A frase que intitula este artigo é uma formulação consagrada do pensamento de Bertolt Brecht, extraída do alerta final de A resistível ascensão de Arturo Ui (1941): “o ventre que gerou a besta ainda é fértil”. Na tradição política e cultural do século XX, sobretudo na Europa e na América Latina, a imagem foi vertida de modo mais cru e direto – “a cadela do fascismo está sempre no cio” – para sublinhar uma verdade incômoda: o fascismo não é um desvio histórico encerrado em 1945, mas uma possibilidade permanente, sempre pronta a reaparecer quando as condições sociais, econômicas e políticas o favorecem.
Vivemos hoje uma dessas quadras históricas. A crise estrutural da democracia liberal – incapaz de responder às angústias materiais e simbólicas das maiorias – abriu espaço para soluções autoritárias travestidas de moralidade, ordem e eficiência. O neoliberalismo, ao precarizar o trabalho, desmontar políticas sociais e reduzir o Estado à lógica do mercado, produz frustração, ressentimento e medo. Como lembra Renato Janine Ribeiro, a direita neoliberal, ao rejeitar a justiça social e a tributação redistributiva, cria o terreno fértil no qual a extrema-direita prospera, funcionando como seu braço sujo, aquilo que faz o trabalho que a direita “respeitável” não quer assumir explicitamente.
Esse fenômeno não é abstrato nem distante. Ele tem nomes, rostos e fatos concretos. No Brasil, o bolsonarismo – com Jair Bolsonaro, seus filhos e uma constelação de parlamentares como Nikolas Ferreira – normalizou o elogio à ditadura, a deslegitimação das eleições, o ataque às instituições e o flerte aberto com a violência política. Os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, precedidos por acampamentos e financiamentos empresariais, não foram “excessos”, mas a expressão lógica de uma cultura política que despreza a democracia quando ela contraria seus interesses.
No plano internacional, o quadro é igualmente alarmante. Donald Trump, nos Estados Unidos, não apenas atacou sistematicamente a imprensa, o Judiciário e o processo eleitoral, como estimulou políticas de perseguição a imigrantes, negros e minorias, legitimando a violência policial e a mentira como método. Como analisou o psicanalista Justin Frank, trata-se de uma liderança que mobiliza feridas narcísicas coletivas, criando uma identificação emocional entre líder e seguidores baseada no ressentimento, na negação da realidade e na construção de inimigos internos.
Um elemento central desse neofascismo é o uso instrumental da religião. Igrejas e lideranças religiosas são mobilizadas para sacralizar a política, demonizar adversários e justificar desigualdades como vontade divina. No Brasil, a teologia da prosperidade e o moralismo seletivo funcionam como cimento ideológico: prometem ordem num mundo em crise, ao custo da exclusão, do ódio e da submissão. O fascismo, aqui, veste terno, carrega Bíblia e fala em nome da “família”, enquanto corrói direitos e naturaliza a violência.
As novíssimas tecnologias informacionais completam o quadro. Redes sociais, algoritmos, desinformação em massa e bolhas digitais permitem a disseminação rápida de mentiras, teorias conspiratórias e discursos de ódio, sem mediação crítica. A política transforma-se em espetáculo permanente, e a verdade deixa de ser um critério comum. Como mostram inúmeros estudos e reportagens, não se trata de espontaneidade, mas de estratégia: financiar influenciadores, atacar jornalistas, desacreditar a ciência e capturar emocionalmente audiências.
Por isso, o alerta de Brecht – e de Renato Janine Ribeiro – permanece atual e urgente. A cadela do fascismo segue no cio porque suas condições materiais e simbólicas seguem dadas: desigualdade, medo, precarização, cinismo político e ausência de projetos emancipatórios claros. Enfrentá-la exige mais do que indignação moral; exige democracia substantiva, justiça social, regulação do capital, educação crítica e coragem política para nomear o problema sem rodeios. Vigilância e compromisso não são retórica: são condições de sobrevivência democrática.
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