Tag: Brasil

  • É preciso apontar para a esperança

    É preciso apontar para a esperança

    * Levon Nascimento

    Em 15 de junho de 2024, participei do Encontro Municipal do Partido dos Trabalhadores em Taiobeiras, no qual foi oficializada a Federação Brasil da Esperança no município, junto com o Partido Verde, para as eleições proporcionais.

    No mesmo evento, mulheres e homens da classe trabalhadora apresentaram as suas pré-candidaturas a vereadora, vereador e prefeito, para o pleito de 2024.

    Perguntei-me, no íntimo, o que de fato fazíamos ali. O que significa a nossa luta neste mundo de hoje?

    Enquanto…

    1. o governo de extrema-direita de Israel mata milhares de vidas palestinas, especialmente crianças, idosos e mulheres;
    2. Trump, com seu discurso negacionista, racista e xenófobo, lidera as pesquisas de intenção de votos para a presidência dos Estados Unidos;
    3. a extrema-direita europeia, anti-imigração, anti-negros e anti-latinos, faz barba, cabelo e bigode nas eleições parlamentares da União Europeia;
    4. as mudanças climáticas provocam, em todo o planeta, dilúvios bíblicos e secas homéricas, calor excessivo e derretimento das geleiras, desabrigados ambientais e desequilíbrios econômicos crescentes, com efeitos devastadores aos países do Sul global e às populações mais pobres do mundo;
    5. no Brasil, o nazifascismo bolsonarista continua popular e impune, apesar do genocídio de 700 mil vidas perdidas pela negligência na pandemia, da tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023 e da corrupção concreta e ideológica que propagou nos infernais quatro anos de Bolsonaro na presidência;
    6. o agronegócio, a mineração predatória e o desmatamento para fins econômicos continuam a envenenar o solo e as águas, aprovando mais e mais agrotóxicos; matando indígenas e grilando terras; apoiando o armamentismo e financiando o processo de ignorância cultural do povo brasileiro;
    7. a alienação religiosa e cultural leva dominados a emularem o papel dos dominadores; a explorados sem consciência da exploração; aos pobres negando os próprios direitos e destruindo suas próprias identidades étnicas e culturais;
    8. Artur Lira e seu bando, hipócritas, usam o nome de Deus para proteger estupradores, atacam o direito das mulheres sobre o arbítrio do próprio corpo e chantageiam o Governo democraticamente eleito pela maioria dos brasileiros;
    9. Em Taiobeiras, muitos perderam a vontade de decidir sobre o seu próprio destino, terceirizando a uma elite – que já se bastou a si própria e perpetuou-se no tempo – o poder de comandar os rumos da coletividade.

    O que nós, da classe trabalhadora, fazemos na luta política diante de todo esse enredo maligno?

    Não tenho respostas prontas para a pergunta que me fiz. Mas, admito suposições. Suponho que, fazendo mais do mesmo não teremos realidade novas.

    É preciso que rompamos com a sociedade que se acomodou com o discurso dos “especialistas em coisa nenhuma”, dos coaches de mensagens sentimentalistas e vazias e dos mascates da fé.

    Mais do que eleições, miremos na formação do povo e na superação do individualismo. É pela cultura que renovaremos a esperança da nossa gente por justiça social e inclusão humana.

    Vencer uma eleição é necessário. Porém, mais do que um mandato, necessitamos de refundar o caráter antissistêmico da esquerda política. Não dá mais para nos conformarmos com a falácia de que o capitalismo é o fim da história. Temos de descortinar o dia posterior, a luz no fim do túnel, a esperança em vez do “é assim mesmo”.

    É urgente apontar à esperança!

    * Professor de História. Graduado em Ciências Sociais pela Unimontes. Mestre em Estado, Governo e Políticas Públicas pela Flacso/Fundação Perseu Abramo. Doutorando em Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável pela Escola Superior Dom Helder Câmara. Pré-candidato a Prefeito de Taiobeiras.

  • Com o que deveremos nos preocupar nas eleições municipais?

    Com o que deveremos nos preocupar nas eleições municipais?

    * Levon Nascimento

    O Governo do Presidente Lula tem feito o dever de casa daquilo que lhe compete, apesar da gritaria da mídia alinhada ao mercado financeiro, da óbvia oposição de extrema-direita ou da sabotagem do chamado “centrão”. Uso das palavras do jornalista Mario Vitor Santos, colunista do Brasil 247, em artigo de 04/06/2024: “um governo com emprego beirando recorde histórico, inflação em queda e salários em recuperação”.

    É claro que temáticas artificiais e inócuas, produzidas pelas usinas de fake news e besteirol, a serviço de interesses in(confessos) dos liberais xucros, estarão na pauta das eleições municipais: ideologia de gênero, armamentismo da população, combate ao comunismo, Deus, Pátria, Família, etc. Também os negacionismos ridículos baterão o ponto, como à ciência, às mudanças climáticas e às vacinas. A Terra Plana capotará. Teorias conspiratórias, globalismo e outras sandices, também.

    Porém, para quem tem mais de dois neurônios, que sabe do valor do Estado laico e entende que a família precisa é de saúde, moradia, emprego, salário com poder de compra e educação para as crianças, a pauta verdadeira das eleições deverá girar em torno dos problemas reais do povo; e das competências básicas das municipalidades em resolver a vida das pessoas.

    E é aí que surge o dever do império da responsabilidade para as candidaturas sérias, que de fato se apresentarão com propósito de viabilidade. Candidatos a vereadores/as, vices e prefeitos/as, que se propõem a fazer história e a deixar legado para as gerações futuras, deverão abandonar o terraplanismo e o verde-amarelismo de ocasião, e se pautarem pela racionalidade honesta, na hora de conversar com as pessoas. Campanha eleitoral também é momento de educação popular.

    Sola de sapato, ouvido e saliva, à exaustão, deverão ser usados para encontrar o povo, ouvir suas necessidades e debater com as bases sociais acerca das concretas necessidades dos cidadãos e cidadãs, que vivem é no município, como disse alguma raposa política do passado, em grandiloquente síntese de razão e veracidade.

    Que o eleitor e a eleitora compreendam que só se pode cobrar dos candidatos e candidatas, nesta eleição, aquilo que é de competência do nível municipal da federação. Esqueçam-se das motociatas e bravatas, bem como dos coaches de internet. Eles vivem nas bolhas das redes, não no universo real em que eu e você precisamos de políticas públicas para melhorar, de fato, as nossas vidas.

    É momento de exigir: a universalização da rede de coleta e tratamento de esgoto sanitário; a melhoria da iluminação pública; sistemas eficientes de drenagem das águas das chuvas; estradas rurais em permanente estado de boa conservação; escola pública com segurança e qualidade pedagógica; sistema de saúde que atenda às reais demandas de quem não pode pagar pelos tratamentos; apoio à educação do campo; políticas de meio ambiente voltadas para a mitigação da crise climática; adesão dos municípios ao Programa Minha Casa Minha Vida, alimentação saudável, ar puro e livre de venenos em nossas cidades e campo; etc.

    Se vender o voto, votar no candidato festeiro ou seguir os rebanhos religiosos da política, mais uma vez dará um tiro no pé. É urgente pensar com a própria cabeça.

    A Prefeitura e a Câmara de Vereadores não podem fazer de tudo. Há coisas que são o papel da sociedade, como a solidariedade e a organização cidadã. Mas, aquilo que é de responsabilidade objetiva de prefeito e vereadores, eles devem fazer com o máximo de qualidade e presteza.

    Deixem o Presidente Lula trabalhar naquilo que é competência do Poder Executivo federal. Deixem a oposição fazer o seu papel em Brasília. Agora, é o momento de decidir a vida do município.

    * Professor de História. Graduado em Ciências Sociais pela Unimontes. Mestre em Políticas Públicas pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais. Doutorando em Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável pela Escola Superior Dom Helder Câmara. Autor de oito livros.

  • Sem anistia para os golpistas do 8 de janeiro

    Sem anistia para os golpistas do 8 de janeiro

    Em 8 de janeiro de 2023, apenas oito dias após a posse do Presidente Lula, eleito pela terceira vez, democraticamente, pelo voto da maioria dos brasileiros, um novo golpe de Estado foi tentado no Brasil. Mais um, em nossa história interminável de golpismo.

    Centenas de pessoas, enraivecidas pela lavagem cerebral cultivada em suas mentes, nos últimos dez anos, pela extrema-direita sanguinária, marcharam para Brasília num domingo. Invadiram as sedes dos três poderes da República e destruíram os prédios públicos, as obras de arte, defecaram, atentaram contra a vida de policiais. Acharam que poderiam fazer voltar ao poder o ex-presidente, genocida, responsável pela morte de 700 mil brasileiros por negligência durante a pandemia. Queriam esfolar, prender, matar. A morte brilhava em seus olhos emburrecidos pela pregação do ódio bolsonarista.

    Foi um fenômeno dos novos tempos (ou dos velhos, pois no nazismo e no fascismo do século XX também era assim). Queriam tirar do poder o governo democraticamente eleito para por no lugar uma ditadura comandada pelas forças armadas, pelo pior do agrobusiness, por neoescravocratas racistas, por pastores vendilhões do templo e por uma desclassificada classe política nazifascista. Suas bandeiras eram a morte, o armamentismo, o ódio de classe, de raça e aos pobres, a intolerância política e ideológica, o negacionismo científico, o fanatismo religioso e o retrocesso das conquistas sociais e trabalhistas duramente construídas pelo povo brasileiro.

    Foi a Intentona dos “Patriotários”: gente que se chamava de patriota, mas que não duvidou em nenhum momento de que destruir o que é público e, pior, a democracia, nada tem de amor pela Pátria. Gente que “fez faculdade” através de vídeos de fake news e autoajuda charlatã dos coaches de WhatsApp. Alguns até de boa vontade, mas de coração invadido pela ruindade e malignidade bolsonarista.

    O golpe daquele 8 de janeiro foi controlado. A idiotia e o mau-caratismo tentam fazer crer que foi a esquerda, e não ela própria, a extrema-direta, a responsável pelo quebra-quebra brasiliense. Mas, como disse Tancredo Neves, certa vez: “morto o dragão do autoritarismo, tarefa mais difícil é retirar sua carcaça fedida do meio da praça”. Assim, é preciso condenar exemplarmente os mandantes, os financiadores e as autoridades que flertaram ou condescenderam com a traição da Constituição e da democracia brasileiras. “Traidor da Constituição é traidor da Pátria”, declarou o velho Ulysses Guimarães ao promulgar a Constituição de 1988.

    Sem anistia para os golpistas.

  • “Comunista, graças a Deus!”

    “Comunista, graças a Deus!”

    Lênin não acreditava em céu ou inferno, pois era ateu. Porém, a julgar pelo propósito dele, que era derrotar a burguesia que adora o capital e despreza o próximo, e conhecendo o que diz o Evangelho de Jesus, sou da humilde opinião de que é mais fácil Lênin se encontrar no Paraíso do que os seus difamadores religiosos entrarem no Reino dos céus.

    Falo isso porque assisti a um vídeo produzido pelo gabinete do ódio do bolsonarismo, feito para difamar o ministro Flávio Dino, católico de esquerda, novo escolhido de Lula para o STF.

    No vídeo, em uma entrevista antiga, Dino diz que é “comunista, graças a Deus!”, numa referência ao seu antigo partido, o PCdoB. Hoje ele é do PSB. Nenhum problema. Os primeiros cristãos, segundo os Atos dos Apóstolos, também eram “comunistas, graças a Deus”, pois “tinham tudo em comum e dividiam seus bens com alegria”. Aliás, Jesus ameaçou os “capitalistas” da época com um chicote, no templo, “porque faziam da casa do Pai um mercado”, e em outra passagem disse categoricamente que era “mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino do céus”.

    Mas o que tem Lênin a ver com isso?

    É que no tal vídeo, Dino diz seguir a cartilha de Lênin. Mentirosamente, o vídeo feito para gente que nunca leu uma orelha de livro de Ciência Política ou História, faz uso do mais sujo fanatismo religioso. Diz que Lênin recebeu seu “decálogo” diretamente do inferno. Ignoram que além de político, Lênin foi um dos mais prestigiados intelectuais da política, da economia e da filosofia de sua época. Um decálogo para Lênin é pouco.

    Enfim, tanto quanto Cristo foi condenado pelos religiosos de seu tempo, mal comparando, com todos os nossos defeitos humanos, todas as lideranças que enfrentam o capitalismo e os ricos do mundo, como Lênin, Mandela, Dilma, Lula e Dino, são massacradas por gente que se diz de Deus; gente cujo “o lugar é o céu”. Nem que seja o céu da boca da onça.

  • Artigo do Levon: Brasil infernal

    Artigo do Levon: Brasil infernal

    * Levon Nascimento

    O Brasil de hoje, para quem tem olhos de ver e ouvidos de ouvir, é como as cenas descritas por Dante Alighieri, literata renascentista italiano, que escreveu a Divina Comédia.

    Bolsonaro governa pelo bem dos ricos e para o mal dos pobres. Sem tirar dos ricos nem por aos pobres.

    Tudo piorou em seu governo.

    Órgãos de combate à corrupção foram desmontados e/ou cooptados.

    O Auxílio-Brasil, apresentado com pompa e circunstância como substituto do Bolsa-Família, é uma armadilha para os pobres, pois o decreto presidencial que o estabeleceu acrescenta seu fim para 31 de dezembro de 2022; além de permitir a consignação de empréstimos bancários, a promover uma escravização bancária futura da população vulnerável após o término da vigência.

    A única casa de moradia do pobre, por iniciativa de Bolsonaro, poderá ser tomada da família pelos banqueiros multibilionários, em caso de inadimplência do trabalhador. Espera-se que os senadores derrotem essa crueldade, já aprovada pela base bolsonarista na Câmara dos Deputados.

    Produzidos em real, ao custo dos baixíssimos salários nacionais, os combustíveis e os alimentos são cotados em dólar, quintuplicando de preço. Abastecer e comer agora são situações de escolha vital para os brasileiros.

    Trinta e três milhões estão a passar fome, e mais de 60% com algum tipo de dificuldade para conseguir a cesta básica, gerando famílias vulneráveis e sem segurança alimentar. Nisso, percebe-se que nunca houve um governo que investiu tanto contra a família quanto o de Bolsonaro. É falso-moralista, defende a instituição familiar da boca para a fora, mas na hora do vamos ver, deixa-a à própria sorte (ou azar).

    O desemprego é assustador e o endividamento das famílias é recorde.

    Não houve atuação do presidente para conter a pandemia, só estímulo à contaminação em massa. Ele não quis confinamento sanitário e tampouco cuidou da economia, como sempre regurgitava no cercadinho do Alvorada. Terceirizou sua responsabilidade para as costas de governadores, prefeitos e da oposição. Nada era consigo. Perguntado sobre as centenas de milhares de mortes por Covid-19, zombou: “E daí? Não sou coveiro”. Psicopata?

    As intolerâncias patriarcal, religiosa e policial, especialmente contra mulheres, pobres, pretos, indígenas e LGBTQIA+, subiram exponencialmente. E o governo não implementa políticas públicas de redução e erradicação.

    Órgãos de defesa do meio ambiente e de apoio aos povos indígenas desmontados, desautorizados e invadidos, justamente por aqueles que são os vilões do desmatamento ilegal, do genocídio indígena e do narco-garimpo.

    As gastanças desregradas nas FFAA, no cartão corporativo presidencial e na família do presidente correm soltas, além do orçamento secreto que compra os deputados e senadores do centrão, ao passo que os instrumentos legais de combate à corrupção criados pelos governos do PT foram aposentados, calados ou ignorados. Para tudo, sigilo. Corrupção como nunca antes em nossa história e, pior, sem investigação e punição.

    Ainda assim, conforme a Bloomberg, rede de TV a cabo estadunidense, durante a Cúpula das Américas, em Los Angeles (Califórnia, EUA), na segunda semana de junho de 2022, o presidente brasileiro pediu ajuda ao colega Joe Biden, presidente ianque, para derrotar Lula na eleição de 2022.

    Se alguém tinha dúvidas das intenções golpistas e antidemocráticas do genocida, não as tenha mais. Esse apelo vexatório a um presidente estrangeiro – da maior potência militar do planeta – é crime de lesa-pátria, alta traição à Constituição e à República brasileiras.

    Também na Cúpula das Américas, Bolsonaro afirmou a Joe Biden que a produção do agronegócio do Brasil alimenta um bilhão de pessoas ao redor do mundo. Só não corrigiu que essa mesma produtividade exclui de comer 60% dos próprios brasileiros, abandonados por ele à insegurança alimentar, devido à inflação, ao desemprego e ao desmonte dos estoques reguladores de preços de alimentos, por sua própria ordem.

    Você deve ser lembrar de quando os bolsonaristas mandavam quem discordava deles para Cuba, Venezuela e Argentina. Gritavam com a certeza de quem nunca leu um livro inteiro que o povo desses países vizinhos vivia a passar fome por conta de um comunismo imaginário, chegando até mesmo a devorar cachorros por falta de mantimentos.

    No entanto, quando se sabe que mais da metade dos brasileiros (60%, de acordo com a pesquisa PENSSAN, divulgada em 08/06/2022) tem passado algum perrengue para conseguir comprar comida e que 33,1 milhões de compatriotas estão à mercê da fome, os ditos fanáticos por Bolsonaro fingem que não é com eles. Nem um pio. Quando muito, põem à culpa nos próprios famintos. Imitam Maria Antonieta de França: “Se não têm pão, que comam brioches, ora!”

    A violência contra os povos indígenas, sobretudo na região amazônica, atinge níveis escandalosos de crueldade e absurdo. E há a omissão proposital da presença do Estado nacional, como que uma autorização velada (ou propriamente explícita) para que criminosos do agro, do garimpo e do desmatamento atuem como aliados do governo de plantão.

    As mortes do jornalista inglês Dom Phillips, brasilianista que escrevia matérias sobre os dramas amazônicos para meios de comunicação europeus e estadunidenses, e de Bruno Pereira, sertanista demitido de cargo de chefia da FUNAI pelo ex-ministro Sérgio Moro (o grande responsável pela eleição de Bolsonaro em 2018), justamente porque fazia bem o seu trabalho, são símbolos inequívocos da inversão moral e criminosa dos papéis: o Estado que deveria dar proteção a quem tenta aplicar a lei é o mesmo que se move vagarosíssimo nas buscas e na segurança das vítimas. E ainda as criminaliza.

    Todos os governos e governantes pertencem a estruturas humanas, portanto falíveis, corruptíveis e ao mesmo tempo passíveis de acertos, empatia e vitórias civilizatórias. No entanto, para além da debilidade e/ou ventura humana, o governo Bolsonaro é também um projeto maléfico, anti-humano, diabólico e cruel.

    Apoiar esse governo é comprometer mais do que a vontade política pessoal, mas a própria integridade da alma imortal. Quem defende Bolsonaro precisa se converter, de corpo e alma.

    Alighieri, certa vez escreveu: “No inferno, os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempos de crise”.

    * Levon Nascimento é professor e escritor. Este é um artigo de opinião.

  • Sobre drones, excrementos e  civilidade no Brasil

    Sobre drones, excrementos e civilidade no Brasil

    Madrinha Donila morreu aos 104 anos de idade, em 2011, lúcida.

    Embora não tivéssemos parentesco genético, para mim ela foi como avó e, mais do que isso, referência moral, ética, espiritual e civilizatória.

    Ela jamais teve acesso à escola formal. Mesmo assim, foi uma grande professora e contadora de histórias (com “h”, factuais, reais…).

    Dela ouvi o relato de que lá pelos anos 30, 40 e 50 do século passado, em Mortugaba/BA, onde viveu, que as campanhas políticas locais eram absurdamente intoleráveis e abjetas.

    Inclusive, correligionários mais exaltados, de um lado, atiravam fezes e urina nas casas e manifestações políticas de adversários.

    E madrinha Donila, que nasceu em 1907, no sertão baiano, que nunca estudou a alta cultura, já me relatava isso em posição de indignação e de lamento à baixaria, à intolerância e à falta de apreço civilizatório daquela época.

    Agora, em pleno 2022, vemos o mesmo se repetir, mas em escala nacional, a utilizar da mais alta tecnologia desenvolvida, um drone, em Uberlândia/MG, para a prática daquilo que é mais pré-histórico e atrasado em política e democracia, em civilidade e humanidade: jogar fezes e urina sobre uma manifestação política da esquerda.

    Os responsáveis, presos na hora, seguidores do atual presidente da República, gente que se intitula “de bem”, “defensora da família como Deus criou” e “conservadores”.

    Prefiro a simplicidade de madrinha Donila do que a sofisticação demoníaca do bolsonarismo.

    Quem ainda defende Bolsonaro e a barbárie, envergonhe-se e converta-se.

  • O banquete de sangue

    O banquete de sangue

    • Levon Nascimento

    Quando se vêem as cenas do jantar no qual Temer e um bando de velhos brancos e ricos riem das piadas de um bobo da corte, a zombarem tanto do mito da direita quanto da cara do povo brasileiro, chegamos à conclusão de como seriam úteis as guilhotinas da Revolução Francesa aqui nos trópicos.

    Nossas Marias Antonietas seguem firmes e fortes, deglutindo brioches sob os cadáveres de 600 mil brasileiros mortos pelo coronavírus, sorridentes, enquanto a patuleia utiliza lenha ou álcool, ante a impossibilitado de comprar um precioso botijão de gás.

    O repasto serve ainda para os pobres de direita, incluindo o pobre cérebro de Bolsonaro, entenderem o que é consciência de classe e o quanto estão do lado errado da história. Embora não se deva esperar conversão de amebas.

    Os participantes do regabofe são velhacos (na idade e nas práticas acumulativas de riqueza) que juntos somam mais de mil anos de vampirismo social. De fato, os quem mandam no Brasil.

    Foram eles que criaram o “mito”, colocaram-no no Planalto, gargalham dele e o apeiam, se não lhes for mais útil.

    Também foi com eles que o PT teve de se submeter para que as pequenas conquistas de 2003 a 2015 pudessem ser minimamente viáveis.

    Religiosos cristãos, que seguem Bolsonaro como se fosse um enviado de Deus, deveriam estar atentos a quem se sentou naquele convescote diabólico. Ali havia de tudo, menos o Evangelho.

    Que falta fazem umas cruzas entre as peixeiras parisienses e os bolcheviques moscovitas em nossa trágica história nacional!

  • O apagão

    O apagão

    A última crise energética que o Brasil teve, conhecida como “Apagão”, foi em 2001, no Governo do presidente tucano Fernando Henrique Cardoso.

    Na época, descobriu-se que havia sobra de energia na região norte do país, mas que aquele governo neoliberal não havia planejado a tempo a construção de linha de transmissão para o restante do território nacional.

    A situação foi tão feia que, mesmo pagando em dia as altas contas de luz, o consumidor que gastava além do limite estabelecido pela ANEEL tinha o padrão desligado pela CEMIG (ou pela concessionária de cada estado).

    Nem precisa dizer que milhões ficaram no escuro, o desemprego triplicou e a quebradeira foi geral.

    Vieram Lula (2003-2010) e Dilma (2011-2016), o Brasil cresceu economicamente a ponto de se tornar a sexta economia mundial, erradicação da fome, situação de pleno emprego, recordes na construção civil e no comércio, e não houve mais apagões, mesmo com estiagens terríveis. Houve planejamento e execução.

    Agora, cinco anos depois do golpe que afastou Dilma da presidência, sem que ela tivesse cometido crime de responsabilidade, e diante da pior pandemia de nossa história, do desemprego homérico e da desindustrialização nas alturas, vemos novamente a conta de luz escalar as montanhas e o anúncio de que haverá apagões.

    Bolsonaro só se preocupa em brigar com todo mundo e em defender seus filhos, metidos até a cabeça em negociatas. Não planejou e nem preparou o país para a pior seca do século.

    Com certeza, ele vai por a culpa em São Pedro.

  • Semipresidencialismo é golpe

    Semipresidencialismo é golpe

    É recorrente na história do Brasil. Sempre que a direita dá um tiro no pé (como é o caso do Governo Bolsonaro neste momento) e a esquerda se aproxima novamente da possibilidade de alcançar a chefia do governo (Lula pode ganhar até no 1° turno, segundo pesquisas), as elites propõem esvaziar o poder da presidência da República.

    Agora, Artur Lira (presidente da Câmara Federal) fala em semipresidencialismo. O que seria isso?

    Um presidente “rainha da Inglaterra”, sem poderes de fato, e o controle da política nas mãos de um parlamentar que seria o 1° Ministro escolhido apenas entre e pelos deputados.

    Imagina quem conseguiria maiorias congressuais para ser o chefe do governo? Cunha, Maia, Lira, etc. Seria o mesmo que entregar o Planalto para o Centrão, para sempre, sem esperança de alternância.

    É golpe!

    #semipresidencialismonão #semipresidencialista

  • Assista a “As jornadas de junho de 2013” no YouTube

    Você se lembra de junho de 2013? O Brasil melhorou depois daquelas manifestações?

  • A História e o autoritarismo brasileiro

    Na condição de professor de História, sempre me preocuparam a disseminação de ideologias de extrema-direita no Brasil e o pendor autoritário de nossas instituições de Estado.

    Nossa história tem sido um roteiro ininterrupto de golpes da elite racista e oligárquica, desde os tempos coloniais.

    Os indígenas, negros, mestiços, pobres, trabalhadores e mulheres, sempre propositalmente esquecidos e deixados ao último plano, escravizados, oprimidos e torturados.

    O nazismo já esteve entre nós. Atualmente, somos governados por um bando fascista de extrema-direita, boçais desorientados por teorias conspiratórias, racistas, supremacistas e por seitas religiosas que fogem ao senso do cristianismo autêntico.

    Os constantes ataques do presidente da República à ciência e à democracia reacendem o temor de uma nova ditadura.

    Ir às ruas em 19 de junho, com os devidos cuidados sanitários, é um dever de todos os que lutam contra o totalitarismo e as ditaduras. É civilizatório!

  • Artigo: Quando estivermos mortos, vocês entenderão do que falamos?

    É obvio que é uma perseguição política.

    Todos os corruptos dos partidos de direita, com fartura de provas contra eles (malas de dinheiro, aeronaves carregadas com drogas, áudios, etc.), estão livres e usufruindo da riqueza que roubaram. E mandando no país. Os banqueiros lucram como nunca. Os empresários corruptores que delataram sem provas, têm as penas diminuídas e não precisam devolver o que roubaram. A “justiça” manda reestabelecer o helicóptero da cocaína ao dono, que nunca foi incomodado pela polícia. Está na cara que é uma nova ditadura, dessa vez uma DITADURA DO JUDICIÁRIO.

    Em qual democracia os partidos, as lideranças e as pessoas que pensam diferente são tão perseguidas, processadas e presas por conta de acusações judiciais farjutas, contra as quais juristas do mundo inteiro apontam falhas homéricas? A maior delas, a falta de provas contra os acusados. Pior, com base em delações conseguidas de pessoas presas sob a promessa de premiá-las com a diminuição da pena ou de não incomodar seus familiares. Tortura moderna.

    A ordem da direita não é só para prender o líder político mais popular do país, Lula, e impedi-lo de disputar, ganhar a presidência da República e interromper o roteiro escravocrata do golpe de 2016. É para acabar com os partidos políticos que representam algum risco ao projeto neoliberal (privatização, reformas da previdência e trabalhista, diminuição absoluta dos investimentos sociais para os pobres, venda do patrimônio nacional a estrangeiros, etc.) e, se possível, ELIMINAR FISICAMENTE as pessoas que têm pensamento crítico.

    A quantidade de lideranças de movimentos sociais assassinadas depois do golpe só fez aumentar e comprova a tese da guerra total. As “fake news” (notícias falsas) na internet, contra qualquer movimento por direitos dos pobres, são avassaladoras. A última vítima foi o 14º Encontro Intereclesial de CEBs ocorrido em Londrina/PR.

    O uso da religião e da Bíblia para demonizar o pensamento de esquerda é de uma sordidez que custará muito caro ao país. Uma Pátria dominada pelo fanatismo religioso, manipulado para fins políticos dos ricos, tem como espelho de futuro aquilo que acontece em nações como o Afeganistão. É o tempo mais terrível e crítico que já percebi neste país em toda a minha vida.

    Mas, a maioria, como sempre, está anestesiada ou bestializada por quem defende a morte, as armas e a exaltação de todos os preconceitos mais terríveis da barbárie humana. Quando estivermos desaparecidos ou mortos, como em outras ditaduras do passado, parentes, amigos, colegas de profissão e irmãos de igreja serão capazes de enxergar?
  • Destruição da família: exposições em museu ou a retirada dos direitos?

    A estratégia da direita política brasileira é cristalina como água potável e suja como resíduos de esgoto: RETIRAR DIREITOS DOS POBRES E TRABALHADORES E AUMENTAR A ACUMULAÇÃO DE CAPITAL DOS MUITO RICOS.

    Como esse objetivo não ganha eleição se for confessado abertamente numa campanha, a direita desvia a atenção do público para assuntos irrelevantes, que normalmente atingem parcelas ínfimas da sociedade, mas de grande apelo popular num país conservador e de baixa formação educacional, como o Brasil, quando manipulados para interesses políticos: a suposta pedofilia em performance no MAM, exposições críticas e polêmicas em museus e temas ligados às pautas de gênero, enfim a “destruição da tradicional família brasileira” e dos “valores da sociedade ocidental”. Muita gente religiosa, de bom coração, acaba se deixando levar por esse desvio de foco.

    Tudo isso enquanto a verdadeira família está ameaçada pelo desemprego, pela terceirização e pelo aumento da idade de aposentadoria, que farão os pais e avós trabalharem mais e ganharem menos, ficando longe dos filhos e netos; pela PEC do teto aprovada em 2016, que congela os recursos para a saúde, a educação e a seguridade social por 20 anos (hospitais, escolas e municípios já estão sentindo a diminuição dos recursos e dos repasses dos governos federal e estaduais); com uma criança pobre presa na mesma cela que um pedófilo; com índios trucidados por ruralistas; com a venda da Amazônia, de hidrelétricas, de terras e da soberania nacional a estrangeiros; com o desmonte do conteúdo nacional nas prioridades de compras do governo federal; com o corte das políticas sociais de transferência de renda e dos programas de acesso dos mais pobres e negros às universidades; com o estado policialesco irresponsável promovendo linchamentos e levando pessoas honradas ao suicídio, como ocorreu com o reitor da UFSC; etc.

    Mas nada disso importa à direita e aos seus militantes. Eles só querem escandalizar a população através do discurso moralista, abusando do nome de Deus e de trejeitos religiosos, se possível, impedindo eleições livres em 2018.

    E, se tudo der errado, prender o candidato com maior possibilidade de melhorar a vida dos pobres, ainda que contra ele só haja delações e nenhuma prova cabal, acusando-o de coisas irrisórias se comparadas ao poderio que deteve nas mãos, e implantar um regime de terror, torturas, censura e morte de vozes críticas, assim como o nazifascismo original realizou na Alemanha e na Itália. Temos pelo menos dois candidatos a Hitler ou Mussolini. Um mais escrachado, outro mais assessorado pelo marketing à moda Trump, das “fake news” ao discurso agressivo e mentiroso. Em ambos os casos, o odor de morte exala.

    Quem tiver olhos que veja. Quem tiver ouvidos que ouça. Quem tiver nariz que o tape
  • Nunca foi tão óbvio, Brasil!

    Charge de Laerte
    De um lado, os mesmos políticos de sempre: ganham eleições comprando votos e, uma vez no poder, pouco se lixam para os eleitores. Votam a favor da reforma trabalhista e querem aumentar a idade para a aposentadoria. São gravados exigindo propina, carregando malas de dinheiro vivo e povoam o governo federal depois do golpe. Todos soltos e acobertados pela Justiça.
    Do outro lado, aqueles que criaram políticas públicas e programas sociais em favor dos pobres, dos trabalhadores, das mulheres, dos negros, dos índios, dos LGBTs, dos professores, etc. Contrários à reforma trabalhista e previdenciária. Para persegui-los não precisa de provas, basta haver delações nas quais os delatores falem o que juízes e promotores desejam ouvir. São condenados pela Justiça.
    Um país em que meia tonelada de cocaína apreendida em helicóptero de político da direita, pedidos de propinas gravados, feitos pelo segundo colocado na última eleição presidencial, e malas de dinheiro vivo são recebidas por deputado diretamente ligado ao presidente da República não dão condenação, mas um triplex sem provas condena o maior estadista vivo da Nação.
    Um país em que as pessoas pouco leem e se informam pelos carteis midiáticos televisivos ou por memes mentirosos.
    Um país que cultura a violência e que trata a questão social como caso de polícia.
    Nunca foi tão claro. Nunca foi tão óbvio. Casa Grande & Senzala.
  • A Lava-jato não é o que você pensa

    A operação Lava-jato não é boa para o Brasil. Ela não existe para combater a corrupção.
    É uma operação montada para fins políticos-eleitorais, de modo a destruir a esquerda e proteger a direita, e com fins econômicos e geoestratégicos, como destruir os setores industriais nacionais e premiar o capital estrangeiro.
    Só que a Lava-jato, similar à Mãos-limpas italiana, que jogou aquele país europeu no colo do histriônico Berlusconi, teve como efeito colateral, depois de alijar o PT – seu único alvo inimigo, o de entronizar a quadrilha peemedebista no poder e não o PSDB, seu verdadeiro objetivo, parceiro e protegido.

    De quebra, a tal força-tarefa ainda abriu espaço para a agenda zumbi da classe média descerebrada, permitindo o latido cada vez mais potente dos loucos nazifascistas.
    Curitiba destruiu o Brasil.

  • Que tempo é este? Por Levon Nascimento

    Sob o escaldante sol de verão, árvores foram podadas
    Crédito fotografia: Folha Regional
    Em Taiobeiras é o abuso autoritário cortando árvores em plena onda de calor do verão ou sugerindo que os críticos são cães que ladram ou que devem tomar seu rumo na rodoviária. E a juventude continua morrendo diante da indiferença. A falta dágua deu uma pequena trégua.
    No país, terrorista de extrema-direita mata mulher, filho e parentes dela e imbecis apóiam o sujeito nas redes sociais. Massacres ocorrem em presídios e o secretário de juventude do presidente ilegítimo afirma que tem que matar mais. Outra vez os imbecis “de bem” aplaudem no Facebook e no Whatsapp. Sem contar a PEC 55 e as reformas da Previdência e trabalhista, que retiram direitos dos pobres.
    No mundo, Trump com seus racismos, machismos e xenofobias, a guerra interminável na Síria, os terroristas em geral, o esquecimento permanente da África e a rebelião dos cardeais conservadores contra o Papa.

    Valha-nos, Deus!
  • Artigo: Foi um golpe de Estado

    * Levon Nascimento

    O ano de 2016 chega ao fim e tristemente constatamos de que nele houve um golpe de Estado no Brasil. Aliás, o golpe continua.
     
    As massas médias vestidas de verde-e-amarelo (mas apaixonadas pela bandeira estadunidense), midiática e propositalmente desinformadas, foram levadas a acreditar que os governos do PT promoveram os maiores escândalos de corrupção da história do Brasil e que este partido gastava abusivamente o dinheiro público, para elas, razão da grave crise econômica. Como ter memória política não é um dos fortes dessa gente, as mentiras colaram feito visgo de jaca e ela pagou o mico do século ao ir às ruas defender o atraso fascista fantasiada de Batman tupiniquim. O mundo sentiu vergonha alheia.
     
    Assim, o impeachment de Dilma Rousseff ocorreu sem maiores problemas dentro das podres instituições da República, capitaneado por Eduardo Cunha e Renan Calheiros, desencadeado pelo choro de perdedor de Aécio Neves, urdido pela traição de Michel Temer, açodado pelas seletivas decisões do juiz Moro, permitido pela omissão vergonhosa do STF e amplificado pela manipulação da Globo e das demais mídias do cartel brasileiro. E por motivo fútil: as tais pedaladas fiscais praticadas por qualquer governante brasileiro ou mundial sempre que se necessita remanejar recursos públicos de uma área para outra. Mais escandaloso ainda, sem que a presidenta fosse ré em qualquer tipo de processo. Uma mulher honesta derrubada por um bando de ladrões repugnantes.
     
    Pergunte a qualquer brasileiro imbecilizado sobre o motivo de Dilma ter sido afastada da presidência e ele lhe dirá: “por causa da roubalheira e da corrupção generalizada” ou “ela acabou com o Brasil”. É o perfeito otário, sem meias palavras. Nunca ouviu falar do “Caso Banestado”, julgado pelo mesmo Moro ou da “Privataria Tucana”, nunca levada a juízo. Não se informa. Só recebe passivamente as rações diárias servidas pelo “Partido da Imprensa Golpista”, o PIG.
     
    Na verdade, Dilma, Lula e o PT foram os bodes expiatórios. Não sou tolo a ponto de achar que não houve desvios éticos em seus governos. Porém, que qualquer pessoa minimamente séria sabe que são fichinhas perto do que os velhos profissionais da direita praticam à luz do dia desde o desembarque de Pedro Álvares Cabral em Porto Seguro. Fosse para acabar com a corrupção e equilibrar as contas públicas, a tal Lava-jato não estaria protegendo os maiores corruptos do país – do PSDB, do PMDB e do DEM – e o (des)governo Temer não teria ampliado a gastança de forma tão descarada – e com motivos extremamente fúteis, bem ao contrário do rigor dilmista. O fato é que o golpe de Estado veio para destruir a parte virtuosa dos governos petistas: os programas sociais, a melhora na distribuição de renda e a queda (ainda que tímida) da desigualdade social. Qualquer um que seja responsável saberá entender que os golpistas trabalham incessantemente para aumentar os privilégios da camada rica e esfolar os trabalhadores (aqui incluída a imbecil classe média que odeia o PT) e os pobres.
     
    Mas o golpe foi além. Não somente as conquistas de Lula e de Dilma são os alvos do trator que tomou o poder. É o próprio pacto democrático instituidor da Constituição de 1988 que está em risco. Com a PEC 55 (a do corte de gastos em saúde, educação e seguridade) e a Reforma da Previdência (que deixa de lado militares, juízes e políticos, mas desce o cacete em todos os demais trabalhadores, especialmente as mulheres, os rurais e os professores, que terão as idades mínimas de aposentadoria unificadas em 65 anos de idade e 49 de contribuição), o que se pretende é dar marcha ré em direção à República Velha.
     
    A Constituição de 1988, ao instituir o SUS (Sistema Único de Saúde), a gratuidade e universalidade do ensino e o sistema de seguridade social, colocou o Brasil no mundo civilizado. Claro que esses sistemas nunca funcionaram a contento, pois se trata de uma Nação periférica do sistema capitalista, cheia de incongruências estruturais, mas a simples menção disso no ordenamento jurídico maior dá a direção do projeto daquilo que o país desejava se tornar.
     
    A camarilha golpista que assumiu o poder com a destituição de Dilma Rousseff é uma coalizão escabrosa que une os velhos e corruptos coronéis do PMDB, os lesa-pátria sofisticados do PSDB, as corporações intocáveis do Judiciário, do Ministério Público, da Polícia Federal e dos militares, o baixo clero do Congresso (especialmente a bancada religiosa), a falida FIESP (do pato que os idiotas vão pagar) e a grande mídia brasileira (sob a batuta da indefectível Globo). Todos sob o comando unificado e perverso do mercado financeiro, o qual leva 45% de tudo o que os brasileiros produzem na forma de juros e pagamentos da dívida pública.
     
    Essa turba, blindada pela ignorância do brasileiro médio, que detesta o PT e tudo quanto lhe lembre que também é proletário e pobre, está literalmente destruindo o país, a Constituição de 88, as instituições, a economia real e qualquer sonho de uma Nação soberana para o futuro. E dá-lhe PEC 55, reforma da previdência e ampliação do estado de exceção (aliás, a regra no país dos golpes).
    Foi um golpe de Estado. Aliás, é um golpe, enquanto a economia patina rumo à depressão. E ele tende a se ampliar, porque golpes sempre são seguidos de ditaduras. É um golpe contra você, ainda que tenha acreditado que a grande culpada de tudo era a dona Dilma.

    * Levon Nascimento é professor de História e mestrando em “Estado, Governo e Políticas Públicas” pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais – Flacso Brasil.
  • A República dos golpes

    Deodoro da Fonseca
    * Levon Nascimento
    A República brasileira começou há exatamente 127 anos com um golpe de Estado contra o governo do imperador Dom Pedro II, não por apreço aos valores republicanos, mas em vingança à princesa Isabel, herdeira do trono, que um ano antes havia assinado a abolição da escravatura negra. Um misto de machismo e ódio de classe. Qualquer semelhança com a deposição de Dilma Rousseff em 2016 não é mera coincidência.
    Golpe comandado pelo marechal Deodoro da Fonseca (leia-se: os militares do Exército brasileiro, motivados pelo positivismo racista, última moda importada no final do século XIX). Atrás de si, um séquito de homens brancos, ricos, racistas e autoritários. Qualquer semelhança com o governo de Temer em 2016 não é mera coincidência.
    De lá até aqui, é sempre com golpes de Estado que a elite brasileira se perpetua no poder. Uma lista longa: república do café-com-leite, “revolução” de 30, Estado Novo, golpe militar de 64, golpe parlamentar de 2016.

    E, igualmente, é da mesma forma que combatem os movimentos sociais: Canudos, Revolta da Vacina, Revolta da Chibata, Contestado, Intentona Comunista, Ligas Camponesas, movimento estudantil, MST, etc.

    Aristides Lobo, naquele longínquo 15 de novembro de 1889, em que a República foi proclamada, narrou que “o povo assistiu àquilo bestializado”. Continua a bestialização pela tela da Globo.