Você já ouviu alguém dizer que “direita e esquerda não existem mais” ou que são rótulos ultrapassados? Ou que a sociedade está polarizada entre esquerda e direita? O filósofo italiano Norberto Bobbio, em seu livro Direita e Esquerda: razões e significados de uma distinção política (Editora Unesp, 2011), discorda da primeira questão. Para ele, essa divisão ainda é útil para entender as ideologias que moldam o mundo. Vamos descomplicar.
A origem dos termos é histórica: durante a Revolução Francesa (1789), os revolucionários que defendiam mudanças sociais radicais sentavam-se à esquerda da assembleia, enquanto os conservadores, que apoiavam os privilégios da burguesia, da nobreza e do clero, ficavam à direita. Bobbio, no entanto, vai além da anedota: o cerne da diferença está em como cada lado enxerga a igualdade.
Para a esquerda, reduzir desigualdades sociais e econômicas é prioridade. Isso não significa “tornar todos iguais”, mas garantir que as diferenças de riqueza, acesso à saúde, educação e oportunidades não sejam fruto de injustiças estruturais, como o racismo e a espoliação da força de trabalho da maioria. A esquerda tende a defender políticas redistributivas (como impostos progressivos — menos para os mais pobres e mais para os muito ricos), serviços públicos universais e a intervenção do Estado para proteger os mais vulneráveis.
Já a direita entende que certas desigualdades são naturais ou até necessárias. Seu foco está no individualismo e na competição, com papel limitado do Estado na regulação econômica. A ideia é que, se o mercado e a competição funcionarem livremente, o progresso econômico beneficiará a todos, mesmo que alguns acumulem mais riqueza. Para a direita, a igualdade formal — todos com os mesmos direitos perante a lei — é suficiente; tentar igualar os resultados seria interferir na liberdade abstrata.
Bobbio reconhece que há nuances. Existem esquerdas moderadas e radicais, direitas liberais e autoritárias. Além disso, temas como ambientalismo, racismo, feminismo, direitos LGBTQIA+ e imigração ganharam destaque nas últimas décadas. Ainda assim, o eixo central continua sendo a relação entre igualdade e liberdade. Enquanto a esquerda prioriza a igualdade (mesmo que isso exija limitar certas liberdades econômicas, como taxar grandes fortunas), a direita enfatiza a liberdade individual (mesmo que isso acentue a pobreza extrema e super-riqueza de poucos indivíduos).
Muitos criticam essa divisão por considerá-la simplista, mas Bobbio argumenta que ela continua útil para organizar o debate político. Quando um partido propõe aumentar os gastos com educação pública (esquerda) ou aumentar a idade mínima de aposentadoria (direita), estamos vendo essa dicotomia em ação. Entendê-la não é engessar o pensamento, mas ter um mapa para navegar pelas escolhas que definem sociedades mais justas e livres.
A distinção entre direita e esquerda não é perfeita, mas permanece válida. Como cidadãos, reconhecer essas visões nos permite refletir: queremos um Estado que corrija desigualdades ou que priorize a autonomia individual? A resposta varia, mas o importante é que o debate continue vivo. Afinal, como lembra Bobbio, a política é, no fundo, a luta por qual mundo queremos construir.
Este texto trata dos conceitos de direita e esquerda exclusivamente sob a ótica da democracia clássica, tal como estabelecida durante o Iluminismo. Dessa forma, não abrange as manifestações da extrema-direita de caráter nazifascista e antidemocrático, tampouco as correntes da esquerda socialista de orientação marxista-leninista. No cenário político atual do Brasil, a direita tradicional foi em grande parte absorvida pela extrema-direita de viés protofascista, representada pelo bolsonarismo. Por sua vez, a esquerda politicamente viável — como o lulismo e o petismo — caracteriza-se, na prática, como social-democrata, com traços nacional-desenvolvimentistas e inspiração keynesiana. Já a esquerda comunista permanece restrita a pequenos agrupamentos políticos, como o PCO, PSTU, PCB, entre outros.
Fonte:
BOBBIO, Norberto. Direita e Esquerda: razões e significados de uma distinção política. 3. ed. São Paulo: Editora Unesp, 2011.




