Tag: capitalismo

  • A lista de Epstein

    A lista de Epstein

    A chamada “lista de Epstein” — e todo o processo que a envolve — expõe denúncias gravíssimas e relações obscuras entre figuras poderosíssimas do capitalismo global e redes de exploração e abuso. Nesse universo de poder, Donald Trump e outros bilionários aparecem como personagens centrais de um sistema profundamente corrompido, ao passo que Jair Bolsonaro surge como um de seus aliados políticos mais explícitos.

    Não é casual, portanto, que esse mesmo bloco de poder tenha se articulado contra o Papa Francisco, justamente por ele ter sido uma das vozes mais firmes na denúncia das injustiças estruturais, da mercantilização da vida e da idolatria do dinheiro.

    Se há algo que possa ser chamado de “besta do Apocalipse” ou “anticristo” em nosso tempo, ele não se apresenta em figuras míticas, mas nas engrenagens concretas desse sistema econômico desumanizante, amplamente revelado nos escândalos ligados a Epstein.

    O mais triste é ver setores da extrema-direita cristã curvarem-se diante desse poder, confundindo fé com submissão ao capital. Nesse sentido, assumir uma posição de esquerda — comprometida com justiça social, dignidade humana e solidariedade — é, a meu ver, estar muito mais próximo do ensinamento de Cristo do que das forças que o negam.


    Nome de Trump aparece em registros de voos ligados à Epstein — Foto: Reprodução
  • Será que a gente precisa vencer na vida?

    Será que a gente precisa vencer na vida?

    Resumo de leituras de Levon Nascimento

    “Vencer na vida” — quem nunca ouviu essa expressão como se fosse uma meta natural, quase uma sentença? Desde pequenos, somos atravessados por essa ideia como se ela fosse a luz no fim do túnel: para uns, vencer é ter muito dinheiro; para outros, estabilidade, respeito, ou talvez um diploma pendurado na parede. Há ainda quem enxergue a vitória como um estado subjetivo, de autorrealização. Mas, em quase todas essas versões, existe um pano de fundo comum: a meritocracia — a crença de que, com esforço e força de vontade, todo mundo chega lá.

    O site A Firma Preta (2024) resume bem essa lógica: trata-se de uma “narrativa que associa sucesso a consumo e reconhecimento”. E não faltam estudos acadêmicos para reforçar o quanto esse ideal de sucesso está entranhado nas promessas da educação, da performance e da autoimagem (UFBA, 2019; LIPOVETSKY, 1986).

    No entanto, quando olhamos de perto, essa ideologia começa a mostrar suas contradições — e feridas. Ela pressiona especialmente quem já nasce em desvantagem: jovens, pretos, pobres, mulheres. Sob o mito de que todos têm as mesmas chances, transforma a exclusão em culpa pessoal. A pesquisa da UFBA (2019) é clara: para os jovens das periferias, buscar um emprego formal vira quase uma fuga do abismo social — uma estratégia para escapar da vulnerabilidade —, mesmo quando a porta do mercado está fechada para eles.

    Com mulheres e pessoas negras, o peso é ainda maior. Elas enfrentam a dureza das estruturas desiguais e, ainda assim, são responsabilizadas pelos “fracassos” que o próprio sistema impõe. Como explica Demarchi (2010), a meritocracia funciona como um mecanismo de “naturalização das desigualdades”, mascarando injustiças sociais sob a aparência de incompetência individual.

    E os paradoxos não param por aí. Na escola pública, por exemplo, ensina-se com convicção que “estudar abre portas” (UNESP, 2015). Mas quem frequenta essas escolas sabe que as portas não são as mesmas para todos — e que há trancas invisíveis para muitos. Lipovetsky (1986) alerta que até mesmo a busca por felicidade interior, vendida como alternativa ao sucesso material, virou uma exigência sufocante. A nova regra é ter que dar certo por fora e por dentro, ser bem-sucedido e ainda parecer autêntico, calmo, resiliente.

    Essa lógica esconde um jogo cruel: ao eleger o indivíduo como único responsável por sua trajetória, ignora que o ponto de partida não é o mesmo para todos. Para quem nasce nas bordas da sociedade, “vencer na vida” é como correr uma maratona com pedras nos sapatos — e ainda sorrir para as câmeras. O fracasso vira motivo de vergonha. A Firma Preta (2024) chama atenção para isso: essa cultura gera “ansiedade e culpa”, e mina silenciosamente a saúde mental de quem não consegue alcançar o inalcançável.

    Talvez por isso seja urgente repensar o que significa “vencer”. Será que essa palavra precisa continuar sendo um troféu que poucos alcançam? E se vencer fosse, simplesmente, viver com dignidade, com tempo para respirar, com afeto e segurança? Talvez, como sugerem tantas vozes dissidentes, a verdadeira vitória seja existir sem ter que se justificar o tempo todo.

    REFERÊNCIAS
    DEMARCHI, Guilherme Silva. Crítica da ideologia meritocrática. 2010. Disponível em: https://www.academia.edu/download/104695524/2010_GuilhermeDemarchiSilva.pdf. Acesso em: 1 ago. 2025.
    FIRMA PRETA. Vencer na vida é uma ideologia? Substack, 2024. Disponível em: https://firmapreta.substack.com/p/vencer-na-vida-e-uma-ideologia. Acesso em: 1 ago. 2025.
    LIPOVETSKY, Gilles. A era do vazio. 1986. Disponível em: https://www.academia.edu/download/56368823/Gilles_Lipovetsky_-_A_Era_Do_Vazio_1.pdf. Acesso em: 1 ago. 2025.
    UFBA. Jovens e trabalho no contexto baiano. Repositório Institucional, 2019. Disponível em: https://repositorio.ufba.br/handle/ri/32266. Acesso em: 1 ago. 2025.
    UNESP. Meritocracia na educação pública. Repositório Institucional, 2015. Disponível em: https://repositorio.unesp.br/entities/publication/c8f4ad2d-4bc5-40ba-b7d7-ab165d328b47. Acesso em: 1 ago. 2025.

  • HISTÓRIA/Novo Capitalismo ou Feudalismo 2.0? O Tecnofeudalismo

    HISTÓRIA/Novo Capitalismo ou Feudalismo 2.0? O Tecnofeudalismo

    Em um mundo onde gigantes como Amazon, Google e Meta ditam as regras do jogo econômico, um termo vem ganhando força nos debates acadêmicos e midiáticos: tecnofeudalismo. Cunhado pelo economista grego Yanis Varoufakis, ex-ministro das Finanças da Grécia, o conceito foi ampliado por pensadores como Aaron Bastani, autor de “Fully Automated Luxury Communism”, e Evgeny Morozov, crítico ferrenho do poder das Big Techs. A teoria propõe uma analogia histórica ousada: as plataformas digitais operariam como senhores feudais, substituindo a lógica produtiva do capitalismo por um sistema baseado em extração de renda e controle de territórios virtuais. Mas será que o capitalismo realmente morreu? E o que define essa suposta nova era?

    No feudalismo medieval, os senhores de terra cobravam tributos (como uma parte da colheita) dos camponeses, que dependiam do acesso ao solo para sobreviver. No tecnofeudalismo, as plataformas digitais funcionariam como os novos castelos, e os usuários, criadores de conteúdo e até pequenas empresas são os “servos” que pagam com dados, atenção e taxas pelo direito de existir nesses espaços.

    Varoufakis argumenta, em entrevistas e obras citadas pelos portais Brasil247 e Outras Palavras, que o capitalismo tradicional, baseado na produção de bens e na relação entre capital e trabalho, foi substituído por um modelo em que a riqueza não vem da manufatura, mas da extração de renda digital. Plataformas como Amazon e Airbnb, por exemplo, não produzem mercadorias, mas controlam mercados inteiros, cobrando comissões e monopolizando a intermediação.

    A ideia ganhou reforço de autores como Nick Srnicek, economista britânico e coautor de “Inventing the Future”, que descreve as Big Techs como “monopólios de infraestrutura”, e Timothy Brennan, teórico marxista que vê nas plataformas uma reconfiguração radical da acumulação capitalista.

    A matéria do Blog da Boitempo, assinada pelo sociólogo Ruy Braga, destaca que, assim como a terra era o principal ativo feudal, os dados são o recurso central do tecnofeudalismo. Ao usar serviços “gratuitos” como Google ou Facebook, os usuários trabalham involuntariamente para essas empresas, gerando informações valiosas que são monetizadas via publicidade. O DIAP (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar) alerta, em análise do pesquisador José Álvaro de Lima Cardoso, que esse processo concentra poder em poucas mãos, criando monopólios que sufocam a concorrência.

    Para piorar, até capitalistas tradicionais — como donos de fábricas ou lojas — tornaram-se dependentes dessas plataformas. Um exemplo é a Amazon: pequenos comerciantes precisam pagar para ter visibilidade no marketplace, invertendo a lógica clássica em que o capitalista controlava sua cadeia produtiva. “Somos todos vassalos das Big Techs”, resume Varoufakis em entrevista à Focus Poder.

    A tese do tecnofeudalismo divide especialistas. Para seus defensores, como o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, citado pela Gazeta do Povo, há uma ruptura histórica: o capitalismo morreu, e vivemos uma transição para um sistema híbrido, onde a renda predatória substitui o lucro industrial. A matéria de O Globo ressalta que, em 2023, mais de 60% do valor das bolsas globais vinha de empresas de tecnologia, sinalizando a primazia do setor.

    Já os críticos, como aponta o economista Luiz Gonzaga Belluzzo em entrevista ao EM.com.br, veem o fenômeno como uma mutação do capitalismo, não seu fim. Eles argumentam que as Big Techs ainda operam sob lógicas de acumulação de capital, mesmo que por meio de monopólios. Outros, como a pesquisadora Virginia Eubanks, autora de “Automating Inequality” e citada pelo Outras Palavras, lembram que o Estado mantém papel crucial — seja regulando (como na UE) ou sendo cúmplice, a exemplo de subsídios a empresas nos EUA.

    Se o tecnofeudalismo é real, suas consequências são profundas. A Agência DIAP destaca a precarização do trabalho via apps como Uber, onde motoristas são “servos modernos” sem direitos, tema explorado pelo sociólogo Ricardo Antunes em estudos sobre uberização. Já o Blog da Boitempo enfatiza riscos à democracia: o controle de dados permite influenciar eleições e comportamentos, como no escândalo da Cambridge Analytica, analisado pela jornalista Carole Cadwalladr.

    Mas há esperanças. Varoufakis sugere, em entrevista à Focus Poder, que a resposta está em bens comuns digitais — plataformas públicas e cooperativas que quebrem a hegemonia das corporações. Regulações antitruste, como as leis europeias, também são apontadas como caminhos, ideia endossada pela eurodeputada Eva Kaili, citada pelo Brasil247.

    O tecnofeudalismo não é apenas um termo provocativo. Ele sintetiza inquietações sobre poder, desigualdade e liberdade na era digital, articuladas por vozes como Varoufakis, Bastani e Morozov. Se aceitarmos a analogia, precisamos repensar como distribuir renda, dados e oportunidades. Se rejeitarmos, ainda é urgente domar os monopólios que definem nosso acesso ao mundo. Como ensina a história, toda transição econômica traz crises — e escolhas. Cabe a nós decidir se seremos servos ou senhores desse novo feudo.

    Fontes consultadas: O Globo, Outras Palavras, Blog da Boitempo, EM.com.br, Brasil247, DIAP, Gazeta do Povo, Focus Poder.

  • A cultura do descarte

    A cultura do descarte

    O consumismo é consequência direta do capitalismo, que é o grande “demônio” dos tempos de hoje. Diferentemente da satisfação das necessidades fundamentais, o consumo excessivo é artificialmente estimulado e doentiamente estabelecido para enriquecer uns poucos, às custas da destruição inconsequente de todos e de tudo. Do consumismo das coisas, nasce a cultura do descarte das pessoas, que é ainda pior. Está presente em todos os lugares e situações.

    Nos ambientes mais ligados à economia do capital, empregos, mídia, comércios, relações de trabalho, nem se fala! Você vale enquanto produz. Pode ser o mais destacado e proativo “colaborador”, o mais brilhante “empreendedor”, o artista mais talentoso. Adoeceu, ficou ansioso, angustiado, tirou licença, caiu um pouco de produção… torna-se objeto para refugo.

    Pior é na família, nas comunidades e movimentos da Igreja, nas amizades… Não se iluda! O descarte também ocorre sem cerimônia nesses espaços “virtuosos”, onde o discurso da preocupação com a salvação do próximo faz parte do repertório. Assimilaram os piores exemplos da sociedade do capital. O esquecimento é praxe. Você e eu estamos a passar por isso. A lata de lixo do ostracismo está reservada para nós.

    É a obsolescência das relações humanas imitando à das coisas. Gente que não presta mais. O meio ambiente natural e o social poluídos pelo desenfreio do consumo, consumindo-se. Isso é real, cruel e anticristão.

    Se quisermos ter futuro, viver e ser felizes, mais do que votos de feliz ano novo, precisamos enfrentar o capitalismo e sua cultura de descarte, em todas as dimensões.

  • A nova face do capital

    No mundo inteiro, o capitalismo escancara suas contradições e cada vez mais deixa de ser o sistema no qual as pessoas se iludiam com a possibilidade de mobilidade (nascer pobre e ficar rico).

    Oito homens apenas têm fortuna igual à da metade do resto da humanidade, segundo a Oxfam. No Brasil, seis indivíduos são tão ricos quanto 100 milhões de brasileiros juntos.

    E não para por aí. A burguesia capitalista tem dispensado intermediários na condução de seus negócios na política. Na crise do sistema que a enriquece, ela própria quer comandar o Estado, revelando o quanto era mentirosa a ideia de que capitalismo e instituições democráticas andam juntos. Donald Trump nos Estados Unidos, João Doria em São Paulo, o prefeito de Betim, etc.: a burguesia no poder.


    E os trabalhadores? Como diria Justo Veríssimo, personagem de Chico Anísio: “Pobre que se exploda!”

    De preferência como homem-bomba.

  • Artigo do Levon: A corrupção persiste porque dá lucro


    Artigo publicado no Jornal Folha Regional (Taiobeiras/MG), edição junho/2014, página 4, ano XI, nº 232.

    A corrupção é um fenômeno recorrente em todos os modos de produção historicamente conhecidos. Mas é no capitalismo que ela se encontra mais plenamente identificada.

    Engana-se quem associa corrupção apenas a defeitos de caráter individualizados ou a uma prática cultural de determinado povo. Não é só no Brasil que há corrupção. Nem os brasileiros são os seres humanos mais suscetíveis a esta praga social. Não é correto dizer que A e B tem propensão a serem corruptos porque são eticamente mais fracos do que C e D. Não é uma questão meramente de moral. É de contexto e de conjuntura sócio-econômica.


    O capitalismo, mesmo legalmente e culturalmente estabelecido, é essencialmente corrupto porque sobrevive da expropriação do “mais valor” do trabalhador pelo proprietário dos meios de produção. O que gera e agrega valor ao produto ou serviço é o trabalho humano. Assim sendo, para se manter o sistema de lucro, é necessário “tomar indebitamente” de uma imensa parcela da sociedade o valor excedente de seu labor. E tudo isto se faz à luz de Constituições e leis plenamente reconhecidas pelo Estado Democrático de Direito. E, além da legalidade, a consciência moral não se culpa, pois a relação proprietário/proletário é moralmente e culturalmente aceita como correta e normal. O que faz levar à conclusão de que a corrupção não acontece tão somente quando o ato é ilegal e criminoso. Ela é mais profunda, está na raiz da estrutura social e dirige até mesmo as noções éticas de certo e de errado.


    Quando se foca na ideia de que a corrupção se dá apenas na decadência moral de indivíduos (políticos, funcionários públicos ou privados, líderes sociais e religiosos corruptos), perde-se de vista que junto aos corrompidos há também, com maior força, os corruptores. Em geral, eles representam os “players” do capitalismo: são as empreiteiras que levam vantagens em licitações governamentais, os bancos que, por meio de lobistas, definem as políticas macroeconômicas de todas as nações (ricas e pobres, desenvolvidas ou não), a indústria bélica que leva nações inteiras à guerra, no intuito de vender armas, a propaganda e a desinformação midiáticas, além das já conhecidas indústrias do tráfico: de drogas, de pessoas, do sexo etc.


    A corrupção persiste porque dá lucro. É o empreendimento mais rentável do mundo do capital. Como não é recomendável que se coloque “remendo de pano novo em roupa velha, pois o remendo forçará a roupa, tornando pior o rasgo” (Mateus 9,16), também não se acaba com a corrupção sem se destruir o capitalismo. É algo bem mais amplo do que falar de prisão, impunidade e repressão. É mudança de posturas e de paradigma.
  • Artigo do Levon: Consumo, logo sou?

    O modo de produção capitalista, em sua ditadura do consumo, é pródigo em tecnologias supérfluas e descartáveis. Tudo para nos fazer sentir vontade daquilo que não necessitamos. Não há freios para a indução. Todos os dias, novidades são lançadas no mercado. O objetivo não é o bem estar da pessoa humana. A meta é, sempre e mais, o acúmulo do capital e o enriquecimento de poucos indivíduos (e de seus respectivos grupos econômicos), num mundo onde bilhões de homens, mulheres, idosos e crianças são tratados como meros fantoches em suas mãos.

    O discurso e a propaganda conduzem as mentes e os corações de todos, especialmente dos mais jovens, não para os verdadeiros exercícios da sabedoria e do discernimento, mas para a alienação e a cobiça. Diariamente escutamos e vemos:
    – “Compre!”;
    – “Você não pode deixar para depois, compre agora!”;
    – “Seja feliz, peça já para o seu pai ou a sua mãe!”;
    – “Você precisa!”.

    Será que precisamos mesmo? No capitalismo, a única coisa que interessa é que o ser humano se transforme em nada mais do que um CONSUMIDOR. Você só é gente se consumir. Consumir, eis o verbo mágico dos tempos em que vivemos. “Consumo, logo sou”, poderia se dizer, parafraseando o grande filósofo Descartes. A pessoa só é vista como gente quando se porta como uma grande compradora e devoradora de bens de consumo.

    Você só é gente se consumir???
    O ser humano está se reduzindo à condição parasitária como um grande produtor de reservas de lixo, fruto do consumo desenfreado, frenético e sem planejamento. A moda e os modismos nos induzem e incutem em nós o desejo irrefreável de comprar, usar e descartar. Novamente, comprar, usar e descartar. E assim por diante, comprar, usar e descartar.

    Está chegando o dia em que a Terra, nossa casa e nossa mãe, não aguentará tanto descarte, tanto lixo, tanta cultura de morte e tanta moda de destruição voraz.

    O que é luxo para poucos se torna lixo para milhões
    Enquanto uns consomem muito, até aquilo de que não têm necessidade premente, outros, como nas periferias das cidades e do mundo, passam fome, frio e sofrem das mais variadas doenças, além de estarem sujeitos às intempéries climáticas resultantes da própria má-ação humana sobre o meio ambiente.

    Reflitamos: Que nosso consumo seja controlado e dentro do necessário para suprir a existência. Sejamos seres humanos livres. Libertos e independentes, porque há algo em nosso coração. Não mais escravos dos produtos descartáveis com os quais enfeitamos nosso corpo e nossa alma! Mais do que aparência consumista e artificial, tenhamos consistência e conteúdo interior.
  • Artigo do Levon: Doces ilusões

    Levon em palestra para estudantes
    * Levon do Nascimento, Professor de História e titular deste Blog. Publicado na edição impressa número 185, Ano IX, do Jornal Folha Regional, de Taiobeiras (MG), julho de 2011, página 10.

    Vivemos uma época mundial de hipercapitalismo. Em fase terminal, é verdade (vide crise financeira de 2008, ainda não resolvida nos EUA e na Europa). Tudo virou negócio e pode ser comercializado. O consumo é a regra. A satisfação hedonista do “eu” é o paraíso ou o nirvana a ser alcançado. As pessoas, assim como os produtos, tornam-se descartáveis. As relações humanas – familiares, inclusive – são quantificáveis no valor da cotação das moedas correntes nas bolsas de apostas do deus-Mercado. A Deus nada, a César tudo, especialmente nas igrejas e demais grupos religiosos. A ética, a moral e a fé se ajustam conforme as necessidades de posse dos bens tangíveis e dos burocratas ou dos hierarcas de plantão. Importa ter (possuir), poder (mandar) e satisfazer-se (prazer). Um cenário dantesco (infernal), depredador e deformado; agradavelmente maquiado, perfumado e bem-vestido com as melhores marcas de cosméticos e de confecções que a publicidade ilusória e inescrupulosa consegue forjar. Eis um retrato amargo de nosso tempo. Os calçados de marca desta era impedem que se vejam as pegadas de patas animalescas adquiridas nesta involução a que a humanidade se lançou.

    O planeta em crise climática. As energias, liberadas pelo descuido humano, destroem os biomas e ameaçam desalojar o próprio ser humano (vide caso da usina nuclear de Fukushima, no Japão). O aquecimento global é uma realidade que se nos impõe avassaladoramente. Tempestades destroem cidades inteiras, inundando e soterrando, especialmente as áreas onde moram os mais pobres e despossuídos para o deus-Mercado. As forças do capital financeiro se sobrepõem aos interesses das “democracias”. Aliás, democracias, será que existem?

    As intolerâncias e os ódios humanos se manifestam como se a civilização e os seus recursos tecnológicos e culturais ainda não tivessem sido alcançados. O desprezo com a vida, o elogio à violência, a admiração por agressores e corruptores, o desamor pelo próximo (especialmente o mais humilhado: o menor, a mulher, o negro, o índio, o deficiente, o homossexual, o mendigo) e o desapreço aos valores de bondade, respeito, solidariedade, honestidade e honra se manifestam a cada dia com mais força. Incrível, esquisito e lastimável como muitos grupos religiosos cristãos, depois de um tempo primaveril glorioso de amparo aos que sofrem, voltam a se fechar e a vomitar preconceitos, pusilanimidade e desprezo para com aqueles a quem a sociedade já havia tratado de humilhar. Fazem isto em nome de Deus. Na verdade, servem mais ao deus-Capital, a face visível do verdadeiro inimigo da divindade cristã.

    Resta aos que desejam um mundo mais à esquerda (solidário, igual, justo) das fórmulas à “direita” que construíram tais cenários de terror, lutar até o último fôlego contra toda essa catarse de coisas ilusórias, doces na aparência, amargas na essência. Para quem, em vez “do ter, do poder e do prazer”, busca um novo paradigma civilizatório, baseado no amor e no conteúdo, “no ser, no servir e no sentir”, contrariando as aparências esguias, produzidas pelos estúdios de conteúdo oco e perecível, abrem-se as portas da consciência cidadã universalista, da fé inteligente e ecumênica, e da razão lógica que se coloca a serviço das necessidades humanas e do planeta.

    Não se assuste o leitor ou leitora deste artigo com as constatações monstruosas dos três primeiros parágrafos. Saiba que há muitos homens e mulheres, de todas as idades e raças, de várias condições sociais e credos, trabalhando sem parar, a fim de que um novo tempo, melhor e mais justo, seja possível e concreto em nossas vidas. Liberte-se da cegueira ilusória do deus-Mercado. Junte-se àqueles que acreditam na proposta do “caminho, da verdade e da vida”.
  • Leonardo Boff: Crise terminal do capitalismo?

    Leonardo Boff
    * Via mensagem de e-mail proveniente de Sônia Gomes de Oliveira,
    do Secretariado de CEB’s da Arquidiocese de Montes Claros.

    ** Leonardo Boff

    Tenho sustentado que a crise atual do capitalismo é mais que conjuntural e estrutural. É terminal. Chegou ao fim o gênio do capitalismo de sempre adapatar-se a qualquer circunstância. Estou consciente de que são poucos que representam esta tese. No entanto, duas razões me levam a esta interpretação.

    A primeira é a seguinte: a crise é terminal porque todos nós, mas particularmente o capitalismo, encostamos nos limites da Terra. Ocupamos, depredando, todo o planeta, desfazendo seu sutil equilíbrio e exaurindo excessivamente seus bens e serviços a ponto de ele não conseguir, sozinho, repor o que lhes foi sequestrado. Já nos meados do século XIX, Karl Marx escreveu profeticamente que a tendência do capital ia na direção de destruir as duas fontes de sua riqueza e reprodução: a natureza e o trabalho. É o que está ocorrendo.

    A natureza, efetivamente, se encontra sob grave estresse, como nunca esteve antes, pelo menos no último século, abstraindo das 15 grandes dizimações que conheceu em sua história de mais de quatro bilhões de anos. Os eventos extremos verificáveis em todas as regiões e as mudanças climáticas tendendo a um crescente aquecimento global falam em favor da tese de Marx. Como o capitalismo vai se reproduzir sem a natureza? Deu com a cara num limite intransponível.

    O trabalho está sendo por ele precarizado ou prescindido. Há grande desenvolvimento sem trabalho. O aparelho produtivo informatizado e robotizado produz mais e melhor, com quase nenhum trabalho. A consequência direta é o desemprego estrutural.

    Milhões nunca mais vão ingressar no mundo do trabalho, sequer no exército de reserva. O trabalho, da dependência do capital, passou à prescindência. Na Espanha o desemprego atinge 20% no geral e 40% entre os jovens. Em Portugual 12% no pais e 30% entre os jovens. Isso significa grave crise social, assolando neste momento a Grécia. Sacrifica-se toda uma sociedade em nome de uma economia, feita não para atender as demandas humanas mas para pagar a dívida com bancos e com o sistema financeiro. Marx tem razão: o trabalho explorado já não é mais fonte de riqueza. É a máquina.

    A segunda razão está ligada à crise humanitária que o capitalismo está gerando. Antes se restringia aos paises periféricos. Hoje é global e atingiu os países centrais. Não se pode resolver a questão econômica desmontando a sociedade. As vítimas, entrelaças por novas avenidas de comunicação, resistem, se rebelam e ameaçam a ordem vigente. Mais e mais pessoas, especialmente jovens, não estão aceitando a lógica perversa da economia política capitalista: a ditadura das finanças que via mercado submete os Estados aos interesses dos capitais especulativos que circulam de bolsas em bolsas, auferindo ganhos sem produzir absolutamente nada a não ser mais dinheiro para seus rentistas.

    Mas foi o próprio sistema do capital que criou o veneno que o pode matar: ao exigir dos trabalhadores uma formação técnica cada vez mais aprimorada para estar à altura do crescimento acelerado e de maior competitividade, involuntariamente criou pessoas que pensam. Estas, lentamente, vão descobrindo a perversidade do sistema que esfola as pessoas em nome da acumulação meramente material, que se mostra sem coração ao exigir mais e mais eficiência a ponto de levar os trabalhadores ao estresse profundo, ao desespero e, não raro, ao suicídio, como ocorre em vários países e também no Brasil.

    As ruas de vários paises europeus e árabes, os “indignados” que enchem as praças de Espanha e da Grécia, são manifestação de revolta contra o sistema político vigente a reboque do mercado e da lógica do capital. Os jovens espanhois gritam: “Não é crise, é ladroagem”. Os ladrões estão refestelados em Wall Street, no FMI e no Banco Central Europeu, quer dizer, são os sumo-sacerdotes do capital globalizado e explorador.

    Ao agravar-se a crise, crescerão as multidões, pelo mundo afora, que não aguentam mais as consequências da super-exploracão de suas vidas e da vida da Terra e se rebelam contra este sistema econômico que faz o que bem entende e que agora agoniza, não por envelhecimento, mas por força do veneno e das contradições que criou, castigando a Mãe Terra e penalizando a vida de seus filhos e filhas.

    ** Leonardo Boff – Doutor em Teologia e Filosofia pela Universidade de Munique, nasceu em 1938. Foi um dos formuladores da “Teologia da Libertação”. Autor do livro Igreja: carisma e poder, de 1984, que sofreu um processo judicial no ex-Santo Oficio, em Roma, sob o cardeal Ratzinger. Participou da redação da Carta da Terra e é autor de mais de 80 livros nas várias áreas das ciências humanísticas.