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  • Artigo do Levon: Quando vão queimar os livros?

    Artigo do Levon: Quando vão queimar os livros?

    * Levon Nascimento


    Logo pela manhã, li a notícia de que a Secretaria de Educação do Estado de Rondônia havia enviado ofício sigiloso às bibliotecas escolares ordenando que obras literárias dos grandes mestres brasileiros fossem retiradas de circulação.

    Dentre os autores: Machado de Assis, Nelson Rodrigues, Euclides da Cunha, Osvald de Andrade, Rubem Braga, etc. Explicito: até o maior escritor da Língua Portuguesa, o “mulato” Joaquim Maria Machado de Assis!


    Em que pese o recuo do secretário de educação rondoniense, após vazado o ofício sigiloso, é bom lembrar a quem não sabe que o governo de Rondônia está alinhado ao pensamento de Jair Bolsonaro e ao famigerado Escola Sem Partido, batalha fanática de extrema-direita que apregoa o risco de um tal de marxismo cultural, simplesmente inexistente.

    Para essa gente, qualquer arte e pensamento crítico é comunismo. Eles odeiam a inteligência.
    Também é preciso ressaltar que toda ditadura proíbe a leitura de livros que considera oponentes à sua ideologia. É na democracia que há liberdade para o pensamento e a expressão. Estamos em ditadura no Brasil?

    Que se ressalte que o governo Bolsonaro planeja financiar apenas peças teatrais e obras cinematográficas que falem o seu idioma fundamentalista. Volto a perguntar: estamos numa democracia?

    Porém, o que mais me admirou na notícia é que no tal ofício de Rondônia havia uma ordem expressa para que “todos os livros de Rubem Alves” fossem suprimidos.

    Rubem Alves, já falecido, foi um pensador e escritor presbiteriano brasileiro que, sem abdicar de sua fé, tornou-se um ilustre combatente pelas letras contra a famigerada ditadura militar brasileira (1964-1985). Falava de fé, política, educação, cidadania e participação.

    Não por acaso, tenho há mais de vinte anos um exemplar de sua obra “Conversas sobre política” (Editora Verus). Didático, cristão e contundente, este livro não me sai de vista. Inspira-me muito.

    Daí que quero aproveitar a deixa para questionar vários amigos evangélicos (não todos, evidentemente), alguns deles presbiterianos, que ainda se comprazem de apoiar a ideologia que dá sustentação a Bolsonaro, convencidos de que participam de uma verdadeira cruzada cristã pela restauração moral do Brasil, em nome de Cristo. Respeito-os, mas os considero equivocados.

    Pergunto-lhes: o autêntico cristianismo, inclusive aquele a que Rubem Alves foi filiado e testemunha, combina com a perseguição ideológica e a falta de liberdade que se anunciam sem desfaçatez no Brasil?

    Quanto às obras censuradas, leiam-nas antes que as fogueiras sejam acesas. Foi assim na Alemanha de Hitler.

    * Levon Nascimento é professor de História e mestre em Políticas Públicas.

  • Artigo do Levon: Existe espaço para uma candidatura de esquerda em Taiobeiras?

    Artigo do Levon: Existe espaço para uma candidatura de esquerda em Taiobeiras?

    * Levon Nascimento

    A busca pela resposta da pergunta acima precisa ser cuidadosamente pensada por quem deseja uma Taiobeiras melhor e mais justa.

    No segundo turno da eleição presidencial de 2018, diante da campanha política mais escandalosa e viciada que o Brasil já viveu na era democrática, Fernando Haddad, do PT, alcançou em Taiobeiras 34,7% dos votos válidos, contra 65,3% do ex-capitão expulso do Exército, candidato da extrema-direita.

    Parece pouca a votação de Haddad, sobretudo em comparação com o resultado norte-mineiro, região em que está Taiobeiras, onde o candidato petista venceu em mais de 90% dos municípios.

    No entanto, estamos a tratar de Taiobeiras, município fortemente alinhado à visão aristocrática da sociedade, historicamente dominada por um alinhamento a princípios de direita.

    Não custa lembrar de que em Taiobeiras não venceram Vargas, Juscelino e Lula, os três presidentes mais populares da história brasileira.

    Na política local, em linha do tempo, prevaleceram sucessivamente a UDN, a ARENA e o PSDB, os partidos em que periodicamente se organizaram as oligarquias brasileiras anti-povo, mesmo com metade da população vivendo com uma média de menos de meio salário mínimo per capita, segundo dados do CadÚnico em 2016. Com a crise econômica persistente, nada faz supor que esse indicador tenha melhorado na atualidade.

    Além do mais, praticamente não houve campanha orgânica de Haddad no município. Daí que a sua votação quase que espontânea revela que há um público de cerca de 5.600 pessoas (e suas respectivas famílias) que não se deixou dominar pela avalanche de fake news e ódio fascista.

    Também, nada faz supor que os votos dados ao ex-capitão expulso do Exército são necessariamente expressões do pensamento fascista. O mais correto seria entender que uma grande parte da população se deixa guiar pelo pensamento hegemônico no município. Uma candidatura diferenciada na proximidade municipal poderia despertar a atenção de parte desse público para uma agenda de conquistas coletivas, retirando-o da bolha bolsonarista.

    Em que pese a fragilidade da representação de esquerda no município, admito, esse quadro revela que há espaço para uma candidatura à prefeitura alinhada aos princípios de igualdade social e econômica para a maioria do povo.

    O eleitorado de Haddad não se deixou encabrestar e há chances de crescer entre os votos de Bolsonaro, explorando a identidade de classe trabalhadora e sofredora, que une a maioria dos taiobeirenses.

    Penso além: acredito que seria a oportunidade de politizar temas que dizem respeito às condições da maioria do povo, que vive em situação de vulnerabilidade social, econômica, racial e de gênero.

    O candidato da esquerda poderia furar o bloqueio da falta de debate das candidaturas tradicionais, que invariavelmente focam em ataques pessoais e comparações de personalidade dos competidores. Seria a chance ideal de qualificar a disputa política, dando-lhe o que deveria ser comum: opção de fato ao eleitor.

    Resta organização, desprendimento e coragem a quem sonha com uma Taiobeiras do século XXI, distante do pensamento escravocrata do século XIX.

    * Levon Nascimento é professor de História e mestre em Políticas Públicas.

  • Artigo: Será que não tem ninguém honesto?

    Por Levon Nascimento

    Chamam-me ingênuo, outras vezes de fanático e partidário. Partidário não tem problema. Todo mundo é, ainda que não perceba ou admita. E não tem nada de mal nisso. Porém, a bem da verdade – que é relativa -, tento me guiar pelos métodos das ciências sociais, minha área de formação, buscando quando possível me afastar do senso comum e realizar um raciocínio minimamente lógico.

    Santo é Deus e os que seguiram o exemplo de Cristo, conforme a doutrina cristã predominante no Brasil. Cá na Terra somos apenas humanos, sujeitos a erros, contradições e falhas. E estamos sujeitos à história, à qual construímos em nossa existência física e material. Não adianta esperar santidade de políticos, juízes, promotores, policiais, professores, empresários, mães, pais e filhos… etc. São sujeitos históricos.

    Políticos de quaisquer partidos representam interesses. Efetivamente o que existe é a luta de classes, conforme nos advertiu o filósofo Karl Marx. Uns representam a classe dominante, geralmente comprados por ela com propinas – a maioria dos políticos. Outros representam a classe trabalhadora, a minoria. As recentes gravações divulgadas revelam isto: megaempresário comprando juízes, procuradores, deputados, presidente da República…

    Não é uma luta entre o bem e o mal. Daí a ineficiência do discurso dual “honestidade X corrupção”, “gente de bem” X “bandidos”. A realidade é muito mais complexa do que isto. Quando a Globo denuncia seus amigos Temer e Aécio, não está do lado da classe trabalhadora, embora pareça estar do lado da moralidade. Quando algum partido de esquerda chafurda na lama das propinas, corrompendo-se, não significa que tenha deixado o lado da classe trabalhadora. Mas é difícil ao cidadão médio, que não acompanha a política, compreender essas nuances. E, de fato, injuria a qualquer um de nós que labutamos muito para sobreviver dignamente. Mas tente não parar na preguiça dos chavões. Eles também são construídos por quem tem interesses políticos, geralmente não iguais aos seus.

    Diferentemente da narrativa da grande mídia, o problema do país não são apenas os “políticos corruptos”. Interessa a uma determinada classe que você pense assim. Lembre-se, não há isenção de ninguém, nem mesmo sua. Você age motivado por interesses, ideologias, etc., ainda que não perceba.

    Por trás dos políticos corruptos há uma imensa rede de empresários corruptores. Sim, os megaempresários não são vítimas. São os que pagam propinas para poderem se valer do Estado (que deveria ser de todos) a fim de lucrar (e muito) em seus respectivos negócios. Em outras palavras: a corrupção, no Brasil ou em qualquer lugar do mundo, é parte integrante do sistema capitalista. Um não existe sem a outra. Não há capitalismo sem corrupção.

    O político corrupto é como o guarda que aceita suborno. O empresário corruptor é como o motorista que oferece dinheiro ao guarda. Ambos são o problema. Mas, lembre-se, “toda generalização é burra” e empobrece a compreensão correta dos fatos. Não se trata de demonizar políticos e empresários, mas de compreender a dinâmica do sistema, este sim, corrompido e corruptor.

    Não existe imparcialidade do Judiciário ou da imprensa. Os desvios e as provas dos crimes de Aécio e de Temer já eram do conhecimento da mídia e dos juízes há anos. Só usaram agora por interesses que ainda não supomos exatamente quais são.

    Há uma luta de classes no ar: aprovar reformas que retiram direitos dos trabalhadores para o mercado lucrar mais. Para isto fizeram o terremoto na política, criaram a Lava-jato, tiraram do poder uma presidenta eleita e colocaram o fantoche Temer. E, como ele não está dando conta do recado, pretendem tirá-lo e eleger alguém indiretamente, para que o mesmo faça o que a classe dominante deseja: aprovar as reformas da previdência e trabalhista.

    Pode parecer ingenuidade de quem escreve, mas por enquanto há provas e mais provas reveladas na mídia (gravações, etc.) contra Cunha, Aécio, Temer e outros líderes políticos a favor do mercado – embora eles nunca tenham sido incomodados pela tal Lava-jato – do que contra Lula e Dilma, que embora tímidos nas políticas de transformação social, representariam algum risco à classe dominante. Não estou dizendo que são santos, mas a bem da lógica racional, nenhuma prova real e concreta contra eles foi apresentada até o momento em que escrevo este artigo, levantando a suspeita de que a Justiça age para destruir um lado do espectro político (a esquerda) e não para limpar a “mancha da corrupção”, como muitos ainda acreditam.

    Muitos imaginam que penso assim por ser “um fanático petista”, mas ao contrário, repito, tento pensar pela lógica da consciência de classe e tentando fazer uso da razão e dos métodos das ciências sociais.

    Enfim, O discurso antipolítica, o de que “nenhum presta” ou “fora todos eles”, supostamente apartidário, é fácil de fazer porque não exige raciocínio de quem abre a boca para dizê-lo. Porém, foi esse discurso que abriu espaço para o nazismo na Alemanha em 1933 e para Trump, nos EUA, em 2016. O Hitler e o Trump brasileiros estão prontinhos, à disposição, para tomarem o poder, caso você caia nessa manipulação já testada historicamente. Pense nisso. Pesquise a história.

    #DiretasJá

    * Levon Nascimento é professor de História, sociólogo e mestrando em “Estado, Governo e Políticas Públicas” pela Fundação Perseu Abramo e Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais.
  • Juízo Final brasileiro, por Levon Nascimento


    Quando a Dor na Consciência vier na sua glória, acompanhada de todos os seus remorsos e arrependimentos, então se assentará em seu trono glorioso. Todos os brasileiros serão reunidos diante dela.

    Então a Dor na Consciência dirá a uma parte deles: “Afastem-se de mim malditos. Vão para o fogo eterno preparado por Temer e por seus ministros. Porque eu falei que era um golpe de Estado, e vocês me chamaram de ‘petralha-esquerdopata’; eu disse que era para retirar seus direitos, e vocês gritaram ‘Fora Dilma’; eu disse que a Lava-jato era seletiva, e vocês berraram ‘Lula-ladrão-nove-dedos’; eu falei que a democracia ia se acabar, e vocês exaltaram ‘mito… mito… na ditadura é que era bom’; eu disse que impeachment por pedaladas era uma falácia, e vocês me chamaram de “mortadela-fanático”; eu afirmei que o golpe ia destruir a economia, gerando desemprego em massa, e vocês disseram ‘que era para combater a corrupção’.”

    E essa parte dos brasileiros respondeu à Dor na Consciência: “Senhora, quando foi que te vimos falar que era golpe, dizendo que retirariam nossos direitos, afirmando que a Lava-jato é seletiva, que a democracia se acabaria, que o impeachment era uma falácia ou que o golpe destruiria a economia gerando desemprego em massa?”

    Então, a Dor na Consciência responderá a eles: “Eu garanto a vocês: todas as vezes que vocês bateram panelas da varanda gourmê, vestiram e desfilaram com as camisas amarelas da corrupta CBF contra a corrupção dos outros, ajoelharam-se e adoraram patos amarelos de borracha da FIESP ou trollarammilitantes pela defesa da democracia nas redes sociais, foi a mim que deixaram de escutar. Portanto, vocês irão para o castigo eterno, trabalhar sem esperança de aposentadoria, virar terceirizados com salários bem mais baixos, ver os governos deixarem de realizar concursos públicos para a classe média e viver num país que tinha tudo para dar certo, mas que virará chacota permanente entre as nações civilizadas”.

    (Inspirado em Mateus 25,31-33.41-46)
  • Artigo: O espírito do tempo

    Publicado originalmente no jornal Folha Regional, n. 265, ano XIII, Taiobeiras/MG.

    Por Levon Nascimento

    Zeitgeist é a expressão alemã para “espírito do tempo”. Algo como “para onde o vento sopra”. O atual zeitgeistinterrompe a civilidade e conduz a humanidade de volta à barbárie.

    Ao final da segunda guerra, a Declaração Universal dos Direitos Humanos foi proclamada. Era preciso apagar as manchas vergonhosas do nazifascismo e de Hiroshima e Nagasaki. Discriminação racial, perseguição ideológica, machismo, misoginia, xenofobia e totalitarismo foram combatidos com leis e educação nas nações modernas.

    O “politicamente correto”, mais do que padrão de etiqueta, tornou-se a norma das sociedades civilizadas. Há 20 anos seria impensável um presidente-eleito americano, “republicano” ou “democrata”, ironizar uma pessoa com qualquer tipo de deficiência. Mesmo na esfera privada, se fosse flagrado, teria a carreira arruinada. Hoje é aplaudido.

    A crise do capitalismo neoliberal de 2008, repetindo a tragédia da primeira metade do século XX, rompeu com isso e abriu espaço para o zeitgeist da falência das instituições reguladoras. O Estado nacional, a universidade, a instituição religiosa, a imprensa tradicional e as democracias já não guiam o homem comum.

    O que antes era motivo de vergonha, hoje é exaltado orgulhosamente nas redes sociais ou reverberado com frequência no cotidiano real. Tornou-se “normal” disseminar o ódio contra as minorias, discriminar a pessoa negra, espancar ou matar a mulher que não se submete ao homem, repudiar as políticas afirmativas para as etnias vilipendiadas, aplaudir torturadores em sessões parlamentares, regredir na superação da homofobia, defender a morte, o tratamento indigno e as condições subumanas dos presidiários, golpear o Estado laico.

    É o zeitgeist da era da pós-verdade. Com a internet, o homem comum tem acesso a todo tipo de informação às quais ele recebe e transmite. Num sistema ideal poderia ser a chance de democratizar a comunicação, mas se tornou o esgoto da alma humana. Mentiras se misturam a verdades e são propagadas em tempo real, confundindo, manipulando e nublando a vida social.

    “Gente de bem” ou “pessoa honesta”, expressões de presunção e vaidade de quem pouco sabe sobre a complexidade da vida humana, tornaram-se bandeiras de difusão de ódio de uma classe média acuada pela perda de status econômico e confrontada pela ascensão de quem ela considerava subalterno.

    Homer Simpson, o imbecil protagonista da série “The Simpsons”, fez-se de carne-e-osso e infesta os ambientes sociais com seu discurso infame, geralmente comemorando chacinas em presídios do terceiro mundo ou defendendo homens que ainda matam suas companheiras pelo decadente conceito de “legítima defesa da honra”.

    Este zeitgeist permitiu o renascimento do nacionalismo xenófobo na Europa, a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos, a guinada à direita na América Latina e o golpe de Estado parlamentar no Brasil. Também é o responsável por uma onda mundial de retirada de direitos arduamente conquistados pelos pobres e trabalhadores. No Brasil, manifesta-se na aprovação do trágico congelamento dos gastos sociais por 20 anos e nas indecentes propostas de reformas trabalhista e previdenciária.

    Qualquer tentativa de discurso racional ou de bom senso é combatida com violência simbólica e, não se duvide, pode chegar às vias de fato. Fundamentalmente, é a nova forma da igreja do Mercado adorar o deus Capital.

    Uma das poucas vozes de respeito contra este zeitgeist é o Papa Francisco, sobretudo no atendimento aos refugiados que batem às portas do continente europeu, correndo das guerras patrocinadas pelo centro do capitalismo em seus países de origem. Não por acaso, ele enfrenta uma rebelião dos cardeais apegados ao velho farisaísmo clerical. Nas palavras do pontífice argentino, o mundo já vive uma terceira guerra mundial, velada e hipócrita, porém igual ou mais letal do que as anteriores.

    Que o espírito do tempo não nos conduza à paz dos cemitérios.

    * Levon Nascimento é professor de História em Taiobeiras/MG e mestrando em “Estado, Governo e Políticas Públicas” pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais – Flacso Brasil e Fundação Perseu Abramo.

  • A marcha rumo ao fascismo brasileiro continua em 2017, Por Levon Nascimento

    Li há pouco sobre a chacina de Campinas na noite de Réveillon. Li também a matéria contendo a carta que o assassino deixou. Ele matou ex-esposa, filho de oito anos e vários parentes e amigos dela, principalmente mulheres.

    Na carta, o sujeito enumera uma série de imbecilidades que andam pela boca de muitos brasileiros, principalmente dos estúpidos seguidores de Bolsonaro e dos telespectadores de programas televisivos “mundo-cão” de fim de tarde, tipo o do Datena e o do Marcelo Rezende. Machismo, misoginia, “contra os altos impostos”, a favor do porte de armas, chama mulheres autônomas de vadias, critica a Lei Maria da Penha (“vadia-da-penha” nas palavras dele), xinga Dilma Rousseff por “estimular as feministas”, ataca os direitos humanos e os seus defensores.

    Disse, ainda, que ia feliz para a cadeia porque lá teria várias refeições, salário pago pelo governo e que os defensores dos direitos humanos iriam lhe “puxar o saco”…, mas não manteve a palavra, cometendo suicídio ao final da barbárie.

    Planejou o atentado para a noite de réveillon porque teria a oportunidade de matar não somente a “vadia” mãe de seu filho, mas “o maior número de vadias da família dela”, segundo suas próprias palavras na carta.

    Em relação ao filho, segundo a carta, deixou transparecer que era apenas um objeto em disputa com a mulher, que não lhe deixava aproximar. A típica vaidade machista falando mais alto do que o amor de pai.

    Um ignorante típico, alienado como a maioria da classe média brasileira. Mas, sobretudo, um ser humano sofrendo da criminosa patologia fascista que vem irresponsavelmente sendo estimulada no Brasil desde que o golpe de Estado se sagrou vitorioso, seja pela mídia canalha ou pela omissão de um Poder Judiciário mais preocupado com os holofotes da política ou com a manutenção das regalias de casta do que em exercer o seu verdadeiro papel constitucional.

    Não me cabe condená-lo. Precisamos condenar e destruir os valores invertidos da sociedade que o criou e o levou a cometer essa barbárie. Vamos continuar fingindo que não é com a gente?
  • Artigo: Foi um golpe de Estado

    * Levon Nascimento

    O ano de 2016 chega ao fim e tristemente constatamos de que nele houve um golpe de Estado no Brasil. Aliás, o golpe continua.
     
    As massas médias vestidas de verde-e-amarelo (mas apaixonadas pela bandeira estadunidense), midiática e propositalmente desinformadas, foram levadas a acreditar que os governos do PT promoveram os maiores escândalos de corrupção da história do Brasil e que este partido gastava abusivamente o dinheiro público, para elas, razão da grave crise econômica. Como ter memória política não é um dos fortes dessa gente, as mentiras colaram feito visgo de jaca e ela pagou o mico do século ao ir às ruas defender o atraso fascista fantasiada de Batman tupiniquim. O mundo sentiu vergonha alheia.
     
    Assim, o impeachment de Dilma Rousseff ocorreu sem maiores problemas dentro das podres instituições da República, capitaneado por Eduardo Cunha e Renan Calheiros, desencadeado pelo choro de perdedor de Aécio Neves, urdido pela traição de Michel Temer, açodado pelas seletivas decisões do juiz Moro, permitido pela omissão vergonhosa do STF e amplificado pela manipulação da Globo e das demais mídias do cartel brasileiro. E por motivo fútil: as tais pedaladas fiscais praticadas por qualquer governante brasileiro ou mundial sempre que se necessita remanejar recursos públicos de uma área para outra. Mais escandaloso ainda, sem que a presidenta fosse ré em qualquer tipo de processo. Uma mulher honesta derrubada por um bando de ladrões repugnantes.
     
    Pergunte a qualquer brasileiro imbecilizado sobre o motivo de Dilma ter sido afastada da presidência e ele lhe dirá: “por causa da roubalheira e da corrupção generalizada” ou “ela acabou com o Brasil”. É o perfeito otário, sem meias palavras. Nunca ouviu falar do “Caso Banestado”, julgado pelo mesmo Moro ou da “Privataria Tucana”, nunca levada a juízo. Não se informa. Só recebe passivamente as rações diárias servidas pelo “Partido da Imprensa Golpista”, o PIG.
     
    Na verdade, Dilma, Lula e o PT foram os bodes expiatórios. Não sou tolo a ponto de achar que não houve desvios éticos em seus governos. Porém, que qualquer pessoa minimamente séria sabe que são fichinhas perto do que os velhos profissionais da direita praticam à luz do dia desde o desembarque de Pedro Álvares Cabral em Porto Seguro. Fosse para acabar com a corrupção e equilibrar as contas públicas, a tal Lava-jato não estaria protegendo os maiores corruptos do país – do PSDB, do PMDB e do DEM – e o (des)governo Temer não teria ampliado a gastança de forma tão descarada – e com motivos extremamente fúteis, bem ao contrário do rigor dilmista. O fato é que o golpe de Estado veio para destruir a parte virtuosa dos governos petistas: os programas sociais, a melhora na distribuição de renda e a queda (ainda que tímida) da desigualdade social. Qualquer um que seja responsável saberá entender que os golpistas trabalham incessantemente para aumentar os privilégios da camada rica e esfolar os trabalhadores (aqui incluída a imbecil classe média que odeia o PT) e os pobres.
     
    Mas o golpe foi além. Não somente as conquistas de Lula e de Dilma são os alvos do trator que tomou o poder. É o próprio pacto democrático instituidor da Constituição de 1988 que está em risco. Com a PEC 55 (a do corte de gastos em saúde, educação e seguridade) e a Reforma da Previdência (que deixa de lado militares, juízes e políticos, mas desce o cacete em todos os demais trabalhadores, especialmente as mulheres, os rurais e os professores, que terão as idades mínimas de aposentadoria unificadas em 65 anos de idade e 49 de contribuição), o que se pretende é dar marcha ré em direção à República Velha.
     
    A Constituição de 1988, ao instituir o SUS (Sistema Único de Saúde), a gratuidade e universalidade do ensino e o sistema de seguridade social, colocou o Brasil no mundo civilizado. Claro que esses sistemas nunca funcionaram a contento, pois se trata de uma Nação periférica do sistema capitalista, cheia de incongruências estruturais, mas a simples menção disso no ordenamento jurídico maior dá a direção do projeto daquilo que o país desejava se tornar.
     
    A camarilha golpista que assumiu o poder com a destituição de Dilma Rousseff é uma coalizão escabrosa que une os velhos e corruptos coronéis do PMDB, os lesa-pátria sofisticados do PSDB, as corporações intocáveis do Judiciário, do Ministério Público, da Polícia Federal e dos militares, o baixo clero do Congresso (especialmente a bancada religiosa), a falida FIESP (do pato que os idiotas vão pagar) e a grande mídia brasileira (sob a batuta da indefectível Globo). Todos sob o comando unificado e perverso do mercado financeiro, o qual leva 45% de tudo o que os brasileiros produzem na forma de juros e pagamentos da dívida pública.
     
    Essa turba, blindada pela ignorância do brasileiro médio, que detesta o PT e tudo quanto lhe lembre que também é proletário e pobre, está literalmente destruindo o país, a Constituição de 88, as instituições, a economia real e qualquer sonho de uma Nação soberana para o futuro. E dá-lhe PEC 55, reforma da previdência e ampliação do estado de exceção (aliás, a regra no país dos golpes).
    Foi um golpe de Estado. Aliás, é um golpe, enquanto a economia patina rumo à depressão. E ele tende a se ampliar, porque golpes sempre são seguidos de ditaduras. É um golpe contra você, ainda que tenha acreditado que a grande culpada de tudo era a dona Dilma.

    * Levon Nascimento é professor de História e mestrando em “Estado, Governo e Políticas Públicas” pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais – Flacso Brasil.
  • Doutrinação: professores e mídia

    * Levon Nascimento

    Indivíduos, grupos políticos ou regimes com características autoritárias sempre fizeram a aposta na burrice humana e na infantilização da opinião. Falam ao povo como se estivessem se dirigindo a uma criança de cinco anos. Dividem o mundo entre o lado do bem e o lado do mau. Inventam um inimigo, exageram no medo coletivo e o atacam através de ofensas de baixo nível, ao invés de utilizarem argumentos racionais. Este é o quadro momentâneo do Brasil. Esta é a triste realidade do mundo atual.

    De Brasília a Taiobeiras, do norte ao sul, da boca de Michel Temer à cavidade oral de um pobre diabo que pensa que não será atingido pelo desastre que a PEC 241 (55) produzirá, o que se houve e se vê é a desqualificação de quem exercita a capacidade intelectual e moral de criticar.

    “Estão aí protestando, ocupando escolas, mas nem sabem o que é PEC!” – dizem. “São uns vagabundos cabulando aula! Por que não vão estudar?” – rosnam. “É tudo doutrinado por esses professores comunistas” – mentem e acreditam na própria mentira.

    Como não podem debater através da racionalidade, pois esta fatalmente acabaria por dar a vitória aos manifestantes contrários ao golpe de estado e à PEC, tratam de desqualificar, demonizar e ridicularizar os indivíduos e grupos que resistem à retirada de direitos. Isto é um fenômeno típico de fascistas.

    O fascismo é um regime de direita que aparece nos momentos de crise econômica do capitalismo. É irracional, porque baseado na exploração do medo que as pessoas têm do diferente e do futuro.

    Os regimes fascistas mais conhecidos e trágicos da história foram o italiano e o alemão. Nasceram e cresceram no período entre a primeira e a segunda guerra mundial (1918 a 1939), justamente em um momento de forte crise econômica (1929), de desilusão com a classe política e de medo dos inimigos internos e externos (judeus, dentro; e comunistas da Revolução Russa, fora).

    O resultado desses regimes, todos conhecem: o holocausto judeu e a segunda grande guerra.

    As primeiras vítimas do fascismo são o conhecimento e a razão. Pessoas críticas e inteligentes não são suportadas por regimes autoritários: civis, como agora; ou militares, como em 1964.

    Neste contexto, querem implantar a lei chamada “Escola Sem Partido”, justamente para retirar dos educadores brasileiros o direito à liberdade de expressão em sala de aula. Acusam os professores, especialmente das matérias de humanidades, de estarem doutrinando os alunos para serem comunistas ou – mais hilário ainda – petistas bolivarianos.

    É uma aposta na imbecilidade que poderá custar caro à inteligência do país. É proposital da parte de quem está no comando. É involuntário em mentes condicionadas pelo autoritarismo ou pelo servilismo social que caracteriza as relações históricas no Brasil.

    Cidadãos críticos desestabilizam governos autoritários. Mentes que estudam não aceitam o alto grau de retirada de direitos e de destruição do Estado nacional, como o que ocorre no Brasil pós-golpe de 2016.

    Juntamente com o ataque à Educação através do “Escola Sem Partido”, acontece a criminalização dos movimentos sociais. Os jovens que estão ocupando escolas são tachados de baderneiros e vagabundos. Sem-terras, sem-tetos, lideranças de partidos de esquerda e outros grupos de luta são perseguidos pelo aparato estatal como se fossem bandidos contumazes e perigosos.

    Contraditoriamente, quem de fato pratica doutrinação é a grande mídia do país. As reportagens são tendenciosas e seletivas, sem a mínima preocupação de demonstrar imparcialidade jornalística. Praticam-se diariamente assassinatos de reputação, sem direito a defesa, contra os inimigos da grande burguesia nacional. Os programas policiais de fim de tarde atiçam o medo, o ódio e a vontade de vingança. As telenovelas e os demais programas incentivam o consumismo e a futilidade.

    As massas que saíram às ruas para protestar contra a corrupção do governo petista, vestidas com a camisa amarela da corrupta CBF, foram “convidadas” pelas principais redes de televisão e por outros tipos de veículos de comunicação da grande imprensa. A cada meia hora, os canais de TV entravam ao vivo para mostrar e elogiar as manifestações, classificadas como pacíficas e democráticas. No entanto, o que se via era pessoas gritando: “somos milhões de Cunhas”, “morte ao Lula”, “nordestinos burros não sabem votar”, “pelo fim da ditadura comunista no Brasil”, “basta de Paulo Freire”, “Dilma vaca!”, “contra a invasão bolivariana no Brasil” e, mais recentemente, “contra a comunista Hillary Clinton” e “Trump, estamos com você”.

    Democraticamente puderam sair às ruas para gritar palavrões contra a presidenta-eleita da República, sem sofrer nenhum tipo de repressão. Mesmo assim, afirmavam estar lutando contra uma “ditadura comunista e bolivariana” que iria mudar a cor da bandeira verde e amarela para vermelho.

    No entanto, quando mil escolas brasileiras estão ocupadas por estudantes secundaristas e universitários contra os cortes em educação e saúde; quando milícias fascistas atacam os estudantes em ocupação sem qualquer reação das instituições do Estado; quando policiais invadem a escola do MST sem mandado judicial; quando índios são mortos por fazendeiros em suas próprias terras; e quando líderes de movimentos sociais são fichados como meliantes, nada é informado na TV. E quando mostram, é para por mais lenha na fogueira, desqualificando quem luta.

    Burrices como estas e outras, gritadas nas ruas e nas redes sociais pelos zumbis amarelos, não são exclusividade do Brasil. No mundo inteiro, o fenômeno é o mesmo. Há um vento conservador e autoritário no ar.

    Donald Trump ganhou a eleição presidencial dos Estados Unidos com um discurso parecido, apostando na irracionalidade, embalado em racismo e machismo, reverberando ódio e estimulando o medo do outro. Conseguiu até ressuscitar a defunta Ku Klux Klan, organização terrorista branca norte-americana que no passado lutou contra o fim da escravidão negra.

    “Nosso objetivo é devolver a América à nação cristã branca. (…) Isto não significa que queremos que nada de ruim aconteça às raças mais escuras. Simplesmente queremos viver separados delas” – é o que está escrito em um manifesto dessa organização convocando uma marcha para celebrar a vitória do magnata de cabelos amarelos.

    A onda fascista não aparece do nada. No entreguerras e agora, ela é fruto da grave crise econômica do capitalismo. Quando a grande burguesia sente que vai perder muito dinheiro, não hesita em abrir mão de seus próprios valores liberais: liberdade, igualdade e fraternidade. Atira-se sem pudores nos braços do autoritarismo de direita. No passado, Hitler e Mussolini representaram a válvula de escape. Grã-Bretanha, França e Estados Unidos nada fizeram contra o führer enquanto ele parecia ser a solução para o inimigo comum, a comunista União Soviética. Só se deram conta do erro quando as bombas alemãs caíram sobre Londres. Paris, humilhada, viu o próprio líder nazista desfilar sob seu arco do triunfo. Na esteira da crise de 2008, estaríamos a reviver o passado?

    O caso brasileiro é ainda mais grave. Numa nação marcada pela secular desigualdade, a onda fascista serve à Casa Grande, aquela pequena porção de bem nascidos que não engoliu até hoje os programas sociais, criados por Lula, que deram uma pequena chance aos pobres deste país. É sua arma para fazer o povo voltar à Senzala.

    O melhor exemplo da verdadeira doutrinação que sofre o Brasil – a midiática – é ver que somente a corrupção atribuída ao PT gera revolta. Nunca se roubou tanto e tão descaradamente como nestes dias depois do afastamento de Dilma Rousseff, mas não se vê uma manifestação que seja de gente vestida de amarelo contra isso.

    Os pobres professores brasileiros pagarão o pato da alienação nacional. Perigosos terroristas que são, deverão ser amordaçados para não corromperem a inocência da juventude canarinha. “Ordem e Progresso” aos nossos jovens! Inteligência, não!

    Viva a burrice! Ela herdará a Terra.

    * Levon Nascimento é professor de história e mestrando em “Estado, Governo e Políticas Públicas” pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais/ Seção Brasil.
  • O interminável 2016

    Ana Júlia: “a menina que fala por nós”.
    * Levon Nascimento

    Este ano ficará marcado na história do Brasil como aquele em que um golpe de estado foi desferido pela “treta” entre a mídia, o parlamento, o judiciário e as corporações estatais (ministério público e polícia federal) contra uma mulher honesta, a primeira brasileira eleita para a presidência da República, pelo motivo fútil das “pedaladas fiscais” – artifício anteriormente praticado sem nenhuma consequência grave por todos os seus antecessores – e pela adesão dos golpistas a todos os pressupostos ultraliberais e fascistas que põem em risco o Estado Democrático de Direito pactuado pela Constituição de 1988 e os direitos trabalhistas herdados da era Vargas. Não foram apenas Lula, as esquerdas ou os movimentos sociais os derrotados, mas as garantias mínimas para a construção de uma Nação civilizada que saíram gravemente feridas deste triste episódio.

    Os erros do governo Dilma, típicos do presidencialismo de coalizão, e o agravamento da crise mundial do capitalismo no Brasil deram a senha para um impeachment sem outro fundamento senão a inconformidade do candidato perdedor de 2014 com a derrota que teve nas urnas.

    Com o golpe, veio o fascismo. Exemplos se encontram na famosa “operação lava-jato”, seletiva até a raiz do fio de cabelo mais recôndito de seu magistrado-símbolo. As delações premiadas que revelam nomes de políticos do tucanato e da direita em geral são trancadas a sete chaves em gavetas mágicas, enquanto que o apuro desmesurado de supostas irregularidades na posse de sítios e de apartamentos que, por mais que se comprove não pertencerem ao presidente mais popular da história brasileira, servem para desgastá-lo e ao seu partido, judicial e eleitoralmente, à exaustão. Prisões temporárias convertidas em “perpétuas”. Calendário de operações com timingmidiático e focado nas eleições. Rigor inquisitorial para petistas e leniência com fraudadores bilionários alinhados à banca financista. Torquemada, Mussolini e Franco teriam inveja.

    O fascio também se faz notar na escandalização da opinião divergente. Ouve-se: “Ah, mas a menina que discursou no Paraná é filha de um advogado petista”. Escreve-se: “Tem escola colocando petista pra (sic) dar ‘palestra’ falando mau (sic) da PEC 241 com desculpa de q (sic) serve pro (sic) ENEM”. É como se o fato de ser petista ou esquerdista invalidasse o direito inalienável à opinião, à participação política ou obscurecesse as verdades contidas nos discursos de indivíduos ou de grupos sociais não alinhados ao pensamento dos golpistas. Em outras palavras: patrulhamento ideológico e censura.

    No entanto, nada é mais sintomático do fascismo do que o sumiço das hordas de zumbis “apartidários”, vestidos de camisas amarelas, quando o assunto é a supressão dos direitos dos pobres e dos trabalhadores pelo governo golpista.

    O Estado Democrático de Direito advindo de 1988 é solenemente atacado quando o Supremo Tribunal Federal, último guardião da Constituição, a pisoteia ferindo de morte o direito de greve, a permitir que governos “cortem o ponto” de grevistas do serviço público mesmo sem que a paralisação tenha sido declarada ilegal. Ou quanto a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) é relativizada em favor de convenções coletivas ou acordos com o patronato. Além, quando um juiz de primeira instância manda invadir o Senado e outro, no Distrito Federal, ordena que a polícia aplique práticas de tortura psicológica em menores de idade, afim de que estudantes legitimamente exercendo sua cidadania desocupem a escola que lhes pertence.

    Tal despropósito também se faz notar quando o Ministério da Educação (MEC), ao invés do diálogo com os estudantes que ocupam as escolas, prefere utilizar a velha tática de dividir para conquistar, colocando alunos contra alunos, como no caso do adiamento do ENEM para aqueles candidatos que fariam as provas nas instituições convertidas em espaço de resistência. Estes adolescentes lutam em seus educandários por contrariedade com a reforma arbitrária do Ensino Médio, por não aceitarem o projeto de mordaça denominado “escola sem partido” e indignados com a famigerada PEC 241, agora PEC 55 no Senado, a qual congelará os investimentos em saúde, educação e seguridade social por 20 anos. Vale lembrar que os TREs dialogaram com o movimento estudantil e conseguiram realizar o 2º turno das eleições municipais sem maiores transtornos. Por que o MEC não poderia fazer o mesmo com o ENEM? Canalhice, talvez a melhor resposta.

    Os brasileiros ainda estão adormecidos ou intoxicados. Uns dormem o sono da negação da política, afirmando que “nenhum presta”, “voto nulo” ou que “é tudo ladrão”, do jeito que os programas policiais de fim de tarde lhes hipnotizaram. Outros estão envenenados pela lavagem cerebral midiática que lhes manda gritar “o PT quebrou o Brasil”, “fora PT” ou “Lula na cadeia”. Quando acordarem ou se descontaminarem, os direitos já terão sido retirados e o sonho de um país soberano e justo terá se convertido em pesadelo.

    Por hora, à exceção de Ana Júlia Ribeiro, a adolescente de 16 anos que pôs o dedo na cara dos deputados paranaenses, não há sinais de esperança para 2017.

    * Levon Nascimento é professor de história, graduado em Ciências Sociais e mestrando em “Estado, Governo e Políticas Públicas” pela Flacso Brasil.
  • As urnas falaram

    Cantor e compositor Yure Colares, numa performance
    política durante as eleições de 2016.
    * Levon Nascimento

    Na primeira eleição depois do golpe de estado jurídico-midiático-parlamentar, que depôs a presidenta Dilma Rousseff, as urnas revelaram um Brasil bravo, arredio e revoltado com a política, a um passo da indiferença e do fascismo. Vejamos:

    O PT foi a maior vítima. De seus próprios erros, dentre os quais o de acreditar que seria possível fazer política conciliando-se com a “casa grande” e utilizando os velhos métodos dela. Mas, também, da longa perseguição midiática que fez a maioria dos brasileiros acreditar que a corrupção nasceu com o partido de Lula e que somente o PT é corrupto. PSDB e PMDB, campeões de todas as listas de políticos mais corrompidos do país, saíram ilesos e vitoriosos na disputa. A mídia cartelizada, que odeia políticas públicas de inclusão social, foi a grande vencedora da rodada.

    No Alto Rio Pardo, a mudança predominou, ainda que para mais do mesmo. Em Taiobeiras, apesar da reeleição do grupo tucano, não houve consagração. A diferença foi mínima e, a julgar pelo crescimento do candidato opositor na reta final, se a campanha eleitoral tivesse durado mais uma semana, o PSDB teria sido escorraçado do mapa político da cidade.

    Em Taiobeiras, apesar de ser pleno século XXI, ainda há políticos que se utilizam da vulnerabilidade mais básica do ser humano, distribuindo cestas de alimentos aos necessitados, com a certeza de poder manipular uma das maiores conquistas da civilização moderna: o direito universal do voto. Pior, valendo-se de sujeitos hipócritas que se escondem por detrás da capa da caridade e da demagogia comunicativa de baixa extração.

    Como não confio mais nas instituições brasileiras, sobretudo nas jurídicas, especialmente depois da vergonhosa deposição de Dilma Rousseff sem ter cometido crime de responsabilidade, sob o silêncio vergonhoso do STF e a cumplicidade do MPF, acredito que não se fará justiça quanto à escandalosa compra de votos registrada em vídeos e divulgada pelas redes sociais. Mas, muita gente, principalmente a juventude taiobeirense, crê e espera.

    Neste item, um componente de esperança. O candidato Carlito Arruda conseguiu desprender uma valiosa energia jovem com sua campanha pela mudança em Taiobeiras. Ao tocar em temas-chaves para as políticas públicas, como água, segurança e educação, atraiu personagens novos que nunca se tinha percebido na política municipal. Os vídeos feitos por esses novos atores e espalhados na velocidade pós-moderna da internet, demonstram dinamismo, diversidade étnica e de gênero e pautas que nunca estiveram nas mesas dos políticos tradicionais. Agora, Carlito Arruda tem um tesouro nas mãos. Em tempos de neofascismo planetário, o empresário do ramo dos condimentos conta com um público marcadamente jovem, progressista e favorável às políticas públicas de inclusão social. Cabe a ele temperar na medida certa os próximos quatro anos.

    2016 ainda não acabou, mas deixa a marca histórica como o ano em que os brasileiros desprezaram a política ao mesmo tempo em que o rico pré-sal é entregue de graça às multinacionais estrangeiras. Votos brancos, nulos e abstenções foram as celebridades da urna. Resultado da campanha sistemática de criminalização dos políticos e da democracia. Esse filme nós já vimos na Alemanha às vésperas da ascensão de Hitler e do nazismo. Oxalá, não haja reprise na sessão da tarde.
    * Levon Nascimento é professor de História e mestrando em “Estado, Governo e Políticas Públicas” pela Flacso Brasil.
  • Artigo do Levon: A última carta de Dilma

    Dilma Rousseff, primeira mulher a ser eleita presidenta
    da República brasileira. Vítima de um golpe de Estado.

    A carta proclamada pela presidenta-eleita Dilma Rousseff ao Povo Brasileiro e ao Senado da República, na tarde desta terça, 16 de agosto de 2016, tem tudo para se tornar um documento histórico.

    Histórico porque representa a última ação, em favor da manutenção da democracia brasileira, de uma mulher íntegra, honesta, que não cometeu crime de responsabilidade, a primeira do sexo feminino a ser eleita e reeleita para o mais alto cargo do Estado brasileiro, conclamando a Nação a resistir a mais um golpe de estado. Lembre-se de que o Brasil é o país onde este tipo de golpe é a regra e não a exceção.

    Dilma Rousseff teve problemas em seus governos, errou muito, mas acertou outro tanto. Buscou governar para os pequenos, os fracos, os pobres e os trabalhadores. Não teve jogo de cintura para lidar com a gula insaciável do mercado e nem com os gangsteres que povoam a política brasileira desde que Cabral pôs os pés em Porto Seguro. Talvez, aí esteja o maior erro de Dilma. Não fez concessões a Eduardo Cunha e sua gangue. Isto lhe custou o mandato conferido por 54 milhões e meio de brasileiros.

    O petrolão, a Lava-jato, a piração religiosa em torno da polêmica do aborto, a misoginia, a imbecilidade política da classe média, o machismo e o racismo contra sua política inclusiva fizeram um inferno cotidiano sobre o qual Dilma Rousseff teve que ter estômago mais pródigo do que o de avestruz. Dilma foi duas vezes torturada: na ditadura passada (1964-1985), em favor da democracia; na ditadura midiático-judiciária dos golpistas hodiernos, novamente pelos valores democráticos.

    Dilma Rousseff é uma mulher de fibra, como muitas brasileiras anônimas, autêntica e patriota. Pena que milhões de brasileiros levarão umas duas gerações até perceber que crucificaram a pessoa honesta e colocaram livres os verdadeiros bandidos, de quebra, entregando-lhes o poder sobre a Nação!

    Na carta, Dilma pede a chance de voltar à presidência para convocar um plebiscito no qual os brasileiros escolheriam em manter o seu mandato até 2018 ou convocar novas eleições. Não acredito que a maioria do Senado, tão subserviente aos interesses do capital financeiro e seus próprios, inconfessáveis e particularistas, se comoverá. O “golpeachment” se efetivará. Dilma Rousseff e os anos de ouro dos governos do PT, nos quais pobre teve vez na agenda pública, ficarão para a História fazer justiça. Num primeiro momento, condenados pelo efeito da manipulação da manada. No futuro, como símbolo do Brasil que quase deu certo, não fosse sua elite perdulária e sua emburrecida classe média.

    Hoje, sinceramente, não tenho mais esperanças na política e nem acredito em eleições num regime que depõe uma mulher honesta para entregar o poder a homens brancos, velhos, ricos e corruptos.

  • Artigo do Levon: O oprimido e a opressão

    A opressão não seria tão violenta e persistente se não contasse com o conformismo ou, até mesmo, a colaboração dos oprimidos frente aos opressores.

    Os 350 anos da brutal e desumana escravidão negra no Brasil não teriam durado tanto se, num dado momento da história, muitos escravizados não tivessem começado a achar que aquilo era destino (sina) e, outros, a navegar no próprio sistema escravocrata, passando a colaborar com seus senhores em troca de pequenos favores, à forma de migalhas: os capitães do mato.

    A dominação feminina em diferentes tempos ou em diversos tipos de sociedade, só foi possível graças ao fato da maioria das mulheres aceitarem a condição de submissas ao poder discricionário dos homens.

    Igualmente, a exploração da mais-valia dos trabalhadores por seus patrões só se efetiva por que a grande parte do proletariado não toma consciência de classe e, efetivamente, não luta unida pela superação das relações capitalistas de trabalho.

    No Brasil dos dias atuais, esta constatação se faz ainda mais evidente. Depois de um período de quatorze anos (curto interregno diante de sua longa história de espoliação pelas oligarquias),no qual um governo de origem popular (ainda que marcado pelo tal presidencialismo de coalizão, o qual desfigurou o projeto original das personagens principais deste período de poder), a população beneficiária de uma série de avanços sociais, que conquistou direitos e alcançou empoderamento real, foi conduzida ideologicamente, por força da grande mídia cartelizada, a desejar o impeachment do governo legitimamente eleito e a ansiar pela entronização no Palácio do Planalto de plutocratas que absolutamente em nada representam seus reais interesses de classe.

    Desta forma, jovens foram às ruas contra a corrupção, por mais escolas e saúde. Recebem do novo governo a nomeação de velhos ministros que sempre defenderam justamente o oposto e, de quebra, sinaliza com o desmonte das políticas de inclusão na educação e na cultura. Mulheres com rosto maquiado de verde e amarelo bateram em panelas contra o governo da primeira mulher eleita para a presidência da República brasileira. Como pagamento, veem a extinção do ministério especial que tratava de políticas públicas para o sexo feminino, bem como um ministeriado totalmente composto por homens, fato que nem mesmo o último governo da ditadura militar tinha ousado. Assalariados de carteira assinada bradaram contra o primeiro governo oriundo das classes trabalhadoras. Em troca, veem o novo governo acenar para a flexibilização dos direitos tão arduamente conquistados e contidos na CLT, flertar com as cruéis terceirizações e acenar ao aumento da idade mínima para a aposentadoria, além da possibilidade do trágico fim da política de valorização real do salário mínimo.

    Nenhuma das constatações anteriores retira a responsabilidade das costas da classe que historicamente se fez opressora sobre as demais. Atualmente, ela se encontra assentada nos barões da grande mídia, organizada em cartel de poucas famílias; nas grandes empresas dos capitais financeiro (bancos), industrial e comercial; na política tradicional das velhas oligarquias (partidos políticos de direita); e em setores do próprio Estado nacional, tradicionalmente ocupados por estratos da classe média identificados com os interesses da alta burguesia, a exemplo do que ocorre, em grande medida, no Poder Judiciário, no Ministério Público e nas corporações, como a Polícia Federal.

    Porém, não invalida a análise de que é necessário investir para que o oprimido não mais se identifique com o opressor que lhe explora. Se isto não vier a ocorrer com urgência, o Brasil estará sempre sujeito a golpes daqueles que não se contentam em esperar as próximas eleições para ascender ao poder pelo voto democrático, configurando-se numa gigantesca república bananeira. Esta consciência se fará na Educação: teórica, ofertada nas escolas, e prática, no calor das lutas encampadas pelos movimentos sociais.

  • Artigo do Levon: Diálogo e fascismo

    Vixe! É outro artigo de opinião desse tal de Levon! Eu não vou nem ler! Petralha doente! Só fala de Lula e Dilma! É um cego! Vai pra Cuba!

    Calma! Vamos dialogar?

    Uma das marcas do período conturbado pelo qual o Brasil está passando é a extrema polarização das posições políticas, as quais deixaram o terreno fértil do diálogo e da liberdade de expressão e adentraram ao pântano das perigosas simplificações, dos dogmatismos e do ódio fascista.

    Por quais motivos?

    O petismo foi um modo de governo de esquerda moderado, que nada teve de socialista ou comunista, a não ser os aliados e a referência moral, que buscou a conciliação com as elites e patrocinou políticas macroeconômicas tipicamente capitalistas, permitindo imensos lucros aos grandes bancos e aos setores hegemônicos da burguesia nacional e que mexeu pouco na estrutura social do Brasil, propiciando que os setores populares, antes totalmente excluídos, tivessem acesso ao consumo e a alguns direitos sociais. Porém, mesmo este pouco de inclusão, que retirou 40 milhões de brasileiros da condição de extrema pobreza, desagradou à conservadora classe dominante nacional, secularmente beneficiária das desigualdades.

    O ódio fascista foi fomentado

    No caso da classe média, imageticamente retratada pelo jocoso termo “coxinha”, pesa o fato dela ser tão classe trabalhadora quanto as demais classes populares, mas ideologicamente identificada, inspirada e desejosa de ser parte da assim denominada burguesia, ou classe opressora. Daí decorre que não deve ser motivo de espanto, pelo menos para quem quiser sociologicamente analisar, o fato de ser a classe média, tão sofredora quanto as demais categorias oprimidas, a contribuir com o maior contingente de indivíduos que defendem e propagam a irracional ideologia do fascismo brasileiro. Some-se a isto o conservadorismo estético, típico dos estratos médios de sociedades que passaram por longos períodos de domínio colonial, e a extrema religiosidade de caráter privado, centrada atualmente no que se denominou chamar de teologia da prosperidade.

    Dito isso, se entende o porquê da classe média bradar palavras de ordem que deixariam corados de vergonha quaisquer indivíduos que se dedicassem a um estudo mínimo de História, como, por exemplo, os famosos: “vai pra Cuba”, “petralha é tudo comunista”, “fascismo é ideologia de esquerda” e outras falácias. Quanto a Cuba, qualquer observador da cena internacional sabe que a ilha dos Castro caminha claramente para a abertura de seu mercado. A Guerra Fria dos anos 60 ficou longe. Até Barak Obama e os Rolling Stones já foram dar o seu abraço a Fidel. Supor que o petismo levaria o Brasil para uma ditadura comunista é de fazer o velho Marx ou Stalin se revirarem de raiva no caixão. Em qual comunismo os bancos lucrariam tanto e os pobres receberiam incentivos para comprar, comprar e comprar? E, se o fascismo era de esquerda, por que então as vítimas prediletas de Hitler e Mussolini, depois dos judeus, eram os camaradas esquerdistas, comumente alcunhados de “os bolcheviques” ou “os porcos vermelhos”? Não. O fascismo era uma ideologia de direita. De extrema direita. E que punha em risco os próprios conceitos burgueses de democracia e liberdade de expressão. Por isto foi combatido, ainda que tardiamente, pelos Aliados. Isto, evidentemente, não retira das esquerdas mundiais a responsabilidade de fazerem autocrítica quanto aos massacres perpetrados por regimes como o soviético, o chinês e o norte-coreano. Não se deve tapar os olhos para os crimes da extrema-esquerda, para não se cair no dogmatismo obscurantista da extrema-direita.

    Mas a esquerda brasileira também errou, principalmente por não ter disputado a hegemonia ideológica durante os anos dourados do lulismo (segundo mandato de Lula). Houve um raciocínio acomodatício que se conformou apenas com as quatro vitórias consecutivas em eleições presidenciais. O espaço ideológico junto à classe média ficou vazio. A classe média, ela própria, beneficiária de tantas políticas inclusivas dos governos petistas, como o PROUNI, o SISU, o Brasil Sem Fronteiras, a valorização real do salário mínimo, o estímulo aos concursos públicos, o aumento de vagas em universidades públicas e em institutos federais, além das ações de cunho moralizante, como o fortalecimento da Controladoria Geral da União, do MPF e a autonomia de fato da Polícia Federal. De vazio, este campo foi ocupado pelos grupos elitistas que enxergaram no fascismo, ou seja, na manipulação dos medos, da ignorância histórico-conceitual e nos seculares preconceitos de classe, uma porta para a retomada do poder central (fato concretizado com o golpe do impeachment por pedaladas fiscais) e para a extinção das conquistas alcançadas pelas classes dominadas (inclusive da própria classe média, que agora poderá ser vítima do aumento da idade para se aposentar e de outros golpes do governo ilegítimo).

    Nos artigos de opinião que escrevo, tenho sido vítima dos xingamentos típicos de indivíduos que foram, involuntariamente, inoculados pela doença do ódio fascista. Gente que não se incomoda de ter Eduardo Cunha como parceiro de suas “lutas”. Antes, eu me afligia e sofria. Tinha raiva. Hoje, vejo que é meu dever de cidadão brasileiro e – por que não? – atitude de cristão, ajudar a estes co-irmãos a avançarem em suas visões de mundo, seja pela leitura crítica ou pelo contradito conceitual.

    Talvez pese que, realmente, eu seja um militante das minhas ideias, inclusive político-partidariamente, mas eu não os odeio. Apenas, quero dialogar respeitosamente com eles.
  • Artigo do Levon: O valor dos líderes

    Beatriz Cerqueira, do SindUTE/MG e da CUT/MG
    Às vezes fico indignado quando percebo que boa parte das pessoas não é digna do esforço de algumas lideranças que as guiam e defendem. Vou citar dois casos, um da Bíblia e outro da nossa atualidade política brasileira.

    Nos tempos bíblicos vemos a luta de Moisés para convencer, organizar e conduzir o povo de Israel na luta contra a escravidão no Egito. E, mesmo depois da espetacular fuga pelo Mar Vermelho, em meio às óbvias dificuldades de travessia do deserto, os hebreus se põem a conspirar contra Moisés, reclamando do racionamento de comida e desejando o retorno à vida dos tempos de escravidão. A liberdade e a autonomia são bens duros de serem conseguidos e vividos. Nem todos estavam amadurecidos para compreendê-las e, delas, usufruírem. “Pau no líder”!

    Atualmente, vejo a consistente atuação da professora Beatriz Cerqueira, do Sindicato Único dos Educadores de Minas Gerais (SindUTE/MG) e da Central Única dos Trabalhadores de Minas Gerais (CUT/MG). Uma baita liderança! Inteligente, coerente e bem articulada. Organizou e lutou bravamente contra os desmandos dos governos tucanos na educação mineira. Tem feito a luta, mesmo com um governo simpático às demandas dos professores, sem abrir mão do essencial aos interesses da categoria. Mesmo assim, tem professor que nem lê o que ela escreve, não sabe o que pensa e, pior ainda, fala mal, acusa com leviandades e prefere dizer que “o Sindicato ou a Beatriz nada fazem por eles”. Vivem da murmuração e se recusam a participar efetivamente das lutas.

    Ah, e se tiver alguém que venha me acusar de misturar a história bíblica para dar sustentação a esta narrativa claramente política, digo logo que parem de ser hipócritas e desinformados. Estudem! Em geral, os que assim procederem são aqueles mesmos que conhecem a Bíblia de cabo a rabo quando o assunto é “teologia da prosperidade”, busca de milagres espetaculares ou julgar a vida alheia, mas que sabem como ninguém utilizar o famoso “jeitinho” brasileiro quando se deparam com a passagem na qual Jesus afirma que “é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino do céu”. Para essa gente, a agulha era uma grande porta típica das cidades do Oriente Médio. Típico descaramento na interpretação. O mestre Jesus não se valeria de uma comparação que indica dificuldades utilizando exemplos que permitem concluir por facilidades. Agulha é agulha, camelo é camelo, rico é rico, hipocrisia é hipocrisia.

    Enfim, há casos em que muitos liderados não fazem jus ao valor, à luta e ao sacrifício de seus líderes. E vice versa!
  • Capazes de vender o Brasil e os brasileiros enrolados na Bandeira Nacional

    * Levon Nascimento

    “A nossa bandeira jamais será vermelha” – gritam os manifestantes da classe média branca pelas ruas das principais capitais brasileiras, vestindo a camisa amarela (ou azul) da corrupta CBF, com os rostos pintados de verde-amarelo e paramentados com todo tipo de enfeite – quando não, com o próprio – que mimetizam o pavilhão nacional (Bandeira do Brasil). Não! Não é uma cena extraída do túnel do tempo, direto de 1964, do contexto de polarização capitalismo X socialismo, típico da Guerra Fria. Ocorre no ano de 2016, em pleno século XXI, tendo como pano de fundo os governos do PT, partido que, mesmo se declarando de esquerda, conduziu um governo genuinamente de estímulo ao mercado capitalista, seja ele o de consumo, através do Bolsa Família e dos demais programas de inclusão social, seja o financeiro, facilitando os altos lucros bancários através de taxas de juros elevadas. Causa espanto ver pessoas supostamente estudadas e bem informadas acreditando que os governos Lula e Dilma tramam a implantação de uma “ditadura comunista” (sic). É a típica ignorância da classe média que, como diz o sociólogo Jessé de Souza, é sadomasoquista, pois prefere mobilizar e vocalizar bandeiras de interesse da alta burguesia financeira e industrial, que a prejudica com altos preços em bens e serviços, do que reconhecer-se explorada e unir-se à luta dos demais trabalhadores. Na ausência de discurso ou de projeto minimamente racional, essa gente prefere se alimentar do vazio das teorias conspiratórias e enxergar no fantasma do comunismo, em plena era da globalização, o sentido para mascarar suas frustrações, medos e preconceitos. Ignorantemente perfilada com o neoliberalismo desnacionalizante, faz isto vestida com a bandeira nacional. Haja contradição! Mas não enxergam.

    A história da Bandeira Nacional é curiosa. Originalmente foi desenha pelo pintor francês Jean-Baptiste Debret – artista que veio nas missões artísticas patrocinadas por dom João VI – por encomenda de Pedro I assim que a independência foi proclamada em 1822. É composta de um retângulo verde, representando a casa de Bragança, família do imperador, e de um losango amarelo, símbolo da casa real austríaca dos Habsburgo, dinastia da primeira imperatriz brasileira, dona Leopoldina. Com a República, o brasão do Império em seu centro foi substituído por uma esfera azul, ornada de estrelas brancas – referentes às unidades da federação –, conforme a disposição das constelações visíveis no céu do Rio de Janeiro durante a noite de 15 de novembro de 1889, e por uma faixa igualmente branca onde está escrita a frase “Ordem e Progresso”, lema do positivismo francês – influência sobre as mentes dos militares brasileiros que deram o golpe republicano – que dava sentido ao imperialismo e neocolonialismo explorador europeu em fins do século XIX. Sim, a frase “Ordem e Progresso” não tem nada de nobre! Os que a inventaram pensavam tão somente na manutenção da “ordem” capitalista e exploratória dos povos brancos europeus sobre o resto do planeta. O “progresso” desejado por eles era o mesmo dos que não se importam em desmatar, poluir ou deixar barragens de rejeitos de minério se romperem sobre povoados desprotegidos e grandes rios de importância regional, como a Samarco fez em Mariana recentemente. Mesmo assim, nada tira a beleza do “símbolo augusto da paz” – como canta o Hino à Bandeira – nem seu sentido afetivo de sinal maior da união de todos os brasileiros. A Bandeira do Brasil não pertence apenas aos que vociferam odientos, favoráveis ao golpe de estado travestido pelo termo anglo impeachment. Ela igualmente é dos trabalhadores, artistas, intelectuais e estudantes que marcham de vermelho pela democracia, bradando “Não vai ter golpe! Vai ter luta”! Ou, mais legitimamente a estes últimos.

    As pessoas que se vestem de Bandeira Nacional para gritar “Fora Dilma”, “Fora Lula”, “Fora PT”, “Menos Paulo Freire”, “Somos milhões de Cunhas” ou “Abaixo o Comunismo” acham que são os legítimos e verdadeiros brasileiros. Triste e perigoso engano fascista! Da mesma forma, referem-se a si mesmos como os “cidadãos de bem”. De resto, em seu pervertido raciocínio, os que não embarcaram na degradante aventura golpista do impeachment são “do mal” e antibrasileiros. Aí se justifica a inepta frase “Nossa bandeira jamais será vermelha” ou a idiotice de crer que cada manifestante de vermelho estaria nas passeatas de esquerda porque recebeu trinta reais ou uma merenda de pão com mortadela. Essa gente não percebe que as manifestações majoritariamente de verde e amarelo defendem o retrocesso civilizatório, a destruição da democracia brasileira e os instintos mesquinhos daqueles que em absolutamente nada corroboram com o interesse nacional. As grandes corporações financeiras e midiáticas, que defendem o afastamento de Dilma e insuflam as massas de rua contra ela, subscrevem o aprofundamento da ideologia neoliberal mais selvagem, planejam o sucateamento da Petrobrás e a entrega de mão beijada dos direitos de exploração do pré-sal às petroleiras estrangeiras, anseiam pela redução dos gastos sociais e dos direitos trabalhistas, o que devolverá à miséria milhões de famílias incluídas nos últimos 14 anos de governos petistas e propõem levar a efeito um amplo programa de privatizações que terminará por mercantilizar os nossos já débeis serviços básicos. Querem retomar a integração subalterna à ALCA e aos organismos financeiros internacionais, como o FMI, interrompida pelo governo Lula. Enfim, nada mais antinacional do que os ativistas vestidos de verde e amarelo nas manifestações anti-Dilma. Eles “odeiam” o Brasil, detestam sua gente e cultura popular, idolatram os modos e valores norte-americanos e europeus. Não se envergonham de sofrer da secular patologia social denominada “complexo de vira-latas”, máxima cunhada por Nelson Rodrigues.

    Ao contrário, as multidões que saem de vermelho às ruas, da cor da luta dos povos oprimidos em todos os lugres do mundo e tempos da História, que nada têm de fanáticos torcedores de um eterno Fla X Flu político, como imaginam os ingênuos “apolíticos” ou “apartidários”, imbuídas de cívica e verdadeira consciência cidadã e democrática, lutam pela manutenção e ampliação da ainda recente e incompleta democracia brasileira. Defendem que os recursos nacionais estejam sob o controle das instituições do Estado e da sociedade do Brasil. Promovem a politização da sociedade para que os bens e serviços pátrios fiquem a cargo do bem comum, da inclusão social e da igualdade de condições. Expressam seu repúdio à mercantilização dos valores brasileiros para fins do lucro insaciável de apenas alguns, muitos destes estrangeiros. Trágica e ironicamente, as multidões de vermelho são, de fato, nacionalistas e defensoras da soberania brasileira.

    É um tempo contraditório e complexo o que o Brasil passa nestes dias. Trajados de vermelho, uma cor internacionalista e sinal da consciência de classe, estão os legítimos defensores da Pátria. Vestidos com a Bandeira Nacional, como se somente a eles pertencesse, estão os que foram seduzidos pela sereia do fascismo e que não pensariam duas vezes antes de vender o Brasil numa bandeja de prata aos interesses ególatras do imperialismo mundial.

    * Levon Nascimento é professor de História e mestrando em “Estado, Governo e Políticas Públicas” pela FLACSO Brasil (Faculdade Latino-americana de Ciências Sociais).
  • Claro como o sol e escuro como a noite

    É nítido como a luz que brilha o quadro político brasileiro atual. As forças que perderam o comando do país em 2002, com a eleição de Lula para a presidência do país, querem dar um golpe de estado e destituir a Presidenta Dilma Rousseff. Quando não os mesmos, têm idêntico DNA dos que levaram Getúlio Vargas ao suicídio, tumultuaram o mandato de Juscelino Kubistchek, conclamaram o golpe de 1964 contra João Goulart e as Reformas de Base, deram suporte político e ideológico à ditadura civil-militar (1964-1985) e nunca engoliram a chegada do torneiro mecânico e da guerrilheira mineira ao posto máximo da República. Emprestaram a cadeira que sempre lhes pertenceu, desde que Cabral pôs os pés nesta terra, mas agora querem retomá-la a qualquer custo. Como não conseguiram em 2014, com seu candidato aviador, não se importam em manchar a imagem do país com um novo golpe, desta vez de inspiração hondurenho-paraguaio, midiático-judicial.

    Sim, trata-se de um golpe de estado! E não há como dizer que não é. Dirão que o impeachment está previsto na Constituição de 1988, que já foi usado contra Collor, etc. É verdade. Mas se esquecem de que o impeachment(cassação do mandato do presidente da República) só é permito pela Carta Magna quando há comprovação inequívoca de cometimento de crime de responsabilidade. Com Collor, havia dezenas de provas. Com Dilma, apesar do esforço da mídia, da oposição política e de setores do judiciário, não se provou exatamente nada contra ela. A Rede Globo tenta fazer a população acreditar de que se trata de uma “ladra, vagabunda e desequilibrada”. O juiz Moro quebra seu sigilo telefônico e “vaza a jato” no Jornal Nacional. Mas, tudo o que conseguiram provar é de se trata de uma mulher de fibra, que não se vergou aos torturadores da ditadura nem aos abutres – da atualidade – que a querem fora (viva ou morta) do cargo para o qual foi reconduzida com mais de 54 milhões de votos.

    É um golpe, sim! Com dois anos de investigação da Lava-jato, quebra de sigilo telefônico e dezenas de delações premiadas, nada se provou contra a honestidade de Dilma Rousseff. Tanto é um golpe que, apesar de todos os rumores acerca da Petrobrás, para pedir o seu impeachmentna Câmara, tiveram que inventar como motivo as tais “Pedaladas Fiscais”. Sim! Dilma não está ameaçada de perder o cargo de presidenta por conta do “Petrolão”. Querem cassar o seu mandato por causa das “pedaladas fiscais”. Aposto que você não sabia! A grande mídia, que manipula e aliena as pessoas, não faz questão de lhe explicar.

    Segundo a tese das pedaladas, Dilma teria cometido crime porque, ao iniciar os meses sem dinheiro no caixa do Tesouro Nacional, pegou dinheiro no Banco do Brasil e na Caixa Econômica Federal – que são instituições públicas, sob seu comando, inclusive – para pagar os gastos do governo com os programas sociais: Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, ProUni, etc. Posteriormente, quando o dinheiro entrava no caixa, repassava-o de volta aos bancos federais. Em outras palavras, não estão “tirando” Dilma do poder porque ela pegou dinheiro público e pôs no próprio bolso, mas porque, assim como uma mãe, ela preferiu retirar dinheiro dos bancos ao invés de atrasar os compromissos com os programas sociais que tanto contribuem na inclusão de milhões de brasileiros pobres e trabalhadores. É necessário acrescentar que, vários outros presidentes antes de Dilma também realizaram as pedaladas fiscais e não sofreram impeachment, assim como diversos governadores de estado e prefeitos municipais. O vice Michel Temer, quando no exercício da presidência, também praticou as tais pedaladas. Se Dilma deixar de ser presidente por isto, então todos os governadores e prefeitos deveriam ser cassados.

    É um golpe de estado! E isto fica claro quando se percebe que a tal planilha ou lista da empreiteira Odebrecht, fruto das investigações da operação Lava-jato, contém mais de 300 nomes de políticos brasileiros, de quase todos os partidos políticos, menos os de Lula e Dilma. Enquanto que as gravações telefônicas dos dois foram divulgadas com estardalhaço pelo juiz Moro e pela Globo, sem nada provar contra eles, sobre a mesma lista, que levaria os “moralistas sem moral” à cadeia, também o mesmo juiz decretou sigilo judicial e o Jornal Nacional fez escandaloso silêncio. Acho que você nem sabia da existência dessa lista!

    É um golpe, sim! Pois os que agora tramam a queda de Dilma já negociam como seria o pacto do futuro governo comandado pelo vice Michel Temer. Em acordo com o PSDB, aquele mesmo que foi derrotado nas últimas quatro eleições presidenciais, Temer liquidaria com a Petrobrás, acabaria com o controle brasileiro sobre o pré-sal (por Lula destinado à saúde e à educação) e o entregaria à exploração das petroleiras americanas, daria prosseguimento à política tucana de privatização selvagem, reduziria os direitos sociais conquistados nos governos do PT, acabaria com as políticas públicas de inclusão social, perseguiria os movimentos sociais e a esquerda política e, pasmem!, abafaria a operação Lava-jato, de modo que ela ficasse restrita apenas à punição e execração pública dos petistas, salvando os corruptos e corruptores dos demais partidos políticos.

    É um golpe, sim! Uma presidenta sobre a qual, apesar de tanta investigação, não se conseguiu provar nenhum envolvimento em crimes ou roubalheiras, mas que pelo contrário, dá autonomia à Polícia Federal para que investigue a tudo e todos, inclusive os de seu próprio partido e a ela mesma, sendo ameaçada de perder o mais alto cargo da República, conquistado com a aprovação de mais de 54 milhões de votos, por um político mais sujo do que pau de galinheiro, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara dos Deputados, com mais de duas dezenas de processos, provas de contas secretas na Suíça, machista declarado, contrário aos direitos sociais e atolado até o pescoço em corrupção. Metade dos deputados escolhidos para compor a comissão que analisa o impeachment de Dilma na Câmara é investigada na Lava-jato ou tem outros processos pesando contra si. São os verdadeiros corruptos posando de bons moços e ameaçando o mandato da presidenta, contra a qual não pesa atos de corrupção.

    É um golpe, sim! O país está em crise econômica. A luz, os combustíveis e os alimentos estão caros. O desemprego avança. Mas  grande mídia não explica que é uma crise mundial. E que esta crise afetou o Brasil. Mas que o Brasil, apesar de tudo, passa por ela melhor do que a média dos demais países do mundo. Quem se lembra de outras crises pelas quais o Brasil já foi atingido sabe que havia quadros de fome generalizada. Hoje, apesar da gasolina alta, a maioria dos brasileiros tem carro ou moto e não deixa de rodar. Pode ter reduzido certos hábitos de consumo, mas nem de longe deixa de se alimentar. No passado, antes dos governos Lula e Dilma, quando se falava em crise no Brasil, o quadro era africano. A crise econômica atual é ampliada pela turbulência política. Enquanto não deixarem Dilma governar em paz, ela não passará. O golpe do impeachment só agravará a situação.

    É um golpe, sim! Está nítido e cristalino. É tão claro como o sol que raiou pela manhã. Nenhuma pessoa que está calada, apenas observando, poderá dizer no futuro que não tinha conhecimento ou de que fez confusão sobre os lados desta batalha. Embora ninguém seja anjo neste jogo, está muito claro quem são e quem não são os demônios. É de uma clareza insólita qual é o lado certo e qual é o lado errado, quem realmente está do lado povo e quem está contra. Há o golpismo e a defesa da jovem democracia brasileira. Se você não compreender a clareza solar desta situação e não se posicionar, o Brasil será envergonhado internacionalmente por mais um golpe de estado e se transformará numa realidade tão escura quanto a noite. Ficar no muro também é tomar partido, do lado dos golpistas. A História julgará cada um pelo lado que escolher.

    * Levon Nascimento é professor de História e mestrando em “Estado, Governo e Políticas Públicas” pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais.
  • Artigo do Levon: Estradas no deserto, rios em terra seca


    Muitos companheiros não creem. Nem é minha intenção fazê-los acreditar. Ainda mais numa época em que a fé tem sido instrumentalizada para alimentar o preconceito desvairado e o fascismo depravado. Quero é compartilhar com vocês como a fé dialoga comigo neste tempo de angústias e incertezas, de modo a atiçar esperanças e a motivar a luta. Sim, a fé também é combustível para os que lutam à esquerda, por uma sociedade mais justa e igualitária. Não é monopólio dos trogloditas do fundamentalismo.

    A liturgia (católica)deste tão emblemático dia 13 de março de 2016, 5º domingo do tempo da Quaresma, traz como primeira leitura um trecho da profecia de Isaías (43,16-21). Aos olhos de quem entende a escritura não como um tratado de regras sobrenaturais e anacrônicas, mas como um amparo interpretativo para a humanidade inserida nos contextos históricos, o profeta proclama: “Não relembreis coisas passadas, não olheis para fatos antigos. Eis que eu farei coisas novas, e que já estão surgindo: acaso não as reconheceis? Pois abrirei uma estrada no deserto e farei correr rios na terra seca (…)” (Is 43,19).


    Aos olhos do militante de fé, este texto ilustra muito bem a angústia dos dias atuais. Vemos renascer das sombras o fascismo, a intolerância, a militância irracional (nas ruas e nas redes sociais) dos velhos medos e ódios de classe, incomodada com as conquistas populares alcançadas na última década. Um monstro de ódio que transforma pessoas em zumbis agressivos a reverberar palavras de horror, rancor e destruição. Hoje mesmo, neste de 13 de março, o “demônio” sai às ruas propugnando o retrocesso como novo ídolo para a “salvação” do Brasil. Grita contra a corrupção convocado e ladeado pelos maiores corruptos e corruptores da Pátria. Não se envergonha em clamar contra o direito do pobre, como se fosse ele a causa dos problemas econômicos e sociais da Nação. Não se importa que os poderes do Estado desviem-se para o linchamento moral e o justiçamento daqueles que buscaram, ainda que incipientemente, a inclusão de milhões de irmãos e irmãs “mais fracos”. Não almeja a devida justiça ou correção legítima e ampla de eventuais desvios.

    Em que a palavra de Isaías, escrita na velha Palestina, àquela altura como agora, vítima da ocupação imperialista das potências estrangeiras, resistindo a partir de sua fé e cultura, tem a dizer ao militante de fé no contexto brasileiro de 2016? Que tenha esperança! Que não se resigne a acreditar que o passado de golpes se repetirá inexoravelmente, nem se apegue às velhas cartilhas e métodos (“Não relembreis coisas passas, não olheis para fatos antigos”). Claro, isto não é um incitamento à negação da história, nem ao revisionismo. Pelo contrário, é um indicativo para a construção da novidade, ainda que em realidade adversa. Aliás, sempre foi difícil para nós, conforme jargão já vulgarizado. Não é tempo para lamentações ou indicação de culpas. É hora da unidade das esquerdas e de todos os que lutam por um mundo mais justo e fraterno. É momento de verificar as novidades que, assim como do parto dolorido vem à luz a bela criança, nascem neste tempo tão insano (“Eis que eu farei coisas novas, e que já estão surgindo: acaso não as reconheceis?”). Os meninos que ocuparam as escolas de São Paulo contra a “reorganização” neoliberal, os movimentos sociais combativos sem a mordaça institucional dos partidos, a juventude que tem se reconhecido como “de esquerda” ante ao avanço irracional do fundamentalismo e, mesmo os velhos camaradas de lutas, diante do sacrifício imposto pelas Lava-jatos da vida, que se rendam ao novo e inaugurarem uma nova era de lutas. Construamos estradas no deserto da Paulista. Façamos jorrar rios na terra seca das instituições instrumentalizadas pela velha elite egoísta ou por seus lacaios temerosos da perda de privilégios.


    A fé indica que há esperança em meio a este mar de angústia. Na mesma liturgia, Jesus rompe com as tradições de justiçamento judaicas ao absolver a adúltera. “Quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra” (João 8,7b). Palavra certeira para o carola e justiceiro juiz Sérgio Moro, tão rígido e hipócrita como um fariseu daquele tempo. Rígido com petistas. Hipócrita e seletivo para com as inúmeras denúncias a tucanos e congêneres. “Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?” – pergunta Jesus a ela em João 8,10. A mulher responde: “Ninguém, Senhor”. Ao que ele lhe afirma “Eu também não te condeno” (Jo 8,11). Vemos que a fé, corretamente vivida, passa longe dos julgamentos sumários ou linchamentos morais de nossos juízes, procuradores, mídia e igrejas bancárias. Contrariamente, é reeducação, compreensão, inclusão e retorno ao convívio da normalidade democrática.


    Enfim, também é da palavra da liturgia deste 13/03 que nos vem a certeza, conforme o salmista cantou (Salmo 125): “Os que lançam as sementes entre lágrimas, ceifarão com alegria”. Semeemos, semeemos, semeemos, lutemos… pois a luta continua… com alegria… sempre! Ceifaremos!
  • Artigo do Levon: Quando os bons são vistos como os vilões


    Quem se lembra de como era o Brasil antes da chegada de Lula ao poder em 2003, sabe que a corrupção era muito pior e maior do que atualmente. A lavagem de dinheiro, as fraudes, o abuso do poder político/econômico e a manipulação do povo corriam soltas e não havia fiscalização da mídia, muito menos do Ministério Público ou da Justiça. Tudo era encoberto e terminava em “pizza”. Os poderosos mandavam ilimitadamente e o povo pobre e trabalhador não tinha vez nem voz. Como agravante, a miséria absoluta reinava na maioria das famílias brasileiras. A fome e o desemprego atingiam milhões de pessoas. O sonho de um jovem de 18 anos era possuir uma bicicleta. A mídia colocava medo no povo e dizia que se o PT chegasse ao poder o “comunismo” seria implantado no país.

    Com a eleição de Lula em 2002, desacreditado pelos poderosos e pela classe média, que o chamavam de analfabeto e cachaceiro, o Brasil não precisou mais ficar de joelhos pedindo empréstimos ao Fundo Monetário Internacional (FMI), passou a fazer parte das grandes rodadas de decisões mundiais, criou programas sociais premiados internacionalmente, como o Bolsa Família, que distribuíram renda para milhões de brasileiros, tirando da miséria tantos cidadãos, mais do que a população total da Argentina. Mais de 10 universidades federais foram criadas, além de cerca de 100 institutos de educação. O Enem se tornou a principal forma de entrada no Ensino Superior, facilitando o acesso ao ProUni, ao SiSU e ao FIES. Uma nova classe média surgiu. As ruas se entupiram de carros novos e de motocicletas, que se tornaram mais acessíveis para a maioria absoluta do povo. O acesso a bens de consumo, à casa própria ou a materiais de construção “bombaram”. A qualidade de vida saltou positivamente, “como nunca antes na história deste país”.

    A taxa de desemprego brasileira baixou a níveis civilizados, inclusive bem menor do que a de países europeus como Espanha, Portugal e Itália. A Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), iniciativa do governo estadunidense sob o comando de Bush Filho, que transformaria a América Latina num imenso quintal norte-americano, foi implodida graças à liderança de Lula. A Petrobrás que quase foi privatizada nos governos anteriores permaneceu sob o controle do Estado nacional e descobriu as imensas jazidas de combustível fóssil embaixo da camada de pré-sal do oceano, tornando-se o passaporte do Brasil para o futuro. O salário mínimo que valia muito menos do que cem dólares, chegou à marca dos 300 dólares, aumentando o poder de compra dos trabalhadores brasileiros. O SAMU e o Mais Médicos foram implantados na maioria dos municípios do país. A crise mundial do capitalismo de 2008, ainda em curso, demorou a chegar ao Brasil, graças à solidez das políticas macroeconômicas petistas. Leis mais rigorosas de combate à corrupção foram aprovadas. Ao contrário dos tempos de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), a Polícia Federal ganhou autonomia, o que facilitou a punição de crimes de altos funcionários públicos, inclusive de ex-integrantes do próprio governo petista.


    Mas, nada disso serviu para consolar a elite econômica, midiática e aristocrática do velho Brasil. Nunca aceitaram o torneiro mecânico que chegou à presidência, nem a primeira mulher, militante contra o regime ditatorial de 1964, a alcançar o posto de Presidenta da República Federativa do Brasil, Dilma Rousseff. A luta contra a esquerda, os petistas, Lula e Dilma foi ganhando ares de batalha entre o bem e o mal, apequenando e despolitizando o país. A recusa da oposição em aceitar a derrota de 2014 paralisa o Brasil. É bem verdade que, para isto, também contribuiu a inglória incursão de lideranças petistas em casos escandalosos de corrupção. Isto manchou a trajetória histórica do PT e tem sido, saborosamente, utilizado pela grande mídia e pelos adversários das conquistas populares dos últimos anos.


    Ninguém quer a corrupção, seja ela do PT, dos partidos da direita ou da iniciativa privada, mas a sanha anti-corrupção derramou-se, de forma fascista e lunática, seletivamente contra petistas e esquerdistas, preservando seus adversários muito mais corruptos e decrépitos em termos de moralidade com a coisa pública. Este é o grande drama e a imensa contradição da política nacional neste momento. O comprovadamente corrupto dep. Eduardo Cunha (PMDB/RJ), presidente da Câmara Federal, é aplaudido e tolerado. Já presidenta Dilma Rousseff, contra a qual não há investigação na Operação Lava-jato, da Polícia Federal, e sabidamente se reconhece que é uma pessoa séria e honesta, é execrada em praça pública e se busca o seu impedimento sem que tenha cometido crime de responsabilidade, configurando a ameaça de um golpe de Estado. Um Congresso Nacional lotado de políticos corruptos, apoiado por uma mídia hipócrita, manipuladora e seletiva, ameaça retirar do poder uma Presidenta da República que nem sequer é citada em qualquer processo de investigação de corrupção no país. Tudo isto com o apoio de milhões de brasileiros que foram, cuidadosamente, transformados em “zumbis” anti-petistas, através da alienadora lavagem cerebral dos grandes meios de comunicação nacionais.

    É uma realidade trágica, que só encontra paralelo na história da Alemanha nazista dos anos 1930. O povo brasileiro foi condicionado pela mídia e pelas estruturas de difamação que utilizam as modernas redes sociais da internet, a odiar o PT e a encará-lo como a própria encarnação do mal. As religiões têm sido utilizadas politicamente para difundir preconceitos e mentiras que transformam o PT e os petistas em “asseclas do demônio”, tudo isto com a complacência do Judiciário e de pessoas que têm acesso a maior informação. Boatos que não resistem a uma pesquisa no Google são cotidianamente divulgados e compartilhados, ganhando ares de verdade. Todos os diabos mais temidos foram libertados da caixa de Pandora dos velhos oligarcas brasileiros. Racismo, homofobia, intolerância religiosa, saudosismo da ditadura militar, linchamentos midiáticos e reais, medo do comunismo, xenofobia contra haitianos e africanos, crescimento de bancadas religiosas fanáticas no Congresso Nacional, acobertamento de crimes cometidos pelos políticos da direita, como o helicóptero do pó, a lista de Furnas e os aeroportos de Aécio Neves, tal e qual na época nazista, estão em moda no Brasil de 2015. É preocupante e compromete demasiadamente o futuro da democracia brasileira.

    Em pequenas cidades, como Taiobeiras, no norte de Minas Gerais, militantes petistas, em que pese sua honra, sua honestidade e seu compromisso com os pobres, são espezinhados, tachados de ignorantes e execrados por figuras que trazem no DNA o velho patrimonialismo e a corrupção política histórica que sempre vicejou nestes lugares, os quais passaram a posar de vestais da moral e dos bons costumes. Os verdadeiros corruptos, mais sujos e imorais de toda a história, ganham ares de honestos e de defensores da justiça, crucificando aqueles que sempre lutaram pela inclusão social e pela igualdade para a maioria dos brasileiros.

    O PT, de milhões de filiados e simpatizantes honestos e lutadores, gente que nunca se calou diante dos desmandos da secular oligarquia, se transformou na “Geni” nacional, insultado e vilipendiado. Mas, nada nunca foi fácil para o PT, a esquerda e sua militância. Quem enfrentou a escravidão negra e a venceu, a ditadura militar e a suplantou, a fome e a miséria e as derrotou, terá de encontrar forças para superar a atual onda de insanidade fascista que assola o Brasil. A luta continua!
  • Artigo do Levon: Os que amam a democracia

    * Levon Nascimento

    No modelo de democracia que foi escolhido para o Brasil, o candidato que obtém a maioria dos votos é eleito. Na última eleição presidencial, Dilma Rousseff (PT) derrotou Aécio Neves (PSDB) em votação de 2º turno. Quem ganha governa, goste-se disso ou não. Quem perde, tem a obrigação cívica de fazer o contraponto e a oposição democrática. Qualquer coisa diferente disso é golpe ou crime.

    Mas o que se vê no Brasil neste início de 2015 é uma tentativa absurda de impedir que a candidata vitoriosa nas urnas possa exercer o direito de comandar o país. Do problema climático da falta de chuvas até a corrupção na Petrobrás, alega-se de tudo para conseguir o impedimento (ou “impeachment”) da mandatária-mor da Nação brasileira, ainda que ela não esteja na lista da Operação Lava-jato, organizada pelo Procurador Geral da República, enquanto até mesmo expoentes da oposição lá constam. Ninguém demonstra, efetivamente e com provas, qual crime teria cometido a primeira mulher Presidenta da República, que servisse de motivo para a cassação do mandato soberanamente conferido a ela pelo povo. Mas isto pouco importa aos que a querem expulsar do Planalto. Disso resulta a tese de que se trata de uma tentativa imoral de golpe de estado.

    Ninguém é obrigado a gostar de um governo. Nem mesmo quem nele votou. Os direitos à liberdade de expressão, à mudança de opinião ou mesmo o de fazer oposição estão garantidos em nossa Constituição Federal de 1988. Aliás, aqui se faz um parêntese para informar que a atual Constituição brasileira é fruto dos esforços de todos aqueles que lutaram contra os 21 anos de ditadura militar.

    Aquele regime ditatorial nasceu de outro golpe, o de 1º de abril de 1964. Ali, assim como hoje, as elites brasileiras, descontentes com os rumos nacionalistas e populares das políticas implantadas pelo Presidente João Goulart (PTB), tramaram e derrubaram um presidente democraticamente eleito pelo povo para por no lugar um governo autoritário, despótico, que censurou, torturou, retirou liberdades democráticas e acobertou a corrupção de seus aliados como nunca antes na história. Fez isto porque não foi incomodado, nem pela imprensa, muito menos pelo Judiciário ou por uma oposição de verdade. Todos os que levantaram a voz foram cassados, perseguidos, exilados, presos ou mortos. Uma das que muito bradou contra aquela ditadura foi a jovem estudante mineira Dilma Rousseff, hoje presidenta, mais uma vez vítima da insensatez de nossas classes abastadas. Vários dos que desejaram a queda de João Goulart e saíram às ruas pedindo a sua deposição, depois foram vítimas da ditadura que ajudaram a implantar. Que o mesmo não ocorra nos dias atuais.

    O que me deixa apreensivo neste processo que o Brasil está vivendo é a hipocrisia. Os que querem o “impeachment” de Dilma veem o quanto a vida dos mais pobres melhorou, mesmo que ainda não o suficiente e necessário. Mas veem. E, horrendamente, é isto que os revolta. Querem derrubar a Presidenta Dilma não por conta da corrupção. Eles fingem que a corrupção é restrita a este governo, ao PT ou a este momento histórico. Sabem que ela é endêmica, sempre existiu nas práticas empresariais e políticas, e que já foi muito maior quando não havia investigação e recebia a conivência da grande mídia. Mas insistem em defender os que mais corromperam e destruíram este país, as suas elites abjetas e racistas. Tempos tristes e sombrios os que vivemos. Parece que estamos assistindo à repetição de nossos piores momentos: o suicídio de Vargas, o golpe de 1964 e a ditadura dali resultante, a ascensão do fascismo e do nazismo, com sua propaganda de pureza e realidade de campos de concentração. É o mal em sua forma mais grotesca. O egoísmo em estado bruto. A bestialidade encarnada. Porém travestida de boas intenções e de patriotismo verde-amarelo. Resta-nos, como disse Olga Benário certa vez, a esperança e o compromisso com “o justo, o bom e o melhor do mundo”.

    Neste momento, quem ama a democracia de coração, independentemente de partido ou de gostar ou não do atual governo, defenderá a integridade do mandato da Presidenta Dilma Rousseff, em favor da boa manutenção das instituições do Estado e do bem estar do Povo brasileiro.

    * Levon Nascimento é professor de História e sociólogo.

  • Artigo do Levon: Cadernos no saco de açúcar de 5 kg

    * Levon Nascimento

    Corria o mês de fevereiro de 1984, quando eu comecei a 1ª série primária na Escola Estadual Deputado Chaves Ribeiro ou Grupo da Igrejinha – como era conhecida – em Taiobeiras. Primeiramente, fui para a sala 2. Algumas semanas seguintes, depois de alguma avaliação que eu não sei bem qual foi, me colocaram na sala da professora Élia. Somente eu. Outros colegas também foram remanejados, só que para outras turmas. Tempos depois, fiquei sabendo que fui para a “Classe A”. Mas não é bem isto que quero contar.

    Agora, passados 30 anos, é chegada mais uma temporada de adquirir os materiais escolares das crianças. Cadernos de capas de marca, equipados com adesivos e plásticos temáticos. Caixas de lápis de colorir de até 48 unidades. Mochilas de diversos tamanhos e grifes. Borrachas, canetas, colas, fichários, “lancheiras” – no meu tempo, sem apelar para o anglicismo que gerou o neologismo, falávamos “merendeira”, em bom português – e tanto mais que fazem a meninada deixar os pais loucos na hora de comprar a lista ditada pelas escolas. Diante disso, me recordo daquele meu primeiro ano, dos materiais escolares que utilizei e da consciência que vim a desenvolver por conta da simplicidade deles.

    Os responsáveis pela minha criação não tiveram acesso à escola quando crianças. Mal sabiam assinar o próprio nome. Nunca tiveram a experiência do convívio escolar. Mesmo assim, queriam que eu estudasse, confiavam no “poder” da escola, e me disciplinaram a encarar os estudos como dever e caminho de sobrevivência. Como sou grato a eles por isto! Mas eles não tinham ideia de como era difícil ser pobre em uma sala de aula de classe média. Sim, porque como não havia escolas particulares na cidade naquela época, os filhos da classe média e alta também estudavam na escola pública e, invariavelmente, fossem alunos bons ou medianos, ficavam nas turmas “mais selecionadas”. Como fui parar numa delas – não sei como – passei a conviver com eles.

    Minha mochila escolar era uma pasta preta, de um material parecido com couro, em formato retangular, com um zíper na parte superior. Antes, ela servia para guardar os documentos da casa. Devia ter uns 30 ou 40 anos quando a ganhei para por meus cadernos. Estes, aliás, eram em tamanho pequeno, mais baratos, com capas ilustradas de círculos azuis, vermelhos ou pretos, em fundo branco. As folhas eram ásperas. Os lápis de cor eram dos pequenos, metade do tamanho de um lápis preto de escrever, com apenas 12 unidades na caixa. O livro recomendado – que o governo da Ditadura Militar não distribuía gratuitamente à rede pública – era o Caminho Suave, uma tradicional cartilha de alfabetização. Demorou para chegar em minhas mãos, pois era caro e levou muitas semanas de trabalho de servente de pedreiro para que pudesse ser adquirido pelos meus responsáveis. Mesmo assim, cheguei analfabeto em fevereiro, pois não fiz pré-escolar, e em maio já escrevia pequenas cartas a rogo dos meus familiares.

    A pasta preta era o meu suplício. Eu tinha uma vergonha imensa dela. Era feia demais! Ainda mais porque meus colegas de classe média vinham todos com suas mochilas de várias cores e inúmeros detalhes, já com a ilustração de alguns desenhos animados que passavam no Balão Mágico, como He-man e Superamigos. Pior do que eu, só um ou dois colegas que levavam os cadernos em sacos de açúcar de cinco quilos. Uma delas, chamada Vanusa, lembro-me bem, era zombada todos os dias por conta disso. Não se falava e ninguém se preocupava com o que hoje se convencionou, mais uma vez em inglês, chamar de Bullying. Termo que significa violência física ou simbólica. Sofríamos da violência social de ser pobres; e simbólica, de não ser consumidores, além da tradicional zombaria. Nossas pastas, nossos cadernos e nossos sacos de açúcar não se enquadravam nos padrões estéticos de uma sociedade de consumo que se formava no preconceito e no desprezo. Seriam as raízes de nossa atual decadência sociocultural? Ou as origens “imperceptíveis” de nossa trágica violência urbana?

    A partir dali, pela primeira vez em minha vida, comecei a perceber diferenças entre as pessoas. Não na substância, todos humanos, mas de classe social, entre os que podiam comprar e os que não, entre os que tinham e os que não. Não me produziu revolta, amargura ou despeito. Criou em mim senso de justiça, preferência pelos pobres e consciência de classe social, sementes de Esquerda. Consciência de classe que anda faltando a muita gente nos dias de hoje. Especialmente à gente que busca “subir na vida” sem escrúpulos ou à que tenta aparentar o que não é pelo consumismo vaidoso e suicida.

    Minha velha pasta preta de carregar cadernos, da qual tanto me envergonhei quando criança, quem diria, me ajudou a ter mais noção de mundo e coerência cidadã!

    * Levon Nascimento é Professor de História. Graduado em Ciências Sociais pela Unimontes.