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  • O que é ecofascismo?

    O que é ecofascismo?

    O ecofascismo é uma ideologia que instrumentaliza as crises ambiental e climática para promover agendas autoritárias, xenófobas e excludentes. Sob o pretexto de “proteger a natureza”, ele associa preocupações ambientais legítimas, como a preservação de biomas ou a redução de emissões, a ideias de supremacia racial, nacionalismo extremado e controle populacional. Essa distorção não apenas desvia o foco das verdadeiras causas da degradação ambiental, mas também reforça desigualdades históricas e violências estruturais.

    A vinculação entre proteção ambiental e pureza racial remonta ao regime nazista. Em 1935, a Alemanha aprovou a Lei de Proteção à Natureza, que associava a conservação de florestas à eugenia, como se a “saúde da terra” dependesse da “purificação racial” (BIEHL; STAUDENMAIER, 1995). Essa lógica ecoa em movimentos contemporâneos. Como aponta o pesquisador Douglas Garcia (JORNAL USP, 2022), o ecofascismo atualiza o mito do “sangue e solo”, vinculando identidade nacional à posse exclusiva de territórios, enquanto estigmatiza migrantes e povos tradicionais.

    Na Europa, partidos de extrema-direita como o Alternative für Deutschland (AfD), na Alemanha, e o Rassemblement National, na França, propagam narrativas que culpam imigrantes pela “escassez de recursos” ou “superpopulação” (DEUTSCHE WELLE, 2019; LE MONDE, 2020). Francesca Santolini (IHU UNISINOS, 2021) alerta que esse discurso mascara uma estratégia para ganhar apoio eleitoral entre jovens preocupados com o clima, ao mesmo tempo em que ignora o papel das corporações transnacionais, responsáveis por 71% das emissões globais desde 1988 (OXFAM, 2020).

    O ecofascismo promove uma visão distorcida de que “todos são igualmente culpados” pela crise ambiental. No entanto, os 10% mais ricos do planeta emitem 52% do CO₂ global, enquanto os 50% mais pobres geram apenas 7% (OXFAM, 2020). Campanhas como a da “pegada de carbono individual”, muitas vezes apoiadas por grandes empresas, transferem a responsabilidade para o cidadão comum, enquanto bilionários e indústrias poluidoras seguem impunes.

    Como destaca o Papa Francisco na encíclica Laudato Si’ (2015), “não há duas crises separadas, uma ambiental e outra social, mas uma única e complexa crise socioambiental” (n. 139). Essa conexão é visível no Brasil: comunidades indígenas e quilombolas, que preservam 80% das florestas remanescentes (IPAM, 2021), enfrentam invasões de grileiros e mineradoras financiadas por conglomerados internacionais. Para o sociólogo Boaventura de Sousa Santos (2020), a crise ambiental é um “apartheid”: os pobres sofrem as consequências, mas não são os causadores.

    A retórica ecofascista frequentemente defende medidas como controle migratório radical, esterilização forçada e até genocídio como “soluções” para a crise climática. No documento Ecofascismo: uma crítica marxista (NIEP MARX, 2021), os autores destacam que essa ideologia naturaliza a ideia de que certos grupos são “dispensáveis” para o “equilíbrio ecológico”, reforçando práticas necropolíticas.

    Na Índia, o governo expulsou tribos ancestrais de suas terras sob o argumento de “proteção florestal”, beneficiando corporações de mineração (THE GUARDIAN, 2022). Na Europa, políticas de austeridade são vendidas como “sacrifícios verdes”, cortando direitos trabalhistas em nome da sustentabilidade. Essas medidas, como observa Santolini (IHU UNISINOS, 2021), aprofundam o racismo ambiental: quem menos polui é punido, enquanto os responsáveis seguem lucrando.

    Combater o ecofascismo exige denunciar sua falsa dicotomia entre “proteger a natureza ou as pessoas”. É possível enfrentar a crise climática sem sacrificar direitos humanos. Movimentos como o dos geraizeiros ou das vítimas dos crimes da Samarco (Mariana, 2015) e da Vale (Brumadinho, 2019) evidenciam a força do ambientalismo de base, que une lutas por reparação, soberania popular e justiça socioambiental.

    Amplificar vozes indígenas, quilombolas e de comunidades tradicionais é essencial. Como lembra o relatório do IPAM (2021), esses grupos são guardiões de saberes ancestrais que harmonizam preservação e subsistência. Na contramão do ecofascismo, iniciativas como a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) defendem que “não há ecologia sem demarcação de terras”.

    As crises ambiental e climática não se resolvem com nacionalismo ou exclusão, mas com cooperação global e redistribuição de riqueza. Proteger a Terra significa proteger quem a defende: povos originários, trabalhadores rurais e periferias urbanas. Como afirma Garcia (JORNAL USP, 2022), o ecofascismo é uma armadilha: sob o discurso de “salvar o planeta”, esconde o projeto de eliminar os indesejados. A verdadeira ecologia é antirracista, anticapitalista e feita de muitos mundos, não de muros.

    Este texto é a síntese do artigo ECOFASCISMO: A CONVERGÊNCIA INSUSTENTÁVEL ENTRE AUTORITARISMO E SUSTENTABILIDADE AMBIENTAL, escrito para a disciplina de “Direito, Economia e Ambiente”, ministrada pelo Prof. Dr. Lyssandro Norton Siqueira, no Doutorado em Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável da Escola Superior Dom Helder Câmara.

    Fontes consultadas

    BIEHL, Janet; STAUDENMAIER, Peter. Ecofascism Revisited. [S.l.]: [s.n.], 1995.

    DEUTSCHE WELLE. AfD politician links climate change to migration. Bonn: Deutsche Welle, 2019. Disponível em: https://www.dw.com/en/afd-politician-links-climate-change-to-migration/a-50414619. Acesso em: 27 mar. 2025.

    FRANCISCO (Papa). Laudato Si’. Brasília: Edições CNBB, 2015. Disponível em: http://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html. Acesso em: 27 mar. 2025.

    GARCIA, Douglas. Pensamento ecofascista convive com noções eugenistas e um nacionalismo extremado. Jornal da USP, 2022. Disponível em: https://jornal.usp.br/radio-usp/pensamento-ecofascista-convive-com-nocoes-eugenistas-e-um-nacionalismo-extremado/. Acesso em: 27 mar. 2025.

    IPAM. Terras indígenas e quilombolas são as que mais preservam florestas. Brasília: IPAM, 2021. Disponível em: https://ipam.org.br/. Acesso em: 27 mar. 2025.

    LE MONDE. Le Rassemblement National et l’écologie. Paris: Le Monde, 2020. Disponível em: https://www.lemonde.fr/idees/article/2020/02/07/le-rassemblement-national-et-l-ecologie_6028565_3232.html. Acesso em: 27 mar. 2025.

    NIEP MARX. Ecofascismo: uma crítica marxista. In: Anais do Marxismo Memorial, 2021. Disponível em: https://www.niepmarx.blog.br/MM/MM2021/AnaisMM2021/MC10_1.pdf. Acesso em: 27 mar. 2025.

    OXFAM. Confronting Carbon Inequality. Oxford: OXFAM, 2020. Disponível em: https://www.oxfam.org/en/research/confronting-carbon-inequality. Acesso em: 27 mar. 2025.

    SANTOLINI, Francesca. Também a extrema-direita ama o meio ambiente: assim nasce e se desenvolve o ecofascismo. IHU Unisinos, 2021. Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/638715-tambem-a-extrema-direita-ama-o-meio-ambiente-assim-nasce-e-se-desenvolve-o-ecofascismo-artigo-de-francesca-santolini. Acesso em: 27 mar. 2025.

    SANTOS, Boaventura de Sousa. A cruel pedagogia do vírus. São Paulo: Boitempo Editorial, 2020.

    THE GUARDIAN. India’s forest rights act. Londres: The Guardian, 2022. Disponível em: https://www.theguardian.com/global-development/2022/mar/15/india-forest-rights-act. Acesso em: 27 mar. 2025.