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  • Educação popular e resistência no Alto Rio Pardo são tema de tese de doutorado defendida na UFG

    Educação popular e resistência no Alto Rio Pardo são tema de tese de doutorado defendida na UFG

    Tese de Érika Fernanda Pereira de Souza investiga processos formativos populares em territórios do Norte de Minas e revela como a educação foi fundamental na construção da organização social camponesa

    Foi defendida no final de 2024, na Universidade Federal de Goiás (UFG), a tese de doutorado da educadora Érika Fernanda Pereira de Souza, intitulada “Educação Popular e Organização Social: Processos Formativos e Resistência Popular no Território Alto Rio Pardo – MG”. Fruto de uma extensa pesquisa de campo e análise documental, o estudo mostra como, entre os anos 1970 e 2019, diversas experiências de educação popular contribuíram decisivamente para a formação política e a organização coletiva de camponeses, geraizeiros e comunidades tradicionais na região norte-mineira.

    A pesquisa, orientada pelo professor José Paulo Pietrafesa, insere-se na linha de Trabalho, Educação e Movimentos Sociais do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE/UFG). Com base em referenciais teóricos marxistas e freireanos, a tese analisa a constituição histórica dos conflitos no território do Alto Rio Pardo, intensificados pela expansão do capital agrário e da monocultura de eucalipto, e busca compreender de que maneira os processos formativos populares se articularam à resistência social e política das populações locais.

    Dois eixos centrais atravessam o trabalho: a atuação das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e o Programa de Formação do Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas (CAA/NM). Ambas as experiências foram fundamentais para criar espaços de formação política, consciência crítica e engajamento em práticas coletivas de enfrentamento às expropriações de terra, degradação ambiental e às violações de direitos das populações tradicionais.

    A autora propõe o conceito de “Pedagogia do Balaio” como forma de designar a metodologia comunitária adotada pelas CEBs — inspirada em práticas que valorizam a partilha, a escuta e a construção coletiva do saber, em oposição à lógica individualizante do capital. Em contraponto, apresenta também a noção de “Pedagogia da Porrada”, expressão atribuída às formações desenvolvidas em contextos de conflito direto, especialmente sob a mediação da Comissão Pastoral da Terra (CPT), quando comunidades precisavam decidir entre resistir ou recuar frente à ofensiva do agronegócio e da mineração.

    Para construir a narrativa, Érika realizou dezenas de entrevistas com sujeitos que vivenciaram esses processos formativos, como educadores populares, lideranças sindicais, agentes pastorais, membros de comunidades camponesas e egressos do Curso de Formação do CAA/NM. Entre os entrevistados estão nomes como Paulo Faccion (CPT), Mirian Nogueira (CAA/NM), Valdir Dias, Aurindo Ribeiro, Udilésio Oliveira, além do professor e pesquisador Levon Nascimento, que colaborou cedendo parte de seu acervo pessoal de cartilhas usadas nas formações das CEBs. Esses documentos se revelaram fontes preciosas para a reconstituição das metodologias pedagógicas e dos conteúdos debatidos ao longo das décadas.

    A tese apresenta ainda um panorama da história agrária do Norte de Minas, com especial atenção à formação do campesinato geraizeiro, às práticas de solidariedade territorial e às conquistas recentes, como o Projeto de Assentamento Agroextrativista Veredas Vivas e a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Nascentes Geraizeiras, ambas frutos da organização popular. Ao mesmo tempo, evidencia o esvaziamento das práticas formativas nas últimas décadas como um dos entraves à continuidade da ação coletiva no território, em um contexto de avanço da racionalidade neoliberal e desmonte de políticas públicas voltadas para o campo.

    Por fim, a pesquisadora destaca que compreender a história das formações populares no Alto Rio Pardo é essencial para pensar alternativas à crise da democracia e ao modelo predatório de desenvolvimento que marca a região. A tese se soma ao esforço de construção de uma memória social insurgente e de afirmação de práticas educativas comprometidas com a transformação social, a soberania dos povos do Cerrado e a justiça socioambiental.