Tag: Esquerda

  • O que são direita e esquerda, de forma simplificada?

    O que são direita e esquerda, de forma simplificada?

    Você já ouviu alguém dizer que “direita e esquerda não existem mais” ou que são rótulos ultrapassados? Ou que a sociedade está polarizada entre esquerda e direita? O filósofo italiano Norberto Bobbio, em seu livro Direita e Esquerda: razões e significados de uma distinção política (Editora Unesp, 2011), discorda da primeira questão. Para ele, essa divisão ainda é útil para entender as ideologias que moldam o mundo. Vamos descomplicar.

    A origem dos termos é histórica: durante a Revolução Francesa (1789), os revolucionários que defendiam mudanças sociais radicais sentavam-se à esquerda da assembleia, enquanto os conservadores, que apoiavam os privilégios da burguesia, da nobreza e do clero, ficavam à direita. Bobbio, no entanto, vai além da anedota: o cerne da diferença está em como cada lado enxerga a igualdade.

    Para a esquerda, reduzir desigualdades sociais e econômicas é prioridade. Isso não significa “tornar todos iguais”, mas garantir que as diferenças de riqueza, acesso à saúde, educação e oportunidades não sejam fruto de injustiças estruturais, como o racismo e a espoliação da força de trabalho da maioria. A esquerda tende a defender políticas redistributivas (como impostos progressivos — menos para os mais pobres e mais para os muito ricos), serviços públicos universais e a intervenção do Estado para proteger os mais vulneráveis.

    Já a direita entende que certas desigualdades são naturais ou até necessárias. Seu foco está no individualismo e na competição, com papel limitado do Estado na regulação econômica. A ideia é que, se o mercado e a competição funcionarem livremente, o progresso econômico beneficiará a todos, mesmo que alguns acumulem mais riqueza. Para a direita, a igualdade formal — todos com os mesmos direitos perante a lei — é suficiente; tentar igualar os resultados seria interferir na liberdade abstrata.

    Bobbio reconhece que há nuances. Existem esquerdas moderadas e radicais, direitas liberais e autoritárias. Além disso, temas como ambientalismo, racismo, feminismo, direitos LGBTQIA+ e imigração ganharam destaque nas últimas décadas. Ainda assim, o eixo central continua sendo a relação entre igualdade e liberdade. Enquanto a esquerda prioriza a igualdade (mesmo que isso exija limitar certas liberdades econômicas, como taxar grandes fortunas), a direita enfatiza a liberdade individual (mesmo que isso acentue a pobreza extrema e super-riqueza de poucos indivíduos).

    Muitos criticam essa divisão por considerá-la simplista, mas Bobbio argumenta que ela continua útil para organizar o debate político. Quando um partido propõe aumentar os gastos com educação pública (esquerda) ou aumentar a idade mínima de aposentadoria (direita), estamos vendo essa dicotomia em ação. Entendê-la não é engessar o pensamento, mas ter um mapa para navegar pelas escolhas que definem sociedades mais justas e livres.

    A distinção entre direita e esquerda não é perfeita, mas permanece válida. Como cidadãos, reconhecer essas visões nos permite refletir: queremos um Estado que corrija desigualdades ou que priorize a autonomia individual? A resposta varia, mas o importante é que o debate continue vivo. Afinal, como lembra Bobbio, a política é, no fundo, a luta por qual mundo queremos construir.

    Este texto trata dos conceitos de direita e esquerda exclusivamente sob a ótica da democracia clássica, tal como estabelecida durante o Iluminismo. Dessa forma, não abrange as manifestações da extrema-direita de caráter nazifascista e antidemocrático, tampouco as correntes da esquerda socialista de orientação marxista-leninista. No cenário político atual do Brasil, a direita tradicional foi em grande parte absorvida pela extrema-direita de viés protofascista, representada pelo bolsonarismo. Por sua vez, a esquerda politicamente viável — como o lulismo e o petismo — caracteriza-se, na prática, como social-democrata, com traços nacional-desenvolvimentistas e inspiração keynesiana. Já a esquerda comunista permanece restrita a pequenos agrupamentos políticos, como o PCO, PSTU, PCB, entre outros.

    Fonte:

    BOBBIO, Norberto. Direita e Esquerda: razões e significados de uma distinção política. 3. ed. São Paulo: Editora Unesp, 2011.

  • O cristianismo é incompatível com a extrema-direita?: uma análise a partir do 7º domingo do tempo comum de 2025

    O cristianismo é incompatível com a extrema-direita?: uma análise a partir do 7º domingo do tempo comum de 2025

    Os textos litúrgicos do 7º domingo do Tempo Comum (23/02/2025) —1Samuel 26,7–9.12–13.22–23, o Salmo 102(103),1–4.8-10.12–13, 1Coríntios 15,45–49 e o Evangelho de Lucas 6,27–38 — compartilham um mesmo impulso ético e espiritual que é central na teologia cristã: o chamado à misericórdia, ao perdão e à renovação interior que transforma as relações humanas.

    1 Samuel 26,7–9.12–13.22–23 relata o episódio em que Davi, perseguido pelo rei Saul, tem a oportunidade de eliminar seu inimigo. Incentivado por Abisai a exercer uma justiça vingativa, Davi opta por poupar a vida de Saul. Essa decisão não é meramente uma questão de prudência política, mas reflete uma ética que reconhece a sacralidade da vida e o fato de que somente Deus pode julgar e tirar a vida de alguém. Assim, Davi demonstra uma postura de misericórdia e respeito pelo “ungido do Senhor”, colocando a justiça divina acima da vingança humana.

    O Salmo 102 (103) enfatiza o caráter compassivo e misericordioso de Deus, que perdoa, cura e renova a vida. Esses versículos nos lembram que o Senhor é lento para a ira e abundante em amor, servindo de modelo para os fiéis – que são chamados a imitar essa misericórdia em suas próprias relações, mesmo diante da injustiça ou do mal.

    Em 1 Coríntios 15 ,45–49, Paulo contrapõe o “primeiro Adão”, que trouxe a corrupção e a morte, ao “último Adão”, Cristo, que inaugura uma nova humanidade, em quer ser humano significa abrir-se ao amor e não aos discursos e às práticas de ódio. Essa comparação ressalta a transformação radical que a graça de Deus opera no ser humano, elevando-o a uma condição espiritual renovada e capaz de refletir a verdadeira imagem divina, marcada pela compaixão e pela esperança de ressurreição.

    Já o Evangelho de Lucas 6,27–38 apresenta os ensinamentos de Jesus sobre o amor incondicional: amar os inimigos, fazer o bem aos que nos odeiam, e oferecer perdão sem esperar retribuição. Esse chamado à prática do amor radical e à rejeição da vingança contrasta fortemente com as lógicas de retribuição e hostilidade que marcam muitas atitudes humanas.

    Em conjunto, esses textos apontam para um mesmo ideal cristão: a superação da lógica retributiva e violenta em favor de uma ética do perdão, da compaixão e da confiança na justiça de Deus. Eles nos convocam a reconhecer que somente a misericórdia – que transforma e reconcilia – pode conduzir a uma vida verdadeiramente cristã.

    Quando se diz que “o cristianismo é incompatível com a prática social da extrema-direita”, estamos colocando em contraste a ética radical do Evangelho com as atitudes autoritárias e excludentes que, frequentemente, caracterizam os discursos e práticas da extrema-direita. E é importante ressaltar que não se está colocando o cristianismo como opositor da extrema-direita ou ideologicamente como “de esquerda”, mas que o Evangelho não cabe no programa do extremismo direitista.

    Dentro da teologia cristã, como evidenciado nos textos acima:

    • Rejeição da violência e da vingança: Davi, ao poupar Saul, e os ensinamentos de Jesus para amar os inimigos, afirmam que a violência e a retribuição pessoal não podem ser instrumentos de justiça. Em uma sociedade de extrema-direita, onde a retaliação e a exclusão frequentemente se justificam como forma de “ordem” e “segurança”, essa ética cristã propõe uma resposta que transcende o ódio e a divisão.
    • Centralidade da misericórdia e do perdão: O Salmo e o Evangelho ressaltam que Deus é infinitamente misericordioso, chamando os fiéis a praticarem o perdão mesmo quando confrontados com o mal. Essa mensagem contrasta com a lógica da extrema-direita, que muitas vezes fundamenta suas políticas em narrativas de inimigo interno e em uma justiça punitiva e excludente.
    • Transformação interior e renovação: A comparação em 1 Coríntios 15 entre o primeiro e o último Adão aponta para uma transformação profunda operada pela graça de Deus, que convida o cristão a uma renovação constante de sua conduta. Essa ideia de transformação pessoal e coletiva é incompatível com ideologias que buscam a manutenção de hierarquias rígidas e a consolidação de um status quo excludente, típico de muitos discursos da extrema-direita.

    Portanto, à luz da teologia cristã, o verdadeiro cristianismo — que prega o amor universal, a compaixão sem limites e o perdão incondicional – desafia e se opõe à prática social da extrema-direita, que frequentemente promove a divisão, o ódio e a violência em nome de uma suposta ordem ou tradição. Em outras palavras, enquanto o cristianismo chama para uma prática de solidariedade e reconciliação, as práticas de exclusão e retaliação que costumam marcar os movimentos da extrema-direita representam uma negação dos valores fundamentais do Evangelho.

    Esta análise demonstra que, para a teologia cristã, os ensinamentos das Escrituras – enfatizando o perdão, a misericórdia e o amor aos inimigos – constituem uma ética incompatível com os mecanismos de divisão, violência e exclusão social promovidos pela extrema-direita.

  • Mudanças Climáticas: Há culpados pelas inundações no Rio Grande do Sul?

    Mudanças Climáticas: Há culpados pelas inundações no Rio Grande do Sul?

    A tragédia das inundações no Rio Grande do Sul tem culpados, sim! E não é Deus, nem São Pedro, nem Lula.

    Os políticos de direita ou extrema-direita, quando precisam da ajuda dos governantes de esquerda, têm a mania de dizer: “-Sem ideologia, agora! Não é hora de buscar culpados! É hora de união!”.

    Foi o que fez e disse o governador gaúcho, tucano, Eduardo Leite, pego com as calças na mão pelo maior desastre climático da história do Brasil, quando teve de pedir socorro ao Presidente Lula.

    Dias antes, o tucano, em vez de ligar e ir pelos canais corretos, quis dar uma de bonzão dando ultimatos ao presidente por rede social.

    O mesmo governador que, 15 dias antes, havia recebido relatórios dos institutos climáticos, a anunciar o caos que viria, e nada fez.

    O mesmo governador que modificou, no ano passado, o código florestal do Rio Grande do Sul, abrindo a porteira para a boiada do desmatamento desenfreado do bioma dos pampas, predominante naquele estado.

    O mesmo governador que ataca as políticas sociais e ambientais do Governo Lula e namora com o discurso negacionista e antipreservacionista do agro e da extrema-direita.

    Aliás, cadê os políticos bolsonaristas que falavam que Mudança Climática não existe? Inclusive, um deputado gaúcho do Partido Novo, muito idolatrado por certos inteligentinhos daqui. Cadê Mourão? Cadê Ricardo Sales? Cadê Bolsonaro, numa hora dessas? De certo, andando de Jetski.

    As chuvas disruptivas do Sul têm culpado. Não é Deus e nem São Pedro. É a Mudança Climática, fruto da emissão desenfreada de CO2 na atmosfera e da ganância do grande capital mundial. Não adianta negar. Se negar se afoga.

    Abraçar o Acordo de Paris e reduzir as emissões eram para ontem. Já passamos do ponto de não retorno. O calorão do fim do ano, as pandemias, as avalanches de mosquitos da dengue e as enchentes torrenciais, agora, são a nova realidade. Precisa-se de políticas públicas de mitigação, de consciência ética e ecológica e do combate à acumulação de capital desordenada, que drena a riqueza de bilhões de pessoas para apenas algumas poucas centenas de seres humanos.

    E ao povo, acreditar menos nas fake news da extrema-direita – que só trabalha para o lucro ganancioso do agro, que não está nem aí para as mudanças climáticas, pois mora nas melhores mansões, protegidas das intempéries, com ar condicionado e água potável – já é um bom começo.

    Sim, governador Leite, agora é hora de união. Inclusive, o Nordeste, que tantos os sulistas atacam com racismo e xenofobia, lidera as regiões do país em ajuda aos irmãos gaúchos. Mas é preciso apontar o dedo para os culpados, sim! E o senhor é um deles.

    Créditos da imagem: Reprodução da internet.

  • Semipresidencialismo é golpe

    Semipresidencialismo é golpe

    É recorrente na história do Brasil. Sempre que a direita dá um tiro no pé (como é o caso do Governo Bolsonaro neste momento) e a esquerda se aproxima novamente da possibilidade de alcançar a chefia do governo (Lula pode ganhar até no 1° turno, segundo pesquisas), as elites propõem esvaziar o poder da presidência da República.

    Agora, Artur Lira (presidente da Câmara Federal) fala em semipresidencialismo. O que seria isso?

    Um presidente “rainha da Inglaterra”, sem poderes de fato, e o controle da política nas mãos de um parlamentar que seria o 1° Ministro escolhido apenas entre e pelos deputados.

    Imagina quem conseguiria maiorias congressuais para ser o chefe do governo? Cunha, Maia, Lira, etc. Seria o mesmo que entregar o Planalto para o Centrão, para sempre, sem esperança de alternância.

    É golpe!

    #semipresidencialismonão #semipresidencialista

  • O nazifascismo era de direita

    O Nazifascismo foi uma ideologia totalitária, porém nunca foi de esquerda.

    Totalitário, porque se colocou como única alternativa de Estado, de política e de ideologia a ser seguida e obedecida pelas pessoas de onde foi historicamente experimentado.

    Não esquerdista, porque a esquerda pressupõe a redução das desigualdades socioeconômicas e o respeito à diversidade racial, enquanto que o nazifascismo ambicionou a criação de uma super-casta racial e social, superior, destinada a subjugar os estratos considerados inferiores, e teve apoio das burguesias capitalistas dos países que sofreram dessa tragédia.

    Uma das formas de iludir quem pouco se informa é confundir conceitos para embaralhar o jogo. Fique atento.

  • Taiobeiras: "A miséria moral de ex-esquerdistas"

    Não tenho prazer algum em republicar esse artigo do Emir Sader. Já o tinha feito em 9 de março de 2010. Continua válido. Faço-o e ofereço para a reflexão de alguns “companheiros” filiados ou simpatizantes do PT (Partido dos Trabalhadores) de Taiobeiras que, equivocadamente, se distanciaram das ideias de esquerda para apoiar a legenda tucana na última eleição. Uma verdadeira lástima. Não preciso nominá-los. Eles se auto-identificarão.

    * Emir Sader, sociólogo.

    Alguns sentem satisfação quando alguém que foi de esquerda salta o muro, muda de campo e se torna de direita – como se dissessem: “Eu sabia, você nunca me enganou”, etc., etc. Outros sentem tristeza, pelo triste espetáculo de quem joga fora, com os valores, sua própria dignidade – em troca de um emprego, de um reconhecimento, de um espaçozinho na televisão.

    O certo é que nos acostumamos a que grande parte dos direitistas de hoje tenham sido de esquerda ontem. O caminho inverso é muito menos comum. A direita sabe recompensar os que aderem a seus ideais – e salários. A adesão à esquerda costuma ser pelo convencimento dos seus ideais.

    O ex-esquerdista ataca com especial fúria a esquerda, como quem ataca a si mesmo, a seu próprio passado. Não apenas renega as idéias que nortearam – às vezes o melhor período da sua vida –, mas precisa mostrar, o tempo todo, à direita e a todos os seus poderes, que odeia de tal maneira a esquerda, que nunca mais recairá naquele “veneno” que o tinha viciado. Que agora podem contar com ele, na primeira fila, para combater o que ele foi, com um empenho de quem “conheceu o monstro por dentro”, sabe seu efeito corrosivo e se mostra combatente extremista contra a esquerda.

    Não discute as idéias que teve ou as que outros têm. Não basta. Senão seria tratar interpretações possíveis, às quais aderiu e já não adere. Não. Precisa chamar a atenção dos incautos sobre a dependência que geram a “dialética”, a “luta de classes”, a promessa de uma “sociedade de igualdade, sem classes e sem Estado”. Denunciar, denunciar qualquer indicio de que o vício pode voltar, que qualquer vacilação em relação a temas aparentemente ingênuos, banais, corriqueiros, como as políticas de cotas nas universidades, uma política habitacional, o apoio a um presidente legalmente eleito de um país, podem esconder o veneno da víbora do “socialismo”, do “totalitarismo”, do “stalinismo”.

    Viraram pobres diabos, que vagam pelos espaços que os Marinhos, os Civitas, os Frias, os Mesquitas lhes emprestam, para exibir seu passado de pecado, de devassidão moral, agora superado pela conduta de vigilantes escoteiros da direita. A redação de jornais, revistas, rádios e televisões está cheia de ex-trotskistas, de ex-comunistas, de ex-socialistas, de ex-esquerdistas arrependidos, usufruindo de espaços e salários, mostrando reiteradamente seu arrependimento, em um espetáculo moral deprimente.

    Aderem à direita com a fúria dos desesperados, dos que defendem teses mais que nunca superadas, derrotadas, e daí o desespero. Atacam o governo Lula e o PT como se fossem a reencarnação do bolchevismo, descobrem em cada ação estatal o “totalitarismo”, em cada política social a “mão corruptora do Estado”, do “chavismo”, do “populismo”.

    Vagam, de entrevista a artigo, de blog à mesa redonda, expiando seu passado, aderidos com o mesmo ímpeto que um dia tiveram para atacar o capitalismo, agora para defender a “democracia” contra os seus detratores. Escrevem livros de denúncia, com suposto tempero acadêmico, em editoras de direita, gritam aos quatro ventos que o “perigo comunista” – sem o qual não seriam nada – está vivo, escondido detrás do PAC, do Minha casa, minha vida, da Conferência Nacional de Comunicação, da Dilma – “uma vez terrorista, sempre terrorista”.

    Merecem nosso desprezo, nem sequer nossa comiseração, porque sabem o que fazem – e os salários no fim do mês não nos deixam mentir, alimentam suas mentiras – e ganham com isso. Saíram das bibliotecas, das salas de aula, das manifestações e panfletagens, para espaços na mídia, para abraços da direita, de empresários, de próceres da ditadura.

    Vagam como almas penadas em órgãos de imprensa que se esfarelam, que vivem seus últimos sopros de vida, com os quais serão enterrados, sem pena, nem glória, esquecidos como serviçais do poder, a que foram reduzidos por sua subserviência aos que crêem que ainda mandam e seguirão mandado no mundo contra o qual, um dia, se rebelaram e pelo que agora pagam rastejando junto ao que de pior possui uma elite decadente e em vésperas de ser derrotada por muito tempo. Morrerão com ela, destino que escolheram em troca de pequenas glórias efêmeras e de uns tostões furados pela sua miséria moral. O povo nem sabe que existiram, embora participe ativamente do seu enterro.


    Fonte: Portal Luis Nassif.

  • Lula e o exorcismo que vem aí

    Por Luiz Carlos Azenha, no blog Viomundo:

    Uma capa recente do Estadão resumiu de forma enxuta os caminhos pelos quais a oposição brasileira pode enveredar para tentar interromper aos 12 anos o domínio da coalizão encabeçada pelo PT no governo federal.

    De um lado, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso sugeria renovação do discurso do PSDB.

    De outro, um novo depoimento de Marcos Valério no qual ele teria citado o nome do ex-presidente Lula:

    Valério foi espontaneamente a Brasília em setembro acompanhado de seu advogado Marcelo Leonardo. No novo relato, citou os nomes de Lula e do ex-ministro Antonio Palocci, falou sobre movimentações de dinheiro no exterior e afirmou ter dados sobre o assassinato do ex-prefeito de Santo André Celso Daniel.

    Curiosamente, no dia seguinte acompanhei de perto uma conversa entre quatro senhores de meia idade em São Paulo, a capital brasileira do antipetismo, na qual um deles argumentou que Fernando Haddad, do PT, foi eleito novo prefeito da cidade por causa do maior programa de compra de votos já havido na República, o Bolsa Família. Provavelmente leitor da Veja, ele também mencionou entrevista “espírita” dada por Marcos Valério à revista, na qual Lula teria sido apontado como chefe e mentor do mensalão.

    Isso me pôs a refletir sobre os caminhos expressos naquelas manchetes que dividiram a capa do Estadão.

    Sobre a renovação do discurso do PSDB sugerida pelo ex-presidente FHC, pode até acontecer, mas não terá efeito eleitoral. O PT encampou a social democracia tucana e, aliado ao PMDB, ocupou firmemente o centro que sempre conduziu o projeto de modernização conservadora do Brasil. Ao PSDB, como temos visto em eleições recentes, sobrou o eleitorado de direita, o eleitorado antipetista representado pelos quatro senhores de meia idade e classe média que testemunhei conversando no Pacaembu.

    Estimo que o eleitorado antipetista represente cerca de 30% dos votos em São Paulo, capital, talvez o mesmo em outras metrópoles. Ele alimenta e é alimentado pelos grandes grupos de mídia, acredita e reproduz tudo o que escrevem e dizem os colunistas políticos dos grandes jornais e emissoras de rádio e TV. Há, no interior deste grupo de 30% dos eleitores, um núcleo duro dos que militam no antipetismo, escrevendo cartas aos jornais, ‘trabalhando’ nas mídias sociais e participando daquelas manifestações geralmente fracassadas que recebem grande cobertura da mídia do Instituto Millenium.

    Este processo de retroalimentação entre a mídia e os militantes do antipetismo é importante, na medida em que permite sugerir a existência de uma opinião pública que reflete a opinião publicada. É por isso que os mascarados de Batman, imitadores de Joaquim Barbosa, aparecem com tanta frequência na capa de jornais; é por isso que os jornais escalam repórteres e fotógrafos para acompanhar os votos de José Dirceu e José Genoíno e geram um clima de linchamento público contra os condenados pelo STF; é por isso que os votos de Joaquim Barbosa e Ricardo Lewandowski nas recentes eleições foram usados de forma teatral para refletir a reação da “opinião pública” (de dois ou três, diga-se) ao “mocinho” e ao “bandido” do julgamento do mensalão. Curiosamente, ninguém se interessou em acompanhar os votos de Luiz Fux e Rosa Weber.

    O antipetismo é alimentado pelo pensamento binário do nós contra eles, pelo salvacionismo militante segundo o qual do combate às saúvas lulopetistas dependem a Família, a Pátria e a Liberdade.

    Criar essa realidade paralela é importante. Em outras circunstâncias históricas, foi ela que permitiu vender a ideia de que um governo popular estava sitiado pela população. Sabe-se hoje, por exemplo, que João Goulart, apeado do poder pelo golpe cívico-militar de 1964 com suporte dos Estados Unidos, tinha apoio de grande parcela da população brasileira, conforme demonstram pesquisas feitas na época pelo Ibope mas nunca divulgadas (por motivos óbvios).

    [Ver aqui sobre o apoio a Jango]

    Hoje, o mais coerente partido de oposição do Brasil, a mídia controlada por meia dúzia de famílias, forma, dissemina e mede o impacto das opiniões da militância antipetista. O consórcio midiático, no dizer da Carta Maior, produz a norma, abençoa os que se adequam a ela (mais recentemente a ministra Gleisi Hoffmann, que colocou seus interesses particulares de candidata ao governo do Paraná adiante dos do partido ao qual é filiada) e pune com exílio os que julga “inadequados” (o ministro Lewandowski, por exemplo).

    Diante deste quadro, o Partido dos Trabalhadores, governando em coalizão, depende periodicamente de vitórias eleitorais como uma espécie de salvo conduto para enfrentar a barulhenta militância antipetista.

    Esta sonha com as imagens da prisão de José Dirceu, mas quer mais: o ex-presidente Lula é a verdadeira encarnação do Mal. É a fonte da contaminação do universo político — de onde brotam águas turvas, estelionatos como o Bolsa Família e postes eleitorais que só servem para disseminar o Mal.

    O antipetismo é profundamente antidemocrático, uma vez que julga corrompidos ou irracionais os eleitores do PT. Corrompidos pelo “estelionato eleitoral” do Bolsa Família ou incapazes de resistir à retórica demagoga e populista do ex-presidente Lula e seus apaniguados.

    A mitificação do poder de Lula, como se emanasse de alguém sobre-humano, é essencial ao antipetismo. Permite afastar o ex-presidente de suas raízes históricas, dos movimentos sociais aos quais diz servir, desconectar Lula de seu papel de agente de transformação social. O truque da desconexão tem serventia dupla: os antipetistas podem posar de defensores do Bem sem responder a perguntas inconvenientes. Quem são? A quem servem? A que classe social pertencem? Qual é seu projeto político? Quais são suas ideias?

    A crença de que vencer eleições, em si, será suficiente para diminuir o ímpeto antipetista poderá se revelar o mais profundo erro do próprio PT diante da conjuntura política. O antipetismo não depende de votos para existir ou se propagar. Estamos no campo do simbólico, do quase religioso.

    Os quatro senhores do Pacaembu, aos quais aludi acima, estavam tomados por uma indignação quase religiosa contra Lula e o PT. Pareciam fazer parte de uma seita capaz de mobilizar todas as forças, constitucionais ou não, para praticar o exorcismo que é seu objetivo final. Como aconteceu às vésperas do golpe cívico-militar de 64, o que são as leis diante do imperativo moral de livrar a sociedade do Mal?

  • Ser de Esquerda

     
    Frei Betto
    * Do Blog Outra Esquerda
    Por Frei Betto

    Dez conselhos para militantes de esquerda

    1. Mantenha viva a indignação.

    Verifique periodicamente se você é mesmo de esquerda. Adote o critério de Norberto Bobbio: a direita considera a desigualdade social tão natural quanto a diferença entre o dia e a noite. A esquerda a encara como uma aberração a ser erradicada.


    Cuidado: você pode estar contaminado pelo vírus social-democrata, cujos principais sintomas são usar métodos de direita para obter conquistas de esquerda e, em caso de conflito, desagradar aos pequenos para não ficar mal com os grandes.


    2. A cabeça pensa onde os pés pisam.


    Não dá para ser de esquerda sem “sujar” os sapatos lá onde o povo vive, luta, sofre, alegra-se e celebra suas crenças e vitórias. Teoria sem prática é fazer o jogo da direita.


    3. Não se envergonhe de acreditar no socialismo.

    O escândalo da Inquisição não faz os cristãos abandonarem os valores e as propostas do Evangelho. Do mesmo modo, o fracasso do socialismo no Leste europeu não deve induzi-lo a descartar o socialismo do horizonte da história humana.


    O capitalismo, vigente há 200 anos, fracassou para a maioria da população mundial. Hoje, somos 6 bilhões de habitantes. Segundo o Banco Mundial, 2,8 bilhões sobrevivem com menos de US$ 2 por dia. E 1,2 bilhão, com menos de US$ 1 por dia. A globalização da miséria só não é maior graças ao socialismo chinês que, malgrado seus erros, assegura alimentação, saúde e educação a 1,2 bilhão de pessoas.

    4. Seja crítico sem perder a autocrítica.


    Muitos militantes de esquerda mudam de lado quando começam a catar piolho em cabeça de alfinete. Preteridos do poder, tornam-se amargos e acusam os seus companheiros (as) de erros e vacilações. Como diz Jesus, vêem o cisco no olho do outro, mas não a trave no próprio olho. Nem se engajam para melhorar as coisas. Ficam como meros espectadores e juízes e, aos poucos, são cooptados pelo sistema.

    Autocrítica não é só admitir os próprios erros. É admitir ser criticado pelos (as) companheiros (as).

    5. Saiba a diferença entre militante e “militonto”.

    “Militonto” é aquele que se gaba de estar em tudo, participar de todos os eventos e movimentos, atuar em todas as frentes. Sua linguagem é repleta de chavões e os efeitos de sua ação são superficiais.

    O militante aprofunda seus vínculos com o povo, estuda, reflete, medita; qualifica-se numa determinada forma e área de atuação ou atividade, valoriza os vínculos orgânicos e os projetos comunitários.

    6. Seja rigoroso na ética da militância.

    A esquerda age por princípios. A direita, por interesses. Um militante de esquerda pode perder tudo: a liberdade, o emprego, a vida. Menos a moral. Ao desmoralizar-se, desmoraliza a causa que defende e encarna. Presta um inestimável serviço à direita.

    Há pelegos disfarçados de militante de esquerda. É o sujeito que se engaja visando, em primeiro lugar, sua ascensão ao poder. Em nome de uma causa coletiva, busca primeiro seu interesse pessoal.

    O verdadeiro militante, como Jesus, Gandhi, Che Guevara, é um servidor, disposto a dar a própria vida para que outros tenham vida. Não se sente humilhado por não estar no poder, ou orgulhoso ao estar. Ele não se confunde com a função que ocupa.

    7. Alimente-se na tradição da esquerda.

    É preciso oração para cultivar a fé, carinho para nutrir o amor do casal, “voltar às fontes” para manter acesa a mística da militância. Conheça a história da esquerda, leia (auto)biografias, como o “Diário do Che na Bolívia”, e romances como “A Mãe”, de Gorki, ou “As Vinhas de Ira”, de Steinbeck.

    8. Prefira o risco de errar com os pobres a ter a pretensão de acertar sem eles.

    Conviver com os pobres não é fácil. Primeiro, há a tendência de idealizá-los. Depois, descobre-se que entre eles há os mesmos vícios encontrados nas demais classes sociais. Eles não são melhores nem piores que os demais seres humanos. A diferença é que são pobres, ou seja, pessoas privadas injusta e involuntariamente dos bens essenciais à vida digna. Por isso, estamos ao lado deles. Por uma questão de justiça.

    Um militante de esquerda jamais negocia os direitos dos pobres e sabe aprender com eles.

    9. Defenda sempre o oprimido, ainda que, aparentemente, ele não tenha razão.

    São tantos os sofrimentos dos pobres do mundo que não se pode esperar deles atitudes que nem sempre aparecem na vida daqueles que tiveram uma educação refinada.

    Em todos os setores da sociedade há corruptos e bandidos. A diferença é que, na elite, a corrupção se faz com a proteção da lei e os bandidos são defendidos por mecanismos econômicos sofisticados, que permitem que um especulador leve uma nação inteira à penúria.

    A vida é o dom maior de Deus. A existência da pobreza clama aos céus. Não espere jamais ser compreendido por quem favorece a opressão dos pobres.

    10. Faça da oração um antídoto contra a alienação.

    Orar é deixar-se questionar pelo Espírito de Deus. Muitas vezes, deixamos de rezar para não ouvir o apelo divino que exige a nossa conversão, isto é, a mudança de rumo na vida. Falamos como militantes e vivemos como burgueses, acomodados ou na cômoda posição de juízes de quem luta.

    Orar é permitir que Deus subverta a nossa existência, ensinando-nos a amar, assim como Jesus amava, libertadoramente.