Tag: Levon Nascimento

  • O que foi o tempo dos revoltosos no Norte de Minas?

    O que foi o tempo dos revoltosos no Norte de Minas?

    Em abril de 2026, será lançado o livro A COLUNA PRESTES NOS GERAIS DE MINAS, revisitando este grande fato histórico que teve o Alto Rio Pardo como palco há cem anos

    Por Levon Nascimento

    A Coluna Prestes foi um dos acontecimentos políticos e militares mais marcantes da história do Brasil republicano. Entre 1924 e 1927, um grupo de jovens oficiais do Exército percorreu cerca de 25 mil quilômetros pelo interior do país, denunciando as injustiças da Primeira República, como a fraude eleitoral, o poder dos coronéis e a ausência de políticas públicas para a população pobre. Em abril de 1926, essa marcha chegou ao Norte de Minas Gerais, deixando marcas profundas na memória da região.

    O Brasil da década de 1920 era governado por elites agrárias que se revezavam no poder, principalmente São Paulo e Minas Gerais, no chamado sistema do “café com leite”. Nesse contexto, a maioria da população não tinha direito ao voto e vivia sob forte controle político local. O movimento conhecido como tenentismo surgiu como reação a essa realidade, defendendo reformas como o voto secreto, a moralização da política e a ampliação da educação pública.

    Ao entrar no Norte de Minas, a Coluna Prestes encontrou um sertão marcado pela pobreza, pelo isolamento e pela dominação dos grandes proprietários de terra. Para a população local, pouco integrada à política nacional, a chegada dos “revoltosos” foi cercada de medo e incerteza. Muitas famílias abandonaram suas casas e se esconderam no mato, sem distinguir claramente quem eram os rebeldes e quem eram as tropas do governo.

    Um aspecto importante desse episódio foi a violência praticada pelas tropas legalistas, enviadas pelo governo federal para perseguir a Coluna. Em diversos relatos históricos e de memória oral, essas forças aparecem como responsáveis por saques, espancamentos e destruição de propriedades, o que aumentou o sofrimento da população sertaneja. Essa situação contribuiu para a confusão generalizada e para o trauma coletivo vivido na região.

    A Coluna Prestes, por sua vez, adotava uma disciplina rígida e, em muitos casos, buscava negociar com comerciantes e moradores locais para obter alimentos e suprimentos. Embora tenha recorrido a requisições forçadas, há registros de tentativas de pagamento e de respeito às comunidades, o que diferencia sua atuação daquela das tropas governistas em vários momentos.

    No Norte de Minas Gerais, a Coluna realizou uma de suas manobras militares mais conhecidas: o chamado “Laço Húngaro”. Essa estratégia permitiu que os revoltosos enganassem as forças que os perseguiam, escapando do cerco e retornando à Bahia. A manobra demonstra a capacidade estratégica de Luiz Carlos Prestes e explica por que a Coluna nunca foi derrotada militarmente.

    Um episódio simbólico ocorreu em Taiobeiras, então chamada Bom Jardim das Taiobeiras. Ali, o comerciante João Rêgo dialogou com os revoltosos e conseguiu proteger a comunidade por meio da negociação. Segundo a memória local, Luiz Carlos Prestes teria deixado moedas como forma de pagamento pelos produtos retirados da loja, gesto que ficou marcado como sinal de respeito e reciprocidade em meio ao conflito.

    O contato com a miséria do sertão teve impacto profundo sobre Prestes e outros integrantes da Coluna. A marcha revelou os limites das ideias liberais defendidas pelos tenentes, que não conseguiam responder às desigualdades estruturais do campo brasileiro. Essa experiência foi decisiva para a radicalização política de Prestes nos anos seguintes, levando-o a defender transformações mais profundas na sociedade brasileira.

    A passagem da Coluna Prestes pelo Norte de Minas deixou um legado ambíguo: ao mesmo tempo em que gerou medo e sofrimento, também revelou as contradições do Estado brasileiro e a violência praticada em nome da “ordem”. Para a História, esse episódio ajuda a compreender a distância entre o Brasil oficial e o Brasil profundo, além da importância da memória das populações locais.

    Estudar esse tema hoje, à luz da Base Nacional Comum Curricular (BNCC: EF09HI et al. e EM13CHS et. al.), permite desenvolver a análise crítica das fontes, compreender diferentes perspectivas sobre o passado e refletir sobre cidadania, poder e justiça social. A Coluna Prestes, ao cruzar os gerais de Minas, não apenas fez história: provocou perguntas que seguem atuais sobre democracia, desigualdade e participação popular.

  • A Coluna Prestes nos Gerais de Minas

    A Coluna Prestes nos Gerais de Minas

    Lançamento em abril de 2026 – Paco Editorial

    Em abril de 2026, o Brasil celebra o centenário da passagem da Coluna Prestes pelo Norte de Minas Gerais — e também o lançamento de uma das obras mais aguardadas sobre o tema: A Coluna Prestes nos Gerais de Minas, organizada pelo historiador e professor Levon Nascimento, de Taiobeiras (MG), pela Paco Editorial. O livro reúne 15 autores e autoras em uma coletânea que renova a historiografia brasileira ao deslocar o eixo narrativo dos grandes centros urbanos para o sertão mineiro e baiano — o território do chamado “Brasil profundo”, onde a Coluna viveu, lutou e foi lembrada.

    Com prefácio de padre João Carlos Siqueira e posfácio de Milton Pena Santiago, a obra está dividida em oito capítulos temáticos que abordam, de modo multidisciplinar, as dimensões política, social, militar, educativa e simbólica do movimento tenentista. Participam da coletânea os pesquisadores e pesquisadoras Levon Nascimento, Márcia Sant’Ana Lima Barreto, Lídio Barreto Filho, Luiz Eduardo de Souza Pinto, Pedro Abder Nunes Raim Ramos, Sidney Batista Azevedo, Fabiano Alves Pereira, Vladimir Mendes Patrício, Joandina Maria de Carvalho, Maria de Fátima Magalhães Mariani, Leleco Pimentel, Silvânia Alves de Freitas, Mônica Rodrigues Teixeira, Padre João Carlos Siqueira e Milton Pena Santiago, formando um mosaico de vozes e perspectivas que se complementam.

    A coletânea articula história oral, micro-história, história regional e análise documental, explorando a tensão entre a propaganda oficial do governo Artur Bernardes — que retratava os revoltosos como “bandidos e sediciosos” — e as memórias transmitidas de geração em geração nas comunidades do Alto Rio Pardo, de Salinas, Taiobeiras e Condeúba. Como explica o organizador, a Coluna não é tratada como um mito distante, mas como uma experiência concreta vivida por famílias sertanejas, marcadas pelo medo, pela negociação e pela solidariedade popular. O livro resgata episódios emblemáticos, como o do comerciante João Rêgo, que negociou a paz em Taiobeiras, e a célebre “Manobra do Laço Húngaro”, exemplo da inteligência tática de Luiz Carlos Prestes e de sua tropa.

    Entre as contribuições, destaca-se o capítulo de Levon Nascimento, que combina pesquisa documental e memória familiar para reconstituir a passagem da Coluna pelo Norte de Minas. Márcia Sant’Ana Lima Barreto e Lídio Barreto Filho exploram o contexto político da Primeira República e as origens do tenentismo, enquanto Luiz Eduardo de Souza Pinto e Pedro Abder Nunes Raim Ramos traçam uma instigante biografia política de Prestes, evitando a hagiografia e revelando suas contradições humanas e ideológicas. Fabiano Alves Pereira investiga a dimensão militar e a mobilidade como método, e Sidney Batista Azevedo analisa o coronelismo mineiro e a propaganda legalista que tentou criminalizar os revoltosos.

    Na fronteira entre história e memória, Joandina Maria de Carvalho e Maria de Fátima Magalhães Mariani estudam a “Bahia próxima”, registrando narrativas orais que revelam como o povo reinterpretou a Coluna ao longo das décadas. Vladimir Mendes Patrício questiona “como o povo viu a Coluna Prestes”, propondo uma história “vista de baixo”, enquanto Leleco Pimentel, Silvânia Alves de Freitas e Mônica Rodrigues Teixeira investigam a surpreendente “Pedagogia da Coluna” — as escolas itinerantes, os diálogos formativos e o ideal educativo que aproximam o movimento das futuras teorias de Paulo Freire e da educação popular libertadora.

    O livro encerra-se com um posfácio reflexivo de Milton Pena Santiago, que propõe uma leitura reconciliadora da história: entre academia e sabedoria popular, entre o Brasil das capitais e o Brasil dos sertões. A Coluna Prestes nos Gerais de Minas é, assim, mais do que um registro histórico — é um exercício de escuta e reparação simbólica. Cada capítulo reafirma que a memória não é ruína, mas construção viva; e que o sertão, longe de ser apenas cenário, é sujeito histórico essencial na formação da nação.

    Com uma linguagem envolvente, acessível e sensível, a obra organizada por Levon Nascimento convida o leitor a revisitar um dos episódios mais fascinantes da história brasileira, unindo rigor científico e emoção narrativa. Em meio ao centenário da Coluna Prestes, o livro surge como um tributo à resistência, à justiça e à esperança — valores que continuam atravessando os Gerais de Minas e inspirando novas gerações de leitores, educadores e sonhadores.

  • Taiobeiras: entre avanços e desigualdades no coração do Alto Rio Pardo

    Taiobeiras: entre avanços e desigualdades no coração do Alto Rio Pardo

    Texto de Levon Nascimento, produzido a partir da observação e análise de dados disponíveis no IBGE Cidades

    Taiobeiras, localizada no Norte de Minas Gerais, apresenta um perfil socioeconômico que combina avanços significativos com limitações estruturais persistentes. Com população estimada em 34.392 habitantes em 2024, segundo o IBGE, e Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) de 0,670 em 2010, o município alcançou melhoria contínua nas últimas décadas, especialmente em longevidade (0,815), mas mantém fragilidades nos componentes educação (0,578) e renda (0,639) (IBGE, 2010). Essa discrepância reflete a combinação de um sistema de ensino básico com bons índices recentes — taxa de escolarização de 6 a 14 anos próxima de 99% e IDEB de 6,8 nos anos iniciais (2019) — com o baixo nível educacional histórico da população adulta.

    No campo econômico, o Produto Interno Bruto per capita, de R$ 16.085,74 em 2021 (IBGE), é superior ao de parte dos municípios da região imediata de Salinas, mas inferior à média da região intermediária de Montes Claros e ao patamar estadual. A economia municipal é fortemente concentrada em serviços e na administração pública, que juntos respondem por cerca de 80% do valor adicionado bruto, enquanto a indústria é incipiente e a agropecuária, embora presente, tem baixo valor agregado. Essa estrutura produtiva, associada à elevada dependência de transferências governamentais, limita a autonomia fiscal e a capacidade de atração de investimentos privados, restringindo as oportunidades de trabalho qualificado e incentivando a migração de jovens.

    Os indicadores sociais expõem desafios ainda mais urgentes. A mortalidade infantil, de 14,42 óbitos por mil nascidos vivos em 2023, permanece acima da média nacional e supera a de cidades vizinhas como Salinas, que registra aproximadamente 5,8 (IBGE, 2023). Embora o município tenha ampliado sua capacidade hospitalar, com destaque para o Hospital Santo Antônio e sua inclusão na Rede de Atendimento ao AVC, a persistência de taxas elevadas indica que problemas estruturais, como a cobertura incompleta de saneamento básico, continuam afetando a saúde pública. Em 2010, apenas 16,1% dos domicílios possuíam esgotamento sanitário adequado; dados mais recentes sugerem avanço para cerca de 47% (IBGE, 2022), ainda insuficiente para garantir padrões adequados de salubridade.

    A comparação com a região imediata reforça a necessidade de políticas estruturantes. Apesar de Taiobeiras apresentar desempenho econômico ligeiramente superior ao de parte dos municípios vizinhos, seus indicadores sociais revelam desigualdades e vulnerabilidades comparáveis ou até mais acentuadas. A falta de diversificação produtiva e a insuficiência de políticas de desenvolvimento humano que articulem educação acadêmica de jovens e adultos, qualificação profissional e infraestrutura básica impedem que o município converta seu papel de polo regional em ganhos sustentáveis de qualidade de vida.

    Conclui-se que Taiobeiras enfrenta um paradoxo: mesmo reunindo condições para liderar o desenvolvimento da microrregião de Salinas, ainda convive com déficits estruturais que comprometem seu potencial. Investimentos prioritários em saneamento, atenção primária à saúde, diversificação econômica e qualificação educacional são essenciais para romper o ciclo de dependência fiscal e de baixo dinamismo econômico. Sem enfrentar essas fragilidades de forma integrada e planejada, o município continuará oscilando entre avanços pontuais e limitações crônicas, incapaz de alcançar níveis mais elevados de desenvolvimento humano e equidade social.

    Referências

    INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Cidades@: Taiobeiras – panorama. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mg/taiobeiras/panorama. Acesso em: 6 jul. 2025.

    INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Pesquisa de Informações Básicas Municipais – Taiobeiras. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mg/taiobeiras/pesquisa/19/143491. Acesso em: 6 jul. 2025.

    INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Produto Interno Bruto dos Municípios – Taiobeiras. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mg/taiobeiras/pesquisa/10102/122229. Acesso em: 7 jul. 2025.

    INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Indicadores de Saneamento – Taiobeiras. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mg/taiobeiras/pesquisa/24/76693. Acesso em: 8 jul. 2025.

    INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Indicadores de Saúde – Taiobeiras. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mg/taiobeiras/pesquisa/21/28134?ano=2023. Acesso em: 8 jul. 2025.

    INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Mapa municipal de Taiobeiras – MG. Disponível em: https://geoftp.ibge.gov.br/cartas_e_mapas/mapas_municipais/colecao_de_mapas_municipais/2022/MG/taiobeiras/A0_3168002_MM.pdf. Acesso em: 9 jul. 2025.

  • O livro Memorial da Juventude de Taiobeiras (2010)

    O livro Memorial da Juventude de Taiobeiras (2010)

    Memorial da Juventude de Taiobeiras (NASCIMENTO; NASCIMENTO, 2010) é uma obra que celebra a trajetória transformadora dos jovens taiobeirenses, tecendo memória afetiva e política de suas lutas desde a década de 1970. Mais do que um registro histórico, o livro é um tributo às gerações que “não aceitaram ser tratadas como mera mercadoria” e “ousaram construir o futuro no coletivo” (p. 5), superando individualismos e preconceitos. Taiobeiras, município mineiro marcado pela cultura sertaneja e pela resistência, revela em suas páginas uma juventude “sonhadora, capaz e atuante” (p. 13), cuja identidade se forjou na luta por justiça social e expressão cultural.

    A obra destaca a emergência de grupos pioneiros como O Beija-flor (1974), dedicado a campanhas solidárias, o JUVITA (1976), inspirado na caridade vicentina, e o JUAC (1978), focado em ação comunitária no bairro Vila Formosa. Essas iniciativas pavimentaram o caminho para a chegada da Pastoral da Juventude (PJ) em 1987, um marco que amplificou o protagonismo juvenil. Sob a PJ, os jovens transcenderam o assistencialismo, desenvolvendo uma “formação social e política” (p. 27) articulada em cinco dimensões: afetividade, espiritualidade, cidadania, sociabilidade e ação concreta. Surgiram dezenas de grupos urbanos e rurais, como o JULEST (1992), que adotou a pedagogia freireana para formar consciência crítica, e a Tri-União (1992), aliança entre coletivos para atuar em bairros periféricos.

    Dia Nacional da Juventude (DNJ), celebrado anualmente desde 1989, tornou-se palco de reivindicações e expressões culturais. Temas como “Juventude, cadê a Educação?” (1989), “Juventude: do nosso suor, a riqueza de quem?” (1990) e “Ouça o Eco(logia) da Vida” (1992) (p. 33, 35, 42) ecoaram nas ruas de Taiobeiras, mobilizando a comunidade para causas urgentes. A Campanha da Carriola, ação perene de arrecadação de alimentos e roupas, e o Grito dos Excluídos, manifestação contra as desigualdades no 7 de setembro, simbolizam o engajamento contínuo da juventude, que “soube ‘gritar’ pelos direitos de todos” (p. 80). Intercâmbios com cidades vizinhas fortaleceram redes de colaboração, materializando o “conceito de Rede de Juventude” (p. 82) na prática.

    A cultura emerge como eixo vital dessa história. Projetos como a Banda Divina Providência, com repertório que honrava as raízes do Norte de Minas e Vale do Jequitinhonha, e o Coral Cantarte, fruto de um trabalho musical sistemático na Escola Tancredo Neves, demonstram como a arte foi instrumento de emancipação. O projeto Cantarte, premiado pelo edital Microprojetos Mais Cultura, capacitou jovens em música entre 2010, reforçando que “educar é mais do que apenas ensinar a ler e a escrever” (p. 103). Poesias produzidas pelos alunos, como “A dor da rejeição” (p. 124) e “Canção do coração” (p. 125), revelam a sensibilidade gerada nesse processo.

    Textos reflexivos encerram a obra com chamados à autonomia e ao combate ao preconceito. Levon do Nascimento argumenta que o jovem autônomo é aquele que “consegue unir o conhecimento […] com a capacidade de criar e transformar” (p. 128), recusando-se a ser “marionete dos sistemas econômico e político”. Já o ensaio “Conceito e preconceito” (p. 129-130) alerta que apenas o “verdadeiro contato solidário” desfaz estereótipos, convidando a uma ética do encontro.

    Este memorial, portanto, é um testemunho vibrante de como a juventude de Taiobeiras “teceu sonhos” (p. 64) e transformou dor em esperança, deixando um legado indelével: a certeza de que, nas palavras do poeta Zé Vicente, “miremos bem no espelho da memória. Faremos jovem e linda nossa história” (p. 9).


    Referência:
    NASCIMENTO, Flaviana Costa Sena; NASCIMENTO, Levon. Memorial da Juventude de Taiobeiras. Belo Horizonte: Editora O Lutador, 2010.

  • Educação popular e resistência no Alto Rio Pardo são tema de tese de doutorado defendida na UFG

    Educação popular e resistência no Alto Rio Pardo são tema de tese de doutorado defendida na UFG

    Tese de Érika Fernanda Pereira de Souza investiga processos formativos populares em territórios do Norte de Minas e revela como a educação foi fundamental na construção da organização social camponesa

    Foi defendida no final de 2024, na Universidade Federal de Goiás (UFG), a tese de doutorado da educadora Érika Fernanda Pereira de Souza, intitulada “Educação Popular e Organização Social: Processos Formativos e Resistência Popular no Território Alto Rio Pardo – MG”. Fruto de uma extensa pesquisa de campo e análise documental, o estudo mostra como, entre os anos 1970 e 2019, diversas experiências de educação popular contribuíram decisivamente para a formação política e a organização coletiva de camponeses, geraizeiros e comunidades tradicionais na região norte-mineira.

    A pesquisa, orientada pelo professor José Paulo Pietrafesa, insere-se na linha de Trabalho, Educação e Movimentos Sociais do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE/UFG). Com base em referenciais teóricos marxistas e freireanos, a tese analisa a constituição histórica dos conflitos no território do Alto Rio Pardo, intensificados pela expansão do capital agrário e da monocultura de eucalipto, e busca compreender de que maneira os processos formativos populares se articularam à resistência social e política das populações locais.

    Dois eixos centrais atravessam o trabalho: a atuação das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e o Programa de Formação do Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas (CAA/NM). Ambas as experiências foram fundamentais para criar espaços de formação política, consciência crítica e engajamento em práticas coletivas de enfrentamento às expropriações de terra, degradação ambiental e às violações de direitos das populações tradicionais.

    A autora propõe o conceito de “Pedagogia do Balaio” como forma de designar a metodologia comunitária adotada pelas CEBs — inspirada em práticas que valorizam a partilha, a escuta e a construção coletiva do saber, em oposição à lógica individualizante do capital. Em contraponto, apresenta também a noção de “Pedagogia da Porrada”, expressão atribuída às formações desenvolvidas em contextos de conflito direto, especialmente sob a mediação da Comissão Pastoral da Terra (CPT), quando comunidades precisavam decidir entre resistir ou recuar frente à ofensiva do agronegócio e da mineração.

    Para construir a narrativa, Érika realizou dezenas de entrevistas com sujeitos que vivenciaram esses processos formativos, como educadores populares, lideranças sindicais, agentes pastorais, membros de comunidades camponesas e egressos do Curso de Formação do CAA/NM. Entre os entrevistados estão nomes como Paulo Faccion (CPT), Mirian Nogueira (CAA/NM), Valdir Dias, Aurindo Ribeiro, Udilésio Oliveira, além do professor e pesquisador Levon Nascimento, que colaborou cedendo parte de seu acervo pessoal de cartilhas usadas nas formações das CEBs. Esses documentos se revelaram fontes preciosas para a reconstituição das metodologias pedagógicas e dos conteúdos debatidos ao longo das décadas.

    A tese apresenta ainda um panorama da história agrária do Norte de Minas, com especial atenção à formação do campesinato geraizeiro, às práticas de solidariedade territorial e às conquistas recentes, como o Projeto de Assentamento Agroextrativista Veredas Vivas e a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Nascentes Geraizeiras, ambas frutos da organização popular. Ao mesmo tempo, evidencia o esvaziamento das práticas formativas nas últimas décadas como um dos entraves à continuidade da ação coletiva no território, em um contexto de avanço da racionalidade neoliberal e desmonte de políticas públicas voltadas para o campo.

    Por fim, a pesquisadora destaca que compreender a história das formações populares no Alto Rio Pardo é essencial para pensar alternativas à crise da democracia e ao modelo predatório de desenvolvimento que marca a região. A tese se soma ao esforço de construção de uma memória social insurgente e de afirmação de práticas educativas comprometidas com a transformação social, a soberania dos povos do Cerrado e a justiça socioambiental.

  • Lançamento do livro “Quando o chão e o céu se encontram” reúne educadores, agentes culturais e estudantes em noite de emoção e reflexão em Taiobeiras

    Lançamento do livro “Quando o chão e o céu se encontram” reúne educadores, agentes culturais e estudantes em noite de emoção e reflexão em Taiobeiras

    Na noite de 18 de junho de 2025, a Biblioteca Pública Zenilde Mota Maia, em Taiobeiras (MG), foi palco de um encontro que uniu literatura, memória, espiritualidade e compromisso social. Entre 19h e 21h30, aconteceu o lançamento do livro “Quando o chão e o céu se encontram”, de Levon Nascimento, publicado pela 3i Editora, com expressiva participação de educadores, agentes políticos e culturais, jovens, estudantes, amigos e familiares do autor.

    A escolha da data não foi por acaso: o evento celebrou os 10 anos da publicação da encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco, um dos principais inspiradores da obra. O apoio cultural veio do coletivo Juntos Para Servir, que congrega os mandatos do Deputado Federal Padre João (PT/MG) e do Deputado Estadual Leleco Pimentel (PT/MG).

    A cerimônia foi conduzida com leveza e emoção pela servidora da própria Biblioteca, Eliana Alves, que atuou como mestre de cerimônias. Diversas homenagens marcaram a noite, entre elas à memória de Anelza Rita de Miranda, bibliotecária que por décadas cuidou com zelo do espaço cultural que agora sediava o lançamento, e a Frei Jucundiano de Kok, primeiro pároco de Taiobeiras e personagem destacado nas páginas do livro. Também foram recordados o Papa Francisco e sua luta por uma Ecologia Integral, uma das linhas centrais da obra.

    O autor, Levon Nascimento, trouxe ao público um discurso marcado pela emoção e pela denúncia social, reforçando o caráter engajado do livro, que transita entre memórias do sertão mineiro, crítica ao modelo econômico destrutivo e reflexões sobre espiritualidade libertadora.

    Durante a cerimônia, convidados fizeram leituras de trechos da obra, apresentando ao público personagens como o próprio Frei Jucundiano, as educadoras Duca Queiroz e Célia Egídio, o escritor Milton Santiago, a declamadora Nair Freitas, o cronista Vlade Patrício, o ativista Uenio Thuary e o padre Júlio Lancellotti, além de reflexões sobre o meio ambiente, a crise climática, os desafios políticos contemporâneos e a resistência dos povos tradicionais do Norte de Minas, como os geraizeiros.

    Com uma linguagem que entrelaça poesia, história, espiritualidade e análise social, Levon propõe em “Quando o chão e o céu se encontram” uma leitura comprometida com a vida, com os pobres e com o futuro da Casa Comum. A obra é um convite ao diálogo entre fé e política, entre o chão sertanejo e o céu das utopias possíveis.

    Ao final do evento, o autor agradeceu aos presentes, aos apoiadores culturais e à equipe da Biblioteca Pública de Taiobeiras, além de reforçar o chamado à esperança, à resistência e ao cuidado com as pessoas e com o planeta.

    Laudato Si’, meu Senhor! — como resumiu Levon, encerrando a noite com um agradecimento coletivo.

  • Novo livro de Levon e o 10° ano da Laudato Si’, do Papa Francisco

    Novo livro de Levon e o 10° ano da Laudato Si’, do Papa Francisco

    O novo livro de Levon Nascimento, Quando o chão e o céu se encontram (3i Editora, 2025), a ser lançado em 18 de junho, às 19h, na Biblioteca Pública de Taiobeiras, conversa diretamente com os 10 anos da encíclica Laudato Si’ (2015), do Papa Francisco. Mais que uma homenagem, a obra atualiza e encarna os princípios da ecologia integral, conectando fé, justiça e cuidado com a vida em três caminhos principais:

    1. Ecologia integral como base de tudo

    Inspirado na ideia de que tudo está interligado — pessoas, natureza, espiritualidade — Levon propõe uma visão em que cuidar do planeta é também lutar por justiça social. Capítulos como “A Quaresma e a Campanha da Fraternidade 2025: um chamado à conversão ecológica” e “Tudo está interligado” mostram como o consumismo, o agroextrativismo predatório e o descarte de vidas humanas fazem parte do mesmo sistema que destrói a Terra. Aqui, ecoa a crítica do Papa ao “paradigma tecnocrático” e à cultura do descarte.

    2. Espiritualidade que pisa o chão da realidade

    A espiritualidade que o livro propõe não é desconectada da vida real. É encarnada — feita de gestos concretos, como os de Frei Jucundiano de Kok, que dedicou sua vida ao sertão mineiro, e de Padre Júlio Lancellotti, símbolo de resistência nas periferias. A peça sobre Frei Jucundiano, por exemplo, mostra como a simplicidade franciscana e o cuidado com os pobres são formas reais de viver a fé. O livro também provoca: “É possível salvar as almas sem se importar com os corpos?” — uma pergunta que cutuca qualquer fé que fuja da responsabilidade social.

    3. Brasil no centro: denúncia e esperança

    Levon traz a crise climática global para o nosso quintal. Fala das queimadas no cerrado, da violência contra os povos geraizeiros, da exploração do Alto Rio Pardo. E vai além: denuncia o ecofascismo e o tecnofeudalismo, nomes difíceis que representam sistemas que concentram poder e espalham injustiça. O autor mostra que lutar por justiça ambiental no Brasil é também lutar pela vida de quem mais sofre. E reafirma o legado do Papa Francisco: fé, ecologia e fraternidade como farol em tempos sombrios.

    Quando o chão e o céu se encontram é mais do que um livro. É um grito de esperança e um chamado à ação. Dez anos depois da Laudato Si’, Levon Nascimento mostra que os ensinamentos da encíclica estão mais vivos do que nunca — não como teoria, mas como prática que nasce no sertão, nas lutas populares e na coragem de quem insiste em cuidar da Casa Comum.

  • Nascimento: origens e usos de um sobrenome brasileiro

    Nascimento: origens e usos de um sobrenome brasileiro

    Eu sempre me interessei pela história do sobrenome Nascimento, especialmente porque meu nome é Levon Nascimento. Tem, obviamente, origem em Portugal e surgiu como uma homenagem religiosa ao nascimento de Jesus Cristo, sendo utilizado originalmente para batizar crianças nascidas em 25 de dezembro. Essa prática, enraizada na etimologia latina nascere (“nascer”), acabou se difundindo entre diversas famílias, independentemente de laços consanguíneos, e consolidando-se como um marcador cultural e religioso.

    Acompanhando a expansão do Império Português, o sobrenome foi levado para as colônias – particularmente ao Brasil – onde as práticas onomásticas se transformaram em instrumentos de identificação e domínio. No ambiente colonial brasileiro, a imposição de nomes cristãos ocorreu de forma forçada, especialmente no processo de batismo dos africanos escravizados. Essa imposição eliminava suas identidades originais e substituía-as por nomes que reforçavam a dominação cultural.

    A complexidade histórica do sobrenome Nascimento ficou ainda mais evidente ao constatar que, mesmo após a abolição, os descendentes de africanos escravizados mantiveram esses sobrenomes, carregando uma herança ambígua que mistura opressão e resistência. Assim, percebo que o Nascimento não é exclusivo de famílias de origem europeia, mas também faz parte da identidade afro-brasileira, sendo um legado que revela tanto a tradição religiosa quanto os mecanismos de controle colonial.

    Meu interesse pessoal nesse assunto é ainda mais intenso, pois meu pai e minha mãe pertencem, individualmente, a famílias que adotaram o sobrenome Nascimento – sem parentesco pré-nupcial entre si – e ambos são de origem afro-indígena-lusa na Bahia. Essa singularidade em minha linhagem, com apenas um sobrenome, diferentemente do duplo que identifica a maioria das pessoas no Brasil, me impulsiona, juntamente com o desejo de compreender os processos históricos fundantes, a explorar os meandros culturais que moldaram minha identidade familiar.

    Em síntese, o sobrenome Nascimento representa uma trajetória onde devoção, dominação e resistência se entrelaçam. Ao revisitar sua origem, desde os rituais de batismo em Portugal até a imposição do nome nos processos de escravização e sua perpetuação na sociedade brasileira, sinto que descubro parte da minha própria história. Essa reflexão pessoal não só valoriza a memória dos meus antepassados, mas também me convida a compreender as complexidades das identidades formadas em meio a fluxos culturais e de dominação tão diversos.

    Referências

    DICIONÁRIO DE NOMES PRÓPRIOS. Nascimento. Disponível em: https://www.dicionariodenomesproprios.com.br/nascimento/. Acesso em: 8 abr. 2025.

    FOREBARS. Nascimento – Forebears. Disponível em: https://forebears.io/pt/surnames/nascimento. Acesso em: 8 abr. 2025.

    SOARES, Edson; PATRÍCIO, Pétrus David Sousa. Renomear para recomeçar: lógicas onomásticas no pós-abolição. DADOS – Revista de Ciências Sociais, Rio de Janeiro, v. 61, n. 2, p. 311-340, 2018. Acesso em: 8 abr. 2025.

  • A retomada do emprego formal no Brasil sob o 3º Governo Lula

    A retomada do emprego formal no Brasil sob o 3º Governo Lula

    Os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED), consolidados entre 2023 e 2024, revelam um cenário promissor para o mercado de trabalho brasileiro: 2,1 milhões de empregos formais criados nesse período, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego. Esse resultado, que inclui uma média mensal de 87,5 mil vagas com carteira assinada, reflete a recuperação econômica sustentada e a eficácia de políticas públicas focadas na geração de emprego, na reindustrialização e na redução das desigualdades regionais.

    Em 2023, primeiro ano do terceiro governo Lula, o país gerou 1,483 milhão de postos formais, o melhor desempenho desde 2010, excluindo o ano atípico de 2021 (pós-flexibilização da pandemia). Em 2024, apesar de um contexto global desacelerado, o Brasil manteve a trajetória positiva, com 618 mil vagas criadas apenas nos primeiros sete meses (até julho), projetando um total anual próximo a 1 milhão. Tais números consolidam uma reversão clara da estagnação do período 2016-2022, quando a taxa média de desemprego atingiu 12,5% e o emprego formal cresceu apenas 0,7% ao ano.

    A análise setorial mostra avanços em áreas prioritárias para o governo. A indústria de transformação, por exemplo, registrou 192 mil novos empregos em 2023, o maior saldo desde 2013, graças a incentivos fiscais e ao Programa Brasil Produtivo, que modernizou parques industriais. O setor de serviços, responsável por 60% das contratações, expandiu-se com políticas de crédito a micro e pequenas empresas, como o Simples Nacional Reforçado. Já a construção civil, impulsionada pelo Programa Minha Casa, Minha Vida e por obras de infraestrutura em regiões periféricas, gerou 122 mil vagas em 2023.

    Regionalmente, destaca-se o Nordeste, que concentrou 23% das contratações formais em 2023 (340 mil empregos), impulsionado por investimentos em energia eólica e solar e pelo retorno de obras como a Transposição do São Francisco. A região Norte, por sua vez, teve crescimento de 9% no emprego formal em 2024, vinculado ao plano Amazônia Sustentável, que combina preservação ambiental e geração de renda.

    O governo Lula priorizou a recomposição de políticas abandonadas nos anos anteriores, como o fortalecimento do Salário Mínimo (reajustado acima da inflação em 2023 e 2024) e a ampliação do Bolsa Família, que retirou 4 milhões de pessoas da extrema pobreza e estimulou o consumo em economias locais. Além disso, a retomada de investimentos públicos em infraestrutura (R$ 300 bilhões previstos no PPI 2023-2026) e a reativação de câmaras setoriais com sindicatos e empresários foram decisivas para reaquecer a confiança e o emprego.

    Programas como Qualifica Brasil, que capacitou 1,2 milhão de trabalhadores para setores tecnológicos entre 2023 e 2024, e o Pró-Indústria, que destinou R$ 50 bilhões à inovação industrial, mostram que é possível conciliar produtividade e inclusão.

    Os números do CAGED comprovam que, quando o Estado atua com planejamento e foco social, o mercado de trabalho responde. Para milhões de brasileiros, esses empregos significam acesso a direitos trabalhistas, previdência e dignidade. O terceiro Governo Lula demonstra que a retomada do desenvolvimento passa necessariamente pela valorização do trabalho e pela redução das assimetrias regionais. O caminho é longo, mas os dados recentes indicam que o Brasil está, finalmente, recalculando sua rota.


    Fontes consultadas

    • Ministério do Trabalho e Emprego: Relatórios do CAGED (2023-2024).
    • IBGE: Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) – 2023-2024.
    • Portal da Transparência: Investimentos do PPI (Plano Parcerias e Investimentos).
    • Políticas públicas citadas: Programas federais em vigor no período (ex: Brasil Produtivo, Qualifica Brasil).
  • Taiobeiras 2025: o futuro é agora

    Taiobeiras 2025: o futuro é agora

    * Levon Nascimento

    Em 2020, tive a ousadia de apresentar meu nome como candidato a prefeito de Taiobeiras. Digo ousadia porque se tratava de uma utopia, sobretudo ante as forças econômicas e sociais que polarizavam o debate eleitoral.  Naquele momento, sob a coordenação de campanha de Romário Fabri Rohm, Tia Kêu do Sindicato e eu apresentamos ao povo de Taiobeiras um programa de governo que nasceu da escuta atenta das comunidades, dos trabalhadores e trabalhadoras, da juventude e dos mais necessitados. Não era um projeto de poder pelo poder, mas um chamado à construção coletiva de uma Taiobeiras mais justa, mais humana e mais inclusiva. Cinco anos depois, muito do que propusemos continua sendo urgente e necessário. E faço questão de sinalizar aquelas apostas neste texto presente. Não como revanchismo, pois o que deve prevalecer é a vontade do eleitor; mas como testemunho histórico de nossa luta constante e da participação cidadã que sempre caracterizou nossas vidas. Se o tempo mudou, nossa responsabilidade permanece a mesma: adaptar nossas ideias à realidade de 2025 e seguir lutando por um município que pertença, de fato, ao seu povo.

    Educação Libertadora: do sonho à construção

    Em 2020, defendemos a valorização da educação como base de um projeto de transformação social. Hoje, em 2025, essa pauta se torna ainda mais essencial diante das mudanças na economia e no mercado de trabalho. Precisamos fortalecer a Educação do Campo, garantir que as crianças e jovens do meio rural tenham acesso à aprendizagem sem precisar abandonar suas comunidades. A ampliação da educação em tempo integral continua sendo uma meta prioritária, assim como a oferta de cursos técnicos e tecnológicos alinhados às novas demandas econômicas. Inaugurar de fato a Escola Técnica de Taiobeiras, preferencialmente como o campus de uma instituição federal de ensino, deve ser uma luta de todos.

    O Programa Psicólogo Presente, que propusemos para atuar nas escolas e cuidar da saúde mental dos estudantes, é hoje uma necessidade gritante diante dos desafios emocionais que a juventude enfrenta. A ampliação da estrutura física das escolas, com bibliotecas e espaços culturais acessíveis, também precisa sair do papel e se tornar realidade.

    Saúde: direito fundamental, não mercadoria

    A pandemia global dos últimos anos mostrou, de forma incontestável, que um sistema de saúde robusto e universal é uma questão de sobrevivência. Em 2020, defendemos a ampliação dos serviços do SUS no município, com 100% de cobertura dos PSFs e acesso digno a exames e medicamentos.

    Nosso compromisso com a saúde mental também precisa se aprofundar. O Programa Vivo Todo Dia!, que desenhamos para apoiar jovens e adultos em situação de dependência química, deve ser fortalecido com novos centros de atendimento e políticas de prevenção. A ampliação da saúde preventiva, com maior foco em nutrição, práticas integrativas e acompanhamento contínuo, é um caminho necessário para um município mais saudável.

    Economia Popular e Agricultura Familiar: trabalho digno para todos

    A proposta que apresentamos há cinco anos para fortalecer a agricultura familiar e a economia do conhecimento segue mais atual do que nunca. O desenvolvimento econômico de Taiobeiras passa pela valorização da produção local e pelo incentivo a novas tecnologias que agreguem valor ao que produzimos.

    O Programa de Horticultura Popular, que defendemos para garantir soberania alimentar às famílias em situação de vulnerabilidade, pode ser expandido em 2025 com o uso de novas técnicas agroecológicas e incentivo ao cooperativismo. O Circuito Turístico-Cultural dos Gerais, pensado para impulsionar a cultura e o turismo sustentável na região, deve sair do papel para colocar Taiobeiras no mapa das cidades que valorizam sua identidade e seu povo.

    Segurança Cidadã e Direitos Humanos: uma nova abordagem

    A segurança pública nunca pode ser reduzida à repressão. Nossa visão, desde 2020, é a de uma segurança cidadã, baseada na prevenção e na inclusão social. O Projeto Guardiã Maria da Penha, para combater a violência de gênero, precisa ser ampliado, assim como as políticas de proteção aos jovens em situação de risco.

    O Programa Psicólogo-Presente nas escolas também pode contribuir para reduzir a violência juvenil, ajudando a identificar precocemente situações de vulnerabilidade. A criação da Guarda Civil Municipal Comunitária, voltada para ações preventivas e de mediação de conflitos, ainda é um projeto essencial para a construção de uma cidade mais segura.

    Água, Meio Ambiente e Sustentabilidade: Taiobeiras tem sede de soluções

    A crise hídrica, fruto das mudanças climáticas, continua sendo um desafio para Taiobeiras. Em 2020, defendemos o Programa Água Para Todos, propondo soluções criativas e sustentáveis para garantir o abastecimento à população. Em 2025, a inovação tecnológica deve ser nossa aliada, com captação inteligente de água da chuva, reuso e incentivos à preservação dos recursos naturais.

    O fortalecimento da educação ambiental, aliado ao investimento em energias renováveis e ao estímulo a práticas agroecológicas, precisa ser prioridade. O futuro de Taiobeiras depende de nossa capacidade de equilibrar desenvolvimento econômico e preservação da natureza.

    2025: o presente que construiremos juntos

    Os desafios mudaram, mas a essência do nosso projeto segue inalterada: Taiobeiras precisa ser governada para o povo e pelo povo. Nossas propostas de 2020 eram ousadas porque acreditamos que o impossível só existe até que alguém prove o contrário.

    Agora, em 2025, seguimos comprometidos com o mesmo ideal de transformação. Se o futuro é incerto, que seja porque estamos dispostos a construí-lo com coragem, coletividade e esperança. Taiobeiras tem pressa, mas também tem força. E juntos, seguimos sonhando e lutando.

    * Levon Nascimento, professor de história e doutorando em Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável

  • É preciso apontar para a esperança

    É preciso apontar para a esperança

    * Levon Nascimento

    Em 15 de junho de 2024, participei do Encontro Municipal do Partido dos Trabalhadores em Taiobeiras, no qual foi oficializada a Federação Brasil da Esperança no município, junto com o Partido Verde, para as eleições proporcionais.

    No mesmo evento, mulheres e homens da classe trabalhadora apresentaram as suas pré-candidaturas a vereadora, vereador e prefeito, para o pleito de 2024.

    Perguntei-me, no íntimo, o que de fato fazíamos ali. O que significa a nossa luta neste mundo de hoje?

    Enquanto…

    1. o governo de extrema-direita de Israel mata milhares de vidas palestinas, especialmente crianças, idosos e mulheres;
    2. Trump, com seu discurso negacionista, racista e xenófobo, lidera as pesquisas de intenção de votos para a presidência dos Estados Unidos;
    3. a extrema-direita europeia, anti-imigração, anti-negros e anti-latinos, faz barba, cabelo e bigode nas eleições parlamentares da União Europeia;
    4. as mudanças climáticas provocam, em todo o planeta, dilúvios bíblicos e secas homéricas, calor excessivo e derretimento das geleiras, desabrigados ambientais e desequilíbrios econômicos crescentes, com efeitos devastadores aos países do Sul global e às populações mais pobres do mundo;
    5. no Brasil, o nazifascismo bolsonarista continua popular e impune, apesar do genocídio de 700 mil vidas perdidas pela negligência na pandemia, da tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023 e da corrupção concreta e ideológica que propagou nos infernais quatro anos de Bolsonaro na presidência;
    6. o agronegócio, a mineração predatória e o desmatamento para fins econômicos continuam a envenenar o solo e as águas, aprovando mais e mais agrotóxicos; matando indígenas e grilando terras; apoiando o armamentismo e financiando o processo de ignorância cultural do povo brasileiro;
    7. a alienação religiosa e cultural leva dominados a emularem o papel dos dominadores; a explorados sem consciência da exploração; aos pobres negando os próprios direitos e destruindo suas próprias identidades étnicas e culturais;
    8. Artur Lira e seu bando, hipócritas, usam o nome de Deus para proteger estupradores, atacam o direito das mulheres sobre o arbítrio do próprio corpo e chantageiam o Governo democraticamente eleito pela maioria dos brasileiros;
    9. Em Taiobeiras, muitos perderam a vontade de decidir sobre o seu próprio destino, terceirizando a uma elite – que já se bastou a si própria e perpetuou-se no tempo – o poder de comandar os rumos da coletividade.

    O que nós, da classe trabalhadora, fazemos na luta política diante de todo esse enredo maligno?

    Não tenho respostas prontas para a pergunta que me fiz. Mas, admito suposições. Suponho que, fazendo mais do mesmo não teremos realidade novas.

    É preciso que rompamos com a sociedade que se acomodou com o discurso dos “especialistas em coisa nenhuma”, dos coaches de mensagens sentimentalistas e vazias e dos mascates da fé.

    Mais do que eleições, miremos na formação do povo e na superação do individualismo. É pela cultura que renovaremos a esperança da nossa gente por justiça social e inclusão humana.

    Vencer uma eleição é necessário. Porém, mais do que um mandato, necessitamos de refundar o caráter antissistêmico da esquerda política. Não dá mais para nos conformarmos com a falácia de que o capitalismo é o fim da história. Temos de descortinar o dia posterior, a luz no fim do túnel, a esperança em vez do “é assim mesmo”.

    É urgente apontar à esperança!

    * Professor de História. Graduado em Ciências Sociais pela Unimontes. Mestre em Estado, Governo e Políticas Públicas pela Flacso/Fundação Perseu Abramo. Doutorando em Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável pela Escola Superior Dom Helder Câmara. Pré-candidato a Prefeito de Taiobeiras.

  • E você, quem é o seu Jesus?

    E você, quem é o seu Jesus?

    * Levon Nascimento

    Jesus nasceu na Palestina durante o período da ocupação romana, por volta de 753 da fundação de Roma. Mais tarde, o antigo calendário juliano seria modificado e o ano de seu nascimento tornado o número 1. Erros à parte, alguns estudiosos dizem que Jesus na verdade nasceu uns 7 a 8 anos antes da data inaugural do calendário cristão. Pouco importa. Fosse hoje, muitas bombas norte-americanas vendidas ao governo de Israel cairiam sobre sua cabeça.

    O fato certo é que Jesus viveu na periferia do mundo antigo. Uma espécie de Sul global da época, como agora são o Brasil, a África, o Haiti e… a Palestina (Gaza). O trabalho de seus parentes e amigos enriquecia a elite judaica, complacente, e o Império Romano, invasor.

    Maria, sua mãe, séculos depois elevada pela devoção popular e a oficialidade religiosa a Rainha do Céu, Mãe de Deus e Madonna – Ops! Calma calabreso! Madonna, em italiano, é Nossa Senhora – era uma mulher bem consciente da realidade em que vivia. De acordo com o evangelista Lucas (1,52-53), é dela as frases: “Derruba do trono os poderosos e eleva os humildes; despede os ricos de mãos vazias e enche de bens os famintos”. Nos dias atuais, seria cancelada, acusada de lacração e comunismo.

    Voltando a Jesus, seus principais adversários eram os religiosos fariseus. Gente que ia assiduamente às sinagogas, as capelas locais, e ao templo de Jerusalém. Conheciam bem as leis e os textos bíblicos. Achavam-se, por isso, melhores do que as outras pessoas. Espécie de classe média, “gente de bem, família como Deus criou”, os fariseus detestavam as mulheres, os estrangeiros e toda sorte de gente estranha que andava com Jesus. Foram eles os responsáveis pela denúncia que levou à sua prisão, tortura e morte.

    Jesus não vivia com o Antigo Testamento debaixo do braço, mas testemunhava seus preceitos de maneira muito prática, sem extremos ou fanatismo.

    Jesus não era contra os ricos, porém preferia andar com os pobres. Aos ricos, mostrava a efemeridade dos bens que tinham, e quanto tais riquezas lhes escravizava. Aos pobres, repartia pão e defendia das pedradas dos fariseus.

    Jesus não era comunista, como dizem alguns amigos bem intencionados; pois seria um anacronismo. O marxismo só surgiria uns dezoito séculos à frente. Na verdade, o socialismo/comunismo é que imitaria alguns preceitos da prática cristã, como a sociedade comunal em que viveram os primeiros seguidores de Jesus.

    As doutrinas bíblico-religiosas afirmam que Jesus é o filho de Deus, o Cristo esperado pelos judeus messiânicos; o próprio Deus, na Santíssima Trindade, com o Pai e o Espírito Santo; ou o espírito mais evoluído a passar pela Terra. Como crente de uma dessas fés, eu professo alguns componentes de tais doutrinas sobre Jesus. Mas não é isso que vem ao caso neste texto.

    Trato aqui do Jesus histórico. Aquele que não aceitaria a confusão de seu nome com a diabólica Teologia da Prosperidade, pregada na maioria das denominações cristãs de agora pelos coaches da fé; nem cruzadas, charlatanismo, mercantilização da crença alheia, exclusão, guerras, armamentismo, tortura, fascismo e outras aberrações do passado e do presente.

    Como escreve o bispo Dom Vicente Ferreira, há uma “ruptura entre o Cristo da fé e o Jesus histórico”. Igualmente, outros têm se tornado telegrafistas de Maria, conforme seus interesses particulares. Toda expressão cristã que não se calça na historicidade de Jesus é fanatismo ou má fé, mato no meio da roça de feijão, joio no trigo. Deve ser combatida.

    Mais fácil Jesus abraçar um ateu de boa vontade do que um religioso cristão de mercado. Jesus, hoje, seria crucificado pela maioria dos que se dizem seus seguidores.

    O Jesus histórico é o ser humano excelente. Sua divindade se revela em sua condição humana amorosa.

    E você, quem é o seu Jesus?

    * Professor de História.

  • Taiobeiras: a morte tem odor de esgoto e veneno

    Taiobeiras: a morte tem odor de esgoto e veneno

    * Levon Nascimento

    À tardezinha, um fedor paira no ar. Com o perdão da má expressão, é catinga de merda, mesmo. Esgoto não-tratado lançado a céu aberto.

    De uns dias para cá, primeiro achei que fossem os registros do fogão que estavam abertos. Parecia gás de cozinha. Não era. Está em todo lugar, pela casa, no quintal, na rua, nos ares. É veneno. É fumaça de agrotóxico.

    Alguns amigos e familiares me dirão que eu não deveria expor isso aqui. Só tenho a perder: pessoalmente e politicamente. As pessoas não gostam de que apontemos os problemas do lugar em que vivemos. Afinal, fazemos a melhor festa de maio da região, não é!? A propaganda oficial nos condiciona a dizer que somos a melhor do Alto Rio Pardo, quiçá do Norte de Minas. Nenhuma palavra pode ser dita para manchar a reputação da cidade, sob pena de sermos chamados de traidores.

    Mas de que valeria minha vida e minha participação política, não fossem elas voltadas a defender o bem-comum, o bem-viver e o bem-estar da coletividade? Para mim, nunca foi projeto pessoal de poder. É e será ad eternum a luta pela vida plena, em abundância, para todos os seres humanos e para o planeta, nossa Casa Comum.

    Que me critiquem os “pró-vida” de ocasião, que só enxergam ameaças de morte no aborto e nas orientações sexuais alheias. Eles chafurdam na suicida teologia da prosperidade e no tradicionalismo oco e estéril. Valorizam mais as vestes e alfaias do que a Criação divina expressa no rosto humano e na Mãe Natureza.

    O fato é que a metáfora da arca de Noé nunca foi tão precisa quanto nestes tempos de crise climática e de adoração do empreendedorismo da ganância. As pessoas bebem, comem e festejam, alienadas do que ocorre ao seu redor. O calor do aquecimento global, as enchentes torrenciais e o envenenamento da comida e dos ares pelo agro-pop estão aí, para quem quiser ver, sentir e cheirar. Mas, entretidos por coaches e líderes de extrema-direita, os indivíduos recusam a verdade e crucificam os que lhes ousam dizer.

    Taiobeiras, nestes dias de festa e alegria, de ganhos e emoções, de vaidades e torpes poderes, está impregnada do odor de esgoto e de veneno. É um projeto irracional em nome do lucro e do poder de alguns. O salário, como no caso do pecado, é a morte.

    Lutemos pela vida, enquanto ela se deixa encontrar.

    * professor de História, doutorando em Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável, mestre em Políticas Públicas, graduado em Ciências Sociais.

  • Lançamento do livro Torpes Labéus

    Lançamento do livro Torpes Labéus

    Em 8 de dezembro de 2023, na sede da Câmara Municipal de Taiobeiras, norte de Minas Gerais, ocorreu o lançamento do livro “Torpes Labéus: Diário da Pandemia Fascista Brasileira (2013-2023)”, publico pela Editora Autografia, de autoria do professor Levon Nascimento.

    A obra retrata a década de 2013 a 2023, passeando pelos fatos históricos, políticos e sociais do Brasil no período, em formato de diário, com um viés crítico.

    No evento de lançamento, estiveram presentes o deputado federal Padre João (PT/MG), o deputado estadual Leleco Pimentel (PT/MG), lideranças políticas, religiosas, sociais e comunitárias da microrregião do Alto Rio Pardo, educadores, músicos, poetas e ativistas sociais e culturais.

    Confira as fotografias…

  • Financiamento coletivo do livro “Torpes Labéus” de Levon Nascimento

    Financiamento coletivo do livro “Torpes Labéus” de Levon Nascimento

    “Torpes Labéus: Diário da Pandemia Fascista Brasileira (2013-2023)” é o meu oitavo livro. Trata-se de uma coletânea de memórias sobre os fatos da história brasileira ocorridos nos últimos dez anos. O livro está em fase de editoração e impressão. O custo é bastante elevado. Colaborações acima de R$ 60,00 terão direito a um exemplar do livro. Colabore.

    Pix da ‘vakinha’ colaborativa para o livro “TORPES LABÉUS”:

    3875812@vakinha.com.br

  • Levon Nascimento lança “Guia Pessoal de Cultura 2023”

    Levon Nascimento lança “Guia Pessoal de Cultura 2023”

    Olá! Sou Levon! Professor de história, mestre em políticas públicas, doutorando em direito ambiental, escritor, poeta e ativista da defesa da Pessoa Humana e da Casa Comum que é a Terra.

    Neste livreto você encontra um guia da minha produção intelectual, artística e cultural.

    São vídeos, poemas, programas de rádio e, principalmente, livros.

    Produtos de uma intensa e batalhada caminhada, cujo propósito não é comercializar, mas compartilhar.

    Compartilho dons. Dom é presente.
    De graça recebi. Gratuitamente reparto.

    Você pode conhecer mais a minha obra.
    Siga-me nas redes sociais e leia meus textos.

  • De novo a Barragem de Berizal? O porquê de insistir no assunto

    De novo a Barragem de Berizal? O porquê de insistir no assunto

    Levon Nascimento, levon2012@yahoo.com.br

    Há uma grande sensibilidade do Governo Lula para com a Barragem de Berizal. É o que pude sentir nas palavras do Ministro Waldez Góes, em Montes Claros, durante o 1º Fórum “Desenvolve Sudeste” do Ministério da Integração e Desenvolvimento Regional (29/05/2023).

    Mas, também nas manifestações do Ministro, o Presidente Lula somente se comprometerá com a efetivação da obra se as condicionantes levantadas pelos diversos órgãos competentes estiverem todas resolvidas, pois há um ordenamento legal a ser seguido. E Lula, com sabemos, é um legalista por excelência. Prova disso foi sua obediência ao Poder Judiciário nacional, mesmo quando lhe era infligida a injustiça máxima de sua condenação sem provas por um juiz “suspeito e incompetente” (sentença proferida pela própria Suprema Corte constitucional).

    É compreensível que os cidadãos se encontrem cansados da novela “da barragem” e descrentes dos órgãos de Estado. Exigir que entendam esses meandros, quando a luta pela sobrevivência faz a pauta do cotidiano, é um tanto ingênuo.

    Para isso, os lutadores sociais e os atores políticos precisam agir na compreensão técnica sobre o que são essas condicionantes e a quais órgãos elas competem.

    Não basta só pedir a um Ministro, ou mesmo ao Presidente, fazer discurso e fotografar. Eu mesmo discursei e fotografei. É absolutamente insuficiente. Necessária se faz uma força-tarefa multidisciplinar e suprapartidária, técnica e política (na melhor acepção do interesse da polis), que verifique ponto a ponto o que entrava a obra e busque soluções para cada um deles.

    Ao contrário das falácias da extrema-direita que desgovernou o país por seis anos, o Governo Lula é de atenção, diálogo e ação. Ação dentro da factualidade e da legalidade, sobretudo levando em conta o povo trabalhador, os agricultores e as agricultoras familiares, as famílias trabalhadoras, a população pobre e em insegurança hídrica. Sem revanchismos, porém sem tergiversações.

    O primeiro passo, a meu ver, é retomar consistentemente a organização do Território da Cidadania do Alto Rio Pardo, para na transversalidade das políticas públicas, decidir com “os de baixo” os rumos de nossa região. A barragem será para todos, como deve ser.

    Outra coisa: a região tem de compreender que a melhor chance dessa obra virar realidade é com Lula; e não deixar a ideologia atrasada do colonialismo neoliberal fechar a janela de oportunidade da história.

    #OBrasilVoltou #OBrasilFelizDeNovo

  • Artigo do Levon: Brasil infernal

    Artigo do Levon: Brasil infernal

    * Levon Nascimento

    O Brasil de hoje, para quem tem olhos de ver e ouvidos de ouvir, é como as cenas descritas por Dante Alighieri, literata renascentista italiano, que escreveu a Divina Comédia.

    Bolsonaro governa pelo bem dos ricos e para o mal dos pobres. Sem tirar dos ricos nem por aos pobres.

    Tudo piorou em seu governo.

    Órgãos de combate à corrupção foram desmontados e/ou cooptados.

    O Auxílio-Brasil, apresentado com pompa e circunstância como substituto do Bolsa-Família, é uma armadilha para os pobres, pois o decreto presidencial que o estabeleceu acrescenta seu fim para 31 de dezembro de 2022; além de permitir a consignação de empréstimos bancários, a promover uma escravização bancária futura da população vulnerável após o término da vigência.

    A única casa de moradia do pobre, por iniciativa de Bolsonaro, poderá ser tomada da família pelos banqueiros multibilionários, em caso de inadimplência do trabalhador. Espera-se que os senadores derrotem essa crueldade, já aprovada pela base bolsonarista na Câmara dos Deputados.

    Produzidos em real, ao custo dos baixíssimos salários nacionais, os combustíveis e os alimentos são cotados em dólar, quintuplicando de preço. Abastecer e comer agora são situações de escolha vital para os brasileiros.

    Trinta e três milhões estão a passar fome, e mais de 60% com algum tipo de dificuldade para conseguir a cesta básica, gerando famílias vulneráveis e sem segurança alimentar. Nisso, percebe-se que nunca houve um governo que investiu tanto contra a família quanto o de Bolsonaro. É falso-moralista, defende a instituição familiar da boca para a fora, mas na hora do vamos ver, deixa-a à própria sorte (ou azar).

    O desemprego é assustador e o endividamento das famílias é recorde.

    Não houve atuação do presidente para conter a pandemia, só estímulo à contaminação em massa. Ele não quis confinamento sanitário e tampouco cuidou da economia, como sempre regurgitava no cercadinho do Alvorada. Terceirizou sua responsabilidade para as costas de governadores, prefeitos e da oposição. Nada era consigo. Perguntado sobre as centenas de milhares de mortes por Covid-19, zombou: “E daí? Não sou coveiro”. Psicopata?

    As intolerâncias patriarcal, religiosa e policial, especialmente contra mulheres, pobres, pretos, indígenas e LGBTQIA+, subiram exponencialmente. E o governo não implementa políticas públicas de redução e erradicação.

    Órgãos de defesa do meio ambiente e de apoio aos povos indígenas desmontados, desautorizados e invadidos, justamente por aqueles que são os vilões do desmatamento ilegal, do genocídio indígena e do narco-garimpo.

    As gastanças desregradas nas FFAA, no cartão corporativo presidencial e na família do presidente correm soltas, além do orçamento secreto que compra os deputados e senadores do centrão, ao passo que os instrumentos legais de combate à corrupção criados pelos governos do PT foram aposentados, calados ou ignorados. Para tudo, sigilo. Corrupção como nunca antes em nossa história e, pior, sem investigação e punição.

    Ainda assim, conforme a Bloomberg, rede de TV a cabo estadunidense, durante a Cúpula das Américas, em Los Angeles (Califórnia, EUA), na segunda semana de junho de 2022, o presidente brasileiro pediu ajuda ao colega Joe Biden, presidente ianque, para derrotar Lula na eleição de 2022.

    Se alguém tinha dúvidas das intenções golpistas e antidemocráticas do genocida, não as tenha mais. Esse apelo vexatório a um presidente estrangeiro – da maior potência militar do planeta – é crime de lesa-pátria, alta traição à Constituição e à República brasileiras.

    Também na Cúpula das Américas, Bolsonaro afirmou a Joe Biden que a produção do agronegócio do Brasil alimenta um bilhão de pessoas ao redor do mundo. Só não corrigiu que essa mesma produtividade exclui de comer 60% dos próprios brasileiros, abandonados por ele à insegurança alimentar, devido à inflação, ao desemprego e ao desmonte dos estoques reguladores de preços de alimentos, por sua própria ordem.

    Você deve ser lembrar de quando os bolsonaristas mandavam quem discordava deles para Cuba, Venezuela e Argentina. Gritavam com a certeza de quem nunca leu um livro inteiro que o povo desses países vizinhos vivia a passar fome por conta de um comunismo imaginário, chegando até mesmo a devorar cachorros por falta de mantimentos.

    No entanto, quando se sabe que mais da metade dos brasileiros (60%, de acordo com a pesquisa PENSSAN, divulgada em 08/06/2022) tem passado algum perrengue para conseguir comprar comida e que 33,1 milhões de compatriotas estão à mercê da fome, os ditos fanáticos por Bolsonaro fingem que não é com eles. Nem um pio. Quando muito, põem à culpa nos próprios famintos. Imitam Maria Antonieta de França: “Se não têm pão, que comam brioches, ora!”

    A violência contra os povos indígenas, sobretudo na região amazônica, atinge níveis escandalosos de crueldade e absurdo. E há a omissão proposital da presença do Estado nacional, como que uma autorização velada (ou propriamente explícita) para que criminosos do agro, do garimpo e do desmatamento atuem como aliados do governo de plantão.

    As mortes do jornalista inglês Dom Phillips, brasilianista que escrevia matérias sobre os dramas amazônicos para meios de comunicação europeus e estadunidenses, e de Bruno Pereira, sertanista demitido de cargo de chefia da FUNAI pelo ex-ministro Sérgio Moro (o grande responsável pela eleição de Bolsonaro em 2018), justamente porque fazia bem o seu trabalho, são símbolos inequívocos da inversão moral e criminosa dos papéis: o Estado que deveria dar proteção a quem tenta aplicar a lei é o mesmo que se move vagarosíssimo nas buscas e na segurança das vítimas. E ainda as criminaliza.

    Todos os governos e governantes pertencem a estruturas humanas, portanto falíveis, corruptíveis e ao mesmo tempo passíveis de acertos, empatia e vitórias civilizatórias. No entanto, para além da debilidade e/ou ventura humana, o governo Bolsonaro é também um projeto maléfico, anti-humano, diabólico e cruel.

    Apoiar esse governo é comprometer mais do que a vontade política pessoal, mas a própria integridade da alma imortal. Quem defende Bolsonaro precisa se converter, de corpo e alma.

    Alighieri, certa vez escreveu: “No inferno, os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempos de crise”.

    * Levon Nascimento é professor e escritor. Este é um artigo de opinião.

  • Crônica: Tem dois anos que o mundo acabou, por Levon Nascimento

    Crônica: Tem dois anos que o mundo acabou, por Levon Nascimento

    Dá uma tristeza danada quando me recordo de que em janeiro de 2020 minha filha me chamou a atenção para uma pequena nota na imprensa que informava de um surto na China, causado por um novo vírus.

    Lembro-me de minha reação despreocupada e xenofóbica – sim, eu confesso – ao proferir, em tom de pilhéria, a seguinte frase:

    – Ah, mas esses ‘trem’ só acontecem lá do outro lado do mundo!

    O fato é que a potência emergente oriental controlou rapidamente a epidemia, que virou pandemia e se espalhou como rastilho de pólvora pelo pedante Ocidente.

    Economias faliram, escolas, igrejas e cidades se fecharam. O virtual substituiu o presencial e as máscaras subiram às faces assombradas.

    Mais de 600 mil brasileiros morreram em decorrência da patologia derivada do novo coronavírus, em pouco menos de dois anos.

    Nos Estados Unidos, até então donos do mundo, o estrago se somou à irradiação do negacionismo trumpista, que também fez escola por aqui, decorrente de nossa tragédia nacional, de eleger um governo irracional e miliciano em 2018.

    Pessoas conhecidas se foram e muitos amigos sofreram pessoalmente de internações e/ou intubações dolorosas. Eu mesmo experimentei dias difíceis patrocinados pela COVID-19, mas sem necessidade de leito hospitalar.

    Vacina virou palavra de ordem e conceito em disputa. Quem jamais questionara de que era feito o azulinho da Pfizer, de repente virou especialista em nano-chipes da besta, peremptoriamente contidos nos imunizantes, a fim de por a perder as pias almas cristãs.

    A nova peste é sem dúvidas um dos três grandes pesadelos da contemporaneidade, em nada devendo à crise climática e à escandalosa desigualdade econômica que perpetua pouquíssimos ricos e reproduz bilhões de miseráveis mundo a fora. Aliás, as três são amazonas do apocalipse civilizatório da sociedade do capital, parceiras na insensatez e na morte.

    Que 2022 não seja um 2020.3!