Tag: Juventude

  • Será que a gente precisa vencer na vida?

    Será que a gente precisa vencer na vida?

    Resumo de leituras de Levon Nascimento

    “Vencer na vida” — quem nunca ouviu essa expressão como se fosse uma meta natural, quase uma sentença? Desde pequenos, somos atravessados por essa ideia como se ela fosse a luz no fim do túnel: para uns, vencer é ter muito dinheiro; para outros, estabilidade, respeito, ou talvez um diploma pendurado na parede. Há ainda quem enxergue a vitória como um estado subjetivo, de autorrealização. Mas, em quase todas essas versões, existe um pano de fundo comum: a meritocracia — a crença de que, com esforço e força de vontade, todo mundo chega lá.

    O site A Firma Preta (2024) resume bem essa lógica: trata-se de uma “narrativa que associa sucesso a consumo e reconhecimento”. E não faltam estudos acadêmicos para reforçar o quanto esse ideal de sucesso está entranhado nas promessas da educação, da performance e da autoimagem (UFBA, 2019; LIPOVETSKY, 1986).

    No entanto, quando olhamos de perto, essa ideologia começa a mostrar suas contradições — e feridas. Ela pressiona especialmente quem já nasce em desvantagem: jovens, pretos, pobres, mulheres. Sob o mito de que todos têm as mesmas chances, transforma a exclusão em culpa pessoal. A pesquisa da UFBA (2019) é clara: para os jovens das periferias, buscar um emprego formal vira quase uma fuga do abismo social — uma estratégia para escapar da vulnerabilidade —, mesmo quando a porta do mercado está fechada para eles.

    Com mulheres e pessoas negras, o peso é ainda maior. Elas enfrentam a dureza das estruturas desiguais e, ainda assim, são responsabilizadas pelos “fracassos” que o próprio sistema impõe. Como explica Demarchi (2010), a meritocracia funciona como um mecanismo de “naturalização das desigualdades”, mascarando injustiças sociais sob a aparência de incompetência individual.

    E os paradoxos não param por aí. Na escola pública, por exemplo, ensina-se com convicção que “estudar abre portas” (UNESP, 2015). Mas quem frequenta essas escolas sabe que as portas não são as mesmas para todos — e que há trancas invisíveis para muitos. Lipovetsky (1986) alerta que até mesmo a busca por felicidade interior, vendida como alternativa ao sucesso material, virou uma exigência sufocante. A nova regra é ter que dar certo por fora e por dentro, ser bem-sucedido e ainda parecer autêntico, calmo, resiliente.

    Essa lógica esconde um jogo cruel: ao eleger o indivíduo como único responsável por sua trajetória, ignora que o ponto de partida não é o mesmo para todos. Para quem nasce nas bordas da sociedade, “vencer na vida” é como correr uma maratona com pedras nos sapatos — e ainda sorrir para as câmeras. O fracasso vira motivo de vergonha. A Firma Preta (2024) chama atenção para isso: essa cultura gera “ansiedade e culpa”, e mina silenciosamente a saúde mental de quem não consegue alcançar o inalcançável.

    Talvez por isso seja urgente repensar o que significa “vencer”. Será que essa palavra precisa continuar sendo um troféu que poucos alcançam? E se vencer fosse, simplesmente, viver com dignidade, com tempo para respirar, com afeto e segurança? Talvez, como sugerem tantas vozes dissidentes, a verdadeira vitória seja existir sem ter que se justificar o tempo todo.

    REFERÊNCIAS
    DEMARCHI, Guilherme Silva. Crítica da ideologia meritocrática. 2010. Disponível em: https://www.academia.edu/download/104695524/2010_GuilhermeDemarchiSilva.pdf. Acesso em: 1 ago. 2025.
    FIRMA PRETA. Vencer na vida é uma ideologia? Substack, 2024. Disponível em: https://firmapreta.substack.com/p/vencer-na-vida-e-uma-ideologia. Acesso em: 1 ago. 2025.
    LIPOVETSKY, Gilles. A era do vazio. 1986. Disponível em: https://www.academia.edu/download/56368823/Gilles_Lipovetsky_-_A_Era_Do_Vazio_1.pdf. Acesso em: 1 ago. 2025.
    UFBA. Jovens e trabalho no contexto baiano. Repositório Institucional, 2019. Disponível em: https://repositorio.ufba.br/handle/ri/32266. Acesso em: 1 ago. 2025.
    UNESP. Meritocracia na educação pública. Repositório Institucional, 2015. Disponível em: https://repositorio.unesp.br/entities/publication/c8f4ad2d-4bc5-40ba-b7d7-ab165d328b47. Acesso em: 1 ago. 2025.

  • O livro Memorial da Juventude de Taiobeiras (2010)

    O livro Memorial da Juventude de Taiobeiras (2010)

    Memorial da Juventude de Taiobeiras (NASCIMENTO; NASCIMENTO, 2010) é uma obra que celebra a trajetória transformadora dos jovens taiobeirenses, tecendo memória afetiva e política de suas lutas desde a década de 1970. Mais do que um registro histórico, o livro é um tributo às gerações que “não aceitaram ser tratadas como mera mercadoria” e “ousaram construir o futuro no coletivo” (p. 5), superando individualismos e preconceitos. Taiobeiras, município mineiro marcado pela cultura sertaneja e pela resistência, revela em suas páginas uma juventude “sonhadora, capaz e atuante” (p. 13), cuja identidade se forjou na luta por justiça social e expressão cultural.

    A obra destaca a emergência de grupos pioneiros como O Beija-flor (1974), dedicado a campanhas solidárias, o JUVITA (1976), inspirado na caridade vicentina, e o JUAC (1978), focado em ação comunitária no bairro Vila Formosa. Essas iniciativas pavimentaram o caminho para a chegada da Pastoral da Juventude (PJ) em 1987, um marco que amplificou o protagonismo juvenil. Sob a PJ, os jovens transcenderam o assistencialismo, desenvolvendo uma “formação social e política” (p. 27) articulada em cinco dimensões: afetividade, espiritualidade, cidadania, sociabilidade e ação concreta. Surgiram dezenas de grupos urbanos e rurais, como o JULEST (1992), que adotou a pedagogia freireana para formar consciência crítica, e a Tri-União (1992), aliança entre coletivos para atuar em bairros periféricos.

    Dia Nacional da Juventude (DNJ), celebrado anualmente desde 1989, tornou-se palco de reivindicações e expressões culturais. Temas como “Juventude, cadê a Educação?” (1989), “Juventude: do nosso suor, a riqueza de quem?” (1990) e “Ouça o Eco(logia) da Vida” (1992) (p. 33, 35, 42) ecoaram nas ruas de Taiobeiras, mobilizando a comunidade para causas urgentes. A Campanha da Carriola, ação perene de arrecadação de alimentos e roupas, e o Grito dos Excluídos, manifestação contra as desigualdades no 7 de setembro, simbolizam o engajamento contínuo da juventude, que “soube ‘gritar’ pelos direitos de todos” (p. 80). Intercâmbios com cidades vizinhas fortaleceram redes de colaboração, materializando o “conceito de Rede de Juventude” (p. 82) na prática.

    A cultura emerge como eixo vital dessa história. Projetos como a Banda Divina Providência, com repertório que honrava as raízes do Norte de Minas e Vale do Jequitinhonha, e o Coral Cantarte, fruto de um trabalho musical sistemático na Escola Tancredo Neves, demonstram como a arte foi instrumento de emancipação. O projeto Cantarte, premiado pelo edital Microprojetos Mais Cultura, capacitou jovens em música entre 2010, reforçando que “educar é mais do que apenas ensinar a ler e a escrever” (p. 103). Poesias produzidas pelos alunos, como “A dor da rejeição” (p. 124) e “Canção do coração” (p. 125), revelam a sensibilidade gerada nesse processo.

    Textos reflexivos encerram a obra com chamados à autonomia e ao combate ao preconceito. Levon do Nascimento argumenta que o jovem autônomo é aquele que “consegue unir o conhecimento […] com a capacidade de criar e transformar” (p. 128), recusando-se a ser “marionete dos sistemas econômico e político”. Já o ensaio “Conceito e preconceito” (p. 129-130) alerta que apenas o “verdadeiro contato solidário” desfaz estereótipos, convidando a uma ética do encontro.

    Este memorial, portanto, é um testemunho vibrante de como a juventude de Taiobeiras “teceu sonhos” (p. 64) e transformou dor em esperança, deixando um legado indelével: a certeza de que, nas palavras do poeta Zé Vicente, “miremos bem no espelho da memória. Faremos jovem e linda nossa história” (p. 9).


    Referência:
    NASCIMENTO, Flaviana Costa Sena; NASCIMENTO, Levon. Memorial da Juventude de Taiobeiras. Belo Horizonte: Editora O Lutador, 2010.

  • Livro Vidas Interrompidas Juventude Violência e Políticas Públicas Taiobeiras Levon Nascimento

    Livro Vidas Interrompidas Juventude Violência e Políticas Públicas Taiobeiras Levon Nascimento

    A sociedade se acostumou à tragédia. Antes era a notícia de televisão, relacionada aos grandes centros, atualmente é realidade pelas ruas: balas perdidas, juras de morte, vidas interrompidas, inocentes atingidos. Jovens executados pelo que se convencionou chamar de guerra do tráfico. São os inconvenientes e os excluídos. Suas mortes, assim como suas vidas, demandam apuração dos diversos campos do conhecimento. As políticas públicas que acessaram (ou não) são chaves para o início da investigação.

  • Livro Memorial da Juventude de Taiobeiras Levon Nascimento

    Livro Memorial da Juventude de Taiobeiras Levon Nascimento

    Este “Memorial da Juventude de Taiobeiras” é uma janela por onde os jovens de todos os tempos poderão mirar seus sonhos, suas lutas, seus valores, sua dedicação e, assim, reencontrarem-se consigo mesmos e, mais uma vez, com alegria juvenil, assumir suas vocações para o bem comum, para a vida em comunidade, para a transformação do mundo em uma sociedade mais justa, humana e fraterna.

    • Levon Nascimento e Flaviana Costa Sena Nascimento, em Memorial da Juventude de Taiobeiras.
  • Aos que ainda sabem sonhar

    Manifestantes em São Paulo na 1ª semana de junho de 2013

    Por André Borges Lopes, no Blog do Luis Nassif.

    O fundamental não é lutar pelo direito de fumar maconha em paz na sala da sua casa. O fundamental não é o direito de andar vestida como uma vadia sem ser agredida por machos boçais que acham que têm esse direito porque você está “disponível”. O fundamental não é garantir a opção de um aborto assistido para as mulheres que foram vítimas de estupro ou que correm risco de vida. O fundamental não é impedir que a internação compulsória de usuários de drogas se transforme em ferramenta de uma política de higienismo social e eliminação estética do que enfeia a cidade. O fundamental não é lutar contra a venda da pena de morte e da redução da maioridade penal como soluções finais para a violência. O fundamental não é esculachar os torturadores impunes da ditadura. O fundamental não é garantir aos indígenas remanescentes o direito à demarcação das suas reservas de terras. O fundamental não é o aumento de 20 centavos num transporte público que fica a cada dia mais lotado e precário.

    O fundamental é que estamos vivendo uma brutal ofensiva do pensamento conservador, que coloca em risco muitas décadas de conquistas civilizatórias da sociedade brasileira.

    O fundamental é que sob o manto protetor do “crescimento com redução das desigualdades” fermenta um modelo social que reproduz – agora em escala socialmente ampliada – o que há de pior na sociedade de consumo, individualista ao extremo, competitiva, ostentatória e sem nenhum espaço para a solidariedade.

    O fundamental é que a modesta redução da nossa brutal desigualdade social ainda não veio acompanhada por uma esperada redução da violência e da criminalidade, muito pelo contrário. E não há projeto nacional de combate à violência que fuja do discurso meramente repressivo ou da elegia à truculência policial.

    O fundamental é que a democratização do acesso ao ensino básico e à universidade por vezes deixam de ser um instrumento de iluminação e arejamento dos indivíduos e da própria sociedade, e são reduzidos a uma promessa de escada para a ascensão social via títulos e diplomas, ao som de sertanejo universitário.

    O fundamental é que os políticos e grandes partidos antigamente ditos “libertários” e “de esquerda” hoje abriram mão de disputar ideologicamente os corações e mentes dos jovens e dos novos “incluídos sociais” e se contentam em garantir a fidelidade dos seus votos nas urnas, a cada dois anos.

    O fundamental é que os políticos e grandes partidos antigamente ditos “sociais-democratas” já não tem nada a oferecer à juventude além de um neo-udenismo moralista que flerta desavergonhadamente com o autoritarismo e o fascismo mais desbragados.

    O fundamental é que a promessa da militância verde e ecológica vai aos poucos rendendo-se aos balcões de negócio da velha política partidária ou ao marketing politicamente correto das grandes corporações.

    O fundamental é que os sindicatos, movimentos populares e organizações estudantis estão entregues a um processo de burocratização, aparelhamento e defesa de interesses paroquiais que os torna refratários a uma participação dinâmica, entusiasmada e libertária.

    O fundamental é que temos em São Paulo um governo estadual que é francamente conservador e repressivo, ao lado de um governo federal que é supostamente “progressista de coalizão”. Mas entre a causa da liberação da maconha e defesa da internação compulsória, ambos escolhem a internação. Entre as prostitutas e a hipocrisia, ambos ficam com a hipocrisia. Entre os índios e os agronegócio, ambos aliam-se aos ruralistas. Entre a velha imprensa embolorada e a efervescência libertária da Internet, ambos namoram com a velha mídia. Entre o estado laico e os votos da bancada evangélica, ambos contemporizam com o Malafaia. Entre Jean Willys e Feliciano, ambos ficam em cima do muro, calculando quem pode lhes render mais votos.

    O fundamental é que o temor covarde em expor à luz os crimes e julgar os aqueles agentes de estado que torturaram e mataram durante da ditadura acabou conferindo legitimidade a auto-anistia imposta pelos militares, muitos dos quais hoje se orgulham publicamente dos seus crimes bárbaros – o que nos leva a crer que voltarão a cometê-los se lhes for dada nova oportunidade.

    O fundamental é que vivemos numa sociedade que (para usar dois termos anacrônicos) vai ficando cada vez mais bunda-mole e careta. Assustadoramente careta na política, nos costumes e nas liberdades individuais se comparada com os sonhos libertários dos anos 1960, ou mesmo com as esperanças democráticas dos anos 1980. Vivemos uma grande ofensiva do coxismo: conservador nas ideias, conformado no dia-a-dia, revoltadinho no trânsito engarrafado e no teclado do Facebook.

    O fundamental é que nenhum grupo político no poder ou fora dele tem hoje qualquer nível mínimo de interlocução com uma parte enorme da molecada – seja nas universidades ou nas periferias – que não se conforma com a falta de perspectivas minimamente interessantes dentro dessa sociedade cada vez mais bundona, careta e medíocre.

    Os mesmos indignados que se esgoelam no mundo virtual clamando que a juventude e os estudantes “se levantem” contra o governo e a inação da sociedade, são os primeiros a pedir que a tropa de choque baixe a borracha nos “vagabundos” quando eles fecham a 23 de Maio e atrapalham o deslocamento dos seus SUVs rumo à happy-hour nos Jardins.

    Acuados, os políticos “de esquerda” se horrorizam com as cenas de sacos de lixo pegando fogo no meio da rua e se apressam a condenar na TV os atos de “vandalismo”, pois morrem de medo que essas fogueiras causem pavor em uma classe média cada vez mais conservadora e isso possa lhes custar preciosos votos na próxima eleição.

    Enquanto isso a molecada, no seu saudável inconformismo, vai para as ruas defender – FUNDAMENTALMENTE – o seu direito de sonhar com um mundo diferente. Um mundo onde o ensino, os trens e os ônibus sejam de qualidade e gratuitos para quem deles precisa. Onde os cidadãos tenham autonomia de decidir sobre o que devem e o que não devem fumar ou beber. Onde os índios possam nos mostrar que existem outros modos de vida possíveis nesse planeta, fora da lógica do agribusiness e das safras recordes. Onde crenças e religião sejam assunto de foro íntimo, e não políticas de Estado. Onde cada um possa decidir livremente com quem prefere trepar, casar e compartilhar (ou não) a criação dos filhos.

    Onde o conceito de Democracia não se resuma à obrigação de digitar meia dúzia de números nas urnas eletrônicas a cada dois anos.

    Sempre vai haver quem prefira como modelo de estudante exemplar aquele sujeito valoroso que trabalha na firma das 8 da manhã às 6 da tarde, pega sem reclamar o metrô lotado, encara mais quatro horas de aulas meia-boca numa sala cheia de alunos sonolentos em busca de um canudo de papel, volta para casa dos pais tarde da noite para jantar, dormir e sonhar com um cargo de gerente e um apartamento com varanda gourmet.

    Não é meu caso. Não tenho nem sombra de dúvida de que prefiro esses inconformados que atrapalham o trânsito e jogam pedra na polícia. Ainda que eles nos pareçam filhinhos-de-papai, ingênuos em seus sonhos, utópicos em suas propostas, politicamente manobráveis em suas reivindicações, irresponsavelmente seduzidos pelos provocadores de sempre.

    Desde a Antiguidade, esses jovens ingênuos e irresponsáveis são o sal da terra, a luz do sol que impede que a humanidade apodreça no bolor da mediocridade, na inércia do conformismo, na falta de sentido do consumismo ostentatório, nas milenares pilantragens travestidas de iluminação espiritual.

    Esses moleques que tomam as ruas e dão a cara para bater incomodam porque quebram vidros, depredam ônibus e paralisam o trânsito. Mas incomodam muito mais porque nos obrigam a olhar para dentro das nossas próprias vidas e, nessa hora, descobrimos que desaprendemos a sonhar.

    Os grifos são do Blog.

  • Uma discussão menos ideológica sobre a redução da maioridade

    Como uma criança vira monstro
    Por Eduardo Guimarães

    Ao longo dos últimos dias, o país mergulhou em um debate doloroso. Em vez de estarmos nos debruçando sobre como estimular a nossa juventude a crescer do ponto de vista moral e intelectual, estivemos discutindo acaloradamente sobre como mudar as leis para punir com maior rigor os jovens infratores da lei.

    Esse debate, em si, representa o fracasso da geração que comanda os destinos da nação – e esta premissa não se reduz a partidos políticos, mas a cada um de nós, pais, empresários, trabalhadores, políticos, legisladores, magistrados, educadores, religiosos etc.

    O Estado brasileiro, no âmbito dos governos federal, estadual e municipal, de suas Casas Legislativas e do Poder Judiciário, não pode ser responsabilizado unicamente pelo fracasso diante do qual estamos, representado por seres que, até ontem, eram crianças, mas que, hoje, transformaram-se em verdadeiros monstros.

    Os casos da dentista de São Bernardo do Campo (SP) que foi queimada viva por quatro rapazes, sendo um deles menor de idade, ou do rapaz que foi assassinado com um tiro na cabeça por um outro menor ao ter seu celular roubado por ele, chocaram o país e desencadearam, de novo, o debate sobre maioridade penal.

    Não foram só esses casos, por óbvio, que ressuscitaram o debate sobre redução da maioridade penal. Os crimes violentos aterradores que se vê a toda hora neste país, sobretudo os cometidos por menores, fizeram o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, propor mudança no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) a fim de que pessoas de 16 anos sejam tratadas pelas leis penais como adultos.

    Essa é uma discussão dolorosa porque, dado o nível de horror que crimes como o da dentista de São Paulo encerram, pessoas se mostram assustadas a um ponto em que começam a acreditar em “soluções” como a proposta pelo governador de São Paulo.

    O grupo social minoritário que se opõe a esse caminho e o amplamente majoritário que se inclina por ele produziram muitos argumentos. Vale a pena dissecá-los.

    A discussão menos ilógica da redução da maioridade penal nos empurra para a pura e simples extinção de qualquer idade-limite, pois de nada adiantaria reduzi-la para 16 anos já que jovens de idades mais tenras também cometem crimes horrorosos e, assim, não subsiste uma só justificativa que sustente os 16 anos como ponto de inflexão entre adolescência e maturidade.

    Houve propostas dos adeptos da redução da maioridade penal no sentido de esta ser usada apenas para crianças e adolescentes que cometam crimes hediondos como o da dentista, ou mesmo para os que cometam qualquer tipo de assassinato.

    Ainda assim, ficariam de fora os atos de violência que não resultem em perda de vida da vítima. Desse modo, haveria que apenar criminalmente como adultos os menores de qualquer faixa etária que pratiquem crimes violentos.

    Até aí, pulamos da redução da maioridade penal aos 16 anos para a punição como adulto de qualquer adolescente e até de crianças, pois uma criança de 8 ou 10 anos que aborde alguém num semáforo com uma faca nas mãos e, como já ocorreu várias vezes, enfie o instrumento perfurante no pescoço do assaltado, seria vista como “irrecuperável”.

    Neste ponto, vale analisar o quadro da violência e da criminalidade no Brasil para que se possa mensurar se essa discussão sobre maioridade penal faz sentido.

    Segundo o RELATÓRIO NACIONAL DO ESTADO BRASILEIRO apresentado pela Secretaria Nacional de Direitos Humanos da Presidência da República ao MECANISMO DE REVISÃO PERIÓDICA UNIVERSAL DO CONSELHO DE DIREITOS HUMANOS DAS NAÇÕES UNIDAS em 2012, o Brasil possui cerca de 513.802 pessoas mantidas em unidades do sistema carcerário e da polícia.

    Esse relatório mostra um dado que todos intuem, mas que é pouco difundido: a população carcerária brasileira tem perfil preponderantemente jovem, masculino, negro e de baixa escolaridade.
    Sempre segundo dados oficiais do Brasil, em 2011 53,6% da população no sistema penitenciário tinha entre 18 e 29 anos, 93,6% eram homens, 57,6% eram negros e pardos e 34,8% eram brancos. Além disso, 45,7% da população do sistema penitenciário possuía ensino fundamental incompleto, enquanto apenas 0,4% possuía ensino superior completo.

    Um outro dado importante é o de que, segundo dados da Secretaria Nacional de Direitos Humanoslevantados pelo Globo, há só 60 mil adolescentes cumprindo medidas socioeducativas no Brasil, sendo 14 mil em regime de internação e os demais em regime aberto.

    Ou seja: apenas 14 mil adolescentes cumprem penas de privação de liberdade, contra 513.802 adultos. Toda essa discussão sobre maioridade penal, portanto, está focada em 2,72% do problema da violência e da criminalidade no país.

    Vê-se, assim, que o problema está longe de ser o infrator de 16 anos. E que a redução de idade penal proposta pelo governador de São Paulo é uma quimera, um engodo, uma conversa fiada destinada a dar alguma resposta a uma sociedade acuada por uma situação inacreditavelmente explosiva que está se formando.

    Não há nada demais em discutir o que fazer com uma criança ou um pré-adolescente ou mesmo um adolescente que cometam barbaridades. O problema é que a discussão da maioridade penal aos 16 anos nos levará a outras envolvendo crimes infanto-juvenis e, assim, ficaremos discutindo o problema pelo ângulo errado.

    Até este momento, não discutimos o xis da questão: o que está acontecendo com um país em que crianças e adolescentes se transformam em feras enlouquecidas capazes de uma barbaridade como queimar viva uma mulher que não tinha dinheiro para dar a assaltantes?

    A discussão da maioridade penal nunca vai tão fundo. Fica na superfície da “solução” rápida, mas sem refletir, por um segundo, que depois da redução para 16 anos virá a redução para faixas etárias inferiores e, depois desta, a extinção de idade mínima para ser responsabilizado criminalmente por qualquer tipo de ação infringente da lei.

    Isso mudará o fato de que crianças estão sendo transformadas em monstros por mecanismos sobre os quais quase ninguém quer refletir? É de duvidar que alguém, em sã consciência, acredite que a mudança da lei fará esse processo de criação de aberrações infanto-juvenis ser interrompido por extinção restrita ou irrestrita da maioridade penal.

    Como crianças viram monstros como o garoto que supostamente ateou fogo ao corpo embebido em álcool da dentista de São Bernardo do Campo? Já nasceram assim?

    Não se pode acreditar que no código genético dos brasileiros esteja inscrita uma anomalia que não há em outros países que não têm problemas de menores violentos como os que temos aqui. Afinal, mesmo aqueles que pensam ser de uma “raça” diferente da maioria deveriam saber que todos os brasileiros temos características genéticas em comum, seja o cidadão branco, negro, nordestino ou sulista.

    O fato de alguns poucos terem características físicas diferentes não muda o fato de que somos um país só.
    O perfil do presidiário brasileiro, portanto, explica como uma parte ínfima de nossas crianças pobres é empurrada para o crime e, usando drogas e convivendo com adultos violentos, acaba se convertendo em monstros como os que temos visto.

    Nas comunidades mais pobres, principalmente em favelas dominadas pelo tráfico, gerações de brasileiros cresceram e continuam crescendo tendo como “exemplo” traficantes e bandidos perigosos, que recrutam entre a juventude, inclusive na idade mais tenra, os futuros “soldados do crime”.

    O critério de recrutamento não visa o uso de jovens inimputáveis penalmente. Essa é uma empulhação. Por isso é que só 2,7% dos criminosos encarcerados no Brasil são menores. Afinal, não se pode acreditar que alguém cometa crimes pensando em ser preso.

    O processo de deformação que cria jovens monstros está na desestruturação familiar, na ignorância, na pobreza, nas drogas e, acima de tudo, nos exemplos que crianças recebem enquanto crescem, vendo bandidos nas comunidades pobres saírem da pobreza com essa fórmula “mágica” de tomar dos outros o que não pode conseguir honestamente.

    Afinal, o jovem brasileiro pobre sabe que a escola não irá ensiná-lo, que se for negro ou mestiço não será “bem visto” por um mercado de trabalho que, segundo incontáveis estudos, ainda discrimina os brasileiros de origem africana e com traços africanos mais marcantes. Assim, é tentado pelo crime como forma de ascensão financeira.

    Os adeptos da redução da maioridade penal costumam usar o exemplo dos países ricos. Em países como a Inglaterra, por exemplo, já houve casos de crianças de 8, 10 anos presas por terem cometido crimes violentos. Em muitos desses países a idade de responsabilização penal é menor ou não existe.

    Falta refletirmos sobre as condições das crianças inglesas, por exemplo, e das brasileiras. São as mesmas? Alguém vê hordas de crianças miudinhas espalhadas pelas ruas de Londres fumando crack, dormindo nas ruas, prostituindo-se etc.?

    O que você espera que essas crianças pelas quais passa todo dia nas ruas e vê chafurdando em todos esses dramas se tornem? Cidadãos exemplares? Você já refletiu que essas crianças não nasceram criminosas em potencial, mas que a continuarem nessa situação se tornarão monstros como o que queimou a dentista viva?

  • Redução da maioridade é proposta falaciosa, diz especialista

    André Luis Callegari

    Do Blog do jornalista Luis Nassif

    Do IHU Unisinos
    Redução da maioridade penal: uma proposta falaciosa. Entrevista especial com André Luís Callegari 

    “Na América Latina, quando índices de criminalidade de um determinado delito aumentam, a primeira solução do legislador não é verificar o que está acontecendo, mas dar uma resposta ao clamor social”, lamenta o advogado.

    Confira a entrevista.
    Reduzir a maioridade penal para acabar com a violência “é uma falácia”, diz André Luís Callegari à IHU On-Line. Segundo ele, a proposta não é fundamentada empiricamente e a aprovação da maioridade penal “seria uma mera transferência física do lugar de cumprimento da pena. Transferiríamos fisicamente os menores da Fundação de Atendimento Socioeducativo – FASE para o Presídio Central”, adverte em entrevista concedida por telefone.

    Na avaliação dele, a discussão sobre a redução da maioridade penal apresenta algumas preocupações, e entre elas está a criação de casas prisionais para jovens menores de 16 anos. “Por um sistema biológico que o Código Penal adota, consideramos que nessa fase de 16 anos, embora o jovem tenha o direito civil de votar, ele não atingiu a maturidade plena. O que fariam os outros presos em relação a esse jovem? Todo esse aspecto social tem que ser avaliado porque nós não temos, dentro do sistema prisional, as condições de separarmos os presos primários, aqueles que estão ingressando, e os presos provisórios, que estão lá no sistema presos por uma decretação de uma prisão preventiva para uma investigação, dos presos condenados”. E conclui: “A minha pergunta sociológica é: Será que estamos fazendo bem ou mal ao reduzir a maioridade penal? Não estaremos colocando em contato com pessoas de alta periculosidade jovens que ainda têm uma chance de recuperação?”

    André Luís Callegari (foto acima) é graduado em Ciências Jurídicas e Sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, e doutor em Direito Público e Filosofia Jurídica pela Universidad Autónoma de Madrid. É doutor honoris causa pela Universidad Autónoma de Tlaxcala e pelo Centro Univesitário del Valle del Teotihuacan, do México. Leciona na Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos.

    Confira a entrevista.
    IHU On-Line – Em que contexto histórico, político e social surge a proposta de reduzir a maioridade penal?
    Foto: http://www.cartaforense.com.br
    André Luís Callegari – Essa proposta surge de ondas de populismo penal ou de sentimentos de vingança. Atendendo ao clamor social diante de momentos históricos de aumento de um determinado crime, o legislador pensa que a melhor maneira de solucionar o problema é aumentar a lei penal. Esse é um entendimento histórico na América Latina, onde se legisla com base nos casos de comoção social. Diante do aumento de casos de criminalidade, queremos responder com aumento de pena ou redução da maioridade penal.

    IHU On-Line – Quais são os argumentos favoráveis e contrários à redução da maioridade penal? Como esse tema está sendo discutido na área jurídica?
    André Luís Callegari – Os argumentos favoráveis são mais emotivos e populistas. Temos de recordar que essa discussão voltou à tona por causa do assassinato de um jovem em São Paulo, em que o assaltante completaria 18 anos três dias depois. Isso acontece cotidianamente, mas como esse caso teve grande repercussão, os favoráveis dizem: “Temos de acabar com a violência, e para isso é preciso reduzir a maioridade penal”. Sabemos que essa mensagem é falaciosa, não tendo comprovação empírica. Aprovar a maioridade penal seria uma mera transferência física do lugar de cumprimento da pena. Transferiríamos fisicamente os menores da Fundação de Atendimento Socioeducativo – FASE para o Presídio Central. Temos um sistema penal falido na América Latina; a pena deveria ser ressocializadora e retributiva, mas não cumpre nenhum desses papéis. Hoje existem depósitos de presos e o Rio Grande do Sul é um exemplo disso. O Presídio Central é o novo Carandiru.

    Não nos damos conta, e ninguém faz essa análise, mas muitas vezes o menor de idade cumpre uma medida socioeducativa mais dura do que uma pessoa penalmente responsável. Explico: o menor de 18 anos, quando pratica um delito, recebe a pena máxima de três anos de internação. No caso de um maior praticar um homicídio simples, a pena varia de seis a vinte anos. Se ele for condenado a seis anos e cumprir um sexto da pena, ficará preso por um ano e poderá trocar de regime, ficando no regime aberto. Quer dizer, ele sai mais cedo da prisão. Então, reduzir a maioridade penal é uma alternativa falaciosa porque queremos dar uma resposta à sociedade através do Direito Penal; esse não é o melhor caminho.

    IHU On-Line – Os defensores da redução da maioridade penal argumentam que os jovens de 16 anos devem ser responsáveis pelos seus atos. Considerando a questão da responsabilidade, que alternativas existem diante dessa proposta?
    André Luís Callegari – Onde o Estado não entra se estabelece outro tipo de relação. Estudos sociológicos realizados nas favelas do Rio de Janeiro demonstram por que as milícias tomaram conta. Então, não se pode atribuir tudo aoDireito Penal. Temos de dar oportunidades aos jovens que têm a violência como base de identidade social e cultural. Precisamos de políticas públicas para que eles possam ter educação, alimentação e política social. Essas medidas não são adotadas. Fala-se que o país está erradicando a miséria, mas se vende muita coisa boa e se esconde muita coisa ruim. Volto a insistir que na América Latina, quando índices de criminalidade de um determinado delito aumentam, a primeira solução do legislador não é verificar o que está acontecendo, mas dar uma resposta ao clamor social. Estatisticamente, nunca o aumento da pena ou a redução da idade penal foram a solução para o índice de criminalidade. Se assim fosse, nos países em que há pena de morte não existiriam crimes.

    Há uma proposta em São Paulo de que, caso não se reduza a idade penal, se aumente o tempo de internação dos menores de três para oito anos. Aí eu pergunto: Por que se interna um menor por três anos? Porque se espera ter mais chance de recuperá-lo e reintegrá-lo à sociedade. Isso é mais difícil de acontecer com um regresso. Se aumentar o tempo de ingresso dos menores em um estabelecimento prisional com outro nome, porque a FASE tem as mesmas mazelas e problemas do presídio, a chance de recuperação será cada vez menor.

    IHU On-Line – Qual a eficácia da Fundação de Atendimento Socioeducativo – FASE?
    André Luís Callegari – O sistema que funciona na FASE é o mesmo sistema que funciona dentro do presídio. Existem as mesmas gangues, alguns são submetidos por força à vontade dos outros; há alguns que são forçados a assumir determinados atos infracionais lá dentro em nome dos outros; trata-se de um círculo vicioso.

    Temos de pensar na política do egresso: o que é feito depois da internação? A FASE existe para reeducar e ressocializar os menores, mas muitas vezes eles nem entram socializados lá dentro. Então a proposta acaba sendo uma falácia. Seria preciso pensar num sistema que, após a saída, o menor pudesse de fato ser matriculado numa escola, ter um aprendizado técnico, ter uma oportunidade dentro da sociedade. Isso é muito difícil e esse é um investimento do Estado.

    IHU On-Line – A solução é investir em outras questões, como trabalho e educação?
    André Luís Callegari – Exato! O Estado tem que investir nisso. Há uma eclosão do sistema carcerário; todo mundo sabe disso. O Brasil está sendo condenado pelo Tribunal Internacional de Direitos Humanos, porque os presos estão aglomerados sem as condições mínimas de saúde, de higiene e de possibilidade de reinserção na sociedade.

    É claro que o crime que aconteceu em São Paulo chocou, foi amplamente divulgado e criou essa comoção, essa sensação de impunidade. Isso acontece cotidianamente; uns são mais noticiados, outros menos. Acontece que, quando isso vem à tona com tanta força, a população evidentemente se revolta. E o que ela pede? Vingança através do Estado.

    IHU On-Line – Quais as implicações sociais da redução da maioridade penal?
    André Luís Callegari – A população tem de estar ciente de que todas as medidas endurecedoras que virão, caso a maioridade penal seja reduzida, não serão para casos já praticados. No aspecto sociológico, nós faríamos com que jovens de 16 anos (se fosse esse o limite estabelecido pelo legislador) ingressassem nas casas prisionais.

    Aí vem outra preocupação: criaríamos uma ala especial dentro dessas casas prisionais, com um tratamento diferenciado? Porque por um sistema biológico que o Código Penal adota, consideramos que nessa fase de 16 anos, embora o jovem tenha o direito civil de votar, ele não atingiu a maturidade plena. O que fariam os outros presos em relação a esse jovem?

    Todo esse aspecto social tem que ser avaliado porque nós não temos, dentro do sistema prisional, as condições de separarmos os presos primários, aqueles que estão ingressando, e os presos provisórios, que estão lá no sistema presos por uma decretação de uma prisão preventiva para uma investigação, dos presos condenados. Então, a minha pergunta sociológica é: Será que estamos fazendo bem ou mal ao reduzir a maioridade penal? Não estaremos colocando em contato com pessoas de alta periculosidade, jovens que ainda têm uma chance de recuperação?

    IHU On-Line – Como resolver o problema da criminalidade e da superlotação dos presídios?
    André Luís Callegari – Em primeiro lugar, temos de pensar que o Direito Penal sempre foi pensado como a última justificativa de uma sociedade. Precisamos ter outras medidas, alternativas que visem solucionar os conflitos. O Direito Penal nunca vai deixar de existir, porque é a forma de o Estado intervir na solução de conflitos.

    O problema é que nós temos de ter também políticas públicas fortes nas áreas menos favorecidas e de investimentos para que essas pessoas possam ter as mesmas chances do que os outros em uma sociedade igualitária. Esse é um fato que nós não temos.

    Em segundo lugar, continua existindo aquela ideia de que o Direito Penal atinge as pessoas menos favorecidas. Se fizermos um levantamento no sistema prisional brasileiro, vamos constatar que 1%, e talvez nem chegue a isso, da população carcerária são presos relativos a delitos econômicos, delitos com sistema financeiro nacional, delitos contra a ordem tributária, lavagem de dinheiro etc. 99% dos presos são de classes menos favorecidas. E isso tem uma explicação lógica: não punimos e não temos a força punitiva de atingir as classes mais altas que, também, através do desvio de dinheiro público, de recursos, de medicamentos, acabam matando indiretamente muita gente.

    Acontece que esses delitos não têm repercussão, porque não são delitos de sangue, como nós dizemos, não são delitos de interesse da mídia. O que acaba acontecendo é que nós nos focamos sempre nos delitos com violência ou grave ameaça à pessoa. Como resolver esse problema? Não há uma solução mágica para isso. Efetivamente as penas não vão diminuir a criminalidade. Temos de investir para que essas pessoas saiam da zona de marginalidade e possam conviver socialmente com os mesmos direitos e garantias individuais que as outras pessoas têm.

  • “Maioridade penal aos seis. Afinal, nessa idade, eles já se vestem sozinhos”

    Redução da maioridade penal? O Estado e a sociedade falham retumbantemente em garantir que o Estatuto da Criança e do Adolescente ou mesmo a Constituicão Federal sejam cumpridos

    Leonardo Sakamoto, em seu blog

    redução maioridade penal

    Um dos maiores acertos de nosso sistema legal é que, pelo menos em teoria, protegemos os mais jovens – que ainda não completaram um ciclo de desenvolvimento mínimo, seja físico ou intelectual, a fim de poderem compreender as consequências de seus atos. Completar 18 anos não é uma coisa mágica, não significa que as pessoas já estão formadas e prontas para tudo ao apagarem as 18 velinhas. Mas é uma convenção baseada em alguns fundamentos biológicos e sociais. E, o importante, é que as pessoas se preparam para essa convenção e a sociedade se organiza para essa convenção.

    Redução da maioridade penal está em discussão no Brasil.


    Por necessidade individual e incapacidade coletiva de garantir que essa preparação ocorra de forma protegida, muita gente acaba empurrada para abraçar responsabilidades e emularem uma maturidade que elas não têm. Enfim, se tornam adultos sem ter base para isso.

    Na prática, o Estado e a sociedade falham retumbantemente em garantir que o Estatuto da Criança e do Adolescente ou mesmo a Constituicão Federal sejam cumpridos. Entregamos muitos deles à sua própria sorte – sejam filhos de famílias pobres ou ricas. Porque encher o filho de brinquedos e fazer todas as suas vontades para compensar a ausência por conta de uma roda viva que vai nos tragando também é de uma infelicidade atroz.

    O que fazer com um jovem que ceifa a vida de outro, afinal? Conheço a dor de perder alguém querido de forma estúpida pelas mãos de outro. O espírito de vingança, travestido de uma roupa bonita chamada Justiça, que foi incutido em mim pela sociedade desde pequeno, diz que essa pessoa tem que pagar. Para que aprenda e não faça novamente? Não. Para que sirva de exemplo aos demais? Não. Para retirá-lo do convívio social? Não. Para tentar diminuir a minha dor através da dor dele e da sua família? Não. Não há provas de que nada disso funcione, mas ele tem que pagar. Por que sempre foi assim, porque caso contrário o que fazer?

    A Fundação Casa, do jeito que ela está, não reintegra, apenas destrói. A prisão, então, nem se fala. Também não acho que reduzir a maioridade penal para 16 anos vá resolver algo. Ele só vai aprender mais cedo a se profissionalizar no crime. E se jovens de 14 começarem a roubar e matar, podemos mudar a lei no futuro também. E daí se ousarem começar antes ainda, 12. E por que não dez, se fazem parte de quadrilhas? Aos oito já sabem empunhar uma arma. E, com seis, já se vestem sozinhos.

    A resposta para isso não é fácil. Mas dói chegar à conclusão de que, se um jovem aperta um gatilho, fomos nós que levamos a arma até ele e a carregamos. Então, qual o quinhão de responsabilidade dele? E qual o nosso?

    O certo é que ele irá levar isso a vida inteira – o que não é pouco – e nunca mais será o mesmo, para bem ou para mal. A sociedade está preparada para lidar com ele e outros jovens que cometem crimes, por conta própria ou influência de adultos?

    Ou melhor, a sociedade quer realmente lidar com eles ou prefere jogá-los para baixo do tapete, escondendo os erros que, ao longo do tempo, ela mesma cometeu?

  • Fraternidade e Juventude: da tragédia à esperança

    Artigo do Padre Gledson Eduardo de Miranda Assis, de Montes Claros – MG.


    Hoje, dia em que escrevo este artigo, é segunda-feira de carnaval. Já desde ontem esboçava algumas (ou a maioria) das ideias esboçadas aqui. Na quarta-feira, chamada “de cinzas”, a Igreja inicia o tempo da quaresma e, concomitantemente, há anos, vive Campanha da Fraternidade (CF), já tradicionalizada no contexto brasileiro. Neste ano de 2013 a CF versa sobre o tema da juventude. Tema pertinente e importante, uma vez que havia 21 anos não tínhamos uma campanha sobre a juventude. Aliás, pelo que disseram nos bastidores, incompreensivelmente, essa CF só foi conseguida pelo recolhimento de centenas de milhares de assinaturas e pedidos, quase que implorando à CNBB a prioridade à causa da juventude.


    Bastidores a parte, não podemos deixar de considerar que a CF desse ano, sobre a juventude, foi antecipada pela ceifa de mais de 200 jovens na recente tragédia de Santa Maria (RS), acontecimento, sem sombra de dúvidas, desolador. Que pensar? Vontade de Deus? Certamente não. Contudo, como lembra Leonardo Boff, “mesmo naquilo que não é vontade de Deus nós podemos perceber PRESENÇA DE DEUS”. Isso é mais importante. E essa presença de Deus, mesmo diante de um fato tão assolador para tantas famílias, nos ajuda a refletir algumas coisas importantes (que, inclusive, já refleti com o povo em algumas celebrações).


    Aos que partiram, infelizmente só nos resta a oração pelo conforto de seus familiares. Mas e os jovens que ainda estão neste mundo correndo os mesmos riscos? A eles e a nós é dada a oportunidade de revermos algumas atitudes, como, por exemplo: 1) A consciência de que não posso colocar 1000 pessoas onde só cabem 600, independente da margem de “lucro” que isso vá me trazer; 2) que não posso forrar um lugar fechado com material inflamável; 3) que não posso soltar fogos de artifício tóxicos em lugares fechados… e assim por diante. Mas será que a partir dessa tragédia o mundo vai agir diferente? Talvez não. E isso é que deve ser visto como causa de preocupação.

    Agora todos estão tentando identificar os culpados: prefeitura, bombeiros, boite, banda, etc… Mas ainda há mais uma realidade que precisa ser considerada e que certamente ainda não foi porque talvez seja a mais dolorida de ter que se reconhecer: infelizmente, meus amores, quase nenhum daqueles jovens que estavam lá procuraram antes saber se aquele lugar oferecia segurança a eles quando entraram. Infelizmente nenhum de nós faz isso. Somos convidados para festas em salões, por mais sofisticados que sejam, e simplesmente vamos entrando, mas nunca nos preocupamos em saber se tais lugares nos dão a segurança necessária ante uma fatalidade. E quando não damos atenção a isso, corremos o risco de nós mesmos, com nossas próprias pernas, caminharmos, mesmo que inconscientemente, ao encontro da morte. Claro que donos de casas como aquela devem oferecer segurança às pessoas que as frequentam. Mas ninguém cuida de nós ou se preocupa melhor conosco tanto quanto nós mesmos. Por mais que se preveja segurança, nada sobrevive a uma fatalidade de tal porte.


    Lembro-me que numa das reportagens transmitidas pela TV uma jovem disse: “Meu pai sempre me dizia pra olhar nos lugares onde eu ia se tinha extintor, saídas de emergência, etc… Quando cheguei na Kiss vi que só tinha uma porta, então procurei ficar mais no fundo, perto dela, por isso não tive dificuldades para sair quando o fogo começou”. É isso! O pai, a mãe, o educador, o avó, o padrinho… pessoas que nos orientam neste sentido. Quando dizemos que uma das prioridades da Igreja é a juventude não quer dizer que sua prioridade seja cuidar dos jovens, mas sim “ajudar os jovens a cuidar de si mesmos”. A Campanha da Fraternidade desse ano quer ser um auxílio nessa conscientização. Os pais precisam ajudar seus filhos a cuidarem de si mesmos, orientando neste aspecto. Será que estamos fazendo isso? Será que vamos passar a ter estes cuidados a partir de agora? O resultado da tragédia de Santa Maria é irreversível. Mas ainda podemos olhar com esperança para o futuro que nos é proposto e fazer diferente a partir de então.


    Lembrei-me de meu pai que, com toda sua fé e simplicidade, diz assim numa ocasião como essa: “Se estivessem todos numa Igreja rezando isso não tinha acontecido”. E fiquei pensando comigo que a fatalidade mereceria outra reflexão acerca de nós mesmos? Quem pode garantir que não aconteceria se estivessem numa Igreja? Agora os bombeiros estão numa empreitada ferrenha para fiscalizar e fechar as casas noturnas impróprias para o uso. Mas e se isso tivesse acontecido numa Igreja? A essa altura as casas noturnas nem estariam sendo lembradas e nossas Igrejas é que estariam sendo todas fiscalizadas. Aliás, não é porque estamos rezando que estamos seguros. Na verdade, pode ser até o contrário. Estava refletindo sobre isso e cheguei à conclusão de que se os bombeiros fossem fiscalizar nossas Igrejas (Templos), quase nenhum deles permaneceria aberto. E aí temos que reconhecer que nossas Igrejas, na grande maioria das vezes, não oferece NENHUM tipo de segurança ao fieis que as frequentam: nenhum extintor de incêndio, nenhuma saída de emergência, nenhum sensor de fumaça (até mesmo porque se tivessem nem poderíamos mais usar o turíbulo), nenhuma placa de luminosidade indicando a saída, muitas vezes só uma porta no fundo, que é a mesma de entrada pra todo mundo. Às vezes construídas sem projeto adequado por quem é de direito, às vezes ainda em construção e em funcionamento, cheias de gambiarras de fios de eletricidade soltos pelas paredes afora.


    Pois é, queridos(as)! Talvez então tenhamos mesmo que começar por nós. Costumo brincar que se formos levar à risca os padrões de segurança para locais de grande frequência de pessoas (tiremos o foco de casas noturnas e consideremos todos os outros), nossas igrejas, na grande maioria, “não são lugares de se frequentar”. Claro que fatalidade é fatalidade e pode acontecer em qualquer lugar e tempo. De outra parte, se formos alimentar nossas neuras com todas essas coisas, nem saímos de mais de casa. Mas, também, se ficamos em casa, pode vir a enchente e nos invadir, ou o terremoto e jogar tudo por terra.

    De fato, estamos cercados de todos os lados, mas se soubermos prevenir nosso caminho e o caminho dos outros, poderemos evitar muitos males maiores. Já pensaram, por exemplo, nos shows pirotécnicos que são feitos por ocasião de nossas festas de padroeiros? Podem até ser bonitos, mas além de ser uma verdadeira queima de dinheiro, na grande maioria das vezes são realizados por pessoas sem a especialização ou autorização necessárias para tal manuseio. E não se busca especialização só “pra ficar mais baratinho, porque tem um paroquiano aqui que tem costume de fazer isso há muito tempo e faz ‘muito bem’”.   Há alguns anos (saiu em tudo que foi jornal), por ocasião do encerramento do Jubileu de São José Operário, em Barbacena, uma daquelas girândolas subiu e não estourou… desceu e estourou no meio de todo mundo. Conclusão? Anos e anos a Arquidiocese pagando indenização às vítimas. Hoje todas as programações impressas de festa de padroeiro, têm que trazer a seguinte nota: “Por determinação da Arquidiocese, a paróquia NÃO se responsabiliza por fogos de artifícios soltos durante as festividades”. Correto, por que assim, quem soltar os fogos é que assume a responsabilidade pelos mesmos.

    Só estou dizendo tudo isso porque agora no carnaval mais uma vez milhões de nossos jovens estão saindo para as ruas e, depois, também para as casas noturnas, no meio de fogos, de serpentinas metalizadas (apesar de terem sido proibidas mas ainda comercializadas) e de bebida alcoólica. Será que eles seriam capazes, sob efeito de álcool, de correr a tempo caso outra fatalidade acontecesse. Os blocos comportam mesmo a quantidade de pessoas que neles tem? Será que já nos esquecemos da tragédia de Santa Maria? Tomara que todos estejam tendo um bom carnaval e não se esqueçam de levar em conta o sinal de Santa Maria para fazermos de modo diferente a partir de então. Só depende de nós.


    Eu vos escrevo, jovens, porque sois fortes, porque a Palavra de Deus permanece em vós (1Jo 2,14c). Que a Palavra de Deus nos ilumine e a Campanha da Fraternidade deste ano ajude nossos jovens a construir um futuro melhor para suas vidas, pensando não só na curtição, mas também, e sobretudo, na prevenção, “em todo tempo e lugar”. Só assim estaremos prontos a, como Isaías, diante de Deus, oferecermo-nos também como servos disponíveis a continuar a construção do seu Reino. A Juventude é a grande esperança da Igreja. E tal esperança só se concretizará com base na disponibilidade de cada coração para o exercício da missão. Que possamos todos juntos, quando o Senhor nos perguntar: “Quem enviarei? Quem irá por nós?” Respondermos com firme e comprometida voz: “Eis-nos aqui. Envia-nos” (Is 6,8).
  • Juventude e Fraternidade

    Aproveitando a deixa de que o tema da Campanha da Fraternidade de 2013, que começa nesta quarta-feira de Cinzas, é Juventude e Fraternidade. Vamos relembrar a Campanha da Fraternidade de 1992, também sobre jovens.

    Veja o vídeo e relembre ou conheça canções que marcaram época na caminhada da juventude organizada.

  • Santa Maria: "Navegar é preciso…"

    Leonardo Boff

    Os antigos já diziam:”vivere navigare est” quer dizer, “viver é fazer uma viagem”, curta para alguns, longa para outros. Toda viagem comporta riscos, temores e esperanças. Mas o barco é sempre atraído por um porto que o espera lá no outro lado.

    Parte o barco mar adentro. Os familiares e amigos da praia acenam e o acompanham. E ele vai lentamente se distanciando. No começo é bem visível. Mas na medida em que segue seu rumo parece aos olhos cada vez menor. No fim é apenas um ponto. Um pouco mais e mais um pouco desaparece no horizonte. Todos dizem: Pronto! Partiu!

    Não foi tragado pelo mar. Ele está lá, embora não seja mais visível. E segue seu rumo.

    O barco não foi feito para ficar ancorado e seguro na praia. Mas para navegar, enfrentar ondas, vencê-las e chegar ao destino.

    Os que ficaram na praia não rezam: Senhor, livra-os das ondas perigosas, mas dê-lhe, Senhor, coragem para enfrentá-las e ser mais forte que elas.

    O importante é saber que do outro lado há um porto seguro. Ele está sendo esperado. O barco está se aproximando. No começo é apenas um ponto levemente acima do mar. Na medida em que se aproxima é visto cada vez maior. E quando chega, é admirado em toda a sua dimensão.

    Os do porto dizem: Pronto! Chegou! E vão ao encontro do passageiro, o abraçam e o beijam. E se alegram porque fez uma travessia feliz. Não perguntam pelos temores que teve nem pelos riscos que quase o afogaram. O importante é que chegou apesar de todas as aflições. Chegou ao porto feliz.

    Assim é com todos os que morrem. O decisivo não é sob que condições partiram e saíram deste mar da vida, mas como chegaram e o fato de que finalmente chegaram. E quando chegam, caem, bem-aventurados, nos braços de Deus-Pai-e-Mãe de infinita bondade para o abraço infinito da paz. Ele os esperava com saudades, pois são seus filhos e filhas queridos navegando fora de casa.

    Tudo passou. Já não precisam mais navegar, enfrentar ondas e vencê-las. Alegram-se por estarem em casa, no Reino da vida sem fim. E assim viverão para sempre pelos séculos dos séculos.

    (Em memória dolorida e esperançosa dos jovens mortos em Santa Maria na madrugada do dia 27 de janeiro de 2013).

    Fonte: Recolhido na rede social Facebook em 30/01/2013.
  • Católicos escolhem Juventude como tema da Campanha da Fraternidade 2013

    Cartazes das Campanhas da Fraternidade 2013 e 1992 (respectivamente)
    com o tema Juventude
    Será lançada no dia 13 de fevereiro, Quarta-feira de Cinzas, mais uma edição da Campanha da Fraternidade (CF). Esse ano o tema será “Fraternidade e Juventude” e o lema “Eis-me aqui, envia-me Senhor”

    Após 21 anos da Campanha da Fraternidade de 1992, que abordou como tema central a juventude, a CF 2013, na sua 50ª edição, terá a mesma temática. A acolhida do tema “Fraternidade e Juventude” tem como objetivo ter mais um elemento além da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) para fortalecer o desejo de evangelização dos jovens.

    Acesse
    .: Cifra do hino da CF 2013

    O presidente da Comissão para Juventude da CNBB, Dom Eduardo Pinheiro, explicou que uma das metas principais da CF 2013 é olhar a realidade juvenil, compreender a riqueza de suas diversidades, potencialidades e propostas, como também os desafios que provocam atitudes e auxílios aos jovens e aos adultos.

    O objetivo geral da Campanha é acolher os jovens no contexto de mudança de época, propiciando caminhos para seu protagonismo no seguimento de Jesus Cristo, na vivência eclesial e na construção de uma sociedade fraterna, fundamentada na cultura da vida, da justiça e da paz.

    “Dentro do sentido da palavra ‘acolher’ está o valorizar, o respeitar o jovem que vive nesta situação de mudança de época e isso não pode ser esquecido”, destacou o presidente da Comissão para Juventude da CNBB.

    Na Arquidiocese de Aparecida (SP), o lançamento da CF 2013 será no dia 31 de janeiro, em Guaratinguetá, às 19h30. A abertura será feita pelo Cardeal Arcebispo de Aparecida, Dom Raymundo Damasceno Assis, com as presenças dos padres Leandro, assessor da CF na Diocese de Taubaté e o Padre Evaldo César do Comitê Local da Jornada Mundial da Juventude.


  • DNJ 2012: Juventude: Qual vida vale a pena ser vivida?

    Professor Levon fala aos jovens da EFA-NE

    Na manhã do domingo, 21 de outubro de 2012, a convite da direção do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Taiobeiras, fiz uma participação no 2º Encontro da Juventude do Alto Rio Pardo, realizado na sede da Escola Família Agrícola Nova Esperança (EFA-NE), tratando sobre o tema do DNJ – Dia Nacional da Juventude 2012 (da CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) “Juventude & Vida” para cerca de 200 jovens (estudantes da EFA-NE e convidados).

    Abordei questões relacionadas aos sinais de morte que invibilizam a vida da juventude (violência, drogas, consumismo, falta de acesso à educação e à cultura, etc…) e aos sinais de vida que dão esperança aos jovens (Escola Família Agrícola, participação cidadã, movimentos sociais, etc…), culminando com a procura de respostas para o questionamento proposto no lema do DNJ 2012 (Qual vida vale a pena ser vivida?).

    Juventude presente ao 2º Encontro do Alto Rio Pardo

    A Escola Família Agrícola Nova Esperança, sediada na região da Matrona, município de Taiobeiras/Norte de Minas Gerais, é uma conquista dos movimentos sociais e sindical da microrregião do Alto Rio Pardo através das ações do Território da Cidadania (ligado a vários Ministérios do Governo Federal; especialmente ao MDA – Ministério do Desenvolvimento Agrário).

    Cartaz do DNJ 2012

    A iniciativa do encontro com a juventude é um bom começo para a reorganização de atividades de formação numa região onde o movimento juvenil já foi bastante forte em décadas anteriores.

  • Artigo do Levon: Miltinho e a juventude

    Uma das várias homenagens na rede social Facebook
    Eu tinha uns 13 ou 14 anos de idade quando a adolescente Gabriane faleceu depois de muito lutar contra uma doença que acabou por levar sua vida tão precocemente. Não a conheci pessoalmente. Mas me lembro com muita clareza da imensa tristeza que tomou conta de todos nós, adolescentes e jovens do início dos anos 1990. Como todos nessa idade, não nos preocupávamos com a morte. Ela não estava no nosso horizonte. Éramos imortais. E o desaparecimento físico de alguém como nós, chocou-nos ferozmente.

    Um pouco mais adiante, no 2º ano do Ensino Médio, mais uma morte de alguém da mesma faixa etária. Estávamos com 16 anos. José Aleatson, meu colega de sala, morto num acidente de moto no cruzamento da Rua Pedra Azul com a Rua Tamoios, num tempo em que usar o capacete ainda não era algo tão natural em Taiobeiras, como hoje. Mais uma vez a morte desafiando a juventude. E nós nos comovemos e choramos mais uma vez.

    Agora, com a morte de Miltinho, 19 anos, eu já na condição de adulto, mais uma vez constato o quanto os jovens e os adolescentes, do alto de sua imortalidade gloriosa, são sensíveis à dor e à despedida. Não são alienados como equivocadamente se supõe. Sua vocação é a vida, instantânea e intensa, livre dos limites físicos e materiais, aberta ao caminho da eternidade.

    Foi a primeira morte de um jovem querido, trabalhador e humilde na “Era Facebook” em Taiobeiras. As redes sociais virtuais e reais transbordaram de dor e de sentimento. Emoções somente capazes de ser tão intensas no universo luminoso da juventude.

    Uma torrente de lágrimas e flashes memoriais abriu caminho por entre a fatalidade. Uma overdose de dor e de carinho soprou como brisa suave em meio à ventania da tempestade do acaso. Jovens prantearam um jovem. Comoveram a todas as idades. Comoveram-se a si mesmos e, amargamente, tomaram parte e consciência da fragilidade de seus corpos físicos. Porém se constituíram, na dor e na crueldade dos fatos, em herdeiros da transcendência que a amizade verdadeira e a memória positiva passaram a conceder às suas existências concretas e permanentes.

    Miltinho passou da vida terrena à condição de ícone de uma juventude que, ao contrário do que se suponha, tem sentimentos, sonha e deseja, ardentemente, continuar vivendo. Que ele esteja com Deus!

    Miltinho vive! E seus pares, jovens, também! Para sempre!

    * Levon Nascimento é professor. Miltinho foi seu aluno do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental, na Escola Estadual Presidente Tancredo Neves.
  • Taiobeiras: Posse da 1ª direção do Grêmio Estudantil da Escola Oswaldo Lucas

    Fui convidado pelo Rhansley Santos, mas por estar trabalhando no horário, não pude comparecer à cerimônia de posse da 1ª diretoria do Grêmio Estudantil da Escola Estadual Oswaldo Lucas Mendes, ocorrida nesta tarde.

    Parabenizo à chapa vencedora, Vozes da Juventude, à escola e a todos os estudantes que participaram desse processo democrático. Desejo sucesso na luta!

  • A juventude tem sede de quê?

    Resgatar nossas lembranças… Não para ficar presos ao passado… Mas para avançar ao futuro…

    Faz dois anos que eu e minha esposa Flaviana organizamos o livro “Memorial da Juventude de Taiobeiras”, um documentário fotográfico contendo a história dos grupos de jovens da Pastoral da Juventude taiobeirense, perfazendo um período que se inicia nos anos 1970 até por volta de 2005. A iniciativa só foi possível graças ao Edital de Microprojetos Mais Cultura do Banco do Nordeste do Brasil, em parceria com a Funarte, órgão do Ministério da Cultura do Governo Federal.

    Quase sempre estamos recebendo agradecimentos de várias das gerações de jovens que foram retratadas no livro. E por conta dele já fui convidado a participar de várias atividades de formação para jovens, onde tenho proferido colóquios e introduzido diálogos que objetivam a motivação dessa galera de hoje para o engajamento em atitudes produtivas e sociais. Acredito que o exemplo do passado é útil como inspiração e subsídio de organização. Nossa juventude anda carente de “modelos do bem”.

    Evidentemente que não se espera que repitam o que já foi feito. Os jovens são essencialmente inovadores e autênticos em qualquer época. O exemplo de outros tempos deve servir apenas como seta a indicar caminhos seguros para “o novo”.

    Numa sociedade baseada na exclusão, no consumismo e na ostentação, demonstrar aos jovens que é possível progredir com outra concepção, mais humana e menos elitista, é uma necessidade urgente. Os desvios para as drogas, para o tráfico e para a escravização pelo consumo têm falado mais alto. Os que como eu, que tivemos o privilégio e a sorte de viver as experiências humanizadoras dos grupos de jovens da Pastoral da Juventude, precisamos contribuir com a moçada do presente, ajudando no discernimento, “segurando pela mão”, de modo a fazê-los crescer com autonomia e otimismo, com auto-confiança e firmeza.

    Precisamos sair da segurança do nosso mundo de adultos e ir ao encontro dos que, por força da inexperiência da idade ou dos percalços de uma sociedade desumanizada, estão a tatear na insegurança e na dor.

    Como disse o poeta Zé Vicente em sua canção “Pelos caminhos d’América”: “Há cruzes beirando a estrada, pedras manchadas de sangue, apontando como setas, que a liberdade é prá lá…!” Sejamos essa sinzalização a indicar o caminho do amor a tantos jovens vítimas da ganância e da maldade. Temos que subir os morros, descer as baixadas, entrar nos barracos e nas taperas, estar nas salas de aula e nas ruas, juntos, presentes.

    Encontremos “o rosto do mundo” expresso nas feiçoes da juventude. Ajudemos a saciar a sede de reconhecimento e afeto que resseca as relações humanas do presente. Tenhamos “coração livre”, “comprometido” com a construção de um outro mundo possível, mais justo e fraterno para nossos jovens.
  • Logomarca oficial da Jornada Mundial da Juventude Rio 2013

    Conceito


    Com base no trecho da Palavra do Evangelho de São Mateus, percebe-se a necessidade de expressar uma referência direta à imagem de Jesus e ao sentido do discípulo. Neste episódio, Jesus se encontrou com seus discípulos em uma montanha, após sua ressurreição. Como símbolo da cidade do Rio de Janeiro, o Cristo Redentor também se encontra em uma montanha e é um monumento reconhecido no mundo inteiro. O tema é uma palavra de ordem proclamada pelo próprio Senhor Jesus, e assim a Sua imagem possui destaque no centro do símbolo.


    Os elementos do símbolo formam a imagem de um coração. Na fé dos povos o coração assumiu papel central, assim como o Brasil será o centro da juventude na Jornada Mundial. Também designa o homem interno por inteiro, se tornando nesta composição a referência aos discípulos que possuem Jesus em seus corações.


    Os braços do Cristo Redentor ultrapassam a figura do coração, como o abraço acolhedor de Deus aos povos e jovens que estarão no Brasil. Representa nossa acolhida, como povo de coração generoso e hospitaleiro.


    A parte superior (em verde) foi inspirada nos traços do Pão de Açúcar, símbolo universal da cidade do Rio de Janeiro, e a cruz contida nela reforça o sentido do território brasileiro conhecido por Terra de Santa Cruz.

    As formas que finalizam a imagem do coração possuem a cor azul, representando o litoral, somada ao verde e amarelo que transmitem a brasilidade das cores da bandeira nacional.

    A logomarca é de autoria do designer gráfico Gustavo Huguenin, 25 anos, fluminense de Cantagalo.

    Fonte: Rio 2013
  • Artigo do Levon: Isalino, Elvira e a juventude

    * Publicado na versão impressa do Jornal Folha Regional, página 3, ano IX, nº 194, janeiro de 2012.

    Quem viu nas redes sociais, em especial no Facebook, a repercussão positiva das comemorações dos cem anos de idade de Elvira e Isalino Miranda e dos oitenta anos do matrimônio dos dois, percebeu a quantidade de compartilhamentos, cliques no botão “curtir” e comentários elogiosos partindo de adolescentes e jovens que valorizaram o bonito exemplo de vida do centenário casal taiobeirense, e promoveram com entusiasmo a divulgação de sua duradoura e estável união conjugal.

    Essa ação da juventude “conectada” despertou curiosidade por felizmente ir contra uma realidade atormentadora. Atualmente se vive numa sociedade consumista onde o idoso é tratado de forma negativa, desrespeitosa e até violenta. A estabilidade da família, especialmente entre duas pessoas vivendo juntas por um longo período, como a relação do casal Isalino e Elvira, deixou de ser um objetivo de vida para muita gente. Nas relações de casal, ficou comum seguir a mesma lógica que o mercado definiu para as mercadorias: “comprar, usar e, por fim, trocar”, sacramentando o rito das relações descartáveis.

    Ainda que em parte justificado pela cobertura da mídia local e nacional (Fantástico, da Globo), foi diferente e estimulador ver tanta gente nova valorizando um casal de idosos, conhecendo suas vidas e experiências e aclamando o fato de estarem juntos – “e felizes”, como disse o Maurício Kubrusly – há oitenta anos. Derrotando os maus modos da sociedade descartável e fútil, os jovens demonstraram sensibilidade, carinho e respeito. Puseram-se abertos e dinâmicos para compreender e promover as boas coisas da vida. Sinal de que nem tudo é sombra no futuro que aguarda o mundo de hoje.

    Esses sinais de benevolência da juventude que se encantou com Isalino e Elvira destroem a amargura das notícias trágicas. Do tipo em que netos ou filhos deixam seus idosos jogados à própria sorte, ou quando exploram suas aposentadorias ou seus serviços. Pior ainda, quando parentes mais novos matam os mais velhos (pais, avós) por conta das drogas ou de dinheiro, como em exemplo bem recente e próximo da realidade de Taiobeiras e do Brasil.

    Nos passos dessa esperança é possível criar canais produtivos entre os mais novos e os idosos. Esperança numa juventude sensível, capaz de se abrir às experiências de quem já viveu mais tempo. Juventude que mire nos sinais de firmeza e solidez das relações humanas e identifique nelas os valores essenciais escondidos nas histórias simples dos seus entes mais velhos. Depende das famílias e da sociedade saber cultivar essa juventude.

    O centenário de nascimento e o octogésimo aniversário de casamento de Elvira e Isalino Miranda serviram para demonstrar às gerações iniciantes que é possível viver bem, feliz e com solidez de valores por toda uma vida. O casal exibiu raro e precioso exemplo de valorização da dignidade inerente à pessoa humana que, via de regra, deveria se estender a todas as famílias e a cada indivíduo, em especial.

    Há esperança de um mundo melhor.

  • 30 de outubro: Dia Nacional da Juventude 2011

    Tema: Juventude e Protagonismo Feminino.
    Lema: Jovens mulheres tecendo relações de vida.