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  • Artigo do Levon: A vitória de Dilma

    Artigo originalmente publicado na versão impressa do Jornal Folha Regional, Ano XII, n. 235, p. 3, novembro de 2014, Taiobeiras/MG.

    Eram 20h02min quando apareceram os primeiros números da apuração no telão instalado no salão do STR de Taiobeiras. Após três horas de angustiante espera, uma explosão de alegria fez o ambiente se eletrizar. Com 95% das urnas apuradas, Dilma (PT) aparecia à frente com 50,9% dos votos válidos, enquanto Aécio (PSDB) estava com 49,1%. Nem mesmo o alerta de que ainda faltavam 5% nem que a diferença era estreitíssima, podendo haver uma reviravolta, fez diminuir a euforia. O grito preso na garganta e a vontade de liberar a emoção foram mais fortes. Sobretudo depois de uma campanha tocada pelo ódio, cuja “proposta” do adversário se resumia a “tirar o PT do poder”. Dali em diante, um povo barulhento e tenaz tomou conta das ruas da cidade. Celebração de vitória!

    Aécio teve maioria em Taiobeiras, único município do Norte de Minas em que isto ocorreu. Ainda assim, na zona rural, em Mirandópolis e na Lagoa Grande, a campeã foi Dilma. Longe de buscar razões sociológicas, recorro à história. Há um mito, profissionalmente instigado, de que o neto de Tancredo teria uma relação de amizade com a cidade, materializado desde os tempos em que o jovem secretário do avô veio pedir votos para se eleger deputado federal e ficou hospedado na casa do então prefeito Geraldo Sarmento de Sena (Nen Sena). Contribuiu, ainda, a estrutura bem arrumada do atual grupo no poder municipal que, mesmo realizando um governo medíocre, mantém intactas as estruturas de dominação cultural, intelectual e política. E mais, a neutralidade desleal e a cooperação suicida de alguns poucos setores da oposição taiobeirense também influíram no resultado.


    Mas destaco a garra e a luta da militância petista e dos simpatizantes da causa popular. Para estes, não houve espaço para o muro ou para a omissão. Lideranças das Comunidades Eclesiais de Base, educadores engajados na luta por uma educação decente, trabalhadores autônomos, taxistas, sindicalistas rurais ou do serviço público, vereadores progressistas, todos se movimentaram pela garantia da continuidade da mudança inaugurada por Lula. Souberam entender que, apesar do bombardeio midiático e das tentativas de golpe da elite nacional, o projeto que melhorou a vida de milhões de brasileiros, retirando-os da miséria absoluta e integrando-os, como nunca antes em nossa história, estava em curso através do governo da Presidenta Dilma Rousseff. Perceberam, também, que caso não fosse reeleita, haveria um revés, um retorno ao passado, tão drástico quanto aquele que se havia iniciado com o Golpe Civil-Militar de 1964.


    E o capítulo mais especial desta luta se deve aos jovens e ao povo considerado mais humilde. Os jovens, estudantes, foram presença marcante nas atividades de campanha da Dilma em Taiobeiras. O povo da zona rural e dos bairros compreendeu o viés de classe social que a eleição despertou e garantiu as suas conquistas. Relembrou-se de que há 12 anos, antes de Lula e Dilma, só lhe sobrava os restos de verduras da feira, no final do sábado. Celebrou o acesso à cidadania que está conquistando através das ações dos governos petistas.


    Enfim, o colorido do vermelho da boa revolução se entremeou nas cores do povo e da juventude, sinalizando um novo tempo em que a luta continuará. Luta contra o ódio de uma elite atrasada que se ressente ainda hoje da assinatura da Lei Áurea.
  • Artigo do Levon: A corrupção persiste porque dá lucro


    Artigo publicado no Jornal Folha Regional (Taiobeiras/MG), edição junho/2014, página 4, ano XI, nº 232.

    A corrupção é um fenômeno recorrente em todos os modos de produção historicamente conhecidos. Mas é no capitalismo que ela se encontra mais plenamente identificada.

    Engana-se quem associa corrupção apenas a defeitos de caráter individualizados ou a uma prática cultural de determinado povo. Não é só no Brasil que há corrupção. Nem os brasileiros são os seres humanos mais suscetíveis a esta praga social. Não é correto dizer que A e B tem propensão a serem corruptos porque são eticamente mais fracos do que C e D. Não é uma questão meramente de moral. É de contexto e de conjuntura sócio-econômica.


    O capitalismo, mesmo legalmente e culturalmente estabelecido, é essencialmente corrupto porque sobrevive da expropriação do “mais valor” do trabalhador pelo proprietário dos meios de produção. O que gera e agrega valor ao produto ou serviço é o trabalho humano. Assim sendo, para se manter o sistema de lucro, é necessário “tomar indebitamente” de uma imensa parcela da sociedade o valor excedente de seu labor. E tudo isto se faz à luz de Constituições e leis plenamente reconhecidas pelo Estado Democrático de Direito. E, além da legalidade, a consciência moral não se culpa, pois a relação proprietário/proletário é moralmente e culturalmente aceita como correta e normal. O que faz levar à conclusão de que a corrupção não acontece tão somente quando o ato é ilegal e criminoso. Ela é mais profunda, está na raiz da estrutura social e dirige até mesmo as noções éticas de certo e de errado.


    Quando se foca na ideia de que a corrupção se dá apenas na decadência moral de indivíduos (políticos, funcionários públicos ou privados, líderes sociais e religiosos corruptos), perde-se de vista que junto aos corrompidos há também, com maior força, os corruptores. Em geral, eles representam os “players” do capitalismo: são as empreiteiras que levam vantagens em licitações governamentais, os bancos que, por meio de lobistas, definem as políticas macroeconômicas de todas as nações (ricas e pobres, desenvolvidas ou não), a indústria bélica que leva nações inteiras à guerra, no intuito de vender armas, a propaganda e a desinformação midiáticas, além das já conhecidas indústrias do tráfico: de drogas, de pessoas, do sexo etc.


    A corrupção persiste porque dá lucro. É o empreendimento mais rentável do mundo do capital. Como não é recomendável que se coloque “remendo de pano novo em roupa velha, pois o remendo forçará a roupa, tornando pior o rasgo” (Mateus 9,16), também não se acaba com a corrupção sem se destruir o capitalismo. É algo bem mais amplo do que falar de prisão, impunidade e repressão. É mudança de posturas e de paradigma.
  • Artigo do Levon: Quando era maio…


    A cidade se enfeitava inteira, os meios-fios e até um metro do tronco das árvores ornamentais eram pintados de cal. A passarela central da Praça da Matriz, ladeada por majestosas palmeiras imperiais, toda decorada com faixas e dizeres. Naqueles dias de maio, a fé brotava dos corações, a alegria irradiava-se nos lares e o perfume das novidades invadia o ar frio de outono em Taiobeiras.


    A procissão seguia: crianças vestidas de anjos – não fosse assim, não seria Minas Gerais. As mulheres de branco com fitas vermelhas e medalhas ao pescoço cantarolavam canções marianas. Um velho senhor, à frente, carregava a cruz do Ressuscitado. No meio e atrás, a pé simplesmente, ou empurrando bicicletas, uma multidão colorida pajeava o cortejo em busca da santa.


    Na frente da Igrejinha octogonal, vivas e mais vivas ensaiadas pelo frade. Homens mais fortes, com zelo e vigor, retiravam a imagem portuguesa de Nossa Senhora de seu nicho e a colocavam sobre um andor com oito hastes. Vereadores da Câmara carregavam o palanquim nos ombros. As disputas partidárias entravam em sabática trégua. Em festa, júbilo, parada real, a senhora de Fátima era carregada no retorno à Matriz.


    Entre cantos e “exultes”, bem romano na concepção, mas sem perder a bucólica tradição popular, flores, serpentinas e confetes eram atirados, rumo ao andor, pelos populares que saiam às portas a esperar pela passagem da Mãe.


    Em triunfo olímpico, de volta à Praça da Matriz, a procissão passava pelo corredor central. Coisa de reis e rainhas, cinematográfico! E adentrava à Matriz. Chegava a imagem de Maria – a senhora de Fátima – na casa de São Sebastião, para durante 10 dias ali permanecer recebendo honras, coroações e súplicas, homenagens que só a mãe do Salvador do mundo poderia merecer.


    Tempos idos, os quais eu via e sentia nas décadas de 1980 e 1990, quando um povo – taiobeirense – ainda não se havia deixado vencer pela sede de consumo nem pelo vício do descartável. Era maio, mês de Maria e das mães, e a família ainda se reunia e confraternizava em torno do que era bom!
  • Artigo do Levon: Taiobeiras e a liberdade que se alcança aos 60

    Taiobeiras na década de 1940, ainda distrito, na região
    hoje conhecida como Praça da Matriz em confluência
    com a Avenida da Liberdade

    Artigo escrito em homenagem aos 60 anos de emancipação de Taiobeiras, comemorados em 12 de dezembro de 2013, data em que se relembra a assinatura da Lei Estadual de Minas Gerais, n. 1.039, de 12/12/1953.


    Outro dia conversávamos na escola durante o recreio sobre o aniversário próximo dos 60 anos de emancipação de Taiobeiras, quando um colega professor saiu-se com esta: “60 anos?! então já pode requerer os direitos da Lei dos Sexagenários!” Rimos bastante. Fui pesquisar e encontrei que a Lei Imperial nº 3.270, de 28 de setembro de 1885, também conhecida como Lei Saraiva-Cotegipe ou simplesmente Lei dos Sexagenários, dava o direito à liberdade não aos escravos negros que completavam 60 anos, mas aos 65. Uma lei estúpida, pois era raro o negro que chegava vivo a esta idade, devido aos maus-tratos e ao trabalho insalubre. E aos sobreviventes, qual outra opção senão continuar “livre” na dependência do senhor? Para onde iria e o que fazer para sobreviver um ancião de pele escura e sem qualquer outro direito? No entanto, é de liberdade que quero tratar. Liberdade para uma sexagenária senhora, minha cidade de Taiobeiras.

    De certa forma, o colega tinha razão! O município de Taiobeiras bem que poderia fazer uso dos direitos simbólicos que emanam da Lei dos Sexagenários e libertar-se de uma série de jugos atravancadores do desenvolvimento de sua sociedade civil e dos seus órgãos públicos constituídos. Talvez, os cidadãos de hoje pudessem fazer valer, com maior ênfase, o gesto de alguns conterrâneos do passado. Conta a história informal que, ao saber da assinatura da lei emancipatória, em 12 de dezembro de 1953, alguns taiobeirenses mais afoitos trataram logo de retirar a placa que dava nome à principal via da recém-cidade. Conhecida por todos como “Rua Larga”, oficialmente chamava-se “Idalino Ribeiro”, homenagem por imposição ao chefe político salinense que de tudo fazia para impedir a concretização do processo de emancipação. Aquele gesto, de banir a placa, mais que vandalismo, constitui-se simbolicamente numa atitude ousada de declaração de liberdade. Não por coincidência, os mesmos ativistas instantaneamente escreveram no mesmo local os dizeres “Avenida da Liberdade”, rebatizando o logradouro com o ideal que ainda se deseja alcançar nos dias atuais.

    Fazer valer o pequeno e utópico gesto fundante daqueles idealistas, movidos por contagiante rivalidade bairrista, significa hoje ir muito além do que personificar inimigos como fizeram com o velho Idalino ou com Salinas. Com efeito, a liberdade de hoje deve ser conquistada na capacidade criativa dos taiobeirenses e na competência para resolver os problemas. As algemas que impedem o desenvolvimento humano e social devem ser rompidas. Para Taiobeiras dar um novo brado de liberdade, agora aos 60 anos, é necessário reconhecer as deficiências, praticar a autocrítica, banir os vícios patrimonialistas, romper as segregações já intrínsecas na cultura, avançar na construção de uma nova sociedade e derrubar as “novas placas” onde se inscrevem as injustiças sociais.

    Para ser realmente livre aos 60 anos, Taiobeiras tem de: cuidarde sua gente, especialmente dos pobres; enfrentar e vencer a escandalosa violência que ceifa vidas, inclusive dos jovens; avançar na educação cidadã e permanente, estendendo as oportunidades de conteúdo a todos; melhorar a qualidade dos agentes e das instituições políticas municipais, aprimorando a democracia e destruindo os vícios coronelistas e clientelistas do autoritarismo e da compra/venda do voto; transformar as relações sociais, abandonando a cultura do consumismo e do exibicionismo vazios, trocando-a por uma nova era onde valham mais as pessoas e o seu conteúdo interior, do que a aparência e os bens que eventualmente possuam.

    Cuidar, enfrentar, vencer, avançar, melhorar e transformar: verbos que precisam sair do papel da teoria e materializarem-se na práxisde Taiobeiras. Só assim, a partir dos 60, a cidade encontrará a liberdade. A liberdade que só se encontra numa nova cultura de paz a ser construída. Parabéns, Taiobeiras, pelos 60 anos de emancipação!
  • Artigo do Levon: Eita, mataram mais um ali

    Jovita Rego
    Artigo publicado originalmente no Jornal Folha Regional, Taiobeiras/MG, em 22 de novembro de 2013, edição número 222, ano X, página 3.


    “Eita, mataram mais um ali!”– teria exclamado a matriarca Jovita Secundina Rêgo no entardecer de 23 de setembro de 1911, quando ouvira mais um corriqueiro estampido de espingarda. Minutos depois, ela se daria conta de que aquele tiro adentrara a sala de estar e atingira certeiramente o peito de seu marido Martinho Rêgo, desfechando-lhe a vida. Martinho, líder político e homem próspero, foi o primeiro vereador eleito pelo povoado de Bom Jardim das Taiobeiras para a Câmara Municipal de Rio Pardo de Minas, visto que o distrito de Taiobeiras só passaria à jurisdição de Salinas em 7 de setembro de 1923. Aquele assassinato fora encomendado por um bandoleiro a quem Martinho havia preso e recolhido à cadeia de Rio Pardo por prática de arruaça na feira do povoado. Jurara vingança.


    Por pior que fosse aquela morte, a julgar pela frase de constatação conformada proferida por Jovita, por certo não era fato isolado e extraordinário no cotidiano do pequenino arraial de taiobas nativas e abundantes. Infelizmente, assim como também não tem sido “fatos incomuns” os muitos assassinatos cometidos em Taiobeiras pouco mais de um século depois daquele.

    A escalada da violência em Taiobeiras a partir do final de 2007, estendendo-se e ampliando-se até o momento em que escrevo este artigo, nos estertores de 2013, convoca a sociedade e as autoridades constituídas para uma reflexão mais profunda, para além da atávica propensão de tornar superficial e simplista o entendimento de um fenômeno que nos provoca e amedronta.

    Não é possível buscar soluções no topo das árvores, nas pontas dos galhos e nas folhas secas que caem. Isto seria o mesmo que começar a construir uma casa pelo telhado. Reconheço que o tema é complexo e que ninguém tem uma solução definitiva. No entanto, deve ser tratado a partir das raízes, das origens, das questões de fundo e não apenas do já deblaterados jargões de “senso comum”, segundo os quais os problemas são as “leis permissivas” associadas aos “menores impunes”.

    Defender bordões de redução da maioridade penal ou da instituição da pena de morte, somente mascaram um falsa vontade de resolver os problemas. Configura uma espécie de voluntarismo preguiçoso que se recusa a sacudir as mentes empoeiradas pela incapacidade de pensar no bem comum e em saídas humanizadas para os problemas sociais.

    É fato que a atual onda de violência encontra terreno fértil na juventude pobre, cotidianamente confrontada, humilhada e desafiada pela sociedade consumista e de ostentação. Na cara destes meninos e meninas que aderiram ao tráfico, todos os dias, lhes são aguçados os desejos mais profundos e irracionais da alma humana, tal e qual ocorre também com adolescentes e jovens das classes média e alta. A diferença é que com aqueles primeiros, geralmente excluídos das oportunidades mais básicas, inclusive da convivência familiar saudável, ainda lhes faltam os recursos financeiros para a satisfação dos desejos de consumo.

    Somam-se a isto a falência da família tradicional, a inoperância filosófica das instituições religiosas (mais ciosas de seus dogmas do que do entendimento honesto das necessidades do novo ser humano da era globalizada) e a incapacidade da educação formal (pública e sucateada ou privada e mercantil) de ser atraente e edificante na vida desses jovens.

    Em contraposição a tudo isto, traficantes e criminosos, nem sempre aqueles estereotipados com trejeitos de morros e favelas; muitas vezes bem vestidos e antenados com os valores de mercado, expandem seus negócios com uma psicologia e marketing capazes de dar inveja aos melhores estrategistas e profissionais diplomados e pós-graduados. Atuam pelas margens, estimulando “cheiros e sons”, satisfazendo as “sedes” e as “fomes” de atenção, possibilitando o “status” e a “valorização” que o Estado e a comunidade são incapazes de atender. Seduzem, compram, abduzem, dominam, incorporam, enviam, possuem.

    E a cada morte, a cada crime, a sociedade se esconde de medo. As autoridades rugem, mas nada fazem de efetivo. Debatem como reprimir. Convenientemente se esquecem de que a repressão é apenas um medicamento paliativo ou um mero placebo que é dado à comunidade em crise histérica. A culpa, então, é do menor – este “monstro” que se formou sozinho – ladrão, violento, assassino – que precisa ser tirado do convívio das pessoas “normais” e “saudáveis”. Não se questiona de onde vem esta pessoa que mata ou que morreu. Aliás, comemora-se a morte de mais um “safado” e criminoso. “Fosse boa pessoa não teria se metido nisto!” – exclamam com “justa” autoridade moral. Mas, e quando a morte atinge o “inocente”, como em muitos casos ainda não desvendados pela polícia? Quem formou este menor? Qual a sua história? O que foi feito por ele para que não se tornasse mais um? Perguntas complexas para as quais não temos respostas. Nenhum de nós. Até quando?

    Nossa resposta não pode ser simplificadora ou vazia. Não pudemos sucumbir ao senso comum do “pega, esfola e mata” ou do “prende e arrebenta”. Precisamos ir além do “Eita, mataram mais um ali” pronunciado por Jovita há mais de 100 anos em nossa Taiobeiras. É hora de nos perguntarmos: “o que podemos fazer de bom para que mais um não seja morto ali?”.

  • Artigo do Levon: O aniversário do Menino-Crucificado

    Publicado na edição impressa do Jornal Folha Regional, Taiobeiras (MG), ano IX, nº 192, página 4, dezembro/2011.

    O capitalismo devorou o Natal e os religiosos de mercado aplaudiram. Só não engoliu o indigesto Menino-Crucificado que teima em nascer nesta época do ano. Nem a ele nem aos discípulos dele. Ao Menino, porque o capitalismo não suporta suas manias: a de repartir pão e peixe ao invés de vendê-los nem a de acolher igualitariamente a cada um nos banquetes que organiza. Aos discípulos dele, porque o mercado não aceita que se adore outro deus senão a divindade do regime monoteísta do capital.


    Cada vez mais cedo, lâmpadas chinesas piscam conclamando ao grande ritual de adoração consumista. Indicam o caminho da satisfação passageira. Adornam o altar-mor do hedonismo. Obscurecem a luz verdadeira do “Sol da Justiça” que, apesar de todo agravo, insiste em permanecer irradiante no horizonte dos deserdados e dos heréticos críticos do culto cujo símbolo é o cifrão.

    O “bom” velhinho cinicamente cobra pelo abraço que empresta às crianças. Os sinos repicam melodias ocas, inaudíveis aos corações que anseiam por justiça e paz. Apelos são feitos em nome de uma felicidade esvaziada de propósito, nos quais o principal personagem que a proporciona é (pelo menos tentam) escamoteado e substituído por figurantes descartáveis e canastrões.

    Em meio à algazarra das vielas de venda e compra, nas sarjetas da história, pessoas insistem em dizer não a esta festa da morte. Elas ocupam as ruas e as avenidas reais e virtuais. Reafirmam a plenos pulmões que “santo, santo, santo” é somente um. E que este Único pode também ser chamado de “caminho, verdade e vida”. Que seu caminho não exige pagamento, mas compromisso. Que sua verdade é duradoura, não se desgastando como produto do mercado. Que sua vida é nova e plena, justa e necessária, eterna e completa para todos.

    Os que de fato infringem o Natal do capital postam-se do lado das causas dos pobres, defendem a vida dos inocentes e dos encarcerados nas inúmeras prisões que o tempo lhes condena; assumem a condição dos destituídos de toda dignidade. São os fortes; os que fazem de sua fraqueza material seu estofo moral e ético, sua grandeza espiritual e fraterna.

    Por isso, deseja-se mais do que feliz natal. Dizemos, com a ênfase dos que gritam sem auto-falante em meio ao barulho do trânsito: Feliz aniversário, Menino-Crucificado! Feliz aniversário àquele que não se deixa ser comprado! Viva o que se doa a quem o procura, por inteiro e por amor!

    Restam, pois, apenas duas perguntas para a celebração do aniversário ficar ainda mais completa. Quem é o Menino? Quem são seus discípulos?