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Doutrinação: professores e mídia
* Levon NascimentoIndivíduos, grupos políticos ou regimes com características autoritárias sempre fizeram a aposta na burrice humana e na infantilização da opinião. Falam ao povo como se estivessem se dirigindo a uma criança de cinco anos. Dividem o mundo entre o lado do bem e o lado do mau. Inventam um inimigo, exageram no medo coletivo e o atacam através de ofensas de baixo nível, ao invés de utilizarem argumentos racionais. Este é o quadro momentâneo do Brasil. Esta é a triste realidade do mundo atual.De Brasília a Taiobeiras, do norte ao sul, da boca de Michel Temer à cavidade oral de um pobre diabo que pensa que não será atingido pelo desastre que a PEC 241 (55) produzirá, o que se houve e se vê é a desqualificação de quem exercita a capacidade intelectual e moral de criticar.“Estão aí protestando, ocupando escolas, mas nem sabem o que é PEC!” – dizem. “São uns vagabundos cabulando aula! Por que não vão estudar?” – rosnam. “É tudo doutrinado por esses professores comunistas” – mentem e acreditam na própria mentira.Como não podem debater através da racionalidade, pois esta fatalmente acabaria por dar a vitória aos manifestantes contrários ao golpe de estado e à PEC, tratam de desqualificar, demonizar e ridicularizar os indivíduos e grupos que resistem à retirada de direitos. Isto é um fenômeno típico de fascistas.O fascismo é um regime de direita que aparece nos momentos de crise econômica do capitalismo. É irracional, porque baseado na exploração do medo que as pessoas têm do diferente e do futuro.Os regimes fascistas mais conhecidos e trágicos da história foram o italiano e o alemão. Nasceram e cresceram no período entre a primeira e a segunda guerra mundial (1918 a 1939), justamente em um momento de forte crise econômica (1929), de desilusão com a classe política e de medo dos inimigos internos e externos (judeus, dentro; e comunistas da Revolução Russa, fora).O resultado desses regimes, todos conhecem: o holocausto judeu e a segunda grande guerra.As primeiras vítimas do fascismo são o conhecimento e a razão. Pessoas críticas e inteligentes não são suportadas por regimes autoritários: civis, como agora; ou militares, como em 1964.Neste contexto, querem implantar a lei chamada “Escola Sem Partido”, justamente para retirar dos educadores brasileiros o direito à liberdade de expressão em sala de aula. Acusam os professores, especialmente das matérias de humanidades, de estarem doutrinando os alunos para serem comunistas ou – mais hilário ainda – petistas bolivarianos.É uma aposta na imbecilidade que poderá custar caro à inteligência do país. É proposital da parte de quem está no comando. É involuntário em mentes condicionadas pelo autoritarismo ou pelo servilismo social que caracteriza as relações históricas no Brasil.Cidadãos críticos desestabilizam governos autoritários. Mentes que estudam não aceitam o alto grau de retirada de direitos e de destruição do Estado nacional, como o que ocorre no Brasil pós-golpe de 2016.Juntamente com o ataque à Educação através do “Escola Sem Partido”, acontece a criminalização dos movimentos sociais. Os jovens que estão ocupando escolas são tachados de baderneiros e vagabundos. Sem-terras, sem-tetos, lideranças de partidos de esquerda e outros grupos de luta são perseguidos pelo aparato estatal como se fossem bandidos contumazes e perigosos.Contraditoriamente, quem de fato pratica doutrinação é a grande mídia do país. As reportagens são tendenciosas e seletivas, sem a mínima preocupação de demonstrar imparcialidade jornalística. Praticam-se diariamente assassinatos de reputação, sem direito a defesa, contra os inimigos da grande burguesia nacional. Os programas policiais de fim de tarde atiçam o medo, o ódio e a vontade de vingança. As telenovelas e os demais programas incentivam o consumismo e a futilidade.As massas que saíram às ruas para protestar contra a corrupção do governo petista, vestidas com a camisa amarela da corrupta CBF, foram “convidadas” pelas principais redes de televisão e por outros tipos de veículos de comunicação da grande imprensa. A cada meia hora, os canais de TV entravam ao vivo para mostrar e elogiar as manifestações, classificadas como pacíficas e democráticas. No entanto, o que se via era pessoas gritando: “somos milhões de Cunhas”, “morte ao Lula”, “nordestinos burros não sabem votar”, “pelo fim da ditadura comunista no Brasil”, “basta de Paulo Freire”, “Dilma vaca!”, “contra a invasão bolivariana no Brasil” e, mais recentemente, “contra a comunista Hillary Clinton” e “Trump, estamos com você”.Democraticamente puderam sair às ruas para gritar palavrões contra a presidenta-eleita da República, sem sofrer nenhum tipo de repressão. Mesmo assim, afirmavam estar lutando contra uma “ditadura comunista e bolivariana” que iria mudar a cor da bandeira verde e amarela para vermelho.No entanto, quando mil escolas brasileiras estão ocupadas por estudantes secundaristas e universitários contra os cortes em educação e saúde; quando milícias fascistas atacam os estudantes em ocupação sem qualquer reação das instituições do Estado; quando policiais invadem a escola do MST sem mandado judicial; quando índios são mortos por fazendeiros em suas próprias terras; e quando líderes de movimentos sociais são fichados como meliantes, nada é informado na TV. E quando mostram, é para por mais lenha na fogueira, desqualificando quem luta.Burrices como estas e outras, gritadas nas ruas e nas redes sociais pelos zumbis amarelos, não são exclusividade do Brasil. No mundo inteiro, o fenômeno é o mesmo. Há um vento conservador e autoritário no ar.Donald Trump ganhou a eleição presidencial dos Estados Unidos com um discurso parecido, apostando na irracionalidade, embalado em racismo e machismo, reverberando ódio e estimulando o medo do outro. Conseguiu até ressuscitar a defunta Ku Klux Klan, organização terrorista branca norte-americana que no passado lutou contra o fim da escravidão negra.“Nosso objetivo é devolver a América à nação cristã branca. (…) Isto não significa que queremos que nada de ruim aconteça às raças mais escuras. Simplesmente queremos viver separados delas” – é o que está escrito em um manifesto dessa organização convocando uma marcha para celebrar a vitória do magnata de cabelos amarelos.A onda fascista não aparece do nada. No entreguerras e agora, ela é fruto da grave crise econômica do capitalismo. Quando a grande burguesia sente que vai perder muito dinheiro, não hesita em abrir mão de seus próprios valores liberais: liberdade, igualdade e fraternidade. Atira-se sem pudores nos braços do autoritarismo de direita. No passado, Hitler e Mussolini representaram a válvula de escape. Grã-Bretanha, França e Estados Unidos nada fizeram contra o führer enquanto ele parecia ser a solução para o inimigo comum, a comunista União Soviética. Só se deram conta do erro quando as bombas alemãs caíram sobre Londres. Paris, humilhada, viu o próprio líder nazista desfilar sob seu arco do triunfo. Na esteira da crise de 2008, estaríamos a reviver o passado?O caso brasileiro é ainda mais grave. Numa nação marcada pela secular desigualdade, a onda fascista serve à Casa Grande, aquela pequena porção de bem nascidos que não engoliu até hoje os programas sociais, criados por Lula, que deram uma pequena chance aos pobres deste país. É sua arma para fazer o povo voltar à Senzala.O melhor exemplo da verdadeira doutrinação que sofre o Brasil – a midiática – é ver que somente a corrupção atribuída ao PT gera revolta. Nunca se roubou tanto e tão descaradamente como nestes dias depois do afastamento de Dilma Rousseff, mas não se vê uma manifestação que seja de gente vestida de amarelo contra isso.Os pobres professores brasileiros pagarão o pato da alienação nacional. Perigosos terroristas que são, deverão ser amordaçados para não corromperem a inocência da juventude canarinha. “Ordem e Progresso” aos nossos jovens! Inteligência, não!Viva a burrice! Ela herdará a Terra.* Levon Nascimento é professor de história e mestrando em “Estado, Governo e Políticas Públicas” pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais/ Seção Brasil. -
O interminável 2016

Ana Júlia: “a menina que fala por nós”. * Levon NascimentoEste ano ficará marcado na história do Brasil como aquele em que um golpe de estado foi desferido pela “treta” entre a mídia, o parlamento, o judiciário e as corporações estatais (ministério público e polícia federal) contra uma mulher honesta, a primeira brasileira eleita para a presidência da República, pelo motivo fútil das “pedaladas fiscais” – artifício anteriormente praticado sem nenhuma consequência grave por todos os seus antecessores – e pela adesão dos golpistas a todos os pressupostos ultraliberais e fascistas que põem em risco o Estado Democrático de Direito pactuado pela Constituição de 1988 e os direitos trabalhistas herdados da era Vargas. Não foram apenas Lula, as esquerdas ou os movimentos sociais os derrotados, mas as garantias mínimas para a construção de uma Nação civilizada que saíram gravemente feridas deste triste episódio.Os erros do governo Dilma, típicos do presidencialismo de coalizão, e o agravamento da crise mundial do capitalismo no Brasil deram a senha para um impeachment sem outro fundamento senão a inconformidade do candidato perdedor de 2014 com a derrota que teve nas urnas.Com o golpe, veio o fascismo. Exemplos se encontram na famosa “operação lava-jato”, seletiva até a raiz do fio de cabelo mais recôndito de seu magistrado-símbolo. As delações premiadas que revelam nomes de políticos do tucanato e da direita em geral são trancadas a sete chaves em gavetas mágicas, enquanto que o apuro desmesurado de supostas irregularidades na posse de sítios e de apartamentos que, por mais que se comprove não pertencerem ao presidente mais popular da história brasileira, servem para desgastá-lo e ao seu partido, judicial e eleitoralmente, à exaustão. Prisões temporárias convertidas em “perpétuas”. Calendário de operações com timingmidiático e focado nas eleições. Rigor inquisitorial para petistas e leniência com fraudadores bilionários alinhados à banca financista. Torquemada, Mussolini e Franco teriam inveja.O fascio também se faz notar na escandalização da opinião divergente. Ouve-se: “Ah, mas a menina que discursou no Paraná é filha de um advogado petista”. Escreve-se: “Tem escola colocando petista pra (sic) dar ‘palestra’ falando mau (sic) da PEC 241 com desculpa de q (sic) serve pro (sic) ENEM”. É como se o fato de ser petista ou esquerdista invalidasse o direito inalienável à opinião, à participação política ou obscurecesse as verdades contidas nos discursos de indivíduos ou de grupos sociais não alinhados ao pensamento dos golpistas. Em outras palavras: patrulhamento ideológico e censura.No entanto, nada é mais sintomático do fascismo do que o sumiço das hordas de zumbis “apartidários”, vestidos de camisas amarelas, quando o assunto é a supressão dos direitos dos pobres e dos trabalhadores pelo governo golpista.O Estado Democrático de Direito advindo de 1988 é solenemente atacado quando o Supremo Tribunal Federal, último guardião da Constituição, a pisoteia ferindo de morte o direito de greve, a permitir que governos “cortem o ponto” de grevistas do serviço público mesmo sem que a paralisação tenha sido declarada ilegal. Ou quanto a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) é relativizada em favor de convenções coletivas ou acordos com o patronato. Além, quando um juiz de primeira instância manda invadir o Senado e outro, no Distrito Federal, ordena que a polícia aplique práticas de tortura psicológica em menores de idade, afim de que estudantes legitimamente exercendo sua cidadania desocupem a escola que lhes pertence.Tal despropósito também se faz notar quando o Ministério da Educação (MEC), ao invés do diálogo com os estudantes que ocupam as escolas, prefere utilizar a velha tática de dividir para conquistar, colocando alunos contra alunos, como no caso do adiamento do ENEM para aqueles candidatos que fariam as provas nas instituições convertidas em espaço de resistência. Estes adolescentes lutam em seus educandários por contrariedade com a reforma arbitrária do Ensino Médio, por não aceitarem o projeto de mordaça denominado “escola sem partido” e indignados com a famigerada PEC 241, agora PEC 55 no Senado, a qual congelará os investimentos em saúde, educação e seguridade social por 20 anos. Vale lembrar que os TREs dialogaram com o movimento estudantil e conseguiram realizar o 2º turno das eleições municipais sem maiores transtornos. Por que o MEC não poderia fazer o mesmo com o ENEM? Canalhice, talvez a melhor resposta.Os brasileiros ainda estão adormecidos ou intoxicados. Uns dormem o sono da negação da política, afirmando que “nenhum presta”, “voto nulo” ou que “é tudo ladrão”, do jeito que os programas policiais de fim de tarde lhes hipnotizaram. Outros estão envenenados pela lavagem cerebral midiática que lhes manda gritar “o PT quebrou o Brasil”, “fora PT” ou “Lula na cadeia”. Quando acordarem ou se descontaminarem, os direitos já terão sido retirados e o sonho de um país soberano e justo terá se convertido em pesadelo.Por hora, à exceção de Ana Júlia Ribeiro, a adolescente de 16 anos que pôs o dedo na cara dos deputados paranaenses, não há sinais de esperança para 2017.* Levon Nascimento é professor de história, graduado em Ciências Sociais e mestrando em “Estado, Governo e Políticas Públicas” pela Flacso Brasil. -
Os erros do PT
* Levon NascimentoA questão vai muito além dos erros do PT ou da esquerda. Erramos muito, com certeza, e estamos pagando por isso. Mas os ataques da direita se concentram justamente nos acertos e nas virtudes do PT, ou seja, nos direitos sociais, no fortalecimento do mercado interno e nas políticas de inclusão construídas nos governos de Lula e Dilma.Para a direita nativa, é preciso confinar novamente a “negrada” à senzala, de onde nunca deveria ter saído. Onde já se viu pobre estudar em cursos antes reservados às “castas superiores”? Parece uma mistificação essa pergunta anterior, mas é exatamente como pensa o setor que foi às ruas, espumando de ódio fascista, nas tais manifestações “contra a corrupção” (dos outros), vestido de amarelo-cbf.Mas, o atual momento também não pode ser compreendido fora do contexto mundial. Trata-se do rearranjo das forças do capital, golpeadas pela crise que se iniciou em 2008 nos EUA, buscando a qualquer custo manterem-se vivas. Para elas, o lugar destinado ao Brasil sempre foi e será o de colônia dócil, aberta sem resistência ao imperialismo do Norte. Nada de política externa ativa e altiva como na Era Lula!Enfim, os pecados do PT e da esquerda foram vários e, talvez, imperdoáveis, mas nenhum foi maior do que ambicionar construir uma Nação mais justa e forte ao sul da linha do equador. E não há, nunca houve e nem haverá opção pura, sob o risco de continuarmos em nosso letárgico messianismo, sempre à busca de um salvador da Pátria.O caminho é que os trabalhadores e os pobres se envolvam na política e a tornem parte de suas vidas* Professor de História e mestrando em “Estado, Governo e Politicas Públicas” pela Flacso/FPA. -
As urnas falaram

Cantor e compositor Yure Colares, numa performance
política durante as eleições de 2016.* Levon NascimentoNa primeira eleição depois do golpe de estado jurídico-midiático-parlamentar, que depôs a presidenta Dilma Rousseff, as urnas revelaram um Brasil bravo, arredio e revoltado com a política, a um passo da indiferença e do fascismo. Vejamos:O PT foi a maior vítima. De seus próprios erros, dentre os quais o de acreditar que seria possível fazer política conciliando-se com a “casa grande” e utilizando os velhos métodos dela. Mas, também, da longa perseguição midiática que fez a maioria dos brasileiros acreditar que a corrupção nasceu com o partido de Lula e que somente o PT é corrupto. PSDB e PMDB, campeões de todas as listas de políticos mais corrompidos do país, saíram ilesos e vitoriosos na disputa. A mídia cartelizada, que odeia políticas públicas de inclusão social, foi a grande vencedora da rodada.No Alto Rio Pardo, a mudança predominou, ainda que para mais do mesmo. Em Taiobeiras, apesar da reeleição do grupo tucano, não houve consagração. A diferença foi mínima e, a julgar pelo crescimento do candidato opositor na reta final, se a campanha eleitoral tivesse durado mais uma semana, o PSDB teria sido escorraçado do mapa político da cidade.Em Taiobeiras, apesar de ser pleno século XXI, ainda há políticos que se utilizam da vulnerabilidade mais básica do ser humano, distribuindo cestas de alimentos aos necessitados, com a certeza de poder manipular uma das maiores conquistas da civilização moderna: o direito universal do voto. Pior, valendo-se de sujeitos hipócritas que se escondem por detrás da capa da caridade e da demagogia comunicativa de baixa extração.Como não confio mais nas instituições brasileiras, sobretudo nas jurídicas, especialmente depois da vergonhosa deposição de Dilma Rousseff sem ter cometido crime de responsabilidade, sob o silêncio vergonhoso do STF e a cumplicidade do MPF, acredito que não se fará justiça quanto à escandalosa compra de votos registrada em vídeos e divulgada pelas redes sociais. Mas, muita gente, principalmente a juventude taiobeirense, crê e espera.Neste item, um componente de esperança. O candidato Carlito Arruda conseguiu desprender uma valiosa energia jovem com sua campanha pela mudança em Taiobeiras. Ao tocar em temas-chaves para as políticas públicas, como água, segurança e educação, atraiu personagens novos que nunca se tinha percebido na política municipal. Os vídeos feitos por esses novos atores e espalhados na velocidade pós-moderna da internet, demonstram dinamismo, diversidade étnica e de gênero e pautas que nunca estiveram nas mesas dos políticos tradicionais. Agora, Carlito Arruda tem um tesouro nas mãos. Em tempos de neofascismo planetário, o empresário do ramo dos condimentos conta com um público marcadamente jovem, progressista e favorável às políticas públicas de inclusão social. Cabe a ele temperar na medida certa os próximos quatro anos.2016 ainda não acabou, mas deixa a marca histórica como o ano em que os brasileiros desprezaram a política ao mesmo tempo em que o rico pré-sal é entregue de graça às multinacionais estrangeiras. Votos brancos, nulos e abstenções foram as celebridades da urna. Resultado da campanha sistemática de criminalização dos políticos e da democracia. Esse filme nós já vimos na Alemanha às vésperas da ascensão de Hitler e do nazismo. Oxalá, não haja reprise na sessão da tarde.* Levon Nascimento é professor de História e mestrando em “Estado, Governo e Políticas Públicas” pela Flacso Brasil. -
Artigo do Levon: O fim do governo da primeira mulher

Dilma e Lula na noite da vitória de Dilma em 2010 Está chegando ao fim o governo da presidenta Dilma Rousseff e os anos do PT no comando central da República. Injustamente, pois este final se dará por um golpe de estado parlamentar, midiático, judicial e institucional. Ela não cometeu crime de responsabilidade e é honesta. Nada se comprovou contra Dilma, que teve sua vida vasculhada de ponta a ponta. Pelo contrário, ofenderam-na desde o dia em que se soube que seria candidata à presidência da República. Na pessoa de Dilma, o machismo estrutural revelou sua face mais torpe e cruel contra todas as mulheres da Nação. Aliás, a primeira mulher a alcançar o mais alto posto do estabilishment brasileiro foi também a nossa chefe de Estado mais vilipendiada de todos os tempos.Mulher de fibra, fiel aos princípios democráticos e de extremado amor ao povo do Brasil, Dilma Rousseff será deposta na próxima segunda ou terça, 29 ou 30 de agosto. Tristes agostos para a política brasileira!Chegará ao fim um dos mais belos períodos da História deste país. Época em que, pela primeira vez, os pobres, os pequenos, os negros, as mulheres, os homossexuais, os marginalizados e os trabalhadores tiveram vez e prioridade nas políticas do governo brasileiro. Tempo de ouro que começou em 2002, com a eleição do operário Luiz Inácio Lula da Silva.Dificilmente veremos, nas próximas duas ou três gerações, um tempo tão belo e frutífero quanto este que a ganância de nossa torpe burguesia, amparada por uma classe média néscia, fez se eclipsar.Meu registo, nestes dias tão tristes, para a História. Eu vivi os dias de Lula e de Dilma na presidência do Brasil. Nunca houve governantes tão dedicados à causa do Brasil, tão empenhados em fazer melhorar a vida da maioria e tão barbaramente perseguidos nesta terra. Erros, cometeram, muitos. A autocrítica partidária deverá ser feita. Mas isto não apaga o brilho do que foi construído e conquistado. A História nos dará razão. Afinal, estamos do lado certo da História!Levon Nascimento, 27 de agosto de 2016. -
Artigo do Levon: A última carta de Dilma

Dilma Rousseff, primeira mulher a ser eleita presidenta
da República brasileira. Vítima de um golpe de Estado.A carta proclamada pela presidenta-eleita Dilma Rousseff ao Povo Brasileiro e ao Senado da República, na tarde desta terça, 16 de agosto de 2016, tem tudo para se tornar um documento histórico.
Histórico porque representa a última ação, em favor da manutenção da democracia brasileira, de uma mulher íntegra, honesta, que não cometeu crime de responsabilidade, a primeira do sexo feminino a ser eleita e reeleita para o mais alto cargo do Estado brasileiro, conclamando a Nação a resistir a mais um golpe de estado. Lembre-se de que o Brasil é o país onde este tipo de golpe é a regra e não a exceção.
Dilma Rousseff teve problemas em seus governos, errou muito, mas acertou outro tanto. Buscou governar para os pequenos, os fracos, os pobres e os trabalhadores. Não teve jogo de cintura para lidar com a gula insaciável do mercado e nem com os gangsteres que povoam a política brasileira desde que Cabral pôs os pés em Porto Seguro. Talvez, aí esteja o maior erro de Dilma. Não fez concessões a Eduardo Cunha e sua gangue. Isto lhe custou o mandato conferido por 54 milhões e meio de brasileiros.
O petrolão, a Lava-jato, a piração religiosa em torno da polêmica do aborto, a misoginia, a imbecilidade política da classe média, o machismo e o racismo contra sua política inclusiva fizeram um inferno cotidiano sobre o qual Dilma Rousseff teve que ter estômago mais pródigo do que o de avestruz. Dilma foi duas vezes torturada: na ditadura passada (1964-1985), em favor da democracia; na ditadura midiático-judiciária dos golpistas hodiernos, novamente pelos valores democráticos.
Dilma Rousseff é uma mulher de fibra, como muitas brasileiras anônimas, autêntica e patriota. Pena que milhões de brasileiros levarão umas duas gerações até perceber que crucificaram a pessoa honesta e colocaram livres os verdadeiros bandidos, de quebra, entregando-lhes o poder sobre a Nação!
Na carta, Dilma pede a chance de voltar à presidência para convocar um plebiscito no qual os brasileiros escolheriam em manter o seu mandato até 2018 ou convocar novas eleições. Não acredito que a maioria do Senado, tão subserviente aos interesses do capital financeiro e seus próprios, inconfessáveis e particularistas, se comoverá. O “golpeachment” se efetivará. Dilma Rousseff e os anos de ouro dos governos do PT, nos quais pobre teve vez na agenda pública, ficarão para a História fazer justiça. Num primeiro momento, condenados pelo efeito da manipulação da manada. No futuro, como símbolo do Brasil que quase deu certo, não fosse sua elite perdulária e sua emburrecida classe média.
Hoje, sinceramente, não tenho mais esperanças na política e nem acredito em eleições num regime que depõe uma mulher honesta para entregar o poder a homens brancos, velhos, ricos e corruptos. -
Poema: O lado certo da História
* Levon Nascimento
Que estamos do lado certo da História,
Nunca tive dúvidas.
Que isto não nos sirva de consolo,
Nem de desculpas para parar a luta.
A luta continua,
Antes, pelo avanço
Da democracia brasileira.
Agora, para que a democracia
E os direitos não se percam.
Quem é de luta está comigo
E eu com ele(a).
Aos golpistas,
A lata de lixo
E a vala comum. -
Novo FEBEAPÁ: o golpe de 2016
FEBEAPÁ (Festival de Besteiras que Assola o País) é o título de uma série de três livros escritos pelo cronista, escritor, radialista e compositor brasileiro Sérgio Marcus Rangel Porto (Rio de Janeiro, 11 de janeiro de 1923 — 30 de setembro de 1968), mais conhecido por seu pseudônimo Stanislaw Ponte Preta. No FEBEAPÁ, Ponte Preta ironizava as pérolas dos anos iniciais da Ditadura Militar brasileira. Pois não é que com o golpe de 2016, um novo FEBEAPÁ está acontecendo na vida política e social brasileira!Conta-nos, Stanislaw, que nos anos 60 do século passado, a repressão invadiu um sindicato à procura de todos os livros do “comunista comedor de criancinhas” Karl Marx, o velho filósofo alemão que viveu no século XIX, mas que acabou fichado no DOPS (órgão da ditadura brasileira) como figura muito suspeita que ameaçava o regime. O primeiro livro estranho encontrado foi levado e queimado na rua por ter a capa vermelha. Era uma Bíblia doada aos líderes sindicais do mundo inteiro pelo Papa João XXIII, durante uma solenidade de São José Operário, em algum 1º de maio. Mas, como estava escrita em latim e, ainda, com capa vermelha, só podia ser coisa de comunista ateu (risos). “O Capital”, livro de Marx, permaneceu incólume, pois tinha capa preta e edição discreta. Agora, nos tempos do usurpador golpista temerário, do deputado Bolsonaro, que elogia torturadores na sessão do impeachment, de Eduardo Cunha, que apronta todas e nunca vai preso e dos parlamentares obscurantistas, uma professora do Paraná foi afastada da escola – pasmem! – por ensinar as teorias de Karl Marx na aula de sociologia, coisa que consta do curriculum de qualquer escola brasileira, americana, inglesa ou japonesa que preze por oferecer um ensino de qualidade.A julgar pelo ridículo e pelo desmonte das políticas públicas que o governo golpista está operando em apenas dois meses, todos os professores de História, Ciências, Sociologia, Geografia e Filosofia que se preparem, pois a nova ditadura “temerária” brasileira, que pôs fim à Nova República inaugurada por Tancredo Neves em 1985, vai em breve nos censurar e perseguir por ensinar Paulo Freire, Milton Santos, Guerra Fria, evolucionismo darwinista, cultura afro-brasileira e indígena, teoria do subdesenvolvimento e o artigo 5º da Constituição de 1988, aquele que trata sobre os direitos dos cidadãos e cidadãs do Brasil.Não bastasse querer elevar a aposentadoria para 70 anos, entregar o pré-sal para as multinacionais americanas, aumentar a jornada diária de trabalho de oito para doze horas, agora é a tal da “Escola Sem Partido”, defendida pelo ator pornô Alexandre Frota na visita que fez ao Ministro da Educação do governo golpista de Temer, ainda em maio.Fora Dilma! Bem-vinda nova ditadura! A história se repetindo, como em 1964. Quantos serão torturados e mortos novamente? -
Texto do Levon: Quem é o inimigo a ser morto?
Bem, o esperado está acontecendo.Primeiro, demonizaram o PT e esconderam a podridão dos outros partidos (PSDB, PMDB, PP, PTB, etc.), muito maiores do que as do PT. E é fácil provar que são realmente muito maiores. Depois, tramaram contra Lula que, apesar de nem ser réu, não podia ser nomeado ministro, enquanto que o governo golpista está cheio de investigados na Lava-jato e em outras lambanças, sem contar Eduardo Cunha na presidência da Câmara, mesmo com a revelação das contas na Suíça. Em seguida, o impeachment de Dilma, mulher honesta, que não cometeu crime de responsabilidade. Agora, justamente no período eleitoral, bloqueiam a conta do PT. A desculpa, como sempre, é a de combater a corrupção. Mas só tem PT nesse emaranhado de 35 partidos políticos? É só desculpa. O objetivo é cortar o financiamento das candidaturas de petistas e deixar livres os demais. Justamente, os demais!O tolo que acredita que a corrupção está sendo combatida com a destruição do PT deve achar que, enfim, o Brasil se tornará um mar de rosas. Pobre coitado! Asno!
É um golpe. O PT é apenas o símbolo do inimigo a ser combatido. Só o símbolo. O verdadeiro inimigo a ser “morto”, extirpado como um câncer, é o pobre, é o trabalhador, é aquele que vai perder os poucos direitos que conquistou na última década, durante os governos petistas:
* Valorização do salário mínimo,
* “Minha Casa Minha Vida”,
* PAC,
* ProUni,
* Fies,
* Brasil Sem Fronteiras,
* Luz para Todos,
* Água para Todos,
* Caminhos da Escola,
* Bolsa Família,
* Cotas para pobres, negros e indígenas,
* Políticas de proteção à mulher,
* Pronaf,
* Previdência social,
* “Mais Médicos”,
* Escolas técnicas,
* Institutos federais,
* Concursos públicos,
* 14 novas universidades,
* Integração latino-americana,
* Inclusão de 40 milhões de pessoas retiradas da extrema miséria, etc…Anos sombrios e terríveis pela frente, só porque você gritou “Fora Dilma e leve o PT junto”. Prepare-se para sofrer. -
Texto do Levon: Dialética
É pobre, é preto, é puta, é branco pobre, é indígena, é quilombola, é mulher consciente, é mulher pobre e preta, é menor, é sem terra, é sem teto, é de esquerda, é petista, é gay, é lésbica, é menor infrator, é empregado, é empregada doméstica: vale menos do que um cachorro de madame.É rico, é aparentemente rico, é branco, é branco rico, é mulher-objeto, é madame, é empresário, é empreendedor, é dono de casa boa ou apartamento, é hétero, é machão, é menor infrator filho de rico ou de classe média alta, é dono de terras, é dono de imóveis, é patrão: vale mais do que Deus. -
Artigo do Levon: Diálogo e fascismo
Vixe! É outro artigo de opinião desse tal de Levon! Eu não vou nem ler! Petralha doente! Só fala de Lula e Dilma! É um cego! Vai pra Cuba!Calma! Vamos dialogar?Uma das marcas do período conturbado pelo qual o Brasil está passando é a extrema polarização das posições políticas, as quais deixaram o terreno fértil do diálogo e da liberdade de expressão e adentraram ao pântano das perigosas simplificações, dos dogmatismos e do ódio fascista.Por quais motivos?O petismo foi um modo de governo de esquerda moderado, que nada teve de socialista ou comunista, a não ser os aliados e a referência moral, que buscou a conciliação com as elites e patrocinou políticas macroeconômicas tipicamente capitalistas, permitindo imensos lucros aos grandes bancos e aos setores hegemônicos da burguesia nacional e que mexeu pouco na estrutura social do Brasil, propiciando que os setores populares, antes totalmente excluídos, tivessem acesso ao consumo e a alguns direitos sociais. Porém, mesmo este pouco de inclusão, que retirou 40 milhões de brasileiros da condição de extrema pobreza, desagradou à conservadora classe dominante nacional, secularmente beneficiária das desigualdades.O ódio fascista foi fomentadoNo caso da classe média, imageticamente retratada pelo jocoso termo “coxinha”, pesa o fato dela ser tão classe trabalhadora quanto as demais classes populares, mas ideologicamente identificada, inspirada e desejosa de ser parte da assim denominada burguesia, ou classe opressora. Daí decorre que não deve ser motivo de espanto, pelo menos para quem quiser sociologicamente analisar, o fato de ser a classe média, tão sofredora quanto as demais categorias oprimidas, a contribuir com o maior contingente de indivíduos que defendem e propagam a irracional ideologia do fascismo brasileiro. Some-se a isto o conservadorismo estético, típico dos estratos médios de sociedades que passaram por longos períodos de domínio colonial, e a extrema religiosidade de caráter privado, centrada atualmente no que se denominou chamar de teologia da prosperidade.Dito isso, se entende o porquê da classe média bradar palavras de ordem que deixariam corados de vergonha quaisquer indivíduos que se dedicassem a um estudo mínimo de História, como, por exemplo, os famosos: “vai pra Cuba”, “petralha é tudo comunista”, “fascismo é ideologia de esquerda” e outras falácias. Quanto a Cuba, qualquer observador da cena internacional sabe que a ilha dos Castro caminha claramente para a abertura de seu mercado. A Guerra Fria dos anos 60 ficou longe. Até Barak Obama e os Rolling Stones já foram dar o seu abraço a Fidel. Supor que o petismo levaria o Brasil para uma ditadura comunista é de fazer o velho Marx ou Stalin se revirarem de raiva no caixão. Em qual comunismo os bancos lucrariam tanto e os pobres receberiam incentivos para comprar, comprar e comprar? E, se o fascismo era de esquerda, por que então as vítimas prediletas de Hitler e Mussolini, depois dos judeus, eram os camaradas esquerdistas, comumente alcunhados de “os bolcheviques” ou “os porcos vermelhos”? Não. O fascismo era uma ideologia de direita. De extrema direita. E que punha em risco os próprios conceitos burgueses de democracia e liberdade de expressão. Por isto foi combatido, ainda que tardiamente, pelos Aliados. Isto, evidentemente, não retira das esquerdas mundiais a responsabilidade de fazerem autocrítica quanto aos massacres perpetrados por regimes como o soviético, o chinês e o norte-coreano. Não se deve tapar os olhos para os crimes da extrema-esquerda, para não se cair no dogmatismo obscurantista da extrema-direita.Mas a esquerda brasileira também errou, principalmente por não ter disputado a hegemonia ideológica durante os anos dourados do lulismo (segundo mandato de Lula). Houve um raciocínio acomodatício que se conformou apenas com as quatro vitórias consecutivas em eleições presidenciais. O espaço ideológico junto à classe média ficou vazio. A classe média, ela própria, beneficiária de tantas políticas inclusivas dos governos petistas, como o PROUNI, o SISU, o Brasil Sem Fronteiras, a valorização real do salário mínimo, o estímulo aos concursos públicos, o aumento de vagas em universidades públicas e em institutos federais, além das ações de cunho moralizante, como o fortalecimento da Controladoria Geral da União, do MPF e a autonomia de fato da Polícia Federal. De vazio, este campo foi ocupado pelos grupos elitistas que enxergaram no fascismo, ou seja, na manipulação dos medos, da ignorância histórico-conceitual e nos seculares preconceitos de classe, uma porta para a retomada do poder central (fato concretizado com o golpe do impeachment por pedaladas fiscais) e para a extinção das conquistas alcançadas pelas classes dominadas (inclusive da própria classe média, que agora poderá ser vítima do aumento da idade para se aposentar e de outros golpes do governo ilegítimo).Nos artigos de opinião que escrevo, tenho sido vítima dos xingamentos típicos de indivíduos que foram, involuntariamente, inoculados pela doença do ódio fascista. Gente que não se incomoda de ter Eduardo Cunha como parceiro de suas “lutas”. Antes, eu me afligia e sofria. Tinha raiva. Hoje, vejo que é meu dever de cidadão brasileiro e – por que não? – atitude de cristão, ajudar a estes co-irmãos a avançarem em suas visões de mundo, seja pela leitura crítica ou pelo contradito conceitual.Talvez pese que, realmente, eu seja um militante das minhas ideias, inclusive político-partidariamente, mas eu não os odeio. Apenas, quero dialogar respeitosamente com eles. -
Capazes de vender o Brasil e os brasileiros enrolados na Bandeira Nacional
* Levon Nascimento“A nossa bandeira jamais será vermelha” – gritam os manifestantes da classe média branca pelas ruas das principais capitais brasileiras, vestindo a camisa amarela (ou azul) da corrupta CBF, com os rostos pintados de verde-amarelo e paramentados com todo tipo de enfeite – quando não, com o próprio – que mimetizam o pavilhão nacional (Bandeira do Brasil). Não! Não é uma cena extraída do túnel do tempo, direto de 1964, do contexto de polarização capitalismo X socialismo, típico da Guerra Fria. Ocorre no ano de 2016, em pleno século XXI, tendo como pano de fundo os governos do PT, partido que, mesmo se declarando de esquerda, conduziu um governo genuinamente de estímulo ao mercado capitalista, seja ele o de consumo, através do Bolsa Família e dos demais programas de inclusão social, seja o financeiro, facilitando os altos lucros bancários através de taxas de juros elevadas. Causa espanto ver pessoas supostamente estudadas e bem informadas acreditando que os governos Lula e Dilma tramam a implantação de uma “ditadura comunista” (sic). É a típica ignorância da classe média que, como diz o sociólogo Jessé de Souza, é sadomasoquista, pois prefere mobilizar e vocalizar bandeiras de interesse da alta burguesia financeira e industrial, que a prejudica com altos preços em bens e serviços, do que reconhecer-se explorada e unir-se à luta dos demais trabalhadores. Na ausência de discurso ou de projeto minimamente racional, essa gente prefere se alimentar do vazio das teorias conspiratórias e enxergar no fantasma do comunismo, em plena era da globalização, o sentido para mascarar suas frustrações, medos e preconceitos. Ignorantemente perfilada com o neoliberalismo desnacionalizante, faz isto vestida com a bandeira nacional. Haja contradição! Mas não enxergam.A história da Bandeira Nacional é curiosa. Originalmente foi desenha pelo pintor francês Jean-Baptiste Debret – artista que veio nas missões artísticas patrocinadas por dom João VI – por encomenda de Pedro I assim que a independência foi proclamada em 1822. É composta de um retângulo verde, representando a casa de Bragança, família do imperador, e de um losango amarelo, símbolo da casa real austríaca dos Habsburgo, dinastia da primeira imperatriz brasileira, dona Leopoldina. Com a República, o brasão do Império em seu centro foi substituído por uma esfera azul, ornada de estrelas brancas – referentes às unidades da federação –, conforme a disposição das constelações visíveis no céu do Rio de Janeiro durante a noite de 15 de novembro de 1889, e por uma faixa igualmente branca onde está escrita a frase “Ordem e Progresso”, lema do positivismo francês – influência sobre as mentes dos militares brasileiros que deram o golpe republicano – que dava sentido ao imperialismo e neocolonialismo explorador europeu em fins do século XIX. Sim, a frase “Ordem e Progresso” não tem nada de nobre! Os que a inventaram pensavam tão somente na manutenção da “ordem” capitalista e exploratória dos povos brancos europeus sobre o resto do planeta. O “progresso” desejado por eles era o mesmo dos que não se importam em desmatar, poluir ou deixar barragens de rejeitos de minério se romperem sobre povoados desprotegidos e grandes rios de importância regional, como a Samarco fez em Mariana recentemente. Mesmo assim, nada tira a beleza do “símbolo augusto da paz” – como canta o Hino à Bandeira – nem seu sentido afetivo de sinal maior da união de todos os brasileiros. A Bandeira do Brasil não pertence apenas aos que vociferam odientos, favoráveis ao golpe de estado travestido pelo termo anglo impeachment. Ela igualmente é dos trabalhadores, artistas, intelectuais e estudantes que marcham de vermelho pela democracia, bradando “Não vai ter golpe! Vai ter luta”! Ou, mais legitimamente a estes últimos.As pessoas que se vestem de Bandeira Nacional para gritar “Fora Dilma”, “Fora Lula”, “Fora PT”, “Menos Paulo Freire”, “Somos milhões de Cunhas” ou “Abaixo o Comunismo” acham que são os legítimos e verdadeiros brasileiros. Triste e perigoso engano fascista! Da mesma forma, referem-se a si mesmos como os “cidadãos de bem”. De resto, em seu pervertido raciocínio, os que não embarcaram na degradante aventura golpista do impeachment são “do mal” e antibrasileiros. Aí se justifica a inepta frase “Nossa bandeira jamais será vermelha” ou a idiotice de crer que cada manifestante de vermelho estaria nas passeatas de esquerda porque recebeu trinta reais ou uma merenda de pão com mortadela. Essa gente não percebe que as manifestações majoritariamente de verde e amarelo defendem o retrocesso civilizatório, a destruição da democracia brasileira e os instintos mesquinhos daqueles que em absolutamente nada corroboram com o interesse nacional. As grandes corporações financeiras e midiáticas, que defendem o afastamento de Dilma e insuflam as massas de rua contra ela, subscrevem o aprofundamento da ideologia neoliberal mais selvagem, planejam o sucateamento da Petrobrás e a entrega de mão beijada dos direitos de exploração do pré-sal às petroleiras estrangeiras, anseiam pela redução dos gastos sociais e dos direitos trabalhistas, o que devolverá à miséria milhões de famílias incluídas nos últimos 14 anos de governos petistas e propõem levar a efeito um amplo programa de privatizações que terminará por mercantilizar os nossos já débeis serviços básicos. Querem retomar a integração subalterna à ALCA e aos organismos financeiros internacionais, como o FMI, interrompida pelo governo Lula. Enfim, nada mais antinacional do que os ativistas vestidos de verde e amarelo nas manifestações anti-Dilma. Eles “odeiam” o Brasil, detestam sua gente e cultura popular, idolatram os modos e valores norte-americanos e europeus. Não se envergonham de sofrer da secular patologia social denominada “complexo de vira-latas”, máxima cunhada por Nelson Rodrigues.Ao contrário, as multidões que saem de vermelho às ruas, da cor da luta dos povos oprimidos em todos os lugres do mundo e tempos da História, que nada têm de fanáticos torcedores de um eterno Fla X Flu político, como imaginam os ingênuos “apolíticos” ou “apartidários”, imbuídas de cívica e verdadeira consciência cidadã e democrática, lutam pela manutenção e ampliação da ainda recente e incompleta democracia brasileira. Defendem que os recursos nacionais estejam sob o controle das instituições do Estado e da sociedade do Brasil. Promovem a politização da sociedade para que os bens e serviços pátrios fiquem a cargo do bem comum, da inclusão social e da igualdade de condições. Expressam seu repúdio à mercantilização dos valores brasileiros para fins do lucro insaciável de apenas alguns, muitos destes estrangeiros. Trágica e ironicamente, as multidões de vermelho são, de fato, nacionalistas e defensoras da soberania brasileira.É um tempo contraditório e complexo o que o Brasil passa nestes dias. Trajados de vermelho, uma cor internacionalista e sinal da consciência de classe, estão os legítimos defensores da Pátria. Vestidos com a Bandeira Nacional, como se somente a eles pertencesse, estão os que foram seduzidos pela sereia do fascismo e que não pensariam duas vezes antes de vender o Brasil numa bandeja de prata aos interesses ególatras do imperialismo mundial.* Levon Nascimento é professor de História e mestrando em “Estado, Governo e Políticas Públicas” pela FLACSO Brasil (Faculdade Latino-americana de Ciências Sociais). -
Claro como o sol e escuro como a noite
É nítido como a luz que brilha o quadro político brasileiro atual. As forças que perderam o comando do país em 2002, com a eleição de Lula para a presidência do país, querem dar um golpe de estado e destituir a Presidenta Dilma Rousseff. Quando não os mesmos, têm idêntico DNA dos que levaram Getúlio Vargas ao suicídio, tumultuaram o mandato de Juscelino Kubistchek, conclamaram o golpe de 1964 contra João Goulart e as Reformas de Base, deram suporte político e ideológico à ditadura civil-militar (1964-1985) e nunca engoliram a chegada do torneiro mecânico e da guerrilheira mineira ao posto máximo da República. Emprestaram a cadeira que sempre lhes pertenceu, desde que Cabral pôs os pés nesta terra, mas agora querem retomá-la a qualquer custo. Como não conseguiram em 2014, com seu candidato aviador, não se importam em manchar a imagem do país com um novo golpe, desta vez de inspiração hondurenho-paraguaio, midiático-judicial.Sim, trata-se de um golpe de estado! E não há como dizer que não é. Dirão que o impeachment está previsto na Constituição de 1988, que já foi usado contra Collor, etc. É verdade. Mas se esquecem de que o impeachment(cassação do mandato do presidente da República) só é permito pela Carta Magna quando há comprovação inequívoca de cometimento de crime de responsabilidade. Com Collor, havia dezenas de provas. Com Dilma, apesar do esforço da mídia, da oposição política e de setores do judiciário, não se provou exatamente nada contra ela. A Rede Globo tenta fazer a população acreditar de que se trata de uma “ladra, vagabunda e desequilibrada”. O juiz Moro quebra seu sigilo telefônico e “vaza a jato” no Jornal Nacional. Mas, tudo o que conseguiram provar é de se trata de uma mulher de fibra, que não se vergou aos torturadores da ditadura nem aos abutres – da atualidade – que a querem fora (viva ou morta) do cargo para o qual foi reconduzida com mais de 54 milhões de votos.É um golpe, sim! Com dois anos de investigação da Lava-jato, quebra de sigilo telefônico e dezenas de delações premiadas, nada se provou contra a honestidade de Dilma Rousseff. Tanto é um golpe que, apesar de todos os rumores acerca da Petrobrás, para pedir o seu impeachmentna Câmara, tiveram que inventar como motivo as tais “Pedaladas Fiscais”. Sim! Dilma não está ameaçada de perder o cargo de presidenta por conta do “Petrolão”. Querem cassar o seu mandato por causa das “pedaladas fiscais”. Aposto que você não sabia! A grande mídia, que manipula e aliena as pessoas, não faz questão de lhe explicar.Segundo a tese das pedaladas, Dilma teria cometido crime porque, ao iniciar os meses sem dinheiro no caixa do Tesouro Nacional, pegou dinheiro no Banco do Brasil e na Caixa Econômica Federal – que são instituições públicas, sob seu comando, inclusive – para pagar os gastos do governo com os programas sociais: Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, ProUni, etc. Posteriormente, quando o dinheiro entrava no caixa, repassava-o de volta aos bancos federais. Em outras palavras, não estão “tirando” Dilma do poder porque ela pegou dinheiro público e pôs no próprio bolso, mas porque, assim como uma mãe, ela preferiu retirar dinheiro dos bancos ao invés de atrasar os compromissos com os programas sociais que tanto contribuem na inclusão de milhões de brasileiros pobres e trabalhadores. É necessário acrescentar que, vários outros presidentes antes de Dilma também realizaram as pedaladas fiscais e não sofreram impeachment, assim como diversos governadores de estado e prefeitos municipais. O vice Michel Temer, quando no exercício da presidência, também praticou as tais pedaladas. Se Dilma deixar de ser presidente por isto, então todos os governadores e prefeitos deveriam ser cassados.É um golpe de estado! E isto fica claro quando se percebe que a tal planilha ou lista da empreiteira Odebrecht, fruto das investigações da operação Lava-jato, contém mais de 300 nomes de políticos brasileiros, de quase todos os partidos políticos, menos os de Lula e Dilma. Enquanto que as gravações telefônicas dos dois foram divulgadas com estardalhaço pelo juiz Moro e pela Globo, sem nada provar contra eles, sobre a mesma lista, que levaria os “moralistas sem moral” à cadeia, também o mesmo juiz decretou sigilo judicial e o Jornal Nacional fez escandaloso silêncio. Acho que você nem sabia da existência dessa lista!É um golpe, sim! Pois os que agora tramam a queda de Dilma já negociam como seria o pacto do futuro governo comandado pelo vice Michel Temer. Em acordo com o PSDB, aquele mesmo que foi derrotado nas últimas quatro eleições presidenciais, Temer liquidaria com a Petrobrás, acabaria com o controle brasileiro sobre o pré-sal (por Lula destinado à saúde e à educação) e o entregaria à exploração das petroleiras americanas, daria prosseguimento à política tucana de privatização selvagem, reduziria os direitos sociais conquistados nos governos do PT, acabaria com as políticas públicas de inclusão social, perseguiria os movimentos sociais e a esquerda política e, pasmem!, abafaria a operação Lava-jato, de modo que ela ficasse restrita apenas à punição e execração pública dos petistas, salvando os corruptos e corruptores dos demais partidos políticos.É um golpe, sim! Uma presidenta sobre a qual, apesar de tanta investigação, não se conseguiu provar nenhum envolvimento em crimes ou roubalheiras, mas que pelo contrário, dá autonomia à Polícia Federal para que investigue a tudo e todos, inclusive os de seu próprio partido e a ela mesma, sendo ameaçada de perder o mais alto cargo da República, conquistado com a aprovação de mais de 54 milhões de votos, por um político mais sujo do que pau de galinheiro, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara dos Deputados, com mais de duas dezenas de processos, provas de contas secretas na Suíça, machista declarado, contrário aos direitos sociais e atolado até o pescoço em corrupção. Metade dos deputados escolhidos para compor a comissão que analisa o impeachment de Dilma na Câmara é investigada na Lava-jato ou tem outros processos pesando contra si. São os verdadeiros corruptos posando de bons moços e ameaçando o mandato da presidenta, contra a qual não pesa atos de corrupção.É um golpe, sim! O país está em crise econômica. A luz, os combustíveis e os alimentos estão caros. O desemprego avança. Mas grande mídia não explica que é uma crise mundial. E que esta crise afetou o Brasil. Mas que o Brasil, apesar de tudo, passa por ela melhor do que a média dos demais países do mundo. Quem se lembra de outras crises pelas quais o Brasil já foi atingido sabe que havia quadros de fome generalizada. Hoje, apesar da gasolina alta, a maioria dos brasileiros tem carro ou moto e não deixa de rodar. Pode ter reduzido certos hábitos de consumo, mas nem de longe deixa de se alimentar. No passado, antes dos governos Lula e Dilma, quando se falava em crise no Brasil, o quadro era africano. A crise econômica atual é ampliada pela turbulência política. Enquanto não deixarem Dilma governar em paz, ela não passará. O golpe do impeachment só agravará a situação.É um golpe, sim! Está nítido e cristalino. É tão claro como o sol que raiou pela manhã. Nenhuma pessoa que está calada, apenas observando, poderá dizer no futuro que não tinha conhecimento ou de que fez confusão sobre os lados desta batalha. Embora ninguém seja anjo neste jogo, está muito claro quem são e quem não são os demônios. É de uma clareza insólita qual é o lado certo e qual é o lado errado, quem realmente está do lado povo e quem está contra. Há o golpismo e a defesa da jovem democracia brasileira. Se você não compreender a clareza solar desta situação e não se posicionar, o Brasil será envergonhado internacionalmente por mais um golpe de estado e se transformará numa realidade tão escura quanto a noite. Ficar no muro também é tomar partido, do lado dos golpistas. A História julgará cada um pelo lado que escolher.* Levon Nascimento é professor de História e mestrando em “Estado, Governo e Políticas Públicas” pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais. -
Artigo do Levon: Fascismo brasileiro
Inúmeras fontes afirmam que Adolf Hitler, Heinrich Himmler, Joseph Goebbels e outros próceres do nazismo eram pessoas dóceis e gentis no contato íntimo e interpessoal. Poderiam ser definidas como “boas pessoas”, amáveis, educadas e, pasmem!, honestas. O problema é que sofriam de uma patologia social chamada “fascismo”. Para os fascistas, uma parte da humanidade – a que eles pertencem – é pura, limpa, honesta e boa. Esta, na opinião dos que sofrem a “doença” fascista, é boa e merece viver. “Direitos humanos para humanos direitos” – eles falam. Já os demais, os diferentes, os judeus, os negros, os comunistas, os deficientes físicos e mentais… estes, no modo de pensar fascista, são sujos, impuros, imperfeitos, desnecessários, corruptos e não merecem viver. A ideologia fascista desumaniza e transforma em “demônios” as pessoas aparentemente diferentes ou que não pensam igual aos fascistas.Acontece que o fascismo é muito bom de propaganda. Antes de chegarem ao poder, eles convencem a maioria da população de que o “outro” – o “diferente” – não presta, é impuro, é corrupto e merece morrer. “Bandido bom é bandido morto” – eles afirmam. Assim, quando têm o poder nas mãos, os fascistas, em nome da bondade e do combate à maldade e à corrupção, praticam todas as crueldades possíveis contra aqueles que não se enquadram em suas ideias. Como já tinham feito a cabeça da maioria do povo, as maldades não são questionadas pela população que, pelo contrário, apoia, aprova e acha “normal” a banalização da violência, da perseguição e do “banimento” dos “impuros”.No Brasil atual, a Rede Globo e outras mídias, setores do Judiciário, da Polícia Federal e do Ministério Público têm feito o papel de estimular o fascismo. Vê-se boas pessoas, pais e mães de família, religiosos, gente cristã e honesta brandindo palavras de ordem com agressividade e violência. São amáveis e dóceis em casa e socialmente, mas quando se toca no tema da política, seu semblante se transforma e elas passam a vociferar ideias, no mínimo, questionáveis do ponto de vista dos avanços civilizatórios dos últimos dois séculos. Os petralhas, como eles chamam a qualquer pessoa que ouse pensar diferente do que eles propagam, ainda que não sejam formalmente filiados ao Partido dos Trabalhadores, são os novos judeus. Na pregação dos fascistas brasileiros, existiriam dois tipos de petistas: os “burros”, que seguem as lideranças, e os “bandidos”, que formariam uma quadrilha para assaltar o país.Desta forma, não importa se há provas dizendo que Lula e Dilma não roubaram na Petrobrás. A simples denúncia contra um deles ou contra qualquer petista é repetida na mídia como se já fosse uma comprovação de culpa, de modo a levar as massas a acreditarem que se tratam de pessoas extremamente corruptas, depravadas e imorais. Da mesma forma, qualquer cidadão que ouse defender a democracia, mesmo sendo crítico a certos pontos do governo atual, sofre desde linchamento moral a até mesmo agressões físicas, como as que ocorreram esta semana na Avenida Paulista, contra pessoas que usavam a cor vermelha, símbolo das lutas populares de esquerda no mundo inteiro.Assim, na escalada perigosa do fascismo brasileiro, os petistas são os novos judeus – sujos, imundos, corruptos e bandidos. Contra eles e seus líderes nacionais – Lula e Dilma – tudo é permitido: grampear, vazar informações, prender sem provas e fazer o impeachment mesmo que a presidenta não tenha cometido crime de responsabilidade conforme reza a Constituição Federal. Já contra os comprovadamente corruptos, como Aécio Neves, Geraldo Alckmin, Eduardo Cunha et caterva, blindagem na mídia, lentidão da justiça e hipocrisia da classe média.O resultado do fascismo na Alemanha e na Itália, a História já nos deu a conhecer. E no Brasil? Como será?É preciso que você faça um exame de consciência. Eu estou me deixando conduzir por ideias fascistas? Como faço para restabelecer minha saúde intelectual e social? E, se eu que agora bato palmas para as medidas adotadas contra os petistas for vítima delas daqui a algum tempo? -
Artigo do Levon: Estradas no deserto, rios em terra seca
Muitos companheiros não creem. Nem é minha intenção fazê-los acreditar. Ainda mais numa época em que a fé tem sido instrumentalizada para alimentar o preconceito desvairado e o fascismo depravado. Quero é compartilhar com vocês como a fé dialoga comigo neste tempo de angústias e incertezas, de modo a atiçar esperanças e a motivar a luta. Sim, a fé também é combustível para os que lutam à esquerda, por uma sociedade mais justa e igualitária. Não é monopólio dos trogloditas do fundamentalismo.A liturgia (católica)deste tão emblemático dia 13 de março de 2016, 5º domingo do tempo da Quaresma, traz como primeira leitura um trecho da profecia de Isaías (43,16-21). Aos olhos de quem entende a escritura não como um tratado de regras sobrenaturais e anacrônicas, mas como um amparo interpretativo para a humanidade inserida nos contextos históricos, o profeta proclama: “Não relembreis coisas passadas, não olheis para fatos antigos. Eis que eu farei coisas novas, e que já estão surgindo: acaso não as reconheceis? Pois abrirei uma estrada no deserto e farei correr rios na terra seca (…)” (Is 43,19).Aos olhos do militante de fé, este texto ilustra muito bem a angústia dos dias atuais. Vemos renascer das sombras o fascismo, a intolerância, a militância irracional (nas ruas e nas redes sociais) dos velhos medos e ódios de classe, incomodada com as conquistas populares alcançadas na última década. Um monstro de ódio que transforma pessoas em zumbis agressivos a reverberar palavras de horror, rancor e destruição. Hoje mesmo, neste de 13 de março, o “demônio” sai às ruas propugnando o retrocesso como novo ídolo para a “salvação” do Brasil. Grita contra a corrupção convocado e ladeado pelos maiores corruptos e corruptores da Pátria. Não se envergonha em clamar contra o direito do pobre, como se fosse ele a causa dos problemas econômicos e sociais da Nação. Não se importa que os poderes do Estado desviem-se para o linchamento moral e o justiçamento daqueles que buscaram, ainda que incipientemente, a inclusão de milhões de irmãos e irmãs “mais fracos”. Não almeja a devida justiça ou correção legítima e ampla de eventuais desvios.Em que a palavra de Isaías, escrita na velha Palestina, àquela altura como agora, vítima da ocupação imperialista das potências estrangeiras, resistindo a partir de sua fé e cultura, tem a dizer ao militante de fé no contexto brasileiro de 2016? Que tenha esperança! Que não se resigne a acreditar que o passado de golpes se repetirá inexoravelmente, nem se apegue às velhas cartilhas e métodos (“Não relembreis coisas passas, não olheis para fatos antigos”). Claro, isto não é um incitamento à negação da história, nem ao revisionismo. Pelo contrário, é um indicativo para a construção da novidade, ainda que em realidade adversa. Aliás, sempre foi difícil para nós, conforme jargão já vulgarizado. Não é tempo para lamentações ou indicação de culpas. É hora da unidade das esquerdas e de todos os que lutam por um mundo mais justo e fraterno. É momento de verificar as novidades que, assim como do parto dolorido vem à luz a bela criança, nascem neste tempo tão insano (“Eis que eu farei coisas novas, e que já estão surgindo: acaso não as reconheceis?”). Os meninos que ocuparam as escolas de São Paulo contra a “reorganização” neoliberal, os movimentos sociais combativos sem a mordaça institucional dos partidos, a juventude que tem se reconhecido como “de esquerda” ante ao avanço irracional do fundamentalismo e, mesmo os velhos camaradas de lutas, diante do sacrifício imposto pelas Lava-jatos da vida, que se rendam ao novo e inaugurarem uma nova era de lutas. Construamos estradas no deserto da Paulista. Façamos jorrar rios na terra seca das instituições instrumentalizadas pela velha elite egoísta ou por seus lacaios temerosos da perda de privilégios.A fé indica que há esperança em meio a este mar de angústia. Na mesma liturgia, Jesus rompe com as tradições de justiçamento judaicas ao absolver a adúltera. “Quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra” (João 8,7b). Palavra certeira para o carola e justiceiro juiz Sérgio Moro, tão rígido e hipócrita como um fariseu daquele tempo. Rígido com petistas. Hipócrita e seletivo para com as inúmeras denúncias a tucanos e congêneres. “Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?” – pergunta Jesus a ela em João 8,10. A mulher responde: “Ninguém, Senhor”. Ao que ele lhe afirma “Eu também não te condeno” (Jo 8,11). Vemos que a fé, corretamente vivida, passa longe dos julgamentos sumários ou linchamentos morais de nossos juízes, procuradores, mídia e igrejas bancárias. Contrariamente, é reeducação, compreensão, inclusão e retorno ao convívio da normalidade democrática.Enfim, também é da palavra da liturgia deste 13/03 que nos vem a certeza, conforme o salmista cantou (Salmo 125): “Os que lançam as sementes entre lágrimas, ceifarão com alegria”. Semeemos, semeemos, semeemos, lutemos… pois a luta continua… com alegria… sempre! Ceifaremos! -
Direitos Humanos e Fascismo no Brasil
Defender os direitos humanos e os básicos direitos dos animais são atitudes similares, que emanam dos mesmos sentimentos comuns de justiça, compaixão, misericórdia e solidariedade. Quem não é capaz de defender os animais, tampouco defenderá seres humanos. E vice e versa. (8 de abril de 2015)
Brasileiro é mesmo muito manipulado pela mídia. Sai às ruas para pedir “Fora Dilma” porque a TV e as redes sociais mandam. Mas se cala quando seus próprios direitos podem ser retirados. O Congresso Nacional pode aprovar, nos próximos dias, o PL que permite a “Terceirização” do seu emprego. Mas, como a mídia não não disse nada, você nem sabe o que está acontecendo. E, como sempre, coloca a culpa na Dilma e no PT. É mais cômodo! (8 de abril de 2015)
Há seres humanos que sentem prazer em ser cruéis. Temos muitos deles na política e na sociedade. Mas, graças a Deus, tanto nesta como naquela, há os que vivem a justiça, a compaixão, a solidariedade e o compromisso com a dignidade humana. (8 de abril de 2015) -
Reflexões: redução da maioridade penal e ditadura militar
Sobre a redução da maioridade penal praticamente aprovada no Congresso: é mais fácil agir como Pôncio Pilatos, lavando as mãos, entregando o problema à polícia e às cadeias, do que como Jesus, ensinando, curando, perdoando, integrando e transformando vidas. Pense. (31 de março de 2015)
Há 51 anos o Brasil derrubava a democracia e embarcava numa longa e sombria noite que durou 21 anos: o golpe civil-militar de 1964 e sua sanguinária ditadura. Hoje, infelizmente, ainda vemos loucos, aproveitando-se da democracia para pedir intervenção militar. É a história, antes tragédia, repetindo-se como farsa. Que Deus nos proteja da insanidade e da crueldade. (31 de março de 2015) -
É possível fazer críticas ao governo Dilma, mas…
É possível fazer críticas ao governo Dilma, ou a qualquer governo, pelo campo popular e pelo campo elitista. Este último representado através das manifestações que exalam ódio, dos que pedem intervenção militar e daqueles que, hipocritamente, enxergam a corrupção como algo restrito ao PT. Não me representam. Defendo a integridade do mandato da presidenta, mas sou crítico pela esquerda. Creio que as conquistas sociais dos últimos 12 anos estão em risco e que é urgente dar respostas ao campo popular. É óbvio que com Aécio seria a repetição do inferno neoliberal dos anos 1990, com um governo subserviente ao capital financeiro internacional. Porém, isto não dá direito a Dilma de se submeter a Joaquim Levy na integridade do seu pacote fiscal. -
Artigo do Levon: Os que amam a democracia
* Levon Nascimento
No modelo de democracia que foi escolhido para o Brasil, o candidato que obtém a maioria dos votos é eleito. Na última eleição presidencial, Dilma Rousseff (PT) derrotou Aécio Neves (PSDB) em votação de 2º turno. Quem ganha governa, goste-se disso ou não. Quem perde, tem a obrigação cívica de fazer o contraponto e a oposição democrática. Qualquer coisa diferente disso é golpe ou crime.
Mas o que se vê no Brasil neste início de 2015 é uma tentativa absurda de impedir que a candidata vitoriosa nas urnas possa exercer o direito de comandar o país. Do problema climático da falta de chuvas até a corrupção na Petrobrás, alega-se de tudo para conseguir o impedimento (ou “impeachment”) da mandatária-mor da Nação brasileira, ainda que ela não esteja na lista da Operação Lava-jato, organizada pelo Procurador Geral da República, enquanto até mesmo expoentes da oposição lá constam. Ninguém demonstra, efetivamente e com provas, qual crime teria cometido a primeira mulher Presidenta da República, que servisse de motivo para a cassação do mandato soberanamente conferido a ela pelo povo. Mas isto pouco importa aos que a querem expulsar do Planalto. Disso resulta a tese de que se trata de uma tentativa imoral de golpe de estado.
Ninguém é obrigado a gostar de um governo. Nem mesmo quem nele votou. Os direitos à liberdade de expressão, à mudança de opinião ou mesmo o de fazer oposição estão garantidos em nossa Constituição Federal de 1988. Aliás, aqui se faz um parêntese para informar que a atual Constituição brasileira é fruto dos esforços de todos aqueles que lutaram contra os 21 anos de ditadura militar.
Aquele regime ditatorial nasceu de outro golpe, o de 1º de abril de 1964. Ali, assim como hoje, as elites brasileiras, descontentes com os rumos nacionalistas e populares das políticas implantadas pelo Presidente João Goulart (PTB), tramaram e derrubaram um presidente democraticamente eleito pelo povo para por no lugar um governo autoritário, despótico, que censurou, torturou, retirou liberdades democráticas e acobertou a corrupção de seus aliados como nunca antes na história. Fez isto porque não foi incomodado, nem pela imprensa, muito menos pelo Judiciário ou por uma oposição de verdade. Todos os que levantaram a voz foram cassados, perseguidos, exilados, presos ou mortos. Uma das que muito bradou contra aquela ditadura foi a jovem estudante mineira Dilma Rousseff, hoje presidenta, mais uma vez vítima da insensatez de nossas classes abastadas. Vários dos que desejaram a queda de João Goulart e saíram às ruas pedindo a sua deposição, depois foram vítimas da ditadura que ajudaram a implantar. Que o mesmo não ocorra nos dias atuais.
O que me deixa apreensivo neste processo que o Brasil está vivendo é a hipocrisia. Os que querem o “impeachment” de Dilma veem o quanto a vida dos mais pobres melhorou, mesmo que ainda não o suficiente e necessário. Mas veem. E, horrendamente, é isto que os revolta. Querem derrubar a Presidenta Dilma não por conta da corrupção. Eles fingem que a corrupção é restrita a este governo, ao PT ou a este momento histórico. Sabem que ela é endêmica, sempre existiu nas práticas empresariais e políticas, e que já foi muito maior quando não havia investigação e recebia a conivência da grande mídia. Mas insistem em defender os que mais corromperam e destruíram este país, as suas elites abjetas e racistas. Tempos tristes e sombrios os que vivemos. Parece que estamos assistindo à repetição de nossos piores momentos: o suicídio de Vargas, o golpe de 1964 e a ditadura dali resultante, a ascensão do fascismo e do nazismo, com sua propaganda de pureza e realidade de campos de concentração. É o mal em sua forma mais grotesca. O egoísmo em estado bruto. A bestialidade encarnada. Porém travestida de boas intenções e de patriotismo verde-amarelo. Resta-nos, como disse Olga Benário certa vez, a esperança e o compromisso com “o justo, o bom e o melhor do mundo”.
Neste momento, quem ama a democracia de coração, independentemente de partido ou de gostar ou não do atual governo, defenderá a integridade do mandato da Presidenta Dilma Rousseff, em favor da boa manutenção das instituições do Estado e do bem estar do Povo brasileiro.
* Levon Nascimento é professor de História e sociólogo. -
O ódio a Lula, Dilma e ao PT

O ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva e a atual
presidenta Dilma Rousseff, ambos filiados ao
Partido dos Trabalhadores (PT)O ódio em relação ao Lula, à Dilma, em particular, e aos petistas, em geral, é porque eles estão criando uma nação onde as pessoas se transformam em sujeitos de direitos. Não mais sujeitos de favores, como antes. Os programas sociais não são esmolas a desvalidos. São a obrigação de um Estado – que sempre serviu “bolsas” vultosas à sua elite – para com o restante de sua população, na tentativa de criar equilíbrio sócio-econômico.
Evidentemente que não se criou o paraíso, nem que tudo esteja às mil maravilhas no Brasil. Há contradições imensas. Nenhum governo é perfeito. Mas, sem dúvida, estes (Lula e Dilma) são os melhores que já tivemos – sem partidarismo na análise, basta que se recorra aos estudos históricos para confirmar. As crises e as dificuldades de qualquer caminhada transformadora se agigantam a cada nova conquista.
O ódio que se ventila em muitos ambientes significa, nada mais, nada menos, que o velho Brasil esperneia buscando impedir que os da “casa grande” cedam lugar aos da “senzala”.











