Tag: Bom Jesus da Lapa

  • Norte de Minas: Um Brasil profundo entre cerrados, sertões e fronteiras

    Norte de Minas: Um Brasil profundo entre cerrados, sertões e fronteiras

    Este texto é um artigo de opinião construído a partir da reflexão sobre os estudos de João Batista de Almeida Costa e Geová Nepomuceno Mota, considerando os conteúdos de Norte de Minas: Cultura Catrumana, Suas Gentes, Razão Liminar (COSTA, 2021), Fronteira regional no Brasil: o entre-lugar da identidade e do território baianeiros em Minas Gerais (COSTA, 2002) e O fenômeno religioso da romaria sob a perspectiva da fé cristã: a romaria ao Santuário de Bom Jesus da Lapa (MOTA, 2012). A abordagem tem por objetivo promover um olhar sensível e crítico sobre o Norte de Minas, suas gentes e seus territórios, respeitando as referências dos autores citados.

    Por Levon Nascimento

    Quando se fala em Minas Gerais, o imaginário nacional costuma evocar as montanhas históricas, o ouro colonial, as cidades barrocas e a mineiridade da prosa mansa. Mas quem olha para o mapa percebe que, ao Norte, Minas guarda um território diferente, um sertão que não se encaixa nos estereótipos das Gerais. O Norte de Minas é outra coisa. É mistura de cerrado e caatinga, de Minas e Bahia, de catrumano e baianeiro. “É um sertão de múltiplas vozes, marcado por fronteiras simbólicas e sociais, onde se misturam o vaqueiro e o lavrador, o catrumano e o baianeiro, o religioso e o profano” (COSTA, 2021).

    Escrever sobre o Norte de Minas é, portanto, falar do Brasil profundo. Daquele Brasil que as capitais não enxergam, mas que resiste com teimosia às injustiças históricas. É falar de um povo que conhece a dureza da terra, o tempo da seca e o tempo da esperança. Que celebra a vida nos batuques dos quilombos, nas rodas de São Gonçalo, nas romarias ao Bom Jesus da Lapa/BA. “As práticas dos romeiros revelam a força da religiosidade popular nordestina e sertaneja, que transita entre o catolicismo oficial e as expressões locais de devoção, muitas vezes permeadas por elementos mágicos e simbólicos” (MOTA, 2012). “É um Brasil que, como disse Guimarães Rosa, ‘ajunta de tudo, os extremos, delimita, aproxima, propõe transição, une ou mistura: no clima, na flora, na fauna, nos costumes, na geografia, lá se dão encontro, concordemente, as diferentes partes do Brasil’” (ROSA, 1978 apud COSTA, 2002).

    O Norte de Minas nunca foi prioridade no projeto mineiro. Durante séculos, a política e a economia do estado giraram em torno do ouro, do café e das cidades históricas. Enquanto isso, o Norte ficou relegado ao esquecimento, visto como periferia, como sertão inóspito, como problema a ser resolvido ou ignorado (COSTA, 2021).

    Mas essa exclusão não foi apenas econômica. Ela também foi simbólica. “O Norte de Minas é ‘o outro’ dentro de Minas. Seus habitantes carregam o estigma de não serem os mineiros típicos. Falam diferente, comem diferente, rezam diferente. São chamados de baianeiros, como se fossem quase baianos, quase nordestinos, quase mineiros” (COSTA, 2002). Essa identidade liminar – entre ser e não ser – é, na verdade, uma riqueza cultural, mas o preconceito insiste em tratá-la como desvio.

    O Norte de Minas é, historicamente, um território de fronteira. Não apenas uma linha no mapa, mas um lugar onde culturas se misturam e se reinventam. “Durante a colonização, o sertão foi palco de conflitos entre a Bahia e Minas, disputa que terminou com a anexação do território norte-mineiro à capitania das Minas Gerais no século XVIII” (COSTA, 2002). Desde então, essa região carrega em si a marca da fronteira, do entre-lugar, da encruzilhada.

    Essa condição fronteiriça molda o jeito de ser das pessoas. O baianeiro – como se autodenomina boa parte da população – sabe transitar entre as tradições mineiras e nordestinas. Nas feiras, ouve-se o forró e o aboio, mistura-se o feijão tropeiro com o mocotó, o baião com o frango com pequi. “É o sertão em sua síntese, uma cultura plural e viva, que resiste mesmo diante das ameaças do agronegócio e da monocultura que avança sobre os Gerais” (COSTA, 2021).

    Se há algo que une esse povo, além da terra, é a fé. A religiosidade popular no Norte de Minas é um traço fundamental da identidade regional. E ela não é a fé do altar de ouro das catedrais, mas a fé do chão de terra batida, dos terços rezados em roda, das promessas feitas nas estradas de poeira. “É a fé do romeiro que sai de casa com o bornal nas costas, atravessa o sertão e vai até o Bom Jesus da Lapa, levando esperança e pagando promessas” (MOTA, 2012).

    A romaria é, mais do que um evento religioso, um ritual de pertencimento. “Quem vai à Lapa, vai também para reencontrar os seus, para reafirmar a própria existência diante do sagrado e da sociedade” (MOTA, 2012). É um ato de resistência cultural, um modo de dizer: “nós existimos, com nossa fé, nossa cultura e nosso jeito de viver”.

    Apesar de sua riqueza cultural, o Norte de Minas continua sendo uma das regiões mais vulneráveis do Brasil. A pobreza, a seca e a falta de políticas públicas ainda marcam a paisagem. Mas essa realidade não é sinônimo de passividade. “As comunidades tradicionais da região – quilombolas, geraizeiros, veredeiros, apanhadores de flores, indígenas Xakriabá – vêm se organizando para afirmar seus direitos e preservar seus modos de vida” (COSTA, 2021).

    O batuque ressoa como denúncia e celebração. As festas, as danças, as folias de reis, os Catopês, Marujos e Caboclinhos de Montes Claros, as Camponesas e Margaridas de Taiobeiras, as práticas agrícolas sustentáveis e os modos de cuidar da terra são parte de uma luta maior: a de permanecer no território, enfrentando o avanço do agronegócio e a lógica do capital que vê o cerrado apenas como commodity.

    O Norte de Minas é o Brasil profundo. É a síntese de um país marcado por contradições, fronteiras e encontros. Não podemos continuar a ignorar essa região como se fosse um apêndice esquecido de Minas Gerais ou do Nordeste.

    Ouvir as vozes do sertão norte-mineiro é essencial para entender o Brasil real. “Um Brasil que vive nas veredas, nos currais, nas romarias, nos batuques e nas lutas diárias pela dignidade” (COSTA, 2021). Como disse João Batista de Almeida Costa, “não se trata de romantizar o sertão, mas de reconhecer as gentes que ali vivem e resistem” (COSTA, 2021).

    O Norte de Minas não é apenas um lugar no mapa. É um território de memória, cultura e esperança. E, mais do que nunca, merece ser ouvido, respeitado e incluído.

    REFERÊNCIAS:

    COSTA, João Batista de Almeida. Norte de Minas: cultura catrumana, suas gentes, razão liminar. Montes Claros: Editora Unimontes, 2021.

    COSTA, João Batista de Almeida. Fronteira regional no Brasil: o entre-lugar da identidade e do território baianeiros em Minas Gerais. Sociedade e Cultura, v. 5, n. 1, p. 53-64, 2002.

    MOTA, Geová Nepomuceno. O fenômeno religioso da romaria sob a perspectiva da fé cristã: a romaria ao Santuário de Bom Jesus da Lapa. Montes Claros: Editora Unimontes, 2012.

    ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 10. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1976.

    FOTOGRAFIA:

    SANTOS, Eliana Alves dos. As Camponesas de Taiobeiras. 2024. Disponível em: https://www.facebook/eliana.alvesdossantos.94. Acesso em: 16 jul. 2025.

  • Bom Jesus da Lapa: o lugar, o povo e a fé

    Nunca é demais ressaltar este lugar, este povo e esta .

    Para mim o lugar mais místico em que já pisei os pés. Dá para sentir a presença amorosa e real de Jesus neste lugar e no semblante das pessoas simples e pobres que por ali passam confiantes em sua misericórdia e compaixão

    Terra do meu povo. Do povo brasileiro do sertão baiano. Igual a tantos outros sertões, como estes nossos sertões mineiros aqui do Norte.

    A em Jesus, o Nazareno, que passou a vida só fazendo o bem. O bom Jesus, amado, dom do Pai que nos une a todos pelo “novo mundo possível”, onde a ganância do capitalismo pecaminoso seja superada pela salvação pessoal e coletiva de todas as mulheres e homens, de todas as crianças e idosos, de todas as cores e etnias.

    Eis Bom Jesus da Lapa, no chão sagrado da Bahia de Todos os Santos.

  • Para encerrar agosto com fé e esperança

    Agosto é o mês ao qual se atribuem certas alcunhas negativas, especialmente na política nacional. De fato, foram em “agostos” que Getúlio Vargas se suicidou e que Jânio Quadros renunciou à Presidência da República, levando à crise pela posse de João Goulart. Também em nível mundial, agosto não tem boa fama. No longínquo 1945 as duas únicas bombas atômicas a serem detonadas em guerra na história humana foram jogadas sobre Hiroshima e Nagazaki, no Japão, pelo Governo “terrorista” dos EUA. Já aqui em Taiobeiras, a atual administração que nunca sofrera qualquer arranhão de imagem em quase sete anos de poder, neste agosto enfrentou o gosto amargo de ser denunciada, de dentro, acerca de processos licitatórios suspeitos. Mas eu prefiro as tradições sertanejas do nosso povo. Por elas, agosto é o mês do Bom Jesus da Lapa, das grandes romarias e das demonstrações e vivências da fé e da esperança da população simples do interior do nosso Brasil. Então, para encerrar mais este mês do intenso 2011, apresento esta bela canção do cantor e compositor baiano, Edigar Mão Branca, Romeiro de todo ano.

    Romeiro de todo ano
    Edigar Mão Branca
    Clique aqui para ouvir

    Eu sou romeiro de todo o ano
    Minha promessa eu pago aos pés da cruz
    Eu sou romeiro eu vim de longe
    Eu sou valido pelo Bom Jesus…

    Eu sou romeiro de todo o ano
    Minha promessa eu pago aos pés da cruz
    Eu sou romeiro eu vim de longe
    Beijar o altar do Senhor Bom Jesus…

    Renovo minha força pra viver
    Agradeço pela graça recebida
    Aprendo a construir um mundo novo
    Pão e paz pro nosso povo…

    Bom Jesus é a nossa fonte de água viva…

    A igreja da Lapa é feita de pedra e luz
    Eu quero beijar o altar do Senhor Bom Jesus…
  • Transmissão da Festa do Bom Jesus da Lapa na TV Aparecida

    Norte-mineiros em geral, devotos do Bom Jesus da Lapa, fiquem atentos aos horários de transmissão de documentários e celebrações, direto do Santuário de Bom Jesus da Lapa, na Bahia, pela TV Aparecida.

    Fonte: Site do Santuário.


    QUARTA – Dia 03 de Agosto
    1. No programa Bem-Vindo Romeiro:
    10h55 – 11h00 repórter ao vivo
    11h13 – 11h18 repórter ao vivo
    2. No programa Sabor de Vida:
    16h20 – 16h25 repórter ao vivo
    16h33 – 16h38 repórter ao vivo
    3. 19h20 – 19h30 Exibição do ESPECIAL BOM JESUS DA LAPA – parte 1
    Produção: SANTUARIO BOM JESUS DA LAPA
    4. Transmissão – Novena
    19h30 – 21h00 ao vivo


    QUINTA – Dia 04 de Agosto
    1. No programa Bem-Vindo Romeiro:
    10h55 – 11h00 repórter ao vivo
    11h13 – 11h18 repórter ao vivo
    2. No programa Sabor de Vida:
    16h20 – 16h25 repórter ao vivo
    16h33 – 16h38 repórter ao vivo
    3. 19h20 – 19h30 Exibição do ESPECIAL BOM JESUS DA LAPA – parte 2
    Produção: SANTUARIO BOM JESUS DA LAPA
    4. Transmissão – Novena
    19h30 – 21h00 ao vivo


    SEXTA – Dia 05 de Agosto
    1. No programa Bem-Vindo Romeiro:
    10h55 – 11h00 repórter ao vivo
    11h13 – 11h18 repórter ao vivo
    2. No programa Sabor de Vida:
    16h20 – 16h25 repórter ao vivo
    16h33 – 16h38 repórter ao vivo
    3. 19h20 – 19h30 Exibição do ESPECIAL BOM JESUS DA LAPA – parte 3
    Produção: SANTUARIO BOM JESUS DA LAPA
    4. Transmissão – Novena
    19h30 – 21h00 ao vivo


    SÁBADO – Dia 06 de Agosto – FESTA DO BOM JESUS DA LAPA
    1. Programa ENCONTRO COM OS DEVOTOS
    10h15 – 12h00 transmissão ao vivo
    2. DOCUMENTÁRIO BOM JESUS DA LAPA – preparado pela TV Aparecida
    12h30 – 13h30
    3. Depois da Consagração
    15h15 – 15h20 repórter ao vivo
    15h30 – 15h35 repórter ao vivo
    4. Transmissão – Encerramento da Procissão e da Festa
    18h00 – 19h00 ao vivo
  • Literatura de Cordel em tempos de neonazismo

    Diversidade brasileira

    Em tempos de neonazismos exaltados na Europa, nos EUA e até por aqui, nada como recomendar a leitura daquilo que identifica nossa alma cabocla, sertaneja, miscigenada e brasileira. Recomendo Cordel para todos aqueles que não compactuam com as loucuras de nosso tempo, como as daquele norueguês xenófobo, ou dos dementes que atacam seres humanos nas ruas de São Paulo, ou de qualquer outro lugar do mundo, só porque estes pensam, se originam ou agem de forma diferente da sua.

    Viva a diversidade do Povo Brasileiro!

    Como já disse noutro post, reencontrei-me com o Cordel no alto do morro do Bom Jesus da Lapa (BA). Eis aí mais alguns títulos que merecem ser apreciados, todos publicados pela Editora Luzeiro.

    1. A Princesa do Reino da Pedra Fina, de Manoel Pereira Sobrinho;

    2. A Princesa Anabela e o Filho do Lenhador, de Severino Borges da Silva.

    Ler boa literatura abre nossas mentes para realidades novas, permite que abrandemos nossas intransigências, alarga nossa visão de mundo, faz superar nossas intolerâncias ao novo e ao diferente e sensibiliza nosso coração para ações de solidariedade e respeito.

  • Oração ao Bom Jesus e à Mãe Aparecida em tempos de neonazismo

    Especialmente nestes dias em que assistimos à barbárie de extrema-direita na Noruega, ecoando os neo-racismos, neofascismos, Tea Party e neonazismos em toda a Europa, nos EUA e nos setores elitizados e extremistas religiosos das grandes metrópoles brasileiras, elevamos nossas preces aos grandes símbolos da mistura, da miscigenação e da fé simples, autêntica e bela do Povo Brasileiro.

    Imagem do Bom Jesus
    entronizada no altar da Lapa (BA)

    Pedimos ao bom Jesus da Lapa que, de sua cruz gloriosa, sinal de que os vencidos vencem os fortes e poderosos, entronizado em sua gruta de pedra entre os pobres do sertão nordestino, às margens do Velho Chico, que venha despertar em nós a sensibilidade para viver o que está escrito no seu Evangelho de amor. Não julgar. Não matar. Não roubar. Repartir. Socorrer. Perdoar. Libertar. Multiplicar o pão. Reunir. Conviver. Eis os valores que o bom Jesus nos ensina. Queremos aprendê-los e vivê-los neste mundo incerto e inseguro. Caminha conosco, bom Jesus!

    Imagem de N. Sra. Aparecida
    entronizadanuma das grutas
    de Bom Jesus da Lapa (BA)

    Pedimos à mãe Aparecida, que traz estampada em seu rosto a cor dos explorados nesta história do Brasil e do mundo, que nos ensine a respeitar e a conviver com todas as etnias e culturas, com os gêneros e as crenças, sem nos considerarmos melhores ou piores, mas iguais. Que ela nos guie, terna e carinhosamente, pelos caminhos da tolerância, do respeito fraterno, da caridade ecumência e da comunhão solidária. Que nos ajude a seguir os passos de seu Filho, o bom Jesus, sempre, aqui, agora e pelo futuro que há de vir com esperança. Rogai por nós, santa mãe do bom Jesus!

    Amém.

    Para entender a preocupação demonstrada nesta oração, leia aqui.

  • Bom Jesus da Lapa

    Acabo de chegar de Bom Jesus da Lapa, Bahia, daquele que, para mim, é o local mais sagrado do sertão; onde a família e eu participamos de uma Romaria entre os dias 17 e 19 de julho. Neste ano o Santuário do Bom Jesus e da Mãe da Soledade completa 320 anos de existência. Em outros posts, darei mais detalhes e publicarei mais fotos.