    Por trás dessa exaltação, há um projeto ideológico. Como apontam Leite e Lindôso (2018), o neoliberalismo transformou o empreendedorismo em uma “resposta individualizada a problemas sociais”, transferindo para o cidadão a culpa pelo desemprego, pobreza e ausência de perspectivas estruturantes, as quais somente alguns têm acesso. Enquanto muitos sonham em “virar o próprio chefe”, os direitos trabalhistas vão sendo negligenciados, e a condição humana do trabalhador é deixada de lado. Mascara-se a exploração por meio da promessa de riqueza que só vem para alguns por motivos óbvios e historicamente determinados.

    A meritocracia vendida como solução é, na verdade, um mito perverso. Quando se insinua que “quem não vence é porque não se esforçou” (Costa, 2009), apagam-se os fatores estruturais que moldam a realidade: heranças familiares, apadrinhamentos político-econômicos, informações privilegiadas, acesso desigual à educação e privilégios históricos de propriedade. Isso constrói uma hierarquia simbólica que marginaliza quem não se encaixa no perfil idealizado do “empreendedor de sucesso”.

    A saída está em repensar o próprio conceito de sucesso. A educação, aqui, é chave. É urgente educar filosoficamente o taiobeirense. Ser grande não é apenas acumular bens econômicos. Há um mundo vasto a ser descoberto — e é fundamental se lançar nele com criticidade e sensibilidade. Em vez de reforçar clichês, poderia se valorizar histórias da coletividade: produções culturais e artísticas, trajetórias intelectuais, realizações nos esportes, na música, no fazer alternativo. Isso também é vitória. Isso também é potência transformadora.

    No fim das contas, a pergunta persiste: quem perde quando uma cidade só celebra os “vencedores” do dinheiro? Taiobeiras só será verdadeiramente empreendedora quando entender que o maior lucro é a dignidade compartilhada. Como diz um velho ditado sertanejo: “Sozinho você corre rápido; junto, você vai longe”. O espírito coletivo, e não o individualismo, é o único caminho para um desenvolvimento que realmente não deixe ninguém para trás.

  • As consequências da monocultura de Eucalipto no Alto Rio Pardo: entre lucros e riscos socioambientais

    As consequências da monocultura de Eucalipto no Alto Rio Pardo: entre lucros e riscos socioambientais

    Por Levon Nascimento

    A seguir, um texto síntese das leituras que fiz de dois autores regionais, em campos científicos distintos, Rômulo Soares Barbosa, na sociologia, e Lucineia Lopes Bahia Ribeiro, na economia, sobre a monocultura de Eucalipto no nosso Alto Rio Pardo, Norte de Minas Gerais.

    Desde as primeiras plantações comerciais de eucalipto no Alto Rio Pardo, durante a Ditadura Militar (1964-1985), a paisagem e a economia da região passaram por transformações profundas. Terras antes dedicadas ao extrativismo dos frutos do cerrado, como o pequi, ao cultivo de subsistência e à pecuária familiar foram progressivamente cedidas a grandes empresas florestais, atraídas pela demanda crescente de carvão vegetal para a siderurgia mineira. Esse modelo de monocultura trouxe lucros expressivos: projeções de projetos exclusivos de carvão vegetal indicavam taxas internas de retorno superiores a 30 %, mesmo em cenários de preços conservadores, e margens líquidas que chegavam a quase 100 % quando combinados carvão, madeira, lenha e óleo essencial (RIBEIRO, 2020).

    Contudo, a mesma força que impulsionou a economia local passou a ameaçar o frágil equilíbrio socioambiental dos gerais. A elevada taxa de transpiração do eucalipto – quatro vezes maior que a de espécies nativas durante o período seco – acelerou o rebaixamento de nascentes e o assoreamento de córregos, reforçando as pressões sobre a disponibilidade hídrica numa região que em regra enfrenta cinco meses secos por ano (BARBOSA, 2023). Enquanto estudos técnicos ressaltavam que, sob manejo responsável, o eucalipto poderia consumir água de forma comparável a outras florestas plantadas e oferecer benefícios como sequestro de carbono e proteção do solo (RIBEIRO, 2020), as comunidades tradicionais relatavam diminuição de vazão e até o desaparecimento de pontos de captação que sustentavam o consumo doméstico e a criação de pequenos animais.

    A tensão entre visões técnicas e vivenciais tornou-se evidente na disputa por políticas públicas. Por um lado, pesquisadores econômicos elogiavam o arcabouço regulatório brasileiro – da Política Nacional do Meio Ambiente ao Novo Código Florestal – como suficiente para garantir a sustentabilidade das plantações e abrir caminho a programas de créditos de carbono (RIBEIRO, 2020). Por outro, lideranças geraizeiras denunciavam que tais normas não freavam a expansão desigual da monocultura, obrigando-as a promover autodemarcações e articular esforços para demarcar assentamentos agroextrativistas e reservas de desenvolvimento sustentável (BARBOSA, 2023). Essa mobilização não surgiu por acaso: confrontos como o “Trancamento da Rodovia 251” em 2013 e greves de fome em 2014 deram voz a quem via no “deserto verde” um cerco ao modo de vida e ao direito à água.

    O impacto socioambiental se fez mensurável. Mapas de uso do solo comparando 2000 e 2020 mostram que, em áreas onde houve reconversão de eucalipto para sistemas agroextrativistas, a cobertura de cerrado alcançou 41 %, contra apenas 18 % duas décadas antes, e os corpos d’água passaram de 0,03 % para 0,17 % da paisagem (BARBOSA, 2023). Ao mesmo tempo, essa reconversão tornou-se vetor de revitalização de mananciais e de práticas tradicionais de manejo sustentável, reforçando o caráter multifuncional do cerrado como fonte de recursos e preservação da biodiversidade.

    As empresas, por sua vez, continuam a explorar as vantagens competitivas do monocultivo, beneficiando‑se de tecnologias genéticas que reduzem ciclos de crescimento e custos de produção, enquanto as comunidades avançam em processos de regularização fundiária. A diferença de perspectiva ilustra um dilema central: o eucalipto pode ser modelo de empreendimento economicamente rentável e teoricamente sustentável, mas sem uma gestão que integre demandas socioambientais, perpetua desigualdades e agrava a crise hídrica local e climática global (RIBEIRO, 2020; BARBOSA, 2023).

    Na prática, a monocultura intensificou a vulnerabilidade do entorno rural ao ciclo de secas, ampliou riscos de erosão e diminuiu a resiliência dos ecossistemas. Ao mesmo tempo, o potencial de diversificação dos projetos florestais – explorando óleo essencial, madeira e lenha – mostrou‑se promissor para reduzir riscos financeiros, mas não abordou integralmente a urgência de conservar os recursos hídricos (RIBEIRO, 2020). Somente a partir da conscientização crescente e da organização das comunidades geraizeiras, por meio de conferências locais e redes de articulação nacional, será possível pressionar por uma reconversão que alie produção e proteção ambiental (BARBOSA, 2023).

    Por fim, o Alto Rio Pardo vive um momento de virada: os ganhos econômicos oriundos da monocultura de eucalipto não podem ser dissociados dos danos socioambientais que impuseram ao cerrado e às populações tradicionais. A tomada de consciência coletiva e a mobilização em torno de políticas territoriais de base comunitária mostram-se fundamentais para redefinir esse modelo. É imprescindível que o equilíbrio entre lucro e preservação seja reconfigurado, de modo que os próximos ciclos de plantio garantam água, biodiversidade e justiça social para as gerações futuras.

    Referências Bibliográficas

    BARBOSA, Rômulo S. Comunidades Geraizeiras do Alto Rio Pardo – MG: Reconversão Territorial e Produção de Água no Cerrado. Revista Verde Grande: Geografia e Interdisciplinaridade, Montes Claros, v. 5, n. 2, 2023.

    RIBEIRO, Lucineia Lopes Bahia. Análise do Resultado Financeiro da Produção de Eucalipto das Cidades do Território do Alto Rio Pardo – MG. 2020. Guarujá, SP: Editora Científica Digital, 2020.

  • O Rubicão do Brasil

    O Rubicão do Brasil

    A seguir, uma síntese opinativa dos textos jornalísticos que li no domingo, 20 de julho de 2025.

    Imagine um general romano parado à beira de um rio estreito no norte da Itália, em 49 a.C. Seu nome é Júlio César. A lei proíbe que ele cruze esse córrego chamado Rubicão com suas tropas — pois fazê-lo seria declarar guerra a Roma. Ele hesita, sabendo que não haverá volta. Então profere a frase famosa: “Alea iacta est” (a sorte está lançada). Ao avançar, desencadeia uma guerra civil, mas também redefine o destino de um império.

    Hoje, o Brasil se vê diante de seu próprio Rubicão geopolítico. Não por ambição, como César, mas “por necessidade de sobrevivência“. Os EUA de Trump lançaram um ataque sem precedentes: tarifas de 50% sobre nossos produtos, bloqueio de vistos de autoridades do STF e do Ministério Público, e retórica que trata nossa soberania como um incômodo (BRASIL 247, 2025a).

    A geografia das relações internacionais explica o contexto:

    • Antes do Rubicão: O Brasil mantinha parcerias equilibradas com EUA, Europa e Ásia.
    • Depois do Rubicão: Trump transformou o comércio em “jogo de soma zero” — se os EUA ganham, alguém precisa perder. Seu projeto é um “Império hobbesiano”, de vigilância e controle total do mundo, baseado na força bruta (BRASIL 247, 2025b).

    Mas há uma diferença crucial:

    “Não se trata de antiamericanismo. O Brasil é simplesmente pró-Brasil (Julián Marías, citado em BRASIL 247, 2025c).

    Enquanto Trump tenta nos encurralar, Lula reúne-se no Chile com presidentes da Espanha, Chile, Colômbia e Uruguai. Juntos, publicaram em 20/07/2025 um manifesto claro: “Não cabe imobilismo nem medo” diante de autoritarismos (LULA et al., 2025). A mensagem ecoa César, mas com propósito oposto — não à conquista, mas a defesa do multilateralismo.

    Internamente, até governadores bolsonaristas criticaram as tarifas de Trump, e o agronegócio buscou diálogo com Lula para tentar reverter a tragédia encomendada por Jair Bolsonaro ao filho Eduardo, em missão de traição à Pátria brasileira na Casa Branca (BRASIL 247, 2025d).

    A travessia redefine nosso lugar no mundo:

    • Submeter o país a um império que vê autonomia como afronta.
    • Ou intensificar alianças com o Sul Global, destino de 63% das nossas exportações (BRASIL 247, 2025a).

    O Brasil não escolheu esta crise. Foi empurrado a ela pela família traidora de Bolsonaro. Mas enquanto César cruzou por ambição, nós o fazemos por um imperativo nobre:

    “Autonomia não é discurso. É sobrevivência (BRASIL 247, 2025b).

    A sorte está lançada. Resta saber se seremos espectadores da história… ou seus autores.

    REFERÊNCIAS

    AGÊNCIA GOV. Lula, Boric, Sánchez, Orsi e Petro escrevem: “Não cabe imobilismo nem medo”. Notícias, 2025. Disponível em: https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202507/lula-boric-sanchez-orsi-e-petro-escrevem-nao-cabe-imobilismo-nem-medo. Acesso em: 20 jul. 2025.

    BRASIL 247. Alvo do império, o Brasil tem um líder em papel inédito e precisa valorizá-lo: Lula. Editoriais 247, 2025a. Disponível em: https://www.brasil247.com/editoriais247/alvo-do-imperio-o-brasil-tem-um-lider-em-papel-inedito-e-precisa-valoriza-lo-lula. Acesso em: 20 jul. 2025.

    BRASIL 247. Lula viaja ao Chile onde participa de cúpula de presidentes em defesa da democracia. América Latina, 2025b. Disponível em: https://www.brasil247.com/americalatina/lula-viaja-ao-chile-onde-participa-de-de-cupula-de-presidentes-em-defesa-da-democracia. Acesso em: 20 jul. 2025.

    BRASIL 247. O Brasil está sendo forçado a cruzar um Rubicão geopolítico. Blog, 2025c. Disponível em: https://www.brasil247.com/blog/o-brasil-esta-sendo-forcado-a-cruzar-um-rubicao-geopolitico. Acesso em: 20 jul. 2025.

    BRASIL 247. Trump está querendo enfraquecer o principal líder da esquerda mundial, que é o Brasil, diz Mantega. Entrevistas, 2025d. Disponível em: https://www.brasil247.com/entrevistas/trump-esta-querendo-enfraquecer-o-principal-lider-da-esquerda-mundial-que-e-o-brasil-diz-mantega. Acesso em: 20 jul. 2025.

  • Bolsonaro traiu o Brasil. Mas, quem duvidava disso?

    Bolsonaro traiu o Brasil. Mas, quem duvidava disso?

    Em um enredo que mistura tragédia grega, farsa política e reality show, a família Bolsonaro elevou a “traição à pátria” de crime hediondo a plataforma de carreira. Nas últimas semanas, assistimos a um espetáculo digno de roteiristas de Hollywood: Eduardo Bolsonaro, instalado nos EUA como lobista de si mesmo, implorava a Donald Trump que “defendesse meu pai”. O resultado? Trump, em gesto de “solidariedade”, anunciou tarifas de 50% sobre produtos brasileiros – um abraço de urso, uma amizade de onça. 

    Jair Bolsonaro, que antes se vestia de verde-amarelo até para dormir, agora financia o filho com 2 milhões para conspirar contra o Brasil do exterior. Enquanto isso, em Brasília, o ex-presidente recebe a PF de pijama e é presenteado com uma tornozeleira eletrônica – acessório que, diga-se, combina mais com seu novo estilo de vida do que as botas de capitão. O mesmo homem que gritava “Brasil acima de tudo” agora sussurra “Trump acima do Brasil” (Trump above Brazil) nos ouvidos do magnata. 

    Eduardo pedia a Trump sanções seletivas contra ministros do STF, sonhando com a Lei Magnitsky como “sniper jurídico”. O que ganhou? Uma bomba atômica tarifária que desemprega brasileiros, estrangula o agronegócio e afunda a indústria. Como bem resumiu um analista: “Pediam um sniper e ganharam uma bomba atômica”. A reação do clã? Um lacônico “lamento” – eco assustadoramente familiar dos tempos pandêmicos. “Quer que eu faça o quê? Não sou coveiro” – disse o Jair em vez de comprar vacinas.

    Enquanto o país calcula prejuízos bilionários, Bolsonaro posa de vítima: “Suprema humilhação”, lamenta, ao vestir a tornozeleira. Ignora que a humilhação real é ver um ex-presidente acusado de atentar contra a soberania nacional, traição em Seu mais alto grau. Seu conselho a Lula? “Negocie com Trump!”. Sim, o mesmo Trump que ele armou contra o Brasil. Quem duvidava que a hipocrisia atingiria níveis olímpicos? 

    Até ex-diplomatas, homens de linguagem comedida, romperam o decoro: “É um caso claro de traição à pátria”. Lula, em tom cáustico, sintetizou: “Quem se abraça na bandeira americana é patriota falso”. E o STF, ao impor a tornozeleira e bloquear contatos com embaixadas, enviou um recado: traidores não merecem salvo-conduto, mas monitoramento constante. 

    Eduardo, do exílio dourado, ameaça seu próprio país: “Ninguém bate de frente com Trump!”. Esqueceu que, em 2025, seu pai virou apenas um pé-frio com tornozeleira, e o Brasil, um país que aprendeu: patriotismo de hashtag não paga a conta do desemprego. 

    Para os Bolsonaros, “Brasil acima de tudo” era slogan, não promessa. Já para o resto do país, a piada acabou – e a conta chegou.