Por Levon Nascimento
Há oito décadas, em 8 de maio de 1945, o mundo celebrava o fim do conflito mais devastador da história: a Segunda Guerra Mundial. Marcada por mais de 70 milhões de mortos, holocaustos, bombardeios atômicos e a destruição de nações inteiras, a guerra deixou cicatrizes que ainda hoje exigem reflexão. Em 2025, quando completamos 80 anos desse marco, o contexto geopolítico global parece ecoar perigosamente os erros do passado. Diante de tensões bélicas, ascensão de extremismos e crises humanitárias, quais lições podemos resgatar para evitar repetir tragédias?
A criação da Organização das Nações Unidas (ONU), em 1945, simbolizou a esperança de que a cooperação internacional impediria novos conflitos em escala global. No entanto, como aponta o artigo “Europa se rearma, mas não se encontra” (BRASIL 247), o continente europeu, outrora pioneiro na integração pós-guerra, enfrenta hoje uma onda de rearmamento e divisões internas. A invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 e as crescentes tensões entre blocos geopolíticos revelam a fragilidade das instituições multilaterais. Como alertou o presidente Lula em discurso recente: “A paz só é possível com diálogo, nunca com mais armas” (VERMELHO, 2025).
A ordem mundial pós-1945, construída sobre a liderança dos EUA e a cooperação transatlântica, está sob ameaça. Analistas destacam que a política externa de Donald Trump, com sua retórica isolacionista e questionamento da OTAN, desestabiliza alianças históricas. O historiador Norbert Frei afirma que a Europa, dependente da proteção americana por décadas, agora enfrenta um dilema: buscar autonomia militar ou renegociar sua relação com os EUA em bases incertas. A fala do chanceler alemão Friedrich Merz sobre a necessidade de a União Europeia “existir sem os EUA” reflete esse impasse.
A Alemanha, principal nação responsável pelo conflito, segue lidando com o legado da guerra. Segundo reportagem do Estadão (2024), o país ainda busca restos de soldados mortos, um esforço simbólico que reflete a necessidade de enfrentar o passado. A reconciliação, porém, exige mais que gestos: demanda educação e combate ao revisionismo histórico. Como destacado no evento “80 anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial” (JUSGOV, 2025), a distorção de fatos, como a negação do Holocausto ou a glorificação de regimes totalitários, ameaça a coesão social.
Na Rússia, o “Dia da Vitória” em 9 de maio — diferente do 8 de maio, devido ao fuso horário russo em relação ao horário da rendição alemã de 1945 — é celebrado como um marco da resistência soviética, mas também instrumentalizado para justificar ações geopolíticas atuais. Durante evento na Assembleia Legislativa de São Paulo, o embaixador russo Alexey Labestskiy enfatizou a “missão de glorificar os heróis”, enquanto críticos apontam para o risco de revisionismo que omite os crimes stalinistas.
O genocídio de seis milhões de judeus durante a guerra permanece como um alerta sobre as consequências da intolerância. Contudo, como questiona o artigo “O Holocausto justifica um novo Holocausto?”, do sociólogo Jessé Souza (ICL NOTÍCIAS, 2024), instrumentalizar essa tragédia para legitimar violências atuais — como o genocídio em Gaza pelo governo sionista de Israel — é um erro grotesco. A lição do Holocausto não é a de que “um povo deve sofrer para que outro sobreviva”, mas sim a de que a desumanização do outro é o primeiro passo para a barbárie.
Em 2025, essa reflexão é urgente, principalmente diante de discursos que normalizam a violência étnica. A retórica expansionista de Trump, que sugere anexar territórios como a Groenlândia ou o Canadá, e a invasão russa da Ucrânia violam o princípio pós-1945 de integridade territorial. Como alerta Stefan Wolff, da Universidade de Birmingham, a erosão das normas internacionais abre espaço para que potências alterem fronteiras pela força, replicando os erros do passado.
A Guerra Fria (1947-1991) dividiu o mundo em blocos liderados por EUA e URSS. Hoje, a bipolaridade ressurge com EUA e China, enquanto a Rússia busca reafirmar influência. A guerra comercial de Trump contra a China, porém, paradoxalmente fortalece Pequim como alternativa econômica para aliados europeus e asiáticos. Elisabeth Braw, do Atlantic Council, destaca que a China emerge como “país responsável” em contraste com a política protecionista americana.
Para o Brasil, a nova ordem traz desafios. Com forças armadas que se deixaram auto-desmoralizar pela tentativa de golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023, e dependência de rotas marítimas controladas por potências, o país enfrenta dilemas sobre sua soberania, especialmente em relação à Amazônia. A pergunta do articulista da DefesaNet — “seremos senhores ou vassalos?” — ecoa a necessidade de uma estratégia clara em um mundo onde “a lei do mais forte” parece retornar.
Os 80 anos do fim da Segunda Guerra Mundial coincidirão com um cenário de incertezas: guerras na Europa e no Oriente Médio, polarização ideológica e mudanças climáticas. No entanto, a história nos oferece um guia. Como escreveu o filósofo George Santayana, “aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo”.
Além de tudo isso, duas outras guerras são travadas pela humanidade: a degradação ambiental sem precedentes e as mudanças climáticas provocadas pela ação dos sistemas econômicos humanos no chamado antropoceno. Tanto quanto o nazifascismo provocou a Segunda Guerra Mundial, os negacionismos ambientais e climáticos atuais podem ter efeito ainda mais devastadores sobre o planeta.
A lição central para 2025 é clara: ou investimos em diplomacia, justiça social, preservação da memória e cumprimento das metas ambientais-climáticas, ou permitiremos que o ciclo de violência se perpetue. A ordem pós-1945, embora imperfeita, evitou guerras globais por décadas. Sua erosão, acelerada por nacionalismos e alianças voláteis, nos coloca à beira de um precipício. Como alertam historiadores, a atual turbulência lembra os anos entre 1914 e 1939, quando a incapacidade de diálogo levou ao colapso. A escolha, como em 1945, ainda é nossa.
Referências citadas
BBC. As 4 mudanças de Trump que estão criando uma nova ordem mundial. 2025. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cj68rxg28j1o. Acesso em: 7 maio 2025.
BRASIL 247. Europa se rearma, mas não se encontra. 2025. Disponível em: https://www.brasil247.com/blog/europa-se-rearma-mas-nao-se-encontra. Acesso em: 7 maio 2025.
DEFESANET. 2025 – o Ano D – Trump, Putin, o Brasil e a nova ordem internacional. 2025. Disponível em: https://www.defesanet.com.br/ecos/apos-80-anos-a-ordem-mundial-do-pos-guerra-esta-desabando/. Acesso em: 7 maio 2025.
DEUTSCHE WELLE. Ordem mundial do pós-guerra se esfacela, 80 anos depois. 2025. Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/ap%C3%B3s-80-anos-a-ordem-mundial-do-p%C3%B3s-guerra-est%C3%A1-desmoronando/a-72416053. Acesso em: 7 maio 2025.
ESTADÃO. 80 anos após a 2ª Guerra Mundial, Alemanha ainda procura por soldados mortos. 2024. Disponível em: https://www.estadao.com.br/internacional/80-anos-apos-a-2-guerra-mundial-alemanha-ainda-procura-por-soldados-mortos/. Acesso em: 7 maio 2025.
ICL NOTÍCIAS. O Holocausto justifica um novo Holocausto? 2024. Disponível em: https://iclnoticias.com.br/o-holocausto-justifica-um-novo-holocausto/. Acesso em: 7 maio 2025.
JUSGOV. 80 anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial. 2025. Disponível em: https://www.jusgov.uminho.pt/pt-pt/event/80-anos-depois-do-fim-da-segunda-guerra-mundial/. Acesso em: 7 maio 2025.
UOL NOTÍCIAS. Ordem mundial do pós-guerra se esfacela 80 anos depois. 2025. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/deutschewelle/2025/05/03/ordem-mundial-do-pos-guerra-se-esfacela-80-anos-depois.htm. Acesso em: 7 maio 2025.
VERMELHO. Lula, Xi e Putin celebram os 80 anos da vitória na 2ª Guerra Mundial. 2025. Disponível em: https://vermelho.org.br/2025/05/06/lula-xi-e-putin-celebram-os-80-anos-da-vitoria-na-2a-guerra-mundial/. Acesso em: 7 maio 2025.