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  • Frei Betto: Natal de Jesus ou "papainoelização" do Natal.

    A “papainoelização” do Natal, na definição de Frei Betto, eclipsou os significados riquíssimos de uma tradição milenar para encher o vazio com farofa, programas bregas de TV e coxas de peru.

    Que o Natal foi desvirtuado, até as crianças já perceberam. A cada ano que passa, a singeleza da data, antes rica em detalhes e simbologia, é pisoteada por um turbilhão de obrigações, que arrasta as pessoas para os bancos, os shoppings e supermercados, com listas imensas de coisas a fazer, num périplo de compras e preparativos capaz de exaurir as forças e o dinheiro de qualquer um.

    Se o Natal fosse uma pessoa, dir-se-ia que está doente, com estresse, pressão alta e colesterol – além de depressão e mau humor -, frutos da correria, das poucas horas de sono, da procura por vaga no estacionamento, do calor abafado, do excesso de doces e gorduras, dos abusos etílicos – mas, principalmente, da falta de sentido nas coisas, todas elas rasas de motivos e que se encerram em si mesmas.

    Um sinal de que o Natal está doente são as reclamações, antes pouco comuns, hoje frequentes. A semana é curta para tudo o que se precisa fazer, dizem os anfitriões da noite, transformados em promotores de eventos, sempre com mil coisas para pensar. Não pode faltar gelo. Não podem faltar guardanapos ou esses objetos comuns mas que sempre desaparecem quando se precisa deles, como saca-rolhas ou pilha para a máquina fotográfica.

    Com tanto por fazer, sobra menos tempo para antigos rituais domésticos, que costumavam ser extremamente prazerosos para adultos e mágicos para as crianças, como montar um presépio em família, enquanto se explica quem são os personagens e o que fazem naquele cenário, ou colocar os pingentes na árvore natalina e não esquecer de uma estrela brilhante no alto, que é – ou deveria ser – mais importante que os presentes embaixo dela.

    A “papainoelização” do Natal, na definição autoexplicativa do frade dominicano, jornalista e escritor Frei Betto, eclipsou os significados riquíssimos de uma tradição milenar para encher o vazio com farofa, programas bregas de TV e coxas de peru. Despiu a humildade pregada pelo verdadeiro “aniversariante”, dois mil anos atrás, para vestir em seu lugar roupas novas e caras, escolhidas para impressionar parentes e vizinhos. Afugentou a sensação do cósmico e do transcendente para dar a tudo um sentido banal de finitude, simbolizado pelos restos da festa, pelos ossos nos pratos, pelo cansaço e a ressaca do dia seguinte. Abafou os sentimentos e a reflexão com música alta e bebida. E, o pior de tudo, tirou de cena um personagem fascinante, com uma história única entre todos os homens, para colocar o foco em uma “marca” fictícia e sem qualquer conteúdo filosófico.

    Jesus Cristo é o personagem histórico mais biografado e analisado de todos os tempos. Dezenas de milhares de livros foram publicados sobre ele. Documentários sempre renovados esquadrinham cada traço de sua personalidade, as passagens de sua vida, seus atos e palavras à luz de novas descobertas e teorias. Vez por outra, o cinema se rende ao magnetismo dessa personalidade incrível, cuja doutrina mudou a história e moldou a cultura ocidental.

    É difícil de entender, a não ser pela influência maciça da publicidade sobre a cultura de nossos tempos, como uma referência tão rica e essencial, capaz de abrir as portas para o autoconhecimento e para um contato inteligível com o divino, foi substituída por uma tradição inócua e que, de certa forma, representa justamente o oposto de tudo, pela celebração do consumo e das recompensas materiais.

    Ainda dá tempo de fazer uma pausa na loucura das tarefas infindáveis para respirar fundo, pensar e sentir o verdadeiro Natal, sem esquecer de conversar com as crianças sobre a origem dessa tradição e contar a elas quem foi esse homem doce e corajoso chamado Jesus.

    Por Frei Betto, religioso dominicano e assessor de movimentos populares.


    Veja mais sobre o Natal neste blog:
    Natal brasileiro X neve importada

    A primeira vez em que vi Papai Noel e Jesus
    Neste Natal, e sempre, amar como Jesus amou
    O aniversário do Menino-Crucificado

  • Ser de Esquerda

     
    Frei Betto
    * Do Blog Outra Esquerda
    Por Frei Betto

    Dez conselhos para militantes de esquerda

    1. Mantenha viva a indignação.

    Verifique periodicamente se você é mesmo de esquerda. Adote o critério de Norberto Bobbio: a direita considera a desigualdade social tão natural quanto a diferença entre o dia e a noite. A esquerda a encara como uma aberração a ser erradicada.


    Cuidado: você pode estar contaminado pelo vírus social-democrata, cujos principais sintomas são usar métodos de direita para obter conquistas de esquerda e, em caso de conflito, desagradar aos pequenos para não ficar mal com os grandes.


    2. A cabeça pensa onde os pés pisam.


    Não dá para ser de esquerda sem “sujar” os sapatos lá onde o povo vive, luta, sofre, alegra-se e celebra suas crenças e vitórias. Teoria sem prática é fazer o jogo da direita.


    3. Não se envergonhe de acreditar no socialismo.

    O escândalo da Inquisição não faz os cristãos abandonarem os valores e as propostas do Evangelho. Do mesmo modo, o fracasso do socialismo no Leste europeu não deve induzi-lo a descartar o socialismo do horizonte da história humana.


    O capitalismo, vigente há 200 anos, fracassou para a maioria da população mundial. Hoje, somos 6 bilhões de habitantes. Segundo o Banco Mundial, 2,8 bilhões sobrevivem com menos de US$ 2 por dia. E 1,2 bilhão, com menos de US$ 1 por dia. A globalização da miséria só não é maior graças ao socialismo chinês que, malgrado seus erros, assegura alimentação, saúde e educação a 1,2 bilhão de pessoas.

    4. Seja crítico sem perder a autocrítica.


    Muitos militantes de esquerda mudam de lado quando começam a catar piolho em cabeça de alfinete. Preteridos do poder, tornam-se amargos e acusam os seus companheiros (as) de erros e vacilações. Como diz Jesus, vêem o cisco no olho do outro, mas não a trave no próprio olho. Nem se engajam para melhorar as coisas. Ficam como meros espectadores e juízes e, aos poucos, são cooptados pelo sistema.

    Autocrítica não é só admitir os próprios erros. É admitir ser criticado pelos (as) companheiros (as).

    5. Saiba a diferença entre militante e “militonto”.

    “Militonto” é aquele que se gaba de estar em tudo, participar de todos os eventos e movimentos, atuar em todas as frentes. Sua linguagem é repleta de chavões e os efeitos de sua ação são superficiais.

    O militante aprofunda seus vínculos com o povo, estuda, reflete, medita; qualifica-se numa determinada forma e área de atuação ou atividade, valoriza os vínculos orgânicos e os projetos comunitários.

    6. Seja rigoroso na ética da militância.

    A esquerda age por princípios. A direita, por interesses. Um militante de esquerda pode perder tudo: a liberdade, o emprego, a vida. Menos a moral. Ao desmoralizar-se, desmoraliza a causa que defende e encarna. Presta um inestimável serviço à direita.

    Há pelegos disfarçados de militante de esquerda. É o sujeito que se engaja visando, em primeiro lugar, sua ascensão ao poder. Em nome de uma causa coletiva, busca primeiro seu interesse pessoal.

    O verdadeiro militante, como Jesus, Gandhi, Che Guevara, é um servidor, disposto a dar a própria vida para que outros tenham vida. Não se sente humilhado por não estar no poder, ou orgulhoso ao estar. Ele não se confunde com a função que ocupa.

    7. Alimente-se na tradição da esquerda.

    É preciso oração para cultivar a fé, carinho para nutrir o amor do casal, “voltar às fontes” para manter acesa a mística da militância. Conheça a história da esquerda, leia (auto)biografias, como o “Diário do Che na Bolívia”, e romances como “A Mãe”, de Gorki, ou “As Vinhas de Ira”, de Steinbeck.

    8. Prefira o risco de errar com os pobres a ter a pretensão de acertar sem eles.

    Conviver com os pobres não é fácil. Primeiro, há a tendência de idealizá-los. Depois, descobre-se que entre eles há os mesmos vícios encontrados nas demais classes sociais. Eles não são melhores nem piores que os demais seres humanos. A diferença é que são pobres, ou seja, pessoas privadas injusta e involuntariamente dos bens essenciais à vida digna. Por isso, estamos ao lado deles. Por uma questão de justiça.

    Um militante de esquerda jamais negocia os direitos dos pobres e sabe aprender com eles.

    9. Defenda sempre o oprimido, ainda que, aparentemente, ele não tenha razão.

    São tantos os sofrimentos dos pobres do mundo que não se pode esperar deles atitudes que nem sempre aparecem na vida daqueles que tiveram uma educação refinada.

    Em todos os setores da sociedade há corruptos e bandidos. A diferença é que, na elite, a corrupção se faz com a proteção da lei e os bandidos são defendidos por mecanismos econômicos sofisticados, que permitem que um especulador leve uma nação inteira à penúria.

    A vida é o dom maior de Deus. A existência da pobreza clama aos céus. Não espere jamais ser compreendido por quem favorece a opressão dos pobres.

    10. Faça da oração um antídoto contra a alienação.

    Orar é deixar-se questionar pelo Espírito de Deus. Muitas vezes, deixamos de rezar para não ouvir o apelo divino que exige a nossa conversão, isto é, a mudança de rumo na vida. Falamos como militantes e vivemos como burgueses, acomodados ou na cômoda posição de juízes de quem luta.

    Orar é permitir que Deus subverta a nossa existência, ensinando-nos a amar, assim como Jesus amava, libertadoramente.