Tag: ecologia integral

  • Domingo de Ramos: a simplicidade do jumentinho também nas relações de consumo

    Domingo de Ramos: a simplicidade do jumentinho também nas relações de consumo

    A Campanha da Fraternidade de 2025 traz um convite urgente: como mudar nossa maneira de pensar e agir para cuidar melhor do planeta, nossa Casa Comum? Inspirados pelas leituras do Domingo de Ramos e pela encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco, somos chamados a uma transformação profunda — não só de atitudes externas, mas do nosso coração. É preciso ouvir o grito da Terra e dos mais pobres como um chamado de Deus.

    Escutar para mudar (Isaías 50,4-7) – O profeta Isaías fala de um servo que, mesmo sofrendo, continua ouvindo a voz de Deus. Esse ouvir atento é o primeiro passo para cuidar melhor do mundo. O Papa Francisco lembra: “Esquecemos que também somos Terra”. O servo que acorda todo dia para escutar nos mostra que precisamos estar atentos todos os dias à vida ao nosso redor. Em um mundo onde o consumo e a exploração são comuns, é preciso ter coragem para dizer não à indiferença e sim ao cuidado.

    Humildade que liberta (Filipenses 2,6-11) – São Paulo fala de Jesus, que se esvaziou de todo orgulho para servir. Esse “esvaziamento” é o contrário da ideia de querer dominar tudo, inclusive a natureza. Para cuidar do planeta, precisamos ser humildes, reconhecer que fazemos parte de uma grande rede de vida. Como diz o Papa: “Tudo está conectado”. A verdadeira grandeza está em servir — inclusive a criação.

    Simplicidade que fala alto (Lucas 19,28-40) – Jesus entra em Jerusalém montado num jumento — um símbolo de simplicidade, bem diferente dos cavalos usados por reis e guerreiros. Cuidar do meio ambiente também exige simplicidade: consumir menos, usar energias limpas, viver de forma mais consciente. Quando os fariseus pedem que Jesus mande os discípulos se calarem, ele responde: “Se eles se calarem, as pedras gritarão”. Hoje, quem grita são os rios poluídos, as florestas destruídas, o ar contaminado. A criação está clamando por socorro.

    Da dor à esperança (Salmo 21/22) – O salmo começa com um grito de dor: “Meu Deus, por que me abandonaste?”, mas termina com esperança e louvor. Esse caminho também é o da conversão ecológica: perceber o sofrimento da Terra e, mesmo assim, ter fé e agir. Mesmo em meio a problemas como ganância, poluição e injustiça, Deus não nos abandona. A Páscoa nos lembra que a vida pode renascer — há esperança de renovação.

    A conversão é uma resposta – Cuidar do planeta não é só uma questão técnica, mas espiritual. Converter-se é escutar como o servo, ser humilde como Jesus, viver com simplicidade e transformar a dor em esperança. A Campanha da Fraternidade nos convida a transformar nossa fé em ação. Se ficarmos calados, a própria natureza vai gritar. Mas se respondermos, seremos parte do canto da criação, que proclama: “Jesus Cristo é o Senhor”. Que neste Domingo de Ramos, ao estendermos nossos mantos no caminho, este gesto de partilha nos inspire a construir um mundo onde a paz do céu se reflita aqui na Terra.

  • Apedrejar a Terra adulterada ou cuidar da Casa Comum? (5º Domingo / Quaresma 2025)

    Apedrejar a Terra adulterada ou cuidar da Casa Comum? (5º Domingo / Quaresma 2025)

    A Campanha da Fraternidade 2025, com o tema “Fraternidade e Ecologia Integral” e o lema “Deus viu que tudo era muito bom” (Gn 1,31), convida-nos a uma reflexão profunda sobre nossa relação com a criação, em sintonia com a espiritualidade quaresmal. As leituras do 5º Domingo da Quaresma (06/04/2025) oferecem um horizonte teológico e prático para essa conexão, unindo conversão pessoal, justiça social e cuidado com a Casa Comum.

    Isaías 43,16-21: Deus faz novas todas as coisas

    O profeta Isaías anuncia um futuro transformador: “Eis que eu farei coisas novas” (v. 19). A imagem de rios brotando no deserto simboliza a capacidade divina de restaurar a vida em meio à aridez. Essa promessa ressoa com a urgência da Ecologia Integral, que clama por ações concretas para reverter a crise socioambiental. A Campanha da Fraternidade 2025, inspirada nas palavras do Papa Francisco na encíclica Laudato Si’ e na COP-30, propõe justamente essa renovação: abandonar modelos predatórios e abraçar um novo paradigma de harmonia, onde a natureza não é explorada, mas reverenciada como dom sagrado. O convite a “não olhar para o passado” (v. 18) desafia-nos a superar a inércia e assumir responsabilidades, como sugere o texto-base da CF 2025 ao denunciar “falsas soluções” ambientais.

    Salmo 125(126): A alegria da colheita após o deserto

    O salmo celebra a alegria da restauração: “Os que lançam as sementes entre lágrimas, ceifarão com alegria” (v. 5). A metáfora agrícola remete à ecologia como trabalho paciente e coletivo. A Campanha da Fraternidade enfatiza que a sustentabilidade exige esforço contínuo, desde práticas pedagógicas em escolas até a defesa de comunidades afetadas por crimes ambientais. A “colheita” de um mundo mais justo só virá se semearmos hoje gestos de cuidado, como propõe a CF 2025 ao incentivar projetos de hortas comunitárias, consumo consciente e redução de emissões de gases de efeito estufa.

    Filipenses 3,8-14: Correr para a meta, esquecendo o que ficou para trás

    Paulo afirma: “Esquecendo o que fica para trás, eu me lanço para o que está na frente” (v. 13). Essa dinâmica de conversão integral ecoa o objetivo da Campanha: superar o pecado da indiferença ecológica e adotar um estilo de vida coerente com a fé. A Ecologia Integral, como eixo transversal da CF 2025, exige uma mudança radical no modelo econômico e no consumo. Paulo nos lembra que a meta, a “ressurreição” (v. 11), só é alcançada quando abandonamos o que nos afasta do projeto de Deus, incluindo a exploração desmedida dos recursos naturais.

    João 8,1-11: Misericórdia e responsabilidade coletiva

    O episódio da mulher adúltera revela a pedagogia de Jesus: condena o julgamento hipócrita e convida à transformação pessoal (“Não peques mais”, v. 11). A CF 2025, ao denunciar a “crise antropológica” por trás da degradação ambiental, recorda que a ecologia começa com o reconhecimento de nossa fragilidade. Não basta apontar culpados; é preciso, como Jesus, agir com misericórdia e compromisso. A mulher, restaurada em sua dignidade, simboliza a Terra ferida que clama por justiça, um apelo central da Campanha, que defende vítimas de catástrofes e crimes ambientais e climáticas.

    Quaresma, tempo de reconstruir a aliança

    As leituras deste Domingo iluminam a Quaresma como jornada de renovação da aliança: com Deus, com os irmãos e com a criação. A Campanha da Fraternidade 2025, ao vincular fé e ecologia, convida-nos a ser artífices dessa reconciliação. Se Isaías fala de “rios no deserto”, a CF propõe gestos concretos — da compostagem às mobilizações políticas. Se o Salmo canta a colheita, a Campanha nos lembra que “tudo está interligado” (Laudato Si’). E se o Evangelho nos liberta da condenação, a Ecologia Integral exige que, como Paulo, corramos sem hesitar rumo a um futuro onde a vida, em todas as suas formas, seja celebrada como “muito boa”.

    Neste Ano Jubilar, a Quaresma é tempo de ouvir o grito da Terra e dos pobres, e responder com ações que traduzam o lamento em louvor. Como escreveu São Francisco no Cântico das Criaturas, há 800 anos, a criação é espelho do Criador. Cabe a nós preservar esse reflexo, transformando cinzas em esperança.

  • Conversão ecológica: um chamado quaresmal (Quarto Domingo da Quaresma, 2025)

    Conversão ecológica: um chamado quaresmal (Quarto Domingo da Quaresma, 2025)

    A Quaresma nos convida à conversão, um retorno ao essencial. Em 2025, a Campanha da Fraternidade, com o tema Ecologia Integral, desafia-nos a ampliar essa conversão para nossa relação com a criação. As leituras do quarto domingo da Quaresma (30/03/2025) oferecem um mapa espiritual para essa jornada, unindo fé e cuidado com a Casa Comum.

    Primeira Leitura (Josué 5,9a.10-12): Ao entrar na Terra Prometida, os israelitas celebram a Páscoa e substituem o maná pelos frutos da terra. O fim do maná simboliza a transição de uma dependência passiva para uma gestão ativa dos recursos. Deus confia a eles a terra, mas exige responsabilidade. Hoje, a Ecologia Integral nos chama a reconhecer que a Terra é um empréstimo sagrado. Como afirma o Papa Francisco em Laudato Si’ (LS 67), “cada comunidade pode tomar da bondade da terra aquilo de que necessita para a sua sobrevivência, mas tem também o dever de protegê-la”. A colheita sustentável de Canaã é um modelo para nosso uso consciente dos bens naturais.

    Salmo 33(34): “Provai e vede quão suave é o Senhor!” [Sl 33(34),9]. O salmo celebra a bondade de Deus, experimentada na criação. Se “o Senhor ouve o clamor dos pobres” [Sl 33(34),7], também escuta o grito da Terra, explorada por um sistema que privilegia o lucro sobre a vida. A Ecologia Integral nos convida a “saborear” a natureza não como consumidores, mas como contemplativos, reconhecendo nela um sacramento da presença divina. A gratidão deve traduzir-se em ações que preservem a biodiversidade e garantam justiça socioambiental.

    Segunda Leitura (2 Coríntios 5,17-21): “Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura” (2Cor 5,17). Paulo fala de uma reconciliação que transcende o humano: Cristo veio “reconciliar consigo mesmo tudo o que existe” (Cl 1,20). A “nova criação” inclui a restauração dos ecossistemas. Como embaixadores de Cristo, somos chamados a sanar rupturas: entre humanos e Deus, entre povos e entre a humanidade e a Terra. A Ecologia Integral, como propõe a Laudato Si’ (LS 91), lembra que “tudo está interligado”, exigindo uma conversão que una justiça social e ambiental.

    Evangelho (Lucas 15,1-3.11-32): A parábola do filho pródigo ilustra o drama humano: o jovem esbanja recursos e só reconhece seu erro na escassez. Sua volta à casa paterna é metáfora da conversão ecológica: é preciso frear a exploração desmedida e retornar ao equilíbrio. O pai, que corre ao encontro do filho, reflete a misericórdia divina, ansiosa por restaurar relações. Já o irmão mais velho, que critica a festa, simboliza a resistência à mudança, como aqueles que negam a crise climática. A Quaresma nos convida à festa da reconciliação, incluindo a Terra na celebração.

    Neste tempo de penitência, as leituras nos desafiam a jejuar do consumismo, orar pela criação e agir como embaixadores da reconciliação. A Ecologia Integral não é opção, mas imperativo evangélico. Como o filho pródigo, precisamos dizer: “Pai, pequei contra o céu, contra ti e contra a Terra”. E ouvir, no perdão, um chamado à renovação. Que o quarto domingo da Quaresma nos encontre, como diz o salmo, “procurando a paz e seguindo seu caminho” [Sl 33(34),15], rumo a uma ecologia de comunhão, onde tudo seja cuidado como dom divino.

  • Sarça e Figueira: sinais de uma conversão que renova o coração e a Terra (3° Dom/Quaresma 2025)

    Sarça e Figueira: sinais de uma conversão que renova o coração e a Terra (3° Dom/Quaresma 2025)

    A Quaresma deste ano é um convite para redescobrirmos a mão de Deus agindo na natureza. Não se trata apenas de um momento de oração, mas de um chamado para vivermos uma fé que abraça não só o espírito, mas também o chão que pisamos, o ar que respiramos e todas as formas de vida que nos rodeiam. A Campanha da Fraternidade 2025, com seu tema Ecologia Integral, chega como um lembrete urgente: como estamos cuidando da nossa Casa Comum?

    Vamos mergulhar nas leituras do Terceiro Domingo da Quaresma (23/03/2025) para encontrar respostas que unem céu e terra.

    Na passagem da sarça ardente (Êxodo 3,1-8.13-15), Moisés se surpreende com um mistério divino que arde no meio do deserto. A sarça não é consumida pelo fogo, revelando um Deus que está presente na vida que persiste, mesmo em meio à aridez. Não é bonito pensar que o Criador escolheu uma planta para revelar seu nome? Isso nos desafia: será que hoje reconhecemos Sua voz nos rios, nas florestas e até nas pequenas ações de cuidado com a criação?

    Já São Paulo, em 1 Coríntios 10,1-6.10-12, nos alerta com a força de quem conhece as fraquezas humanas. Ele lembra que uma fé desconectada da prática vira algo vazio, como água que escorre sem nutrir a terra. Quantas vezes caímos na armadilha de rezar sem agir, de criticar sem cuidar, de consumir sem pensar nas consequências? O apóstolo nos sacode: não basta crer; é preciso transformar.

    O Evangelho de Lucas 13,1-9 traz a parábola da figueira estéril. Imagine a cena: uma árvore que não dá frutos está prestes a ser cortada, mas ganha uma última chance. O agricultor pede tempo para cavar a terra, adubá-la, dar-lhe atenção. Essa é a paciência de Deus conosco! Ele não desiste de nós, mas nos chama a dar frutos de justiça e cuidado. A pergunta é: o que estamos fazendo com o “tempo extra” que recebemos para mudar nossos hábitos, reduzir desperdícios ou defender os mais vulneráveis?

    Quando unimos essas lições bíblicas aos ensinamentos da Doutrina Social da Igreja e da encíclica Laudato Si’, vemos que a Ecologia Integral não é só um conceito, mas um estilo de vida. O Papa Francisco nos lembra que “tudo está interligado”. Não há amor a Deus sem respeito à Sua criação, nem justiça social sem equilíbrio ambiental.

    Que tal começar hoje? Pequenos gestos contam: evitar o plástico descartável, apoiar projetos comunitários, ou simplesmente contemplar um pôr do sol com gratidão. A conversão ecológica não é um peso, mas um caminho de esperança — porque, assim como a sarça ardente e a figueira renovada, nós também podemos ser sinais de que um mundo mais fraterno e verde é possível.

    E você? Qual “terra seca” em sua vida precisa ser adubada para florescer? 🌱

  • Terra Transfigurada: aliança e esperança na Ecologia Integral (2° Dom/Quaresma)

    Terra Transfigurada: aliança e esperança na Ecologia Integral (2° Dom/Quaresma)

    Por Levon Nascimento

    A Quaresma não é só um tempo de mudança interior, mas também de transformação do mundo ao nosso redor. Em 2025, a Campanha da Fraternidade traz o tema Ecologia Integral, nos convidando a olhar para as leituras do segundo domingo da Quaresma e perceber a conexão profunda entre humanidade e criação. Nos textos de Gênesis 15, Filipenses 3-4 e Lucas 9, há um chamado claro para reconciliarmos nossa relação com a Terra, ecoando a mensagem do Papa Francisco na Laudato Si’: “Tudo está interligado”.

    A aliança da Terra (Gênesis 15,5-12.17-18). Deus leva Abrão para a Terra Prometida, um lugar fértil e cheio de vida, a “Casa Comum” de nossos primitivos pais na fé, onde sua descendência poderá viver (Gn 15,5-7). Mas essa promessa não se limita a um povo — ela inclui a própria terra como um dom para todos. O ritual dos animais partidos (Gn 15,9-10) sela uma aliança firme: a Terra é presente de Deus, não um recurso para exploração desenfreada. No entanto, hoje quebramos esse pacto quando desmatamos florestas e poluímos rios. A Ecologia Integral nos lembra que cuidar da criação não é uma escolha opcional, mas um compromisso sagrado.

    Cidadania celeste e responsabilidade na Terra (Filipenses 3,17–4,1). Paulo alerta: “O destino deles é a perdição; o deus deles é o ventre” (Fl 3,19). Quando transformamos a natureza em simples mercadoria, perdemos de vista nossa verdadeira missão. Nossa cidadania está no céu (Fl 3,20), mas isso não significa que devemos ignorar a Terra — pelo contrário, somos chamados a cuidar dela. A esperança na ressurreição inclui também a “libertação da criação” (Rm 8,21). Por isso, a Ecologia Integral é um ato de fé: protegemos a Terra porque esperamos “um Salvador que transformará nosso corpo” (Fl 3,21) e renovará toda a criação.

    A glória que transforma o mundo (Lucas 9,28-36). No Monte Tabor, Jesus se transfigura diante dos discípulos, e Moisés e Elias falam sobre seu sacrifício, que trará redenção a toda a criação (Lc 9,31). A voz do Pai ordena: “Escutai-o!” (Lc 9,35). E o que Jesus faz depois? Ele desce da montanha para alimentar multidões (Lc 9,10-17), curar os doentes e lutar contra a injustiça. A Transfiguração não é uma fuga da realidade, mas um convite a enxergar que o mundo pode ser transformado. A Ecologia Integral nos desafia a ouvir esse chamado e buscar mudanças reais, adotando modelos econômicos e sociais que promovam a vida, não a destruição.

    A Quaresma de 2025 nos propõe um jejum diferente: abrir mão da ganância para que a Terra possa respirar. A Campanha da Fraternidade, à luz dessas leituras, nos convida a sair do egoísmo e abraçar uma aliança de cuidado com a criação. Que a promessa feita a Abrão (Abraão) — uma Terra onde corre leite e mel — nos inspire a construir, hoje, um mundo onde a glória de Deus se manifeste em cada gesto de justiça e cuidado com a vida.

  • Ecologia Integral: cuidar dos idosos é dever das gerações mais novas

    Ecologia Integral: cuidar dos idosos é dever das gerações mais novas

    A família, núcleo fundamental da sociedade, carrega consigo uma responsabilidade ética e afetiva para com seus membros mais vulneráveis: os idosos e aqueles adoecidos. Essa responsabilidade transcende obrigações legais ou culturais; trata-se de uma questão de dignidade humana e justiça intergeracional. A “Ecologia Integral”, conceito proposto pelo Papa Francisco na encíclica Laudato Si’, reforça essa ideia ao defender que todas as dimensões da vida — social, ambiental, econômica e humana — estão interligadas. Assim, cuidar dos idosos não é apenas um ato individual, mas parte de um ecossistema relacional que sustenta a vida em comunidade.

    A dignidade humana dos idosos está intrinsecamente ligada ao modo como são acolhidos e valorizados. Em uma sociedade que muitas vezes idolatra a produtividade e a juventude, idosos e enfermos podem ser marginalizados, como se sua existência perdesse valor. Cabe à família, como primeiro espaço de pertencimento, garantir que esses indivíduos não sejam reduzidos a “custos” ou “problemas”. Isso inclui oferecer apoio emocional, acesso a cuidados médicos adequados e, sobretudo, preservar sua autonomia e voz. A Ecologia Integral nos lembra que negligenciar essa responsabilidade é romper o tecido social, gerando uma “cultura do descarte” que desumaniza tanto quem é abandonado quanto quem abandona.

    É urgente repensar o cuidado familiar sob uma perspectiva integral. Isso significa combater o individualismo e reorganizar prioridades, seja dividindo tarefas entre familiares, buscando políticas públicas de apoio ou simplesmente cultivando a presença afetiva. Cuidar de quem cuidou de nós não é um favor, mas um compromisso com a justiça e a compaixão. Afinal, uma sociedade só é verdadeiramente sustentável quando reconhece que a dignidade dos idosos é reflexo direto de sua própria humanidade.

  • Antítese

    Antítese


    Primeiro Dia
    “No princípio, Deus criou os céus e a terra. […] Deus disse: ‘Haja luz’, e houve luz. […] E Deus chamou à luz Dia, e às trevas chamou Noite. […] E houve tarde e manhã, o primeiro dia” (Gn 1,1-5).
    …e a ambição pairou sobre o vazio das consciências. E os humanos disseram: “Façamos da Terra nossa serva”. E assim, em vez de luz, ergueu-se a fumaça das chaminés, e as trevas cobriram o céu de partículas que sufocam as estrelas.


    Segundo Dia
    “Depois Deus disse: ‘Haja um firmamento entre as águas, separando umas das outras’. […] E Deus chamou ao firmamento Céu. […] E houve tarde e manhã, o segundo dia” (Gn 1,6-8).
    …os rios, outrora límpidos, foram trespassados por venenos. Agrotóxicos escorreram como sangue envenenado sobre o solo, e as águas, que um dia geraram vida, tornaram-se cemitérios líquidos. Os peixes boiaram de barriga para cima, e as crianças já não puderam beber das fontes que seus avós cantavam.


    Terceiro Dia
    “Então Deus disse: ‘Ajuntem-se as águas debaixo do céu num só lugar, e apareça a parte seca’. […] A terra fez brotar vegetação: plantas […] e árvores frutíferas. […] E houve tarde e manhã, o terceiro dia” (Gn 1,9-13).
    …as florestas gemeram. Motosserras substituíram o sopro da criação, e os biomas — Amazônia, Cerrado, Pantanal, Caatinga — foram reduzidos a desertos de tocos e cinzas. As queimadas, como dragões modernos, cuspiram fogo sobre o verde, e o ar carregou o luto das árvores em forma de carbono. As sementes, que um dia prometiam frutos, agora germinam plástico.


    Quarto Dia
    “Disse também Deus: ‘Haja luminares no firmamento do céu […] para governar o dia e a noite’. […] Deus fez os dois grandes luminares: o Sol e a Lua. […] E houve tarde e manhã, o quarto dia” (Gn 1,14-19).
    …os montes foram trespassados. A mineração escavou entranhas, despejando lama tóxica sobre vilas e rios. Barragens romperam-se, engolindo sonhos e histórias, enquanto o ouro extraído brilhou nos palácios de poucos, manchado do sangue de muitos. Nas crateras abertas, a terra chora ferida, e ninguém ouve.


    Quinto Dia
    “E disse Deus: ‘Povoem-se as águas de seres vivos, e voem as aves sobre a terra’. […] Criou […] todos os seres que povoam as águas e todas as aves. […] E houve tarde e manhã, o quinto dia” (Gênesis 1,20-23).
    …os céus e os mares empobreceram. As aves, outrora livres, caíram sob redes de caça e céus intoxicados. Nos oceanos, ilhas de lixo sufocaram tartarugas, e os corais, palácios submersos, branquearam-se em agonia. A cada hora, espécies são apagadas do livro da vida, e seus nomes viram poeira em arquivos esquecidos.


    Sexto Dia
    “Disse ainda Deus: ‘Produza a terra seres vivos […] e animais selvagens!’ […] Então Deus disse: ‘Façamos o homem à nossa imagem’. […] E Deus os abençoou, dizendo: ‘Sede fecundos e enchei a terra’. […] E houve tarde e manhã, o sexto dia” (Gn 1,24-31).
    …os povos originários clamaram. Suas terras sagradas foram invadidas por tratores e cercas, seus cantos abafados pelo rugido das máquinas. Enquanto isso, nas cidades de concreto, multidões marcharam sob máscaras, engolindo fumaça, e os filhos dos pobres herdaram desertos onde antes havia jardins. A fome, irmã da ganância, espalhou-se como praga.


    Sétimo Dia
    “No sétimo dia, Deus já havia concluído a obra que realizara […] e nesse dia descansou de toda a obra que tinha feito. Abençoou Deus o sétimo dia e o santificou” (Gn 2,2-3).
    …os humanos não descansaram. Seguiram cavando, queimando, poluindo, até que a Terra, exaurida, começou a tremer. Os mares subiram, as tempestades rugiram, e o clima, outrora estável, enlouqueceu. E os que diziam “dominar” o planeta viram-se reféns de sua própria insensatez.


    E assim, a criação tornou-se maldição. Onde havia harmonia, ergueu-se o caos; onde havia abundância, brotou a escassez; onde havia vida, multiplicou-se o luto. E os humanos, ao espelho de sua obra,
    perguntaram-se: “O que fizemos?” Mas já era tarde — o Éden fora vendido a preço de ferro, fogo e lucro.

    Eis o relato da anti-criação: uma narrativa escrita não pela mão divina, mas pela ganância que transformou paraísos em infernos. Que este texto não seja profecia, senão um alerta — enquanto há tempo de reescrevê-lo.

  • A Quaresma e a Campanha da Fraternidade 2025: um chamado à conversão ecológica

    A Quaresma e a Campanha da Fraternidade 2025: um chamado à conversão ecológica

    A Quaresma é um período de 40 dias na liturgia católica que antecede a Páscoa, celebrando a ressurreição de Jesus Cristo. É um tempo de reflexão, penitência, oração e conversão, no qual os fiéis são convidados a se aproximar de Deus por meio do jejum, da caridade e da oração. A Quaresma é um momento propício para renovar a fé e viver uma vida mais alinhada com os valores do Evangelho.

    A Campanha da Fraternidade (CF) é uma iniciativa da Igreja Católica no Brasil, realizada anualmente durante a Quaresma, com o objetivo de promover a solidariedade, a justiça social e a conversão pessoal e comunitária. Desde 1964, a CF aborda temas relevantes para a sociedade, convidando os fiéis a refletir e agir em prol do bem comum.

    Em 2025, a Campanha da Fraternidade terá como tema “Fraternidade e Ecologia Integral” e o lema “Deus viu que tudo era muito bom” (Gn 1,31). O tema chama a atenção para a necessidade de cuidar da criação, reconhecendo que tudo o que Deus criou é bom e que o ser humano tem a responsabilidade de proteger e preservar a natureza. A ecologia integral, proposta pelo Papa Francisco na encíclica Laudato Si’, vai além do cuidado com o meio ambiente, abrangendo também as dimensões sociais, econômicas e espirituais da vida humana.

    O lema “Deus viu que tudo era muito bom” remete ao relato bíblico da criação, no qual Deus contempla sua obra e a declara boa. Esse versículo nos convida a reconhecer a beleza e a bondade da criação, mas também a refletir sobre como o pecado humano tem ferido essa harmonia. A CF 2025 nos desafia a viver uma conversão ecológica, mudando nossos hábitos e atitudes para cuidar da “Casa Comum”, o planeta Terra.

    A vivência da Campanha da Fraternidade durante a Quaresma é profundamente significativa. A Quaresma é um tempo de conversão, e a CF 2025 nos convida a uma conversão integral, que inclui o cuidado com o meio ambiente. A ecologia integral não se limita à preservação da natureza, mas também envolve a justiça social, o respeito aos povos indígenas e tradicionais, e a busca por um modelo de desenvolvimento mais sustentável.

    Ao unir a Quaresma e a Campanha da Fraternidade, a Igreja nos convida a viver um tempo de profunda reflexão e ação. A Quaresma nos prepara para a Páscoa, celebrando a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte, enquanto a CF 2025 nos desafia a ser agentes de transformação no mundo, cuidando da criação e promovendo a fraternidade universal.

    Portanto, a Campanha da Fraternidade 2025, com seu tema e lema, nos convida a viver a Quaresma de forma mais consciente e comprometida, reconhecendo que a conversão ecológica é um caminho essencial para a construção de um mundo mais justo, solidário e sustentável. Que este tempo quaresmal seja uma oportunidade para renovarmos nosso compromisso com Deus, com o próximo e com a criação.