Por Levon Nascimento
A exortação apostólica Dilexi te, do Papa Leão XIV, publicada em 4 de outubro de 2025, é um manifesto espiritual e social sobre o amor para com os pobres. O texto nasce como continuidade da encíclica Dilexit nos, de Francisco, e como herança de sua preocupação pastoral pelos marginalizados. Leão XIV abre seu pontificado convocando a Igreja a reencontrar, nos pobres, o rosto vivo de Cristo. O documento denuncia a cultura do descarte, o mito da meritocracia e o conformismo religioso que esquece o Evangelho vivido como serviço. O amor, recorda o Papa, não é abstração moral, mas compromisso histórico — é o verbo que faz Deus descer à sarça ardente dos sofrimentos humanos.
O plano de trabalho da Dilexi te pode ser compreendido em três eixos principais. O primeiro é teológico: Deus escolhe os pobres não por ideologia, mas porque o amor divino se revela onde há dor, exclusão e clamor. O segundo é eclesial: a Igreja deve ser pobre e para os pobres, seguindo o exemplo de São Lourenço e São Francisco de Assis. O terceiro é prático e cultural: a opção pelos pobres implica educação libertadora, cuidado com os doentes e compromisso com as novas escravidões contemporâneas — do consumo, do individualismo e das desigualdades.
Para Leão XIV, amar é ver, cuidar, perdoar e construir. Amar é ver — e, portanto, enxergar os invisíveis, os desfigurados pelas estatísticas e pelos rótulos. Amar é cuidar — não como quem faz beneficência, mas como quem reconhece o outro como parte de si. Amar é perdoar — em tempos de polarização, redescobrir a ternura como força política. E amar é construir — porque a caridade cristã, quando autêntica, não consola apenas: transforma estruturas e mentalidades. O Papa escreve com vigor: “Não estamos no horizonte da beneficência, mas no da Revelação” — ou seja, Deus fala por meio dos pobres.
E o que essa exortação tem a dizer a Taiobeiras? Antes de tudo, que o desenvolvimento sem compaixão é vazio. A cidade, entre avanços e desigualdades, vive o paradoxo de se orgulhar do empreendedorismo enquanto muitos sobrevivem na informalidade e na carência de serviços essenciais. Dilexi te confronta diretamente esse modelo: o progresso autêntico é aquele que não exclui. A meritocracia, lembra Leão XIV, é “uma falsa visão segundo a qual só têm mérito os que tiveram sucesso na vida”. Em Taiobeiras, essa crítica ressoa no cotidiano: enquanto alguns exibem conquistas, outros carregam invisibilidades que o discurso da “terra dos vencedores” prefere ignorar.
O Papa propõe um antídoto: o amor concreto, que se traduz em políticas públicas, justiça social e cultura do cuidado. Se o cristianismo local quiser ser fiel ao Evangelho, deve olhar para os pobres como protagonistas da história, não como destinatários de campanhas sazonais. Amar, aqui, significa reconhecer a dignidade dos agricultores familiares, das mulheres trabalhadoras, dos jovens sem oportunidades. É perceber que o rosto de Cristo está nas filas do hospital, nos bairros sem saneamento, nos professores que persistem sem estrutura.
Dilexi te também convida Taiobeiras a revisar suas referências. Como os monges que uniam oração e trabalho, a cidade precisa integrar espiritualidade e ação social, fé e responsabilidade pública. Ser “cidade empreendedora” deve significar criar oportunidades solidárias, fortalecer cooperações, garantir educação libertadora e promover o bem comum. É tempo de superar o individualismo competitivo e reencantar o sentido de comunidade.
Em última instância, Dilexi te é um chamado a amar de modo civilizatório. Para Taiobeiras, isso significa transformar o amor em política de vida: educar com ternura, administrar com empatia, crescer sem deixar ninguém para trás. O Papa Leão XIV fala à cidade com a clareza dos profetas: a fé que não toca a carne dos pobres é sombra, não luz. Amar — diz o título da exortação — é o verbo que sustenta a esperança. Que Taiobeiras, redescobrindo esse amor, encontre o caminho entre o que já avançou e o que ainda falta nascer.






















