Tag: Igreja Católica

  • Dilexi te: o que a primeira exortação do Papa Leão XIV tem a dizer a Taiobeiras?

    Dilexi te: o que a primeira exortação do Papa Leão XIV tem a dizer a Taiobeiras?

    Por Levon Nascimento

    A exortação apostólica Dilexi te, do Papa Leão XIV, publicada em 4 de outubro de 2025, é um manifesto espiritual e social sobre o amor para com os pobres. O texto nasce como continuidade da encíclica Dilexit nos, de Francisco, e como herança de sua preocupação pastoral pelos marginalizados. Leão XIV abre seu pontificado convocando a Igreja a reencontrar, nos pobres, o rosto vivo de Cristo. O documento denuncia a cultura do descarte, o mito da meritocracia e o conformismo religioso que esquece o Evangelho vivido como serviço. O amor, recorda o Papa, não é abstração moral, mas compromisso histórico — é o verbo que faz Deus descer à sarça ardente dos sofrimentos humanos.

    O plano de trabalho da Dilexi te pode ser compreendido em três eixos principais. O primeiro é teológico: Deus escolhe os pobres não por ideologia, mas porque o amor divino se revela onde há dor, exclusão e clamor. O segundo é eclesial: a Igreja deve ser pobre e para os pobres, seguindo o exemplo de São Lourenço e São Francisco de Assis. O terceiro é prático e cultural: a opção pelos pobres implica educação libertadora, cuidado com os doentes e compromisso com as novas escravidões contemporâneas — do consumo, do individualismo e das desigualdades.

    Para Leão XIV, amar é ver, cuidar, perdoar e construir. Amar é ver — e, portanto, enxergar os invisíveis, os desfigurados pelas estatísticas e pelos rótulos. Amar é cuidar — não como quem faz beneficência, mas como quem reconhece o outro como parte de si. Amar é perdoar — em tempos de polarização, redescobrir a ternura como força política. E amar é construir — porque a caridade cristã, quando autêntica, não consola apenas: transforma estruturas e mentalidades. O Papa escreve com vigor: “Não estamos no horizonte da beneficência, mas no da Revelação” — ou seja, Deus fala por meio dos pobres.

    E o que essa exortação tem a dizer a Taiobeiras? Antes de tudo, que o desenvolvimento sem compaixão é vazio. A cidade, entre avanços e desigualdades, vive o paradoxo de se orgulhar do empreendedorismo enquanto muitos sobrevivem na informalidade e na carência de serviços essenciais. Dilexi te confronta diretamente esse modelo: o progresso autêntico é aquele que não exclui. A meritocracia, lembra Leão XIV, é “uma falsa visão segundo a qual só têm mérito os que tiveram sucesso na vida”. Em Taiobeiras, essa crítica ressoa no cotidiano: enquanto alguns exibem conquistas, outros carregam invisibilidades que o discurso da “terra dos vencedores” prefere ignorar.

    O Papa propõe um antídoto: o amor concreto, que se traduz em políticas públicas, justiça social e cultura do cuidado. Se o cristianismo local quiser ser fiel ao Evangelho, deve olhar para os pobres como protagonistas da história, não como destinatários de campanhas sazonais. Amar, aqui, significa reconhecer a dignidade dos agricultores familiares, das mulheres trabalhadoras, dos jovens sem oportunidades. É perceber que o rosto de Cristo está nas filas do hospital, nos bairros sem saneamento, nos professores que persistem sem estrutura.

    Dilexi te também convida Taiobeiras a revisar suas referências. Como os monges que uniam oração e trabalho, a cidade precisa integrar espiritualidade e ação social, fé e responsabilidade pública. Ser “cidade empreendedora” deve significar criar oportunidades solidárias, fortalecer cooperações, garantir educação libertadora e promover o bem comum. É tempo de superar o individualismo competitivo e reencantar o sentido de comunidade.

    Em última instância, Dilexi te é um chamado a amar de modo civilizatório. Para Taiobeiras, isso significa transformar o amor em política de vida: educar com ternura, administrar com empatia, crescer sem deixar ninguém para trás. O Papa Leão XIV fala à cidade com a clareza dos profetas: a fé que não toca a carne dos pobres é sombra, não luz. Amar — diz o título da exortação — é o verbo que sustenta a esperança. Que Taiobeiras, redescobrindo esse amor, encontre o caminho entre o que já avançou e o que ainda falta nascer.

  • Os párocos de São Sebastião de Taiobeiras

    Os párocos de São Sebastião de Taiobeiras

    1935: Criação da Paróquia e início da presença dos frades franciscanos

    1° Pároco:
    Frei Jucundiano de Kok (1940 – 1974)

    2° Pároco:
    Frei Salésio Heskes (1975 – 1988)

    3° Pároco:
    Frei João José de Jesus (1988 – 1992)

    4° Pároco:
    Frei Ronaldo Zwinkels (1993)

    5° Pároco:
    Frei Feliciano van Sambeek (1994)

    6° Pároco:
    Frei Berardo Kleuskens (1995 – 1998)

    7° Pároco:
    Frei José da Silva Pereira (1999 – 2000)

    8° Pároco:
    Frei Antônio Teófilo da Silva Filho (2001 – 2007)

    2007: Fim da presença dos frades franciscanos e início da presença dos padres diocesanos

    9° Pároco:
    Padre Inivaldo Fernandes de Lima (2007 – 2009)

    2010: Fim da presença dos padres diocesanos e início da presença dos padres Missionários da Sagrada Família

    10° Pároco:
    Padre José Ivan Alckimim (2010 – 2020)

    11° Pároco:
    Padre Vanderlei Souza da Silva (2021)

    2022: Fim da presença dos padres Missionários da Sagrada Família e retorno da presença dos padres diocesanos

    12° Pároco:
    Padre Gilberto Rodrigues dos Santos Júnior
    (2022 – Atual)

  • A celebração dos 90 anos da Paróquia de Taiobeiras

    A celebração dos 90 anos da Paróquia de Taiobeiras

    Por Levon Nascimento

    A cuidadosa e significativa seleção dos cantos litúrgicos entoados na missa em ação de graças pelo Jubileu de 90 anos da Paróquia São Sebastião de Taiobeiras, realizada na noite de 20 de maio de 2025, merece aplausos. Canções como “Quem disse que não somos nada” (Zé Vicente) e “Se calarem a voz dos profetas” (Cecília Vaz), entre outras, são verdadeiras músicas da caminhada. Elas expressam com profundidade as origens e a trajetória de uma evangelização encarnada, construída com fé e compromisso pelo nosso Povo de Deus em Taiobeiras.

    Outro momento marcante foi a exibição, ao final da celebração, de vídeos com mensagens de ex-párocos e religiosas que exerceram suas vocações e ministérios neste chão. Um gesto simples, mas repleto de memória, gratidão e reverência à história da comunidade.

    De modo especial, foi profundamente comovente para mim ouvir e ver Frei João José de Jesus, OFM, com seu hábito franciscano, e Irmã Nilza Cascaes, vestindo a camiseta que homenageia nossa querida Irmã Neusa Nascimento. Eles me remetem ao tempo precioso do meu chamado vocacional — o ser leigo batizado, engajado na evangelização libertadora, a serviço da vida e da justiça social, no coração do Norte de Minas.

    Viva a Paróquia São Sebastião de Taiobeiras! Viva o Povo de Deus que caminha com esperança e fé pela história!

  • Antiga matriz de Taiobeiras (90 anos da Paróquia São Sebastião de Taiobeiras)

    Antiga matriz de Taiobeiras (90 anos da Paróquia São Sebastião de Taiobeiras)

    Por Levon Nascimento

    A história da presença católica em Taiobeiras remonta ao final do século XIX, quando a região ainda pertencia à Paróquia Nossa Senhora da Conceição de Rio Pardo de Minas. Em 1897, o pároco daquela cidade, Esperidião Gonçalves dos Santos, benzeu e inaugurou o Santo Cruzeiro dos Martírios, no dia 2 de julho, marco importante da religiosidade local. Nessa época, Taiobeiras era apenas um povoado, mas já contava com uma comunidade católica ativa.

    Foi nesse contexto que surgiu a primeira capela do lugar, construída por Vitoriano Pereira Costa, proprietário do Sítio Bom Jardim. Ela foi erguida no local onde hoje se encontra a Praça Joaquim Teixeira, nos fundos do atual Mercado Municipal. Essa capela simples, mas significativa, seria o embrião da futura Paróquia São Sebastião de Taiobeiras.

    Em 1924, com o distrito já instalado e passado a pertencer ao município e paróquia de Salinas, diante do crescimento da comunidade e da dedicação dos moradores, a capela passou por sua primeira ampliação, graças aos esforços liderados por dona Raquel Torres, que organizou campanhas para arrecadação de recursos. Como era de costume nas capelas particulares da época, pessoas de destaque social eram sepultadas em seu interior. Ainda se viam, no piso da igreja, as lápides de figuras notáveis como Martinho Antônio Rêgo — o primeiro vereador de Taiobeiras para a Câmara de Rio Pardo de Minas, falecido em 1911 —, Aleixo Martins de Oliveira, Conrado José da Rocha e sua esposa, Maria Quintina da Rocha.

    Com o passar dos anos, a população do povoado aumentou e a capela original já não comportava os fiéis. Em 1939, uma segunda ampliação foi realizada, promovida por Frei Acário Heuvel, então administrador da recém-criada paróquia de Taiobeiras, mas ainda residente em Salinas. Essa estrutura permaneceu até 1962, quando foi lamentavelmente demolida.

    A Paróquia São Sebastião de Taiobeiras seria oficialmente criada em 20 de maio de 1935, por decreto do bispo diocesano de Montes Claros, Dom João Antônio Pimenta, sendo desmembrada da Paróquia Santo Antônio de Salinas. Mas foi apenas em 1941, com a chegada de Frei Jucundiano de Kok, primeiro pároco efetivo de Taiobeiras, que se iniciaria a construção da nova e atual matriz de São Sebastião, localizada na praça de mesmo nome.

    Fontes
    1. Taiobeiras: Seus Fatos Históricos. Volumes I e II. Autor: Avay Miranda.
    2. Efemérides Riopardenses. Volumes I e IV. Autor: Cônego Padre Newton de Ângelis.
    3. Arquivo da Arquidiocese de Montes Cla
    ros.

  • Os oito lados da Igrejinha de Taiobeiras (90 anos da Paróquia São Sebastião)

    Os oito lados da Igrejinha de Taiobeiras (90 anos da Paróquia São Sebastião)

    Professor Levon Nascimento

    Em 20 de maio de 2025, a Paróquia São Sebastião de Taiobeiras completa 90 anos de fundação. Um de seus vários patrimônios de espiritualidade e cultura é a Capela Octogonal de Nossa Senhora de Fátima, também chamada de Igrejinha.

    Em setembro de 1954, os missionários capuchinhos Frei Bernardino de Vilas Boas, Frei Lauro de Cacique Doble e Frei Alceu do Paraí passaram pela região do Alto Rio Pardo levando a imagem visitadora de Nossa Senhora de Fátima a várias cidades. O vigário de Salinas, à época, onde a missão passou entre os dias 14 e 19 de setembro, ficou impressionado com a receptividade do povo da região para com a relíquia da mãe de Jesus. Ele anotou no livro do tombo da Paróquia de Santo Antônio de Salinas: “Fátima em Salinas foi um assombro. Tomou de assalto a cidade; [até] o pastor protestante quis receber explicação do imenso acontecimento.”

    Na verdade, essa missão era algo mais amplo. Fora solicitada pelo então bispo de Montes Claros, Dom Luís Victor Sartori, à Província dos Capuchinhos de Caxias do Sul. E, desde abril de 1954, percorrera todas as cidades da diocese montes-clarense. Assim como seu colega de Salinas, o cônego Padre Newton de Ângelis, em seu livro Efemérides Riopardenses, descreve impressionado o sucesso do acontecimento em Rio Pardo de Minas: “A população, num misto de patriotismo e fervor religioso, todos enfim, vibravam de alegria e entusiasmo. [..] A multidão fervorosa, em prantos e alaridos, continua do lado de fora [da igreja], em delírios de aclamação”. A imagem missionária esteve ali entre os dias 5 e 9 de setembro.

    De Rio Pardo, a santa missionária chega a Taiobeiras na noite de 9 de setembro, permanecendo até o dia 13, quando se dirigiu a Salinas, e produziu semelhante ou superior comoção do povo. Foi então que Frei Jucundiano de Kok, já morador da recém-emancipada cidade há 14 anos, mas novato na função oficial de pároco, teve a ideia de adquirir uma réplica da imagem de Nossa Senhora de Fátima e construir um pequeno santuário para resguardá-la.

    Nos dois anos seguintes, 1955 e 1956, muitas quermesses, leilões e atividades diversas foram realizadas para alcançar o sonho, que virou realidade em 13 de maio de 1957, quando foi finalmente inaugurada a “Igrejinha” e coroada a imagem, adquirida em Portugal, já na presença do novo bispo de Montes Claros, Dom José Trindade. Iniciava-se assim a maior tradição religiosa, popular e cultural de Taiobeiras: a já longeva Festa de Nossa Senhora de Fátima, da qual também derivou a festividade social conhecida atualmente como Festa de Maio.

    Mas o projeto da Igrejinha, por si só, é um capítulo à parte e todo especial dessa história. O pequeno templo tem linhas simples, mas se destaca por ser octogonal. Circula uma lenda urbana de que só existem três templos assim em todo o mundo. Não é verdade. Há muitas igrejas de oito lados. É uma arquitetura religiosa muito comum nos países nórdicos, como Noruega e Dinamarca. No Rio de Janeiro, o Outeiro da Glória também é octogonal. Em Belo Horizonte, na Praça da Assembleia Legislativa, há um santuário também dedicado à Virgem de Fátima, com planta em octógono.

    Mas, sem dúvidas, o mais significativo templo cristão de oito lados é a Igreja do Monte das Bem-Aventuranças, na Terra Santa, onde se presume que Jesus pregou o Sermão da Montanha, descrito no Evangelho de São Mateus a partir do capítulo 5. Aliás, segundo Frei Feliciano van Sambeek, OFM, já falecido, que foi pároco de Taiobeiras entre 1994 e 1996, foi nas Bem-Aventuranças que Frei Jucundiano se inspirou para projetar a Igrejinha. Vejamos quais são elas:

    Mateus 5,3-10:

    1. “Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é o Reino dos Céus!
    2. Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados!
    3. Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra!
    4. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados!
    5. Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia!
    6. Bem-aventurados os puros de coração, porque verão Deus!
    7. Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus!
    8. Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus!”

    Dessa forma, mais do que um ponto turístico — que por si só é muito bonito —, a Igrejinha Octogonal de Nossa Senhora de Fátima, em Taiobeiras, pode ser um excelente roteiro de itinerário espiritual, onde as pessoas poderão meditar os requisitos necessários para chegarem à beatitude (bem-aventurança) proposta por Jesus.

    A seguir, apresento o caminho…

    • Entre pela porta principal, faça o Sinal da Cruz e recite a primeira bem-aventurança:
      Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é o Reino dos Céus!
      Reze um Pai-Nosso e uma Ave-Maria.
    • Siga para o lado direito, recite a segunda bem-aventurança:
      Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados!
      Reze um Pai-Nosso e uma Ave-Maria.
    • Vá para o terceiro ponto, do lado da porta do velário, e diga a próxima bem-aventurança:
      Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra!
      Reze um Pai-Nosso e uma Ave-Maria.
    • Siga para o quarto ponto, à direita, e recite:
      Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados!
      Reze um Pai-Nosso e uma Ave-Maria.
    • Caminhe para o quinto lugar, atrás da imagem de Nossa Senhora de Fátima, e fale:
      Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia!
      Reze um Pai-Nosso e uma Ave-Maria.
    • Avance para o sexto lado, à direita, e reze:
      Bem-aventurados os puros de coração, porque verão Deus!
      Reze um Pai-Nosso e uma Ave-Maria.
    • Direcione-se para o sétimo lugar, junto à porta leste, e fale:
      Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus!
      Reze um Pai-Nosso e uma Ave-Maria.
    • Caminhe para o oitavo e último lugar e recite:
      Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus!
      Reze um Pai-Nosso e uma Ave-Maria.

    Agora, suba os degraus, vá em frente à imagem de Nossa Senhora de Fátima, apresente suas intenções, ore uma Salve-Rainha e encerre com o Sinal da Cruz.

    P.S.: Após a publicação original deste texto, minha amiga Elizabeth Mendes Corrêa — a Beth Mendes — me contou que, quando era criança, perguntou ao Frei Jucundiano por que a igrejinha tinha oito lados. Ele respondeu que era o formato de uma coroa. Faz sentido. A capela abriga, bem no centro do edifício, a imagem de Nossa Senhora de Fátima. Como Rainha do Céu, o formato octogonal sugere que o templo inteiro a envolve e a coroa com simplicidade e dignidade.

    Fontes consultadas:
    1. Efemérides Riopardenses, Volume III, de autoria do Cônego Newton de Ângelis;
    2. Taiobeiras: Seus Fatos Históricos, Volume II, de autoria de Avay Miranda;
    3. Livro do Tombo da Paróquia Santo Antônio de Salinas;
    4. Relatos populares e memória do autor.

    Leia também:

    90 anos da Paróquia São Sebastião de Taiobeiras: leigos em missão!

    Fátima: “Um verdadeiro assombro” na região!

    História de Taiobeiras: As missões franciscanas de 1951 (parte 1)

    História de Taiobeiras: As missões franciscanas de 1951 (parte 2)

    Frei Jucundiano de Kok: Uma vida de devoção e serviço ao sertão mineiro

  • 90 anos da Paróquia São Sebastião de Taiobeiras: leigos em missão!

    90 anos da Paróquia São Sebastião de Taiobeiras: leigos em missão!

    Em 20 de maio de 1935, 90 anos atrás, nascia em Taiobeiras uma experiência de fé cristã que se tornaria símbolo de resistência, esperança e protagonismo leigo: a Paróquia São Sebastião. Seu jubileu, em 2025, não é apenas uma marca temporal, mas um testemunho vivo de como os batizados, quando assumem sua vocação com ardor missionário, podem transformar a Igreja e o mundo.

    Raízes em um solo fértil: a Igreja pós-Concílio

    A história desta paróquia se entrelaça com os ventos renovadores do Concílio Vaticano II (1962–1965), que desafiou os leigos a saírem da plateia e se tornarem assembleia, para serem “sal da terra e luz do mundo”. Essa chamada ecoou na América Latina por meio dos encontros de Medellín (1968) e Puebla (1979), documentos que denunciaram estruturas de opressão e propuseram uma Igreja encarnada, na qual os pobres são sujeitos de sua própria história.

    Em Montes Claros, esse espírito que já vinha animando a vida da Igreja com Dom José Trindade, que participou do Vaticano II, ganhou corpo na 3ª Assembleia Diocesana de Pastoral (1990), sob o pastoreio de Dom Geraldo Majela de Castro, O.Praem. O documento Compromissos Eclesiais e Diretrizes Pastorais (1990) não foi apenas um texto: tornou-se um grito profético que ressoou em Taiobeiras. Ali, Frei João José de Jesus, OFM, então pároco, no espírito franciscano que já vinha de Frei Jucundiano de Kok e vários outros confrades, compreendeu que a renovação eclesial dependia de descentralizar o poder e confiar aos leigos espaços de participação e decisão.

    Conselheiros Paroquiais: rostos de uma Igreja ministerial

    A história da Paróquia São Sebastião de Taiobeiras é marcada por leigos que, em diferentes contextos, traduziram sua fé em ação missionária. A seguir, a lista cronológica dos Conselheiros Paroquiais, com suas respectivas vinculações pastorais, representantes dos milhares de leigos e leigas taiobeirenses que, ao longo dessas nove décadas, vivenciaram ardorosamente o seu batismo:

    NomeMandatoGrupo / Comunidade / Pastoral
    Elísio Valter dos Santos1990–1993;
    1998–1999
    Liga Católica Jesus, Maria e José / CEBs
    Vitor Hugo Teixeira1994–1998Legião de Maria
    Neide Ferreira de Souza2000Catequese (1ª Comunhão e Crisma)
    Rosa Croccoli2001–2004Comunidades Eclesiais de Base (CEBs)
    Levon Nascimento2005–2008Pastoral da Juventude / CEBs
    Welton Silveira Mendes2009–2010Catequese (1ª Comunhão e Crisma)
    Jurailde Ferreira de Souza2010–2021Catequese (1ª Comunhão e Crisma)
    José Maria Alves Sucupira2021–2023Renovação Carismática Católica (RCC)
    Edvaldo Nogueira dos Santos2023–atualRCC / Liturgia

    Cada conselheiro, inserido em seu tempo, encarnou a missão de “ser Igreja” além dos muros do templo, conforme as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da CNBB, que destacam a formação integral do leigo nas dimensões humana, sociopolítica e espiritual. “Os leigos, por seu batismo, são chamados a participar da missão sacerdotal, profética e real de Cristo” (Lumen Gentium, 31).

    90 anos: um legado que interpela o futuro

    A lista dos conselheiros não é um arquivo poeirento, mas um mapa vivo da sinodalidade. Ela revela:

    1. Adaptação aos desafios temporais: da implantação do Concílio Vaticano II ao legado do Papa Francisco frente à crise climática;
    2. Continuidade na formação: mantendo viva a transmissão da fé às novas gerações, atendendo ao chamado conciliar por “formação permanente”;
    3. Ecumenismo prático: a presença de movimentos diversos — Liga Católica, Legião de Maria, Vicentinos, RCC, Pastorais Sociais e CEBs — mostra como a paróquia abraçou a pluralidade, antecipando o apelo do Sínodo sobre a Sinodalidade (2021–2024) por “relações autênticas e não tóxicas”.

    Este legado interroga o futuro: como os próximos conselheiros responderão a desafios como a crise ecológica (tema da Campanha da Fraternidade 2025 e da Laudato Si’, do Papa Francisco) ou à crescente secularização? A resposta está na semente plantada por esses leigos: fidelidade criativa, que une tradição e ousadia, tal como propõem as Diretrizes da CNBB ao falar em “traduzir o Evangelho em orientações pastorais ajustadas”.

    Parabéns, Paróquia São Sebastião! Seu jubileu é um convite a continuar escrevendo história — com as mãos dos pequenos, como sempre fez o Deus do Evangelho.

    Fontes:
    – Documentos da 3ª Assembleia Diocesana de Montes Claros (1990)
    – Concílio Vaticano II
    – Documentos de Medellín (1968) e Puebla (1979)
    – Registros paroquiais de Taiobeiras

  • Quem cuida de Francisco não dorme

    Quem cuida de Francisco não dorme

    A escalada do extremismo de direita entre católicos, em objetiva contradição com Jesus e o Evangelho, e também com o Concílio Vaticano II, a Doutrina Social da Igreja e o pontificado de Francisco, é uma chaga dolorosa no corpo místico de Cristo.

    Preferem seguir ídolos autodenomidados “influencers” em vez dos planos pastorais tão teologicamente bem engendrados pela colegialidade da Igreja.

    Cegam-se para a palavra e os exemplos de coragem e profetismo do Papa Francisco, negando-lhe até mesmo a caridade da oração pela cura na internação recente.

    Outros, avançam no mar das trevas, enquanto oram o rosário sem meditar nas palavras de Maria no Magnificat (Lucas 1,46-55). Com desassombro, chegam a desejar a morte do vigário de Cristo na Terra.

    Perseguem ao Padre Júlio Lancellotti, que acode o povo em situação de rua de São Paulo; difamam ao Frei Lorrane, que testemunha Francisco de Assis na prática pelas ruas de Salvador; renegam ao Frei Sérgio Görgen, que ensina teologia nos fazeres da lida diária; e tentam apagar a memória do martírio de Irmã Dorothy Stang.

    Estão doentes de ódio. Trocaram o verdadeiro Messias por aquele outro, de pés de barro.

    O que me anima, como disse um amigo que nem católico é, ao comentar minha postagem de felicidade no dia em que o papa recebeu alta hospitalar, é que “para tristeza de muitos, quem cuida da vida de Francisco não dorme nunca”.

    “Coragem, eu venci o mundo” (João 16,33b) – disse-nos Jesus.

  • História: o 1º Concílio Paroquial de Taiobeiras

    História: o 1º Concílio Paroquial de Taiobeiras

    Em 2025, celebramos os 90 anos de fundação da Paróquia São Sebastião de Taiobeiras, um marco significativo na história da Igreja Católica no Norte de Minas Gerais. Dentro dessa trajetória, um dos momentos mais relevantes foi o 1º Concílio Paroquial de Taiobeiras, realizado entre os dias 30 de novembro e 2 de dezembro de 2007. Essa grande assembleia foi fruto de um extenso processo de discernimento que envolveu todas as comunidades eclesiais ao longo daquele ano. O evento aconteceu em um momento de transição importante, com a saída da Ordem dos Frades Menores (franciscanos), após 72 anos de presença, e a chegada dos sacerdotes diocesanos da Arquidiocese de Montes Claros à administração da paróquia.

    O 1º Concílio Paroquial de Taiobeiras, até hoje o único realizado, teve um papel inovador ao produzir um documento pastoral abrangente, que consolidou uma avaliação profunda da realidade local e estabeleceu diretrizes e compromissos pastorais fundamentais para a caminhada da paróquia. Na época, eu integrei a equipe de coordenação e, no atual momento celebrativo e jubilar, entrego esta síntese daquele documento, que foi estruturado em duas grandes partes:

    1. Caracterização da Paróquia e Desafios Sociais:

    • A Paróquia São Sebastião abrange 35 comunidades rurais e seis comunidades urbanas, todas organizadas em núcleos para facilitar a ação pastoral.
    • Foi destacada a importância do compromisso dos leigos e leigas em diversos serviços e ministérios da Igreja, reforçando a unidade eclesial.
    • A Igreja em Taiobeiras também se posicionou sobre desafios sociais, como a pobreza, a prostituição infantil e a necessidade de maior participação dos fiéis na vida política com base nos valores do Evangelho.
    • Incentivou-se a valorização da educação como instrumento de transformação social, recomendando-se a criação de uma Pastoral da Educação.

    2. Diretrizes Pastorais e Evangelizadoras:

    • A catequese foi apontada como um pilar essencial da formação cristã, destacando-se a necessidade de torná-la mais dinâmica e ligada à realidade dos fiéis.
    • A juventude recebeu atenção especial, com o reconhecimento de que era preciso uma abordagem mais atrativa para os jovens, utilizando linguagem acessível e promovendo eventos voltados para essa faixa etária.
    • A Pastoral Familiar foi fortalecida para acolher realidades como casais em segunda união e mães chefes de família, promovendo um trabalho pastoral mais inclusivo.
    • Houve também a reafirmação do compromisso com os mais pobres, reforçando a “opção preferencial pelos pobres” e buscando ações concretas para melhorar a qualidade de vida da população local.
    • A gestão financeira da paróquia foi discutida, enfatizando a importância do dízimo para a sustentabilidade das ações pastorais.
    • A liturgia foi avaliada e houve um apelo para maior zelo na preparação das celebrações, garantindo que fossem momentos vivos de encontro com Deus.

    Ao final do Concílio, foram elencadas prioridades para o biênio 2008-2009, incluindo o fortalecimento da Pastoral da Juventude, a reestruturação da Pastoral Familiar, o retorno das Irmãs da Divina Providência e a criação da Paróquia de Santo Antônio de Taiobeiras.

    O 1º Concílio Paroquial de Taiobeiras foi um marco na história da paróquia, consolidando diretrizes que continuam inspirando a caminhada pastoral até os dias de hoje. A celebração dos 90 anos da Paróquia São Sebastião é uma oportunidade para recordar esse momento histórico e reafirmar o compromisso com uma Igreja mais unida, evangelizadora e presente na vida da comunidade. Que o espírito de comunhão e missão, fortalecido naquele Concílio, continue guiando os passos da Igreja em Taiobeiras nos anos vindouros.

  • A Quaresma e a Campanha da Fraternidade 2025: um chamado à conversão ecológica

    A Quaresma e a Campanha da Fraternidade 2025: um chamado à conversão ecológica

    A Quaresma é um período de 40 dias na liturgia católica que antecede a Páscoa, celebrando a ressurreição de Jesus Cristo. É um tempo de reflexão, penitência, oração e conversão, no qual os fiéis são convidados a se aproximar de Deus por meio do jejum, da caridade e da oração. A Quaresma é um momento propício para renovar a fé e viver uma vida mais alinhada com os valores do Evangelho.

    A Campanha da Fraternidade (CF) é uma iniciativa da Igreja Católica no Brasil, realizada anualmente durante a Quaresma, com o objetivo de promover a solidariedade, a justiça social e a conversão pessoal e comunitária. Desde 1964, a CF aborda temas relevantes para a sociedade, convidando os fiéis a refletir e agir em prol do bem comum.

    Em 2025, a Campanha da Fraternidade terá como tema “Fraternidade e Ecologia Integral” e o lema “Deus viu que tudo era muito bom” (Gn 1,31). O tema chama a atenção para a necessidade de cuidar da criação, reconhecendo que tudo o que Deus criou é bom e que o ser humano tem a responsabilidade de proteger e preservar a natureza. A ecologia integral, proposta pelo Papa Francisco na encíclica Laudato Si’, vai além do cuidado com o meio ambiente, abrangendo também as dimensões sociais, econômicas e espirituais da vida humana.

    O lema “Deus viu que tudo era muito bom” remete ao relato bíblico da criação, no qual Deus contempla sua obra e a declara boa. Esse versículo nos convida a reconhecer a beleza e a bondade da criação, mas também a refletir sobre como o pecado humano tem ferido essa harmonia. A CF 2025 nos desafia a viver uma conversão ecológica, mudando nossos hábitos e atitudes para cuidar da “Casa Comum”, o planeta Terra.

    A vivência da Campanha da Fraternidade durante a Quaresma é profundamente significativa. A Quaresma é um tempo de conversão, e a CF 2025 nos convida a uma conversão integral, que inclui o cuidado com o meio ambiente. A ecologia integral não se limita à preservação da natureza, mas também envolve a justiça social, o respeito aos povos indígenas e tradicionais, e a busca por um modelo de desenvolvimento mais sustentável.

    Ao unir a Quaresma e a Campanha da Fraternidade, a Igreja nos convida a viver um tempo de profunda reflexão e ação. A Quaresma nos prepara para a Páscoa, celebrando a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte, enquanto a CF 2025 nos desafia a ser agentes de transformação no mundo, cuidando da criação e promovendo a fraternidade universal.

    Portanto, a Campanha da Fraternidade 2025, com seu tema e lema, nos convida a viver a Quaresma de forma mais consciente e comprometida, reconhecendo que a conversão ecológica é um caminho essencial para a construção de um mundo mais justo, solidário e sustentável. Que este tempo quaresmal seja uma oportunidade para renovarmos nosso compromisso com Deus, com o próximo e com a criação.

  • Você reza pela saúde do Papa Francisco?

    Você reza pela saúde do Papa Francisco?

    Em tempos de incerteza e angústia, a fé tem o poder de unir corações ao redor do mundo. A presente internação do Papa Francisco, que enfrenta complicações decorrentes de uma pneumonia dupla, tem mobilizado fiéis, líderes religiosos e instituições, tanto no Brasil quanto no exterior, para uma corrente de oração e esperança. Essa mobilização não apenas evidencia a relevância do pontífice da “Casa Comum” para milhões de pessoas, mas também ressalta como momentos de fragilidade podem fortalecer a comunhão e a solidariedade entre os cristãos e não-cristãos.

    Na Catedral de Buenos Aires, antiga sede do então Cardeal Bergoglio (Francisco), fiéis se reuniram em uma vigília de oração no domingo, 23. Esse gesto manifesta a devoção que move aqueles que, com fé, desejam a recuperação do Santo Padre argentino, reafirmando que a esperança é coletiva.

    No Brasil, a mobilização é ainda mais intensa e diversificada. De Norte a Sul, inúmeras iniciativas foram organizadas para interceder a Deus pela saúde do Papa. Há relatos de orações diárias em várias dioceses e paróquias de todos os cantos do país. Líderes religiosos enfatizam a importância de se unir em prece, recordando momentos bíblicos, como a libertação de Pedro, primeiro papa segundo os católicos, nos Atos dos Apóstolos, e comparando-os à situação atual do pontífice, cuja recuperação é esperada pelos que se acostumaram à sua autenticidade evangélica.

    Enquanto muitos fiéis se dedicam às orações locais, a iniciativa dos cardeais residentes em Roma destaca um movimento de união em nível global. Na Praça São Pedro, os purpurados, acompanhados por colaboradores da Cúria Romana e da Diocese de Roma, reúnem-se todas as noites, às 21 h locais (17 h no horário de Brasília), para rezar o terço em favor do Papa.

    Além das iniciativas promovidas pelas hierarquias e comunidades locais, organizações como a Sociedade São Vicente de Paulo (SSVP Brasil) organizaram uma semana inteira de oração dedicada à recuperação do Papa. A programação especial tem momentos de reflexão, missa e preces coletivas.

    Por fim, a convocação dos bispos de todo o Brasil reforça que essa é uma causa que vai muito além dos muros da Igreja. O apelo por orações evidencia não só o profundo respeito e carinho que o Papa Francisco desperta, mas também a responsabilidade dos líderes da Igreja em estimular uma atitude solidária em um momento tão delicado.

    A pergunta “Você reza pela saúde do Papa Francisco?” vai além de um mero ato religioso; ela é um convite para refletir sobre a importância da fé, da união e da esperança em tempos de crise, em favor de um gigante do nosso tempo. Independentemente das crenças pessoais, esse momento nos relembra que, muitas vezes, o que nos une é maior do que qualquer diferença – e que a oração, como expressão de solidariedade, tem o poder de transformar as circunstâncias mais difíceis em oportunidades de renovação e comunhão.

  • Há quem queira mal ao Papa Francisco? Entenda o contexto

    Há quem queira mal ao Papa Francisco? Entenda o contexto

    Em meio à recente internação do Papa Francisco, que desperta preocupação global, emerge nas sombras um fenômeno perturbador: campanhas de ódio e especulações prematuras lideradas por setores da extrema-direita, tanto dentro quanto fora da Igreja Católica. Enquanto fiéis ao redor do mundo oram por sua recuperação, grupos conservadores e figuras políticas aproveitam o momento para atacar seu legado, revelando não apenas uma divergência ideológica, mas uma rejeição aos princípios cristãos que Francisco encarna.

    Como destacado pelo site UOL, há uma “torcida pela morte do Papa Francisco nas redes”, um reflexo da “escalada do ódio” em tempos de polarização (Sakamoto, 2025). Esse comportamento, que transforma a fragilidade humana em espetáculo macabro, contrasta radicalmente com a mensagem de compaixão e misericórdia que o pontífice defende. Não se tratam apenas de críticas políticas, mas de um ataque à própria essência do cristianismo, que Francisco busca revitalizar: um compromisso com os pobres, a justiça social e a ecologia integral.

    A oposição ao Papa frequentemente se disfarça de zelo doutrinário, mas esconde interesses escusos. Phyllis Zagano, citada no site do Instituto Humanitas Unisinos (IHU), aponta que, embora figuras como Donald Trump contratem católicos para sua base, “suas ações não refletem em nada a doutrina social católica” (Zagano, 2024). Essa contradição expõe como setores conservadores instrumentalizam a religião para fins de poder, ignorando ensinamentos centrais como o acolhimento a migrantes e a denúncia da desigualdade.

    Francisco, ao contrário, insiste em temas incômodos para elites políticas e econômicas. Seu apelo por “uma Igreja pobre para os pobres” e suas críticas ao “capitalismo selvagem” desestabilizam alianças entre religiosos e poderosos. Não é casual que, como revela o IHU, haja suspeitas de que um futuro conclave esteja sendo “organizado com dólares estadunidenses” para enfraquecer seu legado (IHU, 2023). A batalha é também financeira: setores conservadores, muitas vezes apoiados por magnatas, buscam o retorno a uma Igreja mais dogmática e menos envolvida com causas sociais.

    Dentro da Cúria, cardeais alinhados à direita já sinalizam movimentos para influenciar o próximo conclave. Jean-Claude Hollerich, arcebispo de Luxemburgo, denuncia: “É horrível que os cardeais já estejam trabalhando no conclave” enquanto o Papa vive (IHU, 2023). A pressa em enterrar seu pontificado revela o medo de que suas reformas, como a descentralização do poder (sinodalidade) e a abertura a divorciados e LGBTQ+, se tornem irreversíveis.

    Contudo, como argumenta outro artigo do IHU, “se o conclave quiser um segundo Francisco, eis o nome e o programa” (IHU, 2023). A resistência à sua agenda é, paradoxalmente, um sinal de seu êxito. Seu estilo pastoral, marcado pelo diálogo e pela simplicidade, resgata o núcleo do Evangelho, frequentemente obscurecido por disputas teológicas. Francisco lembra que “alguém rezou para que eu fosse para o paraíso, mas o Senhor da colheita decidiu me deixar aqui por um tempo” (IHU, 2024). Sua permanência é um convite à Igreja para não fugir de sua missão profética.

    A aversão da extrema-direita ao Papa Francisco não é mera disputa eclesiástica. É a rejeição de um cristianismo que desafia estruturas de opressão. Seus críticos preferem uma fé ornamental, alheia aos gritos dos marginalizados. Francisco, porém, insiste que a autenticidade cristã está no serviço, não no poder.

    Enquanto especulações e ódio tentam silenciar sua voz, seu exemplo persiste: uma Igreja que cheira às ovelhas feridas, não aos palácios. Em tempos de cinismo, Francisco é um lembrete de que o Evangelho, quando vivido radicalmente, ainda pode incomodar e transformar o mundo.

    Links dos artigos citados:

    1. https://www.ihu.unisinos.br/648740-o-papa-a-meloni-alguem-rezou-para-que-eu-fosse-para-o-paraiso-mas-o-senhor-da-colheita-decidiu-me-deixar-aqui-por-um-tempo
    2. https://www.ihu.unisinos.br/648985-enquanto-trump-contrata-catolicos-suas-acoes-nao-refletem-em-nada-a-doutrina-social-catolica-artigo-de-phyllis-zagano
    3. https://ihu.unisinos.br/648950-chega-de-especulacoes-e-horrivel-que-os-cardeais-ja-estejam-trabalhando-no-conclave-entrevista-com-jean-claude-hollerich
    4. https://www.ihu.unisinos.br/categorias/636720-um-conclave-organizado-com-dolares-estadunidenses
    5. https://www.ihu.unisinos.br/categorias/616172-se-o-conclave-quiser-um-segundo-francisco-eis-o-nome-e-o-programa
    6. https://noticias.uol.com.br/colunas/leonardo-sakamoto/2025/02/23/torcida-pela-morte-do-papa-francisco-nas-redes-mostra-escalada-do-odio.htm
  • Frei Jucundiano de Kok: Uma vida de devoção e serviço ao sertão mineiro

    Frei Jucundiano de Kok: Uma vida de devoção e serviço ao sertão mineiro

    * Levon Nascimento

    Em janeiro de 2025, visitei o Arquivo Arquidiocesano de Montes Claros, em busca do livro do tombo da Paróquia de Santo Antônio de Salinas. O objetivo foi ver se naquele documento histórico havia alguma referência à passagem da Coluna Prestes pelo Alto Rio Pardo, em 1926. Nada encontrei. Porém, para minha grata surpresa, achei um relato sucinto sobre a data da morte de Frei Jucundiano de Kok, no ano de 1974, em Taiobeiras. E, a lápis, o frade de Salinas, à época, anotou “Revista da Província Franciscana de Santa Cruz, ano XXXIX, nº 4, de 1974, a partir da página 277”. Copiei.

    Chegando a Taiobeiras, busquei na internet o contato da Província de Santa Cruz. Vi no site o endereço eletrônico do arquivo da referida circunscrição franciscana, que tem sede em Belo Horizonte. Mandei um e-mail, com os dados tomados do livro do tombo de Salinas, solicitando acesso ao material, caso estivesse digitalizado.

    Poucos dias depois, recebi com imensa alegria uma resposta, com todo o material solicitado em PDF. O documento original tem oito páginas, em fonte com tamanho bem pequeno, provavelmente 10. A princípio, tenho a imensa honra de disponibilizar esta síntese aos leitores, já no clima da celebração dos 90 anos da Paróquia São Sebastião de Taiobeiras (20 de maio), visto que Frei Jucundiano foi seu primeiro pároco. Leia com atenção o resumo.

    No coração do sertão mineiro, onde a fé e a simplicidade se entrelaçam, viveu e atuou Frei Jucundiano de Kok, um missionário franciscano holandês que dedicou sua vida ao serviço religioso e comunitário. Nascido Adrianus Cornelis de Kok, em 18 de fevereiro de 1901, na pequena vila de Dongen, na província de Brabante, Holanda, Frei Jucundiano deixou um legado de humildade, dedicação e amor ao próximo, que permanece vivo na memória dos que o conheceram.

    Filho de uma família pobre, mas profundamente religiosa, Jucundiano, ou “Juca”, como era carinhosamente chamado, cresceu em um ambiente marcado pela fé católica e pelo trabalho árduo. Seu pai, sapateiro, sustentava a família com o suor do seu ofício, enquanto a mãe cuidava da casa e dos filhos. Desde cedo, Juca demonstrou inclinação para a vida religiosa, inspirado pelos exemplos de piedade que o cercavam. “Ele era um menino piedoso, obediente, humilde”, como descreveu em sua autobiografia, deixada como um testemunho de sua trajetória.

    Aos 21 anos, após cumprir o serviço militar na cavalaria holandesa, Juca decidiu seguir seu chamado religioso. Ingressou no seminário dos Missionários da Sagrada Família, mas foi na Ordem de São Francisco que encontrou seu verdadeiro lar espiritual. Em 1928, tornou-se Frei Jucundiano, emitindo seus votos simples no ano seguinte; e os votos solenes em 1932. Foi então que ele recebeu a missão que definiria sua vida: servir como missionário no Brasil.

    Chegando ao Brasil em 1932, Frei Jucundiano enfrentou os desafios de adaptação a um país tão diferente de sua terra natal. “Na manhã da partida chegaram bem atrasados à estação de Sabará para viajar a Divinópolis. Mas olha! o trem estava esperando”, relembrou ele, surpreso com a gentileza do povo brasileiro. Na ocasião, os frades acharam que o trem os esperava por bondade, mas logo descobriram que a verdadeira razão era outra: o trem havia sido obrigado a dar passagem a um comboio especial com soldados que retornavam da revolução em São Paulo. Apesar disso, o episódio foi visto como uma espécie de “ditada daqueles fradinhos”, uma expressão carinhosa que refletia a simplicidade e a fé com que encaravam os desafios da missão.

    Ordenado sacerdote em 1934, ele iniciou seu ministério em Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha, onde logo se destacou por sua dedicação e zelo pastoral. Ao longo de mais de três décadas, Frei Jucundiano serviu em diversas paróquias da região, incluindo Itinga, São Pedro do Jequitinhonha e, finalmente, Taiobeiras, onde fixou residência e se tornou uma figura querida e respeitada. “O povo aqui é bom, como em Itinga”, escreveu ele, referindo-se aos sertanejos humildes e piedosos que o acolheram como um pai. Em Taiobeiras, ele construiu uma igreja espaçosa e promoveu festas religiosas que atraíam multidões, consolidando a comunidade católica local.

    Um dos marcos de seu trabalho em Taiobeiras foi a criação do “jubileu” em honra a Nossa Senhora de Fátima. Frei Jucundiano, com o apoio da comunidade, ergueu uma capela votiva dedicada à Virgem de Fátima, que se tornou um local de peregrinação e devoção. Anualmente, o jubileu atraía fiéis de diversas regiões, que vinham para participar das celebrações e renovar sua fé. “Graças a Juca, Taiobeiras também tem seu jubileu”, destacou um de seus confrades, referindo-se ao impacto espiritual e social que o evento teve na região.

    Sua vida foi marcada pela simplicidade e pelo desapego material. “Não fazia despesas supérfluas, econômicas até o extremo, para poder ajudar seus seminaristas no estudo”, relatou um de seus confrades. Apesar de não ter conseguido formar um sucessor, Frei Jucundiano deixou um legado de fé e serviço que transcende gerações. Ele era conhecido por sua franqueza, bondade e simplicidade, mas também por sua firmeza em defender os valores da Igreja. “Era difícil convencê-lo do préstimo de uma novidade”, observou um padre da Cúria, destacando sua resistência a mudanças que considerava contrárias ao bem de sua comunidade.

    Nos últimos anos de vida, Frei Jucundiano enfrentou problemas de saúde, incluindo uma grave ferida no pé que quase o levou à amputação. Mesmo assim, ele insistiu em continuar servindo sua paróquia, celebrando missas e administrando sacramentos até onde suas forças permitiam. “Se devia morrer, queria morrer como um bom soldado, no campo da batalha, armas na mão, sem recuar, sem fugir”, escreveu ele, refletindo seu espírito incansável.

    Frei Jucundiano faleceu em 27 de julho de 1974, após uma vida dedicada à fé e ao serviço. Sua morte foi sentida profundamente pela comunidade de Taiobeiras, que o via como um patriarca e guia espiritual. “Era o pai da grande família de paroquianos, o mentor, o amigo dos grandes e pequenos, conhecido, respeitado, consultado, estimado, quase adorado por todos”, descreveu um de seus confrades.

    Hoje, Frei Jucundiano de Kok é lembrado não apenas como um missionário, mas como um exemplo de dedicação, humildade e amor ao próximo. Sua história nos inspira a refletir sobre o verdadeiro significado do serviço e da fé, especialmente em um mundo cada vez mais marcado pelo individualismo e pela busca de riquezas materiais. Que sua vida continue a iluminar os corações daqueles que buscam seguir os caminhos da fé e da caridade.

    * Levon Nascimento é professor de história em Taiobeiras/MG.

  • Taiobeiras: entenda o porquê da hashtag #ficapadrevanderlei

    Taiobeiras: entenda o porquê da hashtag #ficapadrevanderlei

    Amigos e amigas de fora de Taiobeiras estão me perguntando sobre o porquê de tanta comoção em torno da saída do Padre Vanderlei da Paróquia São Sebastião de Taiobeiras. Alegam que é comum e natural que os padres sejam transferidos de tempos em tempos. Estão espantados com tantas manifestações e sem entender o que ocorre.

    De fato, é normal a transferência regular; e até saudável para a vida dos sacerdotes e das paróquias essa movimentação.

    Porém, o caso específico de Taiobeiras está relacionado com a rapidez com que o padre está sendo transferido. Não tem nem um ano que ele chegou aqui.

    E, também, com o fato de que os católicos taiobeirenses entendem que nos últimos anos a Igreja local estava pastoralmente parada, perdendo gradativamente a importância no contexto evangelizador e social, e em franca decadência. Com a chegada do Padre Vanderlei, em pouquíssimos meses, essa situação se reverteu. Foi como a chegada da chuva ao sertão, sucedendo a uma longa e rigorosa estiagem.

    Então, há um estranhamento profundo no laicato católico e um clima de suspeição, de que algo obscuro e oculto está tramando para essa saída repentina. Isso explica o porquê das redes e da vida concreta terem sido tomadas pela hashtag #ficapadrevanderlei.

    Para além disso, o episódio desnuda o quanto de autocracia e surdez hierárquica ainda corroem as artérias do catolicismo, mesmo depois de mais de cinquenta anos do Concílio Vaticano II (que modernizou a relação clero-laicato), de inúmeros documentos dos pontífices e do próprio exemplo colegial do Papa Francisco.

    Fala-se muito na responsabilidade que os leigos devem assumir para com a Igreja, mas o clero continua a não conversar, a não ouvir e a mandar como antigos senhores feudais. Não é esta última a sua vocação e cabe aos irmãos leigos auxiliá-los nesse discernimento.

    E, aqui, não discuto as boas intenções de bispos e provinciais. Não duvido que eles trabalham para o bem da Igreja e da evangelização. Não duvidamos de sua boa fé. Critico o método e a estrutura engessada.

    Transferências e nomeações realmente são naturais. Não é por causa do padre que se deve frequentar ou não as celebrações, o templo e as atividades pastorais. Mas, conhecer a história, o contexto e a realidade do laicato, bem como sua opinião, pouparia a Igreja de muitos problemas.

    Fica aqui um fraterno e filial apelo ao Provincial dos Missionários da Sagrada Família, Padre Itacir Brassiani, e ao Sr. Arcebispo Metropolitano de Montes Claros, Dom João Justino de Medeiros Silva, para que, no uso caridoso de suas respectivas autoridades, não tomem a manifestação do povo católico de Taiobeiras como desaforo ou desobediência.

    Como o próprio Senhor Deus, Nosso Pai, fez no Egito, “ouçam o clamor do povo e desçam para libertá-lo”.

  • Levon Nascimento: “Creio, Senhor, mas aumentai a minha fé”

    Levon Nascimento: “Creio, Senhor, mas aumentai a minha fé”

    “Creio, Senhor, mas aumentai a minha fé”.

    Essa frase repetida como oração pelo povo católico, é para mim a exata medida da explicação do fenômeno da fé e de sua oposição ao fundamentalismo cristão.

    Fé é acreditar, mas com a consciência de que há dúvidas. E sem o medo de duvidar. A maturidade da fé é relativamente proporcional à intensidade das incertezas.

    Fé que se apresenta como “certa de tudo” é fanatismo; e não há nada mais prejudicial a um cristão do que ser fanático religioso.

    Jesus sempre se posicionou aberto, lúcido, inclusivo e incentivador do pensamento crítico. De outro modo, por que ensinaria através de parábolas, que levam o interlocutor a raciocinar? Raciocínio é lucidez. Onde se raciocina não se fanatiza.

    Diria até que o método pedagógico freiriano é antes de tudo um modo de ensino desenvolvido, na prática, por Jesus.

    Encarar a ciência como inimiga, ao invés de presente de Deus à humanidade, é pecar contra a fé que se diz deter nos dons do Espírito Santo.

    Antivacinas, armamentistas, neofascistas e outras doutrinas mortíferas que se alimentam dos instrumentais da fé cristã para se legitimarem, nada têm à ver com Jesus; são manifestações fanáticas e se compõem de elementos doentios confundidos como se fossem fé.

    Portanto, toda expressão cristã que se enrijece e leva seus seguidores a se fanatizarem, de fato não é cristã e, por consequência, tem outra coisa que não é fé.

  • Professor Levon: Os fariseus passarão. Os genocidas, também!

    * Professor Levon

    Tenho acompanhado as redes sociais do querido Padre João PT (Deputado Federal de esquerda). Sacerdote íntegro, que liga fé e vida em seu trabalho parlamentar e assume a política como parte inerente de sua vocação sacerdotal e missão cristã, ele tem sido vítima frequente dos comentários cibernéticos de gente que se diz muito católica/cristã, cujo conteúdo coraria de vergonha alguém com um pingo de temperança no coração.

    Ao ler tais vômitos, lembrei-me da Bíblia e de suas histórias. Repetindo um jargão de senso comum, poderia dizer: “já estava escrito lá”.

    Os fariseus eram aquelas pessoas muito religiosas do tempo de Jesus. Muitíssimo! Sabiam o Antigo Testamento de cor e salteado. Seguiam todas as regras litúrgicas: vênias, dias santos, jejuns, sacrifícios, etc. Adoravam julgar e condenar quem não fazia como eles.

    Jesus não perdia uma oportunidade de confronta-los, denuncia-los e os chamava por vários nomes: sepulcros caiados (belos por fora e podres por dentro) e hipócritas (que falam uma coisa e vivem outra bem diferente) eram alguns dos cognomes com os quais o Mestre de Nazaré os brindava.

    Alguns fariseus se converteram. José de Arimateia foi um deles. A maioria, no entanto, tramou com os sumo-sacerdotes a entrega de Jesus ao poder romano, para ser torturado, crucificado e morto. Os fariseus adoravam julgamentos sumários e processos sem prova (estilo lava-jato) e uma intervenção militar (chamaram as tropas romanas para prenderem o Cristo).

    Na hora H, preferiram Barrabás, “o mito”, ao invés do justo contra o qual se erguera um processo farsesco. Por meio de fake news, os fariseus e sacerdotes do templo ainda levaram o povo, diante do coroado de espinhos, a gritar: “crucifica-o” e “que o seu sangue caia sobre nós e nossos filhos”.

    Os fariseus eram religiosos que adoravam um espetáculo violento, com muita dor e sangue aos seus desafetos. Se fosse hoje, tenho certeza de que eles emendariam uma missa católica ou culto evangélico na TV com um programa do Sikera Jr ou do Datena, como se fosse algo natural e até complementar.

    Os fariseus estão de volta. Atacam bispos, padres, pastores, freiras e leigos que tentam viver o Evangelho da forma mais parecida com a qual Jesus o anunciou: misericórdia, perdão, amor, cuidado com as pessoas independentemente de seus defeitos e pecados, compassividade e compromisso com a fração do pão entre os pobres e famélicos.

    Os novos fariseus adoram gritar que “Deus está acima de todos” e que o fazem “em nome de Jesus”. Porém, sua prática revela que eles não acreditam em Deus, mas no dinheiro, nas armas e na política genocida. Também, odeiam ao Jesus real e histórico. Se Ele voltasse hoje, os fariseus, “em nome de Jesus”, prenderiam-no e o torturariam e crucificariam de novo.

    Os fariseus adoram um líder religioso eloquente no discurso, de preferência, que negocie a fé com teologia da prosperidade ou que posa para fotos segurando metralhadoras, ao lado de astrólogos malucos escondidos em um buraco qualquer do neo-Império Romano.

    Os fariseus passarão. Os genocidas, também!

    Os fariseus passarão. Os genocidas, também!
    Professor Levon: Os fariseus passarão. Os genocidas, também!
  • Quando os bons partem e nos deixam órfãos

    Dom Helder Câmara

    DOM HÉLDER CÂMARA foi um revolucionário na Igreja Católica brasileira. Enfrentou a ditadura militar, passou a morar como os mais pobres de sua Arquidiocese de Olinda e Recife e um dos articuladores do “aggiornamento” provocado pelo Concílio Vaticano II. Um santo de nosso tempo. Faleceu em 1999. Um processo de beatificação está em curso.

    Dom Luciano Mendes de Almeida

    DOM LUCIANO MENDES DE ALMEIDA, arcebispo de Mariana, primaz de Minas Gerais, foi presidente da CNBB nos anos de ouro da conferência dos bispos e conduziu-a no auge do engajamento da Igreja em favor dos pobres, além de profundo defensor da ação das comunidades eclesiais de base latino-americanas e das pastorais sociais, testemunhando Jesus na vivência de uma religião lúcida, engajada com os grandes temas do bem comum para o Brasil. Partiu em 2006.

    Dom José Maria Pires

    DOM JOSÉ MARIA PIRES, emérito da sé da Paraíba, primeiro arcebispo negro do Brasil, conhecido como dom Zumbi, por sua defesa dos afrodescendentes, outro grande prelado católico que a segunda metade do século XX nos legou. Seguiu rumo ao Reino ontem (27 de agosto).

    Todos foram boicotados pelo Vaticano inverno eclesial de Wojtyla/Ratzinger, mas sua obra sobrevive, porque marcadamente fundamentada no Evangelho de Jesus e no amor aos semelhantes, especialmente os pobres e deserdados.

    Os três se foram em anos diferentes, mas num 27 de agosto. Coincidência ou providência, pouco importa. São homens santos, testemunhas fiéis do crucificado-ressuscitado. Tomara os atuais ministros da Igreja sigam seus luminosos exemplos.


    Precisamos de sucessores desses profetas para enfrentar os mares revoltos do presente.

  • Os ataques a Francisco

    Dia de São Pedro é também o Dia do Papa. Por que tantos ataques ao papa atual vindos de grupos de dentro da própria Igreja? Vejamos:
    Há quatro anos Francisco assumiu a chefia de uma instituição bimilenar atolada em denúncias de pedofilia e em que os casos eram acobertados por altas autoridades do clero. Ele não só deu publicidade, instituiu normas de controle, encontrou-se com vítimas e baniu até mesmo cardeais que acobertavam pedófilos.
    Quando assumiu, a cúria romana estava desgovernada, com vazamentos de documentos secretos, fato que segundo consta fizeram até mesmo o seu antecessor (Bento XVI) chegar ao ato extremo de renunciar, coisa que não acontecia na Igreja há mais de cinco séculos. Ele criou uma comissão externa de aconselhamento, destituiu lideranças envolvidas nos escândalos e iniciou um processo de reestruturação da cúria, focando-a mais na vocação para o serviço evangélico do que em ser a corte mundana de um monarca absolutista.
    Em 2013, encontrou o Banco do Vaticano envolvido em falcatruas diversas. Demitiu todos os envolvidos e aceitou todas as normas e procedimentos que as autoridades civis julgam necessárias para a transparência e honestidade das finanças da Igreja.
    Encontrou um igreja com o umbigo voltado para o fundamentalismo xenófobo eurocêntrico. Abriu-a para as questões das mulheres, dos refugiados e das “periferias do mundo”, nomeando cardeais dos lugares mais improváveis da Terra, como de países pobres da África, da Ásia e da América Latina, além de ter-se comprometido com pautas de redução das desigualdades sociais, ambientais e de gênero.
    Demitiu bispos que viviam em mansões e constrói lavanderias comunitárias, cozinhas populares e centros de recepção de desabrigados e refugiados dentro dos próprios palácios vaticanos, para os pobres de Roma e de fora.
    Enquanto grupos cristãos extremistas pregam a guerra contra o Islã ou sofre ameaças de atentados por parte de terroristas islâmicos, busca o diálogo e o respeito com a comunidade muçulmana.
    Agora, descobre-se que grupos extremistas da Igreja, quase medievais, escandalosamente se divertem com “previsões demoníacas” que apontariam para a morte iminente do Papa Francisco. Outros (grupos católicos), acham maravilhoso que Trump tenha ganho várias “paradas”, porque enxergam no presidente americano o grande rival de Francisco. Outros, ainda, já não temem gravar vídeos em que o tratam por “estúpido”. Pior, uma apatia de certos indivíduos do clero em implementar suas decisões e conselhos.
    Nunca me foi tão claro quanto agora de que, em verdade, para quem tem fé, o Papa Francisco foi realmente escolhido por Jesus para guiar a Igreja neste momento tão difícil pelo qual passa a humanidade. E mais, conta com a força do Mestre para reconstruir a Casa de Deus e a Casa Comum, como o outro Francisco, o de Assis.
    Vida longa a Francisco! Deus o abençoe, o proteja e o mantenha firme. Nós precisamos dele e de sua coragem nestes tempos de neofascismo e extremismo.
  • Aparecida no Carnaval

    Acabei de assistir o vídeo do desfile da Escola de Samba Unidos de Vila Maria, de São Paulo, homenageando os 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, Padroeira do Brasil. Desfile lindo, encantador e emocionante, ocorrido na madrugada de sexta para sábado.
    Que se mordam os conservadores! Nossa Senhora e o Evangelho do Filho dela têm de ir a todo lugar, inclusive ao sambódromo, que é onde o povo está.
    A fé só é viva se entranhada na cultura.

    Postado no Facebook em 27 de fevereiro de 2017.
  • Papa Francisco: diálogo ao invés de vigança

    O papa Francisco, lúcido e cristão, apela ao diálogo fraterno com todas as religiões, ao entendimento e ao amor, mesmo diante de um padre católico degolado por terroristas islâmicos. Não prega o ódio, a vingança ou a guerra. Age como seu Mestre e Senhor, Jesus Cristo.
    Triste é ver católicos tradicionalistas criticando o papa por não demonstrar ira ou convocar uma nova cruzada contra o Islã. Essa gente é como os fascistas que querem mais armas nas mãos dos cidadãos ante a violência urbana, reduzir a maioridade penal ou aprovar penas de prisão perpétua ou de morte. Se não forem os mesmos. Eles se nutrem de raiva.
    Está certo o papa Francisco por não sucumbir aos sentimentos sanguinários nem vingativos. O autêntico sucessor do apóstolo Pedro, representante de Jesus na Terra, tem de ser ponte (pontífice) entre os homens de diversas raças e culturas, entre a humanidade e o Pai celestial.
    Estou contigo, Francisco!
  • Dom Geraldo Majela de Castro: minhas memórias

    Dom Geraldo Majela de Castro, O. Praem.

    Nesta quinta-feira, 14 de maio de 2015, partiu desta vida para a casa do Pai, o arcebispo emérito de Montes Claros, Dom Geraldo Majela de Castro, O. Praem, quase aos 85 anos de idade, os quais completaria em 24 de junho próximo. Destes, quase três, os últimos, internado num leito da Santa Casa montes-clarense, vítima de uma doença rara, a ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica). Mais cedo, ao saber da notícia, prometi escrever alguma coisa. Não um resumo biográfico, já disponível em diversos meios de comunicação. Optei por relatar as experiências que tive ao seu lado em diferentes momentos da minha vida.

    Porém, antes de prosseguir, destaco que seu falecimento ocorreu um dia depois da data na qual a Igreja celebra a grande Mãe de Deus, Maria Santíssima, sob o título de Nossa Senhora de Fátima (13 de maio). Um destes misteriosos detalhes, quiçá irrelevantes, mas que merecem de nossa parte uma atenção especial. Dom Geraldo era especialmente devoto da Mãe de Jesus. Parece que, neste momento, ouço seu canto nas celebrações, saudando a ela: “Neste dia, ó Maria, nós te damos nosso amor!” Talvez, jamais saberemos, a mãe veio em auxílio de um filho que tanto a venerava, num momento de tanto sofrimento e dor.

    As primeiras vezes em que vi Dom Geraldo foram durante as festas de Nossa Senhora de Fátima, em Taiobeiras. Em princípio, ainda na condição de bispo-coadjutor, vinha substituir Dom José Trindade, seu antecessor no governo da Diocese de Montes Claros. A partir de 1988, quando assumiu em definitivo o pastoreio montes-clarense, passou anualmente a vir à maior manifestação religiosa do povo taiobeirense.

    Ainda adolescente, eu comecei a tomar conhecimento de suas ideias lendo o famoso Documento Azul (Compromissos Eclesiais e Diretrizes Pastorais – CEDP da Igreja Particular de Montes Claros), síntese da 3ª Assembleia Diocesana de Pastoral, de 1990, então convocada e presidida por Dom Geraldo. Líamos os números do documento em grupos de reflexão ou nas tão educativas novenas de Natal realizadas com as cartilhas produzidas em Montes Claros, outra conquista sua. Os materiais de Montes Claros, contextualizados na realidade de nosso sertão norte-mineiro, vieram a substituir as novenas “importadas” de outras realidades, muitas vezes tão distintas da nossa.

    Em 1992, o primeiro contato pessoal. Dom Geraldo presidiu o momento em que recebi o Sacramento da Confirmação do Batismo, a Crisma. “Recebe, por este sinal, o Dom do Espírito Santo!” – disse ele. Daquele momento em diante, assumi categoricamente a missão do Evangelho de Jesus, especialmente no serviço à causa dos pobres e dos marginalizados. Compromisso que, apesar dos meus limites e da minha pequenez humana, continuo tentando realizar sob o auxílio daquele mesmo Espírito de bondade e justiça.

    Aliás, as celebrações de crisma são um capítulo à parte. Demonstram o quanto Dom Geraldo foi comprometido com a sua função de colaborador de Cristo, pastor do Povo de Deus e sucessor apostólico. Amava viajar por todas as comunidades da sua querida Diocese de Montes Claros. Todas, sem exceção de limites, distâncias e dificuldades. Na Paróquia São Sebastião de Taiobeiras, tão distante de Montes Claros, e que em sua época também abrangia Berizal, ficava até mesmo a semana inteira, realizando as missas de crisma nas comunidades. Conhecia-as e ao povo de Deus que delas participava.

    Numa dessas celebrações, na Comunidade de Olhos D’Água (Taiobeiras), após o término, foi convidado a almoçar numa casa muito simples, mas de mesa farta. Mesmo já estando com restrições alimentares por conta de sua saúde, fez questão de não desapontar aos seus anfitriões, provando um pouco do que, tão carinhosamente, lhe haviam preparado. Mas, o mais belo, foi, ao final da refeição, chamar o casal para uma conversa reservada. A comunidade, propositalmente, já havia escolhido aquela casa para receber o Arcebispo porque sabia que ali a família passava por dramas de convívio. Naquele diálogo, aconselhou aos dois, orou com eles, explicou-lhes a palavra de Deus e abençoou-os.

    Mais especificamente, estreitei laços com Dom Geraldo no período em que estive na militância da Pastoral da Juventude da Diocese de Montes Claros. Sempre presente, atento e educador. Ainda que proveniente de uma formação conservadora, foi aberto, democrático, paciente e flexível conosco. Permitiu-nos caminhar na Igreja e com a Igreja. Não nos tolheu em nossa caminhada. Apoiou-nos. Claro que, como homem tinha limites e uma visão de mundo que lhe era própria. Mas nem um nem a outra o impediram de abraçar uma juventude que ansiava por um “novo jeito de ser Igreja”.

    De forma especial, permitiu-me, durante os anos em que morei em Montes Claros e trabalhei na Pastoral da Juventude, escrever no jornal diocesano “Far-Elo de Vida”, muitas vezes contra a oposição de figuras da própria Igreja. Devo-lhe isto, a confiança em mim despositada.

    Igualmente, devo-lhe também pela confiança expressa em mim quando me candidatei a vereador em Taiobeiras, em 2004. Sem misturar o púlpito com o palanque, mas fazendo uso coerente daquilo que aprendemos a chamar de caridade cristã manifestada na militância política do leigo, demonstrou-me apoio humano e abençoou a minha luta. Dom Geraldo estava mais uma vez em Taiobeiras para celebrar crismas. Era agosto. A campanha eleitoral a pleno vapor. Não fui lhe pedir que me desse declaração de apoio político. Mandou me dizer que queria falar comigo na casa paroquial. Quando cheguei lá, entregou-me um papel escrito de próprio punho e disse-me: “Pode publicar”, sem mais.

    Texto manuscrito de Dom Geraldo

    No papel estava escrito (veja fotografia do original): “Há muitos irmãos e irmãs nossos que têm o ideal de servir desinteressadamente a todos. Levon resolveu colocar o nome dele como candidato a vereador. Pelo que viveu até hoje, penso que posso recomendá-lo! Será um bom vereador! É confiável!”.

    Não venci aquela eleição. Também, pouco importa. De fato, vale a confiança daquele homem à minha pessoa. Confiança de quem tanto aprendi, especialmente a amar Jesus Cristo e sua mensagem. Da mensagem, aquilo que mais me toca são os gestos e a palavra. “É confiável” – disse Dom Geraldo.

    A última vez em que nos falamos foi quando os franciscanos deixaram a Paróquia de Taiobeiras. Era o início de fevereiro daquele ano. Eu estava na condição de Conselheiro Paroquial. Momento grave! Depois de 72 anos, os frades da Ordem de São Francisco entregavam Taiobeiras. Dom Geraldo me disse que também sentia muito por aquela mudança inesperada. Informou-me de que havia feito todos os esforços junto ao provincial franciscano para que retrocedesse daquela decisão. Porém, como já era fato consumado, que insistiu que tivéssemos confiança em Jesus, de que as coisas se ajeitariam da melhor forma.

    Enfim, era um legítimo pastor, um homem de Deus e um servo incansável da Igreja. Como homem, dotado de limitações e contradições. Como ministro do Evangelho, uma luz para a caminhada deste nosso povo de Deus sertanejo.

    “It et Vos” ou “Ide também vós para a minha vinha”, como mandado do Senhor, foi o seu lema de bispo. Mais do que uma frase, tornou-se a expressão de sua vida. Ele foi a todos os recantos da grande vinha que o Senhor lhe concedeu: a Arquidiocese de Montes Claros, levar a Palavra ilumina e o exemplo que arrasta.

    Neste momento de imensa dor por sua partida, lembro-me de Dom Geraldo Majela de Castro com a oração da Igreja que ele tanto amava: “Dai-lhe, Senhor, o descanso eterno! E brilhe sobre ele a vossa luz!”