Fiel ao meu compromisso como historiador e em celebração aos 90 anos de fundação da Paróquia São Sebastião de Taiobeiras (20 de maio de 1935), trago nesta matéria mais um recorte da história taiobeirense.
Com o apoio de Rafael Mattos, responsável pelo Arquivo da Província Franciscana de Santa Cruz, em Belo Horizonte, que gentilmente me concedeu acesso às fontes originais, apresento a seguir a transcrição das páginas 147 a 151 da Revista Santa Cruz, edição de setembro de 1951. Nelas, o cronista Frei Eduardo narra o episódio das Santas Missões realizadas em Taiobeiras – então ainda não emancipada –, iniciadas em 5 de julho de 1951.
A transcrição respeita integralmente o texto original, preservando sua estilística e realizando apenas ajustes mínimos na pontuação e na grafia de algumas palavras, conforme o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Além disso, inseri informações adicionais entre colchetes para proporcionar maior clareza histórica.
O relato, no entanto, não está completo, sendo interrompido com um continua entre parênteses. Seguirei com a pesquisa para localizar a sequência e publicá-la posteriormente.
Vamos ao texto…
Levon Nascimento, Professor de História, em 29 de março de 2025.
TAIOBEIRAS
Jornada Apostólica
Relatório extraído do diário das santas Missões pregadas na paróquia de Taiobeiras por quatro missionários da nossa Província
“Para descansar, carapina carrega pedra”. Conforme esta sabedoria popular, emergimos da atmosfera carregada de provas parciais, aulas, horários escolares, etc. para procurar o ar livre das imensas chapadas do Norte de Minas, a fim de levar para Taiobeiras o fogo sagrado do ideal cristão.
Os big four eram: Frei Erardo, nomeado Padre Mestre, Frei Fabiano como tesoureiro, Frei Alexandre como fotógrafo e Frei Eduardo como cronista…
Terça-feira, dia 3 de julho de 1951, às 11 horas, decolamos num avião da Nacional do aeródromo da Pampulha, que em 90 minutos nos levou a Montes Claros, percurso que de trem custa 18 horas de viagem. Para dois dos quatro era o primeiro voo e parece que os outros podiam ler do nosso rosto a impressão. Os panoramas nos deram uma boa ideia da vastidão deste belo país. À 1:30 [13h30] em ponto estávamos no campo de aviação de Montes Claros. Chegando ao palácio do Snr. Bispo [Dom Antônio de Morais Júnior], ouvimos que S. Excia. estava em viagem e que devíamos esperar a chegada do Vigário Geral. Uma vez que o Padre Mestre estava amarelo de fome e dor de cabeça, e já passava muito da hora do almoço, dissemos à irmã do Snr. Bispo que íamos procurar um restaurante. O sacristão da catedral nos mostrou um lugar, que parecia um armazém, mas no terreiro havia um caramanchão convidativo e bem arejado. O gerente, homem risonho e poliglota, se esgotava em gentilezas e nomes complicados de pratos desconhecidos. Foi um almoço substancioso e muito bem feito. Na hora de pagar contou-nos, o mesmo gerente, que o Snr. Bispo já pagou. No palácio ninguém sabia disso. Parece-nos que o próprio gerente fez o papel de Bispo. Deus lhe pague a bondade.
Frei Fabiano, com seu conhecido zelo e espírito prático, nos deu o programa da tarde: primeiro procurar condução e passagens e depois um telegrama ao vigário de Taiobeiras. Após um bom passeio pela cidade e uma visita à catedral, quase terminada, e um bom jantar no palácio do bispo, puxamos as nossas cadeiras para a frente da porta e batemos uma prosa animada até tarde com o Padre Geraldo, um sacerdote brasileiro, que no percurso de sua conversa ainda nos deu sem saber instruções úteis sobre o belo trabalho das missões nestas zonas.
4 de julho [de 1951] — Apesar do zelo apostólico do Padre Mestre, custou-lhe muitos esforços, atender ao sinal do despertador. Mas graças ao Frei Fabiano saiu tudo às maravilhas. Um de nós celebrou na catedral e os outros na capela particular do Snr. Bispo. Outra vez tivemos sorte. A dona de casa tinha neste tempo preparado um café forte e quando chegamos à agência, esperava-nos uma jardineira Ford, novinha em folha, para levar os 335 quilos (o nosso peso em conjunto) sobre montes e vales, prados e chapadas sem fim. Sentados em amplas poltronas, às vezes correndo com uma velocidade de 100 Km, apreciamos intensamente as belezas destes panoramas desconhecidos ainda para nós. A viagem ganhou um caráter especial graças aos nossos companheiros joviais e um velho, que gostava de brincadeiras, mesmo se ele próprio fosse a vítima. Foi deveras uma viagem agradável. Honra à estrada e ao carro! Certo momento todos saíram para se refrescar num córrego que cruzava a estrada. O nosso fotógrafo entrou pela primeira vez em ação para tirar uma chapa do nosso grupo. Já de seis léguas de distância podíamos ver o entroncamento de Taiobeiras. Ao parar encontramo-nos com a adiposa figura de Frei Jucundiano, que veio buscar-nos de caminhonete e às 4 horas [16h] entramos acompanhados por moleques e curiosos em Taiobeiras.
5 de julho [de 1951], quinta-feira — É hoje o dia da bonança. Um sol brilhante numa bela manhã acordou os missionários, que puderam ainda dormir à vontade.
A igreja de Taiobeiras, de linha simplicíssima, sem deixar de ser elegante, era uma impressão pitoresca à ampla praça em que está situada [grifo nosso]. “As obras do novo altar de mármore terminarão amanhã”, disse o vigário-construtor, satisfeito. O altar, de estilo menos simples, com seu jogo de mármore verde e marrom, ornado de pequenas colunas, é uma profissão de fé no Cristo Eucarístico, que achou digna morada no meio dos taiobeirenses.
Depois do jantar fizemos as preparações para a abertura das santas Missões. O povo tinha-se reunido perto da velha matriz [na Praça Joaquim Teixeira, demolida na década de 1960]. Cantando e sob um fogo mortífero de foguetes e bombinhas andamos lentamente na direção da nova igreja [atual matriz de São Sebastião]. Enquanto progredíamos aumentava a multidão. Nos degraus da igreja foram dadas as boas-vindas aos missionários com um pequeno discurso de uma das professoras e com declamações de algumas crianças. Ofereceram-nos flores, as quais depositamos aos pés de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, padroeira de nosso grupo de missionários e das nossas Missões. Depois de uma palavrinha de agradecimento precipitaram-se todos para dentro da igreja para ouvir o sermão de abertura: “Nunc est temps acceptable” [“Eis agora o momento favorável” (2 Cor. 6,2 em referência a Is. 49,8)].
Já na primeira noite começamos o nosso trabalho principal e ouvimos 80 confissões.
É sexta-feira hoje [6 de julho de 1951], primeira sexta-feira do mês, nosso primeiro dia de trabalho missionário. Hoje a experiência nos mostrou que todo começo é difícil e que ninguém nasce missionário. Fomos por razões práticas obrigados a adiar a Missa das crianças para as 8 horas. Nas Missas a frequência era satisfatória, nada mais. Frei Eduardo já começou a tarefa especial dele, a visita aos doentes e velhos e o catecismo. Muitas crianças estavam na aula de catecismo do mesmo, que as levou cantando e brincando para o cruzeiro, onde uma pequena prática fez voltar os pensamentos dos pequeninos para o único necessário.
A ideia das Missões já começou a fermentar nas massas, porque a frequência do povo aumentou consideravelmente durante os exercícios espirituais da noite, e apesar de ser o primeiro dia tivemos 73 confissões.
A transferência da Missa das crianças para as 8 horas foi uma solução feliz, pois assim o ambiente nas duas primeiras Missas, das 6 e das 7 horas, tornou-se mais sossegado, de modo que o doutrinador, Frei Fabiano, podia desenvolver o seu assunto com calma.
Sábado à noite [7 de julho de 1951], a ampla igreja era insuficiente para dar abrigo às turbas que vieram assistir aos exercícios da noite. E Nossa Senhora da Imaculada Conceição fez sentir a sua proteção, levando só esta noite 397 pessoas, a maioria homens, para o confessionário e no outro dia muitos para a mesa da comunhão.
Esta manhã de domingo [8 de julho de 1951] o espetáculo era consolador para os trabalhadores na vinha do Senhor. A turma estava animada e resolveu cantar a última Missa. Sem livros, mas sob a firme batuta de Frei Fabiano conseguimos chegar sem erros ao fim.
O catecismo atraía sempre mais crianças, talvez encantadas pela bondosa figura de Frei Eduardo, que logo depois do catecismo levava a turminha barulhenta para fora de Taiobeiras, onde sempre encontrava um lugarzinho para brincar e rezar ou cantar com esses pequeninos.
Domingo à noite fizemos pela primeira vez os exercícios da Missão ao ar livre. Apesar de todos os obstáculos — púlpito improvisado e falta de luz — fizeram-se ouvir os pregadores Frei Alexandre e Frei Fabiano até os mais remotos recantos da praça.
Hoje, segunda-feira, dia 9 de julho [de 1951] — As missões estão tomando seu curso normal. De dia em dia aumenta o número das confissões e das comunhões. Frei Eduardo, zeloso para cumprir a incumbência com que foi encarregado, foi hoje visitar os doentes mais afastados, um passeio bom e cansativo pelas subidas e descidas. Graças a Deus, o frio nesta zona tropical impediu que ele precisasse regar o seu percurso apostólico com o suor de costume e voltou às 10 horas, encantado pelas belezas da paisagem das sonolentas chapadas de Taiobeiras.
A sociedade taiobeirense quer oferecer um almoço aos missionários. Veio como de encomenda, pois teremos hoje a visita do Vigário com seu Coadjutor de Salinas. Vieram alguns homens invadir a nossa casa e no terreno construíram uma coberta, pois esta solenidade devia ser ao ar livre. Quando o almoço já estava esfriando na mesa e nossos estômagos já reclamavam em alta voz (sic) e nem havia ainda sombra dos dignitários de Salinas, foi resolvido o ataque geral da mesa sobrecarregada de produtos que a arte culinária das taiobeirenses soube criar. Parabéns às Martas daqui, que não se esqueceram do uno necessário. O nosso fotógrafo oficial teve depois deste lauto banquete a ideia luminosa de tirar um chapa. Triste espetáculo de uma mesa vazia. De repente, fez-se ouvir o ronco de um motor e com Frei Artur no volante, veio um jeep encostar-se à casa do vigário. Uma alegria já inesperada, que devia ser interrompida, pois o nosso dever nos chamou; as missões não podiam esperar: catecismo, conferência para senhoras casadas, confissões das mesmas para a comunhão geral. Às 3 horas [15h] despediram-se os nossos visitantes e as Missões continuam… Ao concluir os trabalhos de hoje, no quarto iluminado à luz de querosene, somamos o número total das confissões: 649.
Já iniciaram as conferências especiais e a tarde de terça-feira [10 de julho de 1951] atraiu um bom número de moças à igreja e ainda alguns moços curiosos. Frei Alexandre fez a sua conferência, sem se impressionar pela presença dos olhos masculinos de alguns assistentes clandestinos, mas Frei Fabiano bancou o papão temível, não com palavras, mas com um piscar de olhos soube ele tirar os importunos deste meio…
Uma vez que o Padre Mestre sofria ameaça de rouquidão, ofereceu-se o tesoureiro do grupo para fazer o sermão da noite sobre a pureza. De coração grato aceitou Frei Erardo a gentil oferta. O número de confissões está querendo passar para a casa dos milhares.
(continua)
P.S.: A segunda parte foi acrescentada em 02/04/2025 e pode ser conferida ao se clicar aqui.
Fonte consultada:
TAIOBEIRAS: Jornada Apostólica. Revista Santa Cruz, Belo Horizonte, I, 147-151, setembro de 1951.