Tag: Brasil

  • Anistia nunca mais: por que o Brasil não pode perdoar golpistas que querem implantar a ditadura de novo

    Anistia nunca mais: por que o Brasil não pode perdoar golpistas que querem implantar a ditadura de novo

    A Lei da Anistia de 1979, apesar de suas graves limitações — como o perdão aos torturadores e ditadores —, teve um papel histórico: permitiu a incorporação dos que lutavam contra o regime militar à vida política e abriu caminho para a redemocratização. Foi nesse processo que emergiram lideranças como Ulysses Guimarães, Lula, Dilma Rousseff, Fernando Henrique Cardoso, Brizola e Luiz Carlos Prestes, culminando na eleição indireta de Tancredo Neves. A anistia, naquele contexto, funcionou como uma ponte para a democracia.

    O cenário atual é muito diferente. Vivemos em plena democracia e, por isso, propor anistia para os envolvidos na tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 não significaria reconciliação, mas sim impunidade. Diferentemente de 1979, não há um regime autoritário a ser superado. O que existe é uma tentativa frustrada de destruir o Estado democrático de direito. Conceder perdão a extremistas de direita seria um convite para novos atentados contra as instituições.

    A história mostra que a indulgência com golpistas nunca ensinou a lição necessária. Juscelino Kubitschek, por exemplo, concedeu anistia a militares que tentaram derrubá-lo em sucessivas conspirações. O resultado foi que eles continuaram tramando até conseguirem, em 1964, instalar uma ditadura que perseguiu, torturou e matou opositores. A lógica é clara: quando golpistas percebem que não serão punidos, voltam a agir com ainda mais ousadia.

    O voto recente do ministro Alexandre de Moraes no Supremo Tribunal Federal foi exemplar. Em exposição firme e didática, ele demonstrou que os crimes de 8 de janeiro foram uma tentativa organizada de golpe de Estado, com ataques ao Congresso, ao STF e ao Palácio do Planalto. Não se tratou de “pichação” ou “protesto pacífico”, mas de uma ofensiva coordenada para romper a ordem constitucional. Julgar e punir esses crimes não é vingança: é defesa da democracia.

    É a primeira vez que a Justiça brasileira enfrenta golpistas com verdadeiro rigor. Que isso sirva de lição. Perdoar novamente, como em tantos episódios do passado, seria repetir os erros que custaram caro ao país. O Brasil precisa mostrar que democracia não é negociável: quem tenta destruí-la deve responder por seus atos, sem atalhos, sem anistia e sem impunidade.

  • O “Perigo Social” que atingiu Laudemir, o gari

    O “Perigo Social” que atingiu Laudemir, o gari

    A jornalista Lais Gouveia, com bisturi afiado, nos apresentou o retrato falado de uma criatura que prolifera no Brasil como dengue em água parada: o fubango de autoestima inflada e valores morais murchos. Não é apenas uma figura folclórica ou uma aberração de reality show. É a engrenagem humana de um projeto socialmente letal, fundado na arrogância da aparência, na exclusão meticulosa e na violência — tanto a que se disfarça em “opinião” quanto a que mata de fato. Foi assim que o gari Laudemir de Souza Fernandes, de 44 anos, trabalhador, pai, cidadão, acabou morto em Belo Horizonte, enquanto o suspeito de matá-lo seguiu para a academia, porque, afinal, bíceps não se fazem sozinhos.

    Começa pelo prato principal dessa dieta mental: “anabolizante com batata doce”. Leitura, nem pensar, um veneno! Não é só nutrição; é liturgia. O corpo como altar e arma, o culto à hipertrofia como substituto de caráter. “No pain, no game”, berra diante do espelho, ignorando que a dor que importa é a dos outros — invisível, descartável ou, na melhor das hipóteses, motivo de piada. O corpo é a blindagem e o atestado de “superioridade natural” do que se acha a viver num jogo de seleção artificial.

    O figurino desse espécime é um desfile de pretensão barata: “duas horas na fila da Disney com moletom da Tommy Hilfiger”. Aqui, consumo não é prazer; é hierarquia. Cada marca é uma cerca elétrica invisível separando “gente de bem” da “gentalha que estraga o glamour dos aeroportos”. Glamour, claro, entendido como apartheid social — aquele em que pobre é tolerado como funcionário, nunca como passageiro. Laudemir não foi vítima apenas de um crime; foi vítima de uma lógica que elimina fisicamente quem ousa existir fora do lugar designado.

    A fé, quando existe, é um fast-food espiritual: “café com Deus Pai” e “frases motivacionais do André Valadão”. É a versão gospel do coaching, onde Deus é personal trainer da sua conta bancária e a pobreza é vista como erro estratégico de quem “não correu atrás”. A teologia da prosperidade aqui serve de cimento para a moral do esgoto: direitos humanos são só para “humanos direitos”, ou seja, clones do próprio fubango.

    E há, por baixo de toda essa pose, a mais patética das couraças: a síndrome de vira-lata. É o sujeito que ostenta a bandeira dos Estados Unidos na camiseta, mas acha cafona a brasilidade. Camisa da seleção brasileira só como uniforme da guerra cultural de extrema-direita. Que fala mal do próprio país como quem comenta o tempo — automático, preguiçoso —, e se refere à cultura nacional como coisa menor, “brega”, “pobre”, “inadequada”. Que só respeita lei, arte e soberania quando vêm carimbadas com selo de importação. E, ironicamente, é capaz de matar um brasileiro para provar a si mesmo que pertence a um clube que jamais o aceitará como membro legítimo.

    Na playlist cultural, uma sinfonia do vazio: “foto do braço no volante ao som de Gusttavo Lima”. É a ostentação pasteurizada, a vida filtrada em Instagram Stories, o volante como cetro de um reinado imaginário. Botox aos litros, placas dentárias que refletem o sol e um vocabulário que não resiste a dois parágrafos sem o “Você sabe com quem está falando?”. Quando a máscara escorrega e o privilégio é ameaçado, o fubango responde com esse SOS aristocrático, denunciando a crença mais íntima: existem vidas que valem menos que um treino de tríceps.

    E é aqui que a coisa deixa de ser caricatura e vira protocolo de guerra social. O fubango não é um acidente isolado; é um manual vivo de desumanização. Ele circula nas academias, nos aeroportos, nas timelines e, o que é mais preocupante, nas urnas. Alimenta e é alimentado por um Brasil que confunde força com virtude e confere imunidade moral a quem ostenta o pacote completo: bíceps, marca, desprezo e complexo de inferioridade cultural.

    Por isso, reconhecer e nomear esse arquétipo é mais que sátira: é medida de segurança pública. Atrás do moletom da Tommy, da frase motivacional, da bandeira estrangeira no peito e do sorriso de porcelana, há sempre o risco do soco, do tiro ou da indiferença que mata. E quando ele perguntar, com o peito estufado e o maxilar travado, “Você sabe com quem está falando?”, a única resposta possível é clara, seca e sem reverência: “Sim. Com um perigo social.”

  • A nova era global de ódio aos pobres

    A nova era global de ódio aos pobres

    Por Levon Nascimento

    Nos últimos anos, o mundo tem assistido à consolidação de uma racionalidade política que combina elementos do passado mais sombrio com novas formas de exclusão. O nazifascismo, que historicamente legitimou a perseguição e o extermínio de grupos considerados “indesejáveis”, ressurge hoje sob roupagens adaptadas, mas com a mesma lógica de hierarquizar vidas e descartar as que não se encaixam no ideal de pureza social. “O fascismo não é um fenômeno morto, mas uma gramática política que se atualiza” (TRAVERSO, 2019). Essa atualização se manifesta em práticas estatais e urbanas que violam diretamente os direitos humanos, em especial dos mais pobres.

    O higienismo social, originado no século XIX como política de saúde pública, rapidamente se converteu em instrumento de controle moral e espacial, associando pobreza à sujeira, doença e criminalidade (CHALHOUB, 1996). Essa ideologia segue viva nas remoções forçadas de pessoas em situação de rua e na chamada “arquitetura hostil” — picos de metal, bancos com divisórias, pedras sob viadutos — que expulsa os indesejáveis da paisagem urbana. No Brasil, o Padre Júlio Lancellotti denuncia que “é proibido ser pobre na cidade” (LANCELLOTTI, 2022), e sua atuação resultou na Lei 14.489/22, que proíbe tais dispositivos, mas não impede que gestores sigam buscando formas de invisibilizar a pobreza.

    A aporofobia, conceito criado por Adela Cortina (2017), descreve precisamente essa aversão aos pobres, não apenas como preconceito individual, mas como política de Estado. Trata-se de uma recusa ativa em conviver com a presença do outro que nada possui. Ao contrário do racismo ou xenofobia, que podem se suavizar diante da riqueza, a aporofobia é implacável: mesmo o nacional ou o branco, se pobre, será alvo de hostilidade. “Não é o estrangeiro que incomoda, é o pobre” (CORTINA, 2017). Essa hostilidade é visível no aumento da criminalização da mendicância em cidades de diferentes países.

    A necropolítica, conceito formulado por Achille Mbembe (2018), ajuda a compreender como governos decidem, conscientemente, quais vidas merecem ser protegidas e quais podem ser expostas à morte. Durante a pandemia de Covid-19 no Brasil, a gestão de Jair Bolsonaro minimizou riscos, atrasou vacinas e estimulou aglomerações, aumentando a mortalidade entre os mais pobres e periféricos (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 2021). “O poder de matar ou deixar morrer é o exercício último da soberania” (MBEMBE, 2018, p. 71). Essa escolha política configurou um crime ético contra as populações vulneráveis.

    No cenário internacional, exemplos recentes evidenciam a continuidade dessa lógica. Em agosto de 2025, o governo de Donald Trump em Washington, D.C., determina a remoção em massa de acampamentos de pessoas em situação de rua com apoio de forças federais (THE GUARDIAN, 2025). A medida, classificada por ativistas como higienista e autoritária, não oferece alternativas de moradia, apenas “limpa” o espaço público de corpos indesejados. Não se trata de política social, mas de um gesto simbólico de exclusão, alinhado à estética política neofascista.

    O neofascismo contemporâneo, como alerta Stanley (2018), não precisa replicar a estética dos anos 1930 para ser reconhecido: basta retomar a essência de suas práticas — nacionalismo agressivo, culto à força, inimigos internos e desumanização dos pobres. No Brasil, esse padrão se manifesta no bolsonarismo, que, ao desprezar a vida dos pobres e priorizar agendas de militarização, reforça a ideia de que o Estado deve servir apenas a quem pode pagar. “A democracia morre quando a desigualdade se naturaliza” (STANLEY, 2018).

    O fio que une nazifascismo, higienismo social, aporofobia, necropolítica e neofascismo contemporâneo é a institucionalização do desprezo. Trata-se de um projeto que, em vez de combater a pobreza, combate o pobre; que, em vez de garantir direitos, retira-os; que, em vez de acolher, expulsa. Denunciar essa lógica não é apenas exercício intelectual, mas uma obrigação ética: cada banco dividido, cada viaduto cercado, cada morte evitável é uma evidência de que, no século XXI, o ódio aos pobres deixou de ser vergonha e voltou a ser política oficial.

    Referências
    CHALHOUB, Sidney. Cidade febril: cortiços e epidemias na Corte imperial. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
    CORTINA, Adela. Aporofobia: o rechazo al pobre. Barcelona: Paidós, 2017.
    LANCELLOTTI, Júlio. “É proibido ser pobre na cidade”. Folha de S.Paulo, 19 fev. 2022.
    MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: n-1 edições, 2018.
    ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. WHO Coronavirus Disease (COVID-19) Dashboard. Genebra, 2021. Disponível em: https://covid19.who.int. Acesso em: 11 ago. 2025.
    STANLEY, Jason. How Fascism Works: The Politics of Us and Them. Nova York: Random House, 2018.
    THE GUARDIAN. Trump deploys federal forces to clear homeless encampments in DC. Londres, 8 ago. 2025.
    TRAVERSO, Enzo. The New Faces of Fascism. Londres: Verso, 2019.

    Créditos: Homem dorme nas escadarias em frente ao Teatro Municipal, no Rio de Janeiro (Luiz Souza/NurPhoto/Getty Images).

  • Viralatismo no calor dos trópicos

    Viralatismo no calor dos trópicos

    A síndrome de vira-lata, ou simplesmente viralatismo, é uma postura psicossocial marcada pela desvalorização da própria cultura em favor de expressões estrangeiras, geralmente de origem colonialista e tidas como mais avançadas ou superiores. Trata-se, em essência, de uma forma de baixa autoestima coletiva e intelectual.

    É o desejo inconsciente — e por vezes explícito — de ser europeu ou estadunidense, como se isso acrescentasse algum valor à existência que não se encontra no simples fato de ser brasileiro. Como se houvesse um status maior em negar suas raízes do que em afirmá-las.

    O viralatismo prospera onde o pensamento crítico enfraquece. Quanto menos se lê, quanto mais se consome sem reflexão, quanto menos se alimenta a inteligência com conteúdos de substância, mais se está vulnerável a essa síndrome que aliena e distorce a própria identidade.

  • Lei Magnitsky contra o Brasil: Soberania não se negocia!

    Lei Magnitsky contra o Brasil: Soberania não se negocia!

    O que está em jogo, mais do que a reputação de um magistrado ou um episódio isolado de política internacional, é a própria soberania do Brasil. A decisão do governo dos Estados Unidos, ainda sob influência do trumpismo, de aplicar a chamada Lei Magnitsky ao ministro Alexandre de Moraes escancara uma nova forma de agressão externa: a guerra híbrida travestida de moralidade internacional.

    Criada em 2012 como resposta à morte do advogado russo Sergei Magnitsky após denúncias de corrupção, a lei foi idealizada para punir graves violações de direitos humanos e atos de corrupção sistêmica. No entanto, ao ser utilizada agora contra um ministro da Suprema Corte brasileira, ela se revela distorcida, transformada em instrumento de pressão política. As acusações da política de extrema-direita de Trump ignoram por completo o fato de que as decisões de Moraes passaram pelo crivo do plenário do STF e foram respaldadas por fundamentos constitucionais. A imposição de sanções, como o bloqueio de bens e a proibição de transações com entidades americanas, expõe um ato de ingerência e desrespeito à autonomia das instituições brasileiras.

    Trata-se de uma escalada agressiva que deve ser lida no contexto mais amplo da atual relação entre Brasil e Estados Unidos. Em um curto intervalo, Washington adotou uma série de medidas que ferem diretamente os interesses nacionais. Em 9 de julho de 2025, tarifas de 50% foram anunciadas sobre exportações brasileiras, coincidindo com as investigações sobre a tentativa de golpe bolsonarista. Dias depois, vieram as restrições de visto a ministros do STF. Por fim, em 30 de julho, Moraes foi sancionado. A cronologia não deixa dúvidas: não se trata de episódios isolados, mas de uma campanha articulada. Como bem afirmou o líder do governo na Câmara, Lindbergh Farias: “Não é um ataque a um ministro, é um ataque ao Brasil”.

    O cenário se agrava com a atuação de setores da extrema-direita brasileira, antipatrióticos e traidores do Brasil, que se aliaram a interesses estrangeiros. Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente réu em tentativa de abolição violenta da democracia, licenciado da Câmara dos Deputados, teve papel central nessa ofensiva. Reportagens internacionais, como as do Washington Post, mostram que ele se comportou como verdadeiro agente estrangeiro, incentivando empresas brasileiras a levarem seus investimentos aos Estados Unidos, ao passo que celebrava as sanções a Moraes como “marco histórico”. Essa postura se inscreve na lógica do entreguismo e da sabotagem econômica contra o próprio país natal. Mais do que deslealdade institucional, trata-se de um comportamento que fere diretamente o Código de Ética Parlamentar e a ordem constitucional. A ausência de um tipo penal específico para o crime de lesa-pátria não exime a gravidade desses atos — eles devem ser enfrentados com responsabilização política urgente.

    Diante dessa conjuntura hostil, a reação do Brasil precisa ser estratégica e equilibrada. Firme, porém inteligente. A Advocacia-Geral da União, pelas palavras de Jorge Messias, já sinalizou que todas as medidas legais serão adotadas para proteger as instituições brasileiras, inclusive em instâncias internacionais. É fundamental, no entanto, que o país não entre no jogo da retaliação econômica: o protecionismo de curto prazo, segundo estudos do Peterson Institute, só é eficaz em 23% dos casos e pode agravar as tensões comerciais. A prioridade deve ser a defesa da ordem constitucional, como reiterou o ministro Flávio Dino ao afirmar que Moraes está apenas cumprindo seu dever institucional.

    Essa coesão entre os Poderes é a principal arma contra as tentativas de desestabilização. Em paralelo, a diplomacia brasileira deve intensificar a articulação com blocos e países que valorizem o multilateralismo, como os BRICS e a União Europeia. É preciso isolar o unilateralismo norte-americano e construir uma frente internacional de defesa da legalidade e da soberania.

    Como destacou o próprio Jorge Messias, “soberania não se negocia”. A tentativa de transformar o Brasil em um laboratório para ações extraterritoriais de Washington deve ser enfrentada com toda a energia do Estado brasileiro e com a mobilização de sua sociedade civil. Este é o momento de união nacional — acima de partidos, ideologias e disputas internas. O ataque a Moraes é uma farsa jurídica e uma tentativa de proteger um aliado político de Trump (Jair Bolsonaro), ao custo da própria Independência do Brasil. Ceder seria admitir que o país pode ser governado de fora, voltar a ser colônia de fato. E isso, a História nos ensina, sempre termina em subordinação e atraso.

    A grandeza de uma nação não está em sua submissão, mas em sua capacidade de resistir. O Brasil, com sua democracia ainda jovem, tem o dever de reagir à altura. Porque uma pátria que se respeita, se defende.

  • O Rubicão do Brasil

    O Rubicão do Brasil

    A seguir, uma síntese opinativa dos textos jornalísticos que li no domingo, 20 de julho de 2025.

    Imagine um general romano parado à beira de um rio estreito no norte da Itália, em 49 a.C. Seu nome é Júlio César. A lei proíbe que ele cruze esse córrego chamado Rubicão com suas tropas — pois fazê-lo seria declarar guerra a Roma. Ele hesita, sabendo que não haverá volta. Então profere a frase famosa: “Alea iacta est” (a sorte está lançada). Ao avançar, desencadeia uma guerra civil, mas também redefine o destino de um império.

    Hoje, o Brasil se vê diante de seu próprio Rubicão geopolítico. Não por ambição, como César, mas “por necessidade de sobrevivência“. Os EUA de Trump lançaram um ataque sem precedentes: tarifas de 50% sobre nossos produtos, bloqueio de vistos de autoridades do STF e do Ministério Público, e retórica que trata nossa soberania como um incômodo (BRASIL 247, 2025a).

    A geografia das relações internacionais explica o contexto:

    • Antes do Rubicão: O Brasil mantinha parcerias equilibradas com EUA, Europa e Ásia.
    • Depois do Rubicão: Trump transformou o comércio em “jogo de soma zero” — se os EUA ganham, alguém precisa perder. Seu projeto é um “Império hobbesiano”, de vigilância e controle total do mundo, baseado na força bruta (BRASIL 247, 2025b).

    Mas há uma diferença crucial:

    “Não se trata de antiamericanismo. O Brasil é simplesmente pró-Brasil (Julián Marías, citado em BRASIL 247, 2025c).

    Enquanto Trump tenta nos encurralar, Lula reúne-se no Chile com presidentes da Espanha, Chile, Colômbia e Uruguai. Juntos, publicaram em 20/07/2025 um manifesto claro: “Não cabe imobilismo nem medo” diante de autoritarismos (LULA et al., 2025). A mensagem ecoa César, mas com propósito oposto — não à conquista, mas a defesa do multilateralismo.

    Internamente, até governadores bolsonaristas criticaram as tarifas de Trump, e o agronegócio buscou diálogo com Lula para tentar reverter a tragédia encomendada por Jair Bolsonaro ao filho Eduardo, em missão de traição à Pátria brasileira na Casa Branca (BRASIL 247, 2025d).

    A travessia redefine nosso lugar no mundo:

    • Submeter o país a um império que vê autonomia como afronta.
    • Ou intensificar alianças com o Sul Global, destino de 63% das nossas exportações (BRASIL 247, 2025a).

    O Brasil não escolheu esta crise. Foi empurrado a ela pela família traidora de Bolsonaro. Mas enquanto César cruzou por ambição, nós o fazemos por um imperativo nobre:

    “Autonomia não é discurso. É sobrevivência (BRASIL 247, 2025b).

    A sorte está lançada. Resta saber se seremos espectadores da história… ou seus autores.

    REFERÊNCIAS

    AGÊNCIA GOV. Lula, Boric, Sánchez, Orsi e Petro escrevem: “Não cabe imobilismo nem medo”. Notícias, 2025. Disponível em: https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202507/lula-boric-sanchez-orsi-e-petro-escrevem-nao-cabe-imobilismo-nem-medo. Acesso em: 20 jul. 2025.

    BRASIL 247. Alvo do império, o Brasil tem um líder em papel inédito e precisa valorizá-lo: Lula. Editoriais 247, 2025a. Disponível em: https://www.brasil247.com/editoriais247/alvo-do-imperio-o-brasil-tem-um-lider-em-papel-inedito-e-precisa-valoriza-lo-lula. Acesso em: 20 jul. 2025.

    BRASIL 247. Lula viaja ao Chile onde participa de cúpula de presidentes em defesa da democracia. América Latina, 2025b. Disponível em: https://www.brasil247.com/americalatina/lula-viaja-ao-chile-onde-participa-de-de-cupula-de-presidentes-em-defesa-da-democracia. Acesso em: 20 jul. 2025.

    BRASIL 247. O Brasil está sendo forçado a cruzar um Rubicão geopolítico. Blog, 2025c. Disponível em: https://www.brasil247.com/blog/o-brasil-esta-sendo-forcado-a-cruzar-um-rubicao-geopolitico. Acesso em: 20 jul. 2025.

    BRASIL 247. Trump está querendo enfraquecer o principal líder da esquerda mundial, que é o Brasil, diz Mantega. Entrevistas, 2025d. Disponível em: https://www.brasil247.com/entrevistas/trump-esta-querendo-enfraquecer-o-principal-lider-da-esquerda-mundial-que-e-o-brasil-diz-mantega. Acesso em: 20 jul. 2025.

  • Bolsonaro traiu o Brasil. Mas, quem duvidava disso?

    Bolsonaro traiu o Brasil. Mas, quem duvidava disso?

    Em um enredo que mistura tragédia grega, farsa política e reality show, a família Bolsonaro elevou a “traição à pátria” de crime hediondo a plataforma de carreira. Nas últimas semanas, assistimos a um espetáculo digno de roteiristas de Hollywood: Eduardo Bolsonaro, instalado nos EUA como lobista de si mesmo, implorava a Donald Trump que “defendesse meu pai”. O resultado? Trump, em gesto de “solidariedade”, anunciou tarifas de 50% sobre produtos brasileiros – um abraço de urso, uma amizade de onça. 

    Jair Bolsonaro, que antes se vestia de verde-amarelo até para dormir, agora financia o filho com 2 milhões para conspirar contra o Brasil do exterior. Enquanto isso, em Brasília, o ex-presidente recebe a PF de pijama e é presenteado com uma tornozeleira eletrônica – acessório que, diga-se, combina mais com seu novo estilo de vida do que as botas de capitão. O mesmo homem que gritava “Brasil acima de tudo” agora sussurra “Trump acima do Brasil” (Trump above Brazil) nos ouvidos do magnata. 

    Eduardo pedia a Trump sanções seletivas contra ministros do STF, sonhando com a Lei Magnitsky como “sniper jurídico”. O que ganhou? Uma bomba atômica tarifária que desemprega brasileiros, estrangula o agronegócio e afunda a indústria. Como bem resumiu um analista: “Pediam um sniper e ganharam uma bomba atômica”. A reação do clã? Um lacônico “lamento” – eco assustadoramente familiar dos tempos pandêmicos. “Quer que eu faça o quê? Não sou coveiro” – disse o Jair em vez de comprar vacinas.

    Enquanto o país calcula prejuízos bilionários, Bolsonaro posa de vítima: “Suprema humilhação”, lamenta, ao vestir a tornozeleira. Ignora que a humilhação real é ver um ex-presidente acusado de atentar contra a soberania nacional, traição em Seu mais alto grau. Seu conselho a Lula? “Negocie com Trump!”. Sim, o mesmo Trump que ele armou contra o Brasil. Quem duvidava que a hipocrisia atingiria níveis olímpicos? 

    Até ex-diplomatas, homens de linguagem comedida, romperam o decoro: “É um caso claro de traição à pátria”. Lula, em tom cáustico, sintetizou: “Quem se abraça na bandeira americana é patriota falso”. E o STF, ao impor a tornozeleira e bloquear contatos com embaixadas, enviou um recado: traidores não merecem salvo-conduto, mas monitoramento constante. 

    Eduardo, do exílio dourado, ameaça seu próprio país: “Ninguém bate de frente com Trump!”. Esqueceu que, em 2025, seu pai virou apenas um pé-frio com tornozeleira, e o Brasil, um país que aprendeu: patriotismo de hashtag não paga a conta do desemprego. 

    Para os Bolsonaros, “Brasil acima de tudo” era slogan, não promessa. Já para o resto do país, a piada acabou – e a conta chegou.

  • O álibi de Trump: defendendo Bolsonaro para atacar o Brasil 

    O álibi de Trump: defendendo Bolsonaro para atacar o Brasil 

    A carta de Donald Trump em defesa de Jair Bolsonaro, divulgada em 17 de julho de 2025, foi chamada pelo governo Lula de “efeito nulo”. Mas a verdade é mais grave: a suposta solidariedade ao ex-presidente brasileiro é uma cortina de fumaça para atacar nossos interesses econômicos. Trump mesmo admitiu ao justificar tarifas de 50% contra o Brasil: “Estamos fazendo isso porque eu posso” (G1, 2025). 

    Por trás do discurso de “liberdade”, esconde-se uma guerra comercial. Eduardo Bolsonaro, atuando nos EUA, pressionou Trump após pedidos de condenação de seu pai, como confessou em nota: “Mantivemos diálogo com autoridades americanas […] para apresentar a realidade do Brasil” (GGN, 18.jul.2025). O resultado? Tarifas que atingem US$ 20 bilhões em exportações brasileiras de aço, petróleo e aviação. 

    O alvo real é nossa soberania econômica. A agência comercial americana (USTR) ataca o Pix, sistema público usado por 170 milhões de brasileiros, acusando-o de “prática desleal”. Para o jornalista Luís Nassif, isso revela o pânico das empresas americanas ante um sistema que reduziu o domínio de Visa e Mastercard (NASSIF, 2025). 

    A contradição é gritante: Trump alega defender liberdades, mas tenta estrangular uma ferramenta que democratizou o acesso financeiro. Como alertou o economista Paul Krugman: “É tudo sobre punir o Brasil por julgar Bolsonaro” (apud NASSIF, 2025). 

    O custo é real: as tarifas podem reduzir nosso PIB em 0,4% (GOLDMAN SACHS, 2025). Mas a reação uniu o Brasil: 72% dos brasileiros rejeitam as medidas (Datafolha, jul.2025), e até governadores de oposição buscam saídas diplomáticas. 

    Como sintetizou Lula: “O Brasil não é quintal de ninguém” (2023). A defesa de Bolsonaro é só um cavalo de Troia para enfraquecer um país que ousa desafiar a hegemonia econômica americana – com BRICS, moedas locais e tecnologia própria. A medida judicial que restringe Bolsonaro em julho de 2025 simboliza o fim dessa aliança tóxica. 

    A lição de Nassif ecoa: sem autonomia industrial e tecnológica, seremos reféns.

    Fontes:

    – G1. “Governo Lula reage a tarifas de Trump”. 17.jul.2025. 
    – GGN. “Eduardo Bolsonaro admite lobby por medidas contra Brasil”. 18.jul.2025. 
    – FOLHA DE S.PAULO. “Impacto das tarifas nas exportações”. 16.jul.2025. 
    – USTR. “Investigação sobre práticas comerciais do Brasil”. 15.jul.2025. 
    – NASSIF, L. “A indústria do cartão e o Pix”. GGN, 10.jul.2025. 
    – MDIC. “Balança comercial Brasil-EUA”. 14.jul.2025. 
    – GOLDMAN SACHS. “Relatório de impacto tarifário”. 19.jul.2025. 
    – DATAFOLHA. “Avaliação da política externa”. Jul.2025. 
    – ESTADÃO. “Governadores buscam diálogo com EUA”. 20.jul.2025. 
    – VALOR ECONÔMICO. “Haddad classifica tarifas como agressão”. 17.jul.2025. 
    – LULA. Discurso na Cúpula do Mercosul. 2023.

  • Brasil Soberano: Quando a Constituição vira escudo

    Brasil Soberano: Quando a Constituição vira escudo

    Texto voltado para alunos que vão fazer o ENEM. Tema: Soberania nacional.

    Em julho de 2025, o Brasil acorda com uma notícia pesada: Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, decide cobrar uma tarifa de 50% sobre tudo o que o Brasil exporta para lá. A medida passa a valer no dia 1º de agosto.

    O motivo? Trump alega que o Brasil está censurando redes sociais americanas e critica o julgamento de um ex-presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, acusado de não respeitar o resultado das eleições democráticas e tentar dar um golpe de Estado. Ele chama o processo no Supremo Tribunal Federal (STF) de “vergonha internacional” e “caça às bruxas”.

    Mas essa não é só uma briga comercial. É um ataque direto à soberania do Brasil, ou seja, ao direito de decidir os próprios caminhos sem interferência de outros países. Esse direito está logo no começo da nossa Constituição de 1988, no Artigo 1º: o Brasil é um Estado Democrático de Direito fundado na soberania popular.

    A resposta do governo brasileiro vem rápida e com base na lei. O atual Presidente do Brasil, Lula, usa a Lei de Reciprocidade Econômica, mostrando que o país também sabe se defender. Ele cita o Artigo 4º da Constituição, que fala da não-intervenção nos assuntos internos de outros países. Em um discurso no Congresso da UNE (União Nacional dos Estudantes), o Presidente Lula afirma: “Esse país só é soberano porque o povo brasileiro tem orgulho dele.”

    E anuncia: “Vamos cobrar imposto das empresas digitais norte-americanas.”

    Ou seja, a resposta é clara: se tentam prejudicar o Brasil, o país reage – mas sempre respeitando as regras do jogo.

    O problema fica ainda mais sério porque Trump tenta dar palpite em decisões da Justiça brasileira. Ele pede a anistia do ex-presidente acusado de tentar um golpe, algo que ataca diretamente o Artigo 5º da Constituição, que garante a independência do nosso Judiciário. Como diz Rubens Ricupero, ex-embaixador do Brasil nos Estados Unidos: “É uma intervenção inaceitável contra a soberania nacional.”

    Essa situação traz uma lição importante: a Constituição de 1988 não é só um papel guardado em Brasília. Ela é um escudo real que protege o Brasil de ameaças externas e internas. Quando o Presidente Lula declara que Trump “não é imperador do mundo”, ele repete a ideia de Ulysses Guimarães, que em 1988 chama a Constituição de “repúdio ao autoritarismo”.

    Outro ponto importante da crise é a liberdade de expressão. Trump acusa o Brasil de censura, mas esquece que o Artigo 220 da Constituição diz que é proibido restringir a liberdade de imprensa. Só que a mesma Constituição também afirma que as plataformas digitais precisam ser responsabilizadas se espalharem fake news, discurso de ódio ou ameaças à democracia. Como o atual Presidente Lula diz na UNE: “Não aceitamos que, em nome da liberdade de expressão, se façam agressões e mentiras.”

    O STF (Supremo Tribunal Federal) decide recentemente que as big techs precisam moderar postagens criminosas. Isso não é censura; é proteger a sociedade.

    Se você vai fazer a redação do ENEM, esse caso é um ótimo exemplo para discutir temas como:

    1. Soberania popular (Art. 1º da Constituição): o povo brasileiro decide os caminhos do país. As manifestações das “Diretas Já” e a eleição de 2022 mostram isso.

    2. Autodeterminação (Art. 4º): cada país tem o direito de resolver seus problemas sem interferência externa. Por isso, o Presidente da República afirma: “Somos um país soberano.”

    3. Função social do Estado (Art. 3º): quando um país mais rico impõe tarifas pesadas, isso prejudica a economia e aumenta as desigualdades. Isso vai contra a Constituição, que quer um Brasil mais justo e menos desigual.

    O ministro Ayres Britto resume bem: “A harmonia entre os Poderes é desejável, mas a independência é imprescindível.”

    Em 2025, o Brasil está sendo testado justamente nessa independência. E o seu papel, jovem, é entender que soberania não é um discurso vazio; é a base da democracia.

    O Artigo 3º da Constituição diz que devemos construir “uma sociedade livre, justa e solidária”. Isso significa que o Brasil não pode ser submisso a interesses estrangeiros.

    💡 Dica para o ENEM: Use a frase do Presidente Lula – “O Brasil não é refém de ninguém” – para mostrar como a soberania está ligada à dignidade humana. O Artigo 1º, III da Constituição diz que a dignidade é um dos pilares do Estado brasileiro.

    Fontes:
    BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. 1988.
    Carta de Donald Trump ao governo brasileiro (09/07/2025). Tradução: Agência Brasil.
    Discurso do Presidente da República no 60º CONUNE (17/07/2025). G1 e Teletime.
    RICUPERO, Rubens. Entrevista à CartaCapital (09/07/2025).

  • A semana que encerra e os desafios do Brasil: soberania, justiça e o futuro da Nação

    A semana que encerra e os desafios do Brasil: soberania, justiça e o futuro da Nação

    O Brasil sob ataque

    A semana que finda em 12 de julho de 2025 entrará para a história como um divisor de águas na trajetória brasileira. Entre ameaças externas, tensões políticas domésticas e desafios econômicos estruturais, o Brasil viu-se diante de uma encruzilhada que testou sua soberania, sua coesão institucional e seu projeto de nação. A imposição de tarifas de 50% por Donald Trump aos produtos brasileiros, justificada como represália às investigações contra Jair Bolsonaro, não foi apenas um ato econômico: foi uma declaração de guerra assimétrica contra a democracia brasileira.


    1. A ingerência externa e a resposta brasileira

    A chantagem como ferramenta geopolítica

    A carta pública de Donald Trump, vinculando tarifas comerciais à interferência no processo judicial contra Bolsonaro, configurou um inédito ataque à soberania nacional. Como destacou José Dirceu, trata-se de uma “conspiração contra o Brasil”, onde o bolsonarismo atuou como vetor de interesses estrangeiros: “Bolsonaro e seus filhos devem ser processados por traição e conspiração contra a segurança nacional”. A reação de Lula foi imediata e contundente: invocou a Lei de Reciprocidade Econômica e afirmou que o Brasil “não aceitará ser tutelado por ninguém”.

    O paradoxo de Trump: um tiro no pé

    Analistas como Juan Pablo Spinetto (Bloomberg) apontam que a medida de Trump pode fortalecer Lula politicamente. Ao unir a opinião pública em torno da defesa da soberania, Trump desvia o foco da oposição e fragiliza aliados de Bolsonaro, como Tarcísio de Freitas, que se alinhou publicamente ao presidente estadunidense.

    “Ao se envolver no caso de Bolsonaro, Trump acaba prejudicando inadvertidamente as melhores chances da direita de derrotar Lula” – JP Spinetto.


    2. As fraturas internas: bolsonarismo e submissão

    Tarcísio e a inversão institucional

    O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, protagonizou um episódio surreal: telefonou a ministros do STF para propor a devolução do passaporte de Bolsonaro, permitindo que ele “negociasse” com Trump o fim das tarifas. Leonardo Sakamoto sintetizou o absurdo: “Tarcísio jogou a institucionalidade no lixo e agiu como office boy de Bolsonaro”. A atitude ignora que o confisco do passaporte visa impedir a fuga de um investigado por tentativa de golpe de Estado.

    A elite conivente e seu despertar tardio

    Dirceu critica a conivência das elites econômicas com o bolsonarismo, que fecharam os olhos ao financiamento do 8 de janeiro e à estadia ilegal de Eduardo Bolsonaro nos EUA. Agora, com perdas concretas – como 58 contêineres de pescados barrados nos EUA –, parte delas reage.


    3. Os desafios estruturais: entre a reindustrialização e a justiça tributária

    A economia fechada e a desindustrialização

    Vitor Lippi (deputado federal) alerta que o Brasil tem “baixa integração às cadeias globais de valor” e é uma “economia fechada”, dependente de commodities. Apesar de cases de sucesso como Embraer e Weg, falta uma estratégia agressiva de inserção internacional.

    A taxação dos super-ricos: uma questão de equidade

    Neste contexto, a defesa da taxação de grandes fortunas por Walter Salles Jr. – ele mesmo herdeiro de uma das 50 maiores fortunas do Brasil – ecoa como um manifesto ético: “É importante corrigir as distorções de um sistema que cobra mais de quem tem menos”. Sua posição simboliza o amadurecimento de setores privilegiados que entendem que a justiça fiscal é um pilar da coesão social.


    4. Geopolítica: BRICS, China e o novo multilateralismo

    A solidariedade dos BRICS

    A resposta de Lula às tarifas não se limitou ao plano bilateral: articulou-se no âmbito dos BRICS. A China já criticou publicamente as tarifas de Trump, afirmando que “não devem ser usadas como instrumentos de coerção”. O bloco representa um contraponto ao unilateralismo estadunidense e um canal para diversificar parcerias.

    A guerra cibernética e a soberania digital

    Celso Amorim (ex-ministro da Defesa e das Relações Exteriores) lembra que o Brasil já sofreu ataques cibernéticos contra empresas e instituições de Estado. Em um mundo onde “a linha entre espionagem e guerra é tênue”, a soberania digital é um novo front de defesa nacional.


    5. Os pilares para reconstrução

    A semana que encerra expôs feridas abertas, mas também apontou caminhos:

    1. Soberania como valor absoluto: A resposta à chantagem de Trump deve ser técnica (Lei de Reciprocidade) e diplomática (articulação com BRICS).
    2. Justiça tributária como projeto nacional: A taxação de grandes fortunas, como defendida por Salles, é um passo para reduzir desigualdades históricas.
    3. Reindustrialização inclusiva: Integrar-se às cadeias globais de valor exige abrir a economia sem abdicar de políticas industriais estratégicas.
    4. Unidade democrática: A defesa das instituições – STF, TSE, Presidência – não é uma bandeira partidária, mas um imperativo cívico.

    “O Brasil é dos brasileiros” – Lula.

    Em um momento onde forças externas e internas buscam fragilizar o projeto nacional, a resposta deve ser a construção de um pacto social pela soberania, envolvendo empresários, trabalhadores e Estado. Como alertou Dirceu: “Hoje parece claro que quem está com Trump está contra o Brasil”. A semana que passou não foi apenas um teste: foi um chamado à reinvenção do Brasil como nação soberana, justa e globalmente relevante.

    REFERÊNCIAS

    DIRCEU, J. “Bolsonarismo e submissão a Trump colocam em risco a soberania nacional”. Brasil 247, 9 jul. 2025. Disponível em: https://www.brasil247.com/brasil/bolsonarismo-e-submissao-a-trump-colocam-em-risco-a-soberania-nacional-alerta-jose-dirceu. Acesso em: 11 jul. 2025.

    LULA, L. I. Reação a anúncio de tarifas de Trump. Twitter, 9 jul. 2025. Disponível em: https://iclnoticias.com.br/economia/lula-reagem-trump-tarifa-lei-brasileira/. Acesso em: 11 jul. 2025.

    SAKAMOTO, L. “Tarcísio joga institucionalidade no lixo e age como office boy de Bolsonaro”. UOL, 11 jul. 2025. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/colunas/leonardo-sakamoto/2025/07/11/tarcisio-joga-institucionalidade-no-lixo-e-age-como-office-boy-de-bolsonaro.htm. Acesso em: 11 jul. 2025.

    SPINETTO, J. P. “Ameaça tarifária de Trump pode fortalecer Lula”. Bloomberg via ICL Notícias, 11 jul. 2025. Disponível em: https://iclnoticias.com.br/economia/tarifa-trump-fortalecer-lula-spinetto/. Acesso em: 11 jul. 2025.

    LIPPI, V. “O desafio do Brasil para ser competitivo na produção global”. Poder360, 11 jul. 2022. Disponível em: https://www.poder360.com.br/opiniao/o-desafio-do-brasil-para-ser-competitivo-na-producao-global/. Acesso em: 11 jul. 2025.

    AMORIM, C. “Segurança Internacional: novos desafios para o Brasil”. Contexto Internacional, v. 35, n. 1, 2013. Disponível em: https://www.scielo.br/j/cint/a/BQqGv36X8LW7CN4tGbBRFrb/. Acesso em: 11 jul. 2025.

    SALLES, W. Discurso no Prêmio Faz a Diferença. ICL Notícias, 8 jul. 2025. Disponível em: https://iclnoticias.com.br/walter-salles-defende-taxacao/. Acesso em: 11 jul. 2025.

  • O tarifaço de Trump: agressão econômica e ofensa à soberania brasileira

    O tarifaço de Trump: agressão econômica e ofensa à soberania brasileira

    Segue uma síntese das leituras jornalísticas que fiz no calor da repercussão do injusto e equivocado “tarifaço” de Donald Trump ao Brasil. Compartilho para contribuir na sua formação de opinião.
    Levon Nascimento

    A decisão unilateral de Donald Trump de impor tarifas de 50% sobre exportações brasileiras aos EUA, anunciada em 9 de julho de 2025, transcende uma mera disputa comercial. Trata-se de uma manobra política articulada para interferir nos assuntos internos do Brasil, conforme demonstram as justificativas apresentadas pelo presidente norte-americano. Em sua carta oficial ao governo brasileiro, Trump vinculou explicitamente as tarifas ao processo judicial contra Jair Bolsonaro, classificando as investigações do STF como “caça às bruxas” e exigindo seu fim “IMEDIATAMENTE!” (CARTA CAPITAL, 2025c; BRASIL 247, 2025b). Essa intromissão descarada em nossa soberania judicial foi definida pelo ex-embaixador Rubens Ricupero como “intervenção inaceitável contra a nação brasileira” (CARTA CAPITAL, 2025b).

    A alegação de “déficits comerciais insustentáveis” apresentada por Trump colapsa ante aos dados concretos. Como destacam analistas, os EUA mantêm superávit comercial com o Brasil há 15 anos consecutivos, acumulando US$ 410 bilhões nesse período (BRASIL 247, 2025d). Só em 2025, até maio, esse saldo positivo já atingia US$ 1,6 bilhão. A incoerência revela o verdadeiro propósito: servir de instrumento de pressão para beneficiar politicamente Bolsonaro, cujo filho, Eduardo Bolsonaro, encontrava-se nos EUA durante o anúncio das tarifas (CARTA CAPITAL, 2025a).

    Economicamente, a medida afetará setores estratégicos como café (onde o Brasil fornece 8 milhões de sacas/ano aos EUA), carnes, suco de laranja e aeronaves da Embraer – esta última com 60% de suas vendas atreladas ao mercado norte-americano (CARTA CAPITAL, 2025c). Estimativas do BTG Pactual projetam perdas de US$ 7 bilhões em 2025 (0,3% do PIB), com impacto inflacionário pelo dólar a R$ 5,60 (BRASIL 247, 2025g). Contudo, a capacidade de redirecionar exportações para os BRICS e Ásia atua como amortecedor, reduzindo a vulnerabilidade brasileira.

    A resposta do governo Lula combinou firmeza diplomática e ação prática. O presidente anunciou a Lei de Reciprocidade Econômica, estabelecendo tarifas equivalentes sobre produtos norte-americanos caso a OMC não suspenda a medida trumpista (ICL NOTÍCIAS, 2025a). Paralelamente, criou um comitê empresarial para reestruturar relações comerciais e articula uma frente internacional com parceiros estratégicos (ICL NOTÍCIAS, 2025b; BRASIL 247, 2025a). Como afirmou Lula: “Não aceitamos tutela. Somos um país soberano” (ICL NOTÍCIAS, 2025c), ecoando o sentimento de setores do agronegócio que apoiam a retaliação (BRASIL 247, 2025g).

    Ironicamente, a agressividade de Trump fortaleceu a unidade nacional em torno da soberania. A deputada norte-americana Alexandria Ocasio-Cortez denunciou o ato como “corrupção descarada” ao favorecer Bolsonaro (BRASIL 247, 2025f), enquanto o STF reafirmou sua autoridade ao ignorar as pressões externas (CARTA CAPITAL, 2025d). O episódio expõe a transformação dos EUA, sob a liderança trumpista, em “adversário do Brasil“, nas palavras do ex-embaixador em Washington (CARTA CAPITAL, 2025e).

    O tarifaço consolida-se como um marco geopolítico: demonstra que o Brasil possui instrumentos para defender seus interesses e que o unilateralismo comercial gera reações coordenadas. A articulação com os BRICS e a OMC sinaliza que a era da submissão a decisões extraterritoriais chegou ao fim. Nas palavras de Ricupero, essa “agressão sem precedentes exige resposta no mesmo nível” (CARTA CAPITAL, 2025c) – resposta que o Brasil está construindo com soberania e estratégia.

    REFERÊNCIAS

    BRASIL 247. Bolsonaro se curva a Trump e justifica tarifas contra o Brasil. 2025a. Disponível em: https://www.brasil247.com/regionais/brasilia/bolsonaro-se-curva-a-trump-e-justifica-tarifas-contra-o-brasil. Acesso em: 11 jul. 2025.

    BRASIL 247. Lula critica intromissão de Trump no Brasil: “Desaforo inaceitável e inadmissível”. 2025b. Disponível em: https://www.brasil247.com/brasil/lula-critica-intromissao-de-trump-no-brasil-desaforo-inaceitavel-e-inadmissivel. Acesso em: 11 jul. 2025.

    BRASIL 247. Lula anuncia mobilização internacional para enfrentar tarifaço de Trump. 2025c. Disponível em: https://www.brasil247.com/brasil/lula-anuncia-mobilizacao-internacional-para-enfrentar-tarifaco-de-trump. Acesso em: 11 jul. 2025.

    BRASIL 247. Entidades do agro e de setores empresariais apoiam reação de Lula contra Trump. 2025d. Disponível em: https://www.brasil247.com/economia/entidades-do-agro-e-de-setores-empresariais-apoiam-reacao-de-lula-contra-trump. Acesso em: 11 jul. 2025.

    CARTA CAPITAL. Bolsonaro “sentou na boca do canhão” que apontava para Lula. 2025a. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/mundo/bolsonaro-sentou-se-na-boca-do-canhao-que-apontava-para-lula/. Acesso em: 11 jul. 2025.

    CARTA CAPITAL. Intromissão de Trump em favor de Bolsonaro é um presente eleitoral para Lula, diz Ricupero. 2025b. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/politica/intromissao-de-trump-em-favor-de-bolsonaro-e-um-presente-eleitoral-para-lula-diz-ricupero/. Acesso em: 11 jul. 2025.

    CARTA CAPITAL. Tarifa de Trump não tem precedentes e exige reação do Brasil no mesmo nível, diz Ricupero. 2025c. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/economia/tarifa-de-trump-nao-tem-precedentes-e-exige-reacao-do-brasil-no-mesmo-nivel-diz-ricupero/. Acesso em: 11 jul. 2025.

    CARTA CAPITAL. A reação do STF à defesa de Donald Trump a Jair Bolsonaro. 2025d. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/politica/a-reacao-do-stf-a-defesa-de-donald-trump-a-jair-bolsonaro/. Acesso em: 11 jul. 2025.

    CARTA CAPITAL. Descontrolado, Trump torna os EUA adversários do Brasil, diz ex-embaixador em Washington. 2025e. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/economia/descontrolado-trump-torna-os-eua-adversarios-do-brasil-diz-ex-embaixador-em-washington/. Acesso em: 11 jul. 2025.

    ICL NOTÍCIAS. Tarifaco: Lula anuncia lei de reciprocidade se OMC não agir. 2025a. Disponível em: https://iclnoticias.com.br/tarifaco-lula-lei-reciprocidade-se-omc-nao-agir/. Acesso em: 11 jul. 2025.

    ICL NOTÍCIAS. Lula anuncia comitê com empresários como resposta a Trump. 2025b. Disponível em: https://iclnoticias.com.br/lula-anuncia-comite-empresarios-resposta-trump/. Acesso em: 11 jul. 2025.

    ICL NOTÍCIAS. Lula critica tarifacos, exalta multilateralismo e diz que Brasil não aceita tutela. 2025c. Disponível em: https://iclnoticias.com.br/lula-critica-tarifacos-exalta-multilateralismo/. Acesso em: 11 jul. 2025.

  • 80 anos do fim da Segunda Guerra Mundial: lições para 2025

    80 anos do fim da Segunda Guerra Mundial: lições para 2025

    Por Levon Nascimento

    Há oito décadas, em 8 de maio de 1945, o mundo celebrava o fim do conflito mais devastador da história: a Segunda Guerra Mundial. Marcada por mais de 70 milhões de mortos, holocaustos, bombardeios atômicos e a destruição de nações inteiras, a guerra deixou cicatrizes que ainda hoje exigem reflexão. Em 2025, quando completamos 80 anos desse marco, o contexto geopolítico global parece ecoar perigosamente os erros do passado. Diante de tensões bélicas, ascensão de extremismos e crises humanitárias, quais lições podemos resgatar para evitar repetir tragédias?

    A criação da Organização das Nações Unidas (ONU), em 1945, simbolizou a esperança de que a cooperação internacional impediria novos conflitos em escala global. No entanto, como aponta o artigo “Europa se rearma, mas não se encontra” (BRASIL 247), o continente europeu, outrora pioneiro na integração pós-guerra, enfrenta hoje uma onda de rearmamento e divisões internas. A invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 e as crescentes tensões entre blocos geopolíticos revelam a fragilidade das instituições multilaterais. Como alertou o presidente Lula em discurso recente: “A paz só é possível com diálogo, nunca com mais armas” (VERMELHO, 2025).

    A ordem mundial pós-1945, construída sobre a liderança dos EUA e a cooperação transatlântica, está sob ameaça. Analistas destacam que a política externa de Donald Trump, com sua retórica isolacionista e questionamento da OTAN, desestabiliza alianças históricas. O historiador Norbert Frei afirma que a Europa, dependente da proteção americana por décadas, agora enfrenta um dilema: buscar autonomia militar ou renegociar sua relação com os EUA em bases incertas. A fala do chanceler alemão Friedrich Merz sobre a necessidade de a União Europeia “existir sem os EUA” reflete esse impasse.

    A Alemanha, principal nação responsável pelo conflito, segue lidando com o legado da guerra. Segundo reportagem do Estadão (2024), o país ainda busca restos de soldados mortos, um esforço simbólico que reflete a necessidade de enfrentar o passado. A reconciliação, porém, exige mais que gestos: demanda educação e combate ao revisionismo histórico. Como destacado no evento “80 anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial” (JUSGOV, 2025), a distorção de fatos, como a negação do Holocausto ou a glorificação de regimes totalitários, ameaça a coesão social.

    Na Rússia, o “Dia da Vitória” em 9 de maio — diferente do 8 de maio, devido ao fuso horário russo em relação ao horário da rendição alemã de 1945 — é celebrado como um marco da resistência soviética, mas também instrumentalizado para justificar ações geopolíticas atuais. Durante evento na Assembleia Legislativa de São Paulo, o embaixador russo Alexey Labestskiy enfatizou a “missão de glorificar os heróis”, enquanto críticos apontam para o risco de revisionismo que omite os crimes stalinistas.

    O genocídio de seis milhões de judeus durante a guerra permanece como um alerta sobre as consequências da intolerância. Contudo, como questiona o artigo “O Holocausto justifica um novo Holocausto?”, do sociólogo Jessé Souza (ICL NOTÍCIAS, 2024), instrumentalizar essa tragédia para legitimar violências atuais — como o genocídio em Gaza pelo governo sionista de Israel — é um erro grotesco. A lição do Holocausto não é a de que “um povo deve sofrer para que outro sobreviva”, mas sim a de que a desumanização do outro é o primeiro passo para a barbárie.

    Em 2025, essa reflexão é urgente, principalmente diante de discursos que normalizam a violência étnica. A retórica expansionista de Trump, que sugere anexar territórios como a Groenlândia ou o Canadá, e a invasão russa da Ucrânia violam o princípio pós-1945 de integridade territorial. Como alerta Stefan Wolff, da Universidade de Birmingham, a erosão das normas internacionais abre espaço para que potências alterem fronteiras pela força, replicando os erros do passado.

    A Guerra Fria (1947-1991) dividiu o mundo em blocos liderados por EUA e URSS. Hoje, a bipolaridade ressurge com EUA e China, enquanto a Rússia busca reafirmar influência. A guerra comercial de Trump contra a China, porém, paradoxalmente fortalece Pequim como alternativa econômica para aliados europeus e asiáticos. Elisabeth Braw, do Atlantic Council, destaca que a China emerge como “país responsável” em contraste com a política protecionista americana.

    Para o Brasil, a nova ordem traz desafios. Com forças armadas que se deixaram auto-desmoralizar pela tentativa de golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023, e dependência de rotas marítimas controladas por potências, o país enfrenta dilemas sobre sua soberania, especialmente em relação à Amazônia. A pergunta do articulista da DefesaNet — “seremos senhores ou vassalos?” — ecoa a necessidade de uma estratégia clara em um mundo onde “a lei do mais forte” parece retornar.

    Os 80 anos do fim da Segunda Guerra Mundial coincidirão com um cenário de incertezas: guerras na Europa e no Oriente Médio, polarização ideológica e mudanças climáticas. No entanto, a história nos oferece um guia. Como escreveu o filósofo George Santayana, “aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo”.

    Além de tudo isso, duas outras guerras são travadas pela humanidade: a degradação ambiental sem precedentes e as mudanças climáticas provocadas pela ação dos sistemas econômicos humanos no chamado antropoceno. Tanto quanto o nazifascismo provocou a Segunda Guerra Mundial, os negacionismos ambientais e climáticos atuais podem ter efeito ainda mais devastadores sobre o planeta.

    A lição central para 2025 é clara: ou investimos em diplomacia, justiça social, preservação da memória e cumprimento das metas ambientais-climáticas, ou permitiremos que o ciclo de violência se perpetue. A ordem pós-1945, embora imperfeita, evitou guerras globais por décadas. Sua erosão, acelerada por nacionalismos e alianças voláteis, nos coloca à beira de um precipício. Como alertam historiadores, a atual turbulência lembra os anos entre 1914 e 1939, quando a incapacidade de diálogo levou ao colapso. A escolha, como em 1945, ainda é nossa.

    Referências citadas

    BBC. As 4 mudanças de Trump que estão criando uma nova ordem mundial. 2025. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cj68rxg28j1o. Acesso em: 7 maio 2025.
    BRASIL 247. Europa se rearma, mas não se encontra. 2025. Disponível em: https://www.brasil247.com/blog/europa-se-rearma-mas-nao-se-encontra. Acesso em: 7 maio 2025.
    DEFESANET. 2025 – o Ano D – Trump, Putin, o Brasil e a nova ordem internacional. 2025. Disponível em: https://www.defesanet.com.br/ecos/apos-80-anos-a-ordem-mundial-do-pos-guerra-esta-desabando/. Acesso em: 7 maio 2025.
    DEUTSCHE WELLE. Ordem mundial do pós-guerra se esfacela, 80 anos depois. 2025. Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/ap%C3%B3s-80-anos-a-ordem-mundial-do-p%C3%B3s-guerra-est%C3%A1-desmoronando/a-72416053. Acesso em: 7 maio 2025.
    ESTADÃO. 80 anos após a 2ª Guerra Mundial, Alemanha ainda procura por soldados mortos. 2024. Disponível em: https://www.estadao.com.br/internacional/80-anos-apos-a-2-guerra-mundial-alemanha-ainda-procura-por-soldados-mortos/. Acesso em: 7 maio 2025.
    ICL NOTÍCIAS. O Holocausto justifica um novo Holocausto? 2024. Disponível em: https://iclnoticias.com.br/o-holocausto-justifica-um-novo-holocausto/. Acesso em: 7 maio 2025.
    JUSGOV. 80 anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial. 2025. Disponível em: https://www.jusgov.uminho.pt/pt-pt/event/80-anos-depois-do-fim-da-segunda-guerra-mundial/. Acesso em: 7 maio 2025.
    UOL NOTÍCIAS. Ordem mundial do pós-guerra se esfacela 80 anos depois. 2025. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/deutschewelle/2025/05/03/ordem-mundial-do-pos-guerra-se-esfacela-80-anos-depois.htm. Acesso em: 7 maio 2025.
    VERMELHO. Lula, Xi e Putin celebram os 80 anos da vitória na 2ª Guerra Mundial. 2025. Disponível em: https://vermelho.org.br/2025/05/06/lula-xi-e-putin-celebram-os-80-anos-da-vitoria-na-2a-guerra-mundial/. Acesso em: 7 maio 2025.

  • A violência da extrema-direita no Brasil

    A violência da extrema-direita no Brasil

    Nos últimos anos, o Brasil tem visto o crescimento preocupante do extremismo de direita, que usa a violência como ferramenta política e espalha discursos de ódio para conquistar e manter poder.

    Episódios como o assassinato de Marcelo Arruda por um bolsonarista em 2022 e os ataques de 8 de janeiro de 2023 mostram que esse extremismo deixou de ser apenas discurso para se tornar uma ameaça real. Por trás desses eventos, há uma rede que alimenta o medo, espalha desinformação e incentiva a violação dos direitos humanos.

    Esse movimento raivoso não surgiu do nada. Ele é resultado de problemas históricos e estruturais, como a herança autoritária da ditadura militar, a desigualdade social e a sensação de injustiça que leva parte da população a buscar soluções radicais.

    O bolsonarismo é só uma parte desse problema maior, refletindo como alguns grupos canalizam suas frustrações culpando minorias, movimentos sociais e a própria democracia (TELLES, 2023).

    As redes sociais têm um papel central nesse processo, servindo como palco para a propagação de fake news e discursos de ódio, que acabam resultando em ataques contra LGBTQIA+, indígenas e militantes de esquerda (BRASIL DE FATO, 2024).

    O discurso religioso ao pé-da-letra dos textos sagrados, sem exegese, também tem sido usado para fortalecer essa intolerância. Alguns influenciadores da religião ajudam a espalhar mensagens fundamentalistas que incentivam homofobia, misoginia e até feminicídio (OBSERVATÓRIO DO EXTREMISMO RELIGIOSO, 2023).

    A violência política se tornou uma realidade assustadora. O caso de Marcelo Arruda, assassinado por um bolsonarista que gritava o nome do ex-presidente, é um símbolo do perigo dessa radicalização.

    Quando políticos e líderes religiosos defendem frases como “bandido bom é bandido morto” ou “a mulher deve obediência ao homem”, eles estão dando aval para linchamentos e assassinatos, perpetuando um ciclo de violência que muitas vezes fica impune (UNESP, 2023).

    Os ataques de 8 de janeiro de 2023, com a invasão do Congresso e do STF, mostram que esses grupos não respeitam a democracia. Para eles, o sistema democrático é um obstáculo a ser destruído pela força. O discurso de “lei e ordem” que defendem, na prática, só protege os mais privilegiados enquanto comunidades marginalizadas sofrem com violência policial e criminalização de movimentos sociais.

    A mídia e outras instituições também têm sua parcela de responsabilidade. Durante muito tempo, o extremismo de direita foi tratado como “opinião polêmica”, em vez de ser denunciado como uma ameaça real. Quando Bolsonaro exaltava torturadores ou espalhava desinformação sobre vacinas, parte da imprensa minimizava essas falas como “exageros”, contribuindo para a normalização do ódio (BBC, 2022). Enquanto isso, empresários financiavam acampamentos golpistas, igrejas espalhavam teorias da conspiração e setores da polícia agiam com viés político, aprofundando a crise.

    Para mudar esse cenário, é preciso agir em várias frentes. Primeiro, responsabilizar os financiadores e organizadores da violência, indo além dos executores diretos para investigar os mandantes. Segundo, investir na educação: as escolas devem ensinar sobre direitos humanos, combater o racismo e capacitar os jovens a identificar fake news. Por fim, o combate ao extremismo deve envolver toda a sociedade, não só a esquerda e os movimentos sociais, mas também líderes religiosos, artistas e políticos moderados.

    Ignorar o extremismo é um risco grave. Se não enfrentarmos essa realidade agora, mais vidas serão perdidas e nossa democracia ficará ainda mais fragilizada. O assassinato de Marcelo Arruda é um lembrete doloroso de que o ódio político pode matar. A resposta deve ser a união e a coragem para construir um Brasil onde todos possam viver com dignidade, respeito e segurança.


    Referências

    BRASIL DE FATO. Como vivem os monstros: um panorama da extrema direita. Brasil de Fato, 26 jan. 2024. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2024/01/26/como-vivem-os-monstros-um-panorama-da-extrema-direita/. Acesso em: 28 mar. 2025.

    BBC NEWS BRASIL. Como discursos de ódio e ataques a instituições foram minimizados antes das eleições de 2022. BBC, 2022. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c8xp9l4qxxjo. Acesso em: 28 mar. 2025.

    FUNDAÇÃO HEINRICH BÖLL. Bolsonarismo e extrema direita no Brasil: uma reflexão sobre origens e destinos. Boletim Brasil, 18 jul. 2023. Disponível em: https://br.boell.org/pt-br/2023/07/18/bolsonarismo-e-extrema-direita-no-brasil-uma-reflexao-sobre-origens-e-destinos. Acesso em: 28 mar. 2025.

    INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS (IHU). “Há uma demanda no Brasil por extremismos de direita que é maior que o bolsonarismo”. Entrevista especial com Pedro Telles. IHU, 2023. Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/159-entrevistas/645918-ha-uma-demanda-no-brasil-por-extremismos-de-direita-que-e-maior-que-o-bolsonarismo-entrevista-especial-com-pedro-telles. Acesso em: 28 mar. 2025.

    OBSERVATÓRIO DO EXTREMISMO RELIGIOSO. Discurso e Violência: a Face do Extremismo Religioso no Brasil. Observatório do Extremismo Religioso, 2023. Disponível em: http://www.observatorioextremismoreligioso.org/2023/discurso-e-violencia. Acesso em: 28 mar. 2025.

  • Escola, Democracia e Igualdade: Os riscos do homeschooling para o futuro do Brasil

    Escola, Democracia e Igualdade: Os riscos do homeschooling para o futuro do Brasil

    A Constituição de 1988 garante que a educação é um direito de todos e um dever do Estado e da família, ajudando no desenvolvimento integral das pessoas e preparando-as para a vida em sociedade e para o trabalho. Nesse cenário, o homeschooling – ou ensino em casa – é apresentado como uma “liberdade educacional”. Mas, por trás dessa ideia, existem riscos sérios para a socialização das crianças, a sua proteção e até para o funcionamento do nosso Estado Democrático de Direito.

    A nossa Constituição fala sobre a importância de uma educação que envolva toda a sociedade, mostrando que a escola é um espaço coletivo e plural. Em 2018, o Supremo Tribunal Federal (STF) deixou claro que o ensino domiciliar não é um direito garantido automaticamente, e que o Congresso precisa regulamentar essa prática – algo que ainda não aconteceu. Enquanto isso, as famílias que optam por esse modelo podem até ser acusadas de “abandono intelectual”, já que a lei atual exige que as crianças estejam matriculadas em uma escola reconhecida.

    Especialistas apontam que, sem regras definidas, fica mais fácil que conteúdos inadequados sejam ensinados em casa – seja a negação de fatos científicos ou doutrinação religiosa – o que contraria a ideia de um Estado laico. Mesmo quando se cita a Declaração Universal dos Direitos Humanos para defender o homeschooling, isso não tira a responsabilidade do Estado de garantir uma educação com padrões universais.

    Vários educadores e organizações, como o Movimento Todos pela Educação, defendem que a escola é um espaço único onde as crianças entram em contato com diferentes pessoas, culturas e ideias. Tirar esse ambiente do cotidiano dos pequenos pode aumentar o risco de isolamento, dificultar a identificação de situações de violência doméstica – que muitas vezes passam despercebidas – e limitar o desenvolvimento do senso crítico.

    Durante a pandemia, por exemplo, o aumento das denúncias de abuso contra crianças mostrou que nem sempre a casa é um lugar seguro. Além disso, professores e especialistas apontam que o homeschooling pode aprofundar as desigualdades, já que ele demanda recursos financeiros e culturais que muitas famílias, especialmente em um país onde uma grande parte das crianças vive na pobreza, não possui.

    Há também a questão de que o ensino domiciliar muitas vezes sugere que “qualquer pessoa com ensino superior” possa ensinar, ignorando a complexidade e a importância do papel dos professores. Esses profissionais não apenas transmitem conhecimento, mas também ajudam a resolver conflitos, incluem alunos com necessidades especiais e estimulam o pensamento crítico.

    Sem uma grade curricular bem definida, o ensino em casa pode acabar fragmentando o conhecimento, privilegiando visões pessoais e limitadas. Em alguns casos nos Estados Unidos, por exemplo, já foram registrados episódios em que determinados temas – como a evolução biológica ou aspectos importantes da história – foram omitidos, o que representa um retrocesso, especialmente num país que ainda luta contra discursos anticientíficos.

    Outro ponto crucial a ser considerado é que a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) estabelece as competências e habilidades essenciais para todos os estudantes brasileiros. Essa padronização, que visa garantir um ensino de qualidade e equitativo, só pode ser assegurada por meio do ambiente escolar, onde há uma estrutura formal de ensino, fiscalização e suporte pedagógico. No contexto do homeschooling, a descentralização e a ausência de regulação efetiva colocam em risco o cumprimento integral dos requisitos da BNCC, podendo comprometer a formação crítica dos alunos e sua preparação para os desafios contemporâneos.

    Muitas vezes, o homeschooling está ligado a grupos religiosos que preferem uma educação alinhada com suas crenças e que não abre espaço para a diversidade de ideias. O próprio STF já alertou que o Estado não pode se sujeitar a projetos que impõem visões religiosas na educação. Quando os pais escolhem ensinar os filhos de acordo com suas crenças, sem a presença de outras perspectivas, eles correm o risco de ferir o princípio da neutralidade do Estado e, por consequência, comprometer a educação pública.

    O ensino domiciliar não resolve os problemas que enfrentamos na educação brasileira. Pelo contrário, ele pode aumentar as desigualdades e os riscos para as crianças. É fundamental que as crianças tenham a oportunidade de crescer e aprender em um ambiente onde possam interagir com diferentes pessoas e ideias, de forma estruturada e alinhada com a BNCC. Investir na escola pública, melhorar a formação dos professores e combater a evasão escolar são medidas essenciais para garantir que a educação continue sendo um direito de todos – um pilar da nossa democracia e do nosso futuro coletivo.

  • Análise: Por que Bolsonaro é réu e deve ser preso?

    Análise: Por que Bolsonaro é réu e deve ser preso?

    A decisão unânime do Supremo Tribunal Federal (STF) de tornar Jair Bolsonaro réu por tentativa de golpe de Estado, organização criminosa e atentado à democracia não é um capricho político. Trata-se do resultado de uma investigação com provas sólidas, que revelam um plano estruturado para desestabilizar as instituições. O ex-presidente não apenas levantou dúvidas sobre as urnas eletrônicas, mas também incentivou e coordenou ações para alimentar insurreições e dificultar a transição de poder após sua derrota em 2022.

    Os documentos analisados pelo STF e pela Procuradoria-Geral da República (PGR) mostram que Bolsonaro e aliados promoveram reuniões com militares para espalhar a falsa narrativa de fraude eleitoral, sem apresentar qualquer evidência. O ministro Alexandre de Moraes, ao aceitar a denúncia, foi direto: havia uma “intenção explícita de golpe”. Isso incluiu um “decreto ilegal” para interferir no processo eleitoral e a mobilização de grupos radicais, culminando nos ataques de 8 de janeiro de 2023.

    A CPMI dos Atos Golpistas reforçou essa tese, apontando que o objetivo era criar um clima de caos para justificar uma intervenção militar. Como explicou o jurista Carlos Ari Sundfeld ao ICL Notícias, “as provas são contundentes: há registros de reuniões, mensagens e documentos que comprovam a coordenação entre o núcleo bolsonarista e grupos que vandalizaram as sedes dos Três Poderes”.

    A Primeira Turma do STF, composta por ministros de diferentes perfis ideológicos, tomou uma decisão unânime, o que mostra a força do caso. Em seu voto, a ministra Cármen Lúcia ressaltou que “a democracia não se negocia: ou se defende ou se perde”. Já Flávio Dino, ao apoiar a denúncia, lembrou que “golpe de Estado mata”, alertando para os riscos da violência política.

    A unanimidade também desmonta a tese de “perseguição”. Como destacou a CartaCapital, Bolsonaro passou de “incentivador de golpistas a réu” em 838 dias, um percurso traçado por suas próprias escolhas. Até mesmo antigos aliados, segundo o Brasil 247, admitiram em delações que a intenção era “criar condições para uma ruptura”.

    Curiosamente, algumas defesas dos acusados já não negam a existência de um plano golpista. Advogados citados pelo Brasil 247 reconhecem que “houve articulação, mas não consumação”, tentando minimizar as penas. Esse argumento, no entanto, só reforça a tese da acusação: a tentativa de golpe já configura crime.

    Lá fora, a repercussão tem sido intensa. Bolsonaro buscava apoio de figuras como Donald Trump, mas acabou constrangido. Em artigo no UOL, Leonardo Sakamoto lembrou que Trump “constrangeu Bolsonaro ao validar as urnas que ele tanto atacou”, esvaziando o principal argumento da suposta fraude.

    A questão agora não é apenas jurídica, mas também ética e política. Se a Justiça reconhece que um ex-presidente atentou contra a democracia, permitir sua impunidade abriria um precedente perigoso. Como alertou o ministro Alexandre de Moraes, “a organização criminosa não se dissolve sozinha”. A prisão de Bolsonaro não seria uma vingança, mas uma forma de garantir que novos ataques à ordem constitucional não se repitam.

    Além disso, a sociedade brasileira, que viu tanques nas ruas e discursos inflamados, precisa acreditar que a lei se aplica a todos. Como escreveu Reinaldo Azevedo no UOL, “Bolsonaro encontrou o destino que escolheu”. Se a democracia deve ser protegida, isso inclui consequências para quem tentou destruí-la.

    Num país com um passado marcado por autoritarismo, prender um ex-presidente golpista não é apenas uma questão de justiça, mas um sinal claro de que o Brasil não aceita mais aventuras contra a Constituição. O STF, ao menos desta vez, parece disposto a deixar esse recado na história.

  • A retomada do emprego formal no Brasil sob o 3º Governo Lula

    A retomada do emprego formal no Brasil sob o 3º Governo Lula

    Os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED), consolidados entre 2023 e 2024, revelam um cenário promissor para o mercado de trabalho brasileiro: 2,1 milhões de empregos formais criados nesse período, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego. Esse resultado, que inclui uma média mensal de 87,5 mil vagas com carteira assinada, reflete a recuperação econômica sustentada e a eficácia de políticas públicas focadas na geração de emprego, na reindustrialização e na redução das desigualdades regionais.

    Em 2023, primeiro ano do terceiro governo Lula, o país gerou 1,483 milhão de postos formais, o melhor desempenho desde 2010, excluindo o ano atípico de 2021 (pós-flexibilização da pandemia). Em 2024, apesar de um contexto global desacelerado, o Brasil manteve a trajetória positiva, com 618 mil vagas criadas apenas nos primeiros sete meses (até julho), projetando um total anual próximo a 1 milhão. Tais números consolidam uma reversão clara da estagnação do período 2016-2022, quando a taxa média de desemprego atingiu 12,5% e o emprego formal cresceu apenas 0,7% ao ano.

    A análise setorial mostra avanços em áreas prioritárias para o governo. A indústria de transformação, por exemplo, registrou 192 mil novos empregos em 2023, o maior saldo desde 2013, graças a incentivos fiscais e ao Programa Brasil Produtivo, que modernizou parques industriais. O setor de serviços, responsável por 60% das contratações, expandiu-se com políticas de crédito a micro e pequenas empresas, como o Simples Nacional Reforçado. Já a construção civil, impulsionada pelo Programa Minha Casa, Minha Vida e por obras de infraestrutura em regiões periféricas, gerou 122 mil vagas em 2023.

    Regionalmente, destaca-se o Nordeste, que concentrou 23% das contratações formais em 2023 (340 mil empregos), impulsionado por investimentos em energia eólica e solar e pelo retorno de obras como a Transposição do São Francisco. A região Norte, por sua vez, teve crescimento de 9% no emprego formal em 2024, vinculado ao plano Amazônia Sustentável, que combina preservação ambiental e geração de renda.

    O governo Lula priorizou a recomposição de políticas abandonadas nos anos anteriores, como o fortalecimento do Salário Mínimo (reajustado acima da inflação em 2023 e 2024) e a ampliação do Bolsa Família, que retirou 4 milhões de pessoas da extrema pobreza e estimulou o consumo em economias locais. Além disso, a retomada de investimentos públicos em infraestrutura (R$ 300 bilhões previstos no PPI 2023-2026) e a reativação de câmaras setoriais com sindicatos e empresários foram decisivas para reaquecer a confiança e o emprego.

    Programas como Qualifica Brasil, que capacitou 1,2 milhão de trabalhadores para setores tecnológicos entre 2023 e 2024, e o Pró-Indústria, que destinou R$ 50 bilhões à inovação industrial, mostram que é possível conciliar produtividade e inclusão.

    Os números do CAGED comprovam que, quando o Estado atua com planejamento e foco social, o mercado de trabalho responde. Para milhões de brasileiros, esses empregos significam acesso a direitos trabalhistas, previdência e dignidade. O terceiro Governo Lula demonstra que a retomada do desenvolvimento passa necessariamente pela valorização do trabalho e pela redução das assimetrias regionais. O caminho é longo, mas os dados recentes indicam que o Brasil está, finalmente, recalculando sua rota.


    Fontes consultadas

    • Ministério do Trabalho e Emprego: Relatórios do CAGED (2023-2024).
    • IBGE: Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) – 2023-2024.
    • Portal da Transparência: Investimentos do PPI (Plano Parcerias e Investimentos).
    • Políticas públicas citadas: Programas federais em vigor no período (ex: Brasil Produtivo, Qualifica Brasil).
  • Contra a anistia para salvar a democracia

    Contra a anistia para salvar a democracia

    Anistiar (perdoar os crimes d)os envolvidos nos atos de 8 de janeiro de 2023 não é, no mínimo, uma medida de justiça restaurativa – é um risco direto à manutenção do Estado Democrático de Direito. Nos debates recentes, renomados juristas e especialistas em Direito vêm apontando argumentos contundentes contra essa proposta, que, se aprovada, representaria não só um retrocesso jurídico, mas também um incentivo perigoso à impunidade.

    Punição da tentativa de golpe como pilar da Democracia

    Um dos argumentos centrais é o de que a punição para a tentativa de golpe é indispensável. Afinal, se um golpe se efetivasse, o país perderia os alicerces da ordem democrática e as instituições responsáveis pela proteção dos direitos fundamentais deixariam de existir. Assim, ao não punir aqueles que tentaram derrubar a ordem constitucional, abre-se um precedente que pode comprometer a própria existência do Estado Democrático de Direito.

    Coerência constitucional e a proteção das instituições

    Diversas personalidades do Direito ressaltam que crimes contra a ordem democrática não podem ser tratados com leviandade. A professora Eloísa Machado de Almeida, da FGV, por exemplo, defende que a Constituição, ao impedir a anistia para crimes contra as instituições fundamentais do país, mantém a coerência interna do ordenamento jurídico – princípio que garante que ninguém possa ser perdoado por ter atentado contra a própria existência do Estado. De forma similar, a jurista Tânia Maria de Oliveira, da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia, alerta que conceder anistia seria uma invasão das competências do Judiciário, ao desviar a responsabilidade de julgar e condenar os atos antidemocráticos para o âmbito puramente político.

    Incentivo à impunidade e o perigo dos precedentes

    Outro ponto levantado é que liberar os condenados – ou mesmo atenuar suas penas por meio da anistia – envia uma mensagem perniciosa: a de que atos violentos e antidemocráticos podem ser praticados sem consequências reais. O ministro Alexandre de Moraes já afirmou que “um criminoso anistiado é um criminoso impune”. Essa impunidade não só fragiliza o respeito às leis, mas também pode inspirar futuras tentativas de golpe, pois demonstra que o ataque às instituições pode, eventualmente, sair sem a devida sanção.

    Risco de erosão da confiança nas instituições

    Por fim, a própria liberação dos responsáveis pelos atos de 8 de janeiro pode comprometer a confiança da sociedade nas instituições democráticas. O professor João Feres Júnior, do IESP-UERJ, destacou que a libertação dos radicais presos não promove pacificação, mas sim sinaliza que é possível subverter as estruturas do Estado sem enfrentar as consequências necessárias. Esse risco de abrir precedentes perigosos é, sem dúvida, um dos maiores entraves para o fortalecimento da democracia.

    Conceder anistia aos envolvidos nos ataques de 8 de janeiro é, portanto, muito mais do que uma questão política – trata-se de defender, de forma intransigente, o próprio princípio de que a democracia exige respeito irrestrito às suas instituições. Ao perdoar a tentativa de golpe, estaríamos abrindo caminho para que a violência e o autoritarismo sejam normalizados, fragilizando o Estado e colocando em risco todos os avanços democráticos conquistados. Manter a punição rigorosa para tais atos é indispensável para assegurar que a democracia brasileira continue sendo um regime de direitos e garantias fundamentais, onde a lei prevaleça acima de interesses políticos momentâneos.

  • Café caro mesmo com inflação mais baixa em janeiro: entenda tecnicamente o motivo

    Café caro mesmo com inflação mais baixa em janeiro: entenda tecnicamente o motivo

    Por Levon Nascimento

    O café, símbolo cultural e econômico do Brasil, está até no brasão das armas nacionais, enfrenta uma disparada de preços histórica. Em janeiro de 2025, o produto atingiu o maior valor em 28 anos, com a saca de 60 kg de arábica chegando a R$ 2.750 em algumas regiões. Enquanto isso, o consumidor brasileiro viu o preço do pacote de 1 kg subir quase 50% em 12 meses. Mas o que está por trás desse cenário? E por que outros alimentos também encareceram, mesmo com a inflação geral de alimentos desacelerando para 0,96% em janeiro, a menor desde a criação do Plano Real?

    1. Clima adverso: o maior vilão das lavouras

    Os eventos climáticos extremos são o ponto de partida para entender a crise. Secas prolongadas e ondas de calor nos estados produtores (como Minas Gerais e São Paulo) prejudicaram a floração e o desenvolvimento dos grãos. Em 2024, a produção brasileira caiu para 54 milhões de sacas, contra 63 milhões em 2020. As plantas, sob estresse, “abortaram” frutos para economizar energia, reduzindo a colheita. Além disso, geadas históricas em 2021 e o fenômeno El Niño em 2024 agravaram os danos, afetando também o Vietnã (2º maior produtor global) e a Indonésia, que dependem do café robusta.

    2. Custos de produção e logística: a conta que chega ao consumidor

    A desvalorização do real frente ao dólar encareceu insumos como fertilizantes e defensivos agrícolas, essenciais para o cultivo. Somam-se a isso os custos de transporte: conflitos no Oriente Médio elevaram o preço dos contêineres e obrigaram rotas alternativas, aumentando o tempo de entrega em até 20 dias. No Brasil, portos defasados dificultam a exportação, gerando gargalos.

    3. Demanda global em alta: o mundo quer mais café

    Enquanto o consumo interno cresceu modestamente (1,1% em 2024), a demanda internacional explodiu. A China, por exemplo, saltou da 20ª para a 6ª posição entre os maiores importadores de café brasileiro, impulsionada por cafeterias como a Luckin Coffee, que tem 9.300 lojas no país. A Europa, responsável por 30% do consumo mundial, também aumentou as compras, pressionando os estoques globais, que devem atingir o menor nível em 25 anos.

    4. Exportações em ritmo recorde: o agronegócio prioriza o mercado externo

    Com os preços internacionais em alta (o café arábica ultrapassou US 4 por libra em 2025),os produtores brasileiros estão vendendo mais para fora. Em 2024, as exportações bateram recorde: 50 milhões de sacas, gerando US 4 por libra em 2025),gerando US 12,5 bilhões em receita. Para muitos agricultores, vender 30% da produção já cobre os custos, incentivando a priorização do mercado externo. Isso reduz a oferta interna, elevando os preços domésticos.

    5. Inflação menor, mas pressionada por alimentos

    Apesar da desaceleração da inflação geral em janeiro (0,96%), puxada por quedas no leite e batata, o café continuou subindo (+8,56% no mês). O fenômeno reflete uma tendência global: commodities agrícolas como cacau e suco de laranja também tiveram altas significativas, contribuindo para o “efeito colateral” do sucesso do agronegócio exportador.

    6. Consequências para o consumidor e perspectivas

    Enquanto o café servido em bares subiu 10,49% em 12 meses, o produto vendido em supermercados teve alta de 50,35%. A indústria ainda não repassou todos os custos aos preços, o que indica mais ajustes em 2025. Para economizar, especialistas sugerem comprar a granel, aproveitar promoções e reduzir desperdícios.

    A esperança de alívio está na próxima safra, prevista para abril/maio, mas as projeções são cautelosas: a produção de 2025 deve ser 4,4% menor que a anterior. Enquanto isso, o Brasil segue colhendo os frutos (amargos para o consumidor interno e doces para o grande agronegócio) de ser o maior exportador global de café.

    Fontes: Dados do Cepea, Conab, Abic e relatórios da Organização Internacional do Café (OIC).

  • A prisão do general de Bolsonaro

    A prisão do general de Bolsonaro

    Para que serve um general? Em tese, para liderar as forças armadas de seu país contra perigos externos, que ameacem o seu povo.

    Do que é acusado o general Braga Netto, ex-candidato a vice de Bolsonaro, preso hoje? De planejar: golpe de Estado, que mataria a liberdade democrática de sua própria Pátria, e o assassinato do presidente eleito Lula, do vice-presidente eleito Alckmin e do ministro-presidente da Justiça Eleitoral Alexandre de Morais.

    Em vez de defender a todos os brasileiros, independentemente da opção político-partidária destes, como é o dever de um general, Braga Netto preferiu atacar uma parte considerável dos seus próprios compatriotas, que elegeram Lula em 2022, mas que tinham escolhido Bolsonaro em 2018, como acontece nas democracias.

    O general teria praticado esses crimes porque não concordava em ter perdido a eleição presidencial? Obviamente, não se justifica. Na democracia, a guerra se resolve na política. Quem ganha, governa. Quem perde, vira oposição. Quatro anos depois, o quadro pode se inverter. E assim, sucessivamente. Não há espaço para golpes e assassinatos.

    Enfim, se tivesse dado certo o plano do general Braga Netto, estaríamos em uma ditadura. Perderíamos o direito de manifestar e votar. Pessoas como você e eu, hoje, talvez estivéssemos em prisões, sendo torturadas, ou até mesmo mortas. Por qual crime? Nenhum. Apenas pelo fato de termos posições políticas diferentes das do modo como pensa a extrema-direita.

    Entendeu o risco e o perigo? Por isso, atitudes como a de Braga Netto e seus comparsas devem ser combatidas com a lei. Nada contra os militares honestos, que cumprem o seu papel constitucional.

  • Balanço de 2024

    Balanço de 2024

    * Levon Nascimento

    O trabalhador mais explorado se vê como o “empreendedor” que, “ao se esforçar muito (ser explorado por um patrão anônimo) e mudar o mindset (mentalidade )”, se tornará o “vencedor”, consumidor de neo-bugigangas com obsolescência programada.

    Saíram vitoriosos os discursos dos coaches, o individualismo extremo, que nega a solidariedade entre os iguais e estimula a rivalidade entre “as inimigas invejosas”, a heresia da Teologia da Prosperidade e a religião de mercado.

    Falar a essas pessoas sobre direitos humanos básicos, meio ambiente e crise climática, cidadania, democracia, coletividade, garantias fundamentais e consciência de classe não encontra mais eco e significado em seus cotidianos.

    Some-se a isso o dinheiro do Orçamento Secreto nas campanhas das direitas locais, a burocratização da utopia nos governos de esquerda, as oligarquias de mandatos dentro do PT e a sabotagem à militância histórica, como correu conosco aqui em Taiobeiras, e tem-se o quadro de derrota das pautas e candidaturas progressistas.

    Isso explica as vitórias eleitorais e anti-civilizatórias, avassaladoras, da centro-direita e, relativas, da extrema-direita.