Tag: EUA

  • Papa Francisco versus Jeffrey Epstein

    Papa Francisco versus Jeffrey Epstein

    O que lentamente se desvela sob a poeira espessa da chamada “lista Epstein” não é apenas o inventário grotesco de crimes individuais — abusos, exploração, violência e tráfico humano —, mas a anatomia moral de um sistema. Um sistema no qual banqueiros, magnatas e operadores políticos se entrelaçam nas sombras para servir aos interesses de uma elite global intoxicada por poder. Entre os nomes e conexões que emergem, aparece também o circuito ideológico: viagens financiadas para influenciadores travestidos de ortodoxia católica, campanhas digitais sistemáticas contra aquele que ousou confrontar os ídolos do mercado.

    Segundo relatos amplamente divulgados, o financista teria confidenciado a Steve Bannon — estrategista ligado a Donald Trump e influente nos círculos da família Jair Bolsonaro — a frase que soa como síntese de um projeto: “Eu vou derrubar Francisco”. Não era apenas uma divergência teológica. Era a percepção de que havia, em Roma, uma voz que desorganizava a engrenagem.

    Papa Francisco foi atacado com fúria desproporcional. Chamaram-no de ingênuo, de herege, de comunista. Acusaram-no de trair a tradição — quando, na verdade, retornava à fonte mais radical do Evangelho. Sua fidelidade não foi à lógica das armas, mas à paz. Não ao lucro predatório, mas à Ecologia Integral. Não à indiferença diante das migrações forçadas, mas ao acolhimento dos pobres e descartados. Denunciou o massacre em Gaza, clamou pelo fim da guerra na Ucrânia, confrontou a idolatria do dinheiro dentro e fora da própria Igreja.

    E isso tem preço.

    Os poderosos deste mundo — financeiros, midiáticos, políticos — não toleram profetas. Muito menos quando o profeta ocupa a Cátedra de Pedro e fala em nome dos que não têm voz. Francisco tornou-se incômodo porque desmontava a teologia do mercado, porque desmascarava o nacionalismo travestido de fé, porque recordava que o cristianismo não é uma bandeira identitária, mas uma cruz carregada ao lado dos crucificados da história.

    Epstein foi preso em 2019. Um arquivo humano dos subterrâneos do capitalismo ocidental. Um mês depois, morreu em circunstâncias que jamais cessarão de levantar perguntas. O escândalo, contudo, não terminou com ele; apenas revelou a extensão da podridão estrutural.

    Francisco, ao contrário, não recuou. Foi até o fim. Até a Páscoa de seu Senhor e Mestre. Permaneceu com os pobres, com os migrantes, com a Casa Comum ferida, com as vítimas da guerra. Não se curvou à lógica do medo nem ao cálculo do poder.

    Enquanto uns sucumbem nas celas do escândalo, outros atravessam a história como testemunhas.

    Francisco: santo súbito!

  • A nova era global de ódio aos pobres

    A nova era global de ódio aos pobres

    Por Levon Nascimento

    Nos últimos anos, o mundo tem assistido à consolidação de uma racionalidade política que combina elementos do passado mais sombrio com novas formas de exclusão. O nazifascismo, que historicamente legitimou a perseguição e o extermínio de grupos considerados “indesejáveis”, ressurge hoje sob roupagens adaptadas, mas com a mesma lógica de hierarquizar vidas e descartar as que não se encaixam no ideal de pureza social. “O fascismo não é um fenômeno morto, mas uma gramática política que se atualiza” (TRAVERSO, 2019). Essa atualização se manifesta em práticas estatais e urbanas que violam diretamente os direitos humanos, em especial dos mais pobres.

    O higienismo social, originado no século XIX como política de saúde pública, rapidamente se converteu em instrumento de controle moral e espacial, associando pobreza à sujeira, doença e criminalidade (CHALHOUB, 1996). Essa ideologia segue viva nas remoções forçadas de pessoas em situação de rua e na chamada “arquitetura hostil” — picos de metal, bancos com divisórias, pedras sob viadutos — que expulsa os indesejáveis da paisagem urbana. No Brasil, o Padre Júlio Lancellotti denuncia que “é proibido ser pobre na cidade” (LANCELLOTTI, 2022), e sua atuação resultou na Lei 14.489/22, que proíbe tais dispositivos, mas não impede que gestores sigam buscando formas de invisibilizar a pobreza.

    A aporofobia, conceito criado por Adela Cortina (2017), descreve precisamente essa aversão aos pobres, não apenas como preconceito individual, mas como política de Estado. Trata-se de uma recusa ativa em conviver com a presença do outro que nada possui. Ao contrário do racismo ou xenofobia, que podem se suavizar diante da riqueza, a aporofobia é implacável: mesmo o nacional ou o branco, se pobre, será alvo de hostilidade. “Não é o estrangeiro que incomoda, é o pobre” (CORTINA, 2017). Essa hostilidade é visível no aumento da criminalização da mendicância em cidades de diferentes países.

    A necropolítica, conceito formulado por Achille Mbembe (2018), ajuda a compreender como governos decidem, conscientemente, quais vidas merecem ser protegidas e quais podem ser expostas à morte. Durante a pandemia de Covid-19 no Brasil, a gestão de Jair Bolsonaro minimizou riscos, atrasou vacinas e estimulou aglomerações, aumentando a mortalidade entre os mais pobres e periféricos (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 2021). “O poder de matar ou deixar morrer é o exercício último da soberania” (MBEMBE, 2018, p. 71). Essa escolha política configurou um crime ético contra as populações vulneráveis.

    No cenário internacional, exemplos recentes evidenciam a continuidade dessa lógica. Em agosto de 2025, o governo de Donald Trump em Washington, D.C., determina a remoção em massa de acampamentos de pessoas em situação de rua com apoio de forças federais (THE GUARDIAN, 2025). A medida, classificada por ativistas como higienista e autoritária, não oferece alternativas de moradia, apenas “limpa” o espaço público de corpos indesejados. Não se trata de política social, mas de um gesto simbólico de exclusão, alinhado à estética política neofascista.

    O neofascismo contemporâneo, como alerta Stanley (2018), não precisa replicar a estética dos anos 1930 para ser reconhecido: basta retomar a essência de suas práticas — nacionalismo agressivo, culto à força, inimigos internos e desumanização dos pobres. No Brasil, esse padrão se manifesta no bolsonarismo, que, ao desprezar a vida dos pobres e priorizar agendas de militarização, reforça a ideia de que o Estado deve servir apenas a quem pode pagar. “A democracia morre quando a desigualdade se naturaliza” (STANLEY, 2018).

    O fio que une nazifascismo, higienismo social, aporofobia, necropolítica e neofascismo contemporâneo é a institucionalização do desprezo. Trata-se de um projeto que, em vez de combater a pobreza, combate o pobre; que, em vez de garantir direitos, retira-os; que, em vez de acolher, expulsa. Denunciar essa lógica não é apenas exercício intelectual, mas uma obrigação ética: cada banco dividido, cada viaduto cercado, cada morte evitável é uma evidência de que, no século XXI, o ódio aos pobres deixou de ser vergonha e voltou a ser política oficial.

    Referências
    CHALHOUB, Sidney. Cidade febril: cortiços e epidemias na Corte imperial. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
    CORTINA, Adela. Aporofobia: o rechazo al pobre. Barcelona: Paidós, 2017.
    LANCELLOTTI, Júlio. “É proibido ser pobre na cidade”. Folha de S.Paulo, 19 fev. 2022.
    MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: n-1 edições, 2018.
    ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. WHO Coronavirus Disease (COVID-19) Dashboard. Genebra, 2021. Disponível em: https://covid19.who.int. Acesso em: 11 ago. 2025.
    STANLEY, Jason. How Fascism Works: The Politics of Us and Them. Nova York: Random House, 2018.
    THE GUARDIAN. Trump deploys federal forces to clear homeless encampments in DC. Londres, 8 ago. 2025.
    TRAVERSO, Enzo. The New Faces of Fascism. Londres: Verso, 2019.

    Créditos: Homem dorme nas escadarias em frente ao Teatro Municipal, no Rio de Janeiro (Luiz Souza/NurPhoto/Getty Images).

  • Hiroshima: Há exatamente 80 anos, o mundo conheceu o inferno

    Hiroshima: Há exatamente 80 anos, o mundo conheceu o inferno

    Por Levon Nascimento

    Era 6 de agosto de 1945, 8h15 da manhã, horário local, quando o avião B-29, batizado de Enola Gay, lançou sobre Hiroshima a primeira bomba atômica usada em combate: Little Boy. A explosão ocorreu a cerca de 600 metros do solo, no coração da cidade.

    Três dias depois, seria a vez de Nagasaki.

    Esses dois ataques nucleares — os únicos da história em um cenário de guerra — não atingiram alvos militares. Foram os corpos de civis que arderam. Homens, mulheres, crianças, idosos… vidas comuns, vidas inteiras, desapareceram em segundos. Nenhuma trincheira. Nenhuma chance.

    E não foram grupos terroristas, como Hamas, Al-Qaeda, Talibã ou Hezbollah, que acionaram as bombas. Tampouco foram os comunistas, os socialistas, a União Soviética, a China ou a Coreia do Norte. Não foram os negros, os LGBTQIAPN+, os petistas, o MST ou o MTST.

    As bombas caíram por decisão do governo dos Estados Unidos da América. E não, isso não nos leva ao ódio contra o povo estadunidense.

    Mas é impossível ignorar que o comando partiu do imperialismo capitalista ocidental — que se apoia no poder do Estado e de suas forças armadas para alimentar um sistema global movido por ganância, medo, terror e morte.

    Lembrar de Hiroshima e Nagasaki, hoje, é mais do que olhar para o passado. É reconhecer os reflexos dessa tragédia no presente: a ascensão de uma extrema-direita violenta, nos EUA e no Brasil bolsonarista; o genocídio do povo palestino em Gaza; a volta de políticas econômicas predatórias que empurram milhões ao desemprego e à fome, como as prometidas por Donald Trump.

    Como nos alertou o Papa Francisco na Laudato Si’: “Tudo está interligado.” E infelizmente, isso vale também para os ciclos de violência, exploração e injustiça.

    Fazer memória é resistir. É não permitir que a insanidade volte a tomar o lugar da razão. Que o horror volte a se repetir.

    Que nunca mais uma manhã seja escurecida por bombas que caem do céu.

    Imagem: Redes sociais da internet.

  • Viralatismo no calor dos trópicos

    Viralatismo no calor dos trópicos

    A síndrome de vira-lata, ou simplesmente viralatismo, é uma postura psicossocial marcada pela desvalorização da própria cultura em favor de expressões estrangeiras, geralmente de origem colonialista e tidas como mais avançadas ou superiores. Trata-se, em essência, de uma forma de baixa autoestima coletiva e intelectual.

    É o desejo inconsciente — e por vezes explícito — de ser europeu ou estadunidense, como se isso acrescentasse algum valor à existência que não se encontra no simples fato de ser brasileiro. Como se houvesse um status maior em negar suas raízes do que em afirmá-las.

    O viralatismo prospera onde o pensamento crítico enfraquece. Quanto menos se lê, quanto mais se consome sem reflexão, quanto menos se alimenta a inteligência com conteúdos de substância, mais se está vulnerável a essa síndrome que aliena e distorce a própria identidade.

  • Lei Magnitsky contra o Brasil: Soberania não se negocia!

    Lei Magnitsky contra o Brasil: Soberania não se negocia!

    O que está em jogo, mais do que a reputação de um magistrado ou um episódio isolado de política internacional, é a própria soberania do Brasil. A decisão do governo dos Estados Unidos, ainda sob influência do trumpismo, de aplicar a chamada Lei Magnitsky ao ministro Alexandre de Moraes escancara uma nova forma de agressão externa: a guerra híbrida travestida de moralidade internacional.

    Criada em 2012 como resposta à morte do advogado russo Sergei Magnitsky após denúncias de corrupção, a lei foi idealizada para punir graves violações de direitos humanos e atos de corrupção sistêmica. No entanto, ao ser utilizada agora contra um ministro da Suprema Corte brasileira, ela se revela distorcida, transformada em instrumento de pressão política. As acusações da política de extrema-direita de Trump ignoram por completo o fato de que as decisões de Moraes passaram pelo crivo do plenário do STF e foram respaldadas por fundamentos constitucionais. A imposição de sanções, como o bloqueio de bens e a proibição de transações com entidades americanas, expõe um ato de ingerência e desrespeito à autonomia das instituições brasileiras.

    Trata-se de uma escalada agressiva que deve ser lida no contexto mais amplo da atual relação entre Brasil e Estados Unidos. Em um curto intervalo, Washington adotou uma série de medidas que ferem diretamente os interesses nacionais. Em 9 de julho de 2025, tarifas de 50% foram anunciadas sobre exportações brasileiras, coincidindo com as investigações sobre a tentativa de golpe bolsonarista. Dias depois, vieram as restrições de visto a ministros do STF. Por fim, em 30 de julho, Moraes foi sancionado. A cronologia não deixa dúvidas: não se trata de episódios isolados, mas de uma campanha articulada. Como bem afirmou o líder do governo na Câmara, Lindbergh Farias: “Não é um ataque a um ministro, é um ataque ao Brasil”.

    O cenário se agrava com a atuação de setores da extrema-direita brasileira, antipatrióticos e traidores do Brasil, que se aliaram a interesses estrangeiros. Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente réu em tentativa de abolição violenta da democracia, licenciado da Câmara dos Deputados, teve papel central nessa ofensiva. Reportagens internacionais, como as do Washington Post, mostram que ele se comportou como verdadeiro agente estrangeiro, incentivando empresas brasileiras a levarem seus investimentos aos Estados Unidos, ao passo que celebrava as sanções a Moraes como “marco histórico”. Essa postura se inscreve na lógica do entreguismo e da sabotagem econômica contra o próprio país natal. Mais do que deslealdade institucional, trata-se de um comportamento que fere diretamente o Código de Ética Parlamentar e a ordem constitucional. A ausência de um tipo penal específico para o crime de lesa-pátria não exime a gravidade desses atos — eles devem ser enfrentados com responsabilização política urgente.

    Diante dessa conjuntura hostil, a reação do Brasil precisa ser estratégica e equilibrada. Firme, porém inteligente. A Advocacia-Geral da União, pelas palavras de Jorge Messias, já sinalizou que todas as medidas legais serão adotadas para proteger as instituições brasileiras, inclusive em instâncias internacionais. É fundamental, no entanto, que o país não entre no jogo da retaliação econômica: o protecionismo de curto prazo, segundo estudos do Peterson Institute, só é eficaz em 23% dos casos e pode agravar as tensões comerciais. A prioridade deve ser a defesa da ordem constitucional, como reiterou o ministro Flávio Dino ao afirmar que Moraes está apenas cumprindo seu dever institucional.

    Essa coesão entre os Poderes é a principal arma contra as tentativas de desestabilização. Em paralelo, a diplomacia brasileira deve intensificar a articulação com blocos e países que valorizem o multilateralismo, como os BRICS e a União Europeia. É preciso isolar o unilateralismo norte-americano e construir uma frente internacional de defesa da legalidade e da soberania.

    Como destacou o próprio Jorge Messias, “soberania não se negocia”. A tentativa de transformar o Brasil em um laboratório para ações extraterritoriais de Washington deve ser enfrentada com toda a energia do Estado brasileiro e com a mobilização de sua sociedade civil. Este é o momento de união nacional — acima de partidos, ideologias e disputas internas. O ataque a Moraes é uma farsa jurídica e uma tentativa de proteger um aliado político de Trump (Jair Bolsonaro), ao custo da própria Independência do Brasil. Ceder seria admitir que o país pode ser governado de fora, voltar a ser colônia de fato. E isso, a História nos ensina, sempre termina em subordinação e atraso.

    A grandeza de uma nação não está em sua submissão, mas em sua capacidade de resistir. O Brasil, com sua democracia ainda jovem, tem o dever de reagir à altura. Porque uma pátria que se respeita, se defende.

  • O Rubicão do Brasil

    O Rubicão do Brasil

    A seguir, uma síntese opinativa dos textos jornalísticos que li no domingo, 20 de julho de 2025.

    Imagine um general romano parado à beira de um rio estreito no norte da Itália, em 49 a.C. Seu nome é Júlio César. A lei proíbe que ele cruze esse córrego chamado Rubicão com suas tropas — pois fazê-lo seria declarar guerra a Roma. Ele hesita, sabendo que não haverá volta. Então profere a frase famosa: “Alea iacta est” (a sorte está lançada). Ao avançar, desencadeia uma guerra civil, mas também redefine o destino de um império.

    Hoje, o Brasil se vê diante de seu próprio Rubicão geopolítico. Não por ambição, como César, mas “por necessidade de sobrevivência“. Os EUA de Trump lançaram um ataque sem precedentes: tarifas de 50% sobre nossos produtos, bloqueio de vistos de autoridades do STF e do Ministério Público, e retórica que trata nossa soberania como um incômodo (BRASIL 247, 2025a).

    A geografia das relações internacionais explica o contexto:

    • Antes do Rubicão: O Brasil mantinha parcerias equilibradas com EUA, Europa e Ásia.
    • Depois do Rubicão: Trump transformou o comércio em “jogo de soma zero” — se os EUA ganham, alguém precisa perder. Seu projeto é um “Império hobbesiano”, de vigilância e controle total do mundo, baseado na força bruta (BRASIL 247, 2025b).

    Mas há uma diferença crucial:

    “Não se trata de antiamericanismo. O Brasil é simplesmente pró-Brasil (Julián Marías, citado em BRASIL 247, 2025c).

    Enquanto Trump tenta nos encurralar, Lula reúne-se no Chile com presidentes da Espanha, Chile, Colômbia e Uruguai. Juntos, publicaram em 20/07/2025 um manifesto claro: “Não cabe imobilismo nem medo” diante de autoritarismos (LULA et al., 2025). A mensagem ecoa César, mas com propósito oposto — não à conquista, mas a defesa do multilateralismo.

    Internamente, até governadores bolsonaristas criticaram as tarifas de Trump, e o agronegócio buscou diálogo com Lula para tentar reverter a tragédia encomendada por Jair Bolsonaro ao filho Eduardo, em missão de traição à Pátria brasileira na Casa Branca (BRASIL 247, 2025d).

    A travessia redefine nosso lugar no mundo:

    • Submeter o país a um império que vê autonomia como afronta.
    • Ou intensificar alianças com o Sul Global, destino de 63% das nossas exportações (BRASIL 247, 2025a).

    O Brasil não escolheu esta crise. Foi empurrado a ela pela família traidora de Bolsonaro. Mas enquanto César cruzou por ambição, nós o fazemos por um imperativo nobre:

    “Autonomia não é discurso. É sobrevivência (BRASIL 247, 2025b).

    A sorte está lançada. Resta saber se seremos espectadores da história… ou seus autores.

    REFERÊNCIAS

    AGÊNCIA GOV. Lula, Boric, Sánchez, Orsi e Petro escrevem: “Não cabe imobilismo nem medo”. Notícias, 2025. Disponível em: https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202507/lula-boric-sanchez-orsi-e-petro-escrevem-nao-cabe-imobilismo-nem-medo. Acesso em: 20 jul. 2025.

    BRASIL 247. Alvo do império, o Brasil tem um líder em papel inédito e precisa valorizá-lo: Lula. Editoriais 247, 2025a. Disponível em: https://www.brasil247.com/editoriais247/alvo-do-imperio-o-brasil-tem-um-lider-em-papel-inedito-e-precisa-valoriza-lo-lula. Acesso em: 20 jul. 2025.

    BRASIL 247. Lula viaja ao Chile onde participa de cúpula de presidentes em defesa da democracia. América Latina, 2025b. Disponível em: https://www.brasil247.com/americalatina/lula-viaja-ao-chile-onde-participa-de-de-cupula-de-presidentes-em-defesa-da-democracia. Acesso em: 20 jul. 2025.

    BRASIL 247. O Brasil está sendo forçado a cruzar um Rubicão geopolítico. Blog, 2025c. Disponível em: https://www.brasil247.com/blog/o-brasil-esta-sendo-forcado-a-cruzar-um-rubicao-geopolitico. Acesso em: 20 jul. 2025.

    BRASIL 247. Trump está querendo enfraquecer o principal líder da esquerda mundial, que é o Brasil, diz Mantega. Entrevistas, 2025d. Disponível em: https://www.brasil247.com/entrevistas/trump-esta-querendo-enfraquecer-o-principal-lider-da-esquerda-mundial-que-e-o-brasil-diz-mantega. Acesso em: 20 jul. 2025.

  • Bolsonaro traiu o Brasil. Mas, quem duvidava disso?

    Bolsonaro traiu o Brasil. Mas, quem duvidava disso?

    Em um enredo que mistura tragédia grega, farsa política e reality show, a família Bolsonaro elevou a “traição à pátria” de crime hediondo a plataforma de carreira. Nas últimas semanas, assistimos a um espetáculo digno de roteiristas de Hollywood: Eduardo Bolsonaro, instalado nos EUA como lobista de si mesmo, implorava a Donald Trump que “defendesse meu pai”. O resultado? Trump, em gesto de “solidariedade”, anunciou tarifas de 50% sobre produtos brasileiros – um abraço de urso, uma amizade de onça. 

    Jair Bolsonaro, que antes se vestia de verde-amarelo até para dormir, agora financia o filho com 2 milhões para conspirar contra o Brasil do exterior. Enquanto isso, em Brasília, o ex-presidente recebe a PF de pijama e é presenteado com uma tornozeleira eletrônica – acessório que, diga-se, combina mais com seu novo estilo de vida do que as botas de capitão. O mesmo homem que gritava “Brasil acima de tudo” agora sussurra “Trump acima do Brasil” (Trump above Brazil) nos ouvidos do magnata. 

    Eduardo pedia a Trump sanções seletivas contra ministros do STF, sonhando com a Lei Magnitsky como “sniper jurídico”. O que ganhou? Uma bomba atômica tarifária que desemprega brasileiros, estrangula o agronegócio e afunda a indústria. Como bem resumiu um analista: “Pediam um sniper e ganharam uma bomba atômica”. A reação do clã? Um lacônico “lamento” – eco assustadoramente familiar dos tempos pandêmicos. “Quer que eu faça o quê? Não sou coveiro” – disse o Jair em vez de comprar vacinas.

    Enquanto o país calcula prejuízos bilionários, Bolsonaro posa de vítima: “Suprema humilhação”, lamenta, ao vestir a tornozeleira. Ignora que a humilhação real é ver um ex-presidente acusado de atentar contra a soberania nacional, traição em Seu mais alto grau. Seu conselho a Lula? “Negocie com Trump!”. Sim, o mesmo Trump que ele armou contra o Brasil. Quem duvidava que a hipocrisia atingiria níveis olímpicos? 

    Até ex-diplomatas, homens de linguagem comedida, romperam o decoro: “É um caso claro de traição à pátria”. Lula, em tom cáustico, sintetizou: “Quem se abraça na bandeira americana é patriota falso”. E o STF, ao impor a tornozeleira e bloquear contatos com embaixadas, enviou um recado: traidores não merecem salvo-conduto, mas monitoramento constante. 

    Eduardo, do exílio dourado, ameaça seu próprio país: “Ninguém bate de frente com Trump!”. Esqueceu que, em 2025, seu pai virou apenas um pé-frio com tornozeleira, e o Brasil, um país que aprendeu: patriotismo de hashtag não paga a conta do desemprego. 

    Para os Bolsonaros, “Brasil acima de tudo” era slogan, não promessa. Já para o resto do país, a piada acabou – e a conta chegou.

  • O álibi de Trump: defendendo Bolsonaro para atacar o Brasil 

    O álibi de Trump: defendendo Bolsonaro para atacar o Brasil 

    A carta de Donald Trump em defesa de Jair Bolsonaro, divulgada em 17 de julho de 2025, foi chamada pelo governo Lula de “efeito nulo”. Mas a verdade é mais grave: a suposta solidariedade ao ex-presidente brasileiro é uma cortina de fumaça para atacar nossos interesses econômicos. Trump mesmo admitiu ao justificar tarifas de 50% contra o Brasil: “Estamos fazendo isso porque eu posso” (G1, 2025). 

    Por trás do discurso de “liberdade”, esconde-se uma guerra comercial. Eduardo Bolsonaro, atuando nos EUA, pressionou Trump após pedidos de condenação de seu pai, como confessou em nota: “Mantivemos diálogo com autoridades americanas […] para apresentar a realidade do Brasil” (GGN, 18.jul.2025). O resultado? Tarifas que atingem US$ 20 bilhões em exportações brasileiras de aço, petróleo e aviação. 

    O alvo real é nossa soberania econômica. A agência comercial americana (USTR) ataca o Pix, sistema público usado por 170 milhões de brasileiros, acusando-o de “prática desleal”. Para o jornalista Luís Nassif, isso revela o pânico das empresas americanas ante um sistema que reduziu o domínio de Visa e Mastercard (NASSIF, 2025). 

    A contradição é gritante: Trump alega defender liberdades, mas tenta estrangular uma ferramenta que democratizou o acesso financeiro. Como alertou o economista Paul Krugman: “É tudo sobre punir o Brasil por julgar Bolsonaro” (apud NASSIF, 2025). 

    O custo é real: as tarifas podem reduzir nosso PIB em 0,4% (GOLDMAN SACHS, 2025). Mas a reação uniu o Brasil: 72% dos brasileiros rejeitam as medidas (Datafolha, jul.2025), e até governadores de oposição buscam saídas diplomáticas. 

    Como sintetizou Lula: “O Brasil não é quintal de ninguém” (2023). A defesa de Bolsonaro é só um cavalo de Troia para enfraquecer um país que ousa desafiar a hegemonia econômica americana – com BRICS, moedas locais e tecnologia própria. A medida judicial que restringe Bolsonaro em julho de 2025 simboliza o fim dessa aliança tóxica. 

    A lição de Nassif ecoa: sem autonomia industrial e tecnológica, seremos reféns.

    Fontes:

    – G1. “Governo Lula reage a tarifas de Trump”. 17.jul.2025. 
    – GGN. “Eduardo Bolsonaro admite lobby por medidas contra Brasil”. 18.jul.2025. 
    – FOLHA DE S.PAULO. “Impacto das tarifas nas exportações”. 16.jul.2025. 
    – USTR. “Investigação sobre práticas comerciais do Brasil”. 15.jul.2025. 
    – NASSIF, L. “A indústria do cartão e o Pix”. GGN, 10.jul.2025. 
    – MDIC. “Balança comercial Brasil-EUA”. 14.jul.2025. 
    – GOLDMAN SACHS. “Relatório de impacto tarifário”. 19.jul.2025. 
    – DATAFOLHA. “Avaliação da política externa”. Jul.2025. 
    – ESTADÃO. “Governadores buscam diálogo com EUA”. 20.jul.2025. 
    – VALOR ECONÔMICO. “Haddad classifica tarifas como agressão”. 17.jul.2025. 
    – LULA. Discurso na Cúpula do Mercosul. 2023.

  • A semana que encerra e os desafios do Brasil: soberania, justiça e o futuro da Nação

    A semana que encerra e os desafios do Brasil: soberania, justiça e o futuro da Nação

    O Brasil sob ataque

    A semana que finda em 12 de julho de 2025 entrará para a história como um divisor de águas na trajetória brasileira. Entre ameaças externas, tensões políticas domésticas e desafios econômicos estruturais, o Brasil viu-se diante de uma encruzilhada que testou sua soberania, sua coesão institucional e seu projeto de nação. A imposição de tarifas de 50% por Donald Trump aos produtos brasileiros, justificada como represália às investigações contra Jair Bolsonaro, não foi apenas um ato econômico: foi uma declaração de guerra assimétrica contra a democracia brasileira.


    1. A ingerência externa e a resposta brasileira

    A chantagem como ferramenta geopolítica

    A carta pública de Donald Trump, vinculando tarifas comerciais à interferência no processo judicial contra Bolsonaro, configurou um inédito ataque à soberania nacional. Como destacou José Dirceu, trata-se de uma “conspiração contra o Brasil”, onde o bolsonarismo atuou como vetor de interesses estrangeiros: “Bolsonaro e seus filhos devem ser processados por traição e conspiração contra a segurança nacional”. A reação de Lula foi imediata e contundente: invocou a Lei de Reciprocidade Econômica e afirmou que o Brasil “não aceitará ser tutelado por ninguém”.

    O paradoxo de Trump: um tiro no pé

    Analistas como Juan Pablo Spinetto (Bloomberg) apontam que a medida de Trump pode fortalecer Lula politicamente. Ao unir a opinião pública em torno da defesa da soberania, Trump desvia o foco da oposição e fragiliza aliados de Bolsonaro, como Tarcísio de Freitas, que se alinhou publicamente ao presidente estadunidense.

    “Ao se envolver no caso de Bolsonaro, Trump acaba prejudicando inadvertidamente as melhores chances da direita de derrotar Lula” – JP Spinetto.


    2. As fraturas internas: bolsonarismo e submissão

    Tarcísio e a inversão institucional

    O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, protagonizou um episódio surreal: telefonou a ministros do STF para propor a devolução do passaporte de Bolsonaro, permitindo que ele “negociasse” com Trump o fim das tarifas. Leonardo Sakamoto sintetizou o absurdo: “Tarcísio jogou a institucionalidade no lixo e agiu como office boy de Bolsonaro”. A atitude ignora que o confisco do passaporte visa impedir a fuga de um investigado por tentativa de golpe de Estado.

    A elite conivente e seu despertar tardio

    Dirceu critica a conivência das elites econômicas com o bolsonarismo, que fecharam os olhos ao financiamento do 8 de janeiro e à estadia ilegal de Eduardo Bolsonaro nos EUA. Agora, com perdas concretas – como 58 contêineres de pescados barrados nos EUA –, parte delas reage.


    3. Os desafios estruturais: entre a reindustrialização e a justiça tributária

    A economia fechada e a desindustrialização

    Vitor Lippi (deputado federal) alerta que o Brasil tem “baixa integração às cadeias globais de valor” e é uma “economia fechada”, dependente de commodities. Apesar de cases de sucesso como Embraer e Weg, falta uma estratégia agressiva de inserção internacional.

    A taxação dos super-ricos: uma questão de equidade

    Neste contexto, a defesa da taxação de grandes fortunas por Walter Salles Jr. – ele mesmo herdeiro de uma das 50 maiores fortunas do Brasil – ecoa como um manifesto ético: “É importante corrigir as distorções de um sistema que cobra mais de quem tem menos”. Sua posição simboliza o amadurecimento de setores privilegiados que entendem que a justiça fiscal é um pilar da coesão social.


    4. Geopolítica: BRICS, China e o novo multilateralismo

    A solidariedade dos BRICS

    A resposta de Lula às tarifas não se limitou ao plano bilateral: articulou-se no âmbito dos BRICS. A China já criticou publicamente as tarifas de Trump, afirmando que “não devem ser usadas como instrumentos de coerção”. O bloco representa um contraponto ao unilateralismo estadunidense e um canal para diversificar parcerias.

    A guerra cibernética e a soberania digital

    Celso Amorim (ex-ministro da Defesa e das Relações Exteriores) lembra que o Brasil já sofreu ataques cibernéticos contra empresas e instituições de Estado. Em um mundo onde “a linha entre espionagem e guerra é tênue”, a soberania digital é um novo front de defesa nacional.


    5. Os pilares para reconstrução

    A semana que encerra expôs feridas abertas, mas também apontou caminhos:

    1. Soberania como valor absoluto: A resposta à chantagem de Trump deve ser técnica (Lei de Reciprocidade) e diplomática (articulação com BRICS).
    2. Justiça tributária como projeto nacional: A taxação de grandes fortunas, como defendida por Salles, é um passo para reduzir desigualdades históricas.
    3. Reindustrialização inclusiva: Integrar-se às cadeias globais de valor exige abrir a economia sem abdicar de políticas industriais estratégicas.
    4. Unidade democrática: A defesa das instituições – STF, TSE, Presidência – não é uma bandeira partidária, mas um imperativo cívico.

    “O Brasil é dos brasileiros” – Lula.

    Em um momento onde forças externas e internas buscam fragilizar o projeto nacional, a resposta deve ser a construção de um pacto social pela soberania, envolvendo empresários, trabalhadores e Estado. Como alertou Dirceu: “Hoje parece claro que quem está com Trump está contra o Brasil”. A semana que passou não foi apenas um teste: foi um chamado à reinvenção do Brasil como nação soberana, justa e globalmente relevante.

    REFERÊNCIAS

    DIRCEU, J. “Bolsonarismo e submissão a Trump colocam em risco a soberania nacional”. Brasil 247, 9 jul. 2025. Disponível em: https://www.brasil247.com/brasil/bolsonarismo-e-submissao-a-trump-colocam-em-risco-a-soberania-nacional-alerta-jose-dirceu. Acesso em: 11 jul. 2025.

    LULA, L. I. Reação a anúncio de tarifas de Trump. Twitter, 9 jul. 2025. Disponível em: https://iclnoticias.com.br/economia/lula-reagem-trump-tarifa-lei-brasileira/. Acesso em: 11 jul. 2025.

    SAKAMOTO, L. “Tarcísio joga institucionalidade no lixo e age como office boy de Bolsonaro”. UOL, 11 jul. 2025. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/colunas/leonardo-sakamoto/2025/07/11/tarcisio-joga-institucionalidade-no-lixo-e-age-como-office-boy-de-bolsonaro.htm. Acesso em: 11 jul. 2025.

    SPINETTO, J. P. “Ameaça tarifária de Trump pode fortalecer Lula”. Bloomberg via ICL Notícias, 11 jul. 2025. Disponível em: https://iclnoticias.com.br/economia/tarifa-trump-fortalecer-lula-spinetto/. Acesso em: 11 jul. 2025.

    LIPPI, V. “O desafio do Brasil para ser competitivo na produção global”. Poder360, 11 jul. 2022. Disponível em: https://www.poder360.com.br/opiniao/o-desafio-do-brasil-para-ser-competitivo-na-producao-global/. Acesso em: 11 jul. 2025.

    AMORIM, C. “Segurança Internacional: novos desafios para o Brasil”. Contexto Internacional, v. 35, n. 1, 2013. Disponível em: https://www.scielo.br/j/cint/a/BQqGv36X8LW7CN4tGbBRFrb/. Acesso em: 11 jul. 2025.

    SALLES, W. Discurso no Prêmio Faz a Diferença. ICL Notícias, 8 jul. 2025. Disponível em: https://iclnoticias.com.br/walter-salles-defende-taxacao/. Acesso em: 11 jul. 2025.

  • O tarifaço de Trump: agressão econômica e ofensa à soberania brasileira

    O tarifaço de Trump: agressão econômica e ofensa à soberania brasileira

    Segue uma síntese das leituras jornalísticas que fiz no calor da repercussão do injusto e equivocado “tarifaço” de Donald Trump ao Brasil. Compartilho para contribuir na sua formação de opinião.
    Levon Nascimento

    A decisão unilateral de Donald Trump de impor tarifas de 50% sobre exportações brasileiras aos EUA, anunciada em 9 de julho de 2025, transcende uma mera disputa comercial. Trata-se de uma manobra política articulada para interferir nos assuntos internos do Brasil, conforme demonstram as justificativas apresentadas pelo presidente norte-americano. Em sua carta oficial ao governo brasileiro, Trump vinculou explicitamente as tarifas ao processo judicial contra Jair Bolsonaro, classificando as investigações do STF como “caça às bruxas” e exigindo seu fim “IMEDIATAMENTE!” (CARTA CAPITAL, 2025c; BRASIL 247, 2025b). Essa intromissão descarada em nossa soberania judicial foi definida pelo ex-embaixador Rubens Ricupero como “intervenção inaceitável contra a nação brasileira” (CARTA CAPITAL, 2025b).

    A alegação de “déficits comerciais insustentáveis” apresentada por Trump colapsa ante aos dados concretos. Como destacam analistas, os EUA mantêm superávit comercial com o Brasil há 15 anos consecutivos, acumulando US$ 410 bilhões nesse período (BRASIL 247, 2025d). Só em 2025, até maio, esse saldo positivo já atingia US$ 1,6 bilhão. A incoerência revela o verdadeiro propósito: servir de instrumento de pressão para beneficiar politicamente Bolsonaro, cujo filho, Eduardo Bolsonaro, encontrava-se nos EUA durante o anúncio das tarifas (CARTA CAPITAL, 2025a).

    Economicamente, a medida afetará setores estratégicos como café (onde o Brasil fornece 8 milhões de sacas/ano aos EUA), carnes, suco de laranja e aeronaves da Embraer – esta última com 60% de suas vendas atreladas ao mercado norte-americano (CARTA CAPITAL, 2025c). Estimativas do BTG Pactual projetam perdas de US$ 7 bilhões em 2025 (0,3% do PIB), com impacto inflacionário pelo dólar a R$ 5,60 (BRASIL 247, 2025g). Contudo, a capacidade de redirecionar exportações para os BRICS e Ásia atua como amortecedor, reduzindo a vulnerabilidade brasileira.

    A resposta do governo Lula combinou firmeza diplomática e ação prática. O presidente anunciou a Lei de Reciprocidade Econômica, estabelecendo tarifas equivalentes sobre produtos norte-americanos caso a OMC não suspenda a medida trumpista (ICL NOTÍCIAS, 2025a). Paralelamente, criou um comitê empresarial para reestruturar relações comerciais e articula uma frente internacional com parceiros estratégicos (ICL NOTÍCIAS, 2025b; BRASIL 247, 2025a). Como afirmou Lula: “Não aceitamos tutela. Somos um país soberano” (ICL NOTÍCIAS, 2025c), ecoando o sentimento de setores do agronegócio que apoiam a retaliação (BRASIL 247, 2025g).

    Ironicamente, a agressividade de Trump fortaleceu a unidade nacional em torno da soberania. A deputada norte-americana Alexandria Ocasio-Cortez denunciou o ato como “corrupção descarada” ao favorecer Bolsonaro (BRASIL 247, 2025f), enquanto o STF reafirmou sua autoridade ao ignorar as pressões externas (CARTA CAPITAL, 2025d). O episódio expõe a transformação dos EUA, sob a liderança trumpista, em “adversário do Brasil“, nas palavras do ex-embaixador em Washington (CARTA CAPITAL, 2025e).

    O tarifaço consolida-se como um marco geopolítico: demonstra que o Brasil possui instrumentos para defender seus interesses e que o unilateralismo comercial gera reações coordenadas. A articulação com os BRICS e a OMC sinaliza que a era da submissão a decisões extraterritoriais chegou ao fim. Nas palavras de Ricupero, essa “agressão sem precedentes exige resposta no mesmo nível” (CARTA CAPITAL, 2025c) – resposta que o Brasil está construindo com soberania e estratégia.

    REFERÊNCIAS

    BRASIL 247. Bolsonaro se curva a Trump e justifica tarifas contra o Brasil. 2025a. Disponível em: https://www.brasil247.com/regionais/brasilia/bolsonaro-se-curva-a-trump-e-justifica-tarifas-contra-o-brasil. Acesso em: 11 jul. 2025.

    BRASIL 247. Lula critica intromissão de Trump no Brasil: “Desaforo inaceitável e inadmissível”. 2025b. Disponível em: https://www.brasil247.com/brasil/lula-critica-intromissao-de-trump-no-brasil-desaforo-inaceitavel-e-inadmissivel. Acesso em: 11 jul. 2025.

    BRASIL 247. Lula anuncia mobilização internacional para enfrentar tarifaço de Trump. 2025c. Disponível em: https://www.brasil247.com/brasil/lula-anuncia-mobilizacao-internacional-para-enfrentar-tarifaco-de-trump. Acesso em: 11 jul. 2025.

    BRASIL 247. Entidades do agro e de setores empresariais apoiam reação de Lula contra Trump. 2025d. Disponível em: https://www.brasil247.com/economia/entidades-do-agro-e-de-setores-empresariais-apoiam-reacao-de-lula-contra-trump. Acesso em: 11 jul. 2025.

    CARTA CAPITAL. Bolsonaro “sentou na boca do canhão” que apontava para Lula. 2025a. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/mundo/bolsonaro-sentou-se-na-boca-do-canhao-que-apontava-para-lula/. Acesso em: 11 jul. 2025.

    CARTA CAPITAL. Intromissão de Trump em favor de Bolsonaro é um presente eleitoral para Lula, diz Ricupero. 2025b. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/politica/intromissao-de-trump-em-favor-de-bolsonaro-e-um-presente-eleitoral-para-lula-diz-ricupero/. Acesso em: 11 jul. 2025.

    CARTA CAPITAL. Tarifa de Trump não tem precedentes e exige reação do Brasil no mesmo nível, diz Ricupero. 2025c. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/economia/tarifa-de-trump-nao-tem-precedentes-e-exige-reacao-do-brasil-no-mesmo-nivel-diz-ricupero/. Acesso em: 11 jul. 2025.

    CARTA CAPITAL. A reação do STF à defesa de Donald Trump a Jair Bolsonaro. 2025d. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/politica/a-reacao-do-stf-a-defesa-de-donald-trump-a-jair-bolsonaro/. Acesso em: 11 jul. 2025.

    CARTA CAPITAL. Descontrolado, Trump torna os EUA adversários do Brasil, diz ex-embaixador em Washington. 2025e. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/economia/descontrolado-trump-torna-os-eua-adversarios-do-brasil-diz-ex-embaixador-em-washington/. Acesso em: 11 jul. 2025.

    ICL NOTÍCIAS. Tarifaco: Lula anuncia lei de reciprocidade se OMC não agir. 2025a. Disponível em: https://iclnoticias.com.br/tarifaco-lula-lei-reciprocidade-se-omc-nao-agir/. Acesso em: 11 jul. 2025.

    ICL NOTÍCIAS. Lula anuncia comitê com empresários como resposta a Trump. 2025b. Disponível em: https://iclnoticias.com.br/lula-anuncia-comite-empresarios-resposta-trump/. Acesso em: 11 jul. 2025.

    ICL NOTÍCIAS. Lula critica tarifacos, exalta multilateralismo e diz que Brasil não aceita tutela. 2025c. Disponível em: https://iclnoticias.com.br/lula-critica-tarifacos-exalta-multilateralismo/. Acesso em: 11 jul. 2025.

  • Doutrinação: professores e mídia

    * Levon Nascimento

    Indivíduos, grupos políticos ou regimes com características autoritárias sempre fizeram a aposta na burrice humana e na infantilização da opinião. Falam ao povo como se estivessem se dirigindo a uma criança de cinco anos. Dividem o mundo entre o lado do bem e o lado do mau. Inventam um inimigo, exageram no medo coletivo e o atacam através de ofensas de baixo nível, ao invés de utilizarem argumentos racionais. Este é o quadro momentâneo do Brasil. Esta é a triste realidade do mundo atual.

    De Brasília a Taiobeiras, do norte ao sul, da boca de Michel Temer à cavidade oral de um pobre diabo que pensa que não será atingido pelo desastre que a PEC 241 (55) produzirá, o que se houve e se vê é a desqualificação de quem exercita a capacidade intelectual e moral de criticar.

    “Estão aí protestando, ocupando escolas, mas nem sabem o que é PEC!” – dizem. “São uns vagabundos cabulando aula! Por que não vão estudar?” – rosnam. “É tudo doutrinado por esses professores comunistas” – mentem e acreditam na própria mentira.

    Como não podem debater através da racionalidade, pois esta fatalmente acabaria por dar a vitória aos manifestantes contrários ao golpe de estado e à PEC, tratam de desqualificar, demonizar e ridicularizar os indivíduos e grupos que resistem à retirada de direitos. Isto é um fenômeno típico de fascistas.

    O fascismo é um regime de direita que aparece nos momentos de crise econômica do capitalismo. É irracional, porque baseado na exploração do medo que as pessoas têm do diferente e do futuro.

    Os regimes fascistas mais conhecidos e trágicos da história foram o italiano e o alemão. Nasceram e cresceram no período entre a primeira e a segunda guerra mundial (1918 a 1939), justamente em um momento de forte crise econômica (1929), de desilusão com a classe política e de medo dos inimigos internos e externos (judeus, dentro; e comunistas da Revolução Russa, fora).

    O resultado desses regimes, todos conhecem: o holocausto judeu e a segunda grande guerra.

    As primeiras vítimas do fascismo são o conhecimento e a razão. Pessoas críticas e inteligentes não são suportadas por regimes autoritários: civis, como agora; ou militares, como em 1964.

    Neste contexto, querem implantar a lei chamada “Escola Sem Partido”, justamente para retirar dos educadores brasileiros o direito à liberdade de expressão em sala de aula. Acusam os professores, especialmente das matérias de humanidades, de estarem doutrinando os alunos para serem comunistas ou – mais hilário ainda – petistas bolivarianos.

    É uma aposta na imbecilidade que poderá custar caro à inteligência do país. É proposital da parte de quem está no comando. É involuntário em mentes condicionadas pelo autoritarismo ou pelo servilismo social que caracteriza as relações históricas no Brasil.

    Cidadãos críticos desestabilizam governos autoritários. Mentes que estudam não aceitam o alto grau de retirada de direitos e de destruição do Estado nacional, como o que ocorre no Brasil pós-golpe de 2016.

    Juntamente com o ataque à Educação através do “Escola Sem Partido”, acontece a criminalização dos movimentos sociais. Os jovens que estão ocupando escolas são tachados de baderneiros e vagabundos. Sem-terras, sem-tetos, lideranças de partidos de esquerda e outros grupos de luta são perseguidos pelo aparato estatal como se fossem bandidos contumazes e perigosos.

    Contraditoriamente, quem de fato pratica doutrinação é a grande mídia do país. As reportagens são tendenciosas e seletivas, sem a mínima preocupação de demonstrar imparcialidade jornalística. Praticam-se diariamente assassinatos de reputação, sem direito a defesa, contra os inimigos da grande burguesia nacional. Os programas policiais de fim de tarde atiçam o medo, o ódio e a vontade de vingança. As telenovelas e os demais programas incentivam o consumismo e a futilidade.

    As massas que saíram às ruas para protestar contra a corrupção do governo petista, vestidas com a camisa amarela da corrupta CBF, foram “convidadas” pelas principais redes de televisão e por outros tipos de veículos de comunicação da grande imprensa. A cada meia hora, os canais de TV entravam ao vivo para mostrar e elogiar as manifestações, classificadas como pacíficas e democráticas. No entanto, o que se via era pessoas gritando: “somos milhões de Cunhas”, “morte ao Lula”, “nordestinos burros não sabem votar”, “pelo fim da ditadura comunista no Brasil”, “basta de Paulo Freire”, “Dilma vaca!”, “contra a invasão bolivariana no Brasil” e, mais recentemente, “contra a comunista Hillary Clinton” e “Trump, estamos com você”.

    Democraticamente puderam sair às ruas para gritar palavrões contra a presidenta-eleita da República, sem sofrer nenhum tipo de repressão. Mesmo assim, afirmavam estar lutando contra uma “ditadura comunista e bolivariana” que iria mudar a cor da bandeira verde e amarela para vermelho.

    No entanto, quando mil escolas brasileiras estão ocupadas por estudantes secundaristas e universitários contra os cortes em educação e saúde; quando milícias fascistas atacam os estudantes em ocupação sem qualquer reação das instituições do Estado; quando policiais invadem a escola do MST sem mandado judicial; quando índios são mortos por fazendeiros em suas próprias terras; e quando líderes de movimentos sociais são fichados como meliantes, nada é informado na TV. E quando mostram, é para por mais lenha na fogueira, desqualificando quem luta.

    Burrices como estas e outras, gritadas nas ruas e nas redes sociais pelos zumbis amarelos, não são exclusividade do Brasil. No mundo inteiro, o fenômeno é o mesmo. Há um vento conservador e autoritário no ar.

    Donald Trump ganhou a eleição presidencial dos Estados Unidos com um discurso parecido, apostando na irracionalidade, embalado em racismo e machismo, reverberando ódio e estimulando o medo do outro. Conseguiu até ressuscitar a defunta Ku Klux Klan, organização terrorista branca norte-americana que no passado lutou contra o fim da escravidão negra.

    “Nosso objetivo é devolver a América à nação cristã branca. (…) Isto não significa que queremos que nada de ruim aconteça às raças mais escuras. Simplesmente queremos viver separados delas” – é o que está escrito em um manifesto dessa organização convocando uma marcha para celebrar a vitória do magnata de cabelos amarelos.

    A onda fascista não aparece do nada. No entreguerras e agora, ela é fruto da grave crise econômica do capitalismo. Quando a grande burguesia sente que vai perder muito dinheiro, não hesita em abrir mão de seus próprios valores liberais: liberdade, igualdade e fraternidade. Atira-se sem pudores nos braços do autoritarismo de direita. No passado, Hitler e Mussolini representaram a válvula de escape. Grã-Bretanha, França e Estados Unidos nada fizeram contra o führer enquanto ele parecia ser a solução para o inimigo comum, a comunista União Soviética. Só se deram conta do erro quando as bombas alemãs caíram sobre Londres. Paris, humilhada, viu o próprio líder nazista desfilar sob seu arco do triunfo. Na esteira da crise de 2008, estaríamos a reviver o passado?

    O caso brasileiro é ainda mais grave. Numa nação marcada pela secular desigualdade, a onda fascista serve à Casa Grande, aquela pequena porção de bem nascidos que não engoliu até hoje os programas sociais, criados por Lula, que deram uma pequena chance aos pobres deste país. É sua arma para fazer o povo voltar à Senzala.

    O melhor exemplo da verdadeira doutrinação que sofre o Brasil – a midiática – é ver que somente a corrupção atribuída ao PT gera revolta. Nunca se roubou tanto e tão descaradamente como nestes dias depois do afastamento de Dilma Rousseff, mas não se vê uma manifestação que seja de gente vestida de amarelo contra isso.

    Os pobres professores brasileiros pagarão o pato da alienação nacional. Perigosos terroristas que são, deverão ser amordaçados para não corromperem a inocência da juventude canarinha. “Ordem e Progresso” aos nossos jovens! Inteligência, não!

    Viva a burrice! Ela herdará a Terra.

    * Levon Nascimento é professor de história e mestrando em “Estado, Governo e Políticas Públicas” pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais/ Seção Brasil.
  • "Conduzindo Miss Daisy" na véspera da eleição americana

    Conduzindo Miss Daisy, uma bela comédia dramática que mostra o contato difícil, a princípio, entre uma rica senhora judia (Jessica Tandy) e seu motorista negro (Morgan Freeman) no sul dos EUA (Atlanta, Georgia) no final dos anos 1940, mas que se transforma numa bela e sólida amizade, acima dos preconceitos raciais, sociais e culturais.

    Na véspera da eleição que definirá o futuro da maior potência do planeta, que poderá afetar a vida de todos nós, vale a pena assistir a esta bela produção. Assisti ontem à noite (domingo, 4/11/2012).

    Ficha técnica:
    Conduzindo Miss Daisy, 1989, Estados Unidos, vencedor de três Oscars.