Tag: Jesus Cristo

  • Francisco: reconstrói a Igreja junto aos que sofrem

    Aproveitando a deixa do nome do novo Papa, Francisco, aqui destaco o Cântico das Criaturas, de Francisco de Assis, escrito há 800 anos, mesmo assim, ainda urgente e ainda atual. Na versão do poeta católico popular brasileiro, Zé Vicente.



    Onipotente e bom senhor
    A ti a honra, glória e louvor
    Todas as bençãos de ti nos vêm
    E todo o povo te diz amém
    Louvado sejas nas criaturas
    Primeiro o sol lá nas alturas
    Clareia o dia, grande esplendor
    Radiante imagem de ti, Senhor

    Louvado sejas, pela irmã lua
    No céu criaste, é obra tua
    Pelas estrelas, claras e belas
    Tu és a fonte do brilho delas


    Louvado sejas pelo irmão vento
    E pelas nuvens, o ar e o tempo
    E pela chuva que cai no chão
    Nos dás sustento, Deus da criação
    Louvado sejas, meu bom Senhor
    Pela irmã água e seu valor
    Preciosa e casta, humilde e boa
    Se corre, um canto, a ti entoa

    Louvado sejas, ó meu Senhor
    Pelo irmão fogo e seu calor
    Clareia a noite, robusto e forte
    Belo e alegre, bendita sorte

    Sejas louvado, pela irmã terra
    Mãe que sustenta e nos governa
    Produz os frutos, nos dá o pão
    Com flores e ervas sorri o chão

    Louvado sejas, ó meu Senhor
    Pelas pessoas que em teu amor
    Perdoam, sofrem tribulação
    Felicidade em ti encontrarão

    Louvado sejas, pela irmã morte
    Que vem a todos, ao fraco e ao forte
    Feliz aquele que em ti amar
    A morte eterna não o matará

    Bem-aventurado quem guarda a paz
    Pois o Altíssimo satisfaz
    Vamos louvar e agradecer
    Com humildade ao Senhor bendizer

  • Boff: esperança na restauração da Igreja com o Papa Francisco

    Francisco de Assis, santo.

    O Papa Francisco, chamado a restaurar a Igreja
    * Leonardo Boff, teólogo de origem franciscana.

    Nas redes sociais havia anunciado que o futuro Papa iria se chamar Francisco. E não me enganei. Por que Francisco? Porque São Francisco começou sua conversão ao ouvir o Crucifixo da capelinha de São Damião lhe dizer: ”Francisco, vai e restaura a minha casa; olhe que ela está em ruinas” (S.Boaventura, Legenda MaiorII,1).

    Francisco tomou ao pé da letra estas palavras e reconstruíu a igrejinha da Porciúncula que existe ainda em Assis dentro de uma imensa catedral. Depois entendeu que se tratava de algo espiritual: restaurar a “Igreja que Cristo resgatara com seu sangue” (op.cit). Foi então que começou seu movimento de renovação da Igreja que era presidida pelo Papa mais poderoso da história, Inocêncio III. Começou morando com os hansenianos e de braço com um deles ia pelos caminhos pregando o evangelho em língua popular e não em latim.

    É bom que se saiba que Francisco nunca foi padre mas apenas leigo. Só no final da vida, quando os Papas proibiram que os leigos pregassem, aceitou ser diácono à condição de não receber nenhuma remuneração pelo cargo.

    Por que o Card. Jorge Mario Bergoglio escolheu o nome de Francisco? A meu ver foi exatamente porque se deu conta de que a Igreja está em ruinas pela desmoralização dos vários escândalos  que atingiram o que ela tinha de mais precioso: a moralidade e a credibilidade.

    Francisco não é um nome. É um projeto de Igreja, pobre, simples, evangélica e destituída de todo o poder. É uma Igreja que anda pelos caminhos, junto com os últimos; que cria as primeiras comunidades de irmãos que rezam o breviário debaixo de árvores junto com os passarinhos. É uma Igreja ecológica que chama a todos os seres com a doce palavra de “irmãos e irmãs”. Francisco se mostrou obediente à Igreja dos Papas e, ao mesmo tempo, seguiu seu próprio caminho com o evangelho da pobreza na mão. Escreveu o então teólogo Joseph Ratzinger: ”O não de Francisco àquele tipo de Igreja não poderia ser mais radical, é o que chamaríamos de protesto profético”(em Zeit Jesu, Herder 1970, 269). Ele não fala, simplesmente inaugura o novo.

    Creio que o Papa Francisco tem em mente uma Igreja assim, fora dos palácios e dos símbolos do poder. Mostrou-o ao aparecer em público. Normalmente os Papas e Ratizinger principalmente punham sobre os ombros a mozeta aquela capinha, cheia de brocados e ouro que só os imperadores podiam usar. O Papa Francisco veio simplesmente vestido de branco e com a cruz de bispo. Três pontos são de ressaltar em sua fala e são de grande significação simbólica.

    O primeiro: disse que quer “presidir na caridade”. Isso desde a Reforma e nos melhores teólogos do ecumenismo era cobrado. O Papa não deve presidir com como um monarca absoluto, revestido de poder sagrado como o prevê o direito canônico. Segundo Jesus, deve presidir no amor e fortalecer a fé dos irmãos e irmãs.

    O segundo: deu centralidade ao Povo de Deus, tão realçada pelo Vaticano II e posta de lado pelos dois Papas anteriores em favor da Hierarquia. O Papa Francisco, humildemente, pede que o Povo de Deus reze por ele e o abençoe. Somente depois, ele abençoará o Povo de Deus. Isto significa: ele está ai para servir e não par ser servido. Pede que o ajudem a construir um caminho juntos. E clama por fraternidade para toda a humanidade onde os seres humanos não se reconhecem como irmãos e irmãs mas reféns dos mecanismos da economia.

    Por fim, evitou toda a espetacularização da figura do Papa. Não estendeu os braços para saudar o povo. Ficou parado, imóvel, sério e sóbrio, diria, quase assustado. Apenas se via a figura branca que olhava com carinho para a multidão. Mas irradiava paz e confiança. Usou de humor falando sem uma retórica oficialista. Como um pastor fala aos seus fiéis.

    Cabe por último ressaltar que é um Papa que vem do Grande Sul, onde estão os pobres da Terra e onde vivem 60% dos católicos. Com sua experiência de pastor, com uma nova visão das coisas, a partir de baixo, poderá reformar a Cúria, descentralizar a administração e conferir um rosto novo e crível à Igreja.

    Leonardo Boff é autor de São Francisco de Assis: ternura e vigor, Vozes 1999.

    Comentário a este artigo de Leonardo Boff por Severino Fernandes, no Blog do Luis Nassif.

    Papa Francisco, eleito em 13/03/2013.

    Confesso que não compartilho do mesmo otimismo do irmão em Cristo e Francisco, o teólogo Leonardo Boff. Mas compartilho de sua esperança de que a Igreja sob o papado de Francisco I tome novos rumos, e que esses rumos se deem em torno de uma Igreja cuja centralidade não se dê em torno de um grupo de cardeais, mas sim em torno do Povo de Deus.

    Embora ressabiado com o passado ainda dúbio do cardeal Bergoglio e sua possível (espero que não) ligação com a cruel e desumana ditadura militar argentina, confesso que a humildade do novo papa chamou-me muito a atenção, lembrou-me a apresentação do papa João Paulo I, em 1978. O papa cujo sorriso irradiava esperança e que infelizmente morreu 33 dias depois, uma morte infelizmente até aqui mal esclarecida e sob circunstâncias pra lá de duvidosas, sabendo-se que João Paulo I apontava para a continuidade dos ventos liberalizantes do Concílio Vaticano II, ainda de forma mais radical e profunda.

    Depois vieram João Paulo II e Bento XVI, que ao contrário de seus antecessores (João XXIII, Paulo VI e o próprio João Paulo I) não deram continuidade ao espírito transformador do Vaticano II e das Conferências Episcopais de Puebla e Medellin.

    João Paulo II, carismático, mas ultra-conservador, tratou de esmagar a Teologia da Libertação e sua “opção preferencial pelos pobres”, em nome de um combate ao marxismo que tinha raízes na sua Polônia, então um satélite do bloco comunista liderado pela antiga União Soviética. Ao esmagar a TL, o papa polonês ajudou a perseguir todos os teólogos e religiosos comprometidos com as Comunidades Eclesiais de Base e com uma Igreja feita a partir da base e que apontava para o enfrentamento contra ditaduras de direita e modelos econômicos que condenavam milhões de seres humanos à fome e à miséria na América Latina, África e outros pontos do chamado Terceiro Mundo.

    O próprio Boff foi vítima dessa perseguição. O então religioso da Ordem dos Frades Menores de São Francisco de Assis se viu cara a cara com o cardeal alemão Joseph Ratzinger, que foi inflexível diante da teologia libertária e comprometida com os pobres do jovem frade franciscano.

    Boff acabou silenciado, e mais tarde teve que deixar o exercício do ministério sacerdotal para, como ele mesmo disse, continuar “católico” e “comprometido com os pobres” e não com a hierarquia da Igreja de Roma.

    Ratzinger, que comandou com mão de ferro a Congregação para a Doutrina da Fé (o antigo Santo Ofício ou Inquisição Católica), como sabemos, acabou sendo eleito papa, assumindo-se como Bento XVI. E deu continuidade ao ultra-conservadorismo pró-Curia Romana de seu antecessor (João Paulo II), de quem era braço direito em questões doutrinárias e dogmáticas.

    De qualquer forma como cristão e franciscano tenho esperança que Francisco I retome o caminho de onde ele foi paralisado no distante 1978, com o papa do sorriso, e aprofunde as mudanças necessárias para a construção de uma verdadeira Igreja Povo de Deus, e que seu destino não seja o desse papa do sorriso  (João Paulo I), de morte precoce (e suspeita para muitos).

    Que o Espírito Santo lhe ilumine e lhe dê forças e coragem para enfrentar a Curia Romana e todos os desvios doutrinários e morais que tem acometido a Igreja nos tempos atuais.

    Que ele, no espírito de São Francisco de Assis, seja de fato aquele que irá reconstruir a Igreja no momento em que ela precisa dessa reconstrução, que não será fácil, mas será tanto melhor, maior e mais efetiva, se ele alicerçar-se no Povo de Deus. O mesmo Povo de Deus para o qual ele humildemente pediu a benção e as orações no  momento de sua apresentação como Sumo Pontífice.

    Que as sandálias humildes do pescador Pedro lhe caibam nos pés, mais do que a pompa e antiga e pesada coroa que antigamente ornava a cabeça de poderosos e por vezes nada pios e muito menos cristãos papas.

  • Bem vindo, Papa Francisco!

    Argentino, Jorge Bergoglio, Papa Francisco,
    eleito bispo de Roma em 13/03/2013

    Um Papa que, ainda quando cardeal, andava de ônibus e metrô, no meio de seus fiéis, ou que preparava a própria comida, me anima e me dá esperanças de um reencontro salutar de nossa Igreja com o Nazareno, seu fundador e Mestre, que não titubeava de andar com agricultores, pescadores, mulheres, cobradores de impostos e outras pessoas de classe humilde da sua época.

    “Hoje temos padres de Fórmula 1, que celebram missa com carrão e voltam logo para casa. Quem sabe o novo papa vai animá-los a deixar de fazer pit stop nas bases para ficar uma semana no interior, na “aldeia indígena’ (na comunidade rural, na favela, na periferia, na família desestabilizada) onde pregam”. Teólogo Pe. Paulo Suess (Cimi).

    O Espírito Santo não se cansa de me surpreender! Graças a Deus! Bem vindo, Papa Francisco! Venha ajudar a reconstruir a Igreja de Jesus no coração das pessoas, especialmente dos mais necessitados!


  • Poema: Deixa a cúria, Pedro!

    Pedro Casaldáliga, Bispo.

    Poema de Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito de S. Félix do Araguaia para reflexão pós-renúncia do papa.

    Deixa a Cúria, Pedro,
    Desmonta o sinédrio e as muralhas,
    Ordene que todos os pergaminhos impecáveis sejam alterados
    pelas palavras de vida e amor.


    Vamos ao jardim das plantações de banana,
    revestidos e de noite, a qualquer risco,
    que ali o Mestre sua o sangue dos pobres.


    A túnica/roupa é essa humilde carne desfigurada,
    tantos gritos de crianças sem resposta,
    e memória bordada dos mortos anônimos.


    Legião de mercenários assediam a fronteira da aurora nascente
    e César os abençoa a partir da sua arrogância.
    Na bacia arrumada, Pilatos se lava, legalista e covarde.


    O povo é apenas um “resto”,
    um resto de esperança.
    Não O deixe só entre os guardas e príncipes.
    É hora de suar com a Sua agonia,
    É hora de beber o cálice dos pobres
    e erguer a Cruz, nua de certezas,
    e quebrar a construção – lei e selo – do túmulo romano,
    e amanhecer
    a Páscoa.


    Diga-lhes, diga-nos a todos
    que segue em vigor inabalável,
    a gruta de Belém,
    as bem-aventuranças
    e o julgamento do amor em alimento.


    Não te conturbes mais!

    Como você O ama,
    ame a nós,
    simplesmente,
    de igual a igual, irmão.


    Dá-nos, com seus sorrisos, suas novas lágrimas,
    o peixe da alegria,
    o pão da palavra,
    as rosas das brasas…
    … a clareza do horizonte livre,
    o mar da Galileia,
    ecumenicamente, aberto para o mundo.


    Pedro Casaldáliga, Bispo.

    Fonte: Revista Missões.

  • Especial Igreja: A Igreja-instituição como "casta meretriz"

    Leonardo Boff. Filósofo e Teólogo. Em seu próprio site.

    Quem acompanhou o noticiário dos últimos dias acerca dos escândalos dentro do Vaticano, trazidos ao conhecimento pelos jornais italianos “La Repubblica” e o “La Stampa”, referindo um relatório com trezentas páginas, elaborado por três Cardeais provectos sobre o estado da cúria vaticana deve, naturalmente, ter ficado estarrecido. Posso imaginar nossos irmãos e irmãs piedosos que, fruto de um tipo de catequese exaltatória do Papa como “o doce Cristo na Terra” devam estar sofrendo muito, pois amam o justo, o verdadeiro e o transparente e jamais quereriam ligar sua figura a notórios malfeitos de seus assistentes e cooperadores.

    O conteúdo gravíssimo destes relatórios reforçaram, no meu entender, a vontade do Papa de renunciar. Ai se comprovava uma atmosfera de promiscuidade, de luta de poder entre “monsignori”, de uma rede de homossexualismo gay dentro do Vaticano e desvio de dinheiro do Banco do Vaticano. Como se não bastassem os crimes de pedofilia em tantas dioceses que desmoralizaram profundamente a instituição-Igreja.

    Quem conhece um pouco a história da Igreja – e nós profissionais da área temos  que estuda-la detalhadamente- não se escandaliza. Houve épocas de verdadeiro descalabro do Pontificado com Papas adúlteros, assassinos e vendilhões. A partir do Papa Formoso (891-896) até o Papa Silvestre (999-1003) se instaurou segundo o grande historiador Card. Barônio a “era pornocrática” da alta hierarquia da Igreja. Poucos Papas escapavam de serem depostos ou assassinados. Sergio III (904-911) assassinou seus dois predecessores, o Papa Cristóvão e Leão V.

    A grande reviravolta na Igreja como um todo, aconteceu, com consequências para toda a história ulterior, com o Papa Gregório VII em 1077. Para defender seus direitos e a liberdade da instituição-Igreja contra reis e príncipes que a manipulavam, publicou um documento que leva este significativo título “Dictatus Papae” que literalmente traduzido significa “a Ditadura do Papa”. Por este documento, ele assumia todos os poderes, podendo julgar a todos sem ser julgado por ninguém. O grande historiador das idéias eclesiológicas Jean-Yves Congar, dominicano, considera a maior revolução acontecida na Igreja. De uma Igreja-comunidade passou a ser uma instituição-sociedade monárquica e absolutista, organizada de forma piramidal e que vem até os dias atuais.

    Efetivamente, o cânon 331 do atual Direito Canônico se liga a esta compreensão, atribuindo ao Papa poderes que, na verdade, não caberiam a nenhum mortal, senão somente a Deus: ”Em virtude de seu ofício, o Papa tem o poder ordinário, supremo, pleno, imediato, universal” e em alguns casos precisos, “infalível”.

    Esse eminente teólogo, tomando a minha defesa face ao processo doutrinário movido pelo Card. Joseph Ratzinger em razão do livro “Igreja:carisma e poder” escreveu um artigo no “La Croix”(8/9/1984) sobre o “O carisma do poder central”. Ai escreve:”O carisma do poder central é não ter nenhuma dúvida. Ora, não ter nenhuma dúvida sobre si mesmo é, a um tempo, magnífico e terrível. É magnífico porque o carisma do centro consiste precisamente em permanecer firme quando tudo ao redor vacila. E é terrível porque em Roma estão homens que tem limites, limites em sua inteligência, limites em seu vocabulário, limites em suas referencias, limites no seu ângulo de visão”. E eu acrescentaria ainda limites em sua ética e moral.

    Sempre se diz que a Igreja é “santa e pecadora” e deve ser “sempre reformada”. Mas não é o que ocorreu durante séculos nem após o explícito desejo do Concílio Vaticano II e do atual Papa Bento XVI. A instituição mais velha do Ocidente incorporou privilégios, hábitos, costumes políticos palacianos e principescos, de resistência e de oposição que praticamente impediu ou distorceu todas as tentativas de reforma.

    Só que desta vez se chegou a um ponto de altíssima desmoralização, com práticas até criminosa que não podem mais ser negadas e que demandam mudanças fundamentais no aparelho de governo da Igreja. Caso contrário, este tipo de institucionalidade tristemente envelhecida e crepuscular definhará até entrar em ocaso. Os atuais escândalos sempre houveram na cúria vaticana apenas que não havia um providencial Vatileaks para  trazê-los a público e indignar o Papa e a maioria dos cristãos.

    Meu sentimento do mundo me diz que  estas perversidades no espaço do sagrado e no centro de referencia para toda a cristandade – o Papado – (onde deveria primar a virtude e até a santidade) são consequência desta centralização absolutista do poder papal.  Ele faz de todos vassalos, submissos  e ávidos por estarem fisicamente perto do portador do supremo poder, o Papa. Um poder absoluto, por sua natureza, limita e até nega a liberdade dos outros, favorece a criação de grupos de anti-poder, capelinhas de burocratas do sagrado contra outras, pratica  largamente a simonía que é compra e venda de vantagens, promove  adulações e destrói os mecanismos da transparência. No fundo, todos desconfiam de todos. E cada qual procura a satisfação pessoal da forma que melhor pode. Por isso, sempre foi problemática a observância do celibato dentro da cúria vaticana, como se está revelando agora com a existência de uma verdadeira rede de prostituição gay.

    Enquanto esse poder não se descentralizar e  não outorgar mais participação de todos os estratos do povo de Deus, homens e mulheres, na condução dos caminhos da Igreja o tumor causador desta enfermidade perdurará. Diz-se que Bento XVI passará a todos os Cardeais o referido relatório para cada um saber que problemas irá enfrentar caso seja eleito Papa. E a urgência que terá de introduzir radicais transformações. Desde o tempo da Reforma que se ouve o grito: ”reforma na Cabeça e nos membros”. Porque nunca aconteceu, surgiu  a Reforma como gesto desesperado dos reformadores de fazerem por própria conta tal empreendimento.

    Para ilustração dos cristãos e dos interessados em assuntos eclesiásticos, voltemos à questão dos escândalos. A intenção é desdramatizá-los, permitir que se tenha uma noção menos idealista e, por vezes, idolátrica da hierarquia e da figura do Papa e libertar a liberdade para a qual Cristo nos chamou (Galatas 5,1). Nisso não vai nenhum gosto pelo Negativo nem vontade de acrescentar desmoralização sobre desmoralização. O cristão tem que ser adulto, não pode se deixar infantilizar nem permitir que lhe neguem conhecimentos em teologia e em história para dar-se conta de quão humana e demasiadamente humana pode ser a instituição que nos vem dos Apóstolos.

    Há uma longa tradição teológica que se refere à Igreja como casta meretriz,  tema abordado detalhadamente por um grande teólogo, amigo do atual Papa, Hans Urs von Balthasar (ver em Sponsa Verbi,  Einsiedeln 1971, 203-305). Em várias ocasiões o teólogo J. Ratzinger se reportou a esta denominação. A Igreja é uma meretriz que toda noite se entrega à prostituição; é casta  porque Cristo, cada manhã se compadece dela, a lava e a ama.

    O  habitus meretrius da instituição, o vício do meretrício, foi duramente criticado pelos Santos Padres da Igreja como Santo Ambrósio, Santo Agostinho, São Jerônimo e outros. São Pedro Damião chega a chamar o referido Gregório VII de “Santo Satanás” (D. Romag, Compêndio da história da Igreja, vol 2, Petrópolis 1950,p.112). Essa denominação dura nos remete àquela de Cristo dirigida a Pedro. Por causa de sua profissão de fé o chama “de pedra”mas por causa de sua pouca fé e de não entender os desígnios de Deus o qualificou de “Satanás”(Evangelho de Mateus 16,23). São Paulo parece um moderno falando quando diz a seus opositores com fúria: ”oxalá sejam castrados todos os que vos perturbam”(Gálatas 5.12).

    Há portanto, lugar para a profecia na Igreja e para a denúncias dos malfeitos que podem ocorrer no meio eclesiástico e também no meio dos fiéis.

    Vou referir outro exemplo tirado de um santo querido da maioria dos católicos brasileiros, por sua candura e bondade: Santo Antônio de Pádua. Em seus sermões, famosos na época, não se mostra  nada doce e gentil. Fez vigorosa crítica aos prelados devassos de seu tempo. Diz ele: “os bispos são cachorros sem nenhuma vergonha, porque sua frente tem cara de meretriz e por isso mesmo não querem criar vergonha”(uso a edição crítica em latim publicada em Lisboa em 2 vol em 1895). Isto foi proferido no sermão do quarto domingo depois de Pentecostes ( p. 278). De outra vez,  chama os prelados de “macacos no telhado, presidindo dai o povo de Deus”(op cit  p. 348).  E continua:” o bispo da Igreja é um escravo que pretende reinar, príncipe iniquo, leão que ruge, urso faminto de rapina que espolia o povo pobre”(p.348). Por fim na festa de São Pedro ergue a voz e denuncia:”Veja que Cristo disse três vezes: apascenta e nenhuma vez tosquia e ordenha… Ai daquele que não apascenta nenhuma vez e tosquia e ordena três ou mais vezes…ele é um dragão ao lado da arca do Senhor que não possui mais que aparência e não a verdade”(vol. 2, 918).

    O teólogo Joseph Ratzinger explica o sentido deste tipo de denúncias proféticas:” O sentido da profecia reside, na verdade, menos em algumas predições do que no protesto profético: protesto contra a auto-satisfação das instituições, auto-satisfação que substitui a moral pelo rito e a conversão pelas cerimônias” (Das neue Volk Gottes,  Düsseldorf 1969, p. 250, existe tradução português).

    Ratzinger critica com ênfase a separação que fizemos com referencia à figura de Pedro: antes da Páscoa, o traidor; depois de Pentecostes, o fiel. “Pedro continua vivendo esta tensão do antes e do depois; ele continua sendo as duas coisas: a pedra e o escândalo… Não aconteceu, ao largo de toda a história da Igreja, que o Papa, simultaneamente, foi o sucessor de Pedro, a “pedra” e o “escândalo”(p. 259)?

    Aonde queremos chegar com tudo isso? Queremos chegar ao reconhecimento de que a igreja- instituição de papas, bispos e padres, é feita de homens que podem trair, negar e fazer do poder religioso negócio e instrumento de autosatisfação. Tal reconhecimento é terapêutico, pois nos cura de toda uma ideologia idolátrica ao redor da figura do Papa, tido como praticamente infalível. Isso é visível em setores conservadores e fundamentalista de movimentos católicos leigos e também de grupos  de padres. Em alguns vigora uma verdadeira papolatria que Bento XVI procurou sempre evitar.

    A crise atual da Igreja  provocou a renúncia de um Papa que se deu conta de que não tinha mais o vigor necessário para sanar escândalos de tal gravidade. “Jogou a toalha” com humildade. Que outro mais jovem venha a assuma a tarefa árdua e dura de limpar a corrupção da cúria romana e do universo dos pedófilos, eventualmente puna, deponha e envie alguns mais renitentes para algum convento para fazer penitência e se emendar de vida.

    Só quem ama a Igreja pode fazer-lhe as críticas que lhe fizemos, citando textos de autoridade clássicas do passado. Quem deixou de amar a pessoa um dia amada, se torna indiferente à sua vida e destino. Nós nos interessamos à semelhança do amigo e  de irmão de tribulação Hans Küng, (foi condenado pela ex-Inquisição) talvez um dos teólogos  que mais ama a Igreja e por isso a critica.

    Não queremos que cristãos cultivem este sentimento de  de descaso e de indiferença. Por piores que tenham sido seus erros e equívocos históricos, a instituição-Igreja guarda a memória sagrada de Jesus e a gramática dos evangelhos. Ela prega libertação, sabendo que geralmente são outros que libertam e não ela.

    Mesmo assim vale estar dentro dela, como estavam São Francisco, Dom Helder Câmara, João XXIII e os notáveis teólogos que ajudaram a fazer o Concílio Vaticano II e que antes haviam sido todos condenados pela ex-Inquisição, como De Lubac, Chenu, Congar,  Rahner e outros. Cumpre  ajuda-la a sair deste embaraço, alimentando-nos mais do sonho de Jesus de um Reino de justiça, de paz e de reconciliação com Deu e do seguimento de sua causa e destino do que de simples e justificada indignação que pode cair facilmente no farisaísmo e no moralismo.

    Leonardo Boff
    Mais reflexões desta ordem se encontram no meu Igreja: carisma e poder  (Record 2005) especialmente no Apêndice com todas a atas do processo havido no interior da ex-Inquisição em 1984.

  • Especial Igreja: Uma Igreja Católica sem Papa?

    Eduardo Hoornaert. Padre casado, belga, com mais de 50 anos de Brasil, historiador e teólogo, mais de 20 livros publicados. Mora em Salvador. Dedica-se agora ao estudo das origens do cristianismo. Adital.


    O anúncio da renúncia de Bento XVI me surpreendeu, como aconteceu a muitas pessoas. Impressiona-me a simplicidade com que ele expõe seus sentimentos e penso que, desse modo, ele desbloqueia a visão estática que temos do papado e abre um espaço para discussões em torno do governo da igreja católica. É isso que pretendo fazer neste texto. Minha pergunta é a seguinte: será que a igreja católica precisa mesmo de um papa? Vou por pontos.

    1. O papado

    O papado não está ligado à origem do cristianismo. O termo ‘papa’, por exemplo, não aparece no novo testamento. Quanto aos versos do evangelho de Mateus (‘tu és Pedro e sobre essa pedra construirei minha igreja’: 16, 18), que costumam ser invocados para legitimar o papado, há de se lembrar que a exegese atual é taxativa em afirmar que não se pode isolar um texto de seu conjunto literário e transformá-lo em oráculo. Ora, os versos de Mateus funcionam, pelo menos na instituição católica, como um oráculo. Para quem lê os evangelhos em contexto fica claro que não dá para se imaginar que Jesus tenha planejado uma dinastia apostólica de caráter corporativo, baseada em sucessão de poderes. As palavras ‘tu és Pedro’ não condizem com a instituição do papado. Foi o bispo Eusébio de Cesareia, teórico da política universalista do imperador Constantino, que no século IV começou a redigir listas de sucessivos bispos para as principais cidades do império romano, em muitos casos sem verificar a veracidade dos nomes arrolados, na tentativa de adaptar o sistema cristão ao modelo romano da sucessão dos poderes. Esse bispo-historiador é o criador da imagem de Pedro-papa. Mas a pesquisa histórica aponta outro horizonte e mostra que a palavra ‘papa’ (pope), que pertence ao grego popular do século III, é um termo derivado da palavra grega ‘pater’ (pai) e expressa o carinho que os cristãos tinham por determinados bispos ou sacerdotes. O termo penetrou no vocabulário cristão, tanto da igreja ortodoxa como da católica. No interior da Rússia, até hoje, o pastor da comunidade é chamado ‘pope’. A história conta que o primeiro bispo a ser chamado ‘papa’ foi Cipriano, bispo de Cartago entre 248 e 258 e que o termo ‘papa’ só apareceu tardiamente em Roma: o primeiro bispo daquela cidade a receber oficialmente esse nome (segundo a documentação disponível) foi João I, no século VI.

    2. O episcopado

    Em contraste com o papado, a instituição episcopal deita raízes sólidas na origem do cristianismo, pois se refere a uma função já existente no sistema sinagogal judeu. A palavra ‘bispo’ (que significa ‘supervisor’) se encontra diversas vezes nos textos do novo testamento (1Tm 3, 2; Tito 1, 7; 1Pd 2, 25 e At 20, 29), assim como o substantivo ‘episcopado’ (1Tm 3, 1). Nas sinagogas judaicas, o ‘epíscopos’ era responsável pela boa ordem nas reuniões e as primeiras comunidades cristãs nada mais fizeram que adotar e adaptar o nome e a função.

    3. A luta pelo poder

    A partir do século III desencadeou-se, entre os bispos das quatro principais metrópoles do império romano (Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Roma), uma dura luta pelo poder. Essa luta era particularmente dramática na parte oriental do império, onde se falava a língua grega. Os bispos em litígio foram chamados ‘patriarcas’, um termo que acopla o ‘pater’ grego com o poder político (‘archè’, em grego, significa ‘poder’). O patriarca é ao mesmo tempo pai e líder político. Nos inícios, Roma participava pouco dessa disputa, por ficar longe dos grandes centros do poder da época e usar uma língua menos universal (apenas usada na administração e no exército do sistema imperial romano), o latim. Por sua vez, Jerusalém, cidade ‘matriz’ do movimento cristão, ficou fora do páreo por ser uma cidade de pouca importância política.

    Mesmo assim, Roma se fazia valer na parte ocidental do império. O já citado bispo Cipriano, de Cartago, reagiu com energia diante das pretensões hegemônicas do bispo de Roma e insistiu: entre bispos tem de reinar uma ‘completa igualdade de funções e poder’. Mas o curso da história foi implacável. Os sucessivos patriarcas de Roma conseguiram ampliar sua autoridade e elevaram o tom da voz, principalmente após a bem sucedida aliança com o emergente poder germânico no ocidente (Carlos Magno, 800). As relações com os patriarcas orientais (principalmente com o patriarca de Constantinopla) se tornaram sempre mais tensas até que aconteceu a ruptura de 1052. Aí começou a história da igreja católica apostólica romana propriamente dita.

    4. O papa fica do lado dos mais fortes

    Uma vez ‘dona do pedaço’, Roma foi elaborando de forma sofisticada a ‘arte da corte’ que ela aprendera com Constantinopla. Ao longo dos séculos, praticamente todos os governos da Europa ocidental aprenderam por sua vez a arte diplomática com Roma. Trata-se de uma arte nada edificante, que inclui hipocrisia, aparência, habilidade em lidar com o povo, impunidade, sigilo, linguagem codificada (inacessível aos fiéis), palavras piedosas (e enganosas), crueldade encoberta de caridade, acumulação financeira (indulgências, ameaça do inferno, pastoral do medo etc.). A imponente ‘História criminal do cristianismo’, em 10 volumes, que o historiador K. Deschner acaba de concluir, descreve essa arte eminentemente papal em detalhes.

    Foi principalmente por meio da arte diplomática que, ao longo da idade média, o papado teve sucessos fenomenais. Sem armas, Roma enfrentou os maiores poderes do ocidente e saiu vitoriosa (Canossa 1077). Como resultado, a igreja foi afetada, no dizer do historiador Toynbee, pela ‘embriaguez da vitória’. O papa perdeu contato com a realidade do mundo e passou a viver num universo irreal, repleto de palavras sobrenaturais (que ninguém entende). Como bem observa Ivone Gebara, algumas dessas palavras ainda hoje estão em voga, como quando se diz que o Espírito Santo elegerá o próximo papa.

    Com o advento da modernidade, o papado perde paulatinamente espaço público. No século XIX, principalmente durante o longo pontificado de Pio IX, a antiga estratégia de se opor aos ‘poderes deste mundo’ não funciona mais. Não traz mais vitórias, registra apenas derrotas. Então, o papa Leão XIII resolve mudar a estratégia e inicia uma política de apoio aos mais fortes, uma estratégia que funciona durante todo o século XX. Bento XV sai da primeira guerra mundial ao lado dos vitoriosos; Pio XI apoia Mussolini, Hitler e Franco, enquanto Pio XII pratica a política do silêncio diante dos crimes contra a humanidade perpetrados durante a segunda guerra mundial, à custa de incontáveis vidas humanas. Após uma breve interrupção com João XXIII, a política de apoio silencioso aos fortes (e de palavras genéricas de consolo aos perdedores) prossegue até os nossos dias.

    5. Hoje, o papado é um problema

    Por tudo isso, pode-se dizer hoje que o papado não é uma solução, é um problema. Não se diz o mesmo do episcopado, pois este registra, nos últimos tempos, páginas luminosas. Além dos bispos mártires (como Romero e Angelelli), tivemos aqui na América Latina uma geração de bispos excepcionais entre os anos 1960 e os anos 1990. Além disso, o concílio Vaticano II avançou a ideia da colegialidade episcopal, no intuito de fortalecer o poder dos bispos e limitar o poder do papa. Mas tudo esbarrou num muro intransponível feito de mistura entre preguiça mental (a lei do menor esforço), fascínio pelo poder (Walter Benjamin), disponibilidade do fraco diante do poderoso (Machiavelli) e arte cortesã (Norbert Elias). Mesmo assim, vale lembrar que o catolicismo é maior que o papa e que a importância dos valores veiculados pelo catolicismo é maior que o atual sistema de seu governo.

    6. Pode a igreja católica subsistir sem papa?

    Pode a França subsistir sem rei, a Inglaterra sem rainha, a Rússia sem czar, o Irã sem aiatolá? A própria história se encarrega de dar a resposta. A França não se acabou com a destituição do rei Luis XVI e o Irã certamente não se acabará com o fim do reino dos aiatolás. Isso se aplica ao cristianismo, como comprova o surgimento do protestantismo no século XVI. Haverá certamente resiliências e saudosismos, tentativas de volta ao passado, mas instituições não costumam desaparecer com mudanças de governo. Em geral, o movimento da história em direção a uma maior democracia e participação popular é irreversível (ao que parece). Cedo ou tarde, a igreja católica terá de enfrentar a questão da superação do papado por um sistema de governo central mais condizente com os tempos que vivemos.

    Dentro dessa lógica pode-se dizer que a atual ânsia em fazer prognósticos acerca do futuro papa pode desviar a atenção do que é realmente importante. Pois não se trata do papa, mas do papado como forma de governo. Compreende-se que a mídia, nestes dias, se compraz em focalizar a figura do papa. Pois, para ela, o papa é negócio. O sucesso do enterro do papa João Paulo II, alguns anos atrás, mostrou aos planejadores da mídia as potencialidades financeiras de grandes eventos papais. Com prazer, a mídia se encarrega hoje de divulgar os pontos básicos do catecismo papal: o papa é o sucessor de Pedro, o primeiro papa; a eleição de um papa, em última análise, é obra do Espirito Santo; que ninguém perca a indulgência plenária concedida excepcionalmente por Deus por ocasião da primeira bênção do novo papa. Eis o que veremos nas próximas semanas. Talvez seja melhor não falar muito da eleição do futuro papa nestes dias, mas trabalhar sobre temas que preparem a igreja do futuro.

    Termino trazendo aqui dois exemplos recentes em torno dessa problemática. Poucas pessoas sabem que, nos idos de 1980, o cardeal Aloísio Lorscheider chegou a discutir com o papa João Paulo II acerca da descentralização do poder na igreja. Não existe registro escrito ou fotografado dessa discussão, mas parece que o papa se mostrou aberto às sugestões do cardeal brasileiro, conforme consta na encíclica ‘Ut unum sint’. Esse ponto foi comentado por José Comblin num de seus últimos trabalhos: ‘Problemas de governo da igreja’ (veja internet). Penso que o papa só não avançou porque não percebia na igreja uma real vontade política em avançar na direção da descentralização do governo. Nesse caso, ficou claro que o problema não é o papa, mas o papado.

    Um exemplo bem diferente, mas que aponta na mesma direção, é dado por outro bispo brasileiro, Helder Camara. Chegando a Roma para participar do Concílio Vaticano II (ele não tinha viajado à Europa antes), o bispo brasileiro estranhou os comportamentos na corte romana a ponto de ter alucinações, como conta em suas cartas circulares. Certa vez, por ocasião de uma sessão na basílica de São Pedro, ele teve a impressão de ver o imperador Constantino invadir a igreja montado num garboso cavalo a pleno galope. Outra vez, ele sonhou que o papa ficou louco, jogou sua tiara no Tibre e atou fogo no Vaticano. Ele dizia, em conversas informais: o papa faria bem em vender o Vaticano à Unesco e alugar um apartamento no centro de Roma. Pude verificar pessoalmente, em diversas ocasiões, que Dom Helder detestava o ‘sigilo papal’ (um dos instrumentos do poder de Roma). Ao mesmo tempo, o bispo brasileiro mantinha amizade com o papa Paulo VI, o que mostra, mais uma vez, que o problema não é o papa, mas sim o papado enquanto instituição.
  • Especial Igreja: A força de uma renúncia

    Dom Demétrio Valentini. Bispo de Jales (SP) e Presidente da Cáritas Brasileira até novembro de 2011. Adital.


    Estamos chegando ao dia e hora marcados para a renúncia de Bento 16. Na quinta-feira desta próxima semana, no dia 28 de fevereiro, às vinte horas de Roma, Bento XVI deixará a cátedra de Pedro, que ficará vacante, até que os cardeais elejam um novo papa.

    Mesmo com a insistente divulgação do acontecimento, parece que a notícia ainda estaria esperando confirmação, dada a inusitada situação que dela decorreu. Mas aos poucos a inexorabilidade se impõe: é verdade, Bento XVI decidiu renunciar!

    A surpresa maior, porém, não é produzida pelo inusitado da ocorrência. Mas pelas circunstâncias pessoais do Papa, o verdadeiro protagonista deste acontecimento de tantas repercussões.

    Ele revelou um grande desprendimento, não se prendendo às vantagens pessoais que o cargo lhe garantia.

    Foi sereno, demonstrou pela consciência das repercussões do seu ato, e fez questão de asseverar que agia livremente, depois de obtida a certeza pessoal da conveniência da decisão que tinha amadurecido no confronto de sua consciência com as responsabilidades assumidas ao ser eleito Papa.

    Ele demonstrou, sobretudo, muita responsabilidade. Estabeleceu um prazo, conveniente para a Igreja assimilar a nova situação, e ele próprio levar a bom termo todas as decorrências do seu ato.

    Dando um prazo de 17 dias, desde o anúncio até a efetivação da renúncia, com a autoridade adquirida com seu gesto, sinalizou o ritmo razoável a ser observado em todas as providências a serem tomadas.

    Em síntese, a renúncia do Papa se constituiu num precioso testemunho de coerência pessoal, e um exemplo carregado de ensinamentos prudenciais, tão importantes no momento em que a humanidade vê crescer, exponencialmente, o número de idosos, que precisam descobrir o bom senso, com a sabedoria de perceber o momento oportuno, a hora conveniente, a decisão acertada para sair de campo, e deixar o lugar para que outros o ocupem com mais capacidade e eficiência.

    Numa população que prolonga a vida, e que ocupa as vagas, é urgente a escola da renúncia! Ela não está fora de propósito.

    Mas diante desta renúncia paradigmática do Papa, vale a pena perguntar-nos quando e como uma renúncia se constitui em decisão acertada, a ser efetivada com determinação.

    Ficando no contexto próximo à renúncia do Papa, não é fora de propósito perguntar por que tantas renúncias de bispos produzem tão pouco impacto, quase nenhum efeito.

    Fica posta a questão: quando é que uma renúncia é boa?

    No exemplo do Papa encontramos logo algumas respostas: a renúncia precisa ser livre, não condicionada por determinações externas, serena, e ser realizada em momento oportuno, tanto para o renunciante como para os outros ligados a ele de alguma forma.

    Não seria fora de propósito garantir um espaço maior para um bispo renunciar, deixando-o com a possibilidade de efetivar sua renúncia num contexto mais amplo e mais livre. Não impondo uma data obrigatória de referência, de 75 anos. Poderia se deixar o espaço de cinco anos para que ao longo deles o Bispo faça pessoalmente o discernimento do momento adequado para a sua renúncia.

    Sempre lembrando que não é preciso esperar os 75 anos para renunciar. Pois dependendo das circunstâncias, o testemunho do bispo que renuncia publicamente pode ser muito mais eficaz e produzir inesperados frutos, que costumam brotar de ânimos generosos, como mostrou Bento XVI.

    Em todo o caso, a renúncia sempre deveria comportar a possibilidade de viver com intensidade o que Jesus afirmou: “Ninguém tira a minha vida, eu a dou livremente”.
  • Especial Igreja: A Linguagem Diplomática do Vaticano

    Roberto Malvezzi, Gogó. Equipe CPP/CPT do São Francisco. Músico. Filósofo e Teólogo. Adital.


    O bispo recentemente falecido aqui de Juazeiro da Bahia, D. José Rodrigues, uma vez nos contou uma história intrigante e esclarecedora.

    Em uma das primeiras assembleias da CNBB que participou, na década de 70, o Núncio Apostólico apareceu na assembleia e disse aos bispos: o Papa Paulo VI está muito bem de saúde, envia um abraço a todos vocês e lhes deseja um bom trabalho.

    Ao saírem para o almoço, D. Helder Camara bateu em seu ombro e lhe disse: Menino, você conhece a linguagem diplomática do Vaticano?

    Meio surpreso, perguntou: Por quê?

    Então D. Helder retrucou: o que o Núncio acabou de dizer é que o Papa está para morrer. Uma semana depois Paulo VI faleceu.

    Eu não entendo nada de linguagem diplomática, muito menos daquela do Vaticano. Mas, uma coisa me parece certa nessa renúncia de Bento XVI, isto é, esse foi o gesto mais extremo que ele poderia fazer para mostrar insatisfação com o andamento das coisas no Vaticano e na Igreja. A responsabilidade dele próprio nessa situação merece uma biblioteca. Mas, com toda certeza, é um gesto também político.

    O chamado pensamento (método) binário, utilizando apenas o numeral 0 e o numeral 1, é muito bom para aplicar a modelos do mundo computacional, mas não para explicar situações complexas de uma instituição milenar como a Igreja Católica. Qualquer simplismo aí é incorrer em erro fatal.

    A Igreja, premida por pressões internas e externas, ainda mais agora com a total liberdade de expressão proporcionada pela internet e outros meios de comunicação, terá que mudar. E ela vai mudar naquilo que lhe é possível mudar. Na essência do evangelho –amor, justiça, solidariedade, salvação, libertação, opção pelos mais pobres, etc.– ela jamais poderá mexer. O resto é instituição humana, formatada na história, que pode e deveria ter mudado há muito tempo, como é o caso do poder colegiado, valoração da mulher, valoração dos leigos, dispensa de honrarias e outras tantas necessidades evidenciadas pelo momento atual.

    Pode parecer ingênuo, mas, ninguém preveria um João XXIII quando ele aconteceu. Ninguém previa o fim do socialismo real, de dentro para fora, no momento que ele se deu. A história tem surpresas –ela não é controlável pelo método 0 e 1- e eu vejo nessa renúncia do Papa um dessas surpresas da história, como um sopro do Espírito, eivado de muitos significados. Para outros isso é uma ingenuidade, o Espírito não tem vez em meio a tantas diabruras humanas e a única realidade que decide é o jogo pesado de intrigas, disputas e escândalos.

    Agora é impossível prever os desdobramentos desse gesto. Será interessante rever os fatos de hoje à luz do andamento da história.
  • Especial Igreja: À espera de um novo papa

    Domingos Zamagna. Jornalista e professor de Filosofia em São Paulo. Adital.


    A notícia da renúncia de Bento XVI ao papado colheu a todos de surpresa. Afinal, somente um caso de renúncia tinha sido registrado na história da Igreja católica, quando o monge Celestino V, papa por seis meses, em 1294, resolveu retomar a sua vida eremítica, julgando-se pouco afeito às funções de pastor universal. Os demais casos de renúncias foram devidos a circunstâncias críticas, sem nenhuma relação com a atual situação.

    De fato, a única razão alegada por Bento XVI é a sua idade avançada (85 anos) e os problemas que começam a abalar a sua saúde. Quem o viu nas celebrações natalinas percebeu claramente que já dava sinais de profunda debilidade física (embora guarde impressionante lucidez). Uma situação que só faria aumentar, perigosamente, a sua solidão. Todos sabemos que uma das melhores formas de controlar os bastidores de uma instituição é sobrecarregar o chefe de tal forma que ele não consiga fazer nada, ficando as decisões para os segundos escalões. Um regime colegiado poderia solucionar o problema, mas na Igreja esse regime ainda é uma utopia.

    Deve ter pesado na sua decisão a situação precedente, a do papa João Paulo II que, mesmo moribundo, insistia em permanecer à frente da Igreja, quando todos sabiam que quem governava a Igreja efetivamente eram dois ou três cardeais, liderados pelo então cardeal Ratzinger. Antes que sucedesse com Bento XVI a mesma e embaraçosa situação, preferiu se antecipar. Um exemplar gesto de racionalidade, fruto de total liberdade.

    De um lado, o gesto da renúncia, aliás previsível no Direito da Igreja, mostra que nem mesmo o papa é insubstituível, podendo-se perfeitamente se retirar do governo da Igreja, porque ela prosseguirá seu curso normalmente, sem traumas. Trata-se também de um gesto de desapego e humildade, reconhecendo que um outro cardeal poderá desempenhar sua missão, até melhor que ele. É uma crença lastreada na fé teologal, isto é, a Igreja tem uma assistência divina que independe das feições desta ou daquela pessoa.

    Historicamente, a renúncia é significativa, pois os papas vêm desempenhando cada vez mais uma função de elevada moralidade: eclesialmente, intenso trabalho de purificação da Igreja; mundialmente, firme pregação da justiça, defesa da vida e da paz, com especial atenção para as nações mais pobres. Um novo papa, com mais condições de intensificar esses trabalhos, só poderá ser muito bem vindo. Daí a razão de todos se interessarem pela eleição do substituto de Bento XVI. Não deixa de ser uma esperança para todos.

    Certamente na Páscoa os católicos já terão um novo líder que dará continuidade às boas iniciativas dos últimos papas, mas que não terá obrigação de ser um mero repetidor de fórmulas, contando com liberdade e apoio das forças vivas da Igreja para promover as reformas que se fazem necessárias dentro da Igreja, para o bem de todas as nações.

    E, provavelmente, a primeira grande viagem do novo papa será ao Brasil, para o compromisso já assumido pela Igreja com a Jornada Mundial da Juventude, no próximo mês de julho, na cidade do Rio de Janeiro.

    Oxalá o gesto de Bento XVI sirva também de exemplo para muitos governantes, a começar pelo nosso país, que – mesmo não tendo chegado aos 80 anos – estão há décadas no comando de cidades, regiões, estados, agências, parlamentos e partidos.

    (*) Jornalista e professor de Filosofia em São Paulo.
  • Especial Igreja: Que Papa esperar que não seja um Bento XVII?

    Leonardo Boff. Teólogo, filósofo e escritor. Adital.


    1. – Como o Sr. recebeu a renúncia de Bento XVI?R: Eu desde o principio sentia muita pena dele, pois pelo que o conhecia, especialmente em sua timidez,imaginava o esforço que devia fazer para saudar o povo, abraçar pessoas, beijar crianças. Eu tinha certeza de que um dia ele, aproveitaria alguma ocasião sensata, como os limites físicos de sua saúde e menor vigor mental para renunciar. Embora mostrou-se um Papa autoritário, não era apegado ao cargo de Papa. Eu fiquei aliviado porque a Igreja está sem liderança espiritual que suscite esperança e ânimo. Precisamos de um outro perfil de Papa mais pastor que professor, não um homem da instituição-Igreja mas um representante de Jesus que disse: “se alguém vem a mim eu não mandarei embora” (Evangelho de João 6,37), podia ser um homoafetivo, uma prostituta, um transexual.

    2. Como é a personalidade de Bento XVI já que o Sr. privou de certa amizade com ele?
    R: Conheci Bento XVI nos meus anos de estudo na Alemanha entre 1965-1970. Ouvi muitas conferências dele, mas não fui aluno dele. Ele leu minha tese doutoral: “O lugar da Igreja no mudo secularizado” e gostou muito a ponto de achar uma editora para publicá-la, um calhamaço de mais de 500 pp. Depois trabalhamos juntos na revista internacional Concilium, cujos diretores se reuniam todos os anos na semana de Pentecostes em algum lugar na Europa. Eu a editava em português. Isso entre 1975-1980. Enquanto os outros faziam sesta eu e ele passeávamos e conversávamos temas de teologia, sobre a fé na América Latina, especialmente sobre São Boaventura e Santo Agostinho, do quais é especialista e eu até hoje os frequento amiúde. Depois em 1984 nos encontramos num momento conflitivo: ele como meu julgador no processo do ex-Santo Ofício, movido contra meu livro Igreja: carisma e poder” (Vozes 1981). Aí, tive que sentar na cadeirinha onde Galileo Galilei e Giordano Bruno entre outros sentaram. Submeteu-me a um tempo de “silêncio obsequioso”; tive que deixar a cátedra e proibido de publicar qualquer coisa. Depois disso nunca mais nos encontramos. Como pessoa é finíssimo, tímido e extremamente inteligente.

    3. Ele como Cardeal foi o seu Inquisidor depois de ter sido seu amigo: como viu esta situação?
    R: Quando foi nomeado Presidente da Congregação para a Doutrina da Fé (ex-Inquisição) fiquei sumamente feliz. Pensava com meus botões: finalmente teremos um teólogo à frente de uma instituição com a pior fama que se possa imaginar. Quinze dias após me respondeu, agradecendo e disse: vejo que há várias pendências suas aqui na Congregação e temos que resolvê-las logo. É que praticamente a cada livro que publicava vinham de Roma perguntas de esclarecimento que eu demorava em responder. Nada vem de Roma sem antes de ter sido enviado a Roma. Havia aqui bispos conservadores e perseguidores de teólogos da libertação que enviavam as queixas de sua ignorância teológica a Roma a pretexto de que minha teologia poderia fazer mal aos fiéis. Ai eu me dei conta: ele já foi contaminado pelo bacilo romano que faz com que todos os que aí trabalham no Vaticano rapidamente encontram mil razões para serem moderados e até conservadores. Então sim fiquei mais que surpreso, verdadeiramente decepcionado.

    4. Como o Sr. recebeu a punição do “silêncio obsequioso”?
    R: Após o interrogatório e a leitura de minha defesa escrita que está como adendo da nova edição de Igreja: charisma e poder (Record, 2008) são 13 cardeais que opinam e decidem. Ratzinger é um apenas entre eles. Depois submetem a decisão ao Papa. Creio que ele foi voto vencido porque conhecia outros livros meus de teologia, traduzidos para alemão e me havia dito que tinha gostado deles, até, uma vez, diante do Papa numa audiência em Roma fez uma referência elogiosa. Eu recebi o “silêncio obsequioso” como um cristão ligado à Igreja o faria: calmamente o acolhi. Lembro que disse: “é melhor caminhar com a Igreja que sozinho com minha teologia”. Para mim foi relativamente fácil aceitar a imposição porque a Presidência da CNBB me havia sempre apoiado e dois Cardeais Dom Aloysio Lorscheider e Dom Paulo Evaristo Arns me acompanharam a Roma e depois participaram, numa segunda parte, do diálogo com o Card. Ratzinger e comigo. Aí, éramos três contra um. Colocamos algumas vezes o Cardeal Ratzinger em certo constrangimento pois os cardeais brasileiros lhe asseguravam que as críticas contra a teologia da libertação que ele fizera num documento saído recentemente eram eco dos detratores e não uma análise objetiva. E pediram um novo documento positivo; ele acolheu a ideia e realmente o fez dois anos após. E até pediram a mim e ao meu irmão teólogo Clodovis que estava em Roma que escrevêssemos um esquema e o entregássemos na Sagrada Congregação. E num dia e numa noite o fizemos e o entregamos.

    5. O Sr deixou a Igreja em 1992. Guardou alguma mágoa de todo o affaire no Vaticano?
    R: Eu nunca deixei a Igreja. Deixei uma função dentro dela que é de padre. Continuei como teólogo e professor de teologia em várias cátedras aqui e fora do país. Quem entende a lógica de um sistema autoritário e fechado, que pouco se abre ao mundo, não cultiva o diálogo e a troca (os sistemas vivos vivem na medida em que se abrem e trocam) sabe que, se alguém, como eu, não se alinhar totalmente a tal sistema, será vigiado, controlado e eventualmente punido. É semelhante ao regime de segurança nacional que temos conhecido na América Latina sob os regimes militares no Brasil, na Argentina, no Chile e no Uruguai. Dentro desta lógica o então Presidente da Congregação da Doutrina da Fé (ex-Santo Ofício, ex-Inquisição), o Cardeal J. Ratzinger condenou, silenciou, depôs de cátedra ou transferiu mais de cem teólogos. Do Brasil fomos dois: a teóloga Ivone Gebara e eu. Em razão de entender a referida lógica, e lamentá-la, sei que eles estão condenados fazer o que fazem na maior das boas vontades. Mas, como dizia Blaise Pascal: “Nunca se faz tão perfeitamente o mal como quando se faz de boa vontade”. Só que esta boa-vontade não é boa, pois cria vítimas. Não guardo nenhuma mágoa ou ressentimento. pois exerci compaixão e misericórdia por aqueles que se movem dentro daquela lógica que, a meu ver, está a quilômetros luz da prática de Jesus. Aliás, é coisa do século passado, já passado. E evito voltar a isso.

    6. Como o Sr. avalia o pontificado de Bento XVI? Soube gerenciar as crises internas e externas da Igreja?
    R: Bento XVI foi um eminente teólogo; mas, um Papa frustrado. Não tinha o carisma de direção e de animação da comunidade, como tinha João Paulo II. Infelizmente ele será estigmatizado, de forma reducionista como o Papa onde grassaram os pedófilos, onde os homoafetivos não tiveram reconhecimento e as mulheres foram humilhadas como nos USA negando o direito de cidadania a uma teologia feita a partir do gênero. E também entrará na história como o Papa que censurou pesadamente a Teologia da Libertação, interpretada à luz de seus detratores, e não à luz das práticas pastorais e libertadoras de bispos, padres, teólogos, religiosos/as e leigos que fizeram uma séria opção pelos pobres contra a pobreza e a favor da vida e da liberdade. Por esta causa justa e nobre foram incompreendidos por seus irmãos de fé, e muitos deles presos, torturados e mortos pelos órgãos de segurança do Estado militar. Entre eles estavam bispos como Dom Angelelli, da Argentina e Dom Oscar Romero, de El Salvador. Dom Helder foi o mártir que não mataram. Mas, a Igreja é maior que seus papas e ela continuará, entre sombras e luzes, a prestar um serviço à humanidade, no sentido de manter viva a memória de Jesus, de oferecer uma fonte possível de sentido de vida que vai para além desta vida. Hoje sabemos pelo VatiLeaks que dentro da Cúria romana se trava uma feroz disputa de poder, especialmente entre o atual Secretário de Estado Bertone e o ex-secretário Sodano já emérito. Ambos têm seus aliados. Bertone, aproveitando as limitações do Papa, construiu praticamente um governo paralelo. Os escândalos de vazamento de documentos secretos da mesa do Papa e do Banco do Vaticano, usado pelos milionários italianos, alguns da máfia, para lavar dinheiro e mandá-lo para fora, abalaram muito o Papa. Ele foi se isolando cada vez mais. Sua renúncia se deve aos limites da idade e das enfermidades; mas, agravadas por estas crises internas que o enfraqueceram e que ele não soube ou não pode atalhar a tempo.

    7. O Papa João XXIII disse que a Igreja não pode virar um museu; mas, uma casa com janelas e portas abertas. O Sr. acha que Bento XVI não tentou transfomar a Igreja novamente em algo como um museu?
    R: Bento XVI é um nostálgico da síntese medieval. Ele reintroduziu o latim na missa; escolheu vestimentas de papas renascentistas e de outros tempos passados; manteve os hábitos e os cerimoniais palacianos; para quem iria comungar, oferecia primeiro o anel papal para ser beijado e depois dava a hóstia, coisa que nunca mais se fazia. Sua visão era restauracionista e saudosista de uma síntese entre cultura e fé que existe muito visível em sua terra natal, a Baviera, coisa que ele explicitamente comentava. Quando na Universidade onde ele estudou e eu também, em Munique, viu um cartaz me anunciando como professor visitante para dar aulas sobre as novas fronteiras da Teologia da Libertação, pediu o reitor que protelasse sine dia o convite já acertado. Seus ídolos teológicos são Santo Agostinho e São Boaventura, que mantiveram sempre uma desconfiança de tudo o que vinha do mundo, contaminado pelo pecado e necessitado de ser resgatado pela Igreja. É uma das razões que explicam sua oposição à modernidade é que a vê sob a ótica do secularismo e do relativismo e fora do campo de influência do cristianismo que ajudou a formar a Europa.

    8. A igreja vai mudar, em sua opinião, a doutrina sobre o uso de preservativos e em geral a moral sexual?
    R: A Igreja deverá manter as suas convicções; algumas que estima irrenunciáveis, como a questão do aborto e da não manipulação da vida. Mas, deveria renunciar ao status de exclusividade, como se fora a única portadora da verdade. Ele deve se entender dentro do espaço democrático, no qual sua voz se faz ouvir junto com outras vozes. E as respeita e até se dispõe a aprender delas. E quando derrotada em seus pontos de vista, deveria oferecer sua experiência e tradição para melhorar onde puder melhorar e tornar mais leve o peso da existência. No fundo, ela precisa ser mais humana, humilde e ter mais fé, no sentido de não ter medo. O que se opõe à fé não é o ateísmo; mas, o medo. O medo paralisa e isola as pessoas das outras pessoas. A Igreja precisa caminhar junto com a humanidade, porque a humanidade é o verdadeiro Povo de Deus. Ela o mostra mais conscientemente; mas, não se apropria com exclusividade desta realidade.

    9. O que um futuro Papa deveria fazer para evitar a emigração de tantos fiéis para outras igrejas, e especialmente pentecostais?
    R: Bento XVI freou a renovação da Igreja incentivada pelo Concílio Vaticano II. Ele não aceita que na Igreja haja rupturas. Assim que preferiu uma visão linear, reforçando a tradição. Ocorre que a tradição, a partir dos séculos XVIII e XIX, se opôs a todas as conquistas modernas, da democracia, da liberdade religiosa e outros direitos. Ele tentou reduzir a Igreja a uma fortaleza contra estas modernidades. E via no Vaticano II o ‘Cavalo de Tróia’ por onde elas poderiam entrar. Não negou o Vaticano II; mas, o interpretou à luz do Vaticano I, que é todo centrado na figura do Papa com poder monárquico, absolutista e infalível. Assim, se produziu uma grande centralização de tudo em Roma sob a direção do Papa que, coitado, tem que dirigir uma população católica do tamanho da China. Tal opção trouxe grande conflito na Igreja até entre inteiros episcopados como o alemão e francês e contaminou a atmosfera interna da Igreja com suspeitas, criação de grupos, emigração de muitos católicos da comunidade e acusações de relativismo e magistério paralelo. Em outras palavras, na Igreja não se vivia mais a fraternidade franca e aberta, um lar espiritual comum a todos. O perfil do próximo Papa, no meu entender, não deveria ser o de um homem do poder e da instituição. Onde há poder inexiste amor e desaparece a misericórdia. Deveria ser um pastor, próximo dos fiéis e de todos os seres humanos, pouco importa a sua situação moral, étnica e política. Deveria tomar como lema a frase de Jesus que já citei anteriormente: ”Se alguém vem a mim, eu não o mandarei embora”, pois acolhia a todos, desde uma prostituta como Madalena até um teólogo como Nicodemos. Não deveria ser um homem do Ocidente que já é visto como um acidente na história. Mas um homem do vasto mundo globalizado sentindo a paixão dos sofredores e o grito da Terra devastada pela voracidade consumista. Não deveria ser um homem de certezas; mas, alguém que estimulasse a todos a buscarem os melhores caminhos. Logicamente se orientaria pelo Evangelho; mas, sem espírito proselitista, com a consciência de que o Espírito chega sempre antes do missionário e o Verbo ilumina a todos que vêm a este mundo, como diz o evangelista São João. Deveria ser um homem profundamente espiritual e aberto a todos os caminhos religiosos para juntos manterem viva a chama sagrada que existe em cada pessoa: a misteriosa presença de Deus. E, por fim, um homem de profunda bondade, no estilo do Papa João XXIII, com ternura para com os humildes e com firmeza profética para denunciar quem promove a exploração e faz da violência e da guerra instrumentos de dominação dos outros e do mundo. Que nas negociações que os cardeais fazem no conclave e nas tensões das tendências, prevaleça um nome com semelhante perfil. Como age o Espírito Santo aí é mistério. Ele não tem outra voz e outra cabeça do que aquela dos cardeais. Que o Espírito não lhes falte.
  • Especial Igreja: O inesperado da renúncia e a bifurcação da Igreja

    Jung Mo Sung. Diretor da Faculdade de Humanidades e Direito da Univ. Metodista de S. Paulo. Adital.


    Se há um fato sobre o qual todas ou quase todas as análises concordam ao tratarem da renúncia do papa é o seu caráter inesperado. Há diversas teorias e hipóteses sobre a razão e o objetivo da renúncia. Provavelmente nunca saberemos de modo satisfatório. Eu não sou “expert” nos assuntos ligados ao Vaticano ou a papado, por isso não vou me atrever a oferecer mais uma hipótese sobre as razões; nem listar as qualidades que gostaria de ver no novo papado. (Aqui mesmo na Adital já foram publicados vários artigos sobre esse assunto e eu não tenho nada de importante para acrescentar.) Quero somente compartilhar algumas reflexões sobre o “inesperado”.


    Normalmente, nós tememos tudo que nos remete ao inesperado. Parece que o inesperado será sempre algo que perturbe nossa paz ou nos traga problemas. Inesperado nos gera insegurança. É como se a humanidade tivesse um gosto especial pelo conhecido e pela segurança. O medo de muitos pelo desconhecido mostra isso. E o inesperado é o desconhecido que se nos apresenta abruptamente. O fato em si pode ser conhecido, mas a sequência de fatos era desconhecida, por isso é vista como inesperada.

    Um truque que a humanidade criou para conviver com esse medo, ou melhor, para diminuir esse medo e insegurança diante do fato inevitável de que o inesperado acontece nas nossas vidas, foi uma determinada noção da providência divina. Segundo essa doutrina, que existe em várias formas, tudo já estaria previsto (nada é inesperado) porque Deus tem controle da história ou porque as leis que regem a vida na sociedade e na natureza são sagradas e, portanto, imutáveis. A ilusão da imutabilidade ou do controle da história pela “providência” divina nos faz esquecer que a vida é feita de acontecimentos inesperados que geram desordem à ordem que era vista como divina ou imutável.

    O apego dos setores mais conservadores da Igreja Católica à ideia de que a atual estrutura da Igreja (incluindo o Vaticano e a forma como as igrejas locais são dirigidas) é fruto da Tradição e que, portanto, não podemos modificá-la é também uma variação desse desejo de se apegar a uma ordem pretensamente imutável para negar o inesperado como parte constituinte da vida humana e social.

    Diante do inesperado da renúncia, muitos voltam a discutir as “profecias” que já teriam anunciado a sequência dos papas (portanto, não seria inesperado) ou que o Espírito Santo estaria conduzindo todo o processo, desde a renúncia até a eleição do novo papa. Mas, por mais malabarismos retórico que possamos produzir, um fato é inegável: a renúncia foi inesperada.

    Um ato inesperado dessa proporção gera, é claro, consequências também inesperadas. Por isso, podemos especular sobre como será o conclave e o novo papado, mas não passam de especulações com maior ou menor probabilidade de acerto.

    O inesperado gera insegurança e desordem, mas essas são exatamente as condições de possibilidade do surgimento do novo. Uma nova ordem, isto é, uma nova forma de interação interna da Igreja e de funcionamento na sociedade global poderá surgir dessa tensão entre a ordem existente e a desordem gerada pelo inesperado. Poderá ser uma forma de ser Igreja mais capaz de testemunhar a boa-nova do Reino de Deus nesse mundo marcado pelo Império global. Por outro lado, dessa tensão poderá também resultar uma igreja mais petrificada, menos capaz de compreender o mundo atual e de se renovar para se fazer à altura da sua missão. Este é um momento que os teóricos chamam de bifurcação.

    É difícil dizer o que Bento XVI esperava com o seu gesto inesperado. Mas, além da maior humanização do papado –como vários analistas indicaram–, a sua renúncia “balançou” a crença de muitos de que o caminhar da Igreja no mundo já estava traçado pela simples inércia da tradição.

    [Jung Mo Sung, autor, com J. Rieger e N. Miguez, de “Para além do Espírito do Império” (Paulus). Twitter: @jungmosung].
  • Especial Igreja: Quero um papa do sul

    Selvino Heck. Assessor Especial da Secretaria Geral da Presidência da República. Adital.


    Quero um papa do Sul, de preferência uma mulher. Mas como sei que é impossível agora, desta vez, mesmo que as mulheres estejam ocupando cada vez mais todos os espaços na sociedade e no mundo, vou enumerando tudo o quero e sonho com o papa a ser eleito nos próximos meses.


    Quero um papa do Sul para olhar para os pobres e trabalhadores/as e dizer: Vinde a mim, os pequeninos, porque de vocês é o Reino dos Céus.

    Quero um papa do Sul para olhar os continentes historicamente subjugados, inclusive pela Igreja católica, tratados apenas como terras a serem conquistadas e catequizadas e não como espaços de liberdade e construção de povos e nações.

    Quero um papa do Sul para olhar indígenas, negros/as, quilombolas, catadores/as de material recicláveis, população em situação de rua e todos os oprimidos como sujeitos de direitos.

    Quero um papa do Sul para olhar com outro olhar, tal como Jesus olhou e abençoou a samaritana, as mulheres, os homossexuais, todas e todos aqueles sempre desprezadas/os e jogadas/os à margem.

    Quero um papa do Sul para acompanhar o 9º Encontro Nacional do Movimento Fé e Política, em Brasília, 15, 16 e 17 de novembro de 2013, com o tema Cultura do Bem Viver: partilha e poder.

    Quero um papa do Sul para abrir-se a temas como o aborto, casamento de gays e lésbicas, saber e dizer que todos e todas, mulheres e homens, são filhas e filhos de Deus e merecem sua bênção, compreensão e amor.

    Quero um papa do Sul para estar entre os jovens no Encontro Nacional da Pastoral da Juventude Rural (PJR) em 2012 e da Pastoral da Juventude do Meio Popular (PJMP) em 2013, e ver que os/as jovens cristãos/as do campo e da periferia mantêm os sonhos e a esperança, além da caridade e da fé.

    Quero um papa do Sul para lutar pelos direitos das pessoas com deficiência.

    Quero um papa do Sul para estar nas Romarias da Terra, como a que se realizou em Bento Gonçalves, Rio Grande do Sul, na terça de carnaval com o tema Terra: Vida e Cidadania e o lema: Terra é Cidadania: princípios de um Bem Viver.

    Quero um papa do Sul para abrir caminhos para as mulheres na Igreja, e que elas sejam leigas atuantes, e possam ser sacerdotisas, cheguem ao magistério episcopal e, porque não, ao papado.

    Quero um papa do Sul para que cada um e cada uma, como fiéis cristãos/as e leigos/as que queiram, possam aderir à Teologia da Libertação, sem medo e sem perseguições.

    Quero um papa do Sul para que o cristianismo retome as raízes das comunidades dos primeiros cristãos, onde a assembleia dos fiéis tinha um só coração e uma só alma e ninguém considerava como seu o que possuía e colocavam em comum tudo o que tinham.

    Quero um papa do Sul para que bispos tirem as mitras da cabeça, as vestes de ouro do corpo e a sua força esteja no seu ministério, no amor ao próximo e não na roupa suntuosa que vestem.

    Quero um papa do Sul para que o poder na Igreja seja partilhado.

    Quero um papa do Sul que assuma a 5ª Semana Social da Igreja da CNBB com o tema A participação da sociedade no processo de democratização do Estado – Estado para que e para quem? , e o aplique também à Igreja católica.

    Quero um papa do Sul pra que não se fale mais de pedofilia na Igreja, sem que nada seja feito, nada aconteça, para que não se fale mais de corrupção e ninguém sendo condenado, e se acabem com as mil hipocrisias como as do celibato de muitos padres.

    Quero um papa do Sul esperando que todos e todas queiram a mesma coisa, um papa do Sul, a notícia se espalhe e todo povo de Deus reze e se manifeste para que aconteça neste momento da história, ou um dia.

    Quero um papa do Sul para que ele esteja nas comunidades de fé como pastor e proclamador da boa nova da justiça e da fraternidade, como as Comunidades Eclesiais de Base (CEBS), que vão realizar em janeiro de 2014 seu 13º Encontro Nacional na diocese do Crato, Ceará, com o tema Justiça e Profecia a Serviço da Vida – CEBs, Romeiras do Reino no Campo e na Cidade.

    Quero um papa do Sul para que veja e trate o sexo como vida, prazer e fonte de juventude e alegria.

    Quero um papa do Sul louvando a Campanha da Fraternidade/2013, compreendendo os jovens de hoje, como diz o hino da Campanha, como profetas em tempos de mudança.

    Quero um papa do Sul, mesmo sabendo que poderá ser mais um conservador, porque sei que a pressão vinda de baixo acabará sendo benéfica e seu olhar de Sul acolherá o novo e a profecia.

    Quero um papa do Sul capaz de dialogar com todas as igrejas e religiões, de judeus e muçulmanos, evangélicos e macumbeiros, budistas e espíritas.

    Quero um papa do Sul amigo dos povos e nações, de chineses e palestinos, cubanos e vietnamitas, eslavos e indígenas, moçambicanos e neozelandeses.

    Quero um papa do Sul compreendendo os novos ventos que sopram na América do Sul e América Latina, os movimentos sociais e governos democráticos e populares da região.

    Quero um papa do Sul que seja humano, não um quase Deus longe do povo, da vida e do testemunho dos fiéis e da realidade vivida por cristãos e comunidades.

    Estou querendo muito? É sonho? Um dia, se não agora, irá acontecer. E em algum tempo da história, será uma mulher.

    [Cristão leigo, membro do Movimento Nacional Fé e Política. Em quinze de fevereiro de dois mil e treze].
  • Especial Igreja: A renúncia de Ratzinger

    Por Antônio Mesquita Galvão. Adital.

    Em tempos delicados em que há uma imperiosa necessidade de reflexão, oração e interiorização, partilho este texto com meus amigos e minhas amigas.

    Com a inesperada renúncia do papa Ratzinger, espera-se que o Espírito Santo volte a soprar sobre a nossa Igreja. De fato, depois de séculos de autoritarismo e opressão por parte das cortes vaticanas e seus prepostos sobre o povo de Deus, todos anseiam que o bom senso volte a imperar na Igreja de Cristo, substituindo a pompa pela simplicidade, a arrogância pelo diálogo, a perseguição pela acolhida e a vaidade pelo verdadeiro espírito do Ressuscitado.

    Em uma profecia exarada em 1993 o célebre teólogo-moralista Bernhard Häring († 1998) preconizou as seis prioridades que deveriam ser implantadas na Igreja:

    1.Abolir os títulos eclesiásticos que não tenham suporte bíblico; 2.Cancelar as púrpuras cardinalícias:
    3. Eliminar o corpo diplomático da Santa Sé;
    4. Proibir chamar o papa de “santidade”, os cardeais de “eminência”, os bispos de “excelência” e os padres de “reverendo”;
    5. Dar às mulheres os mesmos direitos que os homens, inclusive o acesso ao sacerdócio ministerial;
    6. Fazer que o papa seja também discípulo de único Mestre, Cristo.


    Que os novos ares de atualização e libertação, sonhados por João XXIII se tornem agora verdade e realidade para o bem de todo o povo de Deus.

    [O autor é Teólogo leigo, doutor em Teologia Moral].

  • Especial Igreja: A renúncia do Papa Bento XVI

    Por Dra. Irmã Gemma Simmonds CJ. Religiosa da Congregation of Jesus. Diretora do Instituto de Vida Religiosa, coordenadora do programa de intercâmbio Erasmus e vice-presidente da Associação Teológica Católica da Grã-Bretanha. Email: g.simmonds@heythrop.ac.uk Telephone: 020 7795 4216. Inglaterra. Adital.

    Desde a sua eleição sempre insisti que o Papa Bento XVI era capaz de surpreender a todos nós. Então sinto uma enorme satisfação que ele cumpriu as minhas previsões. Em geral, mudanças radicais de estrutura não vêm de liberais que buscam consenso, mas de conservadores que confiam muito em si próprios (veja o exemplo de Margaret Thatcher), e o anúncio da sua renúncia é nada se não radical. Com um só golpe ele desmistificou o ofício papal e criou condições para que futuros papas possam renunciar, se debilitados pela idade ou enfermidade, sem temer que a Igreja vai entrar em colapso, ou que o céu vai cair em cima de nós.
    Faz muito tempo que o historiador da Igreja, da Universidade de Cambridge, autor do livro Santos e Pecadores: Uma História dos Papas propõe que um papado forte não é necessariamente beneficial para a Igreja. Certamente, o Papa como “Superstar” é uma invenção muito recente do Papa João Paulo II, exímio “showman” que foi. Pessoalmente tinha muito afeto para um papa da minha infância, João XXIII, mas a figura de um Papa “celebridade” tende a investir todos as declarações papais com uma solenidade que nem sempre merecem, e reduzir o exercício de consciência e autoridade que pertence por direito tanto ao bispo local, como mestre da fé, como a todos os batizados.

    Inevitavelmente o anúncio do Papa causou choque no mundo midiático. Na correria “Gadarena” para convidar pessoas dos mais variados níveis de sabedoria e conhecimento da causa a opinar sobre a causa da renúncia e sobre quem será o seu sucessor, tenho ouvido umas declarações deprimentes! “Como seria bonito ter um Papa africano” declarou um comentarista na radio, como se a raça ou etnia de alguém fossem em si mesmas qualificação para o ofício. Este tipo de declaração não ajuda em nada. Certamente, pode ser o caso que uma história de serviço desafiante pastoral possa equipar um candidato para ser o Papa do futuro, mas a nacionalidade em si não garante isso. Em vários países o caminho a ofícios altos na Igreja não passa pela longa experiência pastoral junto com o povo, mas por meio do serviço diplomático, ou da direção de um seminário. Claro, é possível aprender muito nesses lugares, mas também é possível tornar-se clericalizado, ditatorial, patriarcal, e distante da vida do povo comum. Isso não seria base para um papado feliz e eficaz.

    Num outro programa radiofônico, uma senhora católica entusiasta desejava um Papa que reinaria durante trinta ou quarenta anos. Existe muita coisa positiva em ter um Papa jovem e cheio de vigor, como testemunhamos nos sucessos do Papa João Paulo II no auge das suas forças. Aquele nível de energia mental e física pode ser um benefício enorme à Igreja. Porém longevidade papal nem sempre é só bênção. É difícil manter o ímpeto de autoridade durante muitas décadas. Um certo comodismo pode entrar sutilmente no aparato de governo, especialmente num sistema tão complicado e estratificado como a Cúria Papal. Falta a acuidade de olhos novos e é fácil que elementos vitais se percam sem uma perspective nova. Por motivo de respeito e ternura para com um idoso com uma tarefa muito difícil, talvez não se confronte decisões e problemas difíceis. Os últimos anos da vida do Papa João Paulo II certamente ensinaram o mundo sobre a fidelidade à vocação, o valor do sofrimento, a autoridade como kenosis, e a futilidade absoluta da cultura da “celebridade”. Mas não tenho duvido que enfraqueceram o papado e a Igreja. É de notar que alguns problemas espinhosos, como os escândalos dentro dos Legionários de Cristo, foram confrontados firmemente pelo Papa Bento XVI, tão logo ele assumisse a Cátedra de Pedro. Mas referente ao assunto mais urgente, que era o abuso sexual clerical, multidões de Católicos fiéis, e críticos fora da Igreja, viram tudo como insuficiente e tarde demais.

    Durante mais de 60 anos, a Rainha Elizabeth II conseguiu manter um nível surpreendente de energia e acuidade no exercício da monarquia. Isso, porém, porque a responsabilidade última não é dela. O Papa não é uma figura constitucional, e a luta nada edificante pelo poder que parece ter assolado o Vaticano recentemente é sinal de um vácuo de poder. A única resposta adequada a esse vácuo é garantir que o Sé de Pedro esteja nas mãos de alguém que possui a energia e a acuidade política para dominar os apparatchiks briguentos.

    É para o seu eterno crédito que o Papa Bento XVI tinha a sabedoria para entender isso e a humildade e força de personalidade para renunciar. O sucesso da sua visita à Inglaterra e Austrália em 2008 se destaca na minha memória como prova da sua capacidade de agir com segurança na esfera pública. Caritas in Veritate permanece um documento muito rico, que contém muita sabedoria. Mas talvez este último, carismático e corajoso gesto trará uma oportunidade para que a Igreja inteira se examine e reflita sobre o que precisamos de um Papa. Neste ano, que é o Ano da Fé o a jubileu de Vaticano II, fica claro que ainda permanece muita coisa a fazer para que as propostas do Concílio se tornem realidade. Na minha opinião, isso vale especialmente para a área do governo da Igreja A Igreja não é uma cooperativa nem uma arena de luta livre, onde o mais forte e o mais vocifero ganham. Nem pode ser governado adequadamente através da manipulação do labirinto de uma estrutura de governo que é opaca e que não presta contas a ninguém. No meio dos fiéis a polarização crescente dentro da Igreja é um escândalo cujos efeitos perniciosos estão se aumentando. Fora da Igreja, nosso críticos olham atônitos enquanto insistimos numa linha rígida doutrinal diante de imperativos pastorais urgentíssimos, enquanto falhamos em enfrentar de uma maneira eficaz os erros gritantes dentro das nossas próprias estruturas. Isso tem causado um cinismo enorme por parte de muitos, que não veem nas instituições da Igreja integridade e fidelidade à mensagem de Cristo, mas sim hipocrisia e a falta de uma fineza pastoral. Se continuamos a pensar que o Papa é a único fonte viável de autoridade dentro da Igreja, seremos condenados a uma gangorra de personalidades polarizadas, conservadores x liberais, que não fará que nós cresçamos. É bom lembrar que Dom Oscar Romero era considerado uma figura conservadora quando assumiu a liderança na Igreja de El Salvador. Foi o seu encontro de perto com as realidades pastorais que o impeliu no caminho de santidade, do martírio e da autoridade que perdura. Talvez isso nos ensine algo mais útil do que a rotulação política referente a quem deve suceder o Papa Bento XVI. Talvez este seja o momento dado por Deus para que sigamos a sabedoria do Espírito expressada no Concílio, desmanchemos a “tradição” muito recente de um papado forte e centralizador, e sigamos a linha do Cardeal Newman, em consultar os fiéis em assuntos de doutrina, incluindo a questão do governo da Igreja.

    [Tradução: Tomaz Hughes SVD (não revisada). Publicado no site www.thinkingfaith.org da Província Inglesa dos Jesuítas].

  • Especial Igreja: Bento XVI renunciou, viva o Papa!

    Luiz Alberto Gómez de Souza. Sociólogo, diretor do Programa de Estudos Avançados em Ciência e Religião da Universidade Candido Mendes. Adital.


    Assim se proclamava, nas monarquias, quando um rei morria ou era deposto e o sucessor vinha saudado. Mais importante do que o panegírico do que partia, era hora de olhar para a frente, com esperança ou receios.

    Eu estava numa reunião no palácio São Joaquim, aqui no Rio, em 2005, durante o último conclave, almoçando com os bispos auxiliares, quando foi anunciada a fumaça branca. Saímos da mesa e corremos à televisão. Foi quando eu disse: “Não sei quem será, mas vai chamar-se Bento XVI”. Quando Ratzinger saiu no balcão, alguns me olharam como se eu tivesse feito uma adivinhação. Na verdade, foi uma aposta por eliminação. O novo papa certamente não retomaria a série dos Pios, não seria um seguimento de João ou de Paulo, nem do composto João Paulo. Restava, no século XX, um papa, Bento XV, que ficara poucos anos, de 1914 a 1922, mas que interrompera a caça antimodernista de Pio X. Não saiu papa um reacionário como o secretário de estado espanhol Merry Del Val (o Sodano ou o Bertone daquele momento). Era um bispo de uma diocese importante, Bolonha, que fora pouco antes denunciado de modernista, em carta, a seu antecessor. O novo papa abriu a missiva, lacrada por ocasião da morte de Pio X e convocou o assustado acusador.

    Uma lógica destas apontaria, indo um pouco mais atrás, na eleição de 1878, para um possível futuro Leão XIV. O papa anterior do mesmo nome também interrompera a prática de seus dois antecessores reacionários, Gregório XVI e Pio IX. E indicou que esperassem o próximo consistório, para verem seu novo estilo. E foi então quando nomeou cardeal o grande teólogo John H. Newman, convertido da Igreja Anglicana, crítico do Vaticano I e mal visto pelo outro cardeal inglês, Henry Manning. Aliás, o papa Bento XVI tinha Newman em grande admiração e o beatificou em 2010 (alguns historiadores, para incômodo de muitos, falaram de um companheiro de toda a vida, enterrado junto com ele, numa possível porém incerta relação homosexual, o que não diminuiria em nada seu enorme valor). Mas atenção, voltando ao presente, as lógicas não se repetem e o futuro é sempre inesperado.

    Com o atual precedente, um papa pode (e até deve, em certos casos) deixar o poder ainda em vida, num movimento que passa dos poderes absolutos e pro vita, para uma visão com possíveis prazos para o exercício de um poder que aparecia nos últimos séculos como irrenunciável.

    O importante agora é descobrir o que estará diante do futuro papa. Tudo parece indicar que João Paulo I morreu ao tomar consciência da dimensão dos problemas que o esperavam. Carlo Martini (que tantos sonhamos como um possível “Papa bianco”), em 1999 lembrou temas estratégicos a serem enfrentados por possíveis futuros concílios: a posição da mulher na sociedade e na Igreja, a participação dos leigos em algumas responsabilidades ministeriais, a sexualidade, a disciplina do matrimônio, a prática do sacramento da penitência, a relação com as Igrejas irmãs da ortodoxia e, em um nível mais amplo, a necessidade de reavivar a esperança ecumênica. Poderíamos agora dizer que são temas colocados hoje diante do papa que vem aí.

    Cada vez é mais importante desbloquear posições congeladas. Uma, urgente, seria superar o impasse criado por Paulo VI em 1968, no seu documento Humanae Vitae, sobre a contracepção. Tratar-se-ia de aceitar, ao nível do magistério, o que já é uma prática normal de um número enorme de fiéis: o uso dos contraceptivos.

    Mas nos textos de teólogos espanhóis, sacerdotes alemães e austríacos, declarações de bispos australianos, estão outros pontos da agenda. Haveria que começar por superar a dualidade e uma hierarquia rígidas entre ministérios ordenados (dos padres) e não ordenados, abrindo para uma pluralidade de ministérios (serviços), como na Igreja dos primeiros séculos. E aí se coloca o tema da ordenação das mulheres. No dia da ressurreição, as mulheres foram as primeiras a serem enviadas (ordenadas) a anunciar a Boa Nova (Mateus, 28,7; Marcos, 16,7: “Ide dizer aos discípulos e também a Pedro…”; Lucas, 24,9; João, 20,17).

    Teria também que desaparecer o que é apenas próprio da Igreja latina desde o milênio passado: o celibato obrigatório. O celibato é próprio da vida religiosa em comunidade e não necessariamente dos presbíteros (sacerdotes). Os escândalos recentes de uma sexualidade reprimida e doentia estão exigindo uma severa revisão. Isso levaria a ordenar homens e mulheres casados.

    Há que levar a sério a ideia da colegialidade do Vaticano II, sendo o bispo de Roma o primeiro entre todos no episcopado. Numa visão ecumênica, o segundo seria o Patriarca de Constantinopla, que vive no Fanar, um bairro grego pobre de Istambul, onde estive no ano passado. Os encontros fraternos e a oração em comum de João XXIII e de Paulo VI com o patriarca Atenágoras, foram abrindo caminho nessa direção.

    Claro, são antes de tudo anseios, mais do que possibilidades certas. Mas a história é inexorável e, pouco a pouco, posições que pareciam petrificadas podem ir sendo revistas ou, pelo menos, vão crescendo pressões nesse sentido. A Igreja, arejada por tempos novos na sociedade, seculares e republicanos, não poderá ficar à margem de um processo histórico contagiante. Talvez temas congelados terão que esperar futuros pontificados ou outros concílios, mas estarão cada vez mais presentes e incômodos, num horizonte que desafia os imobilismos.
  • Especial Igreja: Que tipo de papa? As tensões internas da Igreja atual

    Leonardo Boff. Teólogo, filósofo e escritor. Adital.

    Não me proponho apresentar uma balanço do pontificado de Bento XVI, coisa que foi feito com competência por outros. Para os leitores talvez seja mais interessante conhecer melhor uma tensão sempre viva dentro da Igreja e que marca o perfil de cada Papa. A questão central é esta: qual a posição e a missão da Igreja no mundo?

    Antecipamos dizendo que uma concepção equilibrada deve assentar-se sobre duas pilastras fundamentais: o Reino e o mundo. O Reino é a mensagem central de Jesus, sua utopia de uma revolução absoluta que reconcilia a criação consigo mesma e com Deus. O mundo é o lugar onde a Igreja realiza seu serviço ao Reino e onde ela mesma se constrói. Se pensarmos a Igreja demasiadamente ligada ao Reino, corre-se o risco de espiritualização e de idealismo. Se demasiadamente próxima do mudo, incorre-se na tentação da mundanização e da politização. Importa saber articular Reino-Mundo-Igreja. Ela pertence ao Reino e também ao mundo. Possui uma dimensão histórica com suas contradições e outra transcendente.

    Como viver esta tensão dentro do mundo e da história? Apresentam-se dois modelos diferentes e, por vezes, conflitantes: o do testemunho e o do diálogo.

    O modelo do testemunho afirma com convicção: temos o depósito da fé, dentro do qual estão todas as verdades necessárias para a salvação; temos os sacramentos que comunicam graça; temos uma moral bem definida; temos a certeza de que a Igreja Católica é a Igreja de Cristo, a única verdadeira; temos o Papa que goza de infalibilidade em questões de fé e moral; temos uma hierarquia que governa o povo fiel; e temos a promessa de assistência permanente do Espírito Santo. Isto tem que ser testemunhado face a um mundo que não sabe para onde vai e que por si mesmo jamais alcançará a salvação. Ele terá que passar pela mediação da Igreja, sem a qual não há salvação.

    Os cristãos deste modelo, desde Papas até os simples fiéis, se sentem imbuídos de uma missão salvadora única. Nisso são fundamentalistas e pouco dados ao diálogo. Para que dialogar? Já temos tudo. O diálogo é para facilitar a conversão e é um gesto de civilidade.

    O modelo do diálogo parte de outros pressupostos: O Reino é maior que a Igreja e conhece também uma realização secular, sempre onde há verdade, amor e justiça; o Cristo ressuscitado possui dimensões cósmicas e empurra a evolução para um fim bom; o Espírito está sempre presente na história e nas pessoas do bem; Ele chega antes do missionário, pois estava nos povos na forma de solidariedade, amor e compaixão. Deus nunca abandonou os seus e a todos oferece chance de salvação, pois os tirou de seu coração para um dia viverem felizes no Reino dos libertos. A missão da Igreja é ser sinal desta história de Deus dentro da história humana e também um instrumento de sua implementação junto com outros caminhos espirituais. Se a realidade tanto religiosa quanto secular está empapada de Deus devemos todos dialogar: trocar, aprender uns dos outros e tornar a caminhada humana rumo à promessa feliz, mais fácil e mais segura.

    O primeiro modelo do testemunho é da Igreja da tradição, que promoveu as missões na África, na Ásia e na América latina, sendo até cúmplice em nome do testemunho da dizimação e dominação de muitos povos originários, africanos e asiáticos. Era o modelo do Papa João Paulo II que corria o mundo, empunhando a cruz como testemunho de que ai vinha a salvação. Era o modelo, mais radicalizado ainda, de Bento XVI que negou o título de “Igreja” às igrejas evangélicas, ofendendo-as duramente; atacou diretamente a modernidade pois a via negativamente como relativista e secularista. Logicamente não lhe negou todos os valores mas via neles como fonte a fé cristã. Reduziu a Igreja a uma ilha isolada ou a uma fortaleza, cercada de inimigos por todos os lados contra os quais importa se defender.

    O modelo do diálogo é do Concílio Vaticano II, de Paulo VI e de Medellín e de Puebla na América Latina. Viam o cristianismo não como um depósito, sistema fechado com o risco de ficar fossilizado, mas como uma fonte de águas vivas e cristalinas que podem ser canalizadas por muitos condutos culturais, um lugar de aprendizado mútuo porque todos são portadores do Espírito Criador e da essência do sonho de Jesus.

    O primeiro modelo, do testemunho, assustou a muitos cristãos que se sentiam infantilizados e desvalorizados em seus saberes profissionais; não sentiam mais a Igreja como um lar espiritual e, desconsolados, se afastavam da instituição mas não do Cristianismo como valor e utopia generosa de Jesus.

    O segundo modelo, do diálogo, aproximou a muitos pois se sentiam em casa, ajudando a construir uma Igreja-aprendiz e aberta ao diálogo com todos. O efeito era o sentimento de liberdade e de criatividade. Assim vale a pena ser cristão.

    Esse modelo do diálogo se faz urgente caso a instituição-Igreja quiser sair da crise em que se meteu e que atingiu seu ponto de honra: a moralidade (os pedófilos), a espiritualidade, a falta de transparência (roubo de documentos secretos e outros problemas graves no Banco do Vaticano), e a perda de fieis, sobretudo entre a juventude.

    Devemos discernir com inteligência o que atualmente melhor serve à mensagem cristã no interior de uma crise ecológica e social de gravíssimas consequências. O problema central do mundo não é a Igreja (cada vez mais europeia e branca); mas, o futuro da Mãe Terra, da vida e da nossa civilização. Como a Igreja ajuda nessa travessia? Só dialogando e somando forças com todos.

    [Leonardo Boff é autor de Igreja: carisma e poder, livro ajuizado pelo então Cardeal Joseph Ratzinger].
  • Especial Igreja: A renúncia do Papa

    Dom Demétrio Valentini. Bispo de Jales (SP) e Presidente da Cáritas Brasileira até novembro de 2011. Adital.

    A surpresa foi total, e se espalhou logo por todo o mundo: no dia 11 de fevereiro deste ano de 2013, o Papa Bento XVI anunciou sua renúncia, marcando dia e hora para entregar o cargo, às 20 horas do dia 28 deste mês de fevereiro.

    Tudo bem pensado, decidido e agendado.

    Uma decisão tomada no íntimo de sua consciência, mas anunciada a todos, de maneira súbita e inesperada.
    Agora, rapidamente, a surpresa passa a fato consumado. A Igreja vive uma situação inédita, com inesperado potencial de consequências.

    Em primeiro lugar, fica muito ressaltada a nobreza do gesto, que angariou um grande respeito pela figura de Bento XVI.

    Com sua decisão, e da maneira como ele a anunciou, mostrou admirável desprendimento pessoal e grande senso de responsabilidade.

    Além disto, pela natureza do fato, o Papa demonstrou pleno uso de suas faculdades, deixando a todos a certeza de que agiu com plena consciência e com perfeita liberdade, sem nenhuma pressão externa. Ele fez questão de deixar a certeza de sua perfeita capacidade de pensar e de decidir livremente.

    O gesto, com certeza, tem um peso moral muito grande, pela demonstração de desprendimento do poder, de humildade, e de senso de serviço com que ele exerceu este cargo tão importante no contexto da Igreja.
    Ele podia ter efetivado a renúncia de imediato, retirando-se subitamente. Mas não! Ele quis garantir um tempo adequado para as providências a serem tomadas em vista, sobretudo, do processo de escolha do novo Papa.

    Por este gesto Bento XVI ficará na história. Será sua maior contribuição à Igreja.

    Marcando um dia para efetivar sua renúncia, Bento XVI sinaliza o ritmo para os encaminhamentos a serem dados. Com isto fica aberta a questão da influência que Bento XVI poderá exercer no processo de sua sucessão. Pois esta é uma situação completamente nova na história recente da Igreja. Nunca se fez um conclave contando com a figura de um “papa emérito”, para evocar a situação mais parecida que se vive hoje na Igreja, com a existência de tantos “bispos eméritos”.

    A interrogação aumenta quando nos perguntamos como será empregado pelos cardeais este tempo prévio, de quase vinte dias, antes de serem desencadeados os preparativos do conclave. Pois o clima eleitoral já se instalou, com o grande interesse que ele suscita. De fato, vamos viver uma situação que não encontra similar na história da Igreja. E isto poderá proporcionar condições bem diferentes para o novo Papa que for eleito.

    Outra curiosidade, fácil de comprovar, será a atividade de Bento XVI nesta fase de transição que já começou. Simbolicamente é interessante que ela coincida com a quaresma. Com a perspectiva de sua próxima renúncia, poderia parecer que seus gestos e palavras agora não tivessem mais tanto significado, vindos de um papa com seus dias contados. Mas ao contrário, pela importância do seu gesto, e pela maneira como foi feito, Bento XVI se revestiu de grande autoridade moral, em vista, sobretudo, de ter criado um fato novo na Igreja, cujas consequências poderão também surpreender. Tudo isto reforça sua importância, como protagonista de uma situação inédita, e como exemplo de abnegação pessoal e de serviço à Igreja.

    O gesto de sua renúncia se constitui na culminância do seu pontificado. Vale à pena acompanhar agora seus desdobramentos.
  • Especial Igreja: A eleição de um novo papa e o Espírito Santo

    Ivone Gebara. Escritora, filósofa e teóloga. Adital.


    Depois da louvável atitude do ancião Bento XVI renunciando ao governo da Igreja Católica Romana sucederam-se entrevistas com alguns bispos e sacerdotes nas rádios e televisões de todo o país. Sem dúvida, um acontecimento de tal importância para a Igreja Católica Romana é notícia e leva a previsões, elucubrações de variados tipos, sobretudo de suspeitas, intrigas e conflitos dentro dos muros do Vaticano que teriam apressado a decisão do papa.


    No contexto das primeiras notícias, o que chamou a minha atenção foi algo à primeira vista pequeno e insignificante para os analistas que tratam dos assuntos do Vaticano. Trata-se da forma como alguns padres entrevistados ou padres liderando uma programação televisiva, quando perguntados sobre quem seria o novo papa saíssem pela tangente. Apelavam para a inspiração ou vontade do Espírito Santo como aquele do qual dependia a escolha do novo pontífice romano. Nada de pensar em pessoas concretas para responder a situações mundiais desafiantes, nada de suscitar uma reflexão na comunidade, nada de falar dos problemas atuais da Igreja que a tem levado a um significativo marasmo, nada de ouvir os clamores da comunidade católica por uma democratização significativa das estruturas anacrônicas de sustentação da Igreja institucional. A formação teológica desses padres comunicadores não lhes permite sair de um discurso padrão trivial e abstrato bem conhecido, um discurso que continua fazendo apelo a forças ocultas e de certa forma confirmando seu próprio poder. A contínua referência ao Espírito Santo a partir de um misterioso modelo hierárquico é uma forma de camuflar os reais problemas da Igreja e uma forma de retórica religiosa para não desvendar os conflitos internos que a instituição tem vivido. A teologia do Espírito Santo continua para eles mágica e expressando explicações que já não conseguem mais falar aos corações e às consciências de muitas pessoas que têm apreço pelo legado do Movimento de Jesus de Nazaré. É uma teologia que continua igualmente a provocar a passividade do povo crente frente às muitas dominações inclusive as religiosas. Continuam repetindo fórmulas como se estas satisfizessem a maioria das pessoas.

    Entristece-me o fato de verificar mais uma vez que os religiosos e alguns leigos atuando nos meios de comunicação não percebam que estamos num mundo em que os discursos precisam ser mais assertivos e marcados por referências filosóficas para além da tradicional escolástica. Um referencial humanista os tornaria bem mais compreensivos para o comum das pessoas incluindo-se aqui os não católicos e os não religiosos. A responsabilidade da mídia religiosa é enorme e inclui a importância de mostrar o quanto a história da Igreja depende das relações e interferências de todas as histórias dos países e das pessoas individuais. Já é tempo de sairmos dessa linguagem metafísica abstrata como se um Deus iria se ocupar especialmente de eleger o novo papa prescindindo dos conflitos, desafios, iniqüidades e qualidades humanas. Já é tempo de enfrentarmos um cristianismo que admita o conflito das vontades humanas e que no final de um processo eletivo, nem sempre a escolha feita pode ser considerada a melhor para o conjunto. Enfrentar a história da Igreja como uma história construída por todos e todas nós é testemunhar respeito por nós mesmas/os e mostrar a responsabilidade que todas e todos que nos consideramos membros da comunidade católica romana temos. A eleição de um novo papa é algo que tem a ver com o conjunto das comunidades católicas espalhadas pelo mundo e não apenas com uma elite idosa minoritária e masculina. Por isso, é preciso ir mais além de um discurso justificativo do poder papal e enfrentar-se aos problemas e desafios reais que estamos vivendo. Sem dúvida, para isso as dificuldades são muitas e enfrentá-las exige novas convicções e o desejo real de promover mudanças que favoreçam a convivência humana.

    Preocupa-me mais uma vez que não se discuta de forma mais aberta o fato de o governo da Igreja institucional ser entregue a pessoas idosas que apesar de suas qualidades e sabedoria já não conseguem mais enfrentar com vigor e desenvoltura os desafios que estas funções representam. Até quando a gerontocracia masculina papal será o doublé da imagem de um Deus branco, idoso e de barbas brancas? Haveria alguma possibilidade de sair desse esquema ou de ao menos começar uma discussão em vista de uma organização futura diferente? Haveria alguma possibilidade de abrir essas discussões nas comunidades cristãs populares que têm o direito à informação e à formação cristã mais ajustada aos nossos tempos?

    Sabemos o quanto a força das religiões depende de desafios e comportamentos frutos de convicções capazes de sustentar a vida de muitos grupos. Entretanto, as convicções religiosas não podem se reduzir a uma visão estática das tradições e nem a uma visão deliberadamente ingênua das relações humanas. As convicções religiosas igualmente não podem ser reduzidas a onda de devoções as mais variadas que se propagam através dos meios de comunicação. E mais, não podemos continuar tratando o povo como ignorante e incapaz de perguntas inteligentes e astutas em relação à Igreja. Entretanto, os padres comunicadores acreditam tratar com pessoas passivas e entre elas estão muitos jovens que desenvolvem um culto romântico em torno da figura do papa. Os religiosos mantêm essa situação muitas vezes cômoda por ignorância ou por avidez de poder. Provar a interferência divina nas escolhas que a Igreja Católica hierárquica, prescindindo da vontade das comunidades cristãs espalhadas pelo mundo é um exemplo flagrante dessa situação. É como se quisessem reafirmar erroneamente que a Igreja é em primeiro lugar o clero e as autoridades cardinalícias às quais é dado o poder de eleger o novo papa e que esta é a vontade de Deus. Aos milhares de fiéis cabe apenas rezar para que o Espírito Santo escolha o melhor e esperar até que a fumaça branca anuncie uma vez mais o “habemus papam”. De maneira hábil sempre estão tentando fazer os fiéis escapar da história real, de sua responsabilidade coletiva e apelar para forças superiores que dirijam a história e a Igreja.

    É pena que esses formadores de opinião pública estejam ainda vivendo num mundo teologicamente e talvez até historicamente pré-moderno em que o sagrado parece se separar do mundo real e pousar numa esfera superior de poderes à qual apenas alguns poucos têm acesso quase direto. É desolador ver como a consciência crítica em relação às suas próprias crenças infantis não tenha sido acordada em beneficio próprio e em benefício da comunidade cristã. Parece até que acentuamos os muitos obscurantismos religiosos presentes em todas as épocas enquanto o Evangelho de Jesus continuamente convoca para a responsabilidade comum de uns em relação aos outros.

    Sabendo das muitas dificuldades enfrentadas pelo papa Bento XVI durante seu curto ministério papal, as empresas de comunicação católica apenas ressaltam suas qualidades, sua doação à Igreja, sua inteligência teológica, seu pensamento vigoroso como se quisessem mais uma vez esconder os limites de sua personalidade e de sua postura política não apenas como pontífice, mas também por muitos anos, como presidente da Congregação da Doutrina da Fé, o antigo Santo Ofício. Não permitem que as contradições humanas do homem Joseph Ratzinger apareçam e que sua intransigência legalista e o tratamento punitivo que caracterizaram, em parte, sua pessoa sejam lembrados. Falam desde sua eleição, sobretudo de um papado de transição. Sem dúvida de transição, mas de transição para que?

    Gostaria que a atitude louvável de renúncia de Bento XVI pudesse ser vivida como um momento privilegiado para convidar as comunidades católicas a repensar suas estruturas de governo e os privilégios medievais que esta estrutura ainda oferece. Estes privilégios tanto do ponto de vista econômico quanto político e sócio cultural mantêm o papado e o Vaticano como um Estado masculino à parte. Mas um Estado masculino com representação diplomática influente e servido por milhares de mulheres através do mundo nas diferentes instâncias de sua organização. Esse fato nos convida igualmente a pensar sobre o tipo de relações sociais de gênero que esse Estado continua mantendo na história social e política da atualidade.

    As estruturas pré-modernas que ainda mantém esse poder religioso precisam ser confrontadas com os anseios democráticos de nossos povos na busca de novas formas de organização que se coadunem melhor com os tempos e grupos plurais de hoje. Precisam ser confrontadas com as lutas das mulheres, das minorias e maiorias raciais, de pessoas de diferentes orientações sexuais e escolhas, de pensadores, de cientistas e de trabalhadores das mais distintas profissões. Precisam ser retrabalhadas na linha de um diálogo maior e mais profícuo com outros credos religiosos e sabedorias espalhadas pelo mundo.

    E para terminar, quero voltar ao Espírito Santo, a esse vento que sopra em cada uma/um de nós, a esse sopro em nós e maior do que nós que nos aproxima e nos faz interdependentes de todos os viventes. Um sopro de muitas formas, cores, sabores e intensidades. Sopro de compaixão e ternura, sopro de igualdade e diferença. Este sopro não pode mais ser usado para justificar e manter estruturas privilegiadas de poder e tradições mais antigas ou medievais como se fossem uma lei ou uma norma indiscutível e imutável. O vento, o ar, o espírito sopra onde quer e ninguém deve se atrever a querer ser ainda uma vez seu proprietário. O espírito é a força que nos aproxima uns dos outros, é a atração que permite que nos reconheçamos como semelhantes e diferentes, como amigas e amigos e que juntos/as busquemos caminhos de convivência, de paz e justiça. Esses caminhos do espírito são os que nos permitem reagir às forças opressoras que nascem de nossa própria humanidade, os que nos levam a denunciar as forças que impedem a circulação da seiva da vida, os que nos levam a descobrir os segredos ocultos dos poderosos. Por isso, o espírito se mostra em ações de misericórdia, em pão partilhado, em poder partilhado, em cura das feridas, em reforma agrária, em comércio justo, em armas transformadas em arados, enfim, em vida em abundância para todas/os. Esse parece ser o poder do espírito em nós, poder que necessita ser acordado a cada novo momento de nossa história e ser acordado por nós, entre nós e para nós.

    Fevereiro 2013.
  • Especial Igreja: Tiara e poderes do Papa

    Pedro A. Ribeiro de Oliveira. Sociólogo, professor no Mestrado em Ciências da Religião da PUC-Minas e Consultor de ISER-Assessoria. Adital. Terça, 12 de fevereiro de 2013.

    A inesperada renúncia do Papa Bento XVI abre o processo que elegerá seu sucessor no pontificado. Durante séculos constou da cerimônia de inauguração do pontificado a tiara: ornamento de cabeça com três coroas superpostas. De origem medieval, a tiara simboliza a conjunção de três poderes. Ao ser coroado, o Papa recebia a tiara como símbolo de tornar-se então “Pai de Príncipes e Reis, Pastor de toda a Terra e Vigário de Jesus Cristo”. O último papa a colocá-la na cabeça foi Paulo VI, que em 1963 a depositou aos pés do altar para não mais ser usada. Desapareceu assim o antigo símbolo do poder temporal dos papas.
    Acabou-se o símbolo, com certeza, mas não os poderes temporais. Embora o papa não consagre chefes de Estado, não comande exércitos nem dirija alguma corporação transnacional, ele continua a exercer poderes que não são insignificantes. Sem alarde e sempre alegando servir a Igreja, os últimos papas conservaram os principais poderes que a tradição medieval lhe atribuiu.

    Em primeiro lugar, o papa dispõe de uma importante instituição financeira: o Instituto para as Obras de Religião, que funciona como banco a serviço da Santa Sé. Por gozar do privilégio de extraterritorialidade, essa instituição pode fazer aplicações de capital em diferentes campos da economia sem submeter-se ao controle externo de suas atividades. Isso dá ao papa considerável poder econômico, pois ainda que viessem a faltar as contribuições voluntárias dos fiéis, os rendimentos dessas aplicações financeiras permitiriam manter a Santa Sé em funcionamento por muito tempo.

    Outro poder oriundo da tradição medieval é a condição de chefe de Estado. O Vaticano é um território minúsculo, comparado aos antigos Estados Pontifícios, mas dá ao papa o comando sobre o corpo diplomático da Santa Sé, que é tido como um dos mais competentes e eficientes do mundo. Formados pela Pontifícia Academia Eclesiástica, os núncios apostólicos e seus auxiliares representam a Santa Sé em quase todos os Países do mundo e junto aos principais organismos internacionais. Sua função não é apenas diplomática mas também eclesiástica, pois as nunciaturas são o veículo normal das informações confidenciais entre a Secretaria de Estado e os bispos de um país, e por elas passam as denúncias de irregularidades nas igrejas locais. Independentemente da quantidade de católicos residentes no país, a representação diplomática da Santa Sé tem status de embaixada e em muitos países o núncio exerce a função de decano do corpo diplomático.

    Outro poder de grande importância é a nomeação de bispos. Também herança medieval, quando havia grande interferência de reis e príncipes na escolha de bispos para dioceses situadas em áreas sob sua jurisdição. Para proteger aquelas dioceses contra nomeações que atendessem antes aos interesses dos governantes do que às necessidades pastorais da igreja local, o papa reservou-se o direito de eleição dos bispos. Hoje em dia a laicidade do Estado impede a interferência do poder político na escolha de bispos, e a situação inverteu-se: em vez de salvaguardar o direito de a igreja local escolher seu bispo, a escolha do candidato pelo papa volta-se contra ele. As nomeações episcopais são regidas pela lógica da cúria romana e não pelas necessidades da igreja local. Isso não significa, é claro, que a cúria romana desconheça as igrejas locais, mas seu conhecimento depende da eficiência dos canais de informação disponíveis. Além disso, como todo ocupante de cargo de direção presta contas primeiramente a quem o elegeu, os bispos se sentem obrigados a seguir a orientação vinda de Roma mesmo quando ela não condiz com a realidade de sua igreja particular. E isso, sem dúvida, só faz aumentar a centralização do poder romano.

    Apontados esses três poderes papais, como três coroas de uma tiara, cabe refletir sobre o significado da renúncia dos últimos quatro papas ao uso da tiara. Renunciaram apenas a um ornamento bizarro ou a certos poderes que hoje mais impedem do que favorecem a missão evangelizadora da Igreja?

    Os três poderes acima enunciados –poder econômico, poder de Estado e poder eclesiástico– favorecem uma forma de organização centralizada e piramidal, na qual a cúpula tem o controle de todas as instâncias intermediárias até as bases. Esse modelo organizativo que moldou também a burocracia estatal, o exército, e as empresas privadas desde o século XIX vem sendo substituído por outro modelo, mais flexível e ágil: a organização em rede, que tornou caduca a organização piramidal, hoje incapaz de assegurar uma governança eficiente.

    Não é, porém, por ter saído de moda que o modelo centralizado e piramidal adotado pela Igreja católica romana deve ser criticado, pois há coisas fora de moda que continuam boas – como o casamento monogâmico, por exemplo. O poder centralizado e piramidal merece ser criticado é porque dificulta o exercício da autoridade: a capacidade de mobilizar pessoas apenas pela força moral de quem as lidera. Aí, sim, reside o fulcro da questão.

    Os clássicos da sociologia –E. Durkheim, K. Marx e M. Weber– perceberam que a força histórica e social da religião reside em sua capacidade de moldar –pela convicção, não pela coerção– o comportamento humano e assim formar o “clima moral” de uma sociedade. É na ação molecular, de base (as múltiplas atividades pastorais de comunidades, movimentos e congregações religiosas) que reside a força social da Igreja. Sem essa capilaridade pastoral, os pronunciamentos do papa –e dos bispos, pode-se acrescentar– seriam mera retórica. Se o papa e os bispos querem ter força moral, é hora de renunciar aos poderes temporais. Ai reside um grande desafio ao sucessor de Bento XVI.

    Uma Igreja que anuncia e constrói o Reinado de Deus no mundo atual – afinal esta é sua perene missão, reafirmada no Concílio Ecumênico de 1962-65 – deve renunciar ao poder econômico, à diplomacia e à organização piramidal, para tornar-se uma Igreja capaz de dialogar com o mundo como fazia Jesus: com autoridade moral e testemunho de amor – preferencialmente aos pobres e às pessoas socialmente desprotegidas. Que o próximo papa deixe a tiara no museu do Vaticano e com ela os poderes temporais herdados dos tempos medievais. Será bom para o Papa, para a Igreja católica e para o mundo todo.
  • Especial Igreja: Votos para um próximo Papa

    Marcelo Barros. Monge beneditino e escritor. Adital


    Desde que o papa Bento XVI anunciou sua renúncia ao papado, os meios de comunicação se apressam em antecipar os candidatos ao trono, ou simplesmente em descobrir em que ponto estão os acordos no Vaticano que, nos bastidores e com toda a elegância exigida pelos meios eclesiásticos, já há tempos, preparam o próximo conclave. Sem dúvida, merece toda a admiração a coragem e humildade com que o papa declara: “Não tenho mais força para exercer o papado”. De fato, nas últimas décadas, ao mesmo tempo em que o mundo se tornou cada vez mais complexo e plural, o Vaticano ignorou a orientação do Concilio Vaticano II sobre a colegialidade dos bispos, diminuiu a função das conferências episcopais e concentrou o seu poder. Por isso, o ministério papal deve ter ficado bem mais pesado.

    Muitos dos cardeais que em 2005 acharam que o cardeal Joseph Ratzinger seria a pessoa indicada para conduzir a Igreja Universal nesse início de século serão os mesmos que escolherão o próximo papa, além de alguns outros, escolhidos a dedo pelo próprio papa atual. Isso faz com que a tal lista dos prováveis candidatos ao cargo pontifício não tenha tanta importância. Ao que parece, seja quem for, afirmam vozes do episcopado brasileiro, “nada de profundo mudará”. Sem dúvida, eles dizem isso como quem dá uma boa notícia. Sinceramente, não sei se a maioria dos fiéis católicos, se pudessem se expressar, estariam de acordo.

    Pessoalmente, não sou cardeal e, portanto, não participo dessa eleição, nem aceitaria essa responsabilidade. Mas, penso na multidão silenciosa de mais de um bilhão de fiéis católicos no mundo. Mesmo sem representar nenhum grupo ou ter algum mandato oficial, gostaria de expressar aqui o voto que penso ser da maioria dos leigos e leigas, engajados nas pastorais e grupos missionários católicos, formados a partir do Concilio Vaticano II, assim como de muitos religiosos, religiosas e presbíteros que, embora sem ser escutados, amam a nossa Igreja e desejam que, o Espírito sopre novamente sobre ela um novo Pentecostes.

    A primeira coisa que gostaria de esclarecer é que, ao contrário do pensamento aqui e ali expresso nos meios de comunicação, quem é formado pelo espírito do Concílio pode aceitar que se eleja um papa latino-americano, africano ou coreano, como etapa no momento atual, dentro do sistema em que vivemos. Entretanto, em termos de princípio, o queremos é um papa italiano, o mais romano possível, que seja bispo de Roma e retome o espírito do Concílio Vaticano II, respeite a autonomia eclesiológica das Igrejas locais, cada uma delas, verdadeira Igreja, possuidora das características da comunhão universal, assim como um cada fragmento de pão consagrado contém em si todo o corpo de Cristo.

    Pedimos a Deus que dê à Igreja de Roma, mãe da unidade de todas as Igrejas, um pastor simples e modesto que não precise mais de áurea de santidade, nem que se chame de santa a sua pessoa, a sé de Roma, as congregações da cúria e tudo o que cerca o seu ministério. Aí, no Glória de cada missa, cantaremos com mais sinceridade: Só tu és santo, ó Deus!”. Se esse irmão se assumir verdadeiramente como servo dos servos de Deus, a Igreja será como nos primeiros séculos uma Igreja mais sinodal e mais sacramento de comunhão da humanidade. Poderá assim ser cada vez mais sacramento e ensaio do mundo novo possível. Um dia, Dom Hélder Câmara, então arcebispo de Olinda e Recife, escreveu o seguinte: “Sonhei que o papa enlouquecia. E ele mesmo ateava fogo ao Vaticano e à Basílica de São Pedro. Loucura sagrada, porque Deus atiçava o fogo que os bombeiros, em vão, tentavam extinguir. O papa, louco, saía pelas ruas de Roma, dizendo adeus aos embaixadores, credenciados junto a ele; e espalhando pelos pobres o dinheiro todo do Banco do Vaticano. Que vergonha para os cristãos! Para que um papa viva o Evangelho, temos que imaginá-lo em plena loucura”(1).

    Nota:
    (1) Poema recitado no filme de ÉRIKA BAUER, Dom Helder Camara, o Santo Rebelde, citado no Jornal Igreja Nova, janeiro-março 2010, p. 1.