Tag: história

  • O que foi o tempo dos revoltosos no Norte de Minas?

    O que foi o tempo dos revoltosos no Norte de Minas?

    Em abril de 2026, será lançado o livro A COLUNA PRESTES NOS GERAIS DE MINAS, revisitando este grande fato histórico que teve o Alto Rio Pardo como palco há cem anos

    Por Levon Nascimento

    A Coluna Prestes foi um dos acontecimentos políticos e militares mais marcantes da história do Brasil republicano. Entre 1924 e 1927, um grupo de jovens oficiais do Exército percorreu cerca de 25 mil quilômetros pelo interior do país, denunciando as injustiças da Primeira República, como a fraude eleitoral, o poder dos coronéis e a ausência de políticas públicas para a população pobre. Em abril de 1926, essa marcha chegou ao Norte de Minas Gerais, deixando marcas profundas na memória da região.

    O Brasil da década de 1920 era governado por elites agrárias que se revezavam no poder, principalmente São Paulo e Minas Gerais, no chamado sistema do “café com leite”. Nesse contexto, a maioria da população não tinha direito ao voto e vivia sob forte controle político local. O movimento conhecido como tenentismo surgiu como reação a essa realidade, defendendo reformas como o voto secreto, a moralização da política e a ampliação da educação pública.

    Ao entrar no Norte de Minas, a Coluna Prestes encontrou um sertão marcado pela pobreza, pelo isolamento e pela dominação dos grandes proprietários de terra. Para a população local, pouco integrada à política nacional, a chegada dos “revoltosos” foi cercada de medo e incerteza. Muitas famílias abandonaram suas casas e se esconderam no mato, sem distinguir claramente quem eram os rebeldes e quem eram as tropas do governo.

    Um aspecto importante desse episódio foi a violência praticada pelas tropas legalistas, enviadas pelo governo federal para perseguir a Coluna. Em diversos relatos históricos e de memória oral, essas forças aparecem como responsáveis por saques, espancamentos e destruição de propriedades, o que aumentou o sofrimento da população sertaneja. Essa situação contribuiu para a confusão generalizada e para o trauma coletivo vivido na região.

    A Coluna Prestes, por sua vez, adotava uma disciplina rígida e, em muitos casos, buscava negociar com comerciantes e moradores locais para obter alimentos e suprimentos. Embora tenha recorrido a requisições forçadas, há registros de tentativas de pagamento e de respeito às comunidades, o que diferencia sua atuação daquela das tropas governistas em vários momentos.

    No Norte de Minas Gerais, a Coluna realizou uma de suas manobras militares mais conhecidas: o chamado “Laço Húngaro”. Essa estratégia permitiu que os revoltosos enganassem as forças que os perseguiam, escapando do cerco e retornando à Bahia. A manobra demonstra a capacidade estratégica de Luiz Carlos Prestes e explica por que a Coluna nunca foi derrotada militarmente.

    Um episódio simbólico ocorreu em Taiobeiras, então chamada Bom Jardim das Taiobeiras. Ali, o comerciante João Rêgo dialogou com os revoltosos e conseguiu proteger a comunidade por meio da negociação. Segundo a memória local, Luiz Carlos Prestes teria deixado moedas como forma de pagamento pelos produtos retirados da loja, gesto que ficou marcado como sinal de respeito e reciprocidade em meio ao conflito.

    O contato com a miséria do sertão teve impacto profundo sobre Prestes e outros integrantes da Coluna. A marcha revelou os limites das ideias liberais defendidas pelos tenentes, que não conseguiam responder às desigualdades estruturais do campo brasileiro. Essa experiência foi decisiva para a radicalização política de Prestes nos anos seguintes, levando-o a defender transformações mais profundas na sociedade brasileira.

    A passagem da Coluna Prestes pelo Norte de Minas deixou um legado ambíguo: ao mesmo tempo em que gerou medo e sofrimento, também revelou as contradições do Estado brasileiro e a violência praticada em nome da “ordem”. Para a História, esse episódio ajuda a compreender a distância entre o Brasil oficial e o Brasil profundo, além da importância da memória das populações locais.

    Estudar esse tema hoje, à luz da Base Nacional Comum Curricular (BNCC: EF09HI et al. e EM13CHS et. al.), permite desenvolver a análise crítica das fontes, compreender diferentes perspectivas sobre o passado e refletir sobre cidadania, poder e justiça social. A Coluna Prestes, ao cruzar os gerais de Minas, não apenas fez história: provocou perguntas que seguem atuais sobre democracia, desigualdade e participação popular.

  • Livro: A Coluna Prestes nos Gerais de Minas

    Livro: A Coluna Prestes nos Gerais de Minas

    TAIOBEIRAS, MG – No centenário da passagem da Coluna Prestes pelo Norte de Minas Gerais, será lançado em abril de 2026 o livro “A Coluna Prestes nos Gerais de Minas”, organizado pelo professor e historiador Levon Nascimento. A obra reúne artigos de pesquisadores, educadores e militantes que revisitam a histórica marcha liderada por Luiz Carlos Prestes, com foco especial na região do Alto Rio Pardo mineiro.

    📘 Sobre a Obra

    O livro é uma coletânea de textos que abordam desde a trajetória da Coluna Prestes (1924–1927) até seus desdobramentos políticos, sociais e culturais na região norte-mineira. A publicação conta com a colaboração dos seguintes autores:

    Levon Nascimento (organizador)
    Fabiano Alves Pereira
    Joandina Maria de Carvalho
    Leleco Pimentel
    Lídio Barreto Filho
    Luiz Eduardo de Souza Pinto
    Márcia Sant’Ana Lima Barreto
    Maria de Fátima Magalhães Mariani
    Milton Pena Santiago
    Mônica Rodrigues Teixeira
    Padre João Carlos Siqueira
    Pedro Abder Nunes Raim Ramos
    Sidney Batista Azevedo
    Silvânia Aparecida de Freitas
    Vladimir Mendes Patrício

    🧠 Destaques do Conteúdo

    • Capítulo 1: A passagem da Coluna pelo Norte de Minas Gerais, com ênfase em Taiobeiras e a estratégia do “Laço Húngaro”.
    • Capítulo 2: Trajetória de Luiz Carlos Prestes, do tenentismo ao comunismo.
    • Capítulo 3: Origens do tenentismo e o contexto político da Primeira República.
    • Capítulo 4: A marcha de 25 mil km e seu significado histórico.
    • Capítulo 5: A Coluna Prestes em Minas Gerais.
    • Capítulo 6: Memórias e representações na Bahia fronteiriça.
    • Capítulo 7: O legado de Prestes para a educação e as lutas trabalhistas.
    • Capítulo 8: A visão do povo sobre os “revoltosos”.

    🗺️ Contexto Histórico

    Em abril de 1926, a Coluna Prestes adentrou o território mineiro pela região do Alto Rio Pardo, onde executou a famosa manobra do “Laço Húngaro” para escapar do cerco das tropas legalistas. O livro recupera memórias locais, relatos orais e documentos históricos que revelam tanto o medo quanto a esperança despertados pela passagem dos revoltosos.

    🎯 Objetivo da Publicação

    Além de celebrar o centenário da passagem da Coluna, a obra busca:

    • Valorizar a memória regional e a identidade geraizeira.
    • Difundir pesquisas inéditas sobre o tema.
    • Estimular o debate sobre justiça social, democracia e resistência.
    • Servir como material educativo para escolas e comunidades.

    📅 Lançamento

    O livro será lançado em abril de 2026, com eventos presenciais em Taiobeiras/MG e outras cidades da região, além de divulgação nacional por meio de parceiros editoriais e institucionais.

    📧 Contato para Imprensa e Divulgação

    Levon Nascimento
    Organizador da obra
    E-mail: levon.nascimento@educacao.mg.gov.br
    WhatsApp: (38) 9 9202-9044

    “A Coluna Prestes nos Gerais de Minas” não é apenas um livro de história. É um convite para revisitar o passado com os pés no presente e os olhos no futuro.

    📖 Preparem-se para mergulhar em uma das epopeias mais fascinantes da história brasileira.

    Participe do apoio coletivo para a publicação do livro A COLUNA PRESTES NOS GERAIS DE MINAS, participando da vakinha virtual. Clique neste link: https://www.vakinha.com.br/vaquinha/apoio-para-publicar-o-livro-a-coluna-prestes-nos-gerais-de-minas

  • Taiobeiras e a caverna de Platão

    Taiobeiras e a caverna de Platão

    por Levon Nascimento

    Por décadas, Taiobeiras aprendeu a se ver pelas sombras que tremulam na parede. Alimentada por frases de efeito como “terra dos vencedores” e “cidade empreendedora”, foi se acostumando a confundir brilho com luz, movimento com progresso, aparência com verdade. A alegoria da caverna de Platão, escrita há mais de dois mil anos, nunca fez tanto sentido: enquanto muitos se encantam com as imagens cuidadosamente produzidas para as redes sociais, para as campanhas publicitárias e os eventos de marketing institucional, outros lutam para sair da escuridão — e encaram o desconforto de enxergar aquilo que não querem mostrar.

    E o que se vê, quando se olha com coragem, são feridas abertas. Taiobeiras tem sido marcada, há muito tempo, pela hegemonia de grupos conservadores, herdeiros de um ciclo político que atravessa gerações — da UDN à ARENA, do coronelismo às oligarquias mais modernas, sempre com novos nomes, mas velhas práticas. A cultura clientelista, disfarçada de eficiência ou liderança, sufoca a democracia com promessas rasas e favores. É o “joelismo sem Joel”, como me peguei pensando um dia — um sistema que sobrevive à queda de seus próprios líderes, porque mantém intacta a estrutura de poder e de privilégios. E, enquanto isso, quem vive nas margens continua à deriva. A renda se concentra. O debate político empobrece. E o silêncio, muitas vezes, é comprado, cooptado ou simplesmente imposto.

    A realidade, contudo, insiste em escapar da maquiagem. Em 2016 e 2017, Taiobeiras esteve entre as cidades mais violentas da região. O número de homicídios cresceu quase 30% em apenas um ano (10° BPMMG, 2017 apud NASCIMENTO, 2018, p. 35). Quem perdeu a vida — ou perdeu um filho — sabe que não se trata de estatística, mas de um luto que se repete. Jovens negros, pobres e periféricos pagaram o preço de uma sociedade de mercado, desumanizada. A herança do autoritarismo fez irradiar a violência.

    Foi nesse vácuo que floresceu um novo discurso: o do empreendedorismo redentor. Agora, quem fracassa não é vítima de um sistema injusto, mas de sua própria incompetência. A responsabilidade social virou responsabilidade individual. A pobreza virou culpa. E o sucesso, privilégio travestido de mérito.

    Mas a caverna não aprisiona só pela política e pela economia. Ela se estende à cultura, ao meio ambiente, à memória coletiva. Em 2023, o pequizeiro centenário do Cruzeiro — mais que uma árvore, um símbolo de fé e identidade comunitária — foi derrubado por uma motosserra. O gesto, longe de ser apenas técnico ou administrativo, foi brutal em sua simbologia. Revelou um modelo de desenvolvimento que atropela o que não entende, que finge não ouvir os clamores da terra e da gente, e que chama de “progresso” o que, no fundo, é destruição.

    Essa prisão simbólica, construída tijolo por tijolo ao longo de décadas, também ajuda a explicar por que ideias autoritárias encontram tanto eco em nossa cidade. Em 2022, quando me perguntaram como Bolsonaro venceu em Taiobeiras, respondi sem hesitar: não foi ruptura, foi continuidade. O conservadorismo daqui não é um acidente. É parte de uma construção histórica, feita de exclusão, de silenciamentos e de valores coloniais que ainda nos atravessam. Vivemos uma cultura em que o “ter” vale mais do que o “ser”, e em que os modos de vida das classes trabalhadoras são engolidos por um modelo de aparência burguesa e solitária. Mesmo na cidade, onde vive mais de 80% da população, falta a prática de solidariedade e organização coletiva que, por vezes, resiste com mais força no campo. Desde os anos 1970, o agronegócio molda não só a economia, mas o imaginário local, concentrando renda e padronizando mentalidades.

    Taiobeiras será, de fato, uma cidade empreendedora — no melhor sentido da palavra — quando descobrir que o maior investimento possível é na dignidade de seu povo. O maior lucro, a justiça. O maior feito, a liberdade compartilhada. Romper com as sombras exige coragem, mas é também um gesto de amor. Amor à cidade, às suas histórias escondidas, às vozes caladas, às sementes que ainda resistem no chão. Nenhuma caverna dura para sempre quando há quem se levante, quem questione e, sobretudo, quem escolha caminhar para fora dela. Porque há luz. E ela começa onde termina o medo de ver.

  • Inédito: Foto da 1ª Coroação de N. Sra. de Fátima em Taiobeiras

    Inédito: Foto da 1ª Coroação de N. Sra. de Fátima em Taiobeiras

    A fotografia, em sépia, foi obtida graças à pesquisa de Levon Nascimento junto ao Arquivo da Província Franciscana de Santa Cruz, em março de 2025, e registra uma grande concentração de fiéis reunidos em frente à Igreja Matriz de São Sebastião de Taiobeiras, MG, no dia 13 de maio de 1957, por ocasião da primeira coroação de Nossa Senhora de Fátima naquele município. Ao centro e em destaque, sobre a carroceria de um caminhão adaptado como andor móvel, ergue-se a imagem de Nossa Senhora de Fátima em tamanho natural, talhada e pintada com vestidos longos e mantos drapeados. Quatro crianças, vestidas de anjos — com túnicas claras e auréolas delicadas — posicionam-se aos pés da estátua, enquanto outras coroam simbolicamente a Virgem com guirlandas de flores ou pequenas coroas.

    Imediatamente atrás do grupo que sustenta a imagem, o altar improvisado exibe toalhas brancas e estandartes; hasteadas, duas bandeiras tremulam levemente ao vento. Atrás do caminhão, logo à entrada da porta principal da matriz, encontra-se Dom José Alves Trindade, bispo de Montes Claros, em sua primeira visita pastoral a Taiobeiras, trajando sua batina escura e a cruz peitoral, em atitude solene e contemplativa, abençoando a assembleia.

    Em primeiro plano, a multidão de homens, mulheres e crianças — muitos vestidos com trajes do cotidiano dos anos 1950, como saias rodadas e camisas sociais — preenche toda a praça em frente ao templo. Observa-se também um grupo de senhoras com vestidos florais e mangas curtas, enquanto acompanham reverentes o rito religioso. Ao longe, casas simples de alvenaria branca com portas e janelas escuras formam o pano de fundo, e algumas árvores esparsas marcam o início da principal praça do pequeno centro urbano, recém-emancipado (1953).

    O registro capta não apenas o momento litúrgico — a coroação sacra de uma devoção mariana que atraiu fiéis de toda a região —, mas também o ambiente festivo e comunitário que deu origem, naquele exato dia, à tradicional Festa de Nossa Senhora de Fátima e, depois, à secular Festa de Maio de Taiobeiras. A cena transpira religiosidade popular, fervor piedoso e o entrelaçamento de fé e identidade cultural local, em plena praça pública diante do edifício-matriz, erguido pela liderança de Frei Jucundiano de Kok, OFM.

    Ficha descritiva
    Identificador: 11869
    Descrição do registro: Primeira Coroação de Nossa Senhora de Fátima, em Taiobeiras, MG, em 13/05/1957
    Data de produção: 13/05/1957
    Lugar de produção: Taiobeiras, MG
    Entidade custodiadora: BR MGOFMPSC – Arquivo da Província Santa Cruz
    Grupo Religioso: OFM ― Ordem dos Frades Menores
    Grupo Religioso – Instituição: OFM – Província Santa Cruz
    Notas sobre este registro fotográfico: Primeira Coroação de Nossa Senhora de Fátima, em Taiobeiras, MG, em 13/05/1957

  • 80 anos do fim da Segunda Guerra Mundial: lições para 2025

    80 anos do fim da Segunda Guerra Mundial: lições para 2025

    Por Levon Nascimento

    Há oito décadas, em 8 de maio de 1945, o mundo celebrava o fim do conflito mais devastador da história: a Segunda Guerra Mundial. Marcada por mais de 70 milhões de mortos, holocaustos, bombardeios atômicos e a destruição de nações inteiras, a guerra deixou cicatrizes que ainda hoje exigem reflexão. Em 2025, quando completamos 80 anos desse marco, o contexto geopolítico global parece ecoar perigosamente os erros do passado. Diante de tensões bélicas, ascensão de extremismos e crises humanitárias, quais lições podemos resgatar para evitar repetir tragédias?

    A criação da Organização das Nações Unidas (ONU), em 1945, simbolizou a esperança de que a cooperação internacional impediria novos conflitos em escala global. No entanto, como aponta o artigo “Europa se rearma, mas não se encontra” (BRASIL 247), o continente europeu, outrora pioneiro na integração pós-guerra, enfrenta hoje uma onda de rearmamento e divisões internas. A invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 e as crescentes tensões entre blocos geopolíticos revelam a fragilidade das instituições multilaterais. Como alertou o presidente Lula em discurso recente: “A paz só é possível com diálogo, nunca com mais armas” (VERMELHO, 2025).

    A ordem mundial pós-1945, construída sobre a liderança dos EUA e a cooperação transatlântica, está sob ameaça. Analistas destacam que a política externa de Donald Trump, com sua retórica isolacionista e questionamento da OTAN, desestabiliza alianças históricas. O historiador Norbert Frei afirma que a Europa, dependente da proteção americana por décadas, agora enfrenta um dilema: buscar autonomia militar ou renegociar sua relação com os EUA em bases incertas. A fala do chanceler alemão Friedrich Merz sobre a necessidade de a União Europeia “existir sem os EUA” reflete esse impasse.

    A Alemanha, principal nação responsável pelo conflito, segue lidando com o legado da guerra. Segundo reportagem do Estadão (2024), o país ainda busca restos de soldados mortos, um esforço simbólico que reflete a necessidade de enfrentar o passado. A reconciliação, porém, exige mais que gestos: demanda educação e combate ao revisionismo histórico. Como destacado no evento “80 anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial” (JUSGOV, 2025), a distorção de fatos, como a negação do Holocausto ou a glorificação de regimes totalitários, ameaça a coesão social.

    Na Rússia, o “Dia da Vitória” em 9 de maio — diferente do 8 de maio, devido ao fuso horário russo em relação ao horário da rendição alemã de 1945 — é celebrado como um marco da resistência soviética, mas também instrumentalizado para justificar ações geopolíticas atuais. Durante evento na Assembleia Legislativa de São Paulo, o embaixador russo Alexey Labestskiy enfatizou a “missão de glorificar os heróis”, enquanto críticos apontam para o risco de revisionismo que omite os crimes stalinistas.

    O genocídio de seis milhões de judeus durante a guerra permanece como um alerta sobre as consequências da intolerância. Contudo, como questiona o artigo “O Holocausto justifica um novo Holocausto?”, do sociólogo Jessé Souza (ICL NOTÍCIAS, 2024), instrumentalizar essa tragédia para legitimar violências atuais — como o genocídio em Gaza pelo governo sionista de Israel — é um erro grotesco. A lição do Holocausto não é a de que “um povo deve sofrer para que outro sobreviva”, mas sim a de que a desumanização do outro é o primeiro passo para a barbárie.

    Em 2025, essa reflexão é urgente, principalmente diante de discursos que normalizam a violência étnica. A retórica expansionista de Trump, que sugere anexar territórios como a Groenlândia ou o Canadá, e a invasão russa da Ucrânia violam o princípio pós-1945 de integridade territorial. Como alerta Stefan Wolff, da Universidade de Birmingham, a erosão das normas internacionais abre espaço para que potências alterem fronteiras pela força, replicando os erros do passado.

    A Guerra Fria (1947-1991) dividiu o mundo em blocos liderados por EUA e URSS. Hoje, a bipolaridade ressurge com EUA e China, enquanto a Rússia busca reafirmar influência. A guerra comercial de Trump contra a China, porém, paradoxalmente fortalece Pequim como alternativa econômica para aliados europeus e asiáticos. Elisabeth Braw, do Atlantic Council, destaca que a China emerge como “país responsável” em contraste com a política protecionista americana.

    Para o Brasil, a nova ordem traz desafios. Com forças armadas que se deixaram auto-desmoralizar pela tentativa de golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023, e dependência de rotas marítimas controladas por potências, o país enfrenta dilemas sobre sua soberania, especialmente em relação à Amazônia. A pergunta do articulista da DefesaNet — “seremos senhores ou vassalos?” — ecoa a necessidade de uma estratégia clara em um mundo onde “a lei do mais forte” parece retornar.

    Os 80 anos do fim da Segunda Guerra Mundial coincidirão com um cenário de incertezas: guerras na Europa e no Oriente Médio, polarização ideológica e mudanças climáticas. No entanto, a história nos oferece um guia. Como escreveu o filósofo George Santayana, “aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo”.

    Além de tudo isso, duas outras guerras são travadas pela humanidade: a degradação ambiental sem precedentes e as mudanças climáticas provocadas pela ação dos sistemas econômicos humanos no chamado antropoceno. Tanto quanto o nazifascismo provocou a Segunda Guerra Mundial, os negacionismos ambientais e climáticos atuais podem ter efeito ainda mais devastadores sobre o planeta.

    A lição central para 2025 é clara: ou investimos em diplomacia, justiça social, preservação da memória e cumprimento das metas ambientais-climáticas, ou permitiremos que o ciclo de violência se perpetue. A ordem pós-1945, embora imperfeita, evitou guerras globais por décadas. Sua erosão, acelerada por nacionalismos e alianças voláteis, nos coloca à beira de um precipício. Como alertam historiadores, a atual turbulência lembra os anos entre 1914 e 1939, quando a incapacidade de diálogo levou ao colapso. A escolha, como em 1945, ainda é nossa.

    Referências citadas

    BBC. As 4 mudanças de Trump que estão criando uma nova ordem mundial. 2025. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cj68rxg28j1o. Acesso em: 7 maio 2025.
    BRASIL 247. Europa se rearma, mas não se encontra. 2025. Disponível em: https://www.brasil247.com/blog/europa-se-rearma-mas-nao-se-encontra. Acesso em: 7 maio 2025.
    DEFESANET. 2025 – o Ano D – Trump, Putin, o Brasil e a nova ordem internacional. 2025. Disponível em: https://www.defesanet.com.br/ecos/apos-80-anos-a-ordem-mundial-do-pos-guerra-esta-desabando/. Acesso em: 7 maio 2025.
    DEUTSCHE WELLE. Ordem mundial do pós-guerra se esfacela, 80 anos depois. 2025. Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/ap%C3%B3s-80-anos-a-ordem-mundial-do-p%C3%B3s-guerra-est%C3%A1-desmoronando/a-72416053. Acesso em: 7 maio 2025.
    ESTADÃO. 80 anos após a 2ª Guerra Mundial, Alemanha ainda procura por soldados mortos. 2024. Disponível em: https://www.estadao.com.br/internacional/80-anos-apos-a-2-guerra-mundial-alemanha-ainda-procura-por-soldados-mortos/. Acesso em: 7 maio 2025.
    ICL NOTÍCIAS. O Holocausto justifica um novo Holocausto? 2024. Disponível em: https://iclnoticias.com.br/o-holocausto-justifica-um-novo-holocausto/. Acesso em: 7 maio 2025.
    JUSGOV. 80 anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial. 2025. Disponível em: https://www.jusgov.uminho.pt/pt-pt/event/80-anos-depois-do-fim-da-segunda-guerra-mundial/. Acesso em: 7 maio 2025.
    UOL NOTÍCIAS. Ordem mundial do pós-guerra se esfacela 80 anos depois. 2025. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/deutschewelle/2025/05/03/ordem-mundial-do-pos-guerra-se-esfacela-80-anos-depois.htm. Acesso em: 7 maio 2025.
    VERMELHO. Lula, Xi e Putin celebram os 80 anos da vitória na 2ª Guerra Mundial. 2025. Disponível em: https://vermelho.org.br/2025/05/06/lula-xi-e-putin-celebram-os-80-anos-da-vitoria-na-2a-guerra-mundial/. Acesso em: 7 maio 2025.

  • 90 anos da Paróquia São Sebastião de Taiobeiras: leigos em missão!

    90 anos da Paróquia São Sebastião de Taiobeiras: leigos em missão!

    Em 20 de maio de 1935, 90 anos atrás, nascia em Taiobeiras uma experiência de fé cristã que se tornaria símbolo de resistência, esperança e protagonismo leigo: a Paróquia São Sebastião. Seu jubileu, em 2025, não é apenas uma marca temporal, mas um testemunho vivo de como os batizados, quando assumem sua vocação com ardor missionário, podem transformar a Igreja e o mundo.

    Raízes em um solo fértil: a Igreja pós-Concílio

    A história desta paróquia se entrelaça com os ventos renovadores do Concílio Vaticano II (1962–1965), que desafiou os leigos a saírem da plateia e se tornarem assembleia, para serem “sal da terra e luz do mundo”. Essa chamada ecoou na América Latina por meio dos encontros de Medellín (1968) e Puebla (1979), documentos que denunciaram estruturas de opressão e propuseram uma Igreja encarnada, na qual os pobres são sujeitos de sua própria história.

    Em Montes Claros, esse espírito que já vinha animando a vida da Igreja com Dom José Trindade, que participou do Vaticano II, ganhou corpo na 3ª Assembleia Diocesana de Pastoral (1990), sob o pastoreio de Dom Geraldo Majela de Castro, O.Praem. O documento Compromissos Eclesiais e Diretrizes Pastorais (1990) não foi apenas um texto: tornou-se um grito profético que ressoou em Taiobeiras. Ali, Frei João José de Jesus, OFM, então pároco, no espírito franciscano que já vinha de Frei Jucundiano de Kok e vários outros confrades, compreendeu que a renovação eclesial dependia de descentralizar o poder e confiar aos leigos espaços de participação e decisão.

    Conselheiros Paroquiais: rostos de uma Igreja ministerial

    A história da Paróquia São Sebastião de Taiobeiras é marcada por leigos que, em diferentes contextos, traduziram sua fé em ação missionária. A seguir, a lista cronológica dos Conselheiros Paroquiais, com suas respectivas vinculações pastorais, representantes dos milhares de leigos e leigas taiobeirenses que, ao longo dessas nove décadas, vivenciaram ardorosamente o seu batismo:

    NomeMandatoGrupo / Comunidade / Pastoral
    Elísio Valter dos Santos1990–1993;
    1998–1999
    Liga Católica Jesus, Maria e José / CEBs
    Vitor Hugo Teixeira1994–1998Legião de Maria
    Neide Ferreira de Souza2000Catequese (1ª Comunhão e Crisma)
    Rosa Croccoli2001–2004Comunidades Eclesiais de Base (CEBs)
    Levon Nascimento2005–2008Pastoral da Juventude / CEBs
    Welton Silveira Mendes2009–2010Catequese (1ª Comunhão e Crisma)
    Jurailde Ferreira de Souza2010–2021Catequese (1ª Comunhão e Crisma)
    José Maria Alves Sucupira2021–2023Renovação Carismática Católica (RCC)
    Edvaldo Nogueira dos Santos2023–atualRCC / Liturgia

    Cada conselheiro, inserido em seu tempo, encarnou a missão de “ser Igreja” além dos muros do templo, conforme as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da CNBB, que destacam a formação integral do leigo nas dimensões humana, sociopolítica e espiritual. “Os leigos, por seu batismo, são chamados a participar da missão sacerdotal, profética e real de Cristo” (Lumen Gentium, 31).

    90 anos: um legado que interpela o futuro

    A lista dos conselheiros não é um arquivo poeirento, mas um mapa vivo da sinodalidade. Ela revela:

    1. Adaptação aos desafios temporais: da implantação do Concílio Vaticano II ao legado do Papa Francisco frente à crise climática;
    2. Continuidade na formação: mantendo viva a transmissão da fé às novas gerações, atendendo ao chamado conciliar por “formação permanente”;
    3. Ecumenismo prático: a presença de movimentos diversos — Liga Católica, Legião de Maria, Vicentinos, RCC, Pastorais Sociais e CEBs — mostra como a paróquia abraçou a pluralidade, antecipando o apelo do Sínodo sobre a Sinodalidade (2021–2024) por “relações autênticas e não tóxicas”.

    Este legado interroga o futuro: como os próximos conselheiros responderão a desafios como a crise ecológica (tema da Campanha da Fraternidade 2025 e da Laudato Si’, do Papa Francisco) ou à crescente secularização? A resposta está na semente plantada por esses leigos: fidelidade criativa, que une tradição e ousadia, tal como propõem as Diretrizes da CNBB ao falar em “traduzir o Evangelho em orientações pastorais ajustadas”.

    Parabéns, Paróquia São Sebastião! Seu jubileu é um convite a continuar escrevendo história — com as mãos dos pequenos, como sempre fez o Deus do Evangelho.

    Fontes:
    – Documentos da 3ª Assembleia Diocesana de Montes Claros (1990)
    – Concílio Vaticano II
    – Documentos de Medellín (1968) e Puebla (1979)
    – Registros paroquiais de Taiobeiras

  • História de Taiobeiras: As missões franciscanas de 1951 (parte 2)

    História de Taiobeiras: As missões franciscanas de 1951 (parte 2)

    Apresento a segunda e última parte do Relatório das Santas Missões que os frades Frei Erardo, Frei Fabiano, Frei Alexandre e Frei Eduardo, a convite de Frei Jucundiano, realizaram em julho de 1951, em Taiobeiras. O texto, transcrito aqui abaixo, é retirado da edição de outubro de 1951 da Revista Santa Cruz, das páginas 170 a 172.

    Como na primeira parte, fiz alterações apenas na pontuação e na escrita de algumas palavras, de modo a adequar ao Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Igualmente, acrescentei breves notas explicativas entre colchetes ou grifadas em negrito, para melhor contextualizar as informações.

    Se você não leu a primeira parte, clique aqui primeiramente.

    Nesta segunda parte, me chamou a atenção algumas descrições sobre Taiobeiras, exatamente no meio do século XX, a partir de olhos de fora. Localizada em clima marcado por frio intenso e ventos gelados durante o período das missões, abrigava uma população estimada em cerca de 2.500 habitantes, distribuídos em aproximadamente 400 casas de estrutura modesta. Seu povo, profundamente religioso e generoso, destacava-se pela participação fervorosa em práticas católicas, como confissões, comunhões em massa (5.522 registradas) e procissões multitudinárias (com mais de 2.000 participantes), além de contribuir com doações de alimentos (leitoas, frangos, ovos) e recursos financeiros para sustentar as atividades paroquiais. Os costumes locais incluíam tradições como casamentos religiosos (quatro realizados durante as missões), visitas aos doentes (14 atendidos), romarias ao Bom Jesus da Lapa e eventos comunitários como leilões de prendas, refletindo uma vida social e espiritual centrada na igreja e na solidariedade coletiva. E ficam as perguntas para reflexão: O que mudou? O que permaneceu?

    Mais uma vez agradeço ao Rafael Mattos, responsável pelos arquivos da Província Franciscana de Santa Cruz, em Belo Horizonte, que tem muito prestativamente me cedido acesso aos originais.

    Desejo boa leitura e ótimo aprendizado sobre a nossa história taiobeirense.

    Vamos ao texto…

    Levon Nascimento, Professor de História. Taiobeiras, 02 de abril de 2025.

    TAIOBEIRAS

    Relatório das Santas Missões

    — II —

    11 de julho [de 1951], quarta-feira – Preparamos as crianças para a confissão e a comunhão. É impressionante como o bom vigário de Taiobeiras soube instruir as ovelhas confiadas aos cuidados dele. Quase todos, velhos e crianças, conhecem com perfeição uma boa parte do catecismo. Quando Frei Alexandre terminou o seu eloquente sermão da noite, puxamos os rapazes para a escola. Os bigodeiros, acanhados como criancinhas, perderam totalmente sua atitude recalcitrante diante das maneiras jeitosas do conferencista, e Frei Fabiano conseguiu, mediante palavras claras e conselhos suaves e paternais, levar quase todos aos pés de Cristo.

    Quando, no outro dia, Frei Eduardo quis procurar um cantinho para rezar com os fiéis durante as Missas, quase não conseguiu achar ruim. Oferecemos a bela cena da comunhão geral das crianças e dos rapazes à nossa padroeira, que tão visivelmente abençoou o nosso trabalho.

    Deixamos hoje o nosso rebanho no deserto para procurar as ovelhas desgarradas. Frei Eduardo escolheu os doentes não praticantes e Frei Alexandre os outros como teatro de suas operações. Também neste trabalho penoso a proteção da nossa padroeira das missões os antecedeu. E a maioria caiu nas redes do pescador divino. O afluxo popular crescia mais e mais em vulto, de modo que as pregações da noite, feitas por Frei Alexandre e Frei Fabiano sobre a educação, foram ouvidas por uma multidão comprimida na igreja como sardinhas em lata. O frio e o vento gelado não permitiam mais fazer os exercícios das missões à porta da igreja. À noite, dirigimos um fogo cerrado de graças divinas sobre os homens casados abrigados em dois salões da escola. O conferencista se colocara na abertura de uma porta que ligava os salões.

    Sexta-feira [13 de julho de 1951] é o dia dos doentes da paróquia. Acompanhado por dois homens no banco traseiro de um jeep, percorreu Frei Eduardo em todas as direções a vila e, graças ao mesmo carro, pôde ele, sem demasiado esforço, alcançar um enfermo a mais de uma légua de distância.

    Depois do catecismo, dado com grande mestria por Frei Eduardo, foram todos em procissão para o cemitério para a comemoração dos defuntos. De cima de um dos túmulos, fizemos a meditação sobre a morte diante de uma enorme aglomeração de povo. Por este motivo, não marcamos um sermão para a noite, somente uma doutrinação, feita por Frei Alexandre, que, em seguida, entregou os pontos, porque a voz dele deu baixa. Outra vez concentramos fogo sobre os homens casados numa segunda conferência, dada por Frei Fabiano. Só esta noite confessamos 451 homens casados.

    A assistência às Missas do outro dia era impressionante, e a comunhão geral dos homens deve ter sido um imenso prazer aos olhos de Deus e dos homens. Frei Eduardo cantou e rezou com o povo durante as Missas e preparava-o para a comunhão. Ainda durante o dia de hoje, fisgamos peixes gordos, quero dizer, pecadores endurecidos no mal e… prendas para o leilão. Enquanto os outros assim trabalhavam, estudava Frei Eduardo em voz alta e em todos os lugares da casa a sua prática para o último dia das missões. A qualquer preço, queria ele, ao menos uma vez, durante estas bonitas missões, fazer ouvir sua voz. Parabéns! Na outra manhã, pudemos ouvir e admirar a robusta voz do nosso novato neste trabalho, voz essa que ainda não tinha experimentado os estragos feitos pela luta para dominar o latir de cachorros que não acham seus donos, de criancinhas que em altos brados reclamam a mamadeira, de moleques que procuram distrações para suas energias e do constante murmúrio de uma igreja repleta até o telhado de um povo que puxa, empurra e cutuca para conseguir um lugar melhor.

    Quando começou a comunhão geral da paróquia, tínhamos ouvido 2.478 confissões, e ao todo foram distribuídas 5.522 comunhões.

    Na procissão da tarde, uma enorme massa de povo tinha-se reunido na praça. Calcula-se em número de mais de 2.000 as pessoas que tomaram parte nesta procissão em honra da Nossa Senhora da Imaculada Conceição. Diante de toda esta multidão, foi pronunciado o último sermão e, em seguida, dada a bênção apostólica a todos os que tomaram parte nestas santas Missões. E depois… depois… a despedida. Quem quer que viesse despedir-se dos missionários e desse uma pequena esmola de agrado para pagar as despesas das Missões, ganhava uma lembrança das Missões e dos missionários.

    A voz de Frei Jacundiano fez-se ouvir até dentro das casas nos arredores da igreja, apregoando a boa qualidade das prendas do leilão. Apesar dos esforços empregados, não conseguiu tirar do leilão mais de 900 cruzeiros. A causa disto é a seca que arruinou, em parte, a colheita do ano passado.

    Depois das confissões que ainda foram atendidas ao fim da reza, passamos a noite comentando as missões, somando as comunhões e confissões para uma estatística do movimento, e contamos o dinheiro dos agrados que as pessoas gratas de Taiobeiras, em sua generosidade, nos tinham oferecido. Os missionários fizeram aparecer no rosto cansado do vigário, que teve um dia atarefado, um sorriso de satisfação, quando entregaram 3.700 cruzeiros para ajuda nas despesas. Ele ainda nos confiou que quase não gastou nada para nos manter em vida, porque, de todos os lados, tinha o povo durante estes dias ajudado, dando leitoas, frangos, ovos, doces, milho [farinha?] de trigo, biscoitos etc. Na doce convicção de ter feito uma boa obra, nos separamos, porque ainda nos restava, no outro dia, a despedida final.

    De fato, pareceu o outro dia que ainda estivéssemos nas missões. A comemoração das almas atraiu, pela última vez, o povo em massa para a igreja. Frei Alexandre celebrou a Missa das almas, e o Libera foi cantado pelos outros missionários. Na casa paroquial, havia um movimento intenso, despedida dupla: despediam-se do vigário os liguistas [membros da Liga Católica Jesus, Maria e José, uma irmandade leiga que até hoje existe em Taiobeiras], que hoje iam iniciar sua romaria ao Bom Jesus da Lapa, e os missionários. Às dez horas, almoçamos e, quase simultaneamente, apareceram os caminhões para os romeiros e o jeep para nós, outra vez com o hábil chofer Frei Artur ao volante, surgindo agora qual anjo de misericórdia. Nós tínhamos pedido condução para Salinas a todos os que possuíam um veículo a motor, mas um não tinha tempo, outro quebrou o carro na véspera, mais um queria cobrar 600 cruzeiros etc.; quando tudo já estava perdido, eis que surge o salvador Frei Artur com um telegrama: «Segunda-feira estarei com jeep».

    Os caminhões já estão buzinando, mas os romeiros não querem partir sem dizer adeus aos missionários. Nós quase imediatamente seguimos o rastro deles. Adeus, Taiobeiras!… Nós vamos, mas vamos levando as impressões mais agradáveis de todos os taiobeirenses, e não menos do seu vigário, que nestes dias se desdobrou para ser um hospedeiro no verdadeiro sentido franciscano.

    Aqui alguns números para os que gostam de estatística: ao todo, atendemos 2.478 confissões e distribuímos 5.522 S. Comunhões. O lugar é mais ou menos de 400 casas, e seus habitantes são estimados em 2.500, mais ou menos. Quatro casais amasiados fizeram seu casamento religioso. Quase todos são casados no religioso, excetuando alguns protestantes e pagãos modernos. Catorze doentes foram visitados, a saber: um rapaz que tinha quebrado uma perna e treze velhos entre 72 e 100 anos.

    Os missionários

    Fonte consultada:

    TAIOBEIRAS: Relatório das Santas Missões (II). Revista Santa Cruz, Belo Horizonte, I, 170-172, outubro de 1951.

  • História de Taiobeiras: As missões franciscanas de 1951 (parte 1)

    História de Taiobeiras: As missões franciscanas de 1951 (parte 1)

    Fiel ao meu compromisso como historiador e em celebração aos 90 anos de fundação da Paróquia São Sebastião de Taiobeiras (20 de maio de 1935), trago nesta matéria mais um recorte da história taiobeirense.

    Com o apoio de Rafael Mattos, responsável pelo Arquivo da Província Franciscana de Santa Cruz, em Belo Horizonte, que gentilmente me concedeu acesso às fontes originais, apresento a seguir a transcrição das páginas 147 a 151 da Revista Santa Cruz, edição de setembro de 1951. Nelas, o cronista Frei Eduardo narra o episódio das Santas Missões realizadas em Taiobeiras – então ainda não emancipada –, iniciadas em 5 de julho de 1951.

    A transcrição respeita integralmente o texto original, preservando sua estilística e realizando apenas ajustes mínimos na pontuação e na grafia de algumas palavras, conforme o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Além disso, inseri informações adicionais entre colchetes para proporcionar maior clareza histórica.

    O relato, no entanto, não está completo, sendo interrompido com um continua entre parênteses. Seguirei com a pesquisa para localizar a sequência e publicá-la posteriormente.

    Vamos ao texto…

    Levon Nascimento, Professor de História, em 29 de março de 2025.

    TAIOBEIRAS

    Jornada Apostólica

    Relatório extraído do diário das santas Missões pregadas na paróquia de Taiobeiras por quatro missionários da nossa Província

    “Para descansar, carapina carrega pedra”. Conforme esta sabedoria popular, emergimos da atmosfera carregada de provas parciais, aulas, horários escolares, etc. para procurar o ar livre das imensas chapadas do Norte de Minas, a fim de levar para Taiobeiras o fogo sagrado do ideal cristão.

    Os big four eram: Frei Erardo, nomeado Padre Mestre, Frei Fabiano como tesoureiro, Frei Alexandre como fotógrafo e Frei Eduardo como cronista…

    Terça-feira, dia 3 de julho de 1951, às 11 horas, decolamos num avião da Nacional do aeródromo da Pampulha, que em 90 minutos nos levou a Montes Claros, percurso que de trem custa 18 horas de viagem. Para dois dos quatro era o primeiro voo e parece que os outros podiam ler do nosso rosto a impressão. Os panoramas nos deram uma boa ideia da vastidão deste belo país. À 1:30 [13h30] em ponto estávamos no campo de aviação de Montes Claros. Chegando ao palácio do Snr. Bispo [Dom Antônio de Morais Júnior], ouvimos que S. Excia. estava em viagem e que devíamos esperar a chegada do Vigário Geral. Uma vez que o Padre Mestre estava amarelo de fome e dor de cabeça, e já passava muito da hora do almoço, dissemos à irmã do Snr. Bispo que íamos procurar um restaurante. O sacristão da catedral nos mostrou um lugar, que parecia um armazém, mas no terreiro havia um caramanchão convidativo e bem arejado. O gerente, homem risonho e poliglota, se esgotava em gentilezas e nomes complicados de pratos desconhecidos. Foi um almoço substancioso e muito bem feito. Na hora de pagar contou-nos, o mesmo gerente, que o Snr. Bispo já pagou. No palácio ninguém sabia disso. Parece-nos que o próprio gerente fez o papel de Bispo. Deus lhe pague a bondade.

    Frei Fabiano, com seu conhecido zelo e espírito prático, nos deu o programa da tarde: primeiro procurar condução e passagens e depois um telegrama ao vigário de Taiobeiras. Após um bom passeio pela cidade e uma visita à catedral, quase terminada, e um bom jantar no palácio do bispo, puxamos as nossas cadeiras para a frente da porta e batemos uma prosa animada até tarde com o Padre Geraldo, um sacerdote brasileiro, que no percurso de sua conversa ainda nos deu sem saber instruções úteis sobre o belo trabalho das missões nestas zonas.

    4 de julho [de 1951] — Apesar do zelo apostólico do Padre Mestre, custou-lhe muitos esforços, atender ao sinal do despertador. Mas graças ao Frei Fabiano saiu tudo às maravilhas. Um de nós celebrou na catedral e os outros na capela particular do Snr. Bispo. Outra vez tivemos sorte. A dona de casa tinha neste tempo preparado um café forte e quando chegamos à agência, esperava-nos uma jardineira Ford, novinha em folha, para levar os 335 quilos (o nosso peso em conjunto) sobre montes e vales, prados e chapadas sem fim. Sentados em amplas poltronas, às vezes correndo com uma velocidade de 100 Km, apreciamos intensamente as belezas destes panoramas desconhecidos ainda para nós. A viagem ganhou um caráter especial graças aos nossos companheiros joviais e um velho, que gostava de brincadeiras, mesmo se ele próprio fosse a vítima. Foi deveras uma viagem agradável. Honra à estrada e ao carro! Certo momento todos saíram para se refrescar num córrego que cruzava a estrada. O nosso fotógrafo entrou pela primeira vez em ação para tirar uma chapa do nosso grupo. Já de seis léguas de distância podíamos ver o entroncamento de Taiobeiras. Ao parar encontramo-nos com a adiposa figura de Frei Jucundiano, que veio buscar-nos de caminhonete e às 4 horas [16h] entramos acompanhados por moleques e curiosos em Taiobeiras.

    5 de julho [de 1951], quinta-feira — É hoje o dia da bonança. Um sol brilhante numa bela manhã acordou os missionários, que puderam ainda dormir à vontade.

    A igreja de Taiobeiras, de linha simplicíssima, sem deixar de ser elegante, era uma impressão pitoresca à ampla praça em que está situada [grifo nosso]. “As obras do novo altar de mármore terminarão amanhã”, disse o vigário-construtor, satisfeito. O altar, de estilo menos simples, com seu jogo de mármore verde e marrom, ornado de pequenas colunas, é uma profissão de fé no Cristo Eucarístico, que achou digna morada no meio dos taiobeirenses.

    Depois do jantar fizemos as preparações para a abertura das santas Missões. O povo tinha-se reunido perto da velha matriz [na Praça Joaquim Teixeira, demolida na década de 1960]. Cantando e sob um fogo mortífero de foguetes e bombinhas andamos lentamente na direção da nova igreja [atual matriz de São Sebastião]. Enquanto progredíamos aumentava a multidão. Nos degraus da igreja foram dadas as boas-vindas aos missionários com um pequeno discurso de uma das professoras e com declamações de algumas crianças. Ofereceram-nos flores, as quais depositamos aos pés de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, padroeira de nosso grupo de missionários e das nossas Missões. Depois de uma palavrinha de agradecimento precipitaram-se todos para dentro da igreja para ouvir o sermão de abertura: “Nunc est temps acceptable” [“Eis agora o momento favorável” (2 Cor. 6,2 em referência a Is. 49,8)].

    Já na primeira noite começamos o nosso trabalho principal e ouvimos 80 confissões.

    É sexta-feira hoje [6 de julho de 1951], primeira sexta-feira do mês, nosso primeiro dia de trabalho missionário. Hoje a experiência nos mostrou que todo começo é difícil e que ninguém nasce missionário. Fomos por razões práticas obrigados a adiar a Missa das crianças para as 8 horas. Nas Missas a frequência era satisfatória, nada mais. Frei Eduardo já começou a tarefa especial dele, a visita aos doentes e velhos e o catecismo. Muitas crianças estavam na aula de catecismo do mesmo, que as levou cantando e brincando para o cruzeiro, onde uma pequena prática fez voltar os pensamentos dos pequeninos para o único necessário.

    A ideia das Missões já começou a fermentar nas massas, porque a frequência do povo aumentou consideravelmente durante os exercícios espirituais da noite, e apesar de ser o primeiro dia tivemos 73 confissões.

    A transferência da Missa das crianças para as 8 horas foi uma solução feliz, pois assim o ambiente nas duas primeiras Missas, das 6 e das 7 horas, tornou-se mais sossegado, de modo que o doutrinador, Frei Fabiano, podia desenvolver o seu assunto com calma.

    Sábado à noite [7 de julho de 1951], a ampla igreja era insuficiente para dar abrigo às turbas que vieram assistir aos exercícios da noite. E Nossa Senhora da Imaculada Conceição fez sentir a sua proteção, levando só esta noite 397 pessoas, a maioria homens, para o confessionário e no outro dia muitos para a mesa da comunhão.

    Esta manhã de domingo [8 de julho de 1951] o espetáculo era consolador para os trabalhadores na vinha do Senhor. A turma estava animada e resolveu cantar a última Missa. Sem livros, mas sob a firme batuta de Frei Fabiano conseguimos chegar sem erros ao fim.

    O catecismo atraía sempre mais crianças, talvez encantadas pela bondosa figura de Frei Eduardo, que logo depois do catecismo levava a turminha barulhenta para fora de Taiobeiras, onde sempre encontrava um lugarzinho para brincar e rezar ou cantar com esses pequeninos.

    Domingo à noite fizemos pela primeira vez os exercícios da Missão ao ar livre. Apesar de todos os obstáculos — púlpito improvisado e falta de luz — fizeram-se ouvir os pregadores Frei Alexandre e Frei Fabiano até os mais remotos recantos da praça.

    Hoje, segunda-feira, dia 9 de julho [de 1951] — As missões estão tomando seu curso normal. De dia em dia aumenta o número das confissões e das comunhões. Frei Eduardo, zeloso para cumprir a incumbência com que foi encarregado, foi hoje visitar os doentes mais afastados, um passeio bom e cansativo pelas subidas e descidas. Graças a Deus, o frio nesta zona tropical impediu que ele precisasse regar o seu percurso apostólico com o suor de costume e voltou às 10 horas, encantado pelas belezas da paisagem das sonolentas chapadas de Taiobeiras.

    A sociedade taiobeirense quer oferecer um almoço aos missionários. Veio como de encomenda, pois teremos hoje a visita do Vigário com seu Coadjutor de Salinas. Vieram alguns homens invadir a nossa casa e no terreno construíram uma coberta, pois esta solenidade devia ser ao ar livre. Quando o almoço já estava esfriando na mesa e nossos estômagos já reclamavam em alta voz (sic) e nem havia ainda sombra dos dignitários de Salinas, foi resolvido o ataque geral da mesa sobrecarregada de produtos que a arte culinária das taiobeirenses soube criar. Parabéns às Martas daqui, que não se esqueceram do uno necessário. O nosso fotógrafo oficial teve depois deste lauto banquete a ideia luminosa de tirar um chapa. Triste espetáculo de uma mesa vazia. De repente, fez-se ouvir o ronco de um motor e com Frei Artur no volante, veio um jeep encostar-se à casa do vigário. Uma alegria já inesperada, que devia ser interrompida, pois o nosso dever nos chamou; as missões não podiam esperar: catecismo, conferência para senhoras casadas, confissões das mesmas para a comunhão geral. Às 3 horas [15h] despediram-se os nossos visitantes e as Missões continuam… Ao concluir os trabalhos de hoje, no quarto iluminado à luz de querosene, somamos o número total das confissões: 649.

    Já iniciaram as conferências especiais e a tarde de terça-feira [10 de julho de 1951] atraiu um bom número de moças à igreja e ainda alguns moços curiosos. Frei Alexandre fez a sua conferência, sem se impressionar pela presença dos olhos masculinos de alguns assistentes clandestinos, mas Frei Fabiano bancou o papão temível, não com palavras, mas com um piscar de olhos soube ele tirar os importunos deste meio…

    Uma vez que o Padre Mestre sofria ameaça de rouquidão, ofereceu-se o tesoureiro do grupo para fazer o sermão da noite sobre a pureza. De coração grato aceitou Frei Erardo a gentil oferta. O número de confissões está querendo passar para a casa dos milhares.

    (continua)

    P.S.: A segunda parte foi acrescentada em 02/04/2025 e pode ser conferida ao se clicar aqui.

    Fonte consultada:

    TAIOBEIRAS: Jornada Apostólica. Revista Santa Cruz, Belo Horizonte, I, 147-151, setembro de 1951.

  • A religião pode cegar tanto quanto pode libertar? Análise histórica e não teológica

    A religião pode cegar tanto quanto pode libertar? Análise histórica e não teológica

    Ao longo da história, a religião tem sido uma força paradoxal: enquanto em alguns contextos serviu como instrumento de dominação e segregação, em outros foi catalisadora de avanços sociais e culturais. Essa dualidade não reside na essência do sagrado, mas na forma como as estruturas de poder manipularam suas narrativas. Analisando exemplos históricos, é possível identificar como a fé tanto cegou sociedades a aceitarem opressões quanto libertou-as para construir legados humanistas.

    A religião, quando institucionalizada, frequentemente legitimou hierarquias e justificou violências. Na Mesopotâmia, por exemplo, os governantes eram vistos como intermediários diretos dos deuses, consolidando um poder absoluto. Como apontam estudos, “o rei geralmente atuava como agente da divindade”, e questionar sua autoridade equivalia a desafiar o próprio sagrado. Esse mecanismo de controle perpetuou desigualdades, como na sociedade egípcia, onde a religião moldou até mesmo a arquitetura e as leis para reforçar a centralização faraônica.

    Na Europa medieval, a Igreja Católica utilizou seu poder espiritual para silenciar dissidências. A Inquisição (séculos XII–XV) perseguiu hereges, mulheres acusadas de bruxaria e minorias, usando a fé como justificativa para torturas e execuções. A imposição de dogmas, como destacado por teóricos, transformou a religião em “um fenômeno social coercitivo”, onde a obediência era imposta pela ameaça de condenação eterna. No Brasil, a intolerância religiosa contra cultos afro-brasileiros, como o candomblé, persiste até hoje, reflexo de um passado colonial que associou tais práticas ao “mal”, conforme registrado em debates sobre a Lei nº 11.635/2007, que instituiu o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa.

    Atualmente, cresce o fundamentalismo religioso amparado pelas tecnológicas ferramentas de comunicação, como a internet, demonstrando que os interesses do megacapitalismo mundial das big techs se utiliza da religião para ampliar o seu poder político e econômico.

    Por outro lado, a religião também foi veículo para transformações positivas. Na Idade Média, os mosteiros cristãos preservaram manuscritos antigos e fundaram as primeiras universidades, como a de Bolonha (1088), tornando-se “reservatórios culturais e intelectuais” . A caridade religiosa, inspirada em preceitos como “amar ao próximo”, deu origem a hospitais e sistemas de assistência social, antecedentes diretos de instituições modernas como o SUS.

    No segundo milênio cristão, Francisco de Assis, imitando Jesus Cristo, instituiu o pensamento de defesa da natureza dentro dos princípios religiosos do cristianismo, inaugurando o que hoje é chamado de Ecologia Integral.

    Movimentos de resistência também se apoiaram na fé. O budismo, por exemplo, na Índia antiga, desafiava o sistema de castas ao pregar a igualdade espiritual. Já o cristianismo primitivo, embora posteriormente cooptado pelo Império Romano, inicialmente congregou escravos e marginalizados, oferecendo-lhes uma comunidade baseada na dignidade humana. Como observa Clifford Geertz, a religião pode ser um “sistema de símbolos que estabelece motivações poderosas”, capazes de unir grupos em torno de ideais emancipatórios.

    A secularização, teorizada por Max Weber como o “desencantamento do mundo”, prometeu reduzir a influência religiosa nas estruturas de poder. No entanto, o século XXI testemunhou o ressurgimento de fundamentalismos, como o Estado Islâmico, que distorce textos sagrados do islamismo para legitimar terrorismo, e o neopentecostalismo protestante e católico, que no Brasil manipula política e religião para ampliar influência ideológica. Paralelamente, a religião segue sendo ferramenta de resistência: as comunidades indígenas latino-americanas, por exemplo, revitalizam tradições espirituais para defender seus territórios contra a exploração capitalista. A teologia da libertação, com teólogos católicos e protestantes, ensina a “evangélica opção preferencial pelos pobres”. O Papa Francisco tem se tornado um ícone da Ecologia Integral.

    A religião, como produto humano, reflete as contradições de suas sociedades. Seu potencial para “cegar” ou “libertar” depende de quem detém seu controle e de como suas narrativas são instrumentalizadas. Como escreveu Marc Bloch, “tudo que o homem toca pode informar sobre ele” — inclusive sua espiritualidade. Cabe às sociedades modernas resgatar o aspecto ético das tradições religiosas, como a defesa da dignidade humana, enquanto rejeitam seu uso como arma de opressão. A história nos ensina que, quando a fé se alia à razão crítica, ela pode iluminar caminhos para a justiça; quando se entrega ao dogmatismo, torna-se sombra que obscurece a liberdade.

    Levon Nascimento é professor de História e Sociologia, mestre em Estado, Governo e Políticas Públicas e doutorando em Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável

  • Frei Jucundiano de Kok: Uma vida de devoção e serviço ao sertão mineiro

    Frei Jucundiano de Kok: Uma vida de devoção e serviço ao sertão mineiro

    * Levon Nascimento

    Em janeiro de 2025, visitei o Arquivo Arquidiocesano de Montes Claros, em busca do livro do tombo da Paróquia de Santo Antônio de Salinas. O objetivo foi ver se naquele documento histórico havia alguma referência à passagem da Coluna Prestes pelo Alto Rio Pardo, em 1926. Nada encontrei. Porém, para minha grata surpresa, achei um relato sucinto sobre a data da morte de Frei Jucundiano de Kok, no ano de 1974, em Taiobeiras. E, a lápis, o frade de Salinas, à época, anotou “Revista da Província Franciscana de Santa Cruz, ano XXXIX, nº 4, de 1974, a partir da página 277”. Copiei.

    Chegando a Taiobeiras, busquei na internet o contato da Província de Santa Cruz. Vi no site o endereço eletrônico do arquivo da referida circunscrição franciscana, que tem sede em Belo Horizonte. Mandei um e-mail, com os dados tomados do livro do tombo de Salinas, solicitando acesso ao material, caso estivesse digitalizado.

    Poucos dias depois, recebi com imensa alegria uma resposta, com todo o material solicitado em PDF. O documento original tem oito páginas, em fonte com tamanho bem pequeno, provavelmente 10. A princípio, tenho a imensa honra de disponibilizar esta síntese aos leitores, já no clima da celebração dos 90 anos da Paróquia São Sebastião de Taiobeiras (20 de maio), visto que Frei Jucundiano foi seu primeiro pároco. Leia com atenção o resumo.

    No coração do sertão mineiro, onde a fé e a simplicidade se entrelaçam, viveu e atuou Frei Jucundiano de Kok, um missionário franciscano holandês que dedicou sua vida ao serviço religioso e comunitário. Nascido Adrianus Cornelis de Kok, em 18 de fevereiro de 1901, na pequena vila de Dongen, na província de Brabante, Holanda, Frei Jucundiano deixou um legado de humildade, dedicação e amor ao próximo, que permanece vivo na memória dos que o conheceram.

    Filho de uma família pobre, mas profundamente religiosa, Jucundiano, ou “Juca”, como era carinhosamente chamado, cresceu em um ambiente marcado pela fé católica e pelo trabalho árduo. Seu pai, sapateiro, sustentava a família com o suor do seu ofício, enquanto a mãe cuidava da casa e dos filhos. Desde cedo, Juca demonstrou inclinação para a vida religiosa, inspirado pelos exemplos de piedade que o cercavam. “Ele era um menino piedoso, obediente, humilde”, como descreveu em sua autobiografia, deixada como um testemunho de sua trajetória.

    Aos 21 anos, após cumprir o serviço militar na cavalaria holandesa, Juca decidiu seguir seu chamado religioso. Ingressou no seminário dos Missionários da Sagrada Família, mas foi na Ordem de São Francisco que encontrou seu verdadeiro lar espiritual. Em 1928, tornou-se Frei Jucundiano, emitindo seus votos simples no ano seguinte; e os votos solenes em 1932. Foi então que ele recebeu a missão que definiria sua vida: servir como missionário no Brasil.

    Chegando ao Brasil em 1932, Frei Jucundiano enfrentou os desafios de adaptação a um país tão diferente de sua terra natal. “Na manhã da partida chegaram bem atrasados à estação de Sabará para viajar a Divinópolis. Mas olha! o trem estava esperando”, relembrou ele, surpreso com a gentileza do povo brasileiro. Na ocasião, os frades acharam que o trem os esperava por bondade, mas logo descobriram que a verdadeira razão era outra: o trem havia sido obrigado a dar passagem a um comboio especial com soldados que retornavam da revolução em São Paulo. Apesar disso, o episódio foi visto como uma espécie de “ditada daqueles fradinhos”, uma expressão carinhosa que refletia a simplicidade e a fé com que encaravam os desafios da missão.

    Ordenado sacerdote em 1934, ele iniciou seu ministério em Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha, onde logo se destacou por sua dedicação e zelo pastoral. Ao longo de mais de três décadas, Frei Jucundiano serviu em diversas paróquias da região, incluindo Itinga, São Pedro do Jequitinhonha e, finalmente, Taiobeiras, onde fixou residência e se tornou uma figura querida e respeitada. “O povo aqui é bom, como em Itinga”, escreveu ele, referindo-se aos sertanejos humildes e piedosos que o acolheram como um pai. Em Taiobeiras, ele construiu uma igreja espaçosa e promoveu festas religiosas que atraíam multidões, consolidando a comunidade católica local.

    Um dos marcos de seu trabalho em Taiobeiras foi a criação do “jubileu” em honra a Nossa Senhora de Fátima. Frei Jucundiano, com o apoio da comunidade, ergueu uma capela votiva dedicada à Virgem de Fátima, que se tornou um local de peregrinação e devoção. Anualmente, o jubileu atraía fiéis de diversas regiões, que vinham para participar das celebrações e renovar sua fé. “Graças a Juca, Taiobeiras também tem seu jubileu”, destacou um de seus confrades, referindo-se ao impacto espiritual e social que o evento teve na região.

    Sua vida foi marcada pela simplicidade e pelo desapego material. “Não fazia despesas supérfluas, econômicas até o extremo, para poder ajudar seus seminaristas no estudo”, relatou um de seus confrades. Apesar de não ter conseguido formar um sucessor, Frei Jucundiano deixou um legado de fé e serviço que transcende gerações. Ele era conhecido por sua franqueza, bondade e simplicidade, mas também por sua firmeza em defender os valores da Igreja. “Era difícil convencê-lo do préstimo de uma novidade”, observou um padre da Cúria, destacando sua resistência a mudanças que considerava contrárias ao bem de sua comunidade.

    Nos últimos anos de vida, Frei Jucundiano enfrentou problemas de saúde, incluindo uma grave ferida no pé que quase o levou à amputação. Mesmo assim, ele insistiu em continuar servindo sua paróquia, celebrando missas e administrando sacramentos até onde suas forças permitiam. “Se devia morrer, queria morrer como um bom soldado, no campo da batalha, armas na mão, sem recuar, sem fugir”, escreveu ele, refletindo seu espírito incansável.

    Frei Jucundiano faleceu em 27 de julho de 1974, após uma vida dedicada à fé e ao serviço. Sua morte foi sentida profundamente pela comunidade de Taiobeiras, que o via como um patriarca e guia espiritual. “Era o pai da grande família de paroquianos, o mentor, o amigo dos grandes e pequenos, conhecido, respeitado, consultado, estimado, quase adorado por todos”, descreveu um de seus confrades.

    Hoje, Frei Jucundiano de Kok é lembrado não apenas como um missionário, mas como um exemplo de dedicação, humildade e amor ao próximo. Sua história nos inspira a refletir sobre o verdadeiro significado do serviço e da fé, especialmente em um mundo cada vez mais marcado pelo individualismo e pela busca de riquezas materiais. Que sua vida continue a iluminar os corações daqueles que buscam seguir os caminhos da fé e da caridade.

    * Levon Nascimento é professor de história em Taiobeiras/MG.

  • Morre Mario Schmidt, autor de livros de história perseguido por Globo e Veja

    Morre Mario Schmidt, autor de livros de história perseguido por Globo e Veja

    Meu primeiro ano como professor foi 2001. Em junho daquele ano, participei pela primeira vez da escolha do livro didático do PNLD (MEC), que seria adotado no triênio seguinte (2002/2003/2004).

    Entre as várias coleções enviadas pelo MEC, selecionamos “Nova História Crítica”, de Mario Schmidt, Editora Nova Geração. A escolha sempre é coletiva, de todos os professores de uma mesma área, tipo História, das escolas de um município.

    Texto em linguagem acessível a alunos dos anos finais do Ensino Fundamental (na época, 5ª à 8ª séries) e uma diagramação digna das melhores revistas. Simplesmente fantástico!

    Em 2007, a obra e o autor sofreram imensa perseguição da Globo e da Veja, pretendentes a entrar no mercado editorial de livros didáticos, acusando-os de “doutrinação comunista”.

    Selecionaram trechos onde supostamente o autor elogiava as ditaduras do socialismo real (URSS, China e Cuba) e divulgaram com estardalhaço. Porém, como início da era das fake news que alimentaram o nascente ódio da extrema-direita (hoje no poder), publicavam apenas partes de texto que lhes interessavam, sem mostrar as críticas e as consequências desses regimes, que ocupavam igual destaque na coleção.

    Resultado: Nova História Crítica foi banido da lista do MEC e um dos melhores autores de didáticos do Brasil saiu profundamente estigmatizado.

    Apenas o jornalista Luís Nassif foi a fundo na história e desmontou a tese mentirosa de que se tratava de um livro de propaganda política.

    Hoje, pelo mesmo Nassif, tomei conhecimento de que Mario Schmidt, o autor, faleceu em 9 de janeiro deste 2022.RIP Mario Schmidt. Presente!

    Confira matéria de Luis Nassif: https://jornalggn.com.br/…/morre-mario-schmidt-autor…/

  • A História e o autoritarismo brasileiro

    Na condição de professor de História, sempre me preocuparam a disseminação de ideologias de extrema-direita no Brasil e o pendor autoritário de nossas instituições de Estado.

    Nossa história tem sido um roteiro ininterrupto de golpes da elite racista e oligárquica, desde os tempos coloniais.

    Os indígenas, negros, mestiços, pobres, trabalhadores e mulheres, sempre propositalmente esquecidos e deixados ao último plano, escravizados, oprimidos e torturados.

    O nazismo já esteve entre nós. Atualmente, somos governados por um bando fascista de extrema-direita, boçais desorientados por teorias conspiratórias, racistas, supremacistas e por seitas religiosas que fogem ao senso do cristianismo autêntico.

    Os constantes ataques do presidente da República à ciência e à democracia reacendem o temor de uma nova ditadura.

    Ir às ruas em 19 de junho, com os devidos cuidados sanitários, é um dever de todos os que lutam contra o totalitarismo e as ditaduras. É civilizatório!

  • Taiobeiras: Escola Tancredo realiza projeto sobre Direitos Humanos

    A Escola Estadual Presidente Tancredo Neves, da cidade de Taiobeiras, no norte de Minas, realizou nesta quarta 3 de maio a quarta edição da Gincana de História.

    Neste ano, os organizadores escolheram o tema dos Direitos Humanos. Segundo eles, os direitos básicos estão sob risco no Brasil e no mundo. “O contexto global e brasileiro de 2017, marcado pelo avanço de ideias e de práticas neofascistas, racistas, xenófobas, machistas, misóginas e homofóbicas, bem como a ameaça da retirada de direitos historicamente conquistados pelas classes trabalhadoras e oprimidas ao longo do século XX, suscita a consciência histórica a se posicionar”, afirma o texto de justificativa do projeto da IV Gincana de História.
    Dentre as atividades anteriores à culminância, as equipes produziram quadros através da arte do grafite retratando os principais artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, documento proclamado pelas Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948 como resposta aos horrores perpetrados durante a Segunda Guerra (1939-1945).

    Os estudantes também puderam conhecer, interpretar e observar melhor a biografia de personagens internacionais e brasileiros cujas trajetórias de vida se moldaram na luta pelos direitos civis, ambientais e econômicos. Dentre eles, Mahatma Gandhi, Martin Luther King, Maria da Penha, Chico Mendes e o rapper MV Bill, ativista dos direitos dos moradores de comunidades da periferia.
    Mas a prova que mais agitou as equipes foi a da coreografia interpretando músicas de protesto ou de reflexão social do cancioneiro brasileiro, passeando por vários estilos como o samba, o rap e o pop rock.

    O projeto teve ainda provas de conhecimentos gerais em história e de produção de letras em defesa da paz e dos direitos fundamentais registrados no capítulo V da Constituição brasileira.
    A Escola Estadual Presidente Tancredo Neves, de Taiobeiras, atende do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental, funciona de manhã e pela tarde e realizou versões específicas deste projeto para cada turno escolar. No período da manhã, a equipe Saúde-Branca venceu. À tarde, em empate triplo, as equipes Educação-Preta, Alimentação-Verde e Moradia-Vermelha ganharam a gincana.
    A equipe da disciplina de história da escola é composta pelos professores Adão Soares, Cristiane Brito e Levon Nascimento, cuja formação acadêmica se deu na Universidade Estadual de Montes Claros. Artistas, professores de outras escolas e ex-alunos da instituição formaram o júri.
  • Artigo do Levon: O fim do governo da primeira mulher

    Dilma e Lula na noite da vitória de Dilma em 2010
    Está chegando ao fim o governo da presidenta Dilma Rousseff e os anos do PT no comando central da República. Injustamente, pois este final se dará por um golpe de estado parlamentar, midiático, judicial e institucional. Ela não cometeu crime de responsabilidade e é honesta. Nada se comprovou contra Dilma, que teve sua vida vasculhada de ponta a ponta. Pelo contrário, ofenderam-na desde o dia em que se soube que seria candidata à presidência da República. Na pessoa de Dilma, o machismo estrutural revelou sua face mais torpe e cruel contra todas as mulheres da Nação. Aliás, a primeira mulher a alcançar o mais alto posto do estabilishment brasileiro foi também a nossa chefe de Estado mais vilipendiada de todos os tempos.

    Mulher de fibra, fiel aos princípios democráticos e de extremado amor ao povo do Brasil, Dilma Rousseff será deposta na próxima segunda ou terça, 29 ou 30 de agosto. Tristes agostos para a política brasileira!
    Chegará ao fim um dos mais belos períodos da História deste país. Época em que, pela primeira vez, os pobres, os pequenos, os negros, as mulheres, os homossexuais, os marginalizados e os trabalhadores tiveram vez e prioridade nas políticas do governo brasileiro. Tempo de ouro que começou em 2002, com a eleição do operário Luiz Inácio Lula da Silva.
    Dificilmente veremos, nas próximas duas ou três gerações, um tempo tão belo e frutífero quanto este que a ganância de nossa torpe burguesia, amparada por uma classe média néscia, fez se eclipsar.
    Meu registo, nestes dias tão tristes, para a História. Eu vivi os dias de Lula e de Dilma na presidência do Brasil. Nunca houve governantes tão dedicados à causa do Brasil, tão empenhados em fazer melhorar a vida da maioria e tão barbaramente perseguidos nesta terra. Erros, cometeram, muitos. A autocrítica partidária deverá ser feita. Mas isto não apaga o brilho do que foi construído e conquistado. A História nos dará razão. Afinal, estamos do lado certo da História!
    Levon Nascimento, 27 de agosto de 2016.

  • Poema: O lado certo da História

    Levon Nascimento


    Que estamos do lado certo da História,
    Nunca tive dúvidas.
    Que isto não nos sirva de consolo,
    Nem de desculpas para parar a luta.
    A luta continua,
    Antes, pelo avanço
    Da democracia brasileira.
    Agora, para que a democracia
    E os direitos não se percam.
    Quem é de luta está comigo
    E eu com ele(a).
    Aos golpistas,
    A lata de lixo
    E a vala comum.

  • O que há em comum entre a Revolução Francesa e o Brasil atual?

    Com a Revolução Francesa, o antigo regime de monarquia absolutista da França foi destituído e simbolicamente expurgado com a execução dos reis Luís XVI e Maria Antonieta. Veio o período napoleônico e os ideais revolucionários se impuseram. Ainda assim, com a derrota de Napoleão, ocorreu a restauração monárquica, parecendo que tudo tinha sido em vão. Mas durou pouco. A marcha do “novo” revolucionário terminou por se impor e uma nova e moderna França surgiu. O atraso absoluto fora para sempre sepultado. O momento atual brasileiro é similar, guardadas as devidas proporções históricas e ideológicas.

    Com Lula, a bastilha do elitismo foi derrubada. Não por acaso, FHC recebeu o título jocoso de “Maria Antonieta do Planalto”. Agora, as forças do atraso tentam uma “restauração de seus antigos privilégios de casta”. Mas não durará muito. A marcha da inclusão promovida pelos anos do PT à frente do governo federal se imporá e, mais cedo ou mais tarde, um novo Brasil, mais justo e fraterno, emergirá do meio deste “vale de lágrimas” no qual, ainda, “gememos e choramos”.

  • Papas que renunciaram

    Papa Bento XVI
    Papa Celestino V

    Entre os 263 papas da história da Igreja Católica, sucessão iniciada pelo Apóstolo Pedro e, atualmente, ocupada pelo alemão Bento XVI, apenas quatro renunciaram:

    Eis a lista:
    Ponciano, em 235 d.C.;
    Celestino V, em 1294 d.C.;
    Gregório XII, em 1415 d.C.;
    Bento XVI, em 2013 d.C.

    Papa Gregório XII
    Papa Ponciano
  • Vaticano digitaliza e disponibiliza biblioteca na web

    Primeiros 265 documentos on-line foram digitalizados com tecnologia da NASA
    Sergio Mora, via Zenit.


    Códigos, manuscritos e cartas, até agora acessíveis somente aos peritos creditados junto à Biblioteca Apostólica do Vaticano, poderão ser consultados por quem desejar, de qualquer parte do mundo, com um clique.

    Os primeiros 256 documentos do imenso tesouro da “biblioteca dos papas” já estão on-line. Para vê-los, basta inscrever-se no site da Biblioteca Apostólica.

    A Bibliotheca Apostolica Vaticana, como é chamada em latim, é considerada desde a fundação como a “biblioteca do papa”, já que pertence a ele diretamente. É uma das mais antigas do mundo e guarda uma fabulosa coleção de textos históricos.

    O projeto da digitalização dos documentos é ambicioso. De acordo com o prefeito da Biblioteca do Vaticano, dom Cesare Pasini, em entrevista à agência de notícias Ansa, todos os livros conservados na biblioteca, cerca de 80 mil, deverão ser disponibilizados na internet.

    Pasini destacou ainda, em entrevista à Radio Vaticano, que a filosofia da Biblioteca Apostólica Vaticana, desde o início, foi tornar os bens da humanidade acessíveis a todos os interessados em usá-los, conhecê-los e estudá-los. O mesmo espírito de serviço determinou a digitalização dos documentos que agora está em andamento.

    Entre os documentos históricos, há partituras musicais, textos cuneiformes e manuscritos gregos e judaicos. Os textos incluem obras de Homero, Platão, Sófocles, Hipócrates, manuscritos judeus dentre os mais antigos preservados até hoje e alguns dos primeiros livros italianos impressos durante o Renascimento, de acordo com informações da agência EFE. Entre as joias está o Codex Vaticanus, um dos mais antigos manuscritos da bíblia grega de que se tem notícia.

    O projeto digital começou em 2011 e utiliza a tecnologia da NASA denominada Fits (Sistema de Transporte Flexível de Imagens, na sigla em inglês), criada no começo da corrida espacial para conservar as imagens das suas missões.

    O papa Nicolau V fundou a biblioteca em 1448, reunindo cerca de 350 códices gregos, latinos e hebraicos, herdados de seus antecessores. Entre eles, havia diversos manuscritos da biblioteca imperial de Constantinopla. A oficialização da fundação aconteceu com a bula Ad decorem militantis Ecclesiae (15 de junho de 1475), do papa Sisto IV, que definiu um orçamento específico para a biblioteca e nomeou como bibliotecário Bartolomeu Platina, responsável pelo primeiro catálogo das obras ali guardadas, elaborado em 1481.

    A biblioteca possuía então mais de 3.500 manuscritos, o que já fazia dela, com grande diferença, a maior do mundo ocidental. Em 1587, Sisto V contratou o arquiteto Domenico Fontana para construir um novo edifício para a biblioteca, situado no interior do Vaticano. O edifício é usado até hoje.

    Os estudiosos dividem a história da biblioteca em cinco etapas:

    Pré-lateranense: os inícios da biblioteca, correspondentes à primeira etapa da história da Igreja, antes de ser instalada no Palácio de Latrão. Muito poucos livros fazem parte dessa etapa.

    Lateranense: livros e manuscritos passam a ser guardados no Palácio de Latrão. Esta etapa vai até o final do século XIII, durante o papado de Bonifácio VIII.

    Avignon: neste período, crescem notavelmente as coleções de livros e arquivos dos papas que residiram em Avignon, entre a morte de Bonifácio VIII e o ano de 1370, quando a sede papal retorna a Roma.

    Pré-Vaticana: de 1370 a 1447, a biblioteca fica dispersa, com parte das obras em Roma, Avignon e outros lugares.

    Vaticana: é a etapa atual, iniciada em 1448, quando a biblioteca é transferida para o Vaticano.

  • Livro: Taiobeiras: seus fatos históricos

    Um livro, em dois volumes, que todo(a) cidadão(ã) taiobeirense e, também, os que gostam da cidade, deveriam ler: TAIOBEIRAS: SEUS FATOS HISTÓRICOS, Volumes I e II.
    A autoria é do advogado e escritor nascido em Taiobeiras Avay Miranda. Foi editado em 1997 pela Editora Thesaurus, de Brasília/DF. Cada volume possui cerca de 260 páginas.
    As origens do município, os primeiros moradores, a cultura, a religião, a política e os personagens emblemáticos são muito bem retratados no livro. Destaque para a narrativa da passagem dos “revoltosos” (Coluna Prestes)  no povoado de “Bom Jardim das Taiobeiras” em 26 de abril de 1926.
    Tem muita gente que só conhece trechos da obra por conta de algum trabalho escolar ou por leitura de partes reproduzidas em sites na internet. O ideal é ler por inteiro.
    Além de muitos exemplares em mãos de particulares, a obra se encontra em todas as bibliotecas públicas e escolares de Taiobeiras.