Tag: Campanha da Fraternidade

  • Domingo de Ramos: a simplicidade do jumentinho também nas relações de consumo

    Domingo de Ramos: a simplicidade do jumentinho também nas relações de consumo

    A Campanha da Fraternidade de 2025 traz um convite urgente: como mudar nossa maneira de pensar e agir para cuidar melhor do planeta, nossa Casa Comum? Inspirados pelas leituras do Domingo de Ramos e pela encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco, somos chamados a uma transformação profunda — não só de atitudes externas, mas do nosso coração. É preciso ouvir o grito da Terra e dos mais pobres como um chamado de Deus.

    Escutar para mudar (Isaías 50,4-7) – O profeta Isaías fala de um servo que, mesmo sofrendo, continua ouvindo a voz de Deus. Esse ouvir atento é o primeiro passo para cuidar melhor do mundo. O Papa Francisco lembra: “Esquecemos que também somos Terra”. O servo que acorda todo dia para escutar nos mostra que precisamos estar atentos todos os dias à vida ao nosso redor. Em um mundo onde o consumo e a exploração são comuns, é preciso ter coragem para dizer não à indiferença e sim ao cuidado.

    Humildade que liberta (Filipenses 2,6-11) – São Paulo fala de Jesus, que se esvaziou de todo orgulho para servir. Esse “esvaziamento” é o contrário da ideia de querer dominar tudo, inclusive a natureza. Para cuidar do planeta, precisamos ser humildes, reconhecer que fazemos parte de uma grande rede de vida. Como diz o Papa: “Tudo está conectado”. A verdadeira grandeza está em servir — inclusive a criação.

    Simplicidade que fala alto (Lucas 19,28-40) – Jesus entra em Jerusalém montado num jumento — um símbolo de simplicidade, bem diferente dos cavalos usados por reis e guerreiros. Cuidar do meio ambiente também exige simplicidade: consumir menos, usar energias limpas, viver de forma mais consciente. Quando os fariseus pedem que Jesus mande os discípulos se calarem, ele responde: “Se eles se calarem, as pedras gritarão”. Hoje, quem grita são os rios poluídos, as florestas destruídas, o ar contaminado. A criação está clamando por socorro.

    Da dor à esperança (Salmo 21/22) – O salmo começa com um grito de dor: “Meu Deus, por que me abandonaste?”, mas termina com esperança e louvor. Esse caminho também é o da conversão ecológica: perceber o sofrimento da Terra e, mesmo assim, ter fé e agir. Mesmo em meio a problemas como ganância, poluição e injustiça, Deus não nos abandona. A Páscoa nos lembra que a vida pode renascer — há esperança de renovação.

    A conversão é uma resposta – Cuidar do planeta não é só uma questão técnica, mas espiritual. Converter-se é escutar como o servo, ser humilde como Jesus, viver com simplicidade e transformar a dor em esperança. A Campanha da Fraternidade nos convida a transformar nossa fé em ação. Se ficarmos calados, a própria natureza vai gritar. Mas se respondermos, seremos parte do canto da criação, que proclama: “Jesus Cristo é o Senhor”. Que neste Domingo de Ramos, ao estendermos nossos mantos no caminho, este gesto de partilha nos inspire a construir um mundo onde a paz do céu se reflita aqui na Terra.

  • Apedrejar a Terra adulterada ou cuidar da Casa Comum? (5º Domingo / Quaresma 2025)

    Apedrejar a Terra adulterada ou cuidar da Casa Comum? (5º Domingo / Quaresma 2025)

    A Campanha da Fraternidade 2025, com o tema “Fraternidade e Ecologia Integral” e o lema “Deus viu que tudo era muito bom” (Gn 1,31), convida-nos a uma reflexão profunda sobre nossa relação com a criação, em sintonia com a espiritualidade quaresmal. As leituras do 5º Domingo da Quaresma (06/04/2025) oferecem um horizonte teológico e prático para essa conexão, unindo conversão pessoal, justiça social e cuidado com a Casa Comum.

    Isaías 43,16-21: Deus faz novas todas as coisas

    O profeta Isaías anuncia um futuro transformador: “Eis que eu farei coisas novas” (v. 19). A imagem de rios brotando no deserto simboliza a capacidade divina de restaurar a vida em meio à aridez. Essa promessa ressoa com a urgência da Ecologia Integral, que clama por ações concretas para reverter a crise socioambiental. A Campanha da Fraternidade 2025, inspirada nas palavras do Papa Francisco na encíclica Laudato Si’ e na COP-30, propõe justamente essa renovação: abandonar modelos predatórios e abraçar um novo paradigma de harmonia, onde a natureza não é explorada, mas reverenciada como dom sagrado. O convite a “não olhar para o passado” (v. 18) desafia-nos a superar a inércia e assumir responsabilidades, como sugere o texto-base da CF 2025 ao denunciar “falsas soluções” ambientais.

    Salmo 125(126): A alegria da colheita após o deserto

    O salmo celebra a alegria da restauração: “Os que lançam as sementes entre lágrimas, ceifarão com alegria” (v. 5). A metáfora agrícola remete à ecologia como trabalho paciente e coletivo. A Campanha da Fraternidade enfatiza que a sustentabilidade exige esforço contínuo, desde práticas pedagógicas em escolas até a defesa de comunidades afetadas por crimes ambientais. A “colheita” de um mundo mais justo só virá se semearmos hoje gestos de cuidado, como propõe a CF 2025 ao incentivar projetos de hortas comunitárias, consumo consciente e redução de emissões de gases de efeito estufa.

    Filipenses 3,8-14: Correr para a meta, esquecendo o que ficou para trás

    Paulo afirma: “Esquecendo o que fica para trás, eu me lanço para o que está na frente” (v. 13). Essa dinâmica de conversão integral ecoa o objetivo da Campanha: superar o pecado da indiferença ecológica e adotar um estilo de vida coerente com a fé. A Ecologia Integral, como eixo transversal da CF 2025, exige uma mudança radical no modelo econômico e no consumo. Paulo nos lembra que a meta, a “ressurreição” (v. 11), só é alcançada quando abandonamos o que nos afasta do projeto de Deus, incluindo a exploração desmedida dos recursos naturais.

    João 8,1-11: Misericórdia e responsabilidade coletiva

    O episódio da mulher adúltera revela a pedagogia de Jesus: condena o julgamento hipócrita e convida à transformação pessoal (“Não peques mais”, v. 11). A CF 2025, ao denunciar a “crise antropológica” por trás da degradação ambiental, recorda que a ecologia começa com o reconhecimento de nossa fragilidade. Não basta apontar culpados; é preciso, como Jesus, agir com misericórdia e compromisso. A mulher, restaurada em sua dignidade, simboliza a Terra ferida que clama por justiça, um apelo central da Campanha, que defende vítimas de catástrofes e crimes ambientais e climáticas.

    Quaresma, tempo de reconstruir a aliança

    As leituras deste Domingo iluminam a Quaresma como jornada de renovação da aliança: com Deus, com os irmãos e com a criação. A Campanha da Fraternidade 2025, ao vincular fé e ecologia, convida-nos a ser artífices dessa reconciliação. Se Isaías fala de “rios no deserto”, a CF propõe gestos concretos — da compostagem às mobilizações políticas. Se o Salmo canta a colheita, a Campanha nos lembra que “tudo está interligado” (Laudato Si’). E se o Evangelho nos liberta da condenação, a Ecologia Integral exige que, como Paulo, corramos sem hesitar rumo a um futuro onde a vida, em todas as suas formas, seja celebrada como “muito boa”.

    Neste Ano Jubilar, a Quaresma é tempo de ouvir o grito da Terra e dos pobres, e responder com ações que traduzam o lamento em louvor. Como escreveu São Francisco no Cântico das Criaturas, há 800 anos, a criação é espelho do Criador. Cabe a nós preservar esse reflexo, transformando cinzas em esperança.

  • Conversão ecológica: um chamado quaresmal (Quarto Domingo da Quaresma, 2025)

    Conversão ecológica: um chamado quaresmal (Quarto Domingo da Quaresma, 2025)

    A Quaresma nos convida à conversão, um retorno ao essencial. Em 2025, a Campanha da Fraternidade, com o tema Ecologia Integral, desafia-nos a ampliar essa conversão para nossa relação com a criação. As leituras do quarto domingo da Quaresma (30/03/2025) oferecem um mapa espiritual para essa jornada, unindo fé e cuidado com a Casa Comum.

    Primeira Leitura (Josué 5,9a.10-12): Ao entrar na Terra Prometida, os israelitas celebram a Páscoa e substituem o maná pelos frutos da terra. O fim do maná simboliza a transição de uma dependência passiva para uma gestão ativa dos recursos. Deus confia a eles a terra, mas exige responsabilidade. Hoje, a Ecologia Integral nos chama a reconhecer que a Terra é um empréstimo sagrado. Como afirma o Papa Francisco em Laudato Si’ (LS 67), “cada comunidade pode tomar da bondade da terra aquilo de que necessita para a sua sobrevivência, mas tem também o dever de protegê-la”. A colheita sustentável de Canaã é um modelo para nosso uso consciente dos bens naturais.

    Salmo 33(34): “Provai e vede quão suave é o Senhor!” [Sl 33(34),9]. O salmo celebra a bondade de Deus, experimentada na criação. Se “o Senhor ouve o clamor dos pobres” [Sl 33(34),7], também escuta o grito da Terra, explorada por um sistema que privilegia o lucro sobre a vida. A Ecologia Integral nos convida a “saborear” a natureza não como consumidores, mas como contemplativos, reconhecendo nela um sacramento da presença divina. A gratidão deve traduzir-se em ações que preservem a biodiversidade e garantam justiça socioambiental.

    Segunda Leitura (2 Coríntios 5,17-21): “Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura” (2Cor 5,17). Paulo fala de uma reconciliação que transcende o humano: Cristo veio “reconciliar consigo mesmo tudo o que existe” (Cl 1,20). A “nova criação” inclui a restauração dos ecossistemas. Como embaixadores de Cristo, somos chamados a sanar rupturas: entre humanos e Deus, entre povos e entre a humanidade e a Terra. A Ecologia Integral, como propõe a Laudato Si’ (LS 91), lembra que “tudo está interligado”, exigindo uma conversão que una justiça social e ambiental.

    Evangelho (Lucas 15,1-3.11-32): A parábola do filho pródigo ilustra o drama humano: o jovem esbanja recursos e só reconhece seu erro na escassez. Sua volta à casa paterna é metáfora da conversão ecológica: é preciso frear a exploração desmedida e retornar ao equilíbrio. O pai, que corre ao encontro do filho, reflete a misericórdia divina, ansiosa por restaurar relações. Já o irmão mais velho, que critica a festa, simboliza a resistência à mudança, como aqueles que negam a crise climática. A Quaresma nos convida à festa da reconciliação, incluindo a Terra na celebração.

    Neste tempo de penitência, as leituras nos desafiam a jejuar do consumismo, orar pela criação e agir como embaixadores da reconciliação. A Ecologia Integral não é opção, mas imperativo evangélico. Como o filho pródigo, precisamos dizer: “Pai, pequei contra o céu, contra ti e contra a Terra”. E ouvir, no perdão, um chamado à renovação. Que o quarto domingo da Quaresma nos encontre, como diz o salmo, “procurando a paz e seguindo seu caminho” [Sl 33(34),15], rumo a uma ecologia de comunhão, onde tudo seja cuidado como dom divino.

  • Sarça e Figueira: sinais de uma conversão que renova o coração e a Terra (3° Dom/Quaresma 2025)

    Sarça e Figueira: sinais de uma conversão que renova o coração e a Terra (3° Dom/Quaresma 2025)

    A Quaresma deste ano é um convite para redescobrirmos a mão de Deus agindo na natureza. Não se trata apenas de um momento de oração, mas de um chamado para vivermos uma fé que abraça não só o espírito, mas também o chão que pisamos, o ar que respiramos e todas as formas de vida que nos rodeiam. A Campanha da Fraternidade 2025, com seu tema Ecologia Integral, chega como um lembrete urgente: como estamos cuidando da nossa Casa Comum?

    Vamos mergulhar nas leituras do Terceiro Domingo da Quaresma (23/03/2025) para encontrar respostas que unem céu e terra.

    Na passagem da sarça ardente (Êxodo 3,1-8.13-15), Moisés se surpreende com um mistério divino que arde no meio do deserto. A sarça não é consumida pelo fogo, revelando um Deus que está presente na vida que persiste, mesmo em meio à aridez. Não é bonito pensar que o Criador escolheu uma planta para revelar seu nome? Isso nos desafia: será que hoje reconhecemos Sua voz nos rios, nas florestas e até nas pequenas ações de cuidado com a criação?

    Já São Paulo, em 1 Coríntios 10,1-6.10-12, nos alerta com a força de quem conhece as fraquezas humanas. Ele lembra que uma fé desconectada da prática vira algo vazio, como água que escorre sem nutrir a terra. Quantas vezes caímos na armadilha de rezar sem agir, de criticar sem cuidar, de consumir sem pensar nas consequências? O apóstolo nos sacode: não basta crer; é preciso transformar.

    O Evangelho de Lucas 13,1-9 traz a parábola da figueira estéril. Imagine a cena: uma árvore que não dá frutos está prestes a ser cortada, mas ganha uma última chance. O agricultor pede tempo para cavar a terra, adubá-la, dar-lhe atenção. Essa é a paciência de Deus conosco! Ele não desiste de nós, mas nos chama a dar frutos de justiça e cuidado. A pergunta é: o que estamos fazendo com o “tempo extra” que recebemos para mudar nossos hábitos, reduzir desperdícios ou defender os mais vulneráveis?

    Quando unimos essas lições bíblicas aos ensinamentos da Doutrina Social da Igreja e da encíclica Laudato Si’, vemos que a Ecologia Integral não é só um conceito, mas um estilo de vida. O Papa Francisco nos lembra que “tudo está interligado”. Não há amor a Deus sem respeito à Sua criação, nem justiça social sem equilíbrio ambiental.

    Que tal começar hoje? Pequenos gestos contam: evitar o plástico descartável, apoiar projetos comunitários, ou simplesmente contemplar um pôr do sol com gratidão. A conversão ecológica não é um peso, mas um caminho de esperança — porque, assim como a sarça ardente e a figueira renovada, nós também podemos ser sinais de que um mundo mais fraterno e verde é possível.

    E você? Qual “terra seca” em sua vida precisa ser adubada para florescer? 🌱

  • Terra Transfigurada: aliança e esperança na Ecologia Integral (2° Dom/Quaresma)

    Terra Transfigurada: aliança e esperança na Ecologia Integral (2° Dom/Quaresma)

    Por Levon Nascimento

    A Quaresma não é só um tempo de mudança interior, mas também de transformação do mundo ao nosso redor. Em 2025, a Campanha da Fraternidade traz o tema Ecologia Integral, nos convidando a olhar para as leituras do segundo domingo da Quaresma e perceber a conexão profunda entre humanidade e criação. Nos textos de Gênesis 15, Filipenses 3-4 e Lucas 9, há um chamado claro para reconciliarmos nossa relação com a Terra, ecoando a mensagem do Papa Francisco na Laudato Si’: “Tudo está interligado”.

    A aliança da Terra (Gênesis 15,5-12.17-18). Deus leva Abrão para a Terra Prometida, um lugar fértil e cheio de vida, a “Casa Comum” de nossos primitivos pais na fé, onde sua descendência poderá viver (Gn 15,5-7). Mas essa promessa não se limita a um povo — ela inclui a própria terra como um dom para todos. O ritual dos animais partidos (Gn 15,9-10) sela uma aliança firme: a Terra é presente de Deus, não um recurso para exploração desenfreada. No entanto, hoje quebramos esse pacto quando desmatamos florestas e poluímos rios. A Ecologia Integral nos lembra que cuidar da criação não é uma escolha opcional, mas um compromisso sagrado.

    Cidadania celeste e responsabilidade na Terra (Filipenses 3,17–4,1). Paulo alerta: “O destino deles é a perdição; o deus deles é o ventre” (Fl 3,19). Quando transformamos a natureza em simples mercadoria, perdemos de vista nossa verdadeira missão. Nossa cidadania está no céu (Fl 3,20), mas isso não significa que devemos ignorar a Terra — pelo contrário, somos chamados a cuidar dela. A esperança na ressurreição inclui também a “libertação da criação” (Rm 8,21). Por isso, a Ecologia Integral é um ato de fé: protegemos a Terra porque esperamos “um Salvador que transformará nosso corpo” (Fl 3,21) e renovará toda a criação.

    A glória que transforma o mundo (Lucas 9,28-36). No Monte Tabor, Jesus se transfigura diante dos discípulos, e Moisés e Elias falam sobre seu sacrifício, que trará redenção a toda a criação (Lc 9,31). A voz do Pai ordena: “Escutai-o!” (Lc 9,35). E o que Jesus faz depois? Ele desce da montanha para alimentar multidões (Lc 9,10-17), curar os doentes e lutar contra a injustiça. A Transfiguração não é uma fuga da realidade, mas um convite a enxergar que o mundo pode ser transformado. A Ecologia Integral nos desafia a ouvir esse chamado e buscar mudanças reais, adotando modelos econômicos e sociais que promovam a vida, não a destruição.

    A Quaresma de 2025 nos propõe um jejum diferente: abrir mão da ganância para que a Terra possa respirar. A Campanha da Fraternidade, à luz dessas leituras, nos convida a sair do egoísmo e abraçar uma aliança de cuidado com a criação. Que a promessa feita a Abrão (Abraão) — uma Terra onde corre leite e mel — nos inspire a construir, hoje, um mundo onde a glória de Deus se manifeste em cada gesto de justiça e cuidado com a vida.

  • Antítese

    Antítese


    Primeiro Dia
    “No princípio, Deus criou os céus e a terra. […] Deus disse: ‘Haja luz’, e houve luz. […] E Deus chamou à luz Dia, e às trevas chamou Noite. […] E houve tarde e manhã, o primeiro dia” (Gn 1,1-5).
    …e a ambição pairou sobre o vazio das consciências. E os humanos disseram: “Façamos da Terra nossa serva”. E assim, em vez de luz, ergueu-se a fumaça das chaminés, e as trevas cobriram o céu de partículas que sufocam as estrelas.


    Segundo Dia
    “Depois Deus disse: ‘Haja um firmamento entre as águas, separando umas das outras’. […] E Deus chamou ao firmamento Céu. […] E houve tarde e manhã, o segundo dia” (Gn 1,6-8).
    …os rios, outrora límpidos, foram trespassados por venenos. Agrotóxicos escorreram como sangue envenenado sobre o solo, e as águas, que um dia geraram vida, tornaram-se cemitérios líquidos. Os peixes boiaram de barriga para cima, e as crianças já não puderam beber das fontes que seus avós cantavam.


    Terceiro Dia
    “Então Deus disse: ‘Ajuntem-se as águas debaixo do céu num só lugar, e apareça a parte seca’. […] A terra fez brotar vegetação: plantas […] e árvores frutíferas. […] E houve tarde e manhã, o terceiro dia” (Gn 1,9-13).
    …as florestas gemeram. Motosserras substituíram o sopro da criação, e os biomas — Amazônia, Cerrado, Pantanal, Caatinga — foram reduzidos a desertos de tocos e cinzas. As queimadas, como dragões modernos, cuspiram fogo sobre o verde, e o ar carregou o luto das árvores em forma de carbono. As sementes, que um dia prometiam frutos, agora germinam plástico.


    Quarto Dia
    “Disse também Deus: ‘Haja luminares no firmamento do céu […] para governar o dia e a noite’. […] Deus fez os dois grandes luminares: o Sol e a Lua. […] E houve tarde e manhã, o quarto dia” (Gn 1,14-19).
    …os montes foram trespassados. A mineração escavou entranhas, despejando lama tóxica sobre vilas e rios. Barragens romperam-se, engolindo sonhos e histórias, enquanto o ouro extraído brilhou nos palácios de poucos, manchado do sangue de muitos. Nas crateras abertas, a terra chora ferida, e ninguém ouve.


    Quinto Dia
    “E disse Deus: ‘Povoem-se as águas de seres vivos, e voem as aves sobre a terra’. […] Criou […] todos os seres que povoam as águas e todas as aves. […] E houve tarde e manhã, o quinto dia” (Gênesis 1,20-23).
    …os céus e os mares empobreceram. As aves, outrora livres, caíram sob redes de caça e céus intoxicados. Nos oceanos, ilhas de lixo sufocaram tartarugas, e os corais, palácios submersos, branquearam-se em agonia. A cada hora, espécies são apagadas do livro da vida, e seus nomes viram poeira em arquivos esquecidos.


    Sexto Dia
    “Disse ainda Deus: ‘Produza a terra seres vivos […] e animais selvagens!’ […] Então Deus disse: ‘Façamos o homem à nossa imagem’. […] E Deus os abençoou, dizendo: ‘Sede fecundos e enchei a terra’. […] E houve tarde e manhã, o sexto dia” (Gn 1,24-31).
    …os povos originários clamaram. Suas terras sagradas foram invadidas por tratores e cercas, seus cantos abafados pelo rugido das máquinas. Enquanto isso, nas cidades de concreto, multidões marcharam sob máscaras, engolindo fumaça, e os filhos dos pobres herdaram desertos onde antes havia jardins. A fome, irmã da ganância, espalhou-se como praga.


    Sétimo Dia
    “No sétimo dia, Deus já havia concluído a obra que realizara […] e nesse dia descansou de toda a obra que tinha feito. Abençoou Deus o sétimo dia e o santificou” (Gn 2,2-3).
    …os humanos não descansaram. Seguiram cavando, queimando, poluindo, até que a Terra, exaurida, começou a tremer. Os mares subiram, as tempestades rugiram, e o clima, outrora estável, enlouqueceu. E os que diziam “dominar” o planeta viram-se reféns de sua própria insensatez.


    E assim, a criação tornou-se maldição. Onde havia harmonia, ergueu-se o caos; onde havia abundância, brotou a escassez; onde havia vida, multiplicou-se o luto. E os humanos, ao espelho de sua obra,
    perguntaram-se: “O que fizemos?” Mas já era tarde — o Éden fora vendido a preço de ferro, fogo e lucro.

    Eis o relato da anti-criação: uma narrativa escrita não pela mão divina, mas pela ganância que transformou paraísos em infernos. Que este texto não seja profecia, senão um alerta — enquanto há tempo de reescrevê-lo.

  • A Quaresma e a Campanha da Fraternidade 2025: um chamado à conversão ecológica

    A Quaresma e a Campanha da Fraternidade 2025: um chamado à conversão ecológica

    A Quaresma é um período de 40 dias na liturgia católica que antecede a Páscoa, celebrando a ressurreição de Jesus Cristo. É um tempo de reflexão, penitência, oração e conversão, no qual os fiéis são convidados a se aproximar de Deus por meio do jejum, da caridade e da oração. A Quaresma é um momento propício para renovar a fé e viver uma vida mais alinhada com os valores do Evangelho.

    A Campanha da Fraternidade (CF) é uma iniciativa da Igreja Católica no Brasil, realizada anualmente durante a Quaresma, com o objetivo de promover a solidariedade, a justiça social e a conversão pessoal e comunitária. Desde 1964, a CF aborda temas relevantes para a sociedade, convidando os fiéis a refletir e agir em prol do bem comum.

    Em 2025, a Campanha da Fraternidade terá como tema “Fraternidade e Ecologia Integral” e o lema “Deus viu que tudo era muito bom” (Gn 1,31). O tema chama a atenção para a necessidade de cuidar da criação, reconhecendo que tudo o que Deus criou é bom e que o ser humano tem a responsabilidade de proteger e preservar a natureza. A ecologia integral, proposta pelo Papa Francisco na encíclica Laudato Si’, vai além do cuidado com o meio ambiente, abrangendo também as dimensões sociais, econômicas e espirituais da vida humana.

    O lema “Deus viu que tudo era muito bom” remete ao relato bíblico da criação, no qual Deus contempla sua obra e a declara boa. Esse versículo nos convida a reconhecer a beleza e a bondade da criação, mas também a refletir sobre como o pecado humano tem ferido essa harmonia. A CF 2025 nos desafia a viver uma conversão ecológica, mudando nossos hábitos e atitudes para cuidar da “Casa Comum”, o planeta Terra.

    A vivência da Campanha da Fraternidade durante a Quaresma é profundamente significativa. A Quaresma é um tempo de conversão, e a CF 2025 nos convida a uma conversão integral, que inclui o cuidado com o meio ambiente. A ecologia integral não se limita à preservação da natureza, mas também envolve a justiça social, o respeito aos povos indígenas e tradicionais, e a busca por um modelo de desenvolvimento mais sustentável.

    Ao unir a Quaresma e a Campanha da Fraternidade, a Igreja nos convida a viver um tempo de profunda reflexão e ação. A Quaresma nos prepara para a Páscoa, celebrando a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte, enquanto a CF 2025 nos desafia a ser agentes de transformação no mundo, cuidando da criação e promovendo a fraternidade universal.

    Portanto, a Campanha da Fraternidade 2025, com seu tema e lema, nos convida a viver a Quaresma de forma mais consciente e comprometida, reconhecendo que a conversão ecológica é um caminho essencial para a construção de um mundo mais justo, solidário e sustentável. Que este tempo quaresmal seja uma oportunidade para renovarmos nosso compromisso com Deus, com o próximo e com a criação.

  • "Eu vim para servir" é o lema da Campanha da Fraternidade 2015

    Começa nesta Quarta-feira de Cinzas um precioso tempo que Deus nos dá para a mudança de vida, a conversão e o serviço aos que sofrem: a Quaresma. Junto com ela, a Campanha da Fraternidade. Como cristãos, busquemos, a exemplo de Cristo, ficar do lado “dos órfãos e das viúvas” (os mais pobres e excluídos em sentido amplo).

    O tema da Campanha da Fraternidade de 2015 da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) é “Fraternidade: Igreja e Sociedade”. Já o lema, baseado no Evangelho de São Marcos, capítulo 10, versículo 45, é “Eu vim para servir”.

  • Fraternidade e Juventude: da tragédia à esperança

    Artigo do Padre Gledson Eduardo de Miranda Assis, de Montes Claros – MG.


    Hoje, dia em que escrevo este artigo, é segunda-feira de carnaval. Já desde ontem esboçava algumas (ou a maioria) das ideias esboçadas aqui. Na quarta-feira, chamada “de cinzas”, a Igreja inicia o tempo da quaresma e, concomitantemente, há anos, vive Campanha da Fraternidade (CF), já tradicionalizada no contexto brasileiro. Neste ano de 2013 a CF versa sobre o tema da juventude. Tema pertinente e importante, uma vez que havia 21 anos não tínhamos uma campanha sobre a juventude. Aliás, pelo que disseram nos bastidores, incompreensivelmente, essa CF só foi conseguida pelo recolhimento de centenas de milhares de assinaturas e pedidos, quase que implorando à CNBB a prioridade à causa da juventude.


    Bastidores a parte, não podemos deixar de considerar que a CF desse ano, sobre a juventude, foi antecipada pela ceifa de mais de 200 jovens na recente tragédia de Santa Maria (RS), acontecimento, sem sombra de dúvidas, desolador. Que pensar? Vontade de Deus? Certamente não. Contudo, como lembra Leonardo Boff, “mesmo naquilo que não é vontade de Deus nós podemos perceber PRESENÇA DE DEUS”. Isso é mais importante. E essa presença de Deus, mesmo diante de um fato tão assolador para tantas famílias, nos ajuda a refletir algumas coisas importantes (que, inclusive, já refleti com o povo em algumas celebrações).


    Aos que partiram, infelizmente só nos resta a oração pelo conforto de seus familiares. Mas e os jovens que ainda estão neste mundo correndo os mesmos riscos? A eles e a nós é dada a oportunidade de revermos algumas atitudes, como, por exemplo: 1) A consciência de que não posso colocar 1000 pessoas onde só cabem 600, independente da margem de “lucro” que isso vá me trazer; 2) que não posso forrar um lugar fechado com material inflamável; 3) que não posso soltar fogos de artifício tóxicos em lugares fechados… e assim por diante. Mas será que a partir dessa tragédia o mundo vai agir diferente? Talvez não. E isso é que deve ser visto como causa de preocupação.

    Agora todos estão tentando identificar os culpados: prefeitura, bombeiros, boite, banda, etc… Mas ainda há mais uma realidade que precisa ser considerada e que certamente ainda não foi porque talvez seja a mais dolorida de ter que se reconhecer: infelizmente, meus amores, quase nenhum daqueles jovens que estavam lá procuraram antes saber se aquele lugar oferecia segurança a eles quando entraram. Infelizmente nenhum de nós faz isso. Somos convidados para festas em salões, por mais sofisticados que sejam, e simplesmente vamos entrando, mas nunca nos preocupamos em saber se tais lugares nos dão a segurança necessária ante uma fatalidade. E quando não damos atenção a isso, corremos o risco de nós mesmos, com nossas próprias pernas, caminharmos, mesmo que inconscientemente, ao encontro da morte. Claro que donos de casas como aquela devem oferecer segurança às pessoas que as frequentam. Mas ninguém cuida de nós ou se preocupa melhor conosco tanto quanto nós mesmos. Por mais que se preveja segurança, nada sobrevive a uma fatalidade de tal porte.


    Lembro-me que numa das reportagens transmitidas pela TV uma jovem disse: “Meu pai sempre me dizia pra olhar nos lugares onde eu ia se tinha extintor, saídas de emergência, etc… Quando cheguei na Kiss vi que só tinha uma porta, então procurei ficar mais no fundo, perto dela, por isso não tive dificuldades para sair quando o fogo começou”. É isso! O pai, a mãe, o educador, o avó, o padrinho… pessoas que nos orientam neste sentido. Quando dizemos que uma das prioridades da Igreja é a juventude não quer dizer que sua prioridade seja cuidar dos jovens, mas sim “ajudar os jovens a cuidar de si mesmos”. A Campanha da Fraternidade desse ano quer ser um auxílio nessa conscientização. Os pais precisam ajudar seus filhos a cuidarem de si mesmos, orientando neste aspecto. Será que estamos fazendo isso? Será que vamos passar a ter estes cuidados a partir de agora? O resultado da tragédia de Santa Maria é irreversível. Mas ainda podemos olhar com esperança para o futuro que nos é proposto e fazer diferente a partir de então.


    Lembrei-me de meu pai que, com toda sua fé e simplicidade, diz assim numa ocasião como essa: “Se estivessem todos numa Igreja rezando isso não tinha acontecido”. E fiquei pensando comigo que a fatalidade mereceria outra reflexão acerca de nós mesmos? Quem pode garantir que não aconteceria se estivessem numa Igreja? Agora os bombeiros estão numa empreitada ferrenha para fiscalizar e fechar as casas noturnas impróprias para o uso. Mas e se isso tivesse acontecido numa Igreja? A essa altura as casas noturnas nem estariam sendo lembradas e nossas Igrejas é que estariam sendo todas fiscalizadas. Aliás, não é porque estamos rezando que estamos seguros. Na verdade, pode ser até o contrário. Estava refletindo sobre isso e cheguei à conclusão de que se os bombeiros fossem fiscalizar nossas Igrejas (Templos), quase nenhum deles permaneceria aberto. E aí temos que reconhecer que nossas Igrejas, na grande maioria das vezes, não oferece NENHUM tipo de segurança ao fieis que as frequentam: nenhum extintor de incêndio, nenhuma saída de emergência, nenhum sensor de fumaça (até mesmo porque se tivessem nem poderíamos mais usar o turíbulo), nenhuma placa de luminosidade indicando a saída, muitas vezes só uma porta no fundo, que é a mesma de entrada pra todo mundo. Às vezes construídas sem projeto adequado por quem é de direito, às vezes ainda em construção e em funcionamento, cheias de gambiarras de fios de eletricidade soltos pelas paredes afora.


    Pois é, queridos(as)! Talvez então tenhamos mesmo que começar por nós. Costumo brincar que se formos levar à risca os padrões de segurança para locais de grande frequência de pessoas (tiremos o foco de casas noturnas e consideremos todos os outros), nossas igrejas, na grande maioria, “não são lugares de se frequentar”. Claro que fatalidade é fatalidade e pode acontecer em qualquer lugar e tempo. De outra parte, se formos alimentar nossas neuras com todas essas coisas, nem saímos de mais de casa. Mas, também, se ficamos em casa, pode vir a enchente e nos invadir, ou o terremoto e jogar tudo por terra.

    De fato, estamos cercados de todos os lados, mas se soubermos prevenir nosso caminho e o caminho dos outros, poderemos evitar muitos males maiores. Já pensaram, por exemplo, nos shows pirotécnicos que são feitos por ocasião de nossas festas de padroeiros? Podem até ser bonitos, mas além de ser uma verdadeira queima de dinheiro, na grande maioria das vezes são realizados por pessoas sem a especialização ou autorização necessárias para tal manuseio. E não se busca especialização só “pra ficar mais baratinho, porque tem um paroquiano aqui que tem costume de fazer isso há muito tempo e faz ‘muito bem’”.   Há alguns anos (saiu em tudo que foi jornal), por ocasião do encerramento do Jubileu de São José Operário, em Barbacena, uma daquelas girândolas subiu e não estourou… desceu e estourou no meio de todo mundo. Conclusão? Anos e anos a Arquidiocese pagando indenização às vítimas. Hoje todas as programações impressas de festa de padroeiro, têm que trazer a seguinte nota: “Por determinação da Arquidiocese, a paróquia NÃO se responsabiliza por fogos de artifícios soltos durante as festividades”. Correto, por que assim, quem soltar os fogos é que assume a responsabilidade pelos mesmos.

    Só estou dizendo tudo isso porque agora no carnaval mais uma vez milhões de nossos jovens estão saindo para as ruas e, depois, também para as casas noturnas, no meio de fogos, de serpentinas metalizadas (apesar de terem sido proibidas mas ainda comercializadas) e de bebida alcoólica. Será que eles seriam capazes, sob efeito de álcool, de correr a tempo caso outra fatalidade acontecesse. Os blocos comportam mesmo a quantidade de pessoas que neles tem? Será que já nos esquecemos da tragédia de Santa Maria? Tomara que todos estejam tendo um bom carnaval e não se esqueçam de levar em conta o sinal de Santa Maria para fazermos de modo diferente a partir de então. Só depende de nós.


    Eu vos escrevo, jovens, porque sois fortes, porque a Palavra de Deus permanece em vós (1Jo 2,14c). Que a Palavra de Deus nos ilumine e a Campanha da Fraternidade deste ano ajude nossos jovens a construir um futuro melhor para suas vidas, pensando não só na curtição, mas também, e sobretudo, na prevenção, “em todo tempo e lugar”. Só assim estaremos prontos a, como Isaías, diante de Deus, oferecermo-nos também como servos disponíveis a continuar a construção do seu Reino. A Juventude é a grande esperança da Igreja. E tal esperança só se concretizará com base na disponibilidade de cada coração para o exercício da missão. Que possamos todos juntos, quando o Senhor nos perguntar: “Quem enviarei? Quem irá por nós?” Respondermos com firme e comprometida voz: “Eis-nos aqui. Envia-nos” (Is 6,8).
  • Saúde pública é o tema da Campanha da Fraternidade 2012

    A Campanha da Fraternidade (CF), ação de evangelização e promoção humana da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) que ocorre a cada ano durante o período da Quaresma, em 2012 trás como tema Fraternidade e saúde pública, sob o lema Que a saúde se difunda sobre a terra!” (Cf. Eclo, 38,8). A CF começa na quarta-feira de cinzas, 22 de fevereiro de 2012 com atividades em todas as paróquias católicas do Brasil.