Tag: criação

  • Antítese

    Antítese


    Primeiro Dia
    “No princípio, Deus criou os céus e a terra. […] Deus disse: ‘Haja luz’, e houve luz. […] E Deus chamou à luz Dia, e às trevas chamou Noite. […] E houve tarde e manhã, o primeiro dia” (Gn 1,1-5).
    …e a ambição pairou sobre o vazio das consciências. E os humanos disseram: “Façamos da Terra nossa serva”. E assim, em vez de luz, ergueu-se a fumaça das chaminés, e as trevas cobriram o céu de partículas que sufocam as estrelas.


    Segundo Dia
    “Depois Deus disse: ‘Haja um firmamento entre as águas, separando umas das outras’. […] E Deus chamou ao firmamento Céu. […] E houve tarde e manhã, o segundo dia” (Gn 1,6-8).
    …os rios, outrora límpidos, foram trespassados por venenos. Agrotóxicos escorreram como sangue envenenado sobre o solo, e as águas, que um dia geraram vida, tornaram-se cemitérios líquidos. Os peixes boiaram de barriga para cima, e as crianças já não puderam beber das fontes que seus avós cantavam.


    Terceiro Dia
    “Então Deus disse: ‘Ajuntem-se as águas debaixo do céu num só lugar, e apareça a parte seca’. […] A terra fez brotar vegetação: plantas […] e árvores frutíferas. […] E houve tarde e manhã, o terceiro dia” (Gn 1,9-13).
    …as florestas gemeram. Motosserras substituíram o sopro da criação, e os biomas — Amazônia, Cerrado, Pantanal, Caatinga — foram reduzidos a desertos de tocos e cinzas. As queimadas, como dragões modernos, cuspiram fogo sobre o verde, e o ar carregou o luto das árvores em forma de carbono. As sementes, que um dia prometiam frutos, agora germinam plástico.


    Quarto Dia
    “Disse também Deus: ‘Haja luminares no firmamento do céu […] para governar o dia e a noite’. […] Deus fez os dois grandes luminares: o Sol e a Lua. […] E houve tarde e manhã, o quarto dia” (Gn 1,14-19).
    …os montes foram trespassados. A mineração escavou entranhas, despejando lama tóxica sobre vilas e rios. Barragens romperam-se, engolindo sonhos e histórias, enquanto o ouro extraído brilhou nos palácios de poucos, manchado do sangue de muitos. Nas crateras abertas, a terra chora ferida, e ninguém ouve.


    Quinto Dia
    “E disse Deus: ‘Povoem-se as águas de seres vivos, e voem as aves sobre a terra’. […] Criou […] todos os seres que povoam as águas e todas as aves. […] E houve tarde e manhã, o quinto dia” (Gênesis 1,20-23).
    …os céus e os mares empobreceram. As aves, outrora livres, caíram sob redes de caça e céus intoxicados. Nos oceanos, ilhas de lixo sufocaram tartarugas, e os corais, palácios submersos, branquearam-se em agonia. A cada hora, espécies são apagadas do livro da vida, e seus nomes viram poeira em arquivos esquecidos.


    Sexto Dia
    “Disse ainda Deus: ‘Produza a terra seres vivos […] e animais selvagens!’ […] Então Deus disse: ‘Façamos o homem à nossa imagem’. […] E Deus os abençoou, dizendo: ‘Sede fecundos e enchei a terra’. […] E houve tarde e manhã, o sexto dia” (Gn 1,24-31).
    …os povos originários clamaram. Suas terras sagradas foram invadidas por tratores e cercas, seus cantos abafados pelo rugido das máquinas. Enquanto isso, nas cidades de concreto, multidões marcharam sob máscaras, engolindo fumaça, e os filhos dos pobres herdaram desertos onde antes havia jardins. A fome, irmã da ganância, espalhou-se como praga.


    Sétimo Dia
    “No sétimo dia, Deus já havia concluído a obra que realizara […] e nesse dia descansou de toda a obra que tinha feito. Abençoou Deus o sétimo dia e o santificou” (Gn 2,2-3).
    …os humanos não descansaram. Seguiram cavando, queimando, poluindo, até que a Terra, exaurida, começou a tremer. Os mares subiram, as tempestades rugiram, e o clima, outrora estável, enlouqueceu. E os que diziam “dominar” o planeta viram-se reféns de sua própria insensatez.


    E assim, a criação tornou-se maldição. Onde havia harmonia, ergueu-se o caos; onde havia abundância, brotou a escassez; onde havia vida, multiplicou-se o luto. E os humanos, ao espelho de sua obra,
    perguntaram-se: “O que fizemos?” Mas já era tarde — o Éden fora vendido a preço de ferro, fogo e lucro.

    Eis o relato da anti-criação: uma narrativa escrita não pela mão divina, mas pela ganância que transformou paraísos em infernos. Que este texto não seja profecia, senão um alerta — enquanto há tempo de reescrevê-lo.

  • Tudo está interligado

    Tudo está interligado

    * Levon Nascimento

    Enquanto Donald Trump abandona o Acordo de Paris e busca salvar os canudinhos de plástico, em prejuízo do clima, de rios, mares, oceanos e da vida aquática; taxa os países pobres e em desenvolvimento de maneira exorbitante para garantir a riqueza de poucos bilionários, vindo a causar desemprego e fome nas periferias do mundo e de sua própria nação; expulsa os imigrantes dos Estados Unidos, à custa da contradição de ser ele próprio filho e marido de mulheres que migraram para aquele país; ameaça deportar massivamente os palestinos de suas casas e terras na Faixa de Gaza; em rebeldia, devemos nos recordar da poesia da criação, no capítulo primeiro do Gênesis, independentemente de crença ou descrença religiosa.

    O sagrado autor da tradição hebraica, ao elencar a criação da luz, do dia, da noite, do céu, da terra e do mar (Gn 1,3-10); da vegetação, (Gn 1,11-13); do sol, da lua, das estrelas (Gn 1,14-19); dos animais aquáticos e das aves (Gn 1,20-23); dos animais terrestres (Gn 1,24-25); e do ser humano (Gn 1,26-31), sempre arremata com “E Deus viu que era bom” (Gn 1,10b.12b.18b.21b.25b); e finaliza exultante, diante da humanidade, “Então Deus viu tudo quanto havia feito, e era muito bom” (Gn 1,31).

    No início do segundo milênio cristão, Francisco de Assis retoma essa visão de bondade criativa e exalta a natureza como presente divino. Il poverello de Assisi, assim cantou em êxtase, diante da beleza do mundo:

    Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas, especialmente o meu senhor irmão sol, o qual faz o dia e por ele nos alumia. E ele é belo e radiante com grande esplendor: de Ti, Altíssimo, nos dá ele a imagem. Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã lua e pelas estrelas, que no céu formaste claras, preciosas e belas. Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão vento, pelo ar, pela nuvem, pelo sereno, e todo o tempo, com o qual, às tuas criaturas, dás o sustento. Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã água, que é tão útil e humilde, e preciosa e casta. Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão fogo, pelo qual iluminas a noite: ele é belo e alegre, vigoroso e forte”.

    O padroeiro da ecologia enxergou a criação como extensão da bênção do criador. Retomou no cristianismo a visão religiosa que liga espírito e criação, humanidade e todos os demais seres vivos, o cósmico e o natural, a divindade e o mundo.

    Mais recentemente, o Papa Francisco, em sua Carta Encíclica Laudato Si’, retorna ao Gênesis e a São Francisco. Nela, o primeiro papa latino-americano aborda o cuidado da “Casa Comum”, que é o nosso Planeta Terra, destacando uma ecologia integral, que una as preocupações ambientais e sociais. Francisco convoca todos, crentes e não crentes, a refletirem sobre a degradação ambiental, como as alterações climáticas, a perda de biodiversidade e as desigualdades sócio-econômicas entre os seres humanos, propondo uma mudança de paradigma, para um desenvolvimento sustentável e solidário.

    Francisco conclui a Laudato Si’ convidando a todos para adotarem um novo estilo de vida, mais simples e solidário, expurgando a tentação consumista. Ele enfatiza a importância da esperança e da ação. Para o argentino, a criação é um ato de amor de Deus, logo, ela não pode ser encarada como objeto de troca econômica, de ganância e lucro, mas como dom e presente para todos os seres humanos e para todas as criaturas não-humanas. Tudo interligado.

    Partindo dessas três fontes irretocáveis da tradição cristã: o Gênesis, São Francisco de Assis e o Papa Francisco, pode-se proclamar que as escolhas de Trump, de seus asseclas da extrema-direita mundial e de sua demoníaca teologia do domínio são heréticas. Instrumentalizam Deus e seu Filho Jesus em nome do capital, da guerra e do lucro. Contaminam e profanam a criação, tanto quanto poluem as águas, os solos e os ares. Ignoram que “tudo está interligado, como se fôssemos um”. Entregam-se à morte e condenam os inocentes a morrer.

    É urgente resgatar a teologia do cuidado dentro da tradição cristã, quaisquer que sejam as denominações. Fontes teológicas é que não faltam. A fraternidade e a ecologia integral serão as formas pós-contemporâneas da verdadeira fidelidade de todo crente ao Evangelho de Jesus.

    * Levon Nascimento é leigo católico, professor de história e doutorando em  Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável.

  • Mudanças Climáticas: Há culpados pelas inundações no Rio Grande do Sul?

    Mudanças Climáticas: Há culpados pelas inundações no Rio Grande do Sul?

    A tragédia das inundações no Rio Grande do Sul tem culpados, sim! E não é Deus, nem São Pedro, nem Lula.

    Os políticos de direita ou extrema-direita, quando precisam da ajuda dos governantes de esquerda, têm a mania de dizer: “-Sem ideologia, agora! Não é hora de buscar culpados! É hora de união!”.

    Foi o que fez e disse o governador gaúcho, tucano, Eduardo Leite, pego com as calças na mão pelo maior desastre climático da história do Brasil, quando teve de pedir socorro ao Presidente Lula.

    Dias antes, o tucano, em vez de ligar e ir pelos canais corretos, quis dar uma de bonzão dando ultimatos ao presidente por rede social.

    O mesmo governador que, 15 dias antes, havia recebido relatórios dos institutos climáticos, a anunciar o caos que viria, e nada fez.

    O mesmo governador que modificou, no ano passado, o código florestal do Rio Grande do Sul, abrindo a porteira para a boiada do desmatamento desenfreado do bioma dos pampas, predominante naquele estado.

    O mesmo governador que ataca as políticas sociais e ambientais do Governo Lula e namora com o discurso negacionista e antipreservacionista do agro e da extrema-direita.

    Aliás, cadê os políticos bolsonaristas que falavam que Mudança Climática não existe? Inclusive, um deputado gaúcho do Partido Novo, muito idolatrado por certos inteligentinhos daqui. Cadê Mourão? Cadê Ricardo Sales? Cadê Bolsonaro, numa hora dessas? De certo, andando de Jetski.

    As chuvas disruptivas do Sul têm culpado. Não é Deus e nem São Pedro. É a Mudança Climática, fruto da emissão desenfreada de CO2 na atmosfera e da ganância do grande capital mundial. Não adianta negar. Se negar se afoga.

    Abraçar o Acordo de Paris e reduzir as emissões eram para ontem. Já passamos do ponto de não retorno. O calorão do fim do ano, as pandemias, as avalanches de mosquitos da dengue e as enchentes torrenciais, agora, são a nova realidade. Precisa-se de políticas públicas de mitigação, de consciência ética e ecológica e do combate à acumulação de capital desordenada, que drena a riqueza de bilhões de pessoas para apenas algumas poucas centenas de seres humanos.

    E ao povo, acreditar menos nas fake news da extrema-direita – que só trabalha para o lucro ganancioso do agro, que não está nem aí para as mudanças climáticas, pois mora nas melhores mansões, protegidas das intempéries, com ar condicionado e água potável – já é um bom começo.

    Sim, governador Leite, agora é hora de união. Inclusive, o Nordeste, que tantos os sulistas atacam com racismo e xenofobia, lidera as regiões do país em ajuda aos irmãos gaúchos. Mas é preciso apontar o dedo para os culpados, sim! E o senhor é um deles.

    Créditos da imagem: Reprodução da internet.

  • Chove, chuva! por Levon Nascimento

    Chove, chuva! por Levon Nascimento

    A última vez que vi tanta chuva aqui no Alto Rio Pardo (Norte de Minas Gerais) foi há 30 anos, entre 1991 e 1992. Naquela época, pontes caíram, barragens se romperam, os rios Salinas e Pardo invadiram suas respectivas cidades homônimas, casas e muros das pessoas mais pobres tombaram em toda a região. Idem no Sudoeste e Sul da Bahia.

    Três décadas depois, com tantos sofrimentos e secas nesse intermédio, ainda não aprendemos a nos preparar para receber este bem tão precioso.

    É fato que o sertão ressequido pela própria natureza e, agora, pela ganância e imprudência humanas, precisa de chuva, muita chuva! Tanto que ao período das águas, diferentemente de outros lugares, chamamos de “tempo bom”.

    Porém, é evidente que é necessário frear o desmatamento, desassorear o leito dos rios, investir nas barraginhas de contenção, construir reservatórios sustentáveis, melhorar a qualidade das residências de baixa renda e promover uma urbanização que comporte as águas pluviais.

    O que se vê no Sul e Sudoeste da Bahia, Norte de Minas e Vale do Jequitinhonha, é uma benção convertendo-se em tragédia. Isso desnuda a crônica falta de planejamento estratégico dos diferentes níveis do Estado brasileiro e a inexistência de políticas públicas de contenção de desastres naturais.

    Precisamos de chuvas, sempre! Mas necessitamos também de planejamento e gestão, de modo a recebê-las como a dádiva que realmente são.