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  • Fé para romper a indiferença, não para lucrar

    Fé para romper a indiferença, não para lucrar

    Vivemos tempos estranhamente silenciosos diante da dor. Enquanto milhões sofrem com fome, violência — como nas ruas de todo o mundo, em geral, e em Gaza, no particular —, abandono ou solidão, seguimos com nossas rotinas apressadas, rostos grudados nas telas e corações distraídos. A era da indiferença, como muitos a chamam, é marcada por uma anestesia coletiva: vemos tudo, mas não sentimos quase nada. É como se o sofrimento alheio tivesse perdido o peso, como se os laços humanos tivessem sido substituídos por curtidas, lucros e algoritmos.

    Essa indiferença não surgiu do nada. Ela se construiu aos poucos, num mundo que valoriza mais o desempenho do que a presença, mais a eficiência do que a empatia. Mais o lucro do que o ser humano. Somos levados a acreditar que não temos tempo para cuidar, para ouvir, para sofrer com o outro. E assim, nos tornamos especialistas em nos proteger das dores que não são nossas, às vezes até estimulados pelo discurso da toxicidade alheia. Porém, essa proteção cobra caro: nos desumaniza. Perdemos a capacidade de chorar com quem chora, de nos alegrar com quem se levanta.

    É nesse contexto que a encíclica Dilexit Nos (outubro de 2024), do Papa Francisco (1936 – 2025), brilha como uma luz em meio ao cansaço espiritual da atualidade. Ao propor o Coração de Jesus como símbolo e fonte de amor verdadeiro — humano e divino — Francisco nos convidou a romper o gelo que endurece o mundo. Ele falou de um “mundo sem coração”, dominado por tecnologias que nos unem superficialmente, mas nos afastam na essência. A Dilexit Nos não é um chamado à religiosidade superficial (muito louvor e pouca compreensão), mas à conversão profunda: para que deixemos de viver como espectadores e voltemos a ser irmãos.

    A encíclica nos lembra que o coração é lugar de verdade, de feridas, de ternura e também de decisão. E é a partir desse lugar que podemos reconstruir o tecido esgarçado da solidariedade. Ser cristão — ou simplesmente humano — nessa era da indiferença é escolher, todos os dias, não se calar diante do sofrimento, não se conformar com a exclusão e não se render ao conforto da apatia. O amor que nos é revelado no Coração de Cristo é exigente, mas profundamente libertador: nos chama a ser presença, escuta, abraço.

    Superar a era da indiferença não exige heróis, mas corações despertos. Exige menos pressa e mais atenção. Menos julgamento e mais compaixão. A Dilexit Nos aponta um caminho espiritual e humano para reencontrarmos o que de mais essencial existe em nós: a capacidade de amar e ser afetado pelo outro. Porque no fim das contas, só um mundo com coração pode ser verdadeiramente justo e habitável.

  • 13 de maio: Por que Maria é importante para a humanidade?

    13 de maio: Por que Maria é importante para a humanidade?

    A figura de Maria, mãe de Jesus, transcende fronteiras religiosas e temporais, consolidando-se como um dos pilares mais complexos e inspiradores da espiritualidade ocidental. Sua relevância histórica não se restringe ao papel biológico de dar à luz o Cristo, mas se expande em camadas teológicas, sociais e culturais que a tornam um arquétipo universal. No contexto do 13 de maio de 2025, data que celebra Nossa Senhora de Fátima, refletir sobre sua importância exige um olhar que integre tradição e contemporaneidade, dogma e humanidade.

    1. A teologia clássica: mãe de Deus e nova Eva

    Na teologia cristã, Maria é definida como Theotokos (Mãe de Deus), título consolidado no Concílio de Éfeso (431 d.C.), que enfatiza sua centralidade no mistério da Encarnação (Arquidiocese de Uberaba). Os Padres da Igreja, como Irineu de Lyon, a viram como a “Nova Eva”, cujo “sim” ao anjo Gabriel reparou a desobediência da primeira mulher (Rosary Center). Essa perspectiva a coloca não apenas como protagonista da salvação, mas como mediadora graciosa, ponte entre o divino e o humano. Dom Leonardo Steiner, citado pelo IHU, reforça que em Maria “encontramos respostas” para inquietações existenciais, pois sua disponibilidade a Deus a torna modelo de fé ativa.

    2. A mariologia feminista: entre a revolução e a tradição

    A teologia feminista, porém, desafia visões tradicionais que reduziram Maria a um ícone passivo de pureza. Analisando criticamente sua figura, teólogas recuperam sua agência: ela foi uma mulher judia que enfrentou riscos sociais ao aceitar uma gravidez fora dos padrões (James Tabor, IHU). Para Michele Giulio Masciarelli (IHU), Maria é “mais jovem do que o pecado”, não por negação da realidade, mas por sua coragem em abraçar um projeto disruptivo. Essa releitura a transforma em símbolo de resistência, especialmente em contextos onde mulheres são marginalizadas. Como afirma o IHU, “num momento da história, o centro de tudo está numa mulher”, ecoando a ideia de que Maria personifica a força do feminino sagrado.

    3. Maria pós-Vaticano II: humanidade e universalidade

    O Concílio Vaticano II (1962-1965) reposicionou Maria como “membro eminente da Igreja”, evitando excessos devocionais que a divinizavam. O Papa Francisco, conforme destacado pelo IHU, lembra que “Maria é mãe, não deusa”, reafirmando sua humanidade. Essa abordagem ressalta sua trajetória terrena: uma mãe judia que viveu dúvidas, dores e alegrias, como qualquer pessoa. Leonardo Boff, em A Porção Feminina de Deus, assinala que Maria revela a face materna do Divino, integrando o feminino na compreensão do sagrado. Sua história, assim, torna-se acessível a todos, independentemente de credo.

    4. Maria na pós-modernidade: respostas a uma crise de sentido

    Em meio à fragmentação pós-moderna, Maria emerge como figura de reconciliação. Artigos do IHU (Instituto Humanitas Unisinos) destacam que sua “glorificação” não a distancia da realidade, mas a aproxima das crises humanas. A poesia de Pedro Casaldáliga, que a transforma em “todas as mulheres”, ilustra como sua imagem transcende o religioso, simbolizando esperança para os oprimidos. Ela é, nas palavras de Casaldáliga, a mãe dos sem-terra, das viúvas, dos excluídos — uma metáfora da compaixão ativa.

    Maria: espelho do humano e do divino

    Maria não é importante apenas por quem gerou, mas por quem ela foi: uma mulher que encarnou paradoxos — humilde e revolucionária, silenciosa e profética, humana e transcendente. Sua história desafia dogmas estéreis e convida a uma espiritualidade encarnada, onde o divino se manifesta no cotidiano. No 13 de maio de 2025, celebrá-la é reconhecer que, em sua trajetória, encontramos um mapa para navegar as complexidades da existência, unindo céu e terra, tradição e renovação. Como síntese do feminino sagrado e da disponibilidade ao mistério, Maria permanece, afinal, uma resposta viva aos anseios mais profundos da humanidade.

    Referências
    ARQUIDIOCESE DE UBERABA. A Virgem Maria na Teologia. Arquidiocese de Uberaba, [s.d.]. Disponível em: https://arquidiocesedeuberaba.org.br/a-virgem-maria-na-teologia/. Acesso em: 12 maio 2025.
    CASALDÁLIGA, Pedro. Poesia de Pedro Casaldáliga transforma Maria em todas as mulheres. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/605492-poesia-de-pedro-casaldaliga-transforma-maria-em-todas-as-mulheres. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Como Maria, a mãe judia de Jesus, se tornou a virgem que deu à luz a Deus. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Entrevista com James D. Tabor. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/78-noticias/602004-como-maria-a-mae-judia-de-jesus-se-tornou-a-virgem-que-deu-a-luz-a-deus-entrevista-com-james-d-tabor. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Contemplação do encontro de Maria com o Ressuscitado. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/78-noticias/597943-contemplacao-do-encontro-de-maria-com-o-ressuscitado. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Dom Leonardo: Em Maria, encontramos respostas; nos tornamos pessoas mais disponíveis. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/categorias/615135-dom-leonardo-em-maria-nos-encontramos-respostas-nos-nos-tornamos-pessoas-mais-disponiveis. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Francisco encerra polêmicas seculares sobre Nossa Senhora: “Maria é mãe, não deusa”. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/607814-francisco-encerra-polemicas-seculares-sobre-nossa-senhora-maria-e-mae-e-nao-deusa-expressoes-as-vezes-exageradas. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Maria, a glorificada, e a crise pós-moderna. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/185-noticias/noticias-2016/559142-maria-a-glorificada-e-a-crise-pos-moderna. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Maria de Nazaré à luz da mariologia desenvolvida a partir do Concílio Vaticano II. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/78-noticias/598632-maria-de-nazare-a-luz-da-mariologia-desenvolvida-a-partir-do-concilio-vaticano-ii. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Maria, a mulher mais jovem do que o pecado. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Artigo de Michele Giulio Masciarelli. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/185-noticias/noticias-2016/563199-maria-a-mulher-mais-jovem-do-que-o-pecado-artigo-de-michele-giulio-masciarelli. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Não façam isso com a mãe de Jesus. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/78-noticias/589385-nao-facam-isso-com-a-mae-de-jesus. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Para Maria, por Jesus: A virgem na teologia feminista. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/categorias/615453-para-maria-por-jesus-a-virgem-na-teologia-feminista. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. “Num momento da história, o centro de tudo está numa mulher”. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/sobre-o-ihu/78-noticias/574634-num-momento-da-historia-o-centro-de-tudo-esta-numa-mulher. Acesso em: 12 maio 2025.
    BOFF, Leonardo. A porção feminina de Deus. Leonardo Boff, 30 ago. 2014. Disponível em: https://leonardoboff.org/2014/08/30/a-porcao-feminina-de-deus/. Acesso em: 12 maio 2025.
    ROSARY CENTER. Maria na Teologia dos Padres – Parte 2. Rosary Center, [s.d.]. Disponível em: https://rosarycenter.org/pt/ll73n2-mary-in-the-theology-of-the-fathers-part-2. Acesso em: 12 maio 2025.
    REVISTA CULTURA TEOLÓGICA. Maria de Nazaré: Perspectivas teológicas. Revista Cultura Teológica, [s.d.]. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/culturateo/article/download/14360/11834/38580. Acesso em: 12 maio 2025.

  • Levon Nascimento: “Creio, Senhor, mas aumentai a minha fé”

    Levon Nascimento: “Creio, Senhor, mas aumentai a minha fé”

    “Creio, Senhor, mas aumentai a minha fé”.

    Essa frase repetida como oração pelo povo católico, é para mim a exata medida da explicação do fenômeno da fé e de sua oposição ao fundamentalismo cristão.

    Fé é acreditar, mas com a consciência de que há dúvidas. E sem o medo de duvidar. A maturidade da fé é relativamente proporcional à intensidade das incertezas.

    Fé que se apresenta como “certa de tudo” é fanatismo; e não há nada mais prejudicial a um cristão do que ser fanático religioso.

    Jesus sempre se posicionou aberto, lúcido, inclusivo e incentivador do pensamento crítico. De outro modo, por que ensinaria através de parábolas, que levam o interlocutor a raciocinar? Raciocínio é lucidez. Onde se raciocina não se fanatiza.

    Diria até que o método pedagógico freiriano é antes de tudo um modo de ensino desenvolvido, na prática, por Jesus.

    Encarar a ciência como inimiga, ao invés de presente de Deus à humanidade, é pecar contra a fé que se diz deter nos dons do Espírito Santo.

    Antivacinas, armamentistas, neofascistas e outras doutrinas mortíferas que se alimentam dos instrumentais da fé cristã para se legitimarem, nada têm à ver com Jesus; são manifestações fanáticas e se compõem de elementos doentios confundidos como se fossem fé.

    Portanto, toda expressão cristã que se enrijece e leva seus seguidores a se fanatizarem, de fato não é cristã e, por consequência, tem outra coisa que não é fé.

  • Não se deve discutir religião e política?

    Abraçar uma luta política, quer num partido ou noutro tipo de organização social, é escolha livre, eticamente direcionada e ideologicamente fundamentada. Isto é para pessoas corajosas e transformadoras, o que não as livra, e às suas organizações e escolhas, de equívocos e contradições.

    Um partido político, um movimento social ou uma ONG são formados por gente. Humanos que pensam, divergem, erram, acertam, caem e se levantam.

    Diferentemente da religião, que exige uma crença em dogmas (verdades absolutas), onde fé é lei e a dúvida é pecado, a política é o espaço do questionamento, da crítica e da contradição civilizada (ou não).

    Ainda assim, a religião se organiza no íntimo dos indivíduos, mas se estrutura também em entidades coletivas: as comunidades conhecidas como igrejas, os grupos em torno das sinagogas, das mesquitas, dos terreiros, das casas espíritas, etc.

    Assim como na política, igrejas são grupos de pessoas que discordam ou convergem. O problema é que, na maioria das vezes, há um espírito autoritário na religião que vê essas características tão naturais da inteligência humana como coisas negativas e as tenta esconder sob o véu da infalibilidade da fé e como desobediência à vontade de Deus.

    No fundo, as organizações religiosas são extremamente políticas e, na maioria das vezes, adeptas das piores formas de se fazer política, a do autoritarismo, da repressão e do ódio. Mas há também os religiosos e as religiões que trabalham pelo bem comum, partilha, fraternidade e justiça.

    É incrível como o cristianismo de Jesus se encaixa no viés da libertação humana, da misericórdia e da compaixão, ao mesmo tempo que a história da cristandade ocidental caminha pelo lado oposto, apenas a título de exemplo. E não é exclusividade dos cristãos essa aparente contradição.

    Discordo de quem separa o mundo entre uma suposta religião que impera como vontade exclusiva de Deus e a política como o reino do diabo. Quem faz isso, é mais político do que pensa, mais diabólico do que divino, no sentido de que diabo significa dividir. Geralmente serve de fantoche aos que praticam política ruim. Pior, vive uma fé que não esclarece. Ao contrário, emburrece.

    Política e religião são universos distintos, mas mentes inteligentes operam e transitam por ambas e em várias outras multiplicidades de vivências possíveis aos seres humanos sem se tornarem fanáticas, sectárias ou alienadas.

  • Artigo do Levon: Estradas no deserto, rios em terra seca


    Muitos companheiros não creem. Nem é minha intenção fazê-los acreditar. Ainda mais numa época em que a fé tem sido instrumentalizada para alimentar o preconceito desvairado e o fascismo depravado. Quero é compartilhar com vocês como a fé dialoga comigo neste tempo de angústias e incertezas, de modo a atiçar esperanças e a motivar a luta. Sim, a fé também é combustível para os que lutam à esquerda, por uma sociedade mais justa e igualitária. Não é monopólio dos trogloditas do fundamentalismo.

    A liturgia (católica)deste tão emblemático dia 13 de março de 2016, 5º domingo do tempo da Quaresma, traz como primeira leitura um trecho da profecia de Isaías (43,16-21). Aos olhos de quem entende a escritura não como um tratado de regras sobrenaturais e anacrônicas, mas como um amparo interpretativo para a humanidade inserida nos contextos históricos, o profeta proclama: “Não relembreis coisas passadas, não olheis para fatos antigos. Eis que eu farei coisas novas, e que já estão surgindo: acaso não as reconheceis? Pois abrirei uma estrada no deserto e farei correr rios na terra seca (…)” (Is 43,19).


    Aos olhos do militante de fé, este texto ilustra muito bem a angústia dos dias atuais. Vemos renascer das sombras o fascismo, a intolerância, a militância irracional (nas ruas e nas redes sociais) dos velhos medos e ódios de classe, incomodada com as conquistas populares alcançadas na última década. Um monstro de ódio que transforma pessoas em zumbis agressivos a reverberar palavras de horror, rancor e destruição. Hoje mesmo, neste de 13 de março, o “demônio” sai às ruas propugnando o retrocesso como novo ídolo para a “salvação” do Brasil. Grita contra a corrupção convocado e ladeado pelos maiores corruptos e corruptores da Pátria. Não se envergonha em clamar contra o direito do pobre, como se fosse ele a causa dos problemas econômicos e sociais da Nação. Não se importa que os poderes do Estado desviem-se para o linchamento moral e o justiçamento daqueles que buscaram, ainda que incipientemente, a inclusão de milhões de irmãos e irmãs “mais fracos”. Não almeja a devida justiça ou correção legítima e ampla de eventuais desvios.

    Em que a palavra de Isaías, escrita na velha Palestina, àquela altura como agora, vítima da ocupação imperialista das potências estrangeiras, resistindo a partir de sua fé e cultura, tem a dizer ao militante de fé no contexto brasileiro de 2016? Que tenha esperança! Que não se resigne a acreditar que o passado de golpes se repetirá inexoravelmente, nem se apegue às velhas cartilhas e métodos (“Não relembreis coisas passas, não olheis para fatos antigos”). Claro, isto não é um incitamento à negação da história, nem ao revisionismo. Pelo contrário, é um indicativo para a construção da novidade, ainda que em realidade adversa. Aliás, sempre foi difícil para nós, conforme jargão já vulgarizado. Não é tempo para lamentações ou indicação de culpas. É hora da unidade das esquerdas e de todos os que lutam por um mundo mais justo e fraterno. É momento de verificar as novidades que, assim como do parto dolorido vem à luz a bela criança, nascem neste tempo tão insano (“Eis que eu farei coisas novas, e que já estão surgindo: acaso não as reconheceis?”). Os meninos que ocuparam as escolas de São Paulo contra a “reorganização” neoliberal, os movimentos sociais combativos sem a mordaça institucional dos partidos, a juventude que tem se reconhecido como “de esquerda” ante ao avanço irracional do fundamentalismo e, mesmo os velhos camaradas de lutas, diante do sacrifício imposto pelas Lava-jatos da vida, que se rendam ao novo e inaugurarem uma nova era de lutas. Construamos estradas no deserto da Paulista. Façamos jorrar rios na terra seca das instituições instrumentalizadas pela velha elite egoísta ou por seus lacaios temerosos da perda de privilégios.


    A fé indica que há esperança em meio a este mar de angústia. Na mesma liturgia, Jesus rompe com as tradições de justiçamento judaicas ao absolver a adúltera. “Quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra” (João 8,7b). Palavra certeira para o carola e justiceiro juiz Sérgio Moro, tão rígido e hipócrita como um fariseu daquele tempo. Rígido com petistas. Hipócrita e seletivo para com as inúmeras denúncias a tucanos e congêneres. “Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?” – pergunta Jesus a ela em João 8,10. A mulher responde: “Ninguém, Senhor”. Ao que ele lhe afirma “Eu também não te condeno” (Jo 8,11). Vemos que a fé, corretamente vivida, passa longe dos julgamentos sumários ou linchamentos morais de nossos juízes, procuradores, mídia e igrejas bancárias. Contrariamente, é reeducação, compreensão, inclusão e retorno ao convívio da normalidade democrática.


    Enfim, também é da palavra da liturgia deste 13/03 que nos vem a certeza, conforme o salmista cantou (Salmo 125): “Os que lançam as sementes entre lágrimas, ceifarão com alegria”. Semeemos, semeemos, semeemos, lutemos… pois a luta continua… com alegria… sempre! Ceifaremos!
  • Taiobeiras: celebrar a chuva no Santo Cruzeiro dos Martírios

    Conjunto histórico-cultural do Santo Cruzeiro dos Martírios
    (Taiobeiras/MG) e a chuva, em foto de
    02 de novembro de 2012.

    A chuva demorou. Mas chegou. Conforme a devoção. Embora a ciência meteorológica também a previsse. Mas valeu (e vale) a fé do povo. Deveria também valer o planejamento estratégico e a longo prazo por parte de quem tem poder.

    Assim sendo, vamos comemorá-la (a chuva). Nada melhor do que celebrar as benesses do céu neste lugar (da foto) onde há mais de 100 anos os sertanejos-geraizeiros, do mesmo sofrimento da seca cruel, mas de inquebrantável fé, faziam suas promessas e penitências, piamente esperando pela chuva. Chuva que molha a terra e a fecunda. Que produz os frutos. Que nos dá o pão. Que sacia nossa sede de justiça e enternece nossas ressequidas relações humanas.

    Celebremos a chuva, dom de Deus (necessidade do Ser Humano) no Santo Cruzeiro dos Martírios (Taiobeiras/MG), debaixo do velho Pequizeiro sesquicentenário, com a Capelinha de Todos os Santos por testemunha. Celebremos a vida que, a despeito da chuva ter vindo no dia de Finados, se renova, transborda e deseja, ardentemente, continuar vivendo.

    Para saber mais sobre o Santo Cruzeiro dos Martírios, clique nos seguintes links:
    1. Re-sacralizar nossa cultura;
    2. História de Taiobeiras: O Santo Cruzeiro dos Martírios;
    3. Taiobeiras: Santo Cruzeiro dos Martírios.