Tag: cristianismo

  • A lista de Epstein

    A lista de Epstein

    A chamada “lista de Epstein” — e todo o processo que a envolve — expõe denúncias gravíssimas e relações obscuras entre figuras poderosíssimas do capitalismo global e redes de exploração e abuso. Nesse universo de poder, Donald Trump e outros bilionários aparecem como personagens centrais de um sistema profundamente corrompido, ao passo que Jair Bolsonaro surge como um de seus aliados políticos mais explícitos.

    Não é casual, portanto, que esse mesmo bloco de poder tenha se articulado contra o Papa Francisco, justamente por ele ter sido uma das vozes mais firmes na denúncia das injustiças estruturais, da mercantilização da vida e da idolatria do dinheiro.

    Se há algo que possa ser chamado de “besta do Apocalipse” ou “anticristo” em nosso tempo, ele não se apresenta em figuras míticas, mas nas engrenagens concretas desse sistema econômico desumanizante, amplamente revelado nos escândalos ligados a Epstein.

    O mais triste é ver setores da extrema-direita cristã curvarem-se diante desse poder, confundindo fé com submissão ao capital. Nesse sentido, assumir uma posição de esquerda — comprometida com justiça social, dignidade humana e solidariedade — é, a meu ver, estar muito mais próximo do ensinamento de Cristo do que das forças que o negam.


    Nome de Trump aparece em registros de voos ligados à Epstein — Foto: Reprodução
  • 13 de maio: Por que Maria é importante para a humanidade?

    13 de maio: Por que Maria é importante para a humanidade?

    A figura de Maria, mãe de Jesus, transcende fronteiras religiosas e temporais, consolidando-se como um dos pilares mais complexos e inspiradores da espiritualidade ocidental. Sua relevância histórica não se restringe ao papel biológico de dar à luz o Cristo, mas se expande em camadas teológicas, sociais e culturais que a tornam um arquétipo universal. No contexto do 13 de maio de 2025, data que celebra Nossa Senhora de Fátima, refletir sobre sua importância exige um olhar que integre tradição e contemporaneidade, dogma e humanidade.

    1. A teologia clássica: mãe de Deus e nova Eva

    Na teologia cristã, Maria é definida como Theotokos (Mãe de Deus), título consolidado no Concílio de Éfeso (431 d.C.), que enfatiza sua centralidade no mistério da Encarnação (Arquidiocese de Uberaba). Os Padres da Igreja, como Irineu de Lyon, a viram como a “Nova Eva”, cujo “sim” ao anjo Gabriel reparou a desobediência da primeira mulher (Rosary Center). Essa perspectiva a coloca não apenas como protagonista da salvação, mas como mediadora graciosa, ponte entre o divino e o humano. Dom Leonardo Steiner, citado pelo IHU, reforça que em Maria “encontramos respostas” para inquietações existenciais, pois sua disponibilidade a Deus a torna modelo de fé ativa.

    2. A mariologia feminista: entre a revolução e a tradição

    A teologia feminista, porém, desafia visões tradicionais que reduziram Maria a um ícone passivo de pureza. Analisando criticamente sua figura, teólogas recuperam sua agência: ela foi uma mulher judia que enfrentou riscos sociais ao aceitar uma gravidez fora dos padrões (James Tabor, IHU). Para Michele Giulio Masciarelli (IHU), Maria é “mais jovem do que o pecado”, não por negação da realidade, mas por sua coragem em abraçar um projeto disruptivo. Essa releitura a transforma em símbolo de resistência, especialmente em contextos onde mulheres são marginalizadas. Como afirma o IHU, “num momento da história, o centro de tudo está numa mulher”, ecoando a ideia de que Maria personifica a força do feminino sagrado.

    3. Maria pós-Vaticano II: humanidade e universalidade

    O Concílio Vaticano II (1962-1965) reposicionou Maria como “membro eminente da Igreja”, evitando excessos devocionais que a divinizavam. O Papa Francisco, conforme destacado pelo IHU, lembra que “Maria é mãe, não deusa”, reafirmando sua humanidade. Essa abordagem ressalta sua trajetória terrena: uma mãe judia que viveu dúvidas, dores e alegrias, como qualquer pessoa. Leonardo Boff, em A Porção Feminina de Deus, assinala que Maria revela a face materna do Divino, integrando o feminino na compreensão do sagrado. Sua história, assim, torna-se acessível a todos, independentemente de credo.

    4. Maria na pós-modernidade: respostas a uma crise de sentido

    Em meio à fragmentação pós-moderna, Maria emerge como figura de reconciliação. Artigos do IHU (Instituto Humanitas Unisinos) destacam que sua “glorificação” não a distancia da realidade, mas a aproxima das crises humanas. A poesia de Pedro Casaldáliga, que a transforma em “todas as mulheres”, ilustra como sua imagem transcende o religioso, simbolizando esperança para os oprimidos. Ela é, nas palavras de Casaldáliga, a mãe dos sem-terra, das viúvas, dos excluídos — uma metáfora da compaixão ativa.

    Maria: espelho do humano e do divino

    Maria não é importante apenas por quem gerou, mas por quem ela foi: uma mulher que encarnou paradoxos — humilde e revolucionária, silenciosa e profética, humana e transcendente. Sua história desafia dogmas estéreis e convida a uma espiritualidade encarnada, onde o divino se manifesta no cotidiano. No 13 de maio de 2025, celebrá-la é reconhecer que, em sua trajetória, encontramos um mapa para navegar as complexidades da existência, unindo céu e terra, tradição e renovação. Como síntese do feminino sagrado e da disponibilidade ao mistério, Maria permanece, afinal, uma resposta viva aos anseios mais profundos da humanidade.

    Referências
    ARQUIDIOCESE DE UBERABA. A Virgem Maria na Teologia. Arquidiocese de Uberaba, [s.d.]. Disponível em: https://arquidiocesedeuberaba.org.br/a-virgem-maria-na-teologia/. Acesso em: 12 maio 2025.
    CASALDÁLIGA, Pedro. Poesia de Pedro Casaldáliga transforma Maria em todas as mulheres. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/605492-poesia-de-pedro-casaldaliga-transforma-maria-em-todas-as-mulheres. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Como Maria, a mãe judia de Jesus, se tornou a virgem que deu à luz a Deus. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Entrevista com James D. Tabor. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/78-noticias/602004-como-maria-a-mae-judia-de-jesus-se-tornou-a-virgem-que-deu-a-luz-a-deus-entrevista-com-james-d-tabor. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Contemplação do encontro de Maria com o Ressuscitado. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/78-noticias/597943-contemplacao-do-encontro-de-maria-com-o-ressuscitado. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Dom Leonardo: Em Maria, encontramos respostas; nos tornamos pessoas mais disponíveis. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/categorias/615135-dom-leonardo-em-maria-nos-encontramos-respostas-nos-nos-tornamos-pessoas-mais-disponiveis. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Francisco encerra polêmicas seculares sobre Nossa Senhora: “Maria é mãe, não deusa”. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/607814-francisco-encerra-polemicas-seculares-sobre-nossa-senhora-maria-e-mae-e-nao-deusa-expressoes-as-vezes-exageradas. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Maria, a glorificada, e a crise pós-moderna. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/185-noticias/noticias-2016/559142-maria-a-glorificada-e-a-crise-pos-moderna. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Maria de Nazaré à luz da mariologia desenvolvida a partir do Concílio Vaticano II. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/78-noticias/598632-maria-de-nazare-a-luz-da-mariologia-desenvolvida-a-partir-do-concilio-vaticano-ii. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Maria, a mulher mais jovem do que o pecado. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Artigo de Michele Giulio Masciarelli. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/185-noticias/noticias-2016/563199-maria-a-mulher-mais-jovem-do-que-o-pecado-artigo-de-michele-giulio-masciarelli. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Não façam isso com a mãe de Jesus. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/78-noticias/589385-nao-facam-isso-com-a-mae-de-jesus. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Para Maria, por Jesus: A virgem na teologia feminista. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/categorias/615453-para-maria-por-jesus-a-virgem-na-teologia-feminista. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. “Num momento da história, o centro de tudo está numa mulher”. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/sobre-o-ihu/78-noticias/574634-num-momento-da-historia-o-centro-de-tudo-esta-numa-mulher. Acesso em: 12 maio 2025.
    BOFF, Leonardo. A porção feminina de Deus. Leonardo Boff, 30 ago. 2014. Disponível em: https://leonardoboff.org/2014/08/30/a-porcao-feminina-de-deus/. Acesso em: 12 maio 2025.
    ROSARY CENTER. Maria na Teologia dos Padres – Parte 2. Rosary Center, [s.d.]. Disponível em: https://rosarycenter.org/pt/ll73n2-mary-in-the-theology-of-the-fathers-part-2. Acesso em: 12 maio 2025.
    REVISTA CULTURA TEOLÓGICA. Maria de Nazaré: Perspectivas teológicas. Revista Cultura Teológica, [s.d.]. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/culturateo/article/download/14360/11834/38580. Acesso em: 12 maio 2025.

  • Há quem queira mal ao Papa Francisco? Entenda o contexto

    Há quem queira mal ao Papa Francisco? Entenda o contexto

    Em meio à recente internação do Papa Francisco, que desperta preocupação global, emerge nas sombras um fenômeno perturbador: campanhas de ódio e especulações prematuras lideradas por setores da extrema-direita, tanto dentro quanto fora da Igreja Católica. Enquanto fiéis ao redor do mundo oram por sua recuperação, grupos conservadores e figuras políticas aproveitam o momento para atacar seu legado, revelando não apenas uma divergência ideológica, mas uma rejeição aos princípios cristãos que Francisco encarna.

    Como destacado pelo site UOL, há uma “torcida pela morte do Papa Francisco nas redes”, um reflexo da “escalada do ódio” em tempos de polarização (Sakamoto, 2025). Esse comportamento, que transforma a fragilidade humana em espetáculo macabro, contrasta radicalmente com a mensagem de compaixão e misericórdia que o pontífice defende. Não se tratam apenas de críticas políticas, mas de um ataque à própria essência do cristianismo, que Francisco busca revitalizar: um compromisso com os pobres, a justiça social e a ecologia integral.

    A oposição ao Papa frequentemente se disfarça de zelo doutrinário, mas esconde interesses escusos. Phyllis Zagano, citada no site do Instituto Humanitas Unisinos (IHU), aponta que, embora figuras como Donald Trump contratem católicos para sua base, “suas ações não refletem em nada a doutrina social católica” (Zagano, 2024). Essa contradição expõe como setores conservadores instrumentalizam a religião para fins de poder, ignorando ensinamentos centrais como o acolhimento a migrantes e a denúncia da desigualdade.

    Francisco, ao contrário, insiste em temas incômodos para elites políticas e econômicas. Seu apelo por “uma Igreja pobre para os pobres” e suas críticas ao “capitalismo selvagem” desestabilizam alianças entre religiosos e poderosos. Não é casual que, como revela o IHU, haja suspeitas de que um futuro conclave esteja sendo “organizado com dólares estadunidenses” para enfraquecer seu legado (IHU, 2023). A batalha é também financeira: setores conservadores, muitas vezes apoiados por magnatas, buscam o retorno a uma Igreja mais dogmática e menos envolvida com causas sociais.

    Dentro da Cúria, cardeais alinhados à direita já sinalizam movimentos para influenciar o próximo conclave. Jean-Claude Hollerich, arcebispo de Luxemburgo, denuncia: “É horrível que os cardeais já estejam trabalhando no conclave” enquanto o Papa vive (IHU, 2023). A pressa em enterrar seu pontificado revela o medo de que suas reformas, como a descentralização do poder (sinodalidade) e a abertura a divorciados e LGBTQ+, se tornem irreversíveis.

    Contudo, como argumenta outro artigo do IHU, “se o conclave quiser um segundo Francisco, eis o nome e o programa” (IHU, 2023). A resistência à sua agenda é, paradoxalmente, um sinal de seu êxito. Seu estilo pastoral, marcado pelo diálogo e pela simplicidade, resgata o núcleo do Evangelho, frequentemente obscurecido por disputas teológicas. Francisco lembra que “alguém rezou para que eu fosse para o paraíso, mas o Senhor da colheita decidiu me deixar aqui por um tempo” (IHU, 2024). Sua permanência é um convite à Igreja para não fugir de sua missão profética.

    A aversão da extrema-direita ao Papa Francisco não é mera disputa eclesiástica. É a rejeição de um cristianismo que desafia estruturas de opressão. Seus críticos preferem uma fé ornamental, alheia aos gritos dos marginalizados. Francisco, porém, insiste que a autenticidade cristã está no serviço, não no poder.

    Enquanto especulações e ódio tentam silenciar sua voz, seu exemplo persiste: uma Igreja que cheira às ovelhas feridas, não aos palácios. Em tempos de cinismo, Francisco é um lembrete de que o Evangelho, quando vivido radicalmente, ainda pode incomodar e transformar o mundo.

    Links dos artigos citados:

    1. https://www.ihu.unisinos.br/648740-o-papa-a-meloni-alguem-rezou-para-que-eu-fosse-para-o-paraiso-mas-o-senhor-da-colheita-decidiu-me-deixar-aqui-por-um-tempo
    2. https://www.ihu.unisinos.br/648985-enquanto-trump-contrata-catolicos-suas-acoes-nao-refletem-em-nada-a-doutrina-social-catolica-artigo-de-phyllis-zagano
    3. https://ihu.unisinos.br/648950-chega-de-especulacoes-e-horrivel-que-os-cardeais-ja-estejam-trabalhando-no-conclave-entrevista-com-jean-claude-hollerich
    4. https://www.ihu.unisinos.br/categorias/636720-um-conclave-organizado-com-dolares-estadunidenses
    5. https://www.ihu.unisinos.br/categorias/616172-se-o-conclave-quiser-um-segundo-francisco-eis-o-nome-e-o-programa
    6. https://noticias.uol.com.br/colunas/leonardo-sakamoto/2025/02/23/torcida-pela-morte-do-papa-francisco-nas-redes-mostra-escalada-do-odio.htm
  • O cristianismo é incompatível com a extrema-direita?: uma análise a partir do 7º domingo do tempo comum de 2025

    O cristianismo é incompatível com a extrema-direita?: uma análise a partir do 7º domingo do tempo comum de 2025

    Os textos litúrgicos do 7º domingo do Tempo Comum (23/02/2025) —1Samuel 26,7–9.12–13.22–23, o Salmo 102(103),1–4.8-10.12–13, 1Coríntios 15,45–49 e o Evangelho de Lucas 6,27–38 — compartilham um mesmo impulso ético e espiritual que é central na teologia cristã: o chamado à misericórdia, ao perdão e à renovação interior que transforma as relações humanas.

    1 Samuel 26,7–9.12–13.22–23 relata o episódio em que Davi, perseguido pelo rei Saul, tem a oportunidade de eliminar seu inimigo. Incentivado por Abisai a exercer uma justiça vingativa, Davi opta por poupar a vida de Saul. Essa decisão não é meramente uma questão de prudência política, mas reflete uma ética que reconhece a sacralidade da vida e o fato de que somente Deus pode julgar e tirar a vida de alguém. Assim, Davi demonstra uma postura de misericórdia e respeito pelo “ungido do Senhor”, colocando a justiça divina acima da vingança humana.

    O Salmo 102 (103) enfatiza o caráter compassivo e misericordioso de Deus, que perdoa, cura e renova a vida. Esses versículos nos lembram que o Senhor é lento para a ira e abundante em amor, servindo de modelo para os fiéis – que são chamados a imitar essa misericórdia em suas próprias relações, mesmo diante da injustiça ou do mal.

    Em 1 Coríntios 15 ,45–49, Paulo contrapõe o “primeiro Adão”, que trouxe a corrupção e a morte, ao “último Adão”, Cristo, que inaugura uma nova humanidade, em quer ser humano significa abrir-se ao amor e não aos discursos e às práticas de ódio. Essa comparação ressalta a transformação radical que a graça de Deus opera no ser humano, elevando-o a uma condição espiritual renovada e capaz de refletir a verdadeira imagem divina, marcada pela compaixão e pela esperança de ressurreição.

    Já o Evangelho de Lucas 6,27–38 apresenta os ensinamentos de Jesus sobre o amor incondicional: amar os inimigos, fazer o bem aos que nos odeiam, e oferecer perdão sem esperar retribuição. Esse chamado à prática do amor radical e à rejeição da vingança contrasta fortemente com as lógicas de retribuição e hostilidade que marcam muitas atitudes humanas.

    Em conjunto, esses textos apontam para um mesmo ideal cristão: a superação da lógica retributiva e violenta em favor de uma ética do perdão, da compaixão e da confiança na justiça de Deus. Eles nos convocam a reconhecer que somente a misericórdia – que transforma e reconcilia – pode conduzir a uma vida verdadeiramente cristã.

    Quando se diz que “o cristianismo é incompatível com a prática social da extrema-direita”, estamos colocando em contraste a ética radical do Evangelho com as atitudes autoritárias e excludentes que, frequentemente, caracterizam os discursos e práticas da extrema-direita. E é importante ressaltar que não se está colocando o cristianismo como opositor da extrema-direita ou ideologicamente como “de esquerda”, mas que o Evangelho não cabe no programa do extremismo direitista.

    Dentro da teologia cristã, como evidenciado nos textos acima:

    • Rejeição da violência e da vingança: Davi, ao poupar Saul, e os ensinamentos de Jesus para amar os inimigos, afirmam que a violência e a retribuição pessoal não podem ser instrumentos de justiça. Em uma sociedade de extrema-direita, onde a retaliação e a exclusão frequentemente se justificam como forma de “ordem” e “segurança”, essa ética cristã propõe uma resposta que transcende o ódio e a divisão.
    • Centralidade da misericórdia e do perdão: O Salmo e o Evangelho ressaltam que Deus é infinitamente misericordioso, chamando os fiéis a praticarem o perdão mesmo quando confrontados com o mal. Essa mensagem contrasta com a lógica da extrema-direita, que muitas vezes fundamenta suas políticas em narrativas de inimigo interno e em uma justiça punitiva e excludente.
    • Transformação interior e renovação: A comparação em 1 Coríntios 15 entre o primeiro e o último Adão aponta para uma transformação profunda operada pela graça de Deus, que convida o cristão a uma renovação constante de sua conduta. Essa ideia de transformação pessoal e coletiva é incompatível com ideologias que buscam a manutenção de hierarquias rígidas e a consolidação de um status quo excludente, típico de muitos discursos da extrema-direita.

    Portanto, à luz da teologia cristã, o verdadeiro cristianismo — que prega o amor universal, a compaixão sem limites e o perdão incondicional – desafia e se opõe à prática social da extrema-direita, que frequentemente promove a divisão, o ódio e a violência em nome de uma suposta ordem ou tradição. Em outras palavras, enquanto o cristianismo chama para uma prática de solidariedade e reconciliação, as práticas de exclusão e retaliação que costumam marcar os movimentos da extrema-direita representam uma negação dos valores fundamentais do Evangelho.

    Esta análise demonstra que, para a teologia cristã, os ensinamentos das Escrituras – enfatizando o perdão, a misericórdia e o amor aos inimigos – constituem uma ética incompatível com os mecanismos de divisão, violência e exclusão social promovidos pela extrema-direita.