Tag: Levon

  • Professor Levon: O vale de lágrimas e o tesouro

    Professor Levon: O vale de lágrimas e o tesouro

    Sim! Vivemos “gemendo e chorando neste vale de lágrimas”.

    E tenho passado por isso intensamente nas últimas semanas.

    Outros seres humanos, do Brasil e do mundo, muitíssimo mais do que eu.

    A sociedade humana e o inconsciente individual a ela conectado nos castigam sem dó nem piedade.

    O ódio, a aporofobia e o extremismo neoliberal nos impõem fardos pesados e jugos insuportáveis.

    Mas também somos “o sal da terra” e a “luz do mundo”, que damos gosto à vida e iluminamos as trilhas de quem se perde.

    Portanto, se quisermos ultrapassar o vale lacrimoso, devemos “não ajuntar riquezas aqui na terra, onde a traça e a ferrugem corroem, onde os ladrões assaltam e roubam”.

    Façamos ao outro o que queremos de bom para nós mesmos.

    Sigamos a máxima: “Basta a cada dia a própria dificuldade”.

  • Livros de Levon Nascimento

    Livros de Levon Nascimento

    Livro: “Palavras da caminhada: superando a falta de memória pública com artigos e ensaios”. Editora O Lutador, de Belo Horizonte, 2006. Lançado em 1º de julho de 2006, no auditório da Escola Municipal João da Cruz Santos, em Taiobeiras/MG; e em agosto do mesmo ano, no Centro de Cultura da cidade de Cordeiros/BA.

    Livro: “Blogosfera dos Gerais: opinião, testemunho e outras reflexões”. Editora O Lutador, de Belo Horizonte, 2009. Lançado em 24 de abril de 2009, no plenário da Câmara Municipal de Taiobeiras/MG; e em junho do mesmo ano, no Centro de Cultura da cidade de Cordeiros/BA.

    Livro: “Memorial da Juventude de Taiobeiras”. Editora O Lutador, de Belo Horizonte, 2010. Livro publicado através de projeto aprovado junto ao Mais Cultura, do Banco do Nordeste e do Ministério da Cultura, em coautoria com Flaviana Costa Sena Nascimento. Lançado em dezembro de 2010, no plenário da Câmara Municipal de Taiobeiras/MG.

    Livro: “Sexagenarius: reflexões pelos 60 anos de Taiobeiras”. Editora O Lutador, de Belo Horizonte, 2014. Lançado em 04 de abril de 2010, no plenário da Câmara Municipal de Taiobeiras/MG.

    Livro: “CRER E LUTAR”. Editora O Lutador, de Belo Horizonte, 2017. Lançado em 02 de junho de 2010, no plenário da Câmara Municipal de Taiobeiras/MG.

    Livro: “Vidas Interrompidas: juventude, violência e políticas públicas em Taiobeiras – Minas Gerais”. Editora Autografia, do Rio de Janeiro, 2018. Lançado em 12 de dezembro de 2018, no plenário da Câmara Municipal de Taiobeiras/MG.

    Livro: “Acepção”. Editora Autografia, do Rio de Janeiro, 2020. Lançado em 21 de outubro de 2021, no plenário da Câmara Municipal de Taiobeiras/MG; e em 22 de outubro de 2021, no plenário da Câmara Municipal de Cordeiros/BA.

  • Levon Nascimento lança livro Acepção em Cordeiros, Bahia

    Levon Nascimento lança livro Acepção em Cordeiros, Bahia

    Saiu o vídeo da fala do Professor Levon no lançamento de seu livro Acepção em Cordeiros/BA.

    https://youtu.be/HwE27Meh8iM

  • Levon Nascimento lança livro “Acepção” em Taiobeiras MG

    Levon Nascimento lança livro “Acepção” em Taiobeiras MG

    A noite de 21 de outubro de 2021 foi especial em Taiobeiras, norte de Minas Gerais. O professor, escritor e poeta Levon Nascimento lançou seu sétimo livro.

    Desta vez foi “Acepção”, um livro contendo 65 poesias escritas em março de 2020, já no “clima” pandêmico.

    De acordo com Cleunice Silva Lemos, prefaciadora do livro, “Em Acepção, Levon Nascimento inaugura a sua potencialidade lírica revelada por uma voz crítica, questionadora e reflexiva sobre a realidade”.

    Segundo Levon, “Acepção foi composto em março de 2020, quanto experimetei uma modalidade de deserto pós-moderno. Inicialmente, pela greve dos trabalhadores em educação de Minas Gerais; em seguida, no isolamento social provocado pela pandemia da COVID-19”.

    Acepção foi editado pela Autografia (Rio de Janeiro), tem 124 páginas, está à venda no site da editora e conta com a participação especial do poeta e professor Lídio Barreto (Lídio Ita Blue).

    O evento de lançamento ocorreu na Câmara Municipal de Taiobeiras e contou com a presença de trabalhadores/as das diversas categorias profissionais e de autoridades locais. Discursaram, declamaram, encenaram e/ou cantaram as seguintes personalidades: Cleunice Silva Lemos (professora e escritora de Taiobeiras), Romário Fabri Rohm (assessor do mandato do deputado federal Padre João, PT), Marileide Alves Pinheiro (professora e poeta de Taiobeiras ), Vladimir Mendes Patrício (escritor de Rio Pardo de Minas), Nádia Gonçalves de Souza (professora de Taiobeiras), Isaías Costa Zazau (jornalista e poeta de Taiobeiras), Felipe Cortez (ator, escritor e cantor de Taiobeiras) e o Coral Vozes de Taiô, sob regência do maestro e professor Rafael Santos, de Taiobeiras.

    Os parlamentares mineiros, pelo Partido dos Trabalhadores, Padre João, Leninha e Dr. Jean Freire se fizeram representar por suas respectivas assessorias e/ou por mensagens de vídeo exibidas ao público.

    A seguir, algumas fotografias do evento, conduzida com muita habilidade e simpatia pela professora e mestra de cerimônia Emanuela Miranda.

  • Um ano da convenção do PT de Taiobeiras

    Um ano da convenção do PT de Taiobeiras

    Hoje, 13 de setembro, faz exatamente um ano que realizamos a nossa convenção municipal do PT na Câmara Municipal de Taiobeiras.

    Foi um momento muito bonito e do qual devemos nos orgulhar. Não importa muito o resultado eleitoral.

    O que importa de verdade é que estamos dedicando nossas vidas às boas causas da fraternidade, da igualdade social e da melhoria da qualidade de vida de toda a população.

    Minha gratidão a quem teve o carinho de lutar ao meu lado!

  • Prefeito de Taiobeiras quer a municipalização das escolas estaduais

    Prefeito de Taiobeiras quer a municipalização das escolas estaduais

    Lamentavelmente, o Prefeito de Taiobeiras não ouviu aos argumentos e demandas dos trabalhadores em educação da rede estadual de ensino presente na cidade.

    Tratam-se dos apelos de professores (as), pedagogos (os), auxiliares das secretarias e das cantinas, além de pais, mães, responsáveis e alunos que compõem as comunidades escolares atingidas pelo Projeto Mãos Dadas.

    O “Mãos Dadas”, do Governador Zema, pretende entregar escolas estaduais de anos iniciais para a gestão administrativa, financeira e pedagógica das prefeituras.

    Diferentemente do que se imaginava, apenas as Escolas Estaduais Deputado Chaves Ribeiro e Professora Dona Preta foram incluídas no PL nº 19, de 30/06/2021, de autoria do Prefeito Denerval Germano da Cruz (PSDB). Antes, achava-se que os anos iniciais da Escola Estadual Dona Beti também entrariam no conjunto.

    As duas escolas em risco de serem municipalizadas são referências de bom ensino e têm IDEBs (Índice de Desenvolvimento da Educação Básico) dos mais altos da SRE de Araçuaí, em nível de país desenvolvido. Por que mexer no que está dando certo?

    Para lavar as mãos do ensino de crianças de 6 a 10 anos de idade, Zema acena aos prefeitos com uma montanha de dinheiro na ordem de R$ 500 milhões. No entanto, o próprio projeto do governador traz embutida a pegadinha de muitos “senão”, “contudo” e “talvez” a respeito do que o Estado poderá ou não socorrer as prefeituras no futuro.

    Há enorme risco das futuras administrações municipais, costumeiramente com o pires não mão, não terem como sustentar as atuais escolas estaduais que passarão para a responsabilidade dos prefeitos.

    Os profissionais que trabalham nessas escolas temem o desemprego futuro, a perda de remuneração, a possibilidade de não encontrarem vagas nas escolas estaduais da cidade que não forem municipalizadas, além da mudança de regime previdenciário e de plano de saúde (Ipsemg).

    Para os atuais servidores da educação municipal e usuários das escolas do município, o risco também é presente, uma vez que futuramente o sistema poderá se sobrecarregar, ocasionando menos recursos para investimento e/ou reposição salarial.

    Também é estranho o fato do Prefeito ter enviado o projeto de adesão à Câmara Municipal, uma vez que Taiobeiras ainda não cumpre todas as metas estipuladas para a educação infantil (creche e pré-escola), esta sim obrigatória para o município. Entende-se que primeiro a obrigação, depois que vêm outras responsabilidades.

    Enfim, parece que o Prefeito se encantou pelos milhões imediatos oferecidos por Zema, sem se preocupar com o que pode vir a ocorrer a longo prazo.

    É como se diz: “se a municipalização fosse boa, Zema não estaria pagando aos prefeitos para aderirem”.

    Cabe às vereadoras e aos vereadores de Taiobeiras seguirem o exemplo de outros municípios que já REPROVARAM esse Projeto “Lava as Mãos” e respeitarem a história da educação estadual em Taiobeiras.

    A população de Taiobeiras está atenta, do lado do bem-comum e da educação pública estadual, e vai lutar, cobrar, elogiar e/ou repudiar as escolhas dos nossos legisladores e do Poder Executivo Municipal.

  • Prof. Levon na Tribuna da Câmara sobre Municipalização das Escolas Estaduais mineiras (Projeto Mãos Dadas)

    Prof. Levon na Tribuna da Câmara sobre Municipalização das Escolas Estaduais mineiras (Projeto Mãos Dadas)

    Taiobeiras: O Professor Levon Nascimento usa a Tribuna da Câmara Municipal para pedir aos vereadores que votem CONTRA o Projeto Mãos Dadas, do Governo de Minas Gerais, que pretende municipalizar os anos iniciais das Escolas Estadual Deputado Chaves Ribeiro, Professora Dona Preta e Dona Beti. Assista.

    Assista aqui o vídeo do pronunciamento na Câmara Municipal de Taiobeiras.

  • Live sobre a municipalização das escolas estaduais mineiras

    Live sobre a municipalização das escolas estaduais mineiras

    Nesta sexta, 18/06, minhas convidadas para a LIVE são a Diretora Estadual do Sind-UTE, Joeliza Vieira, a Pedagoga Marcela Lucas e a Professora Cássia Rodrigues. Vamos fale de Municipalização das Escolas Estaduais. A live tem duração de uma hora e vai ao ar às 19h, em minha página no Facebook. Conto com todas e todos que querem se informar sobre esse tema tão importante para a educação pública de Minas Gerais. Até mais!

    Assista ao convite aqui.

  • Parar é péssimo. Morrer, pior ainda. Unir para viver!

    É óbvio que as restrições da ONDA ROXA são péssimas para quem trabalha com empreendimentos de comércio, serviços e indústria. Tirando as grandes companhias e conglomerados empresariais, os prejuízos para os demais são enormes. Têm toda razão de estarem preocupados. Afinal, parados, como pagarão as contas?

    Daí a importância de todos realizarem esforços contra a disseminação do coronavírus, unidos, sem sabotagem, sem se deixarem levar por ideologias negacionistas ou pelo desmazelo para com a vida humana; usando máscara e álcool em gel, evitando aglomerações, e cumprindo todos os demais cuidados sanitários; pra gente sair logo dessa onda roxa e, lutando pela vacina para todos, voltarmos ao normal, ao trabalho, às escolas presenciais, às igrejas, à vida…

    Mas não podemos cair no conto do vigário e na embromação daqueles que, ao invés de ajudar a diminuir a contaminação e as mortes, ficam jogando para a plateia com frases do tipo “lockdown não!” ou “primeiro a economia”.

    Em um ano de contradições, o presidente não salvou nem 265 mil vidas perdidas para a Covid-19, nem a economia brasileira, que já estava caindo antes da pandemia, e que tombou ainda mais por conta das políticas neoliberais adotadas pelo ministro Paulo Guedes.

    Se o presidente, seguindo o exemplo de outros líderes mundiais de direita e de esquerda, independentemente da ideologia política, tivesse investido na ciência e na compra das vacinas com antecedência, talvez não estivéssemos ainda vivendo esta tragédia, que já dura desde março de 2020.

    Lutar pela vacina para todos deve ser o que nos une. Sem fake news, teorias da conspiração ou bobajadas de WhatsApp. O Brasil sempre foi campeão de vacinação e ninguém nunca teve problemas graves com outras vacinas. Por que só agora, quando a gente mais precisa, é que ficam colocando minhocas na cabeça do povo, inclusive abusando da religião para espalharem mentiras?

    Cientificamente, a vacina é o que há de comprovadamente mais eficiente contra o coronavírus. Defender a aprovação do auxílio emergencial para as pessoas em situação de desemprego também é necessário, para reaquecer a economia e, dessa forma, movimentar os empreendimentos e gerar mais empregos.

    Vamos obedecer à lei e às normas, para a gente sair logo desse sofrimento.

    Levon Nascimento

  • Levon Nascimento: 20 anos de professor

    Levon Nascimento: 20 anos de professor

    Há 20 anos, eu retornava de Montes Claros muito jovem ainda, recém-graduado em Ciências Sociais pela Unimontes (bacharelado e licenciatura), e iniciava a vida profissional “mais séria” na educação formal.

    Educador popular eu já era, desde os 16 anos de idade, pelos diversos espaços de formação humana disponibilizados nas pastorais da juventude e do menor e nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), tanto em Taiobeiras como em Montes Claros. Mas, a partir daquele 1º de fevereiro de 2001, novo milênio, início do século XXI, tornava-me “Professor” nas redes estadual (pública) e particular. Trabalhador desde os 13, era meu primeiro emprego “de fato” a garantir uma remuneração razoável e que apontava para o futuro. Doce ilusão.

    Idealista, focado mais no pedagógico do que na burocracia do sistema, em grande medida ingênuo mesmo, típico da idade e da geração egressa do noventismo, eu começava uma carreira, cheio de sonhos e projetos.

    Hoje, passadas duas décadas, alguns milhares de alunos no currículo, mais maduro, seja no trato frio da realidade, nos choques normais da convivência social e profissional, calejado do contexto socioeconômico e político, sem a mesma ingenuidade e ativismo irrefletidos, permaneço firme no sonho (utópico e, por isso mesmo, cada vez mais transcendente) de contribuir historicamente para a construção de uma nova sociedade, do conhecimento engajado na manutenção da vida, de seres humanos responsáveis, livres, solidários e fraternos.

    Que venha o futuro! Graças sejam dadas a Deus pelo passado bem vivido! É na luta e na labuta do presente que a gente vive plenamente.

  • Artigo do Levon: Quando vão queimar os livros?

    Artigo do Levon: Quando vão queimar os livros?

    * Levon Nascimento


    Logo pela manhã, li a notícia de que a Secretaria de Educação do Estado de Rondônia havia enviado ofício sigiloso às bibliotecas escolares ordenando que obras literárias dos grandes mestres brasileiros fossem retiradas de circulação.

    Dentre os autores: Machado de Assis, Nelson Rodrigues, Euclides da Cunha, Osvald de Andrade, Rubem Braga, etc. Explicito: até o maior escritor da Língua Portuguesa, o “mulato” Joaquim Maria Machado de Assis!


    Em que pese o recuo do secretário de educação rondoniense, após vazado o ofício sigiloso, é bom lembrar a quem não sabe que o governo de Rondônia está alinhado ao pensamento de Jair Bolsonaro e ao famigerado Escola Sem Partido, batalha fanática de extrema-direita que apregoa o risco de um tal de marxismo cultural, simplesmente inexistente.

    Para essa gente, qualquer arte e pensamento crítico é comunismo. Eles odeiam a inteligência.
    Também é preciso ressaltar que toda ditadura proíbe a leitura de livros que considera oponentes à sua ideologia. É na democracia que há liberdade para o pensamento e a expressão. Estamos em ditadura no Brasil?

    Que se ressalte que o governo Bolsonaro planeja financiar apenas peças teatrais e obras cinematográficas que falem o seu idioma fundamentalista. Volto a perguntar: estamos numa democracia?

    Porém, o que mais me admirou na notícia é que no tal ofício de Rondônia havia uma ordem expressa para que “todos os livros de Rubem Alves” fossem suprimidos.

    Rubem Alves, já falecido, foi um pensador e escritor presbiteriano brasileiro que, sem abdicar de sua fé, tornou-se um ilustre combatente pelas letras contra a famigerada ditadura militar brasileira (1964-1985). Falava de fé, política, educação, cidadania e participação.

    Não por acaso, tenho há mais de vinte anos um exemplar de sua obra “Conversas sobre política” (Editora Verus). Didático, cristão e contundente, este livro não me sai de vista. Inspira-me muito.

    Daí que quero aproveitar a deixa para questionar vários amigos evangélicos (não todos, evidentemente), alguns deles presbiterianos, que ainda se comprazem de apoiar a ideologia que dá sustentação a Bolsonaro, convencidos de que participam de uma verdadeira cruzada cristã pela restauração moral do Brasil, em nome de Cristo. Respeito-os, mas os considero equivocados.

    Pergunto-lhes: o autêntico cristianismo, inclusive aquele a que Rubem Alves foi filiado e testemunha, combina com a perseguição ideológica e a falta de liberdade que se anunciam sem desfaçatez no Brasil?

    Quanto às obras censuradas, leiam-nas antes que as fogueiras sejam acesas. Foi assim na Alemanha de Hitler.

    * Levon Nascimento é professor de História e mestre em Políticas Públicas.

  • Não se deve discutir religião e política?

    Abraçar uma luta política, quer num partido ou noutro tipo de organização social, é escolha livre, eticamente direcionada e ideologicamente fundamentada. Isto é para pessoas corajosas e transformadoras, o que não as livra, e às suas organizações e escolhas, de equívocos e contradições.

    Um partido político, um movimento social ou uma ONG são formados por gente. Humanos que pensam, divergem, erram, acertam, caem e se levantam.

    Diferentemente da religião, que exige uma crença em dogmas (verdades absolutas), onde fé é lei e a dúvida é pecado, a política é o espaço do questionamento, da crítica e da contradição civilizada (ou não).

    Ainda assim, a religião se organiza no íntimo dos indivíduos, mas se estrutura também em entidades coletivas: as comunidades conhecidas como igrejas, os grupos em torno das sinagogas, das mesquitas, dos terreiros, das casas espíritas, etc.

    Assim como na política, igrejas são grupos de pessoas que discordam ou convergem. O problema é que, na maioria das vezes, há um espírito autoritário na religião que vê essas características tão naturais da inteligência humana como coisas negativas e as tenta esconder sob o véu da infalibilidade da fé e como desobediência à vontade de Deus.

    No fundo, as organizações religiosas são extremamente políticas e, na maioria das vezes, adeptas das piores formas de se fazer política, a do autoritarismo, da repressão e do ódio. Mas há também os religiosos e as religiões que trabalham pelo bem comum, partilha, fraternidade e justiça.

    É incrível como o cristianismo de Jesus se encaixa no viés da libertação humana, da misericórdia e da compaixão, ao mesmo tempo que a história da cristandade ocidental caminha pelo lado oposto, apenas a título de exemplo. E não é exclusividade dos cristãos essa aparente contradição.

    Discordo de quem separa o mundo entre uma suposta religião que impera como vontade exclusiva de Deus e a política como o reino do diabo. Quem faz isso, é mais político do que pensa, mais diabólico do que divino, no sentido de que diabo significa dividir. Geralmente serve de fantoche aos que praticam política ruim. Pior, vive uma fé que não esclarece. Ao contrário, emburrece.

    Política e religião são universos distintos, mas mentes inteligentes operam e transitam por ambas e em várias outras multiplicidades de vivências possíveis aos seres humanos sem se tornarem fanáticas, sectárias ou alienadas.

  • Meus pequenos escritos de outubro

    Salinas, 26/10/2017. Foto: Alex Sandro Mendes.

    O que é um indivíduo fascista? É aquele que se incomoda com a opinião política, social, filosófica e cultural dos outros. E, além disso, pratica assédios e ataques, virtuais e físicos, aos que pensam e agem diferentemente dele. Em resumo, o fascista é um fundamentalista, um projeto de terrorista.
    (29/10/2017)

    Perguntar não ofende: O cristão que defende liberação do porte de armas (indiretamente, maior mortalidade), permissão aos agentes da segurança pública para mais matar do que usar as tecnologias de inteligência, inferioridade feminina (machismo), zombaria com quilombolas e indígenas (racismo) e intolerância às pessoas homossexuais (homofobia) age verdadeiramente como seguidor de Jesus Cristo?
    (29/10/2017)

    Juiz permite que frases desrespeitosas aos direitos humanos não sejam motivos para zerar a nota da redação do Enem. Que justiça é essa que autoriza a promoção da maldade e do ódio? O golpe abriu os portões do inferno no Brasil.
    (27/10/2017)

    Em 2018 não teremos mais que duas opções, o eleitor se comportará como Hitler ou Mandela, a favor da morte ou defensor da vida digna, ogro ou cidadão, canalha ou companheiro, egoísta ou solidário, boçal ou inteligente, “Minion” ou Humano.
    Em tempo, feliz aniversário aos amigos e amigas de hoje, em especial ao grande estadista que se encontra em Montes Claros, Luiz Inácio Lula da Silva.
    (27/10/2017)

    Durante a visita do ex-presidente Lula ao campus do IFNMG em Salinas reencontrei vários ex-alunos meus que agora estudam lá. Que cabeças boas, esclarecidos, livres das urucubacas preconceituosas!
    (27/10/2017)

    O deus da bancada que se diz evangélica na Câmara Federal (a que salvou Temer da investigação), invocado no microfone do Congresso, deve ser escrito com inicial minúscula, com o mesmo “d” de dinheiro. Não é o Deus amoroso e justo de Jesus de Nazaré nem de nenhuma outra crença que celebra a justiça e a compaixão. É ídolo. É Baal.
    P. S.: Minha crítica é exclusivamente aos deputados que usam a religião evangélica para acobertar suas sem-vergonhices. Respeito o povo evangélico.
    (26/10/2017)

    – A culpa é do PT que pôs o Temer de vice.
    – Na vice, sim, infelizmente. Mas quem o colocou na presidência foram os patos, eleitores de Aécio, que saíram de amarelo às ruas batendo em panelas contra a “corrupsaum” e apoiando o golpe.
    – Ah, mas a Dilma acabou com o Brasil.
    – Que nada! Todo mundo sabe que ela caiu porque não aceitou que o PMDB roubasse. Então fica com o Temer, que para se livrar das denúncias gastou com os deputados 32 bi, mais do que o orçamento de um ano de todo o programa Bolsa Família.
    – Nossa bandeira jamais será vermelha!
    – Só que não! Já olhou sua conta de luz? Ficou sabendo que Temer vendeu hidrelétricas da CEMIG para a China da bandeira vermelha?
    (26/10/2017)

    De que lado deveria estar um afro-ameríndio-descendente, filho, neto, bisneto… de trabalhadores escravos, semi-escravos, analfabetos, semi-analfabetos, que teve a oportunidade de usufruir da política pública da educação e de participar da formação cristã libertadora nas pastorais sociais da Igreja? Do lado da “Casa Grande” que nunca suportou sua gente nem as oportunidades que ele teve? Ou do lado da “senzala”, da gente igual a ele, da transformação social e da luta pela redução das desigualdades? Esse sou eu e estou do lado do povo brasileiro.
    (25/10/2017)

    – As contradições da sociedade brasileira:
    * Quando o assassino é “de menor”, mas filho de “gente de bem” (leia-se: de classe média ou alta), é tratado como vítima, sofredor de problemas psicológicos, enfim, alguém que merece cuidados e uma segunda chance.
    * Quando o “de menor” é filho de pobre, mora na periferia ou é negro, aí a turba clama por redução da maioridade, linchamento ou cadeia.
    – Não adianta dizer que não é bem assim. É assim.
    – De minha parte, penso que todos deveriam inspirar cuidados e segundas chances de se tornarem pessoas aptas ao convívio cordial na coletividade.
    (22/10/2017)

    – Pode-se falar de comunismo na escola? Claro que sim.
    – Assim como do liberalismo econômico de Adam Smith e dos clássicos da economia, de capitalismo, empreendedorismo, feudalismo, fascismo, darwinismo e nazismo, de escravidão e liberdade, de direitos e deveres, de ditadura, judaísmo, cristandade e homossexualidade, de democracia, drogas, islamismo e religiões, de esquerda e de direita, de algarismos e alfabetos, de gregos e troianos, de incas, astecas e maias, de iorubás, bantos e egípcios, e do que mais existir na vida e nas relações humanas.
    – A escola é justamente para se saber das coisas, debater sobre elas, compreendê-las, criticá-las e reconstruí-las. A escola é lugar de acreditar que os seres humanos são inteligentes, de que eles são capazes de pensarem com a própria cabeça e de não se deixarem dominar por outros.
    – Ninguém se torna uma planta ao saber que os seres vegetais realizam a fotossíntese, nem vira Einstein ao aprender raiz quadrada.
    (19/10/2017)


  • O Alto Rio Pardo precisa ser visto pelos governos

    Beatriz Cerqueira, Tânia Ladeia e Levon Nascimento durante
    a Plenária Regional de Educação do Sind-UTE/MG em Salinas/MG
    SÍNTESE DA MINHA INTERVENÇÃO NA PLENÁRIA REGIONAL DA EDUCAÇÃO EM SALINAS (24/09/2017)
    Por Levon Nascimento, professor de História.
    O Alto Rio Pardo tem características históricas, sociais e econômicas comuns. É um região humana e potencialmente rica do Norte de Minas Gerais.
    Precisa alcançar também a visibilidade e o respeito no esquema organizacional do Estado de Minas Gerais. Não é mais admissível que a região não seja sede de campi de universidades públicas de relevo ou que esteja esquartejada quanto à estrutura do sistema de ensino estadual, com municípios distribuídos e divididos entre as SREs de Montes Claros, Janaúba, Araçuaí e Almenara.
    Também não é possível que tenhamos como principal acesso, sem qualquer sinal de melhoria, a temerária BR-251, um verdadeiro corredor da morte, nem que seja destino apenas de ambulâncias e viaturas, sem investimento efetivo em saúde, segurança, seguridade e políticas públicas de promoção da dignidade humana.
    A gestão da água e dos recursos do meio ambiente precisam ser encaradas com o olhar criterioso dos interesses públicos e humanos, não o do capital e da ganância de uns poucos grupos econômicos.
    Enfim, é preciso avançar também na integração das manifestações culturais e na valorização dos agentes que promovem a essência “de ser” do povo geraiseiro alto-riopardense.
    P.S.: Os municípios que compõem o Alto Rio Pardo são: Taiobeiras, Salinas, Rio Pardo de Minas, São João do Paraíso, Águas Vermelhas, Rubelita, Montezuma, Berizal, Novorizonte, Fruta de Leite, Santa Cruz de Salinas, Santo Antônio do Retiro, Vargem Grande do Rio Pardo, Berizal, Indaiabira, Ninheira, Curral de Dentro e Divisa Alegre.
  • Livros de Levon

    Já tenho impressos e publicados cinco livros, lançados entre 2006 e 2017.


    Eles são coletâneas de artigos de opinião, crônicas, contos e até orações.

    Dois tem temáticas bem específicas: Sexagenarius, com reflexões sobre os 60 anos de Taiobeiras, e Memorial da Juventude de Taiobeiras, com fotografias e textos que recontam a epopeia da Pastoral da Juventude na cidade de 1985 a 2005.

    Palavras da caminhada, o primeiro, e Blogosfera dos Gerais, o segundo, são ensaios de um pensamento que se desenvolveu crítico e na luta por uma sociedade “mais justa e solidária”.

    CRER E LUTAR, lançado neste ano, é um apelo de fé para os compromissos humanitários e civilizacionais, tão em descrédito e descuidado no contexto atual.

    Veja a ficha de cada um:

    1. Palavras da caminhada: superando a falta de memória pública com artigos e ensaios. Belo Horizonte: Editora O Lutador, 2006. 160 páginas.

    2. Blogosfera dos Gerais: opinião, testemunho e outras reflexões. Belo Horizonte: Editora O Lutador, 2009. 138 páginas.

    3. Memorial da Juventude de Taiobeiras. Escrito em parceria com Flaviana Costa Sena Nascimento. Belo Horizonte: Editora O Lutador, 2010. 132 páginas ilustradas.

    4. Sexagenarius: reflexões pelos 60 anos de Taiobeiras. Belo Horizonte: Editora O Lutador, 2014. 120 páginas. Capa com pintura de Elisiana Alves.

    5. Crer e Lutar. Taiobeiras: Academia Taiobeirense de Letras e Artes (ATLAS), 2014. 116 páginas.
  • Conto: O menino e a fogueira

    * Levon Nascimento

    Era uma vez um menino que sonhava o ano inteiro com a noite da fogueira. Ele não tinha quase nada, só a esperança das luzes produzidas por aquele fogo santo. Para a pobre criança, era quando tudo ficava diferente.

    Esperava ansiosamente pelos traques, foguetes, chuvinhas de prata, biscoitos de goma de mandioca, xotes e baiões. Naquela noite de luz, pensava, tudo contribuía para que se sentisse gente e feliz.

    Chegou a data. Escureceu mais cedo. Noites frias de junho no sertão.

    Sob bandeirolas, pilhas de lenha amontoadas em frente a cada casa da vizinhança, à espera do ritual de riscar o palito de fósforo, menos na morada do menino que tanto desejara aquele momento.

    Quanto mais a noite caía, uma a uma, as fogueiras eram acesas pelos pais de cada família. Ao brilhar o fogo, se via a alegria da criançada correndo, barulhando, atirando os fogos que ganharam, provando da magia daquele instante pelo qual ele tanto esperara.

    E o menino sozinho, triste, amargurado e desesperançado. Pobre, mais do que nos outros dias. Parece que a miséria do ano inteiro também se recusava a partir naquela hora.

    É que o pai do menino havia saído um mês antes para trabalhar fora, boia-fria, sem terra, espoliado pela sanha dos coronéis da região, e não voltara ainda.

    Aquela que deveria ter se tornado a noite mais linda, era agora o momento do desprezo e do desamparo. Sim, porque o menino se sentia desprezado pela vida e desamparado pela sorte.

    Onde estaria seu pai? Por que não viera preparar e acender a fogueira? Por que não trouxe seus fogos? Por que não compareceu com o pão de cada dia? E o menino chorou.

    A lágrima que escorreu de seus olhinhos castanhos, da cor de tantos olhos de meninos desvalidos do sertão, rolou até o chão ressequido e poeirento de junho. Foi quando uma menina franzina lhe tocou a cabeça, abaixada de tristeza, chamando-o para ir brincar em volta da fogueira da casa em frente.

    Ele até relutou em levantar o semblante, envergonhado das lágrimas que ainda caíam. Mas se pôs de pé e a seguiu.

    Chegando lá, poucos passos adiante, olhos ainda banhados em choro, mas fixos no fogo que devorava as lenhas com o mesmo apetite com que moleque guloso engole uma boa canjica ou um pedaço de pão-de-ló, a partir do convite e do gesto de compaixão da menina, enxergou além da luz que dali se desprendia e viu mundos diferentes.

    Lugares de gente sem tantas necessidades insatisfeitas quanto as dele. Países de abraços e carinhos, com mesas fartas, casas confortáveis, roupas bonitas, livros ilustrados e histórias fantásticas. Espaços sem dor e injustiças, nos quais a terra é de quem nela trabalha e em que os pais não precisam ser boias-frias como o seu. Viu homens que não subjugam as companheiras, mulheres que não se deixam subjugar e crianças que ao invés de trabalhar duro – como ele – leem e se divertem. Enxergou a fantástica maravilha de não existirem mais coronéis nem capangas, nem homens que os obedecem ou que apanham deles. Percebeu que nesse lugar as armas foram trocadas por flores e a alegria vive estampada no rosto de cada pessoa. Em sua visão através da fogueira, as pessoas poderosas eram aquelas que dão a mão a quem tem a mínima precisão que for.

    A fogueira tornou-se um portal. O universo parou naquele instante que envolvia dor e mistério, contemplação e êxtase. O menino percebeu quem era e o que poderia ser, em que mundo vivia e para o qual lutaria por transformá-lo.

    “Acorda, João! Acorda!” – ele ouviu longe. Logo a voz conhecida se tornou próxima. “Acorda, João!”. Era Zacarias, o pai do pobre menino, atrasado pela falta de transporte, que acabara de chegar. Nas costas trazia um fardo com várias coisas, fogos, alimentos, roupas e alegria no semblante, fortemente marcado pelo tempo e pelo trabalho. Estava feliz em rever o filho. Isabel, a mãe, já estava preocupada com a demora do marido e a tristeza da criança.

    O menino João acordou de seu sonho, devolvido ao mundo real através do limiar aberto na luz da fogueira da vizinhança, despertado pela voz enternecida do pai. Abraçou-o, em gesto pouco comum na crueza do sertão. Afinal, ele vira esse carinho na visão do instante anterior.

    João não estava mais infeliz. Acordara. Para a vida. A fogueira, mística, lhe revelara que um outro mundo é possível, menos injusto, fraterno e solidário. Agora era possível viver a alegria poética daquele curto interregno de amor.

    Uma cantiga popular tocava em alguma casa. O som chegava para embalar a surreal lição que aprendera naquela noite de alegria verdadeira: “São João está dormindo/ Não acorda não!/ Acordai, acordai, acordai, João!”
  • "Crer e Lutar para combater amando" – diz Levon Nascimento

    Assista aqui ao vídeo com o meu discurso durante a cerimônia do lançamento do meu quinto livro, CRER E LUTAR, ocorrida na noite de 2 de junho de 2017 na Câmara Municipal de Taiobeiras.

  • Poema: A arma e o idiota

    * Por Levon Nascimento

    A arma nasceu na fábrica
    Vendida na loja
    Manejada pelo homem do treinamento
    Exibida no desfile militar
    Paramentou o traje policial
    Feriu o manifestante
    Iludiu o garoto
    Caiu em mãos imprecisas
    Deu sensação de poder
    Orgasmos de prazer
    Tornou-se absoluta
    Mais que Deus
    Objeto de culto
    Autorizou o usuário
    Roubada, furtada
    Contrabandeada
    Sacada pelo bandido
    Matou o jovem e o idoso
    Manuseada pelo machista
    Matou a mulher e as crianças
    Entendida como solução
    Matou o negro e o favelado
    Sonho do idiota
    Matou a inteligência nacional
    Colocada no altar da ignorância
    Pode eleger o político fascista
    A morte vive na arma
    Fonte de lucros
    No bolso do fabricante
    A arma nasceu na fábrica
    Vendida na loja…
    Pá! Pá! Pá!
  • As guerreiras negras da divisa da Bahia com Minas

    Casa de Feliciana e José Martins, ainda de pé em foto de 2007.

     * Por Levon Nascimento

    Feliciana era uma mulher negra que viveu no Areial, região próxima do Morro da Feirinha, na zona rural de Condeúba, Bahia, divisa com o norte de Minas Gerais.
    Ela fazia peneiras de taquaras retiradas de coqueiros e outras palmeiras, junto com as filhas Joaquina, Rita, Euflosina e Francisca. Era a única riqueza de seu trabalho que conseguiam comercializar. Artesãs de mão cheia! As taquaras eram amarradas com cordão de algodão lubrificado com cera de abelha. Começo, meio e fim do processo produtivo todo dominado por elas.
    Fabricação de peneiras de taquaras
    A terra onde Feliciana morava ficava sob um pedregulho aos pés do morro. Era assim desde seus pais e avós. Herança dos tempos do cativeiro. Quem sabe, um resquício de quilombo? Talvez, um dos poucos pedaços de chão que sobrou para ela e outros negros da região. Os terrenos bons eram propriedades de brancos.
    Mesmo com o rio banhando os fundos da casa, a infertilidade do solo exaustivamente usado por anos não deixava que nenhuma cultura rendesse. No máximo uns pés de mandioca, umas covas de milho e mangueiras que matavam a fome da meninada. E os pés de algodão, para fazer os cordões das peneiras.
    Feliciana foi casada com José Martins do Nascimento. Conta-se como lenda que ele foi mais de quarenta vezes a pé a São Paulo para trabalhar. Ganhava muito pouco. Quando chegava, era o suficiente para pagar as dívidas de sobrevivência da família. Já nas últimas expedições à capital paulista, levava consigo alguns dos filhos homens. Retirantes… Viúvas de marido vivo.
    Feliciana era rígida. Criou filhos e filhas numa pobreza material imposta pela realidade, mas criativamente rica de significados místicos, morais e éticos desenvolvidos pela capacidade de seu povo em ressignificar as agruras da vida e torná-las palatáveis e belas.
    Quando morria um anjo[1]de família negra ou branca, na ausência e na distância das instituições religiosas, era Feliciana e suas filhas que faziam o ritual de colocar o pequeno esquife[2], quando havia caixão, sobre rodias[3]na cabeça, cantando e dançando em círculos durante a sentinela[4], encomendando a pobre e desvalida alminha a Deus e Nossa Senhora. Cerimônia de sentido determinista, conformados que todos estavam com a sina e a naturalidade da mortalidade infantil, mas que remetia à necessidade de continuar vivendo e celebrando, mesmo em meio à miséria social.
    Morro da Feirinha, município de Condeúba/BA,
    divisa entre a Bahia e o norte de Minas.
    Para buscar pindoba, das quais se extraia as taquaras para as peneiras, Feliciana e suas filhas tinham de ir aos boqueirões das terras do Capitão Fabrício, o latifundiário que mandava na região da Feirinha do Morro. Fazenda a perder de vista, matas virgens nas divisas baianas com os sertões geraizeiros. Iam com todo o cuidado, escondidas, porque por diversas vezes foram ameaçadas de espancamento pelos capatazes do senhor de terras, punidas por “invadir” desobedientemente e extrair as riquezas naturais das quais aquele rico homem nem fazia caso. Mas elas insistiam na ousadia. Era preciso viver.
    De sexta para sábado, aquelas mulheres negras, vestidas de longas saias pretas e blusas brancas de algodão, por elas mesmas cultivado, tecido, costurado e ornado, punham-se a caminho de Condeúba. Sete léguas[5]de distância, a pé. Sobre as cabeças dezenas de peneiras. Entregavam a preços módicos o fruto sofrido de seu trabalho a comerciantes de Guajeru, que por elas já esperavam. Certamente conseguiam lá na frente dinheiro melhor naqueles produtos.
    Uma fila indiana de mulheres negras, corpos esguios, quase sempre famélicas. Enquanto isso passavam os carros de boi das famílias brancas. Cumprimentavam-se, compadres e comadres que eram, mas nenhum se propunha a pelo menos levar a carga de peneiras daquelas criaturas até a feira da cidade-sede do município. Contavam apenas com seus corpos e com a fé nas forças divinas para as quais encaminhavam as pobres alminhas brancas e negras.
    No século XIX, na região do atual Benin, na África, os imperialistas brancos se defrontaram com a bravura das guerreiras mino, amazonas negras que desde o nascer recebiam treinamento de suas tribos do Reino de Daomé para dar a vida lutando contra os invasores. Eram as Ahosi. Relatos europeus informam que elas possuíam muito mais vigor, bravura e técnica do que os combatentes do sexo masculino e que só a muito custo se conseguia derrotá-las, quando conseguiam.
    Guardadas as devidas proporções, Feliciana e suas filhas, como muitas outras mulheres, foram Ahosis do sertão. Bravas, rigorosas, tecnicamente eficientes, lutadoras numa terra onde tudo lhes ignorava ou era hostil, desafiadoras de uma sociedade que as queria mortas, rebeldes insistindo em viver.
    Feliciana morreu em julho de 1976. Eu tinha cinco meses de idade quando isso ocorreu. Ela nasceu e viveu num país que nunca se deu ao trabalho de saber de sua existência. Não tinha documentos, não votava, não era alfabetizada, nunca se aposentou. Retornou ao infinito durante uma feroz ditadura militar que prendia, torturava e matava pessoas que pensavam em construir um Brasil mais digno e justo para os seus descendentes. Feliciana era minha bisavó, mãe de Manoel José do Nascimento, meu avô materno. Uma Ahosi brasileira.
    * Levon Nascimento é sociólogo, professor de História e mestrando em “Estado, Governo e Políticas Públicas” pela Fundação Perseu Abramo e Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais.



    [1]Criança que morria geralmente antes de completar um ano de vida. Mortalidade infantil.
    [2]Caixão de defunto.
    [3]Pano enrolado em círculo e posto sobre a cabeça das mulheres para servir de anteparo para o carrego de potes com água e outros objetos pesados.
    [4]Velório.
    [5]Uma légua, segundo a tradição sertaneja, equivaleria a seis quilômetros.