Tag: Jesus Cristo

  • Dilexi te: o que a primeira exortação do Papa Leão XIV tem a dizer a Taiobeiras?

    Dilexi te: o que a primeira exortação do Papa Leão XIV tem a dizer a Taiobeiras?

    Por Levon Nascimento

    A exortação apostólica Dilexi te, do Papa Leão XIV, publicada em 4 de outubro de 2025, é um manifesto espiritual e social sobre o amor para com os pobres. O texto nasce como continuidade da encíclica Dilexit nos, de Francisco, e como herança de sua preocupação pastoral pelos marginalizados. Leão XIV abre seu pontificado convocando a Igreja a reencontrar, nos pobres, o rosto vivo de Cristo. O documento denuncia a cultura do descarte, o mito da meritocracia e o conformismo religioso que esquece o Evangelho vivido como serviço. O amor, recorda o Papa, não é abstração moral, mas compromisso histórico — é o verbo que faz Deus descer à sarça ardente dos sofrimentos humanos.

    O plano de trabalho da Dilexi te pode ser compreendido em três eixos principais. O primeiro é teológico: Deus escolhe os pobres não por ideologia, mas porque o amor divino se revela onde há dor, exclusão e clamor. O segundo é eclesial: a Igreja deve ser pobre e para os pobres, seguindo o exemplo de São Lourenço e São Francisco de Assis. O terceiro é prático e cultural: a opção pelos pobres implica educação libertadora, cuidado com os doentes e compromisso com as novas escravidões contemporâneas — do consumo, do individualismo e das desigualdades.

    Para Leão XIV, amar é ver, cuidar, perdoar e construir. Amar é ver — e, portanto, enxergar os invisíveis, os desfigurados pelas estatísticas e pelos rótulos. Amar é cuidar — não como quem faz beneficência, mas como quem reconhece o outro como parte de si. Amar é perdoar — em tempos de polarização, redescobrir a ternura como força política. E amar é construir — porque a caridade cristã, quando autêntica, não consola apenas: transforma estruturas e mentalidades. O Papa escreve com vigor: “Não estamos no horizonte da beneficência, mas no da Revelação” — ou seja, Deus fala por meio dos pobres.

    E o que essa exortação tem a dizer a Taiobeiras? Antes de tudo, que o desenvolvimento sem compaixão é vazio. A cidade, entre avanços e desigualdades, vive o paradoxo de se orgulhar do empreendedorismo enquanto muitos sobrevivem na informalidade e na carência de serviços essenciais. Dilexi te confronta diretamente esse modelo: o progresso autêntico é aquele que não exclui. A meritocracia, lembra Leão XIV, é “uma falsa visão segundo a qual só têm mérito os que tiveram sucesso na vida”. Em Taiobeiras, essa crítica ressoa no cotidiano: enquanto alguns exibem conquistas, outros carregam invisibilidades que o discurso da “terra dos vencedores” prefere ignorar.

    O Papa propõe um antídoto: o amor concreto, que se traduz em políticas públicas, justiça social e cultura do cuidado. Se o cristianismo local quiser ser fiel ao Evangelho, deve olhar para os pobres como protagonistas da história, não como destinatários de campanhas sazonais. Amar, aqui, significa reconhecer a dignidade dos agricultores familiares, das mulheres trabalhadoras, dos jovens sem oportunidades. É perceber que o rosto de Cristo está nas filas do hospital, nos bairros sem saneamento, nos professores que persistem sem estrutura.

    Dilexi te também convida Taiobeiras a revisar suas referências. Como os monges que uniam oração e trabalho, a cidade precisa integrar espiritualidade e ação social, fé e responsabilidade pública. Ser “cidade empreendedora” deve significar criar oportunidades solidárias, fortalecer cooperações, garantir educação libertadora e promover o bem comum. É tempo de superar o individualismo competitivo e reencantar o sentido de comunidade.

    Em última instância, Dilexi te é um chamado a amar de modo civilizatório. Para Taiobeiras, isso significa transformar o amor em política de vida: educar com ternura, administrar com empatia, crescer sem deixar ninguém para trás. O Papa Leão XIV fala à cidade com a clareza dos profetas: a fé que não toca a carne dos pobres é sombra, não luz. Amar — diz o título da exortação — é o verbo que sustenta a esperança. Que Taiobeiras, redescobrindo esse amor, encontre o caminho entre o que já avançou e o que ainda falta nascer.

  • Fé para romper a indiferença, não para lucrar

    Fé para romper a indiferença, não para lucrar

    Vivemos tempos estranhamente silenciosos diante da dor. Enquanto milhões sofrem com fome, violência — como nas ruas de todo o mundo, em geral, e em Gaza, no particular —, abandono ou solidão, seguimos com nossas rotinas apressadas, rostos grudados nas telas e corações distraídos. A era da indiferença, como muitos a chamam, é marcada por uma anestesia coletiva: vemos tudo, mas não sentimos quase nada. É como se o sofrimento alheio tivesse perdido o peso, como se os laços humanos tivessem sido substituídos por curtidas, lucros e algoritmos.

    Essa indiferença não surgiu do nada. Ela se construiu aos poucos, num mundo que valoriza mais o desempenho do que a presença, mais a eficiência do que a empatia. Mais o lucro do que o ser humano. Somos levados a acreditar que não temos tempo para cuidar, para ouvir, para sofrer com o outro. E assim, nos tornamos especialistas em nos proteger das dores que não são nossas, às vezes até estimulados pelo discurso da toxicidade alheia. Porém, essa proteção cobra caro: nos desumaniza. Perdemos a capacidade de chorar com quem chora, de nos alegrar com quem se levanta.

    É nesse contexto que a encíclica Dilexit Nos (outubro de 2024), do Papa Francisco (1936 – 2025), brilha como uma luz em meio ao cansaço espiritual da atualidade. Ao propor o Coração de Jesus como símbolo e fonte de amor verdadeiro — humano e divino — Francisco nos convidou a romper o gelo que endurece o mundo. Ele falou de um “mundo sem coração”, dominado por tecnologias que nos unem superficialmente, mas nos afastam na essência. A Dilexit Nos não é um chamado à religiosidade superficial (muito louvor e pouca compreensão), mas à conversão profunda: para que deixemos de viver como espectadores e voltemos a ser irmãos.

    A encíclica nos lembra que o coração é lugar de verdade, de feridas, de ternura e também de decisão. E é a partir desse lugar que podemos reconstruir o tecido esgarçado da solidariedade. Ser cristão — ou simplesmente humano — nessa era da indiferença é escolher, todos os dias, não se calar diante do sofrimento, não se conformar com a exclusão e não se render ao conforto da apatia. O amor que nos é revelado no Coração de Cristo é exigente, mas profundamente libertador: nos chama a ser presença, escuta, abraço.

    Superar a era da indiferença não exige heróis, mas corações despertos. Exige menos pressa e mais atenção. Menos julgamento e mais compaixão. A Dilexit Nos aponta um caminho espiritual e humano para reencontrarmos o que de mais essencial existe em nós: a capacidade de amar e ser afetado pelo outro. Porque no fim das contas, só um mundo com coração pode ser verdadeiramente justo e habitável.

  • Os párocos de São Sebastião de Taiobeiras

    Os párocos de São Sebastião de Taiobeiras

    1935: Criação da Paróquia e início da presença dos frades franciscanos

    1° Pároco:
    Frei Jucundiano de Kok (1940 – 1974)

    2° Pároco:
    Frei Salésio Heskes (1975 – 1988)

    3° Pároco:
    Frei João José de Jesus (1988 – 1992)

    4° Pároco:
    Frei Ronaldo Zwinkels (1993)

    5° Pároco:
    Frei Feliciano van Sambeek (1994)

    6° Pároco:
    Frei Berardo Kleuskens (1995 – 1998)

    7° Pároco:
    Frei José da Silva Pereira (1999 – 2000)

    8° Pároco:
    Frei Antônio Teófilo da Silva Filho (2001 – 2007)

    2007: Fim da presença dos frades franciscanos e início da presença dos padres diocesanos

    9° Pároco:
    Padre Inivaldo Fernandes de Lima (2007 – 2009)

    2010: Fim da presença dos padres diocesanos e início da presença dos padres Missionários da Sagrada Família

    10° Pároco:
    Padre José Ivan Alckimim (2010 – 2020)

    11° Pároco:
    Padre Vanderlei Souza da Silva (2021)

    2022: Fim da presença dos padres Missionários da Sagrada Família e retorno da presença dos padres diocesanos

    12° Pároco:
    Padre Gilberto Rodrigues dos Santos Júnior
    (2022 – Atual)

  • 13 de maio: Por que Maria é importante para a humanidade?

    13 de maio: Por que Maria é importante para a humanidade?

    A figura de Maria, mãe de Jesus, transcende fronteiras religiosas e temporais, consolidando-se como um dos pilares mais complexos e inspiradores da espiritualidade ocidental. Sua relevância histórica não se restringe ao papel biológico de dar à luz o Cristo, mas se expande em camadas teológicas, sociais e culturais que a tornam um arquétipo universal. No contexto do 13 de maio de 2025, data que celebra Nossa Senhora de Fátima, refletir sobre sua importância exige um olhar que integre tradição e contemporaneidade, dogma e humanidade.

    1. A teologia clássica: mãe de Deus e nova Eva

    Na teologia cristã, Maria é definida como Theotokos (Mãe de Deus), título consolidado no Concílio de Éfeso (431 d.C.), que enfatiza sua centralidade no mistério da Encarnação (Arquidiocese de Uberaba). Os Padres da Igreja, como Irineu de Lyon, a viram como a “Nova Eva”, cujo “sim” ao anjo Gabriel reparou a desobediência da primeira mulher (Rosary Center). Essa perspectiva a coloca não apenas como protagonista da salvação, mas como mediadora graciosa, ponte entre o divino e o humano. Dom Leonardo Steiner, citado pelo IHU, reforça que em Maria “encontramos respostas” para inquietações existenciais, pois sua disponibilidade a Deus a torna modelo de fé ativa.

    2. A mariologia feminista: entre a revolução e a tradição

    A teologia feminista, porém, desafia visões tradicionais que reduziram Maria a um ícone passivo de pureza. Analisando criticamente sua figura, teólogas recuperam sua agência: ela foi uma mulher judia que enfrentou riscos sociais ao aceitar uma gravidez fora dos padrões (James Tabor, IHU). Para Michele Giulio Masciarelli (IHU), Maria é “mais jovem do que o pecado”, não por negação da realidade, mas por sua coragem em abraçar um projeto disruptivo. Essa releitura a transforma em símbolo de resistência, especialmente em contextos onde mulheres são marginalizadas. Como afirma o IHU, “num momento da história, o centro de tudo está numa mulher”, ecoando a ideia de que Maria personifica a força do feminino sagrado.

    3. Maria pós-Vaticano II: humanidade e universalidade

    O Concílio Vaticano II (1962-1965) reposicionou Maria como “membro eminente da Igreja”, evitando excessos devocionais que a divinizavam. O Papa Francisco, conforme destacado pelo IHU, lembra que “Maria é mãe, não deusa”, reafirmando sua humanidade. Essa abordagem ressalta sua trajetória terrena: uma mãe judia que viveu dúvidas, dores e alegrias, como qualquer pessoa. Leonardo Boff, em A Porção Feminina de Deus, assinala que Maria revela a face materna do Divino, integrando o feminino na compreensão do sagrado. Sua história, assim, torna-se acessível a todos, independentemente de credo.

    4. Maria na pós-modernidade: respostas a uma crise de sentido

    Em meio à fragmentação pós-moderna, Maria emerge como figura de reconciliação. Artigos do IHU (Instituto Humanitas Unisinos) destacam que sua “glorificação” não a distancia da realidade, mas a aproxima das crises humanas. A poesia de Pedro Casaldáliga, que a transforma em “todas as mulheres”, ilustra como sua imagem transcende o religioso, simbolizando esperança para os oprimidos. Ela é, nas palavras de Casaldáliga, a mãe dos sem-terra, das viúvas, dos excluídos — uma metáfora da compaixão ativa.

    Maria: espelho do humano e do divino

    Maria não é importante apenas por quem gerou, mas por quem ela foi: uma mulher que encarnou paradoxos — humilde e revolucionária, silenciosa e profética, humana e transcendente. Sua história desafia dogmas estéreis e convida a uma espiritualidade encarnada, onde o divino se manifesta no cotidiano. No 13 de maio de 2025, celebrá-la é reconhecer que, em sua trajetória, encontramos um mapa para navegar as complexidades da existência, unindo céu e terra, tradição e renovação. Como síntese do feminino sagrado e da disponibilidade ao mistério, Maria permanece, afinal, uma resposta viva aos anseios mais profundos da humanidade.

    Referências
    ARQUIDIOCESE DE UBERABA. A Virgem Maria na Teologia. Arquidiocese de Uberaba, [s.d.]. Disponível em: https://arquidiocesedeuberaba.org.br/a-virgem-maria-na-teologia/. Acesso em: 12 maio 2025.
    CASALDÁLIGA, Pedro. Poesia de Pedro Casaldáliga transforma Maria em todas as mulheres. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/605492-poesia-de-pedro-casaldaliga-transforma-maria-em-todas-as-mulheres. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Como Maria, a mãe judia de Jesus, se tornou a virgem que deu à luz a Deus. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Entrevista com James D. Tabor. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/78-noticias/602004-como-maria-a-mae-judia-de-jesus-se-tornou-a-virgem-que-deu-a-luz-a-deus-entrevista-com-james-d-tabor. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Contemplação do encontro de Maria com o Ressuscitado. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/78-noticias/597943-contemplacao-do-encontro-de-maria-com-o-ressuscitado. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Dom Leonardo: Em Maria, encontramos respostas; nos tornamos pessoas mais disponíveis. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/categorias/615135-dom-leonardo-em-maria-nos-encontramos-respostas-nos-nos-tornamos-pessoas-mais-disponiveis. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Francisco encerra polêmicas seculares sobre Nossa Senhora: “Maria é mãe, não deusa”. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/607814-francisco-encerra-polemicas-seculares-sobre-nossa-senhora-maria-e-mae-e-nao-deusa-expressoes-as-vezes-exageradas. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Maria, a glorificada, e a crise pós-moderna. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/185-noticias/noticias-2016/559142-maria-a-glorificada-e-a-crise-pos-moderna. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Maria de Nazaré à luz da mariologia desenvolvida a partir do Concílio Vaticano II. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/78-noticias/598632-maria-de-nazare-a-luz-da-mariologia-desenvolvida-a-partir-do-concilio-vaticano-ii. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Maria, a mulher mais jovem do que o pecado. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Artigo de Michele Giulio Masciarelli. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/185-noticias/noticias-2016/563199-maria-a-mulher-mais-jovem-do-que-o-pecado-artigo-de-michele-giulio-masciarelli. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Não façam isso com a mãe de Jesus. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/78-noticias/589385-nao-facam-isso-com-a-mae-de-jesus. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Para Maria, por Jesus: A virgem na teologia feminista. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/categorias/615453-para-maria-por-jesus-a-virgem-na-teologia-feminista. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. “Num momento da história, o centro de tudo está numa mulher”. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/sobre-o-ihu/78-noticias/574634-num-momento-da-historia-o-centro-de-tudo-esta-numa-mulher. Acesso em: 12 maio 2025.
    BOFF, Leonardo. A porção feminina de Deus. Leonardo Boff, 30 ago. 2014. Disponível em: https://leonardoboff.org/2014/08/30/a-porcao-feminina-de-deus/. Acesso em: 12 maio 2025.
    ROSARY CENTER. Maria na Teologia dos Padres – Parte 2. Rosary Center, [s.d.]. Disponível em: https://rosarycenter.org/pt/ll73n2-mary-in-the-theology-of-the-fathers-part-2. Acesso em: 12 maio 2025.
    REVISTA CULTURA TEOLÓGICA. Maria de Nazaré: Perspectivas teológicas. Revista Cultura Teológica, [s.d.]. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/culturateo/article/download/14360/11834/38580. Acesso em: 12 maio 2025.

  • 90 anos da Paróquia São Sebastião de Taiobeiras: leigos em missão!

    90 anos da Paróquia São Sebastião de Taiobeiras: leigos em missão!

    Em 20 de maio de 1935, 90 anos atrás, nascia em Taiobeiras uma experiência de fé cristã que se tornaria símbolo de resistência, esperança e protagonismo leigo: a Paróquia São Sebastião. Seu jubileu, em 2025, não é apenas uma marca temporal, mas um testemunho vivo de como os batizados, quando assumem sua vocação com ardor missionário, podem transformar a Igreja e o mundo.

    Raízes em um solo fértil: a Igreja pós-Concílio

    A história desta paróquia se entrelaça com os ventos renovadores do Concílio Vaticano II (1962–1965), que desafiou os leigos a saírem da plateia e se tornarem assembleia, para serem “sal da terra e luz do mundo”. Essa chamada ecoou na América Latina por meio dos encontros de Medellín (1968) e Puebla (1979), documentos que denunciaram estruturas de opressão e propuseram uma Igreja encarnada, na qual os pobres são sujeitos de sua própria história.

    Em Montes Claros, esse espírito que já vinha animando a vida da Igreja com Dom José Trindade, que participou do Vaticano II, ganhou corpo na 3ª Assembleia Diocesana de Pastoral (1990), sob o pastoreio de Dom Geraldo Majela de Castro, O.Praem. O documento Compromissos Eclesiais e Diretrizes Pastorais (1990) não foi apenas um texto: tornou-se um grito profético que ressoou em Taiobeiras. Ali, Frei João José de Jesus, OFM, então pároco, no espírito franciscano que já vinha de Frei Jucundiano de Kok e vários outros confrades, compreendeu que a renovação eclesial dependia de descentralizar o poder e confiar aos leigos espaços de participação e decisão.

    Conselheiros Paroquiais: rostos de uma Igreja ministerial

    A história da Paróquia São Sebastião de Taiobeiras é marcada por leigos que, em diferentes contextos, traduziram sua fé em ação missionária. A seguir, a lista cronológica dos Conselheiros Paroquiais, com suas respectivas vinculações pastorais, representantes dos milhares de leigos e leigas taiobeirenses que, ao longo dessas nove décadas, vivenciaram ardorosamente o seu batismo:

    NomeMandatoGrupo / Comunidade / Pastoral
    Elísio Valter dos Santos1990–1993;
    1998–1999
    Liga Católica Jesus, Maria e José / CEBs
    Vitor Hugo Teixeira1994–1998Legião de Maria
    Neide Ferreira de Souza2000Catequese (1ª Comunhão e Crisma)
    Rosa Croccoli2001–2004Comunidades Eclesiais de Base (CEBs)
    Levon Nascimento2005–2008Pastoral da Juventude / CEBs
    Welton Silveira Mendes2009–2010Catequese (1ª Comunhão e Crisma)
    Jurailde Ferreira de Souza2010–2021Catequese (1ª Comunhão e Crisma)
    José Maria Alves Sucupira2021–2023Renovação Carismática Católica (RCC)
    Edvaldo Nogueira dos Santos2023–atualRCC / Liturgia

    Cada conselheiro, inserido em seu tempo, encarnou a missão de “ser Igreja” além dos muros do templo, conforme as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da CNBB, que destacam a formação integral do leigo nas dimensões humana, sociopolítica e espiritual. “Os leigos, por seu batismo, são chamados a participar da missão sacerdotal, profética e real de Cristo” (Lumen Gentium, 31).

    90 anos: um legado que interpela o futuro

    A lista dos conselheiros não é um arquivo poeirento, mas um mapa vivo da sinodalidade. Ela revela:

    1. Adaptação aos desafios temporais: da implantação do Concílio Vaticano II ao legado do Papa Francisco frente à crise climática;
    2. Continuidade na formação: mantendo viva a transmissão da fé às novas gerações, atendendo ao chamado conciliar por “formação permanente”;
    3. Ecumenismo prático: a presença de movimentos diversos — Liga Católica, Legião de Maria, Vicentinos, RCC, Pastorais Sociais e CEBs — mostra como a paróquia abraçou a pluralidade, antecipando o apelo do Sínodo sobre a Sinodalidade (2021–2024) por “relações autênticas e não tóxicas”.

    Este legado interroga o futuro: como os próximos conselheiros responderão a desafios como a crise ecológica (tema da Campanha da Fraternidade 2025 e da Laudato Si’, do Papa Francisco) ou à crescente secularização? A resposta está na semente plantada por esses leigos: fidelidade criativa, que une tradição e ousadia, tal como propõem as Diretrizes da CNBB ao falar em “traduzir o Evangelho em orientações pastorais ajustadas”.

    Parabéns, Paróquia São Sebastião! Seu jubileu é um convite a continuar escrevendo história — com as mãos dos pequenos, como sempre fez o Deus do Evangelho.

    Fontes:
    – Documentos da 3ª Assembleia Diocesana de Montes Claros (1990)
    – Concílio Vaticano II
    – Documentos de Medellín (1968) e Puebla (1979)
    – Registros paroquiais de Taiobeiras

  • Apedrejar a Terra adulterada ou cuidar da Casa Comum? (5º Domingo / Quaresma 2025)

    Apedrejar a Terra adulterada ou cuidar da Casa Comum? (5º Domingo / Quaresma 2025)

    A Campanha da Fraternidade 2025, com o tema “Fraternidade e Ecologia Integral” e o lema “Deus viu que tudo era muito bom” (Gn 1,31), convida-nos a uma reflexão profunda sobre nossa relação com a criação, em sintonia com a espiritualidade quaresmal. As leituras do 5º Domingo da Quaresma (06/04/2025) oferecem um horizonte teológico e prático para essa conexão, unindo conversão pessoal, justiça social e cuidado com a Casa Comum.

    Isaías 43,16-21: Deus faz novas todas as coisas

    O profeta Isaías anuncia um futuro transformador: “Eis que eu farei coisas novas” (v. 19). A imagem de rios brotando no deserto simboliza a capacidade divina de restaurar a vida em meio à aridez. Essa promessa ressoa com a urgência da Ecologia Integral, que clama por ações concretas para reverter a crise socioambiental. A Campanha da Fraternidade 2025, inspirada nas palavras do Papa Francisco na encíclica Laudato Si’ e na COP-30, propõe justamente essa renovação: abandonar modelos predatórios e abraçar um novo paradigma de harmonia, onde a natureza não é explorada, mas reverenciada como dom sagrado. O convite a “não olhar para o passado” (v. 18) desafia-nos a superar a inércia e assumir responsabilidades, como sugere o texto-base da CF 2025 ao denunciar “falsas soluções” ambientais.

    Salmo 125(126): A alegria da colheita após o deserto

    O salmo celebra a alegria da restauração: “Os que lançam as sementes entre lágrimas, ceifarão com alegria” (v. 5). A metáfora agrícola remete à ecologia como trabalho paciente e coletivo. A Campanha da Fraternidade enfatiza que a sustentabilidade exige esforço contínuo, desde práticas pedagógicas em escolas até a defesa de comunidades afetadas por crimes ambientais. A “colheita” de um mundo mais justo só virá se semearmos hoje gestos de cuidado, como propõe a CF 2025 ao incentivar projetos de hortas comunitárias, consumo consciente e redução de emissões de gases de efeito estufa.

    Filipenses 3,8-14: Correr para a meta, esquecendo o que ficou para trás

    Paulo afirma: “Esquecendo o que fica para trás, eu me lanço para o que está na frente” (v. 13). Essa dinâmica de conversão integral ecoa o objetivo da Campanha: superar o pecado da indiferença ecológica e adotar um estilo de vida coerente com a fé. A Ecologia Integral, como eixo transversal da CF 2025, exige uma mudança radical no modelo econômico e no consumo. Paulo nos lembra que a meta, a “ressurreição” (v. 11), só é alcançada quando abandonamos o que nos afasta do projeto de Deus, incluindo a exploração desmedida dos recursos naturais.

    João 8,1-11: Misericórdia e responsabilidade coletiva

    O episódio da mulher adúltera revela a pedagogia de Jesus: condena o julgamento hipócrita e convida à transformação pessoal (“Não peques mais”, v. 11). A CF 2025, ao denunciar a “crise antropológica” por trás da degradação ambiental, recorda que a ecologia começa com o reconhecimento de nossa fragilidade. Não basta apontar culpados; é preciso, como Jesus, agir com misericórdia e compromisso. A mulher, restaurada em sua dignidade, simboliza a Terra ferida que clama por justiça, um apelo central da Campanha, que defende vítimas de catástrofes e crimes ambientais e climáticas.

    Quaresma, tempo de reconstruir a aliança

    As leituras deste Domingo iluminam a Quaresma como jornada de renovação da aliança: com Deus, com os irmãos e com a criação. A Campanha da Fraternidade 2025, ao vincular fé e ecologia, convida-nos a ser artífices dessa reconciliação. Se Isaías fala de “rios no deserto”, a CF propõe gestos concretos — da compostagem às mobilizações políticas. Se o Salmo canta a colheita, a Campanha nos lembra que “tudo está interligado” (Laudato Si’). E se o Evangelho nos liberta da condenação, a Ecologia Integral exige que, como Paulo, corramos sem hesitar rumo a um futuro onde a vida, em todas as suas formas, seja celebrada como “muito boa”.

    Neste Ano Jubilar, a Quaresma é tempo de ouvir o grito da Terra e dos pobres, e responder com ações que traduzam o lamento em louvor. Como escreveu São Francisco no Cântico das Criaturas, há 800 anos, a criação é espelho do Criador. Cabe a nós preservar esse reflexo, transformando cinzas em esperança.

  • Padre Júlio Lancellotti: o profeta do Pão da igualdade

    Padre Júlio Lancellotti: o profeta do Pão da igualdade

    “Se calarem a voz dos profetas
    As pedras falarão”
    — Cecília Vaz, Pão da Igualdade

    Na esquina entre a cruz e a rua, entre a fé e o asfalto, caminha um homem que carrega nas mãos o pão da igualdade. Padre Júlio Lancellotti não se contenta com orações que não se misturem à poeira das calçadas. Sua voz, ecoando os versos de Cecília Vaz, é a dos profetas que não se calam: denuncia a fome, a exclusão e as pedras pontiagudas da indiferença.

    “Se fecharem os poucos caminhos
    Mil trilhas nascerão”

    Em uma cidade onde bancos públicos se tornaram armadilhas contra corpos cansados, Lancellotti ergueu-se como o desenhista de novas trilhas. Lutou contra a arquitetura hostil – aquela que espreita em formas de concreto feito para machucar – e venceu. A lei que leva seu nome, aprovada após um veto derrubado, transformou-se em ferramenta de reconstrução: “Não queremos cidades que expulsem, mas que abracem”, declarou, ecoando o verso que anuncia: “Deus criou o infinito pra vida ser sempre e mais”.

    “No banquete da festa de uns poucos
    Só rico se sentou
    Nosso Deus fica ao lado dos pobres
    Colhendo o que sobrou”

    Enquanto alguns pregam a prosperidade de púlpitos dourados, Lancellotti serve café e dignidade debaixo de viadutos. Suas homilias são atos: distribuir comida, denunciar a exploração dos invisíveis, enfrentar até mesmo os que usam a fé como arma política. “Comungar é tornar-se um perigo”, diz a canção – e ele, de fato, virou risco para os que preferem o silêncio. Quando tentaram calá-lo com pedidos de CPI ou críticas veladas, ministros e entidades saíram em sua defesa, lembrando que “o poder tem raízes na areia/ O tempo o faz cair”.

    “O Espírito é vento incessante
    Que nada há de prender
    Ele sopra até no absurdo
    Que a gente não quer ver”

    Sua pastoral é ventania. Durante a pandemia, enquanto o medo paralisava o país, ele andava de máscara e galocha, desafiando a lógica do “cada um por si”. O Conselho Nacional de Saúde reconheceu: sua solidariedade não era caridade, mas comunhão – palavra que, na canção de Cecília Vaz, significa “com a luta sofrida do povo/ Que quer ter voz, ter vez, lugar”. Para ele, como nos versos, a missa só faz sentido se celebrada nas ruas: “Viemos pra incomodar/ Com a fé e a união nossos passos/ Um dia vão chegar”.

    Muito tempo não dura a verdade
    Nestas margens estreitas demais”

    Lancellotti sabe que a justiça não cabe em pequenezas. Criticou até a própria Igreja quando esta hesitou, lembrando que o Evangelho não é patrimônio de instituições, mas “pão de igualdade” partilhado. Quando uma TV católica propagou discursos de ódio, ele respondeu com a dureza dos que não negociam princípios: “União é a rocha que o povo/ Usou pra construir”.

    “Toda luta verá o seu dia
    Nascer da escuridão
    Ensaiamos a festa e a alegria
    Fazendo comunhão”

    Padre Júlio Lancellotti não é santo de altar – é profeta de calçada. Sua história se entrelaça com a canção que canta “Jesus, pão da igualdade”, porque ele sabe: fé sem luta é farisaísmo. Enquanto houver grades sob marquises e fome disfarçada de estatística, ele seguirá sendo a voz que as pedras não precisarão substituir. Afinal, como diz Cecília Vaz, “com a fé e a união nossos passos/ Um dia vão chegar” – e ele já está a caminho.

  • Conversão ecológica: um chamado quaresmal (Quarto Domingo da Quaresma, 2025)

    Conversão ecológica: um chamado quaresmal (Quarto Domingo da Quaresma, 2025)

    A Quaresma nos convida à conversão, um retorno ao essencial. Em 2025, a Campanha da Fraternidade, com o tema Ecologia Integral, desafia-nos a ampliar essa conversão para nossa relação com a criação. As leituras do quarto domingo da Quaresma (30/03/2025) oferecem um mapa espiritual para essa jornada, unindo fé e cuidado com a Casa Comum.

    Primeira Leitura (Josué 5,9a.10-12): Ao entrar na Terra Prometida, os israelitas celebram a Páscoa e substituem o maná pelos frutos da terra. O fim do maná simboliza a transição de uma dependência passiva para uma gestão ativa dos recursos. Deus confia a eles a terra, mas exige responsabilidade. Hoje, a Ecologia Integral nos chama a reconhecer que a Terra é um empréstimo sagrado. Como afirma o Papa Francisco em Laudato Si’ (LS 67), “cada comunidade pode tomar da bondade da terra aquilo de que necessita para a sua sobrevivência, mas tem também o dever de protegê-la”. A colheita sustentável de Canaã é um modelo para nosso uso consciente dos bens naturais.

    Salmo 33(34): “Provai e vede quão suave é o Senhor!” [Sl 33(34),9]. O salmo celebra a bondade de Deus, experimentada na criação. Se “o Senhor ouve o clamor dos pobres” [Sl 33(34),7], também escuta o grito da Terra, explorada por um sistema que privilegia o lucro sobre a vida. A Ecologia Integral nos convida a “saborear” a natureza não como consumidores, mas como contemplativos, reconhecendo nela um sacramento da presença divina. A gratidão deve traduzir-se em ações que preservem a biodiversidade e garantam justiça socioambiental.

    Segunda Leitura (2 Coríntios 5,17-21): “Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura” (2Cor 5,17). Paulo fala de uma reconciliação que transcende o humano: Cristo veio “reconciliar consigo mesmo tudo o que existe” (Cl 1,20). A “nova criação” inclui a restauração dos ecossistemas. Como embaixadores de Cristo, somos chamados a sanar rupturas: entre humanos e Deus, entre povos e entre a humanidade e a Terra. A Ecologia Integral, como propõe a Laudato Si’ (LS 91), lembra que “tudo está interligado”, exigindo uma conversão que una justiça social e ambiental.

    Evangelho (Lucas 15,1-3.11-32): A parábola do filho pródigo ilustra o drama humano: o jovem esbanja recursos e só reconhece seu erro na escassez. Sua volta à casa paterna é metáfora da conversão ecológica: é preciso frear a exploração desmedida e retornar ao equilíbrio. O pai, que corre ao encontro do filho, reflete a misericórdia divina, ansiosa por restaurar relações. Já o irmão mais velho, que critica a festa, simboliza a resistência à mudança, como aqueles que negam a crise climática. A Quaresma nos convida à festa da reconciliação, incluindo a Terra na celebração.

    Neste tempo de penitência, as leituras nos desafiam a jejuar do consumismo, orar pela criação e agir como embaixadores da reconciliação. A Ecologia Integral não é opção, mas imperativo evangélico. Como o filho pródigo, precisamos dizer: “Pai, pequei contra o céu, contra ti e contra a Terra”. E ouvir, no perdão, um chamado à renovação. Que o quarto domingo da Quaresma nos encontre, como diz o salmo, “procurando a paz e seguindo seu caminho” [Sl 33(34),15], rumo a uma ecologia de comunhão, onde tudo seja cuidado como dom divino.

  • Quem cuida de Francisco não dorme

    Quem cuida de Francisco não dorme

    A escalada do extremismo de direita entre católicos, em objetiva contradição com Jesus e o Evangelho, e também com o Concílio Vaticano II, a Doutrina Social da Igreja e o pontificado de Francisco, é uma chaga dolorosa no corpo místico de Cristo.

    Preferem seguir ídolos autodenomidados “influencers” em vez dos planos pastorais tão teologicamente bem engendrados pela colegialidade da Igreja.

    Cegam-se para a palavra e os exemplos de coragem e profetismo do Papa Francisco, negando-lhe até mesmo a caridade da oração pela cura na internação recente.

    Outros, avançam no mar das trevas, enquanto oram o rosário sem meditar nas palavras de Maria no Magnificat (Lucas 1,46-55). Com desassombro, chegam a desejar a morte do vigário de Cristo na Terra.

    Perseguem ao Padre Júlio Lancellotti, que acode o povo em situação de rua de São Paulo; difamam ao Frei Lorrane, que testemunha Francisco de Assis na prática pelas ruas de Salvador; renegam ao Frei Sérgio Görgen, que ensina teologia nos fazeres da lida diária; e tentam apagar a memória do martírio de Irmã Dorothy Stang.

    Estão doentes de ódio. Trocaram o verdadeiro Messias por aquele outro, de pés de barro.

    O que me anima, como disse um amigo que nem católico é, ao comentar minha postagem de felicidade no dia em que o papa recebeu alta hospitalar, é que “para tristeza de muitos, quem cuida da vida de Francisco não dorme nunca”.

    “Coragem, eu venci o mundo” (João 16,33b) – disse-nos Jesus.

  • Sarça e Figueira: sinais de uma conversão que renova o coração e a Terra (3° Dom/Quaresma 2025)

    Sarça e Figueira: sinais de uma conversão que renova o coração e a Terra (3° Dom/Quaresma 2025)

    A Quaresma deste ano é um convite para redescobrirmos a mão de Deus agindo na natureza. Não se trata apenas de um momento de oração, mas de um chamado para vivermos uma fé que abraça não só o espírito, mas também o chão que pisamos, o ar que respiramos e todas as formas de vida que nos rodeiam. A Campanha da Fraternidade 2025, com seu tema Ecologia Integral, chega como um lembrete urgente: como estamos cuidando da nossa Casa Comum?

    Vamos mergulhar nas leituras do Terceiro Domingo da Quaresma (23/03/2025) para encontrar respostas que unem céu e terra.

    Na passagem da sarça ardente (Êxodo 3,1-8.13-15), Moisés se surpreende com um mistério divino que arde no meio do deserto. A sarça não é consumida pelo fogo, revelando um Deus que está presente na vida que persiste, mesmo em meio à aridez. Não é bonito pensar que o Criador escolheu uma planta para revelar seu nome? Isso nos desafia: será que hoje reconhecemos Sua voz nos rios, nas florestas e até nas pequenas ações de cuidado com a criação?

    Já São Paulo, em 1 Coríntios 10,1-6.10-12, nos alerta com a força de quem conhece as fraquezas humanas. Ele lembra que uma fé desconectada da prática vira algo vazio, como água que escorre sem nutrir a terra. Quantas vezes caímos na armadilha de rezar sem agir, de criticar sem cuidar, de consumir sem pensar nas consequências? O apóstolo nos sacode: não basta crer; é preciso transformar.

    O Evangelho de Lucas 13,1-9 traz a parábola da figueira estéril. Imagine a cena: uma árvore que não dá frutos está prestes a ser cortada, mas ganha uma última chance. O agricultor pede tempo para cavar a terra, adubá-la, dar-lhe atenção. Essa é a paciência de Deus conosco! Ele não desiste de nós, mas nos chama a dar frutos de justiça e cuidado. A pergunta é: o que estamos fazendo com o “tempo extra” que recebemos para mudar nossos hábitos, reduzir desperdícios ou defender os mais vulneráveis?

    Quando unimos essas lições bíblicas aos ensinamentos da Doutrina Social da Igreja e da encíclica Laudato Si’, vemos que a Ecologia Integral não é só um conceito, mas um estilo de vida. O Papa Francisco nos lembra que “tudo está interligado”. Não há amor a Deus sem respeito à Sua criação, nem justiça social sem equilíbrio ambiental.

    Que tal começar hoje? Pequenos gestos contam: evitar o plástico descartável, apoiar projetos comunitários, ou simplesmente contemplar um pôr do sol com gratidão. A conversão ecológica não é um peso, mas um caminho de esperança — porque, assim como a sarça ardente e a figueira renovada, nós também podemos ser sinais de que um mundo mais fraterno e verde é possível.

    E você? Qual “terra seca” em sua vida precisa ser adubada para florescer? 🌱

  • Terra Transfigurada: aliança e esperança na Ecologia Integral (2° Dom/Quaresma)

    Terra Transfigurada: aliança e esperança na Ecologia Integral (2° Dom/Quaresma)

    Por Levon Nascimento

    A Quaresma não é só um tempo de mudança interior, mas também de transformação do mundo ao nosso redor. Em 2025, a Campanha da Fraternidade traz o tema Ecologia Integral, nos convidando a olhar para as leituras do segundo domingo da Quaresma e perceber a conexão profunda entre humanidade e criação. Nos textos de Gênesis 15, Filipenses 3-4 e Lucas 9, há um chamado claro para reconciliarmos nossa relação com a Terra, ecoando a mensagem do Papa Francisco na Laudato Si’: “Tudo está interligado”.

    A aliança da Terra (Gênesis 15,5-12.17-18). Deus leva Abrão para a Terra Prometida, um lugar fértil e cheio de vida, a “Casa Comum” de nossos primitivos pais na fé, onde sua descendência poderá viver (Gn 15,5-7). Mas essa promessa não se limita a um povo — ela inclui a própria terra como um dom para todos. O ritual dos animais partidos (Gn 15,9-10) sela uma aliança firme: a Terra é presente de Deus, não um recurso para exploração desenfreada. No entanto, hoje quebramos esse pacto quando desmatamos florestas e poluímos rios. A Ecologia Integral nos lembra que cuidar da criação não é uma escolha opcional, mas um compromisso sagrado.

    Cidadania celeste e responsabilidade na Terra (Filipenses 3,17–4,1). Paulo alerta: “O destino deles é a perdição; o deus deles é o ventre” (Fl 3,19). Quando transformamos a natureza em simples mercadoria, perdemos de vista nossa verdadeira missão. Nossa cidadania está no céu (Fl 3,20), mas isso não significa que devemos ignorar a Terra — pelo contrário, somos chamados a cuidar dela. A esperança na ressurreição inclui também a “libertação da criação” (Rm 8,21). Por isso, a Ecologia Integral é um ato de fé: protegemos a Terra porque esperamos “um Salvador que transformará nosso corpo” (Fl 3,21) e renovará toda a criação.

    A glória que transforma o mundo (Lucas 9,28-36). No Monte Tabor, Jesus se transfigura diante dos discípulos, e Moisés e Elias falam sobre seu sacrifício, que trará redenção a toda a criação (Lc 9,31). A voz do Pai ordena: “Escutai-o!” (Lc 9,35). E o que Jesus faz depois? Ele desce da montanha para alimentar multidões (Lc 9,10-17), curar os doentes e lutar contra a injustiça. A Transfiguração não é uma fuga da realidade, mas um convite a enxergar que o mundo pode ser transformado. A Ecologia Integral nos desafia a ouvir esse chamado e buscar mudanças reais, adotando modelos econômicos e sociais que promovam a vida, não a destruição.

    A Quaresma de 2025 nos propõe um jejum diferente: abrir mão da ganância para que a Terra possa respirar. A Campanha da Fraternidade, à luz dessas leituras, nos convida a sair do egoísmo e abraçar uma aliança de cuidado com a criação. Que a promessa feita a Abrão (Abraão) — uma Terra onde corre leite e mel — nos inspire a construir, hoje, um mundo onde a glória de Deus se manifeste em cada gesto de justiça e cuidado com a vida.

  • A Quaresma e a Campanha da Fraternidade 2025: um chamado à conversão ecológica

    A Quaresma e a Campanha da Fraternidade 2025: um chamado à conversão ecológica

    A Quaresma é um período de 40 dias na liturgia católica que antecede a Páscoa, celebrando a ressurreição de Jesus Cristo. É um tempo de reflexão, penitência, oração e conversão, no qual os fiéis são convidados a se aproximar de Deus por meio do jejum, da caridade e da oração. A Quaresma é um momento propício para renovar a fé e viver uma vida mais alinhada com os valores do Evangelho.

    A Campanha da Fraternidade (CF) é uma iniciativa da Igreja Católica no Brasil, realizada anualmente durante a Quaresma, com o objetivo de promover a solidariedade, a justiça social e a conversão pessoal e comunitária. Desde 1964, a CF aborda temas relevantes para a sociedade, convidando os fiéis a refletir e agir em prol do bem comum.

    Em 2025, a Campanha da Fraternidade terá como tema “Fraternidade e Ecologia Integral” e o lema “Deus viu que tudo era muito bom” (Gn 1,31). O tema chama a atenção para a necessidade de cuidar da criação, reconhecendo que tudo o que Deus criou é bom e que o ser humano tem a responsabilidade de proteger e preservar a natureza. A ecologia integral, proposta pelo Papa Francisco na encíclica Laudato Si’, vai além do cuidado com o meio ambiente, abrangendo também as dimensões sociais, econômicas e espirituais da vida humana.

    O lema “Deus viu que tudo era muito bom” remete ao relato bíblico da criação, no qual Deus contempla sua obra e a declara boa. Esse versículo nos convida a reconhecer a beleza e a bondade da criação, mas também a refletir sobre como o pecado humano tem ferido essa harmonia. A CF 2025 nos desafia a viver uma conversão ecológica, mudando nossos hábitos e atitudes para cuidar da “Casa Comum”, o planeta Terra.

    A vivência da Campanha da Fraternidade durante a Quaresma é profundamente significativa. A Quaresma é um tempo de conversão, e a CF 2025 nos convida a uma conversão integral, que inclui o cuidado com o meio ambiente. A ecologia integral não se limita à preservação da natureza, mas também envolve a justiça social, o respeito aos povos indígenas e tradicionais, e a busca por um modelo de desenvolvimento mais sustentável.

    Ao unir a Quaresma e a Campanha da Fraternidade, a Igreja nos convida a viver um tempo de profunda reflexão e ação. A Quaresma nos prepara para a Páscoa, celebrando a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte, enquanto a CF 2025 nos desafia a ser agentes de transformação no mundo, cuidando da criação e promovendo a fraternidade universal.

    Portanto, a Campanha da Fraternidade 2025, com seu tema e lema, nos convida a viver a Quaresma de forma mais consciente e comprometida, reconhecendo que a conversão ecológica é um caminho essencial para a construção de um mundo mais justo, solidário e sustentável. Que este tempo quaresmal seja uma oportunidade para renovarmos nosso compromisso com Deus, com o próximo e com a criação.

  • Você reza pela saúde do Papa Francisco?

    Você reza pela saúde do Papa Francisco?

    Em tempos de incerteza e angústia, a fé tem o poder de unir corações ao redor do mundo. A presente internação do Papa Francisco, que enfrenta complicações decorrentes de uma pneumonia dupla, tem mobilizado fiéis, líderes religiosos e instituições, tanto no Brasil quanto no exterior, para uma corrente de oração e esperança. Essa mobilização não apenas evidencia a relevância do pontífice da “Casa Comum” para milhões de pessoas, mas também ressalta como momentos de fragilidade podem fortalecer a comunhão e a solidariedade entre os cristãos e não-cristãos.

    Na Catedral de Buenos Aires, antiga sede do então Cardeal Bergoglio (Francisco), fiéis se reuniram em uma vigília de oração no domingo, 23. Esse gesto manifesta a devoção que move aqueles que, com fé, desejam a recuperação do Santo Padre argentino, reafirmando que a esperança é coletiva.

    No Brasil, a mobilização é ainda mais intensa e diversificada. De Norte a Sul, inúmeras iniciativas foram organizadas para interceder a Deus pela saúde do Papa. Há relatos de orações diárias em várias dioceses e paróquias de todos os cantos do país. Líderes religiosos enfatizam a importância de se unir em prece, recordando momentos bíblicos, como a libertação de Pedro, primeiro papa segundo os católicos, nos Atos dos Apóstolos, e comparando-os à situação atual do pontífice, cuja recuperação é esperada pelos que se acostumaram à sua autenticidade evangélica.

    Enquanto muitos fiéis se dedicam às orações locais, a iniciativa dos cardeais residentes em Roma destaca um movimento de união em nível global. Na Praça São Pedro, os purpurados, acompanhados por colaboradores da Cúria Romana e da Diocese de Roma, reúnem-se todas as noites, às 21 h locais (17 h no horário de Brasília), para rezar o terço em favor do Papa.

    Além das iniciativas promovidas pelas hierarquias e comunidades locais, organizações como a Sociedade São Vicente de Paulo (SSVP Brasil) organizaram uma semana inteira de oração dedicada à recuperação do Papa. A programação especial tem momentos de reflexão, missa e preces coletivas.

    Por fim, a convocação dos bispos de todo o Brasil reforça que essa é uma causa que vai muito além dos muros da Igreja. O apelo por orações evidencia não só o profundo respeito e carinho que o Papa Francisco desperta, mas também a responsabilidade dos líderes da Igreja em estimular uma atitude solidária em um momento tão delicado.

    A pergunta “Você reza pela saúde do Papa Francisco?” vai além de um mero ato religioso; ela é um convite para refletir sobre a importância da fé, da união e da esperança em tempos de crise, em favor de um gigante do nosso tempo. Independentemente das crenças pessoais, esse momento nos relembra que, muitas vezes, o que nos une é maior do que qualquer diferença – e que a oração, como expressão de solidariedade, tem o poder de transformar as circunstâncias mais difíceis em oportunidades de renovação e comunhão.

  • Há quem queira mal ao Papa Francisco? Entenda o contexto

    Há quem queira mal ao Papa Francisco? Entenda o contexto

    Em meio à recente internação do Papa Francisco, que desperta preocupação global, emerge nas sombras um fenômeno perturbador: campanhas de ódio e especulações prematuras lideradas por setores da extrema-direita, tanto dentro quanto fora da Igreja Católica. Enquanto fiéis ao redor do mundo oram por sua recuperação, grupos conservadores e figuras políticas aproveitam o momento para atacar seu legado, revelando não apenas uma divergência ideológica, mas uma rejeição aos princípios cristãos que Francisco encarna.

    Como destacado pelo site UOL, há uma “torcida pela morte do Papa Francisco nas redes”, um reflexo da “escalada do ódio” em tempos de polarização (Sakamoto, 2025). Esse comportamento, que transforma a fragilidade humana em espetáculo macabro, contrasta radicalmente com a mensagem de compaixão e misericórdia que o pontífice defende. Não se tratam apenas de críticas políticas, mas de um ataque à própria essência do cristianismo, que Francisco busca revitalizar: um compromisso com os pobres, a justiça social e a ecologia integral.

    A oposição ao Papa frequentemente se disfarça de zelo doutrinário, mas esconde interesses escusos. Phyllis Zagano, citada no site do Instituto Humanitas Unisinos (IHU), aponta que, embora figuras como Donald Trump contratem católicos para sua base, “suas ações não refletem em nada a doutrina social católica” (Zagano, 2024). Essa contradição expõe como setores conservadores instrumentalizam a religião para fins de poder, ignorando ensinamentos centrais como o acolhimento a migrantes e a denúncia da desigualdade.

    Francisco, ao contrário, insiste em temas incômodos para elites políticas e econômicas. Seu apelo por “uma Igreja pobre para os pobres” e suas críticas ao “capitalismo selvagem” desestabilizam alianças entre religiosos e poderosos. Não é casual que, como revela o IHU, haja suspeitas de que um futuro conclave esteja sendo “organizado com dólares estadunidenses” para enfraquecer seu legado (IHU, 2023). A batalha é também financeira: setores conservadores, muitas vezes apoiados por magnatas, buscam o retorno a uma Igreja mais dogmática e menos envolvida com causas sociais.

    Dentro da Cúria, cardeais alinhados à direita já sinalizam movimentos para influenciar o próximo conclave. Jean-Claude Hollerich, arcebispo de Luxemburgo, denuncia: “É horrível que os cardeais já estejam trabalhando no conclave” enquanto o Papa vive (IHU, 2023). A pressa em enterrar seu pontificado revela o medo de que suas reformas, como a descentralização do poder (sinodalidade) e a abertura a divorciados e LGBTQ+, se tornem irreversíveis.

    Contudo, como argumenta outro artigo do IHU, “se o conclave quiser um segundo Francisco, eis o nome e o programa” (IHU, 2023). A resistência à sua agenda é, paradoxalmente, um sinal de seu êxito. Seu estilo pastoral, marcado pelo diálogo e pela simplicidade, resgata o núcleo do Evangelho, frequentemente obscurecido por disputas teológicas. Francisco lembra que “alguém rezou para que eu fosse para o paraíso, mas o Senhor da colheita decidiu me deixar aqui por um tempo” (IHU, 2024). Sua permanência é um convite à Igreja para não fugir de sua missão profética.

    A aversão da extrema-direita ao Papa Francisco não é mera disputa eclesiástica. É a rejeição de um cristianismo que desafia estruturas de opressão. Seus críticos preferem uma fé ornamental, alheia aos gritos dos marginalizados. Francisco, porém, insiste que a autenticidade cristã está no serviço, não no poder.

    Enquanto especulações e ódio tentam silenciar sua voz, seu exemplo persiste: uma Igreja que cheira às ovelhas feridas, não aos palácios. Em tempos de cinismo, Francisco é um lembrete de que o Evangelho, quando vivido radicalmente, ainda pode incomodar e transformar o mundo.

    Links dos artigos citados:

    1. https://www.ihu.unisinos.br/648740-o-papa-a-meloni-alguem-rezou-para-que-eu-fosse-para-o-paraiso-mas-o-senhor-da-colheita-decidiu-me-deixar-aqui-por-um-tempo
    2. https://www.ihu.unisinos.br/648985-enquanto-trump-contrata-catolicos-suas-acoes-nao-refletem-em-nada-a-doutrina-social-catolica-artigo-de-phyllis-zagano
    3. https://ihu.unisinos.br/648950-chega-de-especulacoes-e-horrivel-que-os-cardeais-ja-estejam-trabalhando-no-conclave-entrevista-com-jean-claude-hollerich
    4. https://www.ihu.unisinos.br/categorias/636720-um-conclave-organizado-com-dolares-estadunidenses
    5. https://www.ihu.unisinos.br/categorias/616172-se-o-conclave-quiser-um-segundo-francisco-eis-o-nome-e-o-programa
    6. https://noticias.uol.com.br/colunas/leonardo-sakamoto/2025/02/23/torcida-pela-morte-do-papa-francisco-nas-redes-mostra-escalada-do-odio.htm
  • Tudo está interligado

    Tudo está interligado

    * Levon Nascimento

    Enquanto Donald Trump abandona o Acordo de Paris e busca salvar os canudinhos de plástico, em prejuízo do clima, de rios, mares, oceanos e da vida aquática; taxa os países pobres e em desenvolvimento de maneira exorbitante para garantir a riqueza de poucos bilionários, vindo a causar desemprego e fome nas periferias do mundo e de sua própria nação; expulsa os imigrantes dos Estados Unidos, à custa da contradição de ser ele próprio filho e marido de mulheres que migraram para aquele país; ameaça deportar massivamente os palestinos de suas casas e terras na Faixa de Gaza; em rebeldia, devemos nos recordar da poesia da criação, no capítulo primeiro do Gênesis, independentemente de crença ou descrença religiosa.

    O sagrado autor da tradição hebraica, ao elencar a criação da luz, do dia, da noite, do céu, da terra e do mar (Gn 1,3-10); da vegetação, (Gn 1,11-13); do sol, da lua, das estrelas (Gn 1,14-19); dos animais aquáticos e das aves (Gn 1,20-23); dos animais terrestres (Gn 1,24-25); e do ser humano (Gn 1,26-31), sempre arremata com “E Deus viu que era bom” (Gn 1,10b.12b.18b.21b.25b); e finaliza exultante, diante da humanidade, “Então Deus viu tudo quanto havia feito, e era muito bom” (Gn 1,31).

    No início do segundo milênio cristão, Francisco de Assis retoma essa visão de bondade criativa e exalta a natureza como presente divino. Il poverello de Assisi, assim cantou em êxtase, diante da beleza do mundo:

    Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas, especialmente o meu senhor irmão sol, o qual faz o dia e por ele nos alumia. E ele é belo e radiante com grande esplendor: de Ti, Altíssimo, nos dá ele a imagem. Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã lua e pelas estrelas, que no céu formaste claras, preciosas e belas. Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão vento, pelo ar, pela nuvem, pelo sereno, e todo o tempo, com o qual, às tuas criaturas, dás o sustento. Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã água, que é tão útil e humilde, e preciosa e casta. Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão fogo, pelo qual iluminas a noite: ele é belo e alegre, vigoroso e forte”.

    O padroeiro da ecologia enxergou a criação como extensão da bênção do criador. Retomou no cristianismo a visão religiosa que liga espírito e criação, humanidade e todos os demais seres vivos, o cósmico e o natural, a divindade e o mundo.

    Mais recentemente, o Papa Francisco, em sua Carta Encíclica Laudato Si’, retorna ao Gênesis e a São Francisco. Nela, o primeiro papa latino-americano aborda o cuidado da “Casa Comum”, que é o nosso Planeta Terra, destacando uma ecologia integral, que una as preocupações ambientais e sociais. Francisco convoca todos, crentes e não crentes, a refletirem sobre a degradação ambiental, como as alterações climáticas, a perda de biodiversidade e as desigualdades sócio-econômicas entre os seres humanos, propondo uma mudança de paradigma, para um desenvolvimento sustentável e solidário.

    Francisco conclui a Laudato Si’ convidando a todos para adotarem um novo estilo de vida, mais simples e solidário, expurgando a tentação consumista. Ele enfatiza a importância da esperança e da ação. Para o argentino, a criação é um ato de amor de Deus, logo, ela não pode ser encarada como objeto de troca econômica, de ganância e lucro, mas como dom e presente para todos os seres humanos e para todas as criaturas não-humanas. Tudo interligado.

    Partindo dessas três fontes irretocáveis da tradição cristã: o Gênesis, São Francisco de Assis e o Papa Francisco, pode-se proclamar que as escolhas de Trump, de seus asseclas da extrema-direita mundial e de sua demoníaca teologia do domínio são heréticas. Instrumentalizam Deus e seu Filho Jesus em nome do capital, da guerra e do lucro. Contaminam e profanam a criação, tanto quanto poluem as águas, os solos e os ares. Ignoram que “tudo está interligado, como se fôssemos um”. Entregam-se à morte e condenam os inocentes a morrer.

    É urgente resgatar a teologia do cuidado dentro da tradição cristã, quaisquer que sejam as denominações. Fontes teológicas é que não faltam. A fraternidade e a ecologia integral serão as formas pós-contemporâneas da verdadeira fidelidade de todo crente ao Evangelho de Jesus.

    * Levon Nascimento é leigo católico, professor de história e doutorando em  Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável.

  • Emergência climática e a Laudate Deum

    Emergência climática e a Laudate Deum

    O planeta está esquentando. O calorão do fim do ano passado, o dilúvio no Rio Grande do Sul, neste mês, e uma infinidade de outros acontecimentos comprovam, praticamente, o que a ciência já vinha alertando há anos.

    Não são necessários profetas do terror e do medo. Não é castigo de um Deus cruel e sanguinário, que para punir os pecadores mata os inocentes. É ciência. É capitalismo predatório. É questão ambiental e climática. Sem negacionismo e fake news!

    Os estudos científicos mostram que esse aquecimento é acelerado pela ação humana, através da emissão dos Gases de Efeito Estufa.

    Trata-se do Antropoceno, período histórico-geológico marcado pela presença e ação do ser humano sobre a natureza.

    Se você é cristão ou, simplesmente, pessoa de boa vontade, recomendo que leia a este livreto da foto. Trata-se da Exortação Apostólica Laudate Deum, sobre a Crise Climática, lançada pelo Papa Francisco em 04 de outubro de 2023.

    Vamos ver o que ainda é possível ser feito…

    #papafrancisco #laudatosi #laudatedeum #criseclimática  #mudançaclimática

  • Taiobeiras: entenda o porquê da hashtag #ficapadrevanderlei

    Taiobeiras: entenda o porquê da hashtag #ficapadrevanderlei

    Amigos e amigas de fora de Taiobeiras estão me perguntando sobre o porquê de tanta comoção em torno da saída do Padre Vanderlei da Paróquia São Sebastião de Taiobeiras. Alegam que é comum e natural que os padres sejam transferidos de tempos em tempos. Estão espantados com tantas manifestações e sem entender o que ocorre.

    De fato, é normal a transferência regular; e até saudável para a vida dos sacerdotes e das paróquias essa movimentação.

    Porém, o caso específico de Taiobeiras está relacionado com a rapidez com que o padre está sendo transferido. Não tem nem um ano que ele chegou aqui.

    E, também, com o fato de que os católicos taiobeirenses entendem que nos últimos anos a Igreja local estava pastoralmente parada, perdendo gradativamente a importância no contexto evangelizador e social, e em franca decadência. Com a chegada do Padre Vanderlei, em pouquíssimos meses, essa situação se reverteu. Foi como a chegada da chuva ao sertão, sucedendo a uma longa e rigorosa estiagem.

    Então, há um estranhamento profundo no laicato católico e um clima de suspeição, de que algo obscuro e oculto está tramando para essa saída repentina. Isso explica o porquê das redes e da vida concreta terem sido tomadas pela hashtag #ficapadrevanderlei.

    Para além disso, o episódio desnuda o quanto de autocracia e surdez hierárquica ainda corroem as artérias do catolicismo, mesmo depois de mais de cinquenta anos do Concílio Vaticano II (que modernizou a relação clero-laicato), de inúmeros documentos dos pontífices e do próprio exemplo colegial do Papa Francisco.

    Fala-se muito na responsabilidade que os leigos devem assumir para com a Igreja, mas o clero continua a não conversar, a não ouvir e a mandar como antigos senhores feudais. Não é esta última a sua vocação e cabe aos irmãos leigos auxiliá-los nesse discernimento.

    E, aqui, não discuto as boas intenções de bispos e provinciais. Não duvido que eles trabalham para o bem da Igreja e da evangelização. Não duvidamos de sua boa fé. Critico o método e a estrutura engessada.

    Transferências e nomeações realmente são naturais. Não é por causa do padre que se deve frequentar ou não as celebrações, o templo e as atividades pastorais. Mas, conhecer a história, o contexto e a realidade do laicato, bem como sua opinião, pouparia a Igreja de muitos problemas.

    Fica aqui um fraterno e filial apelo ao Provincial dos Missionários da Sagrada Família, Padre Itacir Brassiani, e ao Sr. Arcebispo Metropolitano de Montes Claros, Dom João Justino de Medeiros Silva, para que, no uso caridoso de suas respectivas autoridades, não tomem a manifestação do povo católico de Taiobeiras como desaforo ou desobediência.

    Como o próprio Senhor Deus, Nosso Pai, fez no Egito, “ouçam o clamor do povo e desçam para libertá-lo”.

  • Taiobeiras: a saída do Padre Vanderlei, MSF

    Taiobeiras: a saída do Padre Vanderlei, MSF

    Sobre a estranha “devolução” da Paróquia de São Sebastião em Taiobeiras ao clero da Arquidiocese de Montes Claros, por parte da congregação dos Missionários da Sagrada Família, o questionamento do laicato católico de Taiobeiras é quanto às motivações para essa tomada de decisão.

    Diria que, no respeito às autoridades da Igreja, o que os leigos cobram é serem ouvidos em sua experiência eclesial.

    Há uma maturidade no laicato. Por que deixá-la de lado em decisões tão sensíveis?

    Senão, vejamos o que diz o Papa Francisco: “A imensa maioria do povo de Deus é constituída por leigos. A seu serviço está uma minoria: os ministros ordenados. Cresceu a consciência da identidade e da missão dos leigos na Igreja. Embora não suficiente, pode-se contar com um numeroso laicato, dotado de um arreigado sentido de comunidade e uma grande fidelidade ao compromisso da caridade, da catequese, da celebração da fé. Mas a tomada de consciência desta responsabilidade laical (…) não se manifesta de igual modo em toda parte. Em alguns casos porque não se formaram para assumir responsabilidades importantes, noutros por não encontrar espaço nas suas Igrejas particulares para poderem exprimir-se e agir por causa de um excessivo clericalismo que os mantém à margem das decisões” (EG 102).

    Justamente quando a Igreja Católica em Taiobeiras, em menos de um ano, retoma o seu protagonismo e se coloca “em saída”, causa profundo estranhamento, ou pior, enorme escândalo, essa decisão intempestiva.

    O povo leigo católico não se conforma com aquilo que o Papa chama de “um excessivo clericalismo que os mantém à margem das decisões”.

    Na fidelidade, obediência e corresponsabilidade para com a Igreja, o povo católico de Taiobeiras precisa ser ouvido e essa decisão repensada e refeita.

  • Professor Levon: O vale de lágrimas e o tesouro

    Professor Levon: O vale de lágrimas e o tesouro

    Sim! Vivemos “gemendo e chorando neste vale de lágrimas”.

    E tenho passado por isso intensamente nas últimas semanas.

    Outros seres humanos, do Brasil e do mundo, muitíssimo mais do que eu.

    A sociedade humana e o inconsciente individual a ela conectado nos castigam sem dó nem piedade.

    O ódio, a aporofobia e o extremismo neoliberal nos impõem fardos pesados e jugos insuportáveis.

    Mas também somos “o sal da terra” e a “luz do mundo”, que damos gosto à vida e iluminamos as trilhas de quem se perde.

    Portanto, se quisermos ultrapassar o vale lacrimoso, devemos “não ajuntar riquezas aqui na terra, onde a traça e a ferrugem corroem, onde os ladrões assaltam e roubam”.

    Façamos ao outro o que queremos de bom para nós mesmos.

    Sigamos a máxima: “Basta a cada dia a própria dificuldade”.

  • Festa de Cristo Rei do Universo

    Festa de Cristo Rei do Universo

    Hoje se encerra o ano litúrgico católico.

    Cristo é rei, mas seu reino “não é deste mundo”.

    Seu reinado não se manifesta nas formas do poder, do cetro, da coroa ou da faixa presidencial; muito menos no lucro, nas ações, no mercado e na posse do capital.

    Cristo é o rei que serve, que se abaixa e lava os pés dos “pequenos”, que impede o apedrejamento da mulher, que prefere comer com os pobres, deficientes físicos e mulheres marginalizadas; que aceita o culto do romano pagão e os presentes dos magos orientais.

    Seu reino é serviço, é ecumênico e interreligioso, bem ao contrário dos falsos messias que dizem reverenciar o “Deus acima de todos” e propagam a fé única no cifrão.

    Jesus é o Deus/Rei que “está no meio de nós”, acessível, compreensivo e inclusivo; e seu reinado é de amor e respeito, não de ódio e intolerância.

    Viva Cristo Rei!