Acabei de terminar a leitura de Curso livre Marx-Engels: a criação destruidora, organizado por José Paulo Netto e publicado pela Boitempo em 2015. Como o nome indica, o livro é um curso em forma de livro: cada capítulo é uma aula (ou várias, dada a densidade) ministrada por grandes especialistas brasileiros em marxismo. Resolvi compartilhar aqui um resumo dessas aulas, começando justamente pelo fim: o capítulo Democracia, trabalho e socialismo, de Ruy Braga (p. 163-183), que fecha a obra com um debate urgente sobre os dilemas do nosso tempo.
Braga, sociólogo conhecido por estudar a precarização do trabalho, vai além das fórmulas batidas. Seu texto é um chamado à reflexão: como pensar um projeto emancipador em meio à crise da democracia liberal, ao avanço da exploração no trabalho e ao esvaziamento do horizonte socialista? A chave, segundo ele, está em reinventar o marxismo — não como uma doutrina rígida, mas como ferramenta viva de análise e ação.
A democracia liberal, exaltada como símbolo máximo da liberdade, carrega uma contradição de origem: promete igualdade política, mas perpetua desigualdades econômicas. O voto é universal, mas o poder segue nas mãos de quem controla o dinheiro. Milhões — informais, desempregados, imigrantes — seguem à margem da “cidadania”, excluídos pelas regras do mercado. A Comuna de Paris (1871) já mostrava isso: uma tentativa radical de democracia direta, esmagada pela repressão, mas ainda hoje referência para quem busca uma democracia real — onde o povo decide, e não só escolhe quem decide.
Se a democracia liberal é limitada, o trabalho sob o capitalismo é alienado. Retomando Marx, Braga mostra como o trabalhador, isolado e precarizado, não se reconhece como parte de uma força coletiva. A lógica do lucro transforma gente em peça descartável. O neoliberalismo, com sua avalanche de terceirizações, “pejotizações” e plataformas digitais, só agravou isso. Mas nem tudo é derrota. Nas frestas, surgem lutas: greves de entregadores, ocupações de fábricas, cooperativas autogestionadas — como as da Argentina — revelam que a resistência existe e, mais do que isso, aponta caminhos para além do imediato. A luta por direitos pode (e deve) se conectar a um projeto maior: o socialismo.
Para Braga, socialismo não é um modelo engessado, mas um processo em constante construção. Ele retoma Marx: “Os filósofos se limitaram a interpretar o mundo; o que importa é transformá-lo”. Democracia socialista, nesse sentido, vai além de estatizar empresas: significa distribuir o poder. Conselhos operários, orçamentos participativos, movimentos de base são pistas de como isso pode acontecer na prática. Mas o desafio é grande: como fugir tanto das reformas cosméticas quanto dos autoritarismos disfarçados de vanguarda? É aí que entra a ideia de “criação destruidora” — demolir o que oprime, para abrir espaço ao novo.
Num mundo marcado pela ascensão da extrema direita, colapso ambiental e a reconfiguração do trabalho via inteligência artificial, o marxismo continua essencial. Braga não oferece soluções fáceis, mas lembra que teoria sem prática é inócua. Democracia de verdade exige mais do que votar; trabalho digno vai além da CLT; socialismo é mais que discurso. É preciso coragem para destruir o que nos oprime e construir o que nos liberta. O capítulo de Braga não fecha o livro — ele abre um convite: que essas aulas transbordem das páginas e ganhem vida nas ruas, nas fábricas, nas praças. Onde, de fato, o futuro é decidido.
Referência
BRAGA, Ruy. Democracia, trabalho e socialismo. In: NETTO, José Paulo (org.). Curso livre Marx-Engels: a criação destruidora. 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2015. p. 163-183.













