Tag: Dilma

  • O apagão

    O apagão

    A última crise energética que o Brasil teve, conhecida como “Apagão”, foi em 2001, no Governo do presidente tucano Fernando Henrique Cardoso.

    Na época, descobriu-se que havia sobra de energia na região norte do país, mas que aquele governo neoliberal não havia planejado a tempo a construção de linha de transmissão para o restante do território nacional.

    A situação foi tão feia que, mesmo pagando em dia as altas contas de luz, o consumidor que gastava além do limite estabelecido pela ANEEL tinha o padrão desligado pela CEMIG (ou pela concessionária de cada estado).

    Nem precisa dizer que milhões ficaram no escuro, o desemprego triplicou e a quebradeira foi geral.

    Vieram Lula (2003-2010) e Dilma (2011-2016), o Brasil cresceu economicamente a ponto de se tornar a sexta economia mundial, erradicação da fome, situação de pleno emprego, recordes na construção civil e no comércio, e não houve mais apagões, mesmo com estiagens terríveis. Houve planejamento e execução.

    Agora, cinco anos depois do golpe que afastou Dilma da presidência, sem que ela tivesse cometido crime de responsabilidade, e diante da pior pandemia de nossa história, do desemprego homérico e da desindustrialização nas alturas, vemos novamente a conta de luz escalar as montanhas e o anúncio de que haverá apagões.

    Bolsonaro só se preocupa em brigar com todo mundo e em defender seus filhos, metidos até a cabeça em negociatas. Não planejou e nem preparou o país para a pior seca do século.

    Com certeza, ele vai por a culpa em São Pedro.

  • Resposta: O desmonte da UFVJM e do ensino superior

    Na crônica O jumento é nosso irmão, que publiquei aqui em 5 de agosto de 2017, recebi o comentário da internauta Ana Maria, o qual transcrevo logo abaixo.

    Olá Levon, gostaria que o senhor desse sua opinião sobre os cortes de recursos que estão ocorrendo nas universidades públicas federais. Esta semana tive a triste notícia que a UFVJM, Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri,instituição no qual eu me graduei em Administração Pública, poderá fechar as portas por não ter dinheiro para manter as despesas de custeio (ou seja, não tem dinheiro pra pagar água e energia). Os recursos para investimentos, nem se fala, já estão paralisados há muito tempo. E isso poderá afetar também aos alunos nos cursos à distância, que já tem suas dificuldades de manutenção, principalmente em Taiobeiras, onde há um polo. Abraços.

    Respondo a Ana Maria:

    Querida Ana Maria,
    O desmonte da UFVJM, criada pelo presidente Lula nos governos do PT, e do ensino público, em geral, são parte do que já estava desenhado pelo golpe de 2016, que destituiu a presidenta legítima Dilma Rousseff, sem que ela tivesse cometido crime de responsabilidade, conforme reza a Constituição brasileira. Significa sucatear o serviço público para em seguida privatiza-lo. É parte da política neoliberal: mais para os ricos, menos para os trabalhadores. Menos social-desenvolvimentismo petista e mais elitismo tucano-peemedebista. Infelizmente, é o triste retrato do que as manifestações orquestradas pela Globo, de lavagem cerebral, e pelos patos, camisas amarelas e panelas produziram: tiraram uma mulher honesta da presidência, perseguem o maior estadista vivo do país (Lula) e colocam a pior quadrilha da história nacional no Planalto. O “Mineirinho” tem culpa nisso.

  • Brasil de volta ao mapa da fome da ONU

    Antes de ler meu texto, leia esta matéria.

    Passei minha juventude nos grupos de jovens, no auge do governo tucano neoliberal de FHC, tempo em que a gente tinha de fazer campanhas de arrecadação de alimentos para as famílias famintas.

    Aquilo me dava tristeza, porque era paliativo, fortuito e ineficiente. Dava comida hoje e amanhã a família precisava de novo. Eram necessárias políticas públicas de combate à miséria e de geração de empregos.

    Com a eleição de Lula em 2002, vieram os programas sociais, mas sobretudo as políticas de valorização constante do salário mínimo e de pleno emprego.

    Tivemos a melhor época da História do Brasil em termos sociais. Milhões foram resgatados da miséria e ingressaram no mercado de trabalho. O Brasil saiu do mapa da fome. Pena que há pessoas e grupos sociais que não enxergam isso.

    Nossos problemas sociais continuaram, mas a fome não era mais um deles.

    Com o golpe de Estado que depôs Dilma em 2016, as políticas públicas passaram a ser desarrumadas. A crise econômica provocada inicialmente pela sabotagem do empresariado e, posteriormente, pelo desmonte neoliberal do país por parte do governo golpista liquidou os empregos e os salários.

    E dá-lhe medidas para retirar ainda mais os direitos dos trabalhadores. As reformas trabalhista e previdenciária estão aí para serem votadas por um Congresso que representa apenas os interesses da elite, em que pese o governo estar moribundo. A pauta da implosão social está vivíssima e descolada do processo de crise política.

    O resultado é que a falta do que comer em muitas famílias está de volta. Segundo a ONU, o Brasil voltou ao Mapa da Fome. “Três anos depois de o Brasil sair do mapa mundial da fome da ONU — o que significa ter menos de 5% da população sem se alimentar o suficiente —, o velho fantasma volta a assombrar famílias”, diz a reportagem de Daiane Costa. “O alerta, endossado por especialistas ouvidos pelo GLOBO, é de relatório produzido por um grupo de mais de 40 entidades da sociedade civil, que monitora o cumprimento de um plano de ação com objetivos de desenvolvimento sustentável acordado entre os Estados-membros da ONU, a chamada Agenda 2030. O documento será entregue às Nações Unidas na semana que vem, durante a reunião do Conselho Econômico e Social, em Nova York.”

    Aquela turma de classe média, apoiadora do golpe, que nunca se conformou com as políticas públicas e programas sociais dos governos petistas, agora pode alegremente realizar suas campanhas de arrecadação de comida para dar aos pobres famintos, descarregos de consciência, principalmente no Natal, visto que para essa gente a solidariedade só aflora fim do ano, quando muito.

    Nossos grupos de jovens, pelo menos, tinham formação política.

  • Artigo: Quintino de Rio Pardo e as reformas temerosas

    Vista da cidade de Rio Pardo de Minas antigamente. Foto extraída
    do site “Fotos Antigas de Rio Pardo de Minas”.
    * Levon Nascimento

    Há 129 anos, em 13 de maio de 1888, a regente do Império do Brasil princesa Isabel, na ausência do pai o imperador dom Pedro II, em viagem ao exterior, assinou a famosa Lei Áurea, colocando fim a quase quatro séculos de escravidão no país. Fim legal, pois as formas de trabalho análogas ao escravismo continuariam a existir em solo brasileiro até os dias atuais.

    Por motivos de argumentação e de curiosidade histórica, relato dois fatos pitorescos ocorridos naqueles dias no Vale do Rio Pardo (norte de Minas). Recorro à coleção de informações apresentadas nos quatro volumes da obra “Efemérides Riopardenses”, publicada em 1998 pelo cônego Padre Newton de Ângelis, da cidade de Rio Pardo de Minas.

    A 11 de junho de 1888, vinte e oito dias depois da abolição, os poderes públicos da região ainda se encontravam na “árdua” tarefa de proteger o patrimônio privado e desfigurar a dignidade humana. Em Rio Pardo, o delegado de polícia mandou amarrar em frente à porta da casa do subdelegado um negro chamado Quintino, que chegara à cidade em 19 de maio (quatro dias depois da publicação da Lei Áurea), “fugindo de seu dono”, morador de São José do Gorutuba, região da futura Janaúba. O “dono”, um tal de Vitorino Nunes de Brito, à revelia das autoridades, ameaçava levar o negro de trinta e poucos anos amarrado ao rabo do cavalo de volta à sua fazenda.

    Pela lei da princesa, Vitorino não era mais senhor de escravos, Quintino era um homem livre e mesmo que não fosse a legislação da época também não permitiria tal atrocidade, caso empregada corretamente pelas autoridades. Porém, pouco importava. Valia mesmo era a noção torta de propriedade, atrelada aos conceitos de autoritarismo, patrimonialismo, racismo e latifúndio, marcas da colonização e da formação do Estado brasileiro e de nossa sociedade. Em outras palavras, corrupção da lei. Característica ainda muito forte nestas terras esquecidas do Vale do Rio Pardo. Vitorino rugia enquanto Quintino sangrava.

    Também em Rio Pardo, a 12 de julho de 1888 – um mês adiante –, o vereador Atanásio Silva sugeriu à Câmara Municipal rio-pardense a nomeação de uma praça com o nome de TREZE DE MAIO, em homenagem à libertação dos escravos. Segundo relatos, foi naquele espaço, alguns dias depois de 13 de maio (sem exatidão de data), que os ex-escravos “fizeram a grande festa da liberdade (…) e batucaram (…) até o alvorecer do dia seguinte”. Não sei se a praça ainda existe com o mesmo nome naquela cidade.

    A verdade é que no episódio de Quintino, as autoridades já sabiam do fim legal da escravidão. A festa da liberdade na praça comprova isso. Por que não interviram no assanhamento do ex-dono que queria levar o jovem ex-escravo de volta à senzala? Pior, por que elas próprias algemaram um homem livre e inocente à porta do subdelegado?

    Talvez a resposta esteja na cultura da violência autoritária e na desumanização do outro, sempre presentes na história brasileira, sobretudo quando se trata do negro, dos indígenas, do desvalido (vide o caso da guarda municipal de São Paulo, seguindo ordens do prefeito, tomando colchões e cobertores de moradores de rua em pleno frio paulistano), da mulher, do submisso, do indefeso, enfim, do pobre. Só é gente para as autoridades encasteladas no Estado brasileiro aqueles que se apresentam como proprietários. A condição humana apenas, não basta.

    Quintino, “o negro forro” que fugiu dos maus-tratos, mesmo tendo a lei a seu favor, não tinha a proteção do Estado de Direito que lhe garantisse a liberdade e o respeito frente a um senhor ilegítimo e cruel. Ele representa, com altas cores de atualidade, os brasileiros trabalhadores de 2017. Cidadãos que a despeito das garantias da avançada Constituição de 1988 estão à mercê da gangue temerária que se apossou da República com o golpe de 2016.

    O Estado brasileiro sempre esteve comprometido com a manutenção do status quo da elite perdulária, perpassado por um ou outro período em que esse predomínio plutocrático se fez menor ou ameaçado. O getulismo, o janguismo e o lulismo se constituíram nesses curtos momentos, mas todos igualmente golpeados e fulminados pelos “verdadeiros” donos do poder.

    As medidas do governo Temer, tais como o teto dos gastos públicos para a seguridade social, a selvagem lei das terceirizações, a reforma trabalhista que mata a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) aprovada sob Getúlio Vargas, o desmanche das políticas públicas da era Lula-Dilma e a indefectível reforma da previdência, que pretende fazer com que os brasileiros morram sem se aposentar, são comparáveis – em forma e conteúdo – à desenvoltura com que Vitorino Nunes de Brito, diante do delegado de polícia, afrontava a lei vigente ameaçando de morte alguém que não lhe pertencia mais, mas que estava atado a um tronco por quem lhe deveria dar segurança. Nossa pergunta: onde estão as instituições, como o STF, que nos deveriam proteger da sanha dos golpistas de hoje?

    Se o povo brasileiro não desafiar a conjuntura e se reunir na praça, como aqueles negros de Rio Pardo de Minas nos dias que se seguiram à Lei Áurea e, com força, celebrar a liberdade com batuques, palavras de ordem e enfrentamentos de luta, até o alvorecer de uma República mais justa, as reformas dos senhores de escravos de hoje passarão e reduzirão os trabalhadores à condição de indivíduos prostrados, como Quintino, prontos para serem arrastados pelo humilhante rabo do cavalo da história.

    Às ruas. Às praças. Para Brasília.

    * Levon Nascimento é professor de História, sociólogo e mestrando em “Estado, Governo e Políticas Públicas” pela Fundação Perseu Abramo e Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais.
  • Artigo: Foi um golpe de Estado

    * Levon Nascimento

    O ano de 2016 chega ao fim e tristemente constatamos de que nele houve um golpe de Estado no Brasil. Aliás, o golpe continua.
     
    As massas médias vestidas de verde-e-amarelo (mas apaixonadas pela bandeira estadunidense), midiática e propositalmente desinformadas, foram levadas a acreditar que os governos do PT promoveram os maiores escândalos de corrupção da história do Brasil e que este partido gastava abusivamente o dinheiro público, para elas, razão da grave crise econômica. Como ter memória política não é um dos fortes dessa gente, as mentiras colaram feito visgo de jaca e ela pagou o mico do século ao ir às ruas defender o atraso fascista fantasiada de Batman tupiniquim. O mundo sentiu vergonha alheia.
     
    Assim, o impeachment de Dilma Rousseff ocorreu sem maiores problemas dentro das podres instituições da República, capitaneado por Eduardo Cunha e Renan Calheiros, desencadeado pelo choro de perdedor de Aécio Neves, urdido pela traição de Michel Temer, açodado pelas seletivas decisões do juiz Moro, permitido pela omissão vergonhosa do STF e amplificado pela manipulação da Globo e das demais mídias do cartel brasileiro. E por motivo fútil: as tais pedaladas fiscais praticadas por qualquer governante brasileiro ou mundial sempre que se necessita remanejar recursos públicos de uma área para outra. Mais escandaloso ainda, sem que a presidenta fosse ré em qualquer tipo de processo. Uma mulher honesta derrubada por um bando de ladrões repugnantes.
     
    Pergunte a qualquer brasileiro imbecilizado sobre o motivo de Dilma ter sido afastada da presidência e ele lhe dirá: “por causa da roubalheira e da corrupção generalizada” ou “ela acabou com o Brasil”. É o perfeito otário, sem meias palavras. Nunca ouviu falar do “Caso Banestado”, julgado pelo mesmo Moro ou da “Privataria Tucana”, nunca levada a juízo. Não se informa. Só recebe passivamente as rações diárias servidas pelo “Partido da Imprensa Golpista”, o PIG.
     
    Na verdade, Dilma, Lula e o PT foram os bodes expiatórios. Não sou tolo a ponto de achar que não houve desvios éticos em seus governos. Porém, que qualquer pessoa minimamente séria sabe que são fichinhas perto do que os velhos profissionais da direita praticam à luz do dia desde o desembarque de Pedro Álvares Cabral em Porto Seguro. Fosse para acabar com a corrupção e equilibrar as contas públicas, a tal Lava-jato não estaria protegendo os maiores corruptos do país – do PSDB, do PMDB e do DEM – e o (des)governo Temer não teria ampliado a gastança de forma tão descarada – e com motivos extremamente fúteis, bem ao contrário do rigor dilmista. O fato é que o golpe de Estado veio para destruir a parte virtuosa dos governos petistas: os programas sociais, a melhora na distribuição de renda e a queda (ainda que tímida) da desigualdade social. Qualquer um que seja responsável saberá entender que os golpistas trabalham incessantemente para aumentar os privilégios da camada rica e esfolar os trabalhadores (aqui incluída a imbecil classe média que odeia o PT) e os pobres.
     
    Mas o golpe foi além. Não somente as conquistas de Lula e de Dilma são os alvos do trator que tomou o poder. É o próprio pacto democrático instituidor da Constituição de 1988 que está em risco. Com a PEC 55 (a do corte de gastos em saúde, educação e seguridade) e a Reforma da Previdência (que deixa de lado militares, juízes e políticos, mas desce o cacete em todos os demais trabalhadores, especialmente as mulheres, os rurais e os professores, que terão as idades mínimas de aposentadoria unificadas em 65 anos de idade e 49 de contribuição), o que se pretende é dar marcha ré em direção à República Velha.
     
    A Constituição de 1988, ao instituir o SUS (Sistema Único de Saúde), a gratuidade e universalidade do ensino e o sistema de seguridade social, colocou o Brasil no mundo civilizado. Claro que esses sistemas nunca funcionaram a contento, pois se trata de uma Nação periférica do sistema capitalista, cheia de incongruências estruturais, mas a simples menção disso no ordenamento jurídico maior dá a direção do projeto daquilo que o país desejava se tornar.
     
    A camarilha golpista que assumiu o poder com a destituição de Dilma Rousseff é uma coalizão escabrosa que une os velhos e corruptos coronéis do PMDB, os lesa-pátria sofisticados do PSDB, as corporações intocáveis do Judiciário, do Ministério Público, da Polícia Federal e dos militares, o baixo clero do Congresso (especialmente a bancada religiosa), a falida FIESP (do pato que os idiotas vão pagar) e a grande mídia brasileira (sob a batuta da indefectível Globo). Todos sob o comando unificado e perverso do mercado financeiro, o qual leva 45% de tudo o que os brasileiros produzem na forma de juros e pagamentos da dívida pública.
     
    Essa turba, blindada pela ignorância do brasileiro médio, que detesta o PT e tudo quanto lhe lembre que também é proletário e pobre, está literalmente destruindo o país, a Constituição de 88, as instituições, a economia real e qualquer sonho de uma Nação soberana para o futuro. E dá-lhe PEC 55, reforma da previdência e ampliação do estado de exceção (aliás, a regra no país dos golpes).
    Foi um golpe de Estado. Aliás, é um golpe, enquanto a economia patina rumo à depressão. E ele tende a se ampliar, porque golpes sempre são seguidos de ditaduras. É um golpe contra você, ainda que tenha acreditado que a grande culpada de tudo era a dona Dilma.

    * Levon Nascimento é professor de História e mestrando em “Estado, Governo e Políticas Públicas” pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais – Flacso Brasil.
  • A República dos golpes

    Deodoro da Fonseca
    * Levon Nascimento
    A República brasileira começou há exatamente 127 anos com um golpe de Estado contra o governo do imperador Dom Pedro II, não por apreço aos valores republicanos, mas em vingança à princesa Isabel, herdeira do trono, que um ano antes havia assinado a abolição da escravatura negra. Um misto de machismo e ódio de classe. Qualquer semelhança com a deposição de Dilma Rousseff em 2016 não é mera coincidência.
    Golpe comandado pelo marechal Deodoro da Fonseca (leia-se: os militares do Exército brasileiro, motivados pelo positivismo racista, última moda importada no final do século XIX). Atrás de si, um séquito de homens brancos, ricos, racistas e autoritários. Qualquer semelhança com o governo de Temer em 2016 não é mera coincidência.
    De lá até aqui, é sempre com golpes de Estado que a elite brasileira se perpetua no poder. Uma lista longa: república do café-com-leite, “revolução” de 30, Estado Novo, golpe militar de 64, golpe parlamentar de 2016.

    E, igualmente, é da mesma forma que combatem os movimentos sociais: Canudos, Revolta da Vacina, Revolta da Chibata, Contestado, Intentona Comunista, Ligas Camponesas, movimento estudantil, MST, etc.

    Aristides Lobo, naquele longínquo 15 de novembro de 1889, em que a República foi proclamada, narrou que “o povo assistiu àquilo bestializado”. Continua a bestialização pela tela da Globo.

  • Os erros do PT

    * Levon Nascimento
    A questão vai muito além dos erros do PT ou da esquerda. Erramos muito, com certeza, e estamos pagando por isso. Mas os ataques da direita se concentram justamente nos acertos e nas virtudes do PT, ou seja, nos direitos sociais, no fortalecimento do mercado interno e nas políticas de inclusão construídas nos governos de Lula e Dilma.
    Para a direita nativa, é preciso confinar novamente a “negrada” à senzala, de onde nunca deveria ter saído. Onde já se viu pobre estudar em cursos antes reservados às “castas superiores”? Parece uma mistificação essa pergunta anterior, mas é exatamente como pensa o setor que foi às ruas, espumando de ódio fascista, nas tais manifestações “contra a corrupção” (dos outros), vestido de amarelo-cbf.
    Mas, o atual momento também não pode ser compreendido fora do contexto mundial. Trata-se do rearranjo das forças do capital, golpeadas pela crise que se iniciou em 2008 nos EUA, buscando a qualquer custo manterem-se vivas. Para elas, o lugar destinado ao Brasil sempre foi e será o de colônia dócil, aberta sem resistência ao imperialismo do Norte. Nada de política externa ativa e altiva como na Era Lula!
    Enfim, os pecados do PT e da esquerda foram vários e, talvez, imperdoáveis, mas nenhum foi maior do que ambicionar construir uma Nação mais justa e forte ao sul da linha do equador. E não há, nunca houve e nem haverá opção pura, sob o risco de continuarmos em nosso letárgico messianismo, sempre à busca de um salvador da Pátria.
    O caminho é que os trabalhadores e os pobres se envolvam na política e a tornem parte de suas vidas
    * Professor de História e mestrando em “Estado, Governo e Politicas Públicas” pela Flacso/FPA.
  • Artigo do Levon: O fim do governo da primeira mulher

    Dilma e Lula na noite da vitória de Dilma em 2010
    Está chegando ao fim o governo da presidenta Dilma Rousseff e os anos do PT no comando central da República. Injustamente, pois este final se dará por um golpe de estado parlamentar, midiático, judicial e institucional. Ela não cometeu crime de responsabilidade e é honesta. Nada se comprovou contra Dilma, que teve sua vida vasculhada de ponta a ponta. Pelo contrário, ofenderam-na desde o dia em que se soube que seria candidata à presidência da República. Na pessoa de Dilma, o machismo estrutural revelou sua face mais torpe e cruel contra todas as mulheres da Nação. Aliás, a primeira mulher a alcançar o mais alto posto do estabilishment brasileiro foi também a nossa chefe de Estado mais vilipendiada de todos os tempos.

    Mulher de fibra, fiel aos princípios democráticos e de extremado amor ao povo do Brasil, Dilma Rousseff será deposta na próxima segunda ou terça, 29 ou 30 de agosto. Tristes agostos para a política brasileira!
    Chegará ao fim um dos mais belos períodos da História deste país. Época em que, pela primeira vez, os pobres, os pequenos, os negros, as mulheres, os homossexuais, os marginalizados e os trabalhadores tiveram vez e prioridade nas políticas do governo brasileiro. Tempo de ouro que começou em 2002, com a eleição do operário Luiz Inácio Lula da Silva.
    Dificilmente veremos, nas próximas duas ou três gerações, um tempo tão belo e frutífero quanto este que a ganância de nossa torpe burguesia, amparada por uma classe média néscia, fez se eclipsar.
    Meu registo, nestes dias tão tristes, para a História. Eu vivi os dias de Lula e de Dilma na presidência do Brasil. Nunca houve governantes tão dedicados à causa do Brasil, tão empenhados em fazer melhorar a vida da maioria e tão barbaramente perseguidos nesta terra. Erros, cometeram, muitos. A autocrítica partidária deverá ser feita. Mas isto não apaga o brilho do que foi construído e conquistado. A História nos dará razão. Afinal, estamos do lado certo da História!
    Levon Nascimento, 27 de agosto de 2016.

  • Artigo do Levon: A última carta de Dilma

    Dilma Rousseff, primeira mulher a ser eleita presidenta
    da República brasileira. Vítima de um golpe de Estado.

    A carta proclamada pela presidenta-eleita Dilma Rousseff ao Povo Brasileiro e ao Senado da República, na tarde desta terça, 16 de agosto de 2016, tem tudo para se tornar um documento histórico.

    Histórico porque representa a última ação, em favor da manutenção da democracia brasileira, de uma mulher íntegra, honesta, que não cometeu crime de responsabilidade, a primeira do sexo feminino a ser eleita e reeleita para o mais alto cargo do Estado brasileiro, conclamando a Nação a resistir a mais um golpe de estado. Lembre-se de que o Brasil é o país onde este tipo de golpe é a regra e não a exceção.

    Dilma Rousseff teve problemas em seus governos, errou muito, mas acertou outro tanto. Buscou governar para os pequenos, os fracos, os pobres e os trabalhadores. Não teve jogo de cintura para lidar com a gula insaciável do mercado e nem com os gangsteres que povoam a política brasileira desde que Cabral pôs os pés em Porto Seguro. Talvez, aí esteja o maior erro de Dilma. Não fez concessões a Eduardo Cunha e sua gangue. Isto lhe custou o mandato conferido por 54 milhões e meio de brasileiros.

    O petrolão, a Lava-jato, a piração religiosa em torno da polêmica do aborto, a misoginia, a imbecilidade política da classe média, o machismo e o racismo contra sua política inclusiva fizeram um inferno cotidiano sobre o qual Dilma Rousseff teve que ter estômago mais pródigo do que o de avestruz. Dilma foi duas vezes torturada: na ditadura passada (1964-1985), em favor da democracia; na ditadura midiático-judiciária dos golpistas hodiernos, novamente pelos valores democráticos.

    Dilma Rousseff é uma mulher de fibra, como muitas brasileiras anônimas, autêntica e patriota. Pena que milhões de brasileiros levarão umas duas gerações até perceber que crucificaram a pessoa honesta e colocaram livres os verdadeiros bandidos, de quebra, entregando-lhes o poder sobre a Nação!

    Na carta, Dilma pede a chance de voltar à presidência para convocar um plebiscito no qual os brasileiros escolheriam em manter o seu mandato até 2018 ou convocar novas eleições. Não acredito que a maioria do Senado, tão subserviente aos interesses do capital financeiro e seus próprios, inconfessáveis e particularistas, se comoverá. O “golpeachment” se efetivará. Dilma Rousseff e os anos de ouro dos governos do PT, nos quais pobre teve vez na agenda pública, ficarão para a História fazer justiça. Num primeiro momento, condenados pelo efeito da manipulação da manada. No futuro, como símbolo do Brasil que quase deu certo, não fosse sua elite perdulária e sua emburrecida classe média.

    Hoje, sinceramente, não tenho mais esperanças na política e nem acredito em eleições num regime que depõe uma mulher honesta para entregar o poder a homens brancos, velhos, ricos e corruptos.

  • Poema: O lado certo da História

    Levon Nascimento


    Que estamos do lado certo da História,
    Nunca tive dúvidas.
    Que isto não nos sirva de consolo,
    Nem de desculpas para parar a luta.
    A luta continua,
    Antes, pelo avanço
    Da democracia brasileira.
    Agora, para que a democracia
    E os direitos não se percam.
    Quem é de luta está comigo
    E eu com ele(a).
    Aos golpistas,
    A lata de lixo
    E a vala comum.

  • Novo FEBEAPÁ: o golpe de 2016

    FEBEAPÁ (Festival de Besteiras que Assola o País) é o título de uma série de três livros escritos pelo cronista, escritor, radialista e compositor brasileiro Sérgio Marcus Rangel Porto (Rio de Janeiro, 11 de janeiro de 1923 — 30 de setembro de 1968), mais conhecido por seu pseudônimo Stanislaw Ponte Preta. No FEBEAPÁ, Ponte Preta ironizava as pérolas dos anos iniciais da Ditadura Militar brasileira. Pois não é que com o golpe de 2016, um novo FEBEAPÁ está acontecendo na vida política e social brasileira!
    Conta-nos, Stanislaw, que nos anos 60 do século passado, a repressão invadiu um sindicato à procura de todos os livros do “comunista comedor de criancinhas” Karl Marx, o velho filósofo alemão que viveu no século XIX, mas que acabou fichado no DOPS (órgão da ditadura brasileira) como figura muito suspeita que ameaçava o regime. O primeiro livro estranho encontrado foi levado e queimado na rua por ter a capa vermelha. Era uma Bíblia doada aos líderes sindicais do mundo inteiro pelo Papa João XXIII, durante uma solenidade de São José Operário, em algum 1º de maio. Mas, como estava escrita em latim e, ainda, com capa vermelha, só podia ser coisa de comunista ateu (risos). “O Capital”, livro de Marx, permaneceu incólume, pois tinha capa preta e edição discreta. Agora, nos tempos do usurpador golpista temerário, do deputado Bolsonaro, que elogia torturadores na sessão do impeachment, de Eduardo Cunha, que apronta todas e nunca vai preso e dos parlamentares obscurantistas, uma professora do Paraná foi afastada da escola – pasmem! – por ensinar as teorias de Karl Marx na aula de sociologia, coisa que consta do curriculum de qualquer escola brasileira, americana, inglesa ou japonesa que preze por oferecer um ensino de qualidade.
    A julgar pelo ridículo e pelo desmonte das políticas públicas que o governo golpista está operando em apenas dois meses, todos os professores de História, Ciências, Sociologia, Geografia e Filosofia que se preparem, pois a nova ditadura “temerária” brasileira, que pôs fim à Nova República inaugurada por Tancredo Neves em 1985, vai em breve nos censurar e perseguir por ensinar Paulo Freire, Milton Santos, Guerra Fria, evolucionismo darwinista, cultura afro-brasileira e indígena, teoria do subdesenvolvimento e o artigo 5º da Constituição de 1988, aquele que trata sobre os direitos dos cidadãos e cidadãs do Brasil.
    Não bastasse querer elevar a aposentadoria para 70 anos, entregar o pré-sal para as multinacionais americanas, aumentar a jornada diária de trabalho de oito para doze horas, agora é a tal da “Escola Sem Partido”, defendida pelo ator pornô Alexandre Frota na visita que fez ao Ministro da Educação do governo golpista de Temer, ainda em maio.
    Fora Dilma! Bem-vinda nova ditadura! A história se repetindo, como em 1964. Quantos serão torturados e mortos novamente?
  • Sem Dilma não tinha obras em Taiobeiras

    Dilma Rousseff e o PT são vítimas de um terrível ódio em Taiobeiras. Ódio artificialmente cultivado e disseminado pela elite política, burocrata e econômica. Mas, a verdade, é que se não fosse Dilma, as obras inauguradas nos últimos dias (na área da saúde) e as em andamento (construção de creches, etc) não existiriam. Sem falar dos programas sociais, que ajudam os pobres e trabalhadores, da cidade e da zona rural, a enfrentarem a crise e alimentam o comércio local. Tudo isto é propositalmente escondido do povo.
    Pode-se criticar Dilma em vários aspectos, mas se não fosse o governo dela, a situação de Taiobeiras seria muito mais grave.
    Vamos ver quando Michel Temer, o usurpador, conseguir reduzir os gastos com a saúde e a educação – e conseguir aumentar a idade para as pessoas se aposentarem – como que a situação vai ficar.
  • Texto do Levon: Quem é o inimigo a ser morto?

    Bem, o esperado está acontecendo.
    Primeiro, demonizaram o PT e esconderam a podridão dos outros partidos (PSDB, PMDB, PP, PTB, etc.), muito maiores do que as do PT. E é fácil provar que são realmente muito maiores. Depois, tramaram contra Lula que, apesar de nem ser réu, não podia ser nomeado ministro, enquanto que o governo golpista está cheio de investigados na Lava-jato e em outras lambanças, sem contar Eduardo Cunha na presidência da Câmara, mesmo com a revelação das contas na Suíça. Em seguida, o impeachment de Dilma, mulher honesta, que não cometeu crime de responsabilidade. Agora, justamente no período eleitoral, bloqueiam a conta do PT. A desculpa, como sempre, é a de combater a corrupção. Mas só tem PT nesse emaranhado de 35 partidos políticos? É só desculpa. O objetivo é cortar o financiamento das candidaturas de petistas e deixar livres os demais. Justamente, os demais!
    O tolo que acredita que a corrupção está sendo combatida com a destruição do PT deve achar que, enfim, o Brasil se tornará um mar de rosas. Pobre coitado! Asno!

    É um golpe. O PT é apenas o símbolo do inimigo a ser combatido. Só o símbolo. O verdadeiro inimigo a ser “morto”, extirpado como um câncer, é o pobre, é o trabalhador, é aquele que vai perder os poucos direitos que conquistou na última década, durante os governos petistas:
    * Valorização do salário mínimo,
    * “Minha Casa Minha Vida”,
    * PAC,
    * ProUni,
    * Fies,
    * Brasil Sem Fronteiras,
    * Luz para Todos,
    * Água para Todos,
    * Caminhos da Escola,
    * Bolsa Família,
    * Cotas para pobres, negros e indígenas,
    * Políticas de proteção à mulher,
    * Pronaf,
    * Previdência social,
    * “Mais Médicos”,
    * Escolas técnicas,
    * Institutos federais,
    * Concursos públicos,
    * 14 novas universidades,
    * Integração latino-americana,
    * Inclusão de 40 milhões de pessoas retiradas da extrema miséria, etc…

    Anos sombrios e terríveis pela frente, só porque você gritou “Fora Dilma e leve o PT junto”. Prepare-se para sofrer.

  • Capazes de vender o Brasil e os brasileiros enrolados na Bandeira Nacional

    * Levon Nascimento

    “A nossa bandeira jamais será vermelha” – gritam os manifestantes da classe média branca pelas ruas das principais capitais brasileiras, vestindo a camisa amarela (ou azul) da corrupta CBF, com os rostos pintados de verde-amarelo e paramentados com todo tipo de enfeite – quando não, com o próprio – que mimetizam o pavilhão nacional (Bandeira do Brasil). Não! Não é uma cena extraída do túnel do tempo, direto de 1964, do contexto de polarização capitalismo X socialismo, típico da Guerra Fria. Ocorre no ano de 2016, em pleno século XXI, tendo como pano de fundo os governos do PT, partido que, mesmo se declarando de esquerda, conduziu um governo genuinamente de estímulo ao mercado capitalista, seja ele o de consumo, através do Bolsa Família e dos demais programas de inclusão social, seja o financeiro, facilitando os altos lucros bancários através de taxas de juros elevadas. Causa espanto ver pessoas supostamente estudadas e bem informadas acreditando que os governos Lula e Dilma tramam a implantação de uma “ditadura comunista” (sic). É a típica ignorância da classe média que, como diz o sociólogo Jessé de Souza, é sadomasoquista, pois prefere mobilizar e vocalizar bandeiras de interesse da alta burguesia financeira e industrial, que a prejudica com altos preços em bens e serviços, do que reconhecer-se explorada e unir-se à luta dos demais trabalhadores. Na ausência de discurso ou de projeto minimamente racional, essa gente prefere se alimentar do vazio das teorias conspiratórias e enxergar no fantasma do comunismo, em plena era da globalização, o sentido para mascarar suas frustrações, medos e preconceitos. Ignorantemente perfilada com o neoliberalismo desnacionalizante, faz isto vestida com a bandeira nacional. Haja contradição! Mas não enxergam.

    A história da Bandeira Nacional é curiosa. Originalmente foi desenha pelo pintor francês Jean-Baptiste Debret – artista que veio nas missões artísticas patrocinadas por dom João VI – por encomenda de Pedro I assim que a independência foi proclamada em 1822. É composta de um retângulo verde, representando a casa de Bragança, família do imperador, e de um losango amarelo, símbolo da casa real austríaca dos Habsburgo, dinastia da primeira imperatriz brasileira, dona Leopoldina. Com a República, o brasão do Império em seu centro foi substituído por uma esfera azul, ornada de estrelas brancas – referentes às unidades da federação –, conforme a disposição das constelações visíveis no céu do Rio de Janeiro durante a noite de 15 de novembro de 1889, e por uma faixa igualmente branca onde está escrita a frase “Ordem e Progresso”, lema do positivismo francês – influência sobre as mentes dos militares brasileiros que deram o golpe republicano – que dava sentido ao imperialismo e neocolonialismo explorador europeu em fins do século XIX. Sim, a frase “Ordem e Progresso” não tem nada de nobre! Os que a inventaram pensavam tão somente na manutenção da “ordem” capitalista e exploratória dos povos brancos europeus sobre o resto do planeta. O “progresso” desejado por eles era o mesmo dos que não se importam em desmatar, poluir ou deixar barragens de rejeitos de minério se romperem sobre povoados desprotegidos e grandes rios de importância regional, como a Samarco fez em Mariana recentemente. Mesmo assim, nada tira a beleza do “símbolo augusto da paz” – como canta o Hino à Bandeira – nem seu sentido afetivo de sinal maior da união de todos os brasileiros. A Bandeira do Brasil não pertence apenas aos que vociferam odientos, favoráveis ao golpe de estado travestido pelo termo anglo impeachment. Ela igualmente é dos trabalhadores, artistas, intelectuais e estudantes que marcham de vermelho pela democracia, bradando “Não vai ter golpe! Vai ter luta”! Ou, mais legitimamente a estes últimos.

    As pessoas que se vestem de Bandeira Nacional para gritar “Fora Dilma”, “Fora Lula”, “Fora PT”, “Menos Paulo Freire”, “Somos milhões de Cunhas” ou “Abaixo o Comunismo” acham que são os legítimos e verdadeiros brasileiros. Triste e perigoso engano fascista! Da mesma forma, referem-se a si mesmos como os “cidadãos de bem”. De resto, em seu pervertido raciocínio, os que não embarcaram na degradante aventura golpista do impeachment são “do mal” e antibrasileiros. Aí se justifica a inepta frase “Nossa bandeira jamais será vermelha” ou a idiotice de crer que cada manifestante de vermelho estaria nas passeatas de esquerda porque recebeu trinta reais ou uma merenda de pão com mortadela. Essa gente não percebe que as manifestações majoritariamente de verde e amarelo defendem o retrocesso civilizatório, a destruição da democracia brasileira e os instintos mesquinhos daqueles que em absolutamente nada corroboram com o interesse nacional. As grandes corporações financeiras e midiáticas, que defendem o afastamento de Dilma e insuflam as massas de rua contra ela, subscrevem o aprofundamento da ideologia neoliberal mais selvagem, planejam o sucateamento da Petrobrás e a entrega de mão beijada dos direitos de exploração do pré-sal às petroleiras estrangeiras, anseiam pela redução dos gastos sociais e dos direitos trabalhistas, o que devolverá à miséria milhões de famílias incluídas nos últimos 14 anos de governos petistas e propõem levar a efeito um amplo programa de privatizações que terminará por mercantilizar os nossos já débeis serviços básicos. Querem retomar a integração subalterna à ALCA e aos organismos financeiros internacionais, como o FMI, interrompida pelo governo Lula. Enfim, nada mais antinacional do que os ativistas vestidos de verde e amarelo nas manifestações anti-Dilma. Eles “odeiam” o Brasil, detestam sua gente e cultura popular, idolatram os modos e valores norte-americanos e europeus. Não se envergonham de sofrer da secular patologia social denominada “complexo de vira-latas”, máxima cunhada por Nelson Rodrigues.

    Ao contrário, as multidões que saem de vermelho às ruas, da cor da luta dos povos oprimidos em todos os lugres do mundo e tempos da História, que nada têm de fanáticos torcedores de um eterno Fla X Flu político, como imaginam os ingênuos “apolíticos” ou “apartidários”, imbuídas de cívica e verdadeira consciência cidadã e democrática, lutam pela manutenção e ampliação da ainda recente e incompleta democracia brasileira. Defendem que os recursos nacionais estejam sob o controle das instituições do Estado e da sociedade do Brasil. Promovem a politização da sociedade para que os bens e serviços pátrios fiquem a cargo do bem comum, da inclusão social e da igualdade de condições. Expressam seu repúdio à mercantilização dos valores brasileiros para fins do lucro insaciável de apenas alguns, muitos destes estrangeiros. Trágica e ironicamente, as multidões de vermelho são, de fato, nacionalistas e defensoras da soberania brasileira.

    É um tempo contraditório e complexo o que o Brasil passa nestes dias. Trajados de vermelho, uma cor internacionalista e sinal da consciência de classe, estão os legítimos defensores da Pátria. Vestidos com a Bandeira Nacional, como se somente a eles pertencesse, estão os que foram seduzidos pela sereia do fascismo e que não pensariam duas vezes antes de vender o Brasil numa bandeja de prata aos interesses ególatras do imperialismo mundial.

    * Levon Nascimento é professor de História e mestrando em “Estado, Governo e Políticas Públicas” pela FLACSO Brasil (Faculdade Latino-americana de Ciências Sociais).
  • Claro como o sol e escuro como a noite

    É nítido como a luz que brilha o quadro político brasileiro atual. As forças que perderam o comando do país em 2002, com a eleição de Lula para a presidência do país, querem dar um golpe de estado e destituir a Presidenta Dilma Rousseff. Quando não os mesmos, têm idêntico DNA dos que levaram Getúlio Vargas ao suicídio, tumultuaram o mandato de Juscelino Kubistchek, conclamaram o golpe de 1964 contra João Goulart e as Reformas de Base, deram suporte político e ideológico à ditadura civil-militar (1964-1985) e nunca engoliram a chegada do torneiro mecânico e da guerrilheira mineira ao posto máximo da República. Emprestaram a cadeira que sempre lhes pertenceu, desde que Cabral pôs os pés nesta terra, mas agora querem retomá-la a qualquer custo. Como não conseguiram em 2014, com seu candidato aviador, não se importam em manchar a imagem do país com um novo golpe, desta vez de inspiração hondurenho-paraguaio, midiático-judicial.

    Sim, trata-se de um golpe de estado! E não há como dizer que não é. Dirão que o impeachment está previsto na Constituição de 1988, que já foi usado contra Collor, etc. É verdade. Mas se esquecem de que o impeachment(cassação do mandato do presidente da República) só é permito pela Carta Magna quando há comprovação inequívoca de cometimento de crime de responsabilidade. Com Collor, havia dezenas de provas. Com Dilma, apesar do esforço da mídia, da oposição política e de setores do judiciário, não se provou exatamente nada contra ela. A Rede Globo tenta fazer a população acreditar de que se trata de uma “ladra, vagabunda e desequilibrada”. O juiz Moro quebra seu sigilo telefônico e “vaza a jato” no Jornal Nacional. Mas, tudo o que conseguiram provar é de se trata de uma mulher de fibra, que não se vergou aos torturadores da ditadura nem aos abutres – da atualidade – que a querem fora (viva ou morta) do cargo para o qual foi reconduzida com mais de 54 milhões de votos.

    É um golpe, sim! Com dois anos de investigação da Lava-jato, quebra de sigilo telefônico e dezenas de delações premiadas, nada se provou contra a honestidade de Dilma Rousseff. Tanto é um golpe que, apesar de todos os rumores acerca da Petrobrás, para pedir o seu impeachmentna Câmara, tiveram que inventar como motivo as tais “Pedaladas Fiscais”. Sim! Dilma não está ameaçada de perder o cargo de presidenta por conta do “Petrolão”. Querem cassar o seu mandato por causa das “pedaladas fiscais”. Aposto que você não sabia! A grande mídia, que manipula e aliena as pessoas, não faz questão de lhe explicar.

    Segundo a tese das pedaladas, Dilma teria cometido crime porque, ao iniciar os meses sem dinheiro no caixa do Tesouro Nacional, pegou dinheiro no Banco do Brasil e na Caixa Econômica Federal – que são instituições públicas, sob seu comando, inclusive – para pagar os gastos do governo com os programas sociais: Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, ProUni, etc. Posteriormente, quando o dinheiro entrava no caixa, repassava-o de volta aos bancos federais. Em outras palavras, não estão “tirando” Dilma do poder porque ela pegou dinheiro público e pôs no próprio bolso, mas porque, assim como uma mãe, ela preferiu retirar dinheiro dos bancos ao invés de atrasar os compromissos com os programas sociais que tanto contribuem na inclusão de milhões de brasileiros pobres e trabalhadores. É necessário acrescentar que, vários outros presidentes antes de Dilma também realizaram as pedaladas fiscais e não sofreram impeachment, assim como diversos governadores de estado e prefeitos municipais. O vice Michel Temer, quando no exercício da presidência, também praticou as tais pedaladas. Se Dilma deixar de ser presidente por isto, então todos os governadores e prefeitos deveriam ser cassados.

    É um golpe de estado! E isto fica claro quando se percebe que a tal planilha ou lista da empreiteira Odebrecht, fruto das investigações da operação Lava-jato, contém mais de 300 nomes de políticos brasileiros, de quase todos os partidos políticos, menos os de Lula e Dilma. Enquanto que as gravações telefônicas dos dois foram divulgadas com estardalhaço pelo juiz Moro e pela Globo, sem nada provar contra eles, sobre a mesma lista, que levaria os “moralistas sem moral” à cadeia, também o mesmo juiz decretou sigilo judicial e o Jornal Nacional fez escandaloso silêncio. Acho que você nem sabia da existência dessa lista!

    É um golpe, sim! Pois os que agora tramam a queda de Dilma já negociam como seria o pacto do futuro governo comandado pelo vice Michel Temer. Em acordo com o PSDB, aquele mesmo que foi derrotado nas últimas quatro eleições presidenciais, Temer liquidaria com a Petrobrás, acabaria com o controle brasileiro sobre o pré-sal (por Lula destinado à saúde e à educação) e o entregaria à exploração das petroleiras americanas, daria prosseguimento à política tucana de privatização selvagem, reduziria os direitos sociais conquistados nos governos do PT, acabaria com as políticas públicas de inclusão social, perseguiria os movimentos sociais e a esquerda política e, pasmem!, abafaria a operação Lava-jato, de modo que ela ficasse restrita apenas à punição e execração pública dos petistas, salvando os corruptos e corruptores dos demais partidos políticos.

    É um golpe, sim! Uma presidenta sobre a qual, apesar de tanta investigação, não se conseguiu provar nenhum envolvimento em crimes ou roubalheiras, mas que pelo contrário, dá autonomia à Polícia Federal para que investigue a tudo e todos, inclusive os de seu próprio partido e a ela mesma, sendo ameaçada de perder o mais alto cargo da República, conquistado com a aprovação de mais de 54 milhões de votos, por um político mais sujo do que pau de galinheiro, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara dos Deputados, com mais de duas dezenas de processos, provas de contas secretas na Suíça, machista declarado, contrário aos direitos sociais e atolado até o pescoço em corrupção. Metade dos deputados escolhidos para compor a comissão que analisa o impeachment de Dilma na Câmara é investigada na Lava-jato ou tem outros processos pesando contra si. São os verdadeiros corruptos posando de bons moços e ameaçando o mandato da presidenta, contra a qual não pesa atos de corrupção.

    É um golpe, sim! O país está em crise econômica. A luz, os combustíveis e os alimentos estão caros. O desemprego avança. Mas  grande mídia não explica que é uma crise mundial. E que esta crise afetou o Brasil. Mas que o Brasil, apesar de tudo, passa por ela melhor do que a média dos demais países do mundo. Quem se lembra de outras crises pelas quais o Brasil já foi atingido sabe que havia quadros de fome generalizada. Hoje, apesar da gasolina alta, a maioria dos brasileiros tem carro ou moto e não deixa de rodar. Pode ter reduzido certos hábitos de consumo, mas nem de longe deixa de se alimentar. No passado, antes dos governos Lula e Dilma, quando se falava em crise no Brasil, o quadro era africano. A crise econômica atual é ampliada pela turbulência política. Enquanto não deixarem Dilma governar em paz, ela não passará. O golpe do impeachment só agravará a situação.

    É um golpe, sim! Está nítido e cristalino. É tão claro como o sol que raiou pela manhã. Nenhuma pessoa que está calada, apenas observando, poderá dizer no futuro que não tinha conhecimento ou de que fez confusão sobre os lados desta batalha. Embora ninguém seja anjo neste jogo, está muito claro quem são e quem não são os demônios. É de uma clareza insólita qual é o lado certo e qual é o lado errado, quem realmente está do lado povo e quem está contra. Há o golpismo e a defesa da jovem democracia brasileira. Se você não compreender a clareza solar desta situação e não se posicionar, o Brasil será envergonhado internacionalmente por mais um golpe de estado e se transformará numa realidade tão escura quanto a noite. Ficar no muro também é tomar partido, do lado dos golpistas. A História julgará cada um pelo lado que escolher.

    * Levon Nascimento é professor de História e mestrando em “Estado, Governo e Políticas Públicas” pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais.
  • Artigo do Levon: Fascismo brasileiro

    Inúmeras fontes afirmam que Adolf Hitler, Heinrich Himmler, Joseph Goebbels e outros próceres do nazismo eram pessoas dóceis e gentis no contato íntimo e interpessoal. Poderiam ser definidas como “boas pessoas”, amáveis, educadas e, pasmem!, honestas. O problema é que sofriam de uma patologia social chamada “fascismo”. Para os fascistas, uma parte da humanidade – a que eles pertencem – é pura, limpa, honesta e boa. Esta, na opinião dos que sofrem a “doença” fascista, é boa e merece viver. “Direitos humanos para humanos direitos” – eles falam. Já os demais, os diferentes, os judeus, os negros, os comunistas, os deficientes físicos e mentais… estes, no modo de pensar fascista, são sujos, impuros, imperfeitos, desnecessários, corruptos e não merecem viver. A ideologia fascista desumaniza e transforma em “demônios” as pessoas aparentemente diferentes ou que não pensam igual aos fascistas.
    Acontece que o fascismo é muito bom de propaganda. Antes de chegarem ao poder, eles convencem a maioria da população de que o “outro” – o “diferente” – não presta, é impuro, é corrupto e merece morrer. “Bandido bom é bandido morto” – eles afirmam. Assim, quando têm o poder nas mãos, os fascistas, em nome da bondade e do combate à maldade e à corrupção, praticam todas as crueldades possíveis contra aqueles que não se enquadram em suas ideias. Como já tinham feito a cabeça da maioria do povo, as maldades não são questionadas pela população que, pelo contrário, apoia, aprova e acha “normal” a banalização da violência, da perseguição e do “banimento” dos “impuros”.
    No Brasil atual, a Rede Globo e outras mídias, setores do Judiciário, da Polícia Federal e do Ministério Público têm feito o papel de estimular o fascismo. Vê-se boas pessoas, pais e mães de família, religiosos, gente cristã e honesta brandindo palavras de ordem com agressividade e violência. São amáveis e dóceis em casa e socialmente, mas quando se toca no tema da política, seu semblante se transforma e elas passam a vociferar ideias, no mínimo, questionáveis do ponto de vista dos avanços civilizatórios dos últimos dois séculos. Os petralhas, como eles chamam a qualquer pessoa que ouse pensar diferente do que eles propagam, ainda que não sejam formalmente filiados ao Partido dos Trabalhadores, são os novos judeus. Na pregação dos fascistas brasileiros, existiriam dois tipos de petistas: os “burros”, que seguem as lideranças, e os “bandidos”, que formariam uma quadrilha para assaltar o país.
    Desta forma, não importa se há provas dizendo que Lula e Dilma não roubaram na Petrobrás. A simples denúncia contra um deles ou contra qualquer petista é repetida na mídia como se já fosse uma comprovação de culpa, de modo a levar as massas a acreditarem que se tratam de pessoas extremamente corruptas, depravadas e imorais. Da mesma forma, qualquer cidadão que ouse defender a democracia, mesmo sendo crítico a certos pontos do governo atual, sofre desde linchamento moral a até mesmo agressões físicas, como as que ocorreram esta semana na Avenida Paulista, contra pessoas que usavam a cor vermelha, símbolo das lutas populares de esquerda no mundo inteiro.
    Assim, na escalada perigosa do fascismo brasileiro, os petistas são os novos judeus – sujos, imundos, corruptos e bandidos. Contra eles e seus líderes nacionais – Lula e Dilma – tudo é permitido: grampear, vazar informações, prender sem provas e fazer o impeachment mesmo que a presidenta não tenha cometido crime de responsabilidade conforme reza a Constituição Federal. Já contra os comprovadamente corruptos, como Aécio Neves, Geraldo Alckmin, Eduardo Cunha et caterva, blindagem na mídia, lentidão da justiça e hipocrisia da classe média.
    O resultado do fascismo na Alemanha e na Itália, a História já nos deu a conhecer. E no Brasil? Como será?
    É preciso que você faça um exame de consciência. Eu estou me deixando conduzir por ideias fascistas? Como faço para restabelecer minha saúde intelectual e social? E, se eu que agora bato palmas para as medidas adotadas contra os petistas for vítima delas daqui a algum tempo?
  • Artigo do Levon: Estradas no deserto, rios em terra seca


    Muitos companheiros não creem. Nem é minha intenção fazê-los acreditar. Ainda mais numa época em que a fé tem sido instrumentalizada para alimentar o preconceito desvairado e o fascismo depravado. Quero é compartilhar com vocês como a fé dialoga comigo neste tempo de angústias e incertezas, de modo a atiçar esperanças e a motivar a luta. Sim, a fé também é combustível para os que lutam à esquerda, por uma sociedade mais justa e igualitária. Não é monopólio dos trogloditas do fundamentalismo.

    A liturgia (católica)deste tão emblemático dia 13 de março de 2016, 5º domingo do tempo da Quaresma, traz como primeira leitura um trecho da profecia de Isaías (43,16-21). Aos olhos de quem entende a escritura não como um tratado de regras sobrenaturais e anacrônicas, mas como um amparo interpretativo para a humanidade inserida nos contextos históricos, o profeta proclama: “Não relembreis coisas passadas, não olheis para fatos antigos. Eis que eu farei coisas novas, e que já estão surgindo: acaso não as reconheceis? Pois abrirei uma estrada no deserto e farei correr rios na terra seca (…)” (Is 43,19).


    Aos olhos do militante de fé, este texto ilustra muito bem a angústia dos dias atuais. Vemos renascer das sombras o fascismo, a intolerância, a militância irracional (nas ruas e nas redes sociais) dos velhos medos e ódios de classe, incomodada com as conquistas populares alcançadas na última década. Um monstro de ódio que transforma pessoas em zumbis agressivos a reverberar palavras de horror, rancor e destruição. Hoje mesmo, neste de 13 de março, o “demônio” sai às ruas propugnando o retrocesso como novo ídolo para a “salvação” do Brasil. Grita contra a corrupção convocado e ladeado pelos maiores corruptos e corruptores da Pátria. Não se envergonha em clamar contra o direito do pobre, como se fosse ele a causa dos problemas econômicos e sociais da Nação. Não se importa que os poderes do Estado desviem-se para o linchamento moral e o justiçamento daqueles que buscaram, ainda que incipientemente, a inclusão de milhões de irmãos e irmãs “mais fracos”. Não almeja a devida justiça ou correção legítima e ampla de eventuais desvios.

    Em que a palavra de Isaías, escrita na velha Palestina, àquela altura como agora, vítima da ocupação imperialista das potências estrangeiras, resistindo a partir de sua fé e cultura, tem a dizer ao militante de fé no contexto brasileiro de 2016? Que tenha esperança! Que não se resigne a acreditar que o passado de golpes se repetirá inexoravelmente, nem se apegue às velhas cartilhas e métodos (“Não relembreis coisas passas, não olheis para fatos antigos”). Claro, isto não é um incitamento à negação da história, nem ao revisionismo. Pelo contrário, é um indicativo para a construção da novidade, ainda que em realidade adversa. Aliás, sempre foi difícil para nós, conforme jargão já vulgarizado. Não é tempo para lamentações ou indicação de culpas. É hora da unidade das esquerdas e de todos os que lutam por um mundo mais justo e fraterno. É momento de verificar as novidades que, assim como do parto dolorido vem à luz a bela criança, nascem neste tempo tão insano (“Eis que eu farei coisas novas, e que já estão surgindo: acaso não as reconheceis?”). Os meninos que ocuparam as escolas de São Paulo contra a “reorganização” neoliberal, os movimentos sociais combativos sem a mordaça institucional dos partidos, a juventude que tem se reconhecido como “de esquerda” ante ao avanço irracional do fundamentalismo e, mesmo os velhos camaradas de lutas, diante do sacrifício imposto pelas Lava-jatos da vida, que se rendam ao novo e inaugurarem uma nova era de lutas. Construamos estradas no deserto da Paulista. Façamos jorrar rios na terra seca das instituições instrumentalizadas pela velha elite egoísta ou por seus lacaios temerosos da perda de privilégios.


    A fé indica que há esperança em meio a este mar de angústia. Na mesma liturgia, Jesus rompe com as tradições de justiçamento judaicas ao absolver a adúltera. “Quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra” (João 8,7b). Palavra certeira para o carola e justiceiro juiz Sérgio Moro, tão rígido e hipócrita como um fariseu daquele tempo. Rígido com petistas. Hipócrita e seletivo para com as inúmeras denúncias a tucanos e congêneres. “Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?” – pergunta Jesus a ela em João 8,10. A mulher responde: “Ninguém, Senhor”. Ao que ele lhe afirma “Eu também não te condeno” (Jo 8,11). Vemos que a fé, corretamente vivida, passa longe dos julgamentos sumários ou linchamentos morais de nossos juízes, procuradores, mídia e igrejas bancárias. Contrariamente, é reeducação, compreensão, inclusão e retorno ao convívio da normalidade democrática.


    Enfim, também é da palavra da liturgia deste 13/03 que nos vem a certeza, conforme o salmista cantou (Salmo 125): “Os que lançam as sementes entre lágrimas, ceifarão com alegria”. Semeemos, semeemos, semeemos, lutemos… pois a luta continua… com alegria… sempre! Ceifaremos!
  • Artigo do Levon: Quando os bons são vistos como os vilões


    Quem se lembra de como era o Brasil antes da chegada de Lula ao poder em 2003, sabe que a corrupção era muito pior e maior do que atualmente. A lavagem de dinheiro, as fraudes, o abuso do poder político/econômico e a manipulação do povo corriam soltas e não havia fiscalização da mídia, muito menos do Ministério Público ou da Justiça. Tudo era encoberto e terminava em “pizza”. Os poderosos mandavam ilimitadamente e o povo pobre e trabalhador não tinha vez nem voz. Como agravante, a miséria absoluta reinava na maioria das famílias brasileiras. A fome e o desemprego atingiam milhões de pessoas. O sonho de um jovem de 18 anos era possuir uma bicicleta. A mídia colocava medo no povo e dizia que se o PT chegasse ao poder o “comunismo” seria implantado no país.

    Com a eleição de Lula em 2002, desacreditado pelos poderosos e pela classe média, que o chamavam de analfabeto e cachaceiro, o Brasil não precisou mais ficar de joelhos pedindo empréstimos ao Fundo Monetário Internacional (FMI), passou a fazer parte das grandes rodadas de decisões mundiais, criou programas sociais premiados internacionalmente, como o Bolsa Família, que distribuíram renda para milhões de brasileiros, tirando da miséria tantos cidadãos, mais do que a população total da Argentina. Mais de 10 universidades federais foram criadas, além de cerca de 100 institutos de educação. O Enem se tornou a principal forma de entrada no Ensino Superior, facilitando o acesso ao ProUni, ao SiSU e ao FIES. Uma nova classe média surgiu. As ruas se entupiram de carros novos e de motocicletas, que se tornaram mais acessíveis para a maioria absoluta do povo. O acesso a bens de consumo, à casa própria ou a materiais de construção “bombaram”. A qualidade de vida saltou positivamente, “como nunca antes na história deste país”.

    A taxa de desemprego brasileira baixou a níveis civilizados, inclusive bem menor do que a de países europeus como Espanha, Portugal e Itália. A Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), iniciativa do governo estadunidense sob o comando de Bush Filho, que transformaria a América Latina num imenso quintal norte-americano, foi implodida graças à liderança de Lula. A Petrobrás que quase foi privatizada nos governos anteriores permaneceu sob o controle do Estado nacional e descobriu as imensas jazidas de combustível fóssil embaixo da camada de pré-sal do oceano, tornando-se o passaporte do Brasil para o futuro. O salário mínimo que valia muito menos do que cem dólares, chegou à marca dos 300 dólares, aumentando o poder de compra dos trabalhadores brasileiros. O SAMU e o Mais Médicos foram implantados na maioria dos municípios do país. A crise mundial do capitalismo de 2008, ainda em curso, demorou a chegar ao Brasil, graças à solidez das políticas macroeconômicas petistas. Leis mais rigorosas de combate à corrupção foram aprovadas. Ao contrário dos tempos de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), a Polícia Federal ganhou autonomia, o que facilitou a punição de crimes de altos funcionários públicos, inclusive de ex-integrantes do próprio governo petista.


    Mas, nada disso serviu para consolar a elite econômica, midiática e aristocrática do velho Brasil. Nunca aceitaram o torneiro mecânico que chegou à presidência, nem a primeira mulher, militante contra o regime ditatorial de 1964, a alcançar o posto de Presidenta da República Federativa do Brasil, Dilma Rousseff. A luta contra a esquerda, os petistas, Lula e Dilma foi ganhando ares de batalha entre o bem e o mal, apequenando e despolitizando o país. A recusa da oposição em aceitar a derrota de 2014 paralisa o Brasil. É bem verdade que, para isto, também contribuiu a inglória incursão de lideranças petistas em casos escandalosos de corrupção. Isto manchou a trajetória histórica do PT e tem sido, saborosamente, utilizado pela grande mídia e pelos adversários das conquistas populares dos últimos anos.


    Ninguém quer a corrupção, seja ela do PT, dos partidos da direita ou da iniciativa privada, mas a sanha anti-corrupção derramou-se, de forma fascista e lunática, seletivamente contra petistas e esquerdistas, preservando seus adversários muito mais corruptos e decrépitos em termos de moralidade com a coisa pública. Este é o grande drama e a imensa contradição da política nacional neste momento. O comprovadamente corrupto dep. Eduardo Cunha (PMDB/RJ), presidente da Câmara Federal, é aplaudido e tolerado. Já presidenta Dilma Rousseff, contra a qual não há investigação na Operação Lava-jato, da Polícia Federal, e sabidamente se reconhece que é uma pessoa séria e honesta, é execrada em praça pública e se busca o seu impedimento sem que tenha cometido crime de responsabilidade, configurando a ameaça de um golpe de Estado. Um Congresso Nacional lotado de políticos corruptos, apoiado por uma mídia hipócrita, manipuladora e seletiva, ameaça retirar do poder uma Presidenta da República que nem sequer é citada em qualquer processo de investigação de corrupção no país. Tudo isto com o apoio de milhões de brasileiros que foram, cuidadosamente, transformados em “zumbis” anti-petistas, através da alienadora lavagem cerebral dos grandes meios de comunicação nacionais.

    É uma realidade trágica, que só encontra paralelo na história da Alemanha nazista dos anos 1930. O povo brasileiro foi condicionado pela mídia e pelas estruturas de difamação que utilizam as modernas redes sociais da internet, a odiar o PT e a encará-lo como a própria encarnação do mal. As religiões têm sido utilizadas politicamente para difundir preconceitos e mentiras que transformam o PT e os petistas em “asseclas do demônio”, tudo isto com a complacência do Judiciário e de pessoas que têm acesso a maior informação. Boatos que não resistem a uma pesquisa no Google são cotidianamente divulgados e compartilhados, ganhando ares de verdade. Todos os diabos mais temidos foram libertados da caixa de Pandora dos velhos oligarcas brasileiros. Racismo, homofobia, intolerância religiosa, saudosismo da ditadura militar, linchamentos midiáticos e reais, medo do comunismo, xenofobia contra haitianos e africanos, crescimento de bancadas religiosas fanáticas no Congresso Nacional, acobertamento de crimes cometidos pelos políticos da direita, como o helicóptero do pó, a lista de Furnas e os aeroportos de Aécio Neves, tal e qual na época nazista, estão em moda no Brasil de 2015. É preocupante e compromete demasiadamente o futuro da democracia brasileira.

    Em pequenas cidades, como Taiobeiras, no norte de Minas Gerais, militantes petistas, em que pese sua honra, sua honestidade e seu compromisso com os pobres, são espezinhados, tachados de ignorantes e execrados por figuras que trazem no DNA o velho patrimonialismo e a corrupção política histórica que sempre vicejou nestes lugares, os quais passaram a posar de vestais da moral e dos bons costumes. Os verdadeiros corruptos, mais sujos e imorais de toda a história, ganham ares de honestos e de defensores da justiça, crucificando aqueles que sempre lutaram pela inclusão social e pela igualdade para a maioria dos brasileiros.

    O PT, de milhões de filiados e simpatizantes honestos e lutadores, gente que nunca se calou diante dos desmandos da secular oligarquia, se transformou na “Geni” nacional, insultado e vilipendiado. Mas, nada nunca foi fácil para o PT, a esquerda e sua militância. Quem enfrentou a escravidão negra e a venceu, a ditadura militar e a suplantou, a fome e a miséria e as derrotou, terá de encontrar forças para superar a atual onda de insanidade fascista que assola o Brasil. A luta continua!
  • 2015: o ano revelador

    2015 é um ano revelador.

    Das profundezas do inferno capitalista renasce o nazifascismo preconceituoso, ignorante e autoritário. Nas manifestações (15/03 e 12/04) contrárias a Dilma e ao PT, uma classe média egoísta brada absurdos contra todas as conquistas que os trabalhadores brasileiros alcançaram nos últimos 12 anos.

    Na Câmara dos Deputados, onde impera o fundamentalismo de certos tipos de religiosos que nada têm a ver com o verdadeiro Evangelho de Jesus, pautas constrangedoras e atrasadas avançam: Redução da Maioridade Penal X Políticas Públicas de Reeducação, Terceirização que Precariza Direitos Trabalhistas X Combate ao Trabalho Escravo, Fim de Rotulação dos Alimentos Transgênicos X Maior Regulação e Informação, etc.

    Enquanto isto, professores da rede pública dos estados do Paraná e de São Paulo, governados pelos tucanos (que têm total blindagem da mídia) são alvos de repressão policial, violência e abusos de toda ordem.

    2015 é revelador: enquanto os ignorantes põem a culpa de tudo em Dilma e no PT, o que há de mais nefasto, atrasado, brutal e irracional avança a passos largos no Brasil. Quando os tolos acordarem do transe coletivo que manda gritar “Fora Dilma” ou “Fora PT”, estarão fisgados pelo monstro bestial da barbárie.

  • É possível fazer críticas ao governo Dilma, mas…

    É possível fazer críticas ao governo Dilma, ou a qualquer governo, pelo campo popular e pelo campo elitista. Este último representado através das manifestações que exalam ódio, dos que pedem intervenção militar e daqueles que, hipocritamente, enxergam a corrupção como algo restrito ao PT. Não me representam. Defendo a integridade do mandato da presidenta, mas sou crítico pela esquerda. Creio que as conquistas sociais dos últimos 12 anos estão em risco e que é urgente dar respostas ao campo popular. É óbvio que com Aécio seria a repetição do inferno neoliberal dos anos 1990, com um governo subserviente ao capital financeiro internacional. Porém, isto não dá direito a Dilma de se submeter a Joaquim Levy na integridade do seu pacote fiscal.