Em abril de 2026, será lançado o livro A COLUNA PRESTES NOS GERAIS DE MINAS, revisitando este grande fato histórico que teve o Alto Rio Pardo como palco há cem anos
Por Levon Nascimento
A Coluna Prestes foi um dos acontecimentos políticos e militares mais marcantes da história do Brasil republicano. Entre 1924 e 1927, um grupo de jovens oficiais do Exército percorreu cerca de 25 mil quilômetros pelo interior do país, denunciando as injustiças da Primeira República, como a fraude eleitoral, o poder dos coronéis e a ausência de políticas públicas para a população pobre. Em abril de 1926, essa marcha chegou ao Norte de Minas Gerais, deixando marcas profundas na memória da região.
O Brasil da década de 1920 era governado por elites agrárias que se revezavam no poder, principalmente São Paulo e Minas Gerais, no chamado sistema do “café com leite”. Nesse contexto, a maioria da população não tinha direito ao voto e vivia sob forte controle político local. O movimento conhecido como tenentismo surgiu como reação a essa realidade, defendendo reformas como o voto secreto, a moralização da política e a ampliação da educação pública.
Ao entrar no Norte de Minas, a Coluna Prestes encontrou um sertão marcado pela pobreza, pelo isolamento e pela dominação dos grandes proprietários de terra. Para a população local, pouco integrada à política nacional, a chegada dos “revoltosos” foi cercada de medo e incerteza. Muitas famílias abandonaram suas casas e se esconderam no mato, sem distinguir claramente quem eram os rebeldes e quem eram as tropas do governo.
Um aspecto importante desse episódio foi a violência praticada pelas tropas legalistas, enviadas pelo governo federal para perseguir a Coluna. Em diversos relatos históricos e de memória oral, essas forças aparecem como responsáveis por saques, espancamentos e destruição de propriedades, o que aumentou o sofrimento da população sertaneja. Essa situação contribuiu para a confusão generalizada e para o trauma coletivo vivido na região.
A Coluna Prestes, por sua vez, adotava uma disciplina rígida e, em muitos casos, buscava negociar com comerciantes e moradores locais para obter alimentos e suprimentos. Embora tenha recorrido a requisições forçadas, há registros de tentativas de pagamento e de respeito às comunidades, o que diferencia sua atuação daquela das tropas governistas em vários momentos.
No Norte de Minas Gerais, a Coluna realizou uma de suas manobras militares mais conhecidas: o chamado “Laço Húngaro”. Essa estratégia permitiu que os revoltosos enganassem as forças que os perseguiam, escapando do cerco e retornando à Bahia. A manobra demonstra a capacidade estratégica de Luiz Carlos Prestes e explica por que a Coluna nunca foi derrotada militarmente.
Um episódio simbólico ocorreu em Taiobeiras, então chamada Bom Jardim das Taiobeiras. Ali, o comerciante João Rêgo dialogou com os revoltosos e conseguiu proteger a comunidade por meio da negociação. Segundo a memória local, Luiz Carlos Prestes teria deixado moedas como forma de pagamento pelos produtos retirados da loja, gesto que ficou marcado como sinal de respeito e reciprocidade em meio ao conflito.
O contato com a miséria do sertão teve impacto profundo sobre Prestes e outros integrantes da Coluna. A marcha revelou os limites das ideias liberais defendidas pelos tenentes, que não conseguiam responder às desigualdades estruturais do campo brasileiro. Essa experiência foi decisiva para a radicalização política de Prestes nos anos seguintes, levando-o a defender transformações mais profundas na sociedade brasileira.
A passagem da Coluna Prestes pelo Norte de Minas deixou um legado ambíguo: ao mesmo tempo em que gerou medo e sofrimento, também revelou as contradições do Estado brasileiro e a violência praticada em nome da “ordem”. Para a História, esse episódio ajuda a compreender a distância entre o Brasil oficial e o Brasil profundo, além da importância da memória das populações locais.
Estudar esse tema hoje, à luz da Base Nacional Comum Curricular (BNCC: EF09HI et al. e EM13CHS et. al.), permite desenvolver a análise crítica das fontes, compreender diferentes perspectivas sobre o passado e refletir sobre cidadania, poder e justiça social. A Coluna Prestes, ao cruzar os gerais de Minas, não apenas fez história: provocou perguntas que seguem atuais sobre democracia, desigualdade e participação popular.























































































































































