Tag: Jesus Cristo

  • Dom Oscar Romero das Américas

    Dom Oscar Romero

    “Não é um prestígio para a Igreja estar bem com os poderosos. Prestígio para a igreja é sentir que os pobres a sentem como sendo sua, sentir que a igreja vive uma dimensão na terra, chamando todos, também os ricos, à conversão e à salvação a partir do mundo dos pobres, porque eles são unicamente os bem-aventurados.” (Dom Oscar Romero 17/02/1980).

    Motivo de muita alegria. O Papa Francisco reconheceu o martírio de Dom Oscar Romero, arcebispo de El Salvador, assassinado pela ditadura militar salvadorenha, em 1980, enquanto celebrava a missa, por se posicionar do lado dos mais pobres e perseguidos. É o primeiro passo para a canonização.

  • As reflexões de hoje (VI)

    Depois de mais de um mês, chove em Taiobeiras, em 23/01/2015

    Minhas publicações na rede social Facebook.

    Madrinha Donila morreu aos 104 anos, em 2011. Experiente nas agruras do sertão baiano, onde nasceu, e do sertão norte-mineiro, onde viveu, sempre que necessário bulia em suas orações e devoções. Clamava a Deus pela Divina Misericórdia. Certa vez, quando criança, lhe perguntei:
    – O que é a Divina Misericórdia que a senhora tanto pede?
    Ela me respondeu:
    – Ora, a Divina Misericórdia é a CHUVA!
    E não é que o Senhor nos brinda, neste final de tarde, em Taiobeiras, com sua Divina Misericórdia!

    (23 de janeiro de 2015)

    Uma regulação econômica da mídia, que desfaça os cartéis, promova a diversidade na produção de conteúdo e lhe dê um caráter mais educativo do que meramente comercial, é urgente. Com a mídia que temos, nem a família e nem a escola têm condições de educar adequadamente para a cidadania.
    (23 de janeiro de 2015)

    É somente impressão minha ou quanto mais as redes de televisão “vomitam” notícias de crimes violentos, de manhã, à tarde ou à noite, mais eles tendem a ocorrer na sociedade?
    (23 de janeiro de 2015)

    Compaixão, misericórdia, generosidade. De vosso sagrado coração, derramai estes dons sobre a nossa sociedade humana, Senhor.
    (23 de janeiro de 2015)

  • Imagens da Festa de São Sebastião nos 80 anos da Paróquia de Taiobeiras

    Bandeira em frente à Matriz
    Bandeira em outro ângulo
    Andor de São Sebastião carregado por policiais militares

    A Paróquia São Sebastião de Taiobeiras (MG), pertencente à Arquidiocese de Montes Claros, foi criada em 20 de maio de 1935. Portanto, em 2015 completará 80 anos de fundação. Veja as fotos da festa do padroeiro, neste 20 de janeiro de 2015, já como atividade do ano do octogésimo aniversário.

    Procissão
    Igreja Matriz de S. Sebastião de Taiobeiras (MG)
    Outro ângulo da procissão. Ao fundo, a Matriz.
  • Boas Festas e Feliz 2015

    Um Feliz Natal e um próspero 2015 para você que lê este Blog.


    A palavra Natal significa Nascimento. Celebramos o Nascimento de Jesus em 25 de dezembro, ainda que não saibamos a data real em que tal fato ocorreu. Não importa a exatidão. Importa que ele nasceu por um ato voluntário de amor do Pai em relação a cada um de nós. É isto que festejamos. E ele nasceu pobre, em manjedoura, num estábulo para bois porque os ricos não o receberam em suas casas. Que no tempo presente, muito mais do que o Natal capitalista e consumista dos presentes e de Papai Noel, recebamos em nossas casas a Boa Notícia daquele que nos ensina a dizer “Pai Nosso – Pão Nosso”. Feliz aniversário, Jesus!

  • Um mártir é padroeiro de Taiobeiras: São Sebastião!

    São Sebastião é um dos santos católicos mais populares do Brasil. Padroeiro da cidade mais conhecida do país, o Rio de Janeiro e, também, de várias outras localidades, inclusive Taiobeiras (MG).

    Mártir dos primeiros séculos do cristianismo, Sebastião era oficial romano durante o reinado de Dioclesiano (Imperador romano), época de muita perseguição aos cristãos. Preferiu perder o status e a vida a renegar a fé cristã.

    Igual a ele, milhares de cristãos ao longo dos séculos sacrificaram suas vidas em favor da causa do amor, da justiça e da misericórdia, em diferentes realidades e lugares. Junto com Sebastião, podemos nos lembrar dos mártires recentes, como Dorothy Stang, Oscar Romero e muitos outros.

    Viva Sebastião! Viva os mártires da caminhada!

  • Férias: imagens da igreja em restauração na cidade de Condeúba (Bahia)

    Condeúba: Detalhe do altar-mor,
    em estilo barroco.

     Em viagem de férias à minha terra natal, Cordeiros, no sudoeste baiano, aproveitei o dia 2 de janeiro de 2014 visitando a cidade de Condeúba.

    Condeúba: interior da Igreja Matriz
    em restauração.

    Veja aí as fotos do interior da bela Igreja Matriz de Santo Antônio de Pádua, naquela cidade do interior baiano. Toda em estilo barroco e passando por uma merecida e bem cuidada restauração.

  • Feliz 2014

    A você que ora acessa este meu espaço virtual (Blog), desejo-lhe que 2014 seja um ano alegre, feliz e cheio de igualdade e soberania! Desejo isto a você, ao Brasil e aos povos oprimidos de todo o mundo!

    E, aproveito a oportunidade, respeitando a sua crença, para relembrar um fato de 2013 que, para mim, foi muito motivador e contribuiu para resgatar minha fé no Deus da Vida: a eleição do latino-americano Jorge Mario Bergoglio para o “trono” de São Pedro – Papa Francisco (foto).

  • Frei Betto: Natal de Jesus ou "papainoelização" do Natal.

    A “papainoelização” do Natal, na definição de Frei Betto, eclipsou os significados riquíssimos de uma tradição milenar para encher o vazio com farofa, programas bregas de TV e coxas de peru.

    Que o Natal foi desvirtuado, até as crianças já perceberam. A cada ano que passa, a singeleza da data, antes rica em detalhes e simbologia, é pisoteada por um turbilhão de obrigações, que arrasta as pessoas para os bancos, os shoppings e supermercados, com listas imensas de coisas a fazer, num périplo de compras e preparativos capaz de exaurir as forças e o dinheiro de qualquer um.

    Se o Natal fosse uma pessoa, dir-se-ia que está doente, com estresse, pressão alta e colesterol – além de depressão e mau humor -, frutos da correria, das poucas horas de sono, da procura por vaga no estacionamento, do calor abafado, do excesso de doces e gorduras, dos abusos etílicos – mas, principalmente, da falta de sentido nas coisas, todas elas rasas de motivos e que se encerram em si mesmas.

    Um sinal de que o Natal está doente são as reclamações, antes pouco comuns, hoje frequentes. A semana é curta para tudo o que se precisa fazer, dizem os anfitriões da noite, transformados em promotores de eventos, sempre com mil coisas para pensar. Não pode faltar gelo. Não podem faltar guardanapos ou esses objetos comuns mas que sempre desaparecem quando se precisa deles, como saca-rolhas ou pilha para a máquina fotográfica.

    Com tanto por fazer, sobra menos tempo para antigos rituais domésticos, que costumavam ser extremamente prazerosos para adultos e mágicos para as crianças, como montar um presépio em família, enquanto se explica quem são os personagens e o que fazem naquele cenário, ou colocar os pingentes na árvore natalina e não esquecer de uma estrela brilhante no alto, que é – ou deveria ser – mais importante que os presentes embaixo dela.

    A “papainoelização” do Natal, na definição autoexplicativa do frade dominicano, jornalista e escritor Frei Betto, eclipsou os significados riquíssimos de uma tradição milenar para encher o vazio com farofa, programas bregas de TV e coxas de peru. Despiu a humildade pregada pelo verdadeiro “aniversariante”, dois mil anos atrás, para vestir em seu lugar roupas novas e caras, escolhidas para impressionar parentes e vizinhos. Afugentou a sensação do cósmico e do transcendente para dar a tudo um sentido banal de finitude, simbolizado pelos restos da festa, pelos ossos nos pratos, pelo cansaço e a ressaca do dia seguinte. Abafou os sentimentos e a reflexão com música alta e bebida. E, o pior de tudo, tirou de cena um personagem fascinante, com uma história única entre todos os homens, para colocar o foco em uma “marca” fictícia e sem qualquer conteúdo filosófico.

    Jesus Cristo é o personagem histórico mais biografado e analisado de todos os tempos. Dezenas de milhares de livros foram publicados sobre ele. Documentários sempre renovados esquadrinham cada traço de sua personalidade, as passagens de sua vida, seus atos e palavras à luz de novas descobertas e teorias. Vez por outra, o cinema se rende ao magnetismo dessa personalidade incrível, cuja doutrina mudou a história e moldou a cultura ocidental.

    É difícil de entender, a não ser pela influência maciça da publicidade sobre a cultura de nossos tempos, como uma referência tão rica e essencial, capaz de abrir as portas para o autoconhecimento e para um contato inteligível com o divino, foi substituída por uma tradição inócua e que, de certa forma, representa justamente o oposto de tudo, pela celebração do consumo e das recompensas materiais.

    Ainda dá tempo de fazer uma pausa na loucura das tarefas infindáveis para respirar fundo, pensar e sentir o verdadeiro Natal, sem esquecer de conversar com as crianças sobre a origem dessa tradição e contar a elas quem foi esse homem doce e corajoso chamado Jesus.

    Por Frei Betto, religioso dominicano e assessor de movimentos populares.


    Veja mais sobre o Natal neste blog:
    Natal brasileiro X neve importada

    A primeira vez em que vi Papai Noel e Jesus
    Neste Natal, e sempre, amar como Jesus amou
    O aniversário do Menino-Crucificado

  • Casaldáliga: Ainda "não há lugar para eles", nem em Belém nem na Lampedusa

    Ainda “não há lugar para eles”, nem em Belém nem na Lampedusa
    Poema de Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito de S. Félix do Araguaia

    Natal é um sarcasmo?
    “Se teu Reino não é deste mundo”,
    que vens fazer aqui,
    subversivo, desmancha-prazeres?

    Para ser o Deus-conosco
    tens de sê-lo na impotência,
    com os pobres da Terra,
    assim, pequeno, assim,
    despido de toda glória,
    sem mais poder que o fracasso,
    sem mais lugar que a morte,
    mas sabendo que o Reino
    é o sonho do teu Pai,
    e também é o nosso sonho.

    Ainda há Natal,
    na Paz da Esperança,
    na vida partilhada,
    na luta solidária,
    Reino adentro, Reino adentro!

  • Natal caloroso brasileiro X neve de papai Noel

    Um presépio (lapinha) brasileiro
    Não sei se é só comigo, mas me dá uma ânsia, uma sensação muito ruim, quando vejo decorações de natal que tentam imitar o clima de inverno do hemisfério norte. Nada a ver com o Natal verdadeiro (do nascimento de Jesus numa estrebaria de Belém de Judá), muito menos com nossa cultura tropical brasileira, em pleno início do “caloroso” verão do hemisfério sul.
    Talvez seja algo como a indignação do grande e clássico sociólogo pernambucano Gilberto Freyre (1900-1987) quando lançou o Manifesto Regionalista, no qual atacou o péssimo hábito brasileiro de aceitar cegamente as “novidades estrangeiras”. Disse ele: “esse carnavalesco Papai Noel que, esmagando com suas botas de andar em trenó e pisar em neve as velhas lapinhas brasileiras (presépios), verdes, cheirosas, de tempo de verão, está dando uma nota de ridículo aos nossos natais de família, também enfeitados agora com arvorezinhas estrangeiras mandadas vir da Europa ou dos Estados Unidos pelos burgueses mais cheios de requififes e de dinheiro”.
    Falando em “lapinhas brasileiras” (presépios), esta descrição de Gilberto Freyre me fez relembrar a infância, de um natal que fomos passar juntos aos parentes na comunidade rural de Mandaçaia, no município de Condeúba, na Bahia. A descrição é a mesma, muito enfeitadas com flores do campo, verdes, contendo além das imagens do Menino Jesus, Virgem Maria e São José, uma série de elementos singelos e significativos da nossa cultura sertaneja. Tomavam quase que o espaço inteiro da sala de visitas de cada casa por onde passávamos. E acompanhadas de simples, porém genuína, hospitalidade. Saudades daquele tempo!
  • Análise de conjuntura para Irmãs da Divina Providência

    Estive no dia 21/11/2013 em Montes Claros/MG, a convite da Região Mineira das Irmãs da Divina Providência, sob coordenação da Irmã Maria Rita, desenvolvendo uma Análise da Conjuntura de 2013 sobre os seguintes temas: Brasil, América Latina, Igreja, Norte de Minas e Mundo no capítulo regional que estas religiosas estão realizando.

    Foi, também, uma maravilhosa oportunidade de encontrar grandes amigas: Irmã Neusa Nascimento, Irmã Letícia Rocha, Irmã Maria Eliza De Brida, Irmã Laudeci, Irmã Ilza, Irmã Nilza Cascaes, Irmã Judite e tantas outras que muito já prestaram trabalho social e cristão nesta nossa Taiobeiras e neste nosso Alto Rio Pardo.

    Fui lá dar a minha humilde contribuição e saí muito feliz pelo reencontro.

  • 50 anos do Vaticano II: Bispos Casaldáliga, Pires e Balduíno escrevem aos demais bispos do Brasil

    Uma das seções do Concílio Ecumênico Vaticano II, iniciado há 50 anos
    no papado do bem-aventurado João XXIII
    Queridos irmãos no episcopado,

    Somos três bispos eméritos que, de acordo com o ensinamento do Concílio Vaticano II, apesar de não sermos mais pastores de uma Igreja local, somos sempre participantes do Colégio episcopal, e junto com o Papa, nos sentimos responsáveis pela comunhão universal da Igreja Católica.

    Alegrou-nos muito a eleição do Papa Francisco no pastoreio da Igreja, pelas suas mensagens de renovação e conversão, com seus seguidos apelos a uma maior simplicidade evangélica e maior zelo de amor pastoral por toda a Igreja. Tocou-nos também a sua recente visita ao Brasil, particularmente suas palavras aos jovens e aos bispos. Isso até nos trouxe a memória do histórico Pacto das Catacumbas.

    Será que nós bispos nos damos conta do que, teologicamente, significa esse novo horizonte eclesial? No Brasil, em uma entrevista, o Papa recordou a famosa máxima medieval: “Ecclesia semper renovanda”.

    Por pensar nessa nossa responsabilidade como bispos da Igreja Católica, nos permitimos esse gesto de confiança de lhes escrever essas reflexões, com um pedido fraterno para que desenvolvamos um maior diálogo a respeito.

    1. A Teologia do Vaticano II sobre o ministério episcopal
    O Decreto Christus Dominus dedica o 2º capítulo à relação entre bispo e Igreja Particular. Cada Diocese é apresentada como “porção do Povo de Deus” (não é mais apenas um território) e afirma que, “em cada Igreja local está e opera verdadeiramente a Igreja de Cristo, una, santa, católica e apostólica” (CD 11), pois toda Igreja local não é apenas um pedaço de Igreja ou filial do Vaticano, mas é verdadeiramente Igreja de Cristo e, assim a designa o Novo Testamento (LG 22). “Cada Igreja local é congregada pelo Espírito Santo, por meio do Evangelho, tem sua consistência própria no serviço da caridade, isto é, na missão de transformar o mundo e testemunhar o Reino de Deus. Essa missão é expressa na Eucaristia e nos sacramentos. Isso é vivido na comunhão com seu pastor, o bispo”.

    Essa teologia situa o bispo não acima ou fora de sua Igreja, mas como cristão inserido no rebanho e com um ministério de serviço a seus irmãos. É a partir dessa inserção que cada bispo, local ou emérito, assim como os auxiliares e os que trabalham em funções pastorais sem dioceses,todos, enquanto portadores do dom recebido de Deus na ordenação são membros do Colégio Episcopal e responsáveis pela catolicidade da Igreja.

    2. A sinodalidade necessária no século XXI
    A organização do papado como estrutura monárquica centralizada foi instituída a partir do pontificado de Gregório VII, em 1078. Durante o 1º milênio do Cristianismo, o primado do bispo de Roma estava organizado de forma mais colegial e a Igreja toda era mais sinodal.

    O Concílio Vaticano II orientou a Igreja para a compreensão do episcopado como um ministério colegial. Essa inovação encontrou, durante o Concílio, a oposição de uma minoria inconformada. O assunto, na verdade, não foi suficientemente amarrado. Além disso, o Código de Direito Canônico, de 1983 e os documentos emanados pelo Vaticano, a partir de então, não priorizaram a colegialidade, mas restringiram a sua compreensão e criaram barreiras ao seu exercício. Isso foi em prol da centralização e crescente poder da Cúria romana, em detrimento das Conferências nacionais e continentais e do próprio Sínodo dos bispos, este de caráter apenas consultivo e não deliberativo, sendo que tais organismos detêm, junto com o Bispo de Roma, o supremo e pleno poder em relação à Igreja inteira.

    Agora, o Papa Francisco parece desejar restituir às estruturas da Igreja Católica e a cada uma de nossas dioceses uma organização mais sinodal e de comunhão colegiada. Nessa orientação, ele constituiu uma comissão de cardeais de todos os continentes para estudar uma possível reforma da Cúria Romana. Entretanto, para dar passos concretos e eficientes nesse caminho – e que já está acontecendo – ele precisa da nossa participação ativa e consciente. Devemos fazer isso como forma de compreender a própria função de bispos, não como meros conselheiros e auxiliares do papa, que o ajudam à medida que ele pede ou deseja e sim como pastores, encarregados com o papa de zelar pela comunhão universal e o cuidado de todas as Igrejas.

    3. O cinquentenário do Concílio
    Nesse momento histórico, que coincide também com o cinqüentenário do Concílio Vaticano II, a primeira contribuição que podemos dar à Igreja é assumir nossa missão de pastores que exercem o sacerdócio do Novo Testamento, não como sacerdotes da antiga lei e sim, como profetas. Isso nos obriga colaborar efetivamente com o bispo de Roma, expressando com mais liberdade e autonomia nossa opinião sobre os assuntos que pedem uma revisão pastoral e teológica. Se os bispos de todo o mundo exercessem com mais liberdade e responsabilidade fraternas o dever do diálogo e dessem sua opinião mais livre sobre vários assuntos, certamente, se quebrariam certos tabus e a Igreja conseguiria retomar o diálogo com a humanidade, que o Papa João XXIII iniciou e o Papa Francisco está acenando.

    A ocasião, pois, é de assumir o Concílio Vaticano II atualizado, superar de uma vez por todas a tentação de Cristandade, viver dentro de uma Igreja plural e pobre, de opção pelos pobres, uma eclesiologia de participação, de libertação, de diaconia, de profecia, de martírio… Uma Igreja explicitamente ecumênica, de fé e política, de integração da Nossa América, reivindicando os plenos direitos da mulher, superando a respeito os fechamentos advindos de uma eclesiologia equivocada.

    Concluído o Concílio, alguns bispos – sendo muitos do Brasil – celebraram o Pacto das Catacumbas de Santa Domitila. Eles foram seguidos por aproximadamente 500 bispos nesse compromisso de radical e profunda conversão pessoal. Foi assim que se inaugurou a recepção corajosa e profética do Concílio.

    Hoje, várias pessoas, em diversas partes do mundo, estão pensando num novo Pacto das Catacumbas. Por isso, desejando contribuir com a reflexão eclesial de vocês, enviamos anexo o texto original do Primeiro Pacto.

    O clericalismo denunciado pelo Papa Francisco está sequestrando a centralidade do Povo de Deus na compreensão de uma Igreja, cujos membros, pelo batismo, são alçados à dignidade de “sacerdotes, profetas e reis”. O mesmo clericalismo vem excluindo o protagonismo eclesial dos leigos e leigas, fazendo o sacramento da ordem se sobrepor ao sacramento do batismo e à radical igualdade em Cristo de todos os batizados e batizadas.

    Além disso, em um contexto de mundo no qual a maioria dos católicos está nos países do sul (América Latina e África), se torna importante dar à Igreja outros rostos além do costumeiro expresso na cultura ocidental. Nos nossos países, é preciso ter a liberdade de desocidentalizar a linguagem da fé e da liturgia latina, não para criarmos uma Igreja diferente, mas para enriquecermos a catolicidade eclesial.

    Finalmente, está em jogo o nosso diálogo com o mundo. Está em questão qual a imagem de Deus que damos ao mundo e o testemunhamos pelo nosso modo de ser, pela linguagem de nossas celebrações e pela forma que toma nossa pastoral. Esse ponto é o que deve mais nos preocupar e exigir nossa atenção. Na Bíblia, para o Povo de Israel, “voltar ao primeiro amor”, significava retomar a mística e a espiritualidade do Êxodo.

    Para as nossas Igrejas da América Latina, “voltar ao primeiro amor” é retomar a mística do Reino de Deus na caminhada junto com os pobres e a serviço de sua libertação. Em nossas dioceses, as pastorais sociais não podem ser meros apêndices da organização eclesial ou expressões menores do nosso cuidado pastoral. Ao contrário, é o que nos constitui como Igreja, assembleia reunida pelo Espírito para testemunhar que o Reino está vindo e que de fato oramos e desejamos: venha o teu Reino!

    Esta hora é, sem dúvida, sobretudo para nós bispos, com urgência, a hora da ação. O Papa Francisco ao dirigir-se aos jovens na Jornada Mundial e ao dar-lhes apoio nas suas mobilizações, assim se expressou: “Quero que a Igreja saia às ruas”. Isso faz eco à entusiástica palavra do apóstolo Paulo aos Romanos: “É hora de despertar, é hora e de vestir as armas da luz” (13,11). Seja essa a nossa mística e nosso mais profundo amor.

    Abraços, com fraterna amizade,

    Dom José Maria Pires, arcebispo emérito da Paraíba.
    Dom Tomás Balduino, bispo emérito de Goiás.
    Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia.

    15 de agosto de 2013.
  • Artigo do Levon: Rumo a Jesus, com Francisco, nas areias de Copacabana

    * Levon Nascimento
    Artigo publicado originalmente na edição impressa do Jornal Folha Regional, Taiobeiras/MG, agosto de 2013, ano IX, n. 218.

    Entre os dias 24 e 29 de julho participei da 28ª Jornada Mundial da Juventude na cidade do Rio de Janeiro, juntamente com outras pessoas da Paróquia São Sebastião de Taiobeiras.

    Foram dias especiais, de aprendizado, oração e partilha. A presença do Papa Francisco, sempre gentil, afetuoso e firme na mensagem do Evangelho, a todos nós encantou, educou e fortaleceu na fé e nos valores cristãos.

    Especialmente, nos chamou a atenção a enorme “Babel” de povos do mundo espalhados pelo Rio de Janeiro. Gente de todos os países a falar em seus idiomas. Muitos argentinos barulhentos e alegres, conterrâneos do Papa Francisco. No entanto, a “Babel” carioca, ao contrário da bíblica, parecia-se mais com o Pentecostes, no qual os apóstolos e Maria receberam o Espírito Santo. Apesar dos diferentes povos e línguas faladas, no Rio todos se entendiam, se confraternizavam e compartilhavam as experiências com carinho e admiração. Fez-se ali uma pequena demonstração do que deve ser o desejo de Deus para o seu povo: união, amor, misericórdia, compaixão, partilha.

    Aprendemos que é preciso cultivar a fé sem deixar de estar atentos à realidade vivida. Como nos ensinou Francisco, a fazer eco ao Evangelho de Cristo, não é possível que julguemos o diferente ou o excluamos. A todos sem exceção, temos de amparar, acolher, respeitar e promover o diálogo ecumênico e inter-religioso. Precisamos “ir às ruas”, abraçar, acolher, “globalizar a solidariedade e combater a indiferença”.

    Seguindo o ensinamento de Francisco, já não é mais possível uma Igreja com mentalidade “de príncipes”. É hora dos católicos avançarem e “fazerem a Igreja nas ruas”, compartilhando da pobreza concreta ou espiritual dos destinatários da mensagem cristã. Destinatários que devem ser encontrados não mais nos centros civilizacionais ou econômicos do mundo, mas nas periferias do planeta, periferias existenciais e geográficas.
    Devido à dinâmica acelerada dos eventos da Jornada e da dificuldade de locomoção pelo Rio, uma vez que muitas vias estavam interditadas por causa do evento, não pudemos subir o Corcovado para ver a estátua do Cristo Redentor. Muitos de nossos companheiros de viagem lamentavam. Só ao final de tudo, quando fizemos um momento de oração e partilha, é que entendemos. Na verdade, o Redentor esteve pedagogicamente conosco durante toda a viagem, assim como no “desconhecido” Jesus ressuscitado que acompanhou e explicou as escrituras aos dois discípulos que se dirigiam a Emaús na tarde do domingo de Páscoa. Amedrontados com a crucificação do mestre e ainda sem saber do ocorrido naquela manhã, eles não eram capazes de ver naquele estranho o Senhor que ressuscitara. Somente tomaram conhecimento disso quando Ele partiu o pão em sua casa.

    Assim foi conosco. Não vimos de perto a estátua do redentor. Nem por isso o Redentor (de fato) deixou de compartilhar conosco todo o seu amor e ensinamento durante a JMJ Rio 2013.
    As areias e o asfalto de Copacabana, tomados por quase 4 milhões de pessoas na manhã do domingo 28 de julho de 2013, demonstraram ao mundo que ainda há uma enorme sede de fé e uma grande fome de união universal; um enorme espaço para que a mensagem do jovem carpinteiro de Nazaré da Galileia, de amor e fraternidade, permaneça mais viva e útil do que em qualquer outro momento da história humana.

  • Meu retiro em Copacabana

    Manhã de domingo, pós-vigília
    da JMJ Rio 2013 em Copacabana

    A minha ida à Jornada Mundial da Juventude 2013, na cidade do Rio de Janeiro, ao encontro do Papa Francisco, foi como que um grande retiro espiritual. Eu já tinha essa intenção, queria fazer um retiro, um tempo de oração, de escuta mais atenta à Palavra de Deus, e de revigoramento dos valores mais íntimos da caminhada de fé.

    Geralmente, os retiros são silenciosos. Este, ao contrário, ocorreu em meio ao barulho, à festa, nas areias da Praia de Copacabana, no belo cenário da Cidade Maravilhosa. Nem por isso foi um retiro de menor oração e meditação.

    Pedi a Deus algumas capacidades:

    1. Perdoar a quem me ofende. E, olha que fui muito ofendido recentemente aqui em Taiobeiras (nas últimas eleições, por exemplo);
    2. Reconciliar-me com os irmãos e as irmãs (de todas as condições e circunstâncias);
    3. Voltar a crer numa Igreja-serva-servidora de Jesus e dos que sofrem;
    4. Renovar a fé e o ardor missionário;
    5. Aprender, sempre mais, a por em prática aquilo que de graça recebemos do Espírito Santo;
    6. Comprometer-me, ainda mais, com o Reino, com o próximo, com a nova sociedade onde imperará a justiça, o amor e a misericórdia;
    7. Caminhar sempre no respeito e na tolerância ao outro, ao diferente, ao que crê diferente de mim, ao que, muitas vezes até quer o meu mal, mas a quem eu devo sempre tratar com compaixão e misericórdia.

    Em suma, fui renovar minha essência de Ser Cristão, para estar sempre mais a serviço do Reino nos ambientes em que eu estiver caminhando.

    Essencialmente, o Papa Francisco cumpriu para comigo aquilo que é próprio do ministério dele, confirmou-me na fé, tal e qual Jesus ordenou a Pedro.

    Fui alimentar minha fé e retornei saciado!

  • Jornada Mundial da Juventude Rio 2013

    Vídeos promocionais da Jornada Mundial da Juventude Rio 2013. Assista. Ore. Emocione-se.

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  • Taiobeiras: nova fotografia de Frei Jucundiano

    Frei Jucundiano de Kok, OFM.

    A senhora Marianne de Kok (nora de uma irmã de Frei Jucundiano), holandesa, brindou aos membros do Grupo Taiobeiras/MG, no site de relacionamentos Facebook, com esta verdadeira relíquia, uma foto do primeiro pároco de Taiobeiras, Frei Jucundiano de Kok, OFM.

    Segundo relato de Marianne de Kok, a fotografia foi tirada em outubro de 1973, quando o religioso teve alta do hospital, e foi enviada à sua irmã.

    Frei Jucundiano de Kok, da Ordem dos Frades Menores (franciscanos), nasceu em Dongen, Holanda, em 1902. Chegou a Taiobeiras em 1940, tornando-se o o primeiro pároco da Paróquia São Sebastião (Arquidiocese de Montes Claros). Faleceu em Taiobeiras, em julho de 1974, e seu corpo está sepultado nas dependências da Igreja Matriz de São Sebastião, nesta cidade.

    Foi de Frei Jucundiano a ideia e a organização da tradicional Festa de Nossa Senhora de Fátima, bem como a responsabilidade pela construção da Igrejinha Octogonal, principal cartão postal de Taiobeiras. A Festa de Nossa Senhora de Fátima acontece anualmente no mês de maio, tendo uma versão religiosa e outra social-cultural, a Festa de Maio, que é a maior celebração popular de toda a microrregião do Alto Rio Pardo (extremo norte do Estado de Minas Gerais).

  • A direita católica rejeita o lava-pés

    José Lisboa Moreira de Oliveira*
    Texto de José Lisboa Moreira de Oliveira no site Adital


    A mídia tem noticiado que grupos ultraconservadores da Igreja Católica Romana estão criticando o papa Francisco por ele ter incluído na cerimônia simbólica do Lava-pés, na última quinta-feira santa, duas mulheres, sendo uma delas mulçumana. Tais grupos defendem que neste ritual (que, diga-se claramente, não é sacramental, mas apenas simbólico) só devem ser admitidos “varões”, ou seja, pessoas do sexo masculino. Tal atitude é profundamente lamentável porque rompe clara e diretamente com o profundo significado de toda a simbologia do Lava-pés. Tais pessoas comportam-se como Pedro, o qual, compreendendo bem o que o gesto de Jesus significava, recusou-se terminantemente a ter os pés lavados pelo Mestre (Jo 13,6-8).

    Antes de tudo é preciso dizer que o gesto do lava-pés, que costuma ser repetido na missa da Ceia do Senhor da quinta-feira santa, não é um gesto sacramental, no sentido técnico da expressão, mas apenas algo meramente simbólico, apesar da profundidade do seu significado. Ao lavar os pés de seus discípulos, Jesus entendia comunicar por meio deste gesto uma mensagem profunda acerca da essência do seu seguimento. Ele quis se comportar como um escravo (em grego: doulos) que realizava um serviço (diakonia) considerado dentro do contexto cultural de então como humilhante e indigno de uma pessoa livre. Naquela época somente os escravos e as mulheres faziam esse tipo de serviço. Ao realizar aquele gesto Jesus entende claramente reverter a lógica cultural de então, deixando bem claro que todos aqueles e aquelas que queriam entrar no seu seguimento deviam “lavar os pés uns dos outros” (Jo 13,14). Quem quisesse ser seu discípulo ou discípula devia ser servidor ou servidora (diákonos) de todos os outros (Mc 10,44), de modo particular dos que estavam prostrados, cansados e abatidos (Mt 9,36).

    Dentro deste contexto, os discípulos (o texto não fala de apóstolos) representam a comunidade dos seguidores e das seguidoras de Jesus de todas as épocas e de todos os lugares. Não tem o menor sentido entender a simbologia do lava-pés como sendo um gesto sacramental que instituía naquela ocasião um ministério ordenado hierárquico androcêntrico (formado só por homens) no sentido restrito que se entende atualmente na Igreja Católica Romana. Isso seria violentar o texto e tirar-lhe todo o significado que Jesus quis lhe dar (Jo 13,12-17). A crítica ao papa Francisco não tem sentido, uma vez que a inclusão de duas mulheres (sendo uma mulçumana) na cena do lava-pés ajuda a entender, em pleno século XXI, a profundidade do gesto de Jesus e o que deve significar o cristianismo em nossos dias. O gesto do papa Francisco ajuda-nos a perceber com mais clareza que a Igreja Católica Romana, se quiser ser uma comunidade de discípulos e de discípulas de Jesus, deve inclinar-se diante da humanidade e lavar os pés doloridos e chagados de todos aqueles e de todas aquelas que são mantidos na exclusão, inclusive pelo próprio sistema religioso católico romano.

    Neste sentido o gesto do papa Francisco se conecta com outros gestos de Jesus: a acolhida e inclusão da mulher estrangeira (Mc 7,24-30) e o deixar-se tocar por outra que sofria de sangramento permanente (Mc 5,25-34). Jesus, no seu tempo, rompe com padrões e normas religiosas consideradas sacrossantas e chega a denunciar os chefes religiosos que, para manter leis humanas, deixavam de lado o mandamento divino (Mc 7,9), que pode ser resumido no cuidado com as pessoas sofridas (Mc 3,1-6). Lamentavelmente, vinte séculos depois, ainda existem cristãos que não entendem nada disso e continuam com práticas absurdas excludentes e sem mais nenhum sentido para o cristianismo. Com isso deturpam a verdadeira mensagem de Jesus e impedem à Igreja de anunciar a Boa Notícia do Evangelho.

    A crítica da direita ultraconservadora católica se fundamenta na hipótese, hoje cada vez mais insustentável, de que na última ceia Jesus se reuniu apenas com os doze apóstolos, ou seja, com seus discípulos varões. Digo insustentável porque cada vez mais estudos sérios vão revelando que esta hipótese não tem o menor cabimento e foge inclusive da lógica dos próprios evangelhos. Jesus, contrariando os costumes culturais de seu povo e de sua época, permitiu que no grupo de pessoas que o seguiam existisse certo número de mulheres (Lc 8,1-3). Segundo o relato de Lucas havia inclusive mulheres casadas (Joana, mulher de Cuza, alto funcionário de Herodes), o que era considerado absurdo para os padrões culturais da época. Digo absurdo porque, segundo os costumes de então, a mulher devia permanecer em casa e quando saísse em público devia passar despercebida. Não se admitia, por exemplo, que uma mulher, especialmente se casada, conversasse em público com um homem (Jo 4,27).

    Ora, se Lucas admite a presença de mulheres discípulas no grupo de Jesus e se todos os quatro evangelhos canônicos registram que estas mulheres discípulas estavam em Jerusalém no momento da morte e da ressurreição de Jesus, fica impossível, senão contraditório, afirmar que elas não estavam presentes no momento da última ceia. Não teria o menor sentido Jesus dispensá-las num dos momentos mais significativos de sua vida. Jesus não teria sido coerente com a sua prática subversiva de inclusão se, após utilizar-se do dinheiro das mulheres para montar a ceia (Lc 8,3), as tivesse proibido de sentar-se com ele naquele momento celebrativo tão importante.

    Além disso, sabemos pela história do judaísmo da época de Jesus que as mulheres tinham uma participação significativa na celebração da ceia pascal. Além de preparar as iguarias e as mesas, eram as mulheres que davam início à celebração, acendendo as luzes do ambiente, enquanto o chefe da casa recitava as famosas sete bênçãos. Cabia à mulher do dono da casa acender as luzes do Menorá, o famoso candelabro judaico formado por sete hastes e sete velas. Cabia ainda à mulher do dono da casa passar-lhe as taças de vinho para que o marido rendesse graças a Javé. Lucas, mesmo que indiretamente, acena para uma possível presença de mulheres no recinto da última ceia, pois ao narrar o episódio não diz que Jesus “tomou o cálice”, mas que “recebendo a copa de vinho, deu graças” (Lc 22,17). É lamentável que os tradutores machistas, inclusive da Bíblia Edição Pastoral e da versão protestante conhecida como de João Ferreira de Almeida, continuem usando o verbo “tomar” e não “receber”. A exceção é a Tradução Ecumênica da Bíblia (TEB) na qual se lê a seguinte versão: “Ele recebeu então uma taça…”.

    A Igreja Católica Romana sempre chegou atrasada em muitas conquistas da humanidade. Ela, até pouco tempo atrás, foi contra a liberdade, a liberdade religiosa, a liberdade de consciência, a autonomia da pessoa etc. E hoje muitos membros da hierarquia aceitam estas conquistas mais por oportunismo do que por fidelidade ao Evangelho. Já está passando da hora de repensar com seriedade o lugar da mulher na Igreja. Continuar a tratá-la como “mão de obra barata”, como “pau para toda obra”, excluindo-a dos ministérios ordenados e dos cargos de coordenação mais altos na Igreja é, antes de tudo, ir na contramão do Evangelho e causar um grande estrago na missão evangelizadora. Não dá, pois, para continuar assim. Já passou da hora de mudar esta situação de exclusão, de discriminação e de preconceito.

    [* Autor de Viver em Comunidade para a Missão. Um chamado à Vida Religiosa Consagrada, por Paulus Editora. Mais informações: http://www.paulus.com.br/viver-em-comunidade-para-a-missao-um-chamado-a-vida-religiosa-consagrada_p_3083.html].
  • Artigo do Levon: Uma mensagem de Páscoa contra o racismo e o fundamentalismo

    ” – Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra.”

    Em meio a uma sociedade cada vez mais individualista, egoísta e mercantilizada, ainda se vêem muitas pessoas à procura do sagrado ou buscando a participação em algum tipo de grupo religioso. A ciência moderna, com todas as suas certezas, não deu conta de explicar todo o “mistério” ao ser humano, não ocupando dentro do coração das pessoas o espaço da fé e da admiração e reverência pelo infinito.

    Porém, como diz o teólogo Leonardo Boff, “numa sociedade de mercado, a religião e a espiritualidade se transformaram também em mercadorias à disposição do consumo geral”. Assim, vemos pessoas se aproximando das experiências místicas como se estivessem empurrando um carrinho de supermercado. Nas prateleiras espirituais, procuram milagres, curas, contatos “pirotécnicos” com Deus, respostas para os problemas imediatos e individuais. Até aí, no universo da fé, o individualismo impera, onde deveria haver fraternidade. Muitos imaginam que, ao pagar os intermediários de Deus, com promessas ou dinheiro em espécie, fazem jus às benesses celestiais, tal e qual nos caixas de bancos e nas boutiques sortidas do modo de produção capitalista. Capitalismo tão entranhado em suas vidas, que a consciência já o toma por natural, imutável e permanente em toda a História. Não conseguem enxergar a contradição entre o capital e o Deus a quem procuram. Cria-se o terreno propício para que os “mercadores e mercenários dos templos modernos” realizem seus “negócios”.

    Outros, de tão envolvidos com os grupos religiosos, tornam-se sectários, fechados à inteligência e à iluminação do próprio Espírito divino a quem dizem seguir.

    Quero falar de minha experiência com a religião. Nasci numa família católica, fui batizado ainda no primeiro ano de vida, fiz primeira comunhão aos 12 anos, mas somente considero que comecei a participar ativamente da vida da instituição religiosa aos 16. Não sem antes ter aprendido a ser crítico com a história da Igreja. O que mais me chamou a atenção, ao contrário do que parece ser o “normal” para muita gente, não foram os milagres, as curas, as músicas açucaradas dos grupos religiosos ou o medo da morte e a incerteza do céu ou do inferno. Tampouco o fundamentalismo de quem acha que somente os dogmas bíblicos ou a doutrina ensinada pelo Magistério (caso da Igreja Católica) constituem a única verdade em que se deve crer e obedecer. Encantou-me as palavras e, mais do que elas, as atitudes concretas de Jesus de Nazaré, em seu tempo e em sua localidade. Exemplos que, passados 2000 anos, continuam a ser impressionantemente atuais e radicais, sobretudo quando colocados em contraste com as normas e os padrões em uso no nosso tempo. Vamos a alguns deles.

    Em nossas sociedades, ainda que muito disfarçadamente, valoriza-se a origem social e a posse de bens econômicos. Ao contrário disso, Jesus nasceu numa família da classe trabalhadora (cf. Mt 13,55), em uma estrebaria (cf. Lc 2,7) e, visivelmente, não viveu na opulência (cf. Mt 8,20). Ainda, propunha a quem queria segui-lo que se livrasse do excesso de bens materiais, distribuindo-os aos necessitados e assumindo uma vida de simplicidade, para assim alcançar a eternidade (cf Mt 19,21).

    Também me impressiono com o trato de Jesus para com as pessoas. Não eram atitudes de um rei arrogante para com os seus súditos. Eram ações de um irmão mais velho, solícito e cuidadoso. Amou a todos, mas especialmente deu atenção aos mais mal-tratados pela sociedade e pelas leis severas de sua época, “passou a vida fazendo o bem” (cf At 10,38). No caso da mulher adúltera, para a qual a lei recomendava pena de morte a pedradas, solicitou aos irados homens que atirassem-lhe as pedras caso não tivessem pecados (cf Jo 8,7). Com os famintos, mais do que o milagre da multiplicação de peixes e pães (cf Mt 14,15-21), o que mais chama a atenção é, que, num tempo de falta de generosidade com o próximo, ele se preocupou com a fome de uma multidão. Poderia ter muito bem acatado a proposta dos discípulos e mandado o povo embora, buscar comida em casa ou nos vilarejos próximos. Não fez assim. Pediu aos seus colaboradores que organizassem grupos e, só então, partilhou o alimento com os famintos. Multiplicou, organizou, dividiu (partilha). Mais do que um milagre, uma atitude pedagógica e solidária.

    Jesus também não se preocupou com os preconceitos e fofocas da sociedade da época. Andou com cobradores de impostos (cf Mt 10,3) e conversou com a samaritana (cf Jo 4,6-21), duas categorias muito mal-vistas pelos judeus; perdoou prostitutas. Praticou a justiça, entrou na casa dos necessitados sem se importar se eram judeus ou pagãos (romanos). Foi firme na denúncia da maldade e da injustiça expulsando os vendilhões do templo, denunciando os fariseus hipócritas, que conheciam a lei, mas não a praticavam. Era solícito e amável com todos; firme e rigoroso quando necessário. Não hesitou em morrer numa cruz, sem nada dever, porque esta era a sua missão.

    Não cobrou pelo que fez. Não praticou lavagem cerebral. Não foi preconceituoso ou racista como alguns que se dizem pastores de “seu” rebanho. Não excluiu um gênero em detrimento de outro. Abraçou a causa dos humilhados, sofredores e injustiçados. Enfrentou serenamente os que detinham poder político e econômico em sua época.

    Amou, ao invés de estabelecer dogmas. Reuniu, não criou instituições. Doou, não tomou. Dialogou, não impôs. Defendeu a vida incondicionalmente, não matou. Separou Estado e Religião. Mandou dar a César o que era dele; e a Deus o que pertencia à divindade.

    Foi humilde até a morte; e pena de morte sem ter cometido crime algum! E voltou a viver. E vive sempre!

    Por isso, não entendo como a religião de alguns se torna fundamentalismo, preconceito, intolerância, falta de diálogo, desrespeito com o próximo, teologia da prosperidade (“Deus ama quem doa mais”), avidez por dinheiro e status, sarcasmo com os diferentes ou racismo explícito. Não provém de Jesus de Nazaré essas atitudes, pelo contrário, deve vir do seu rival, aquele que, em latim, diabolus, tudo divide, arruína e destrói.

    Mais do que conseguir milagres, a religião nos deve levar a “praticar pequenos milagres”, um deles, por exemplo, sair de nossa mesquinhez e egoísmo, e partir para o encontro de Deus no rosto dos demais seres humanos, sem importar sua cor, sua orientação sexual ou sua condição econômica. Especialmente, pessoas religiosas devem segurar na mão e ajudar a erguer os que caem pelo caminho que nos separa do céu, aquele “estado” onde para sempre reinará o amor fraterno e a face brilhante de Deus eternamente nos iluminará.

  • A oposição ‘silenciosa’ ao Papa Bergoglio

    Humildade: marca do Papa Francisco

    Do site IHU Unisinos

    A Cúria e os movimentos conservadores temem que Francisco “enterre” a involução pós-conciliar.

    A reportagem é de Jesús Bastante, publicada no sítio Religión Digital, 23-03-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

    Ele é papa há apenas uma semana, e parece que a história fez uma reviravolta. Francisco é o pontífice de que a Igreja precisava? Além disso, é o pontífice de que a sociedade globalizada do século XXI precisa? Em um mundo cada vez menor, onde qualquer notícia chega imediatamente aos lugares mais remotos do globo, os primeiros gestos e decisões de Bergoglio geraram uma onda de otimismo e apoio sem precedentes nos últimos pontífices. E, paralelamente, embora em silêncio ou sob o amparo do anonimato, começam a surgir as críticas à “humildade” do novo papa, que é acusado de querer “enterrar” a involução pós-conciliar desejada pelos dois pontífices anteriores.

    O chamado de Francisco a uma maior austeridade, seu sonho de que esta seja uma “Igreja pobre e para os pobres”, a ausência de enfeites em sua vestimenta e gestos como o de pedir a bênção do povo ou de ficar à porta da paróquia de Santa Ana para se despedir dos seus fiéis são gestos certamente revolucionários. E também indicativos de que certas coisas estão mudando. Para o desgosto de alguns. De quem?

    Em primeiro lugar, da Cúria. Jorge Mario Bergoglio não é o papa que eles elegeriam a partir da estrutura. Scola ou Scherer eram os homens destinados a uma “reforma tranquila”, que não tocaria no essencial e manteria o mistério em torno da figura papal e do papel dos órgãos vaticanos. Dar por encerrado o Vatileaks e aceitar pequenas mudanças, mas sem tocar no essencial: o poder nas mãos de alguns poucos.

    No entanto, Francisco foi claro. “O verdadeiro poder está no serviço”, afirmou, na linha das últimas palavras de Bento XVI, com quem irá almoçar neste sábado e que quis, em seus últimos dias, denunciar as tramoias de uma estrutura que ele não conseguiu ou não soube pôr na linha.

    Em segundo lugar, os novos movimentos. Viu-se isso na missa de início de pontificado de Bergoglio, por outro lado muito numerosa. Ali cabiam todos na Igreja. Não só os Kikos [membros do Caminho Neocatecumenal], o Comunhão e Libertação, os Legionários de Cristo e afins, cujas bandeiras, certamente, praticamente desapareceram da outrora conquistada Praça de São Pedro.

    Os “apóstolos da nova evangelização”, a quem João Paulo II havia conferido exclusivamente a capacidade de se considerarem Igreja, têm que se relocalizar e buscar o seu lugar em uma instituição em que parece que, finalmente, todos podem entrar. As congregações religiosas, autênticas vilipendiadas durante os últimos 30 anos, voltam a respirar e se sentem com a liberdade e a confiança para continuar realizando o seu trabalho, em alguns casos milenar. Também os fiéis “a pé”, que consideram o novo papa muito mais próximo em seus gestos e atitudes do que os papas anteriores.

    Em terceiro lugar, os apologetas. Muitos representantes da “caverna” eclesial, midiática, social e política se encontram diante da tessitura da obediência cega à figura papal e da sensação de que o novo pontífice pode “trair” alguns princípios irrenunciáveis. Se já foram muitos os que, mais ou menos abertamente, criticaram a renúncia de Bento XVI por ter “descido da cruz”, eles temem que a abertura sugerida por Bergoglio “acabe quebrando a Igreja”.

    De fato, os últimos cismas na Igreja Católica quase sempre ocorreram do lado dos ortodoxos, em momentos de papados reformistas. Os “progressistas” simplesmente se tornam indiferentes, não com relação ao fato religioso nem com relação à fé, mas sim com o funcionamento das estruturas.

    Em quarto lugar, muitos bispos, principalmente nos países da “velha Europa“, especialmente a Espanha, aos quais a nomeação pegou-os “no contrapé” e que, por enquanto, optaram por esperar para ver se Francisco freia os passos que está dando ou que o tempo passe e a Cúria consiga “atar” alguns dos seus movimentos. Em todo caso, essa estrutura está disposta a “morrer matando”.

    O prestigioso vaticanista Marco Politi (do jornal Il Fatto Quotidiano) também alertou para as resistências internas ao “papa dos pobres”, que provêm de setores tradicionalistas e conservadores da Cúria Romana e que já começaram.

    Para Politi, é precisamente a determinação mostrada por Francisco que gerou essas reações subterrâneas internas à estrutura eclesiástica. “Exigir uma Igreja pobre e eclesiásticos irrepreensíveis significa pôr em contradição estilos de vida e comportamentos, que envolvem milhares de ‘hierarquias’ grandes e pequenas”, escreveu.

    Essa exigência também pressupõe, nas palavras do vaticanista, “pôr em discussão palácios, carros, servidões, consumismo, carreirismo que proliferam no mundo eclesiástico, assim como em qualquer organismo social, convivendo lado a lado com existências totalmente desinteressadas dedicadas à missão”.

    Para Politi, pôr a pobreza no primeiro lugar da agenda “não equivale apenas a viver em duas peças como o Bergoglio arcebispo em Buenos Aires. Implica a impossibilidade para a hierarquia eclesiástica de negar a transparência”. Além disso, poderia significar também tornar público o próprio patrimônio imobiliário, estimado pelo jornal econômico Il Sole 24 Ore em 1 bilhão de euros somente na Itália; publicar, como fazem na Alemanha, os balanços das dioceses italianas, normalmente contrárias a isso; reformar drasticamente o IOR (Instituto para as Obras de Religião, o Banco do Vaticano), recentemente acusado de ter lavado dinheiro em operações pouco transparentes. O IOR poderia ser diretamente abolido e substituído por um banco ético, em conformidade com as normas internacionais.

    A resistência ao primeiro papa que se chama Francisco começa a ser percebida também entre algumas das penas de renome da Itália. Assim, Giuliano Ferrara, diretor do jornal Il Foglio, considerado um “ateu devoto”, que passou de jovem comunista a liberal de direita, escreveu uma carta aberta diretamente a Francisco, intitulada “Padre, tenho medo da ternura”, jogando com a homilia que o papa pronunciou na missa de inauguração do pontificado, em que convidou a não ter medo da ternura e da bondade.

    “Eu estou entre aqueles poucos que têm medo da ternura, e digo-o sem muita ostentação, e entre aqueles pouquíssimos que consideram parte da misericórdia divina também o juízo e o exercício da autoridade”, escreveu Ferrara, paladino da luta contra o aborto, que é legal na Itália dentro dos 90 dias de gravidez.

    “Para mim, seria instintivo escrever-lhe agora, com pouca humildade, que ‘bom almoço’ não é uma teologia, que o perdão, a paciência e a amizade de Deus pelo homem fazem parte de um projeto da criação […] iluminado por ingovernáveis liberdades que é preciso disciplinar severamente”, escreveu.

    Ferrara, que lembra que Bergoglio disse uma vez que “abortar é matar a quem não pode se defender”, afirmou ter ouvido de sua boca essas mesmas palavras, em uma atitude de “linearidade, clareza e verdade”.

    “Esperemos que o deixem trabalhar e que ele não acabe como o pobre João Paulo I“, é o desejo que se escuta em muitos âmbitos eclesiais, tanto em Roma quanto em Madri. Palavras que denotam uma certa intranquilidade diante das reservas que o “tsunami Bergoglio” despertou nos setores mais ultraconservadores. O tempo lhes dará ou não razão.

  • Ateus devotos e apologistas de palácio

    José Lisboa Moreira de Oliveira, filósofo, doutor em teologia, ex-assessor do Setor Vocações e Ministérios/CNBB. Ex-Presidente do Inst. de Past. Vocacional. É gestor e professor do Centro de Reflexão sobre Ética e Antropologia da Religião (CREAR) da Universidade Católica de Brasília.

    De vez em quando, na mídia católica, alguns apresentadores se atrevem a falar mal de ilustres prelados brasileiros, conhecidos por sua santidade, retidão de vida e doação total ao povo de Deus. Chegam mesmo a postar suas falas nas redes sociais com a clara intenção de divulgar suas calúnias difamatórias. Entre os mais caluniados estão Dom Pedro Casaldáliga, Dom Luciano Mendes de Almeida e Dom Paulo Evaristo Arns. Diante disso, muitos católicos sérios, dotados de consciência crítica e profunda sensibilidade cristã, ficam se perguntando como é possível que este tipo de coisa aconteça em redes televisivas católicas, sem que nenhuma autoridade seja capaz de intervir para pelos menos pedir um pouco de respeito por estas ilustres pessoas.

    Diante de um fato tão degradante como esse resta-nos fazer algumas observações. Antes de tudo cabe dizer que este comportamento é a negação total do cristianismo. Quem assim se comporta não vive o cristianismo na sua essência, pois, segundo a Carta de Tiago, a língua dessas pessoas está “cheia de veneno mortal” (Tg 3,8) e não impregnada de ternura (Tg 3,13). Não cabe, pois, ao cristão, especialmente quem apresenta um programa televisivo católico, difamar publicamente os outros, especialmente pessoas honestas, conhecidas por suas vidas íntegras e éticas. “Tu, quem és para julgar o próximo?” (Tg 3,12).

    Em segundo lugar, é preciso lembrar que é normal a perseguição e a calúnia contra as pessoas santas. O próprio Jesus previu isso: “Felizes sois vós quando os homens vos odeiam, quando vos rejeitam, e quando insultam e proscrevem vosso nome como infame por causa do Filho do Homem” (Lc 6,22). Quando um cristão é elogiado por todo mundo é preciso tomar muito cuidado. Geralmente é um falso profeta, afirma Jesus de maneira categórica (Lc 6,26). Portanto, o sinal de que estes bispos foram ou são pessoas santas é o fato de serem caluniados pelos próprios irmãos e irmãs de comunidade (Mt 10,34-36). Foram ou são pessoas que, com seu exemplo de vida e com a palavra, incomodam e denunciam um cristianismo frouxo, comprometido com as injustiças e a corrupção; um cristianismo que faz pactos com os ricos, com os saciados, com os que oprimem os pobres (Lc 6,24-25).

    Tomemos como exemplo Dom Pedro Casaldáliga, recentemente ameaçado de morte. Desde que foi nomeado bispo por Paulo VI em 1971, se posicionou claramente do lado dos pobres e sofredores, defendendo índios e posseiros contra a ganância de fazendeiros. Recentemente Dom Pedro recusou uma homenagem que queria lhe fazer a Comissão Estadual de Erradicação do Trabalho Escravo de Mato Grosso. O motivo da recusa foi saber que a mulher do presidente da Assembleia Legislativa do Estado, também secretária de Cultura, é uma latifundiária, cujo nome consta na lista suja de pessoas que praticam o trabalho escravo em nosso país. Esta ilustre escravocrata é a pessoa que costuma organizar festas e eventos como aquele que a Comissão Estadual queria oferecer para Dom Pedro Casaldáliga. Dom Pedro recusou o convite com uma simples nota protocolada junto a Casa Civil do Mato Grosso, na qual diz o motivo de sua atitude. Como o apóstolo Tiago pôs o dedo na ferida dos exploradores dos pobres (Tg 5,1-6). Cristãos deste porte são odiados, especialmente por aqueles que na Igreja estão comprometidos com a corrupção, a ladroeira e a sem-vergonhice.

    Além disso, convém esclarecer ainda que toda esta campanha difamatória contra lideranças, bispos, padres, teólogos da libertação, não acontece por acaso. Anos atrás Délcio Monteiro de Lima, no seu livro que tem o sugestivo título Os demônios descem do norte (Editora Francisco Alves, 1987), mostrou que esta campanha foi bem pensada e bem planejada pelos governos conservadores dos Estados Unidos da América (EUA). Vendo que a Igreja na América Latina estava realizando uma evangelização libertadora, que daria aos nossos povos mais autonomia e independência, o governo dos EUA resolveu intervir secretamente, financiando grupos evangélicos alienados e a ala ultraconservadora da Igreja Católica. O objetivo era atenuar ou até mesmo eliminar a ação libertadora da evangelização, de modo que o povo continuasse sem consciência crítica e submisso aos governos locais de direita, totalmente aliados aos interesses norte-americanos.

    Estas ações dos governos Nixon e Reagan, embora secretas, terminaram por vir a público e ficaram conhecidas como Relatório Rockfeller e Comitê de Santa Fé. Além do financiamento de grupos evangélicos, previa-se apoio moral e financeiro aos movimentos católicos ultraconservadores, de modo que pudessem agir de maneira agressiva, influenciando inclusive o próprio Vaticano em decisões como a escolha de bispos, a punição de teólogos, a abertura de redes de televisão e assim por diante. A partir do estudo feito por Délcio Lima se pode afirmar que os programas alienados das televisões católicas respondem a este projeto do governo dos EUA. As calúnias contra nossos pastores, feitas por apresentadores católicos, são, pois, pensadas e planejadas de forma consciente para deixar o povo alienado. Povo esse que, aliás, é continuamente explorado pelo peditório constante dessas televisões católicas que trabalham contra a gente sofrida e oprimida.

    Pode-se, então, concluir que as pessoas que estão por trás destes programas alienadores e os seus apresentadores são pessoas sem fé. São “lobos vorazes” que se vestem de ovelhas (Mt 7,15) para enganar o povo. Utilizam-se da religiosidade para enganar os mais simples e defender os interesses dos ricos, dos poderosos, das multinacionais. São no dizer do teólogo e filósofo italiano Vito Mancuso, “ateus devotos”: pregam em nome do Evangelho, mostram-se bastante devotos, mas não acreditam na Palavra de Deus. Seus interesses são bem outros. Alguns deles se apresentam como professores de teologia, canonistas, biblistas. Na verdade, porém, não passam de simples “apologistas de palácio”, definição dada por Vito Mancuso a gente deste tipo. Tais pessoas não fazem teologia, tentando aprofundar a doutrina católica com a ajuda da inteligência e a iluminação da fé. Devido aos interesses escusos que estão por trás de suas falas, se recusam a fazer um confronto crítico entre o que é pregado e a verdade que liberta. Não querem que a verdade prevaleça (Jo 8,32). Limitam-se a ler o Catecismo da Igreja e a comentá-los repetindo suas frases. Não acrescentam nada. Na linguagem filosófica trata-se de uma péssima tautologia: explicar algo repetindo a mesma coisa que se disse antes. Tudo para enganar o povo.