Por Levon Nascimento
As Reservas de Desenvolvimento Sustentável (RDS) são um tipo de unidade de conservação criado para proteger a natureza sem excluir as populações humanas que dela dependem. Ao contrário de áreas de preservação estrita, as RDS conciliam o uso sustentável dos recursos naturais com o modo de vida de comunidades tradicionais. Previstas pela Lei nº 9.985/2000, que institui o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), elas representam um modelo alternativo de desenvolvimento: mais ecológico, participativo e descentralizado (BRASIL, 2000).
1. O que é uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável?
De acordo com o Art. 20 do SNUC, uma RDS é uma área natural que abriga populações tradicionais cuja sobrevivência depende de formas sustentáveis de uso da natureza, desenvolvidas ao longo de gerações. Essas práticas são adaptadas ao ambiente local e desempenham papel importante na proteção da biodiversidade (BRASIL, 2000).
As RDS não apenas preservam a fauna e flora, mas também reconhecem o valor dos saberes tradicionais. Cada reserva deve ter um Conselho Deliberativo, formado por representantes das comunidades locais, órgãos públicos e sociedade civil, e ser regida por um Plano de Manejo, que estabelece regras de uso e conservação (MATTOS et al., 2011).
2. Para que serve uma RDS?
As RDS têm dois objetivos principais: conservar o meio ambiente e melhorar a qualidade de vida das populações tradicionais (BRASIL, 2000). Em outras palavras, elas funcionam como áreas protegidas que promovem a biodiversidade sem excluir as pessoas, ao contrário do modelo clássico de “florestas intocadas”.
Como mostram Queiroz e Peralta (2006), as RDS permitem a realização de atividades como pesca artesanal, coleta de frutos, cultivo de roças e até o ecoturismo, desde que essas ações estejam em harmonia com a conservação ambiental. Além disso, elas incentivam a pesquisa científica, a educação ambiental e o uso racional dos recursos naturais, tudo isso com a participação ativa das comunidades (PERALTA, 2002).
3. Como funcionam os fluxos econômicos em uma RDS?
Nas RDS, o dinheiro circula a partir de atividades sustentáveis que geram renda sem destruir a natureza. Entre os principais fluxos econômicos estão:
- Extrativismo vegetal, como a coleta de castanha-do-Brasil, açaí, óleos e fibras, com processamento artesanal e venda por meio de cooperativas;
- Pesca artesanal, respeitando os períodos de reprodução e as cotas estipuladas pelo plano de manejo;
- Roças tradicionais, com sistemas de policultura adaptados ao solo e ao clima local;
- Ecoturismo comunitário, onde visitantes pagam por hospedagem, trilhas, passeios e produtos locais (QUEIROZ & PERALTA, 2006; DIAS et al., 2007).
Essas atividades geram benefícios econômicos diretos e indiretos, como aponta o estudo de Peralta (2002) sobre a RDS Mamirauá, no Amazonas. Lá, a autogestão comunitária aumentou a renda familiar sem comprometer a floresta.
4. A importância das RDS para a natureza e as pessoas
As RDS são espaços de convivência equilibrada entre seres humanos e o meio ambiente. Elas ajudam a proteger espécies ameaçadas, restaurar florestas, manter rios limpos e conservar solos férteis. A RDS Mamirauá, por exemplo, abriga mais de 400 espécies de aves, 45 de mamíferos e cerca de 300 espécies de peixes, além de ser um exemplo de modelo participativo de gestão (WIKIPÉDIA, 2024).
Além do impacto ecológico, as RDS têm um papel social e cultural importante. Elas valorizam identidades locais, línguas, rituais e práticas tradicionais, protegendo comunidades que muitas vezes sofrem com a exclusão social. Como destacam Lima-Ayres e Alencar (1993), as populações locais passam a ter voz ativa nas decisões sobre o território, o que fortalece a cidadania ambiental.
Essas reservas também funcionam como barreiras ao desmatamento, controlam queimadas e reduzem o avanço do agronegócio predatório, mantendo corredores ecológicos essenciais para o equilíbrio climático (KITAMURA, 2001).
5. Por que políticos e empresários resistem às RDS?
Apesar de seus benefícios, a criação de RDS costuma enfrentar forte resistência de setores políticos e empresariais. Isso ocorre por diversos motivos:
- Restrição à expansão econômica convencional: a criação de uma RDS impede o avanço de grandes empreendimentos como soja, pecuária ou mineração (MATTOS et al., 2011);
- Conflitos fundiários e políticos: prefeitos e parlamentares muitas vezes representam interesses de fazendeiros e investidores locais, que temem perder espaço e influência (RIBEIRO, 1994);
- Lobby empresarial no Congresso: grupos ligados ao agronegócio pressionam por leis que flexibilizem o uso da terra, criando um ambiente de insegurança jurídica para as RDS (MATTOS et al., 2011).
Esse cenário faz com que a demarcação de novas reservas enfrente atrasos, judicializações e campanhas de desinformação, mesmo quando o território já cumpre função ambiental e social essencial.
Conclusão
As Reservas de Desenvolvimento Sustentável representam uma alternativa viável ao modelo predatório de desenvolvimento, pois unem proteção ambiental, valorização cultural e justiça social. No entanto, seu sucesso depende da vontade política e do reconhecimento do direito das comunidades locais de viver com dignidade e autonomia.
A resistência que enfrentam revela o conflito entre dois projetos: o do lucro rápido, concentrado e destrutivo, e o do futuro comum, sustentável e partilhado.
Referências
BRASIL. Lei nº 9.985, de 18 de julho de 2000. Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC).
DIAS, A. et al. (2007). Aspectos socioeconômicos e ambientais em RDS Ponta do Tubarão. Gaia Scientia.
KITAMURA, P. C. (2001). Biodiversidade na Amazônia: por uma abordagem regional das unidades de conservação.
LIMA-AYRES, D.; ALENCAR, E. (1993). Ocupação humana na área da RDS Mamirauá. Anais da ABEP.
MATTOS, P. P. et al. (2011). Reserva de Desenvolvimento Sustentável: avanço na concepção de áreas protegidas? Sociedade & Natureza.
PERALTA, N. (2002). Implantação do Programa de Ecoturismo na RDS Mamirauá. OLAM – Ciência e Tecnologia.
QUEIROZ, H. L.; PERALTA, N. (2006). Manejo integrado e gestão participativa em RDS. Gaia Scientia.
RIBEIRO, N. F. (1994). Um novo modelo de proteção ambiental para Mamirauá.
WIKIPÉDIA (2023). Reserva de Desenvolvimento Sustentável.
WIKIPÉDIA (2024). Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá.








