Por Levon Nascimento
A seguir, um texto síntese das leituras que fiz de dois autores regionais, em campos científicos distintos, Rômulo Soares Barbosa, na sociologia, e Lucineia Lopes Bahia Ribeiro, na economia, sobre a monocultura de Eucalipto no nosso Alto Rio Pardo, Norte de Minas Gerais.
Desde as primeiras plantações comerciais de eucalipto no Alto Rio Pardo, durante a Ditadura Militar (1964-1985), a paisagem e a economia da região passaram por transformações profundas. Terras antes dedicadas ao extrativismo dos frutos do cerrado, como o pequi, ao cultivo de subsistência e à pecuária familiar foram progressivamente cedidas a grandes empresas florestais, atraídas pela demanda crescente de carvão vegetal para a siderurgia mineira. Esse modelo de monocultura trouxe lucros expressivos: projeções de projetos exclusivos de carvão vegetal indicavam taxas internas de retorno superiores a 30 %, mesmo em cenários de preços conservadores, e margens líquidas que chegavam a quase 100 % quando combinados carvão, madeira, lenha e óleo essencial (RIBEIRO, 2020).
Contudo, a mesma força que impulsionou a economia local passou a ameaçar o frágil equilíbrio socioambiental dos gerais. A elevada taxa de transpiração do eucalipto – quatro vezes maior que a de espécies nativas durante o período seco – acelerou o rebaixamento de nascentes e o assoreamento de córregos, reforçando as pressões sobre a disponibilidade hídrica numa região que em regra enfrenta cinco meses secos por ano (BARBOSA, 2023). Enquanto estudos técnicos ressaltavam que, sob manejo responsável, o eucalipto poderia consumir água de forma comparável a outras florestas plantadas e oferecer benefícios como sequestro de carbono e proteção do solo (RIBEIRO, 2020), as comunidades tradicionais relatavam diminuição de vazão e até o desaparecimento de pontos de captação que sustentavam o consumo doméstico e a criação de pequenos animais.
A tensão entre visões técnicas e vivenciais tornou-se evidente na disputa por políticas públicas. Por um lado, pesquisadores econômicos elogiavam o arcabouço regulatório brasileiro – da Política Nacional do Meio Ambiente ao Novo Código Florestal – como suficiente para garantir a sustentabilidade das plantações e abrir caminho a programas de créditos de carbono (RIBEIRO, 2020). Por outro, lideranças geraizeiras denunciavam que tais normas não freavam a expansão desigual da monocultura, obrigando-as a promover autodemarcações e articular esforços para demarcar assentamentos agroextrativistas e reservas de desenvolvimento sustentável (BARBOSA, 2023). Essa mobilização não surgiu por acaso: confrontos como o “Trancamento da Rodovia 251” em 2013 e greves de fome em 2014 deram voz a quem via no “deserto verde” um cerco ao modo de vida e ao direito à água.
O impacto socioambiental se fez mensurável. Mapas de uso do solo comparando 2000 e 2020 mostram que, em áreas onde houve reconversão de eucalipto para sistemas agroextrativistas, a cobertura de cerrado alcançou 41 %, contra apenas 18 % duas décadas antes, e os corpos d’água passaram de 0,03 % para 0,17 % da paisagem (BARBOSA, 2023). Ao mesmo tempo, essa reconversão tornou-se vetor de revitalização de mananciais e de práticas tradicionais de manejo sustentável, reforçando o caráter multifuncional do cerrado como fonte de recursos e preservação da biodiversidade.
As empresas, por sua vez, continuam a explorar as vantagens competitivas do monocultivo, beneficiando‑se de tecnologias genéticas que reduzem ciclos de crescimento e custos de produção, enquanto as comunidades avançam em processos de regularização fundiária. A diferença de perspectiva ilustra um dilema central: o eucalipto pode ser modelo de empreendimento economicamente rentável e teoricamente sustentável, mas sem uma gestão que integre demandas socioambientais, perpetua desigualdades e agrava a crise hídrica local e climática global (RIBEIRO, 2020; BARBOSA, 2023).
Na prática, a monocultura intensificou a vulnerabilidade do entorno rural ao ciclo de secas, ampliou riscos de erosão e diminuiu a resiliência dos ecossistemas. Ao mesmo tempo, o potencial de diversificação dos projetos florestais – explorando óleo essencial, madeira e lenha – mostrou‑se promissor para reduzir riscos financeiros, mas não abordou integralmente a urgência de conservar os recursos hídricos (RIBEIRO, 2020). Somente a partir da conscientização crescente e da organização das comunidades geraizeiras, por meio de conferências locais e redes de articulação nacional, será possível pressionar por uma reconversão que alie produção e proteção ambiental (BARBOSA, 2023).
Por fim, o Alto Rio Pardo vive um momento de virada: os ganhos econômicos oriundos da monocultura de eucalipto não podem ser dissociados dos danos socioambientais que impuseram ao cerrado e às populações tradicionais. A tomada de consciência coletiva e a mobilização em torno de políticas territoriais de base comunitária mostram-se fundamentais para redefinir esse modelo. É imprescindível que o equilíbrio entre lucro e preservação seja reconfigurado, de modo que os próximos ciclos de plantio garantam água, biodiversidade e justiça social para as gerações futuras.
Referências Bibliográficas
BARBOSA, Rômulo S. Comunidades Geraizeiras do Alto Rio Pardo – MG: Reconversão Territorial e Produção de Água no Cerrado. Revista Verde Grande: Geografia e Interdisciplinaridade, Montes Claros, v. 5, n. 2, 2023.
RIBEIRO, Lucineia Lopes Bahia. Análise do Resultado Financeiro da Produção de Eucalipto das Cidades do Território do Alto Rio Pardo – MG. 2020. Guarujá, SP: Editora Científica Digital, 2020.













