Tag: Mulher

  • Será que a gente precisa vencer na vida?

    Será que a gente precisa vencer na vida?

    Resumo de leituras de Levon Nascimento

    “Vencer na vida” — quem nunca ouviu essa expressão como se fosse uma meta natural, quase uma sentença? Desde pequenos, somos atravessados por essa ideia como se ela fosse a luz no fim do túnel: para uns, vencer é ter muito dinheiro; para outros, estabilidade, respeito, ou talvez um diploma pendurado na parede. Há ainda quem enxergue a vitória como um estado subjetivo, de autorrealização. Mas, em quase todas essas versões, existe um pano de fundo comum: a meritocracia — a crença de que, com esforço e força de vontade, todo mundo chega lá.

    O site A Firma Preta (2024) resume bem essa lógica: trata-se de uma “narrativa que associa sucesso a consumo e reconhecimento”. E não faltam estudos acadêmicos para reforçar o quanto esse ideal de sucesso está entranhado nas promessas da educação, da performance e da autoimagem (UFBA, 2019; LIPOVETSKY, 1986).

    No entanto, quando olhamos de perto, essa ideologia começa a mostrar suas contradições — e feridas. Ela pressiona especialmente quem já nasce em desvantagem: jovens, pretos, pobres, mulheres. Sob o mito de que todos têm as mesmas chances, transforma a exclusão em culpa pessoal. A pesquisa da UFBA (2019) é clara: para os jovens das periferias, buscar um emprego formal vira quase uma fuga do abismo social — uma estratégia para escapar da vulnerabilidade —, mesmo quando a porta do mercado está fechada para eles.

    Com mulheres e pessoas negras, o peso é ainda maior. Elas enfrentam a dureza das estruturas desiguais e, ainda assim, são responsabilizadas pelos “fracassos” que o próprio sistema impõe. Como explica Demarchi (2010), a meritocracia funciona como um mecanismo de “naturalização das desigualdades”, mascarando injustiças sociais sob a aparência de incompetência individual.

    E os paradoxos não param por aí. Na escola pública, por exemplo, ensina-se com convicção que “estudar abre portas” (UNESP, 2015). Mas quem frequenta essas escolas sabe que as portas não são as mesmas para todos — e que há trancas invisíveis para muitos. Lipovetsky (1986) alerta que até mesmo a busca por felicidade interior, vendida como alternativa ao sucesso material, virou uma exigência sufocante. A nova regra é ter que dar certo por fora e por dentro, ser bem-sucedido e ainda parecer autêntico, calmo, resiliente.

    Essa lógica esconde um jogo cruel: ao eleger o indivíduo como único responsável por sua trajetória, ignora que o ponto de partida não é o mesmo para todos. Para quem nasce nas bordas da sociedade, “vencer na vida” é como correr uma maratona com pedras nos sapatos — e ainda sorrir para as câmeras. O fracasso vira motivo de vergonha. A Firma Preta (2024) chama atenção para isso: essa cultura gera “ansiedade e culpa”, e mina silenciosamente a saúde mental de quem não consegue alcançar o inalcançável.

    Talvez por isso seja urgente repensar o que significa “vencer”. Será que essa palavra precisa continuar sendo um troféu que poucos alcançam? E se vencer fosse, simplesmente, viver com dignidade, com tempo para respirar, com afeto e segurança? Talvez, como sugerem tantas vozes dissidentes, a verdadeira vitória seja existir sem ter que se justificar o tempo todo.

    REFERÊNCIAS
    DEMARCHI, Guilherme Silva. Crítica da ideologia meritocrática. 2010. Disponível em: https://www.academia.edu/download/104695524/2010_GuilhermeDemarchiSilva.pdf. Acesso em: 1 ago. 2025.
    FIRMA PRETA. Vencer na vida é uma ideologia? Substack, 2024. Disponível em: https://firmapreta.substack.com/p/vencer-na-vida-e-uma-ideologia. Acesso em: 1 ago. 2025.
    LIPOVETSKY, Gilles. A era do vazio. 1986. Disponível em: https://www.academia.edu/download/56368823/Gilles_Lipovetsky_-_A_Era_Do_Vazio_1.pdf. Acesso em: 1 ago. 2025.
    UFBA. Jovens e trabalho no contexto baiano. Repositório Institucional, 2019. Disponível em: https://repositorio.ufba.br/handle/ri/32266. Acesso em: 1 ago. 2025.
    UNESP. Meritocracia na educação pública. Repositório Institucional, 2015. Disponível em: https://repositorio.unesp.br/entities/publication/c8f4ad2d-4bc5-40ba-b7d7-ab165d328b47. Acesso em: 1 ago. 2025.

  • 13 de maio: Por que Maria é importante para a humanidade?

    13 de maio: Por que Maria é importante para a humanidade?

    A figura de Maria, mãe de Jesus, transcende fronteiras religiosas e temporais, consolidando-se como um dos pilares mais complexos e inspiradores da espiritualidade ocidental. Sua relevância histórica não se restringe ao papel biológico de dar à luz o Cristo, mas se expande em camadas teológicas, sociais e culturais que a tornam um arquétipo universal. No contexto do 13 de maio de 2025, data que celebra Nossa Senhora de Fátima, refletir sobre sua importância exige um olhar que integre tradição e contemporaneidade, dogma e humanidade.

    1. A teologia clássica: mãe de Deus e nova Eva

    Na teologia cristã, Maria é definida como Theotokos (Mãe de Deus), título consolidado no Concílio de Éfeso (431 d.C.), que enfatiza sua centralidade no mistério da Encarnação (Arquidiocese de Uberaba). Os Padres da Igreja, como Irineu de Lyon, a viram como a “Nova Eva”, cujo “sim” ao anjo Gabriel reparou a desobediência da primeira mulher (Rosary Center). Essa perspectiva a coloca não apenas como protagonista da salvação, mas como mediadora graciosa, ponte entre o divino e o humano. Dom Leonardo Steiner, citado pelo IHU, reforça que em Maria “encontramos respostas” para inquietações existenciais, pois sua disponibilidade a Deus a torna modelo de fé ativa.

    2. A mariologia feminista: entre a revolução e a tradição

    A teologia feminista, porém, desafia visões tradicionais que reduziram Maria a um ícone passivo de pureza. Analisando criticamente sua figura, teólogas recuperam sua agência: ela foi uma mulher judia que enfrentou riscos sociais ao aceitar uma gravidez fora dos padrões (James Tabor, IHU). Para Michele Giulio Masciarelli (IHU), Maria é “mais jovem do que o pecado”, não por negação da realidade, mas por sua coragem em abraçar um projeto disruptivo. Essa releitura a transforma em símbolo de resistência, especialmente em contextos onde mulheres são marginalizadas. Como afirma o IHU, “num momento da história, o centro de tudo está numa mulher”, ecoando a ideia de que Maria personifica a força do feminino sagrado.

    3. Maria pós-Vaticano II: humanidade e universalidade

    O Concílio Vaticano II (1962-1965) reposicionou Maria como “membro eminente da Igreja”, evitando excessos devocionais que a divinizavam. O Papa Francisco, conforme destacado pelo IHU, lembra que “Maria é mãe, não deusa”, reafirmando sua humanidade. Essa abordagem ressalta sua trajetória terrena: uma mãe judia que viveu dúvidas, dores e alegrias, como qualquer pessoa. Leonardo Boff, em A Porção Feminina de Deus, assinala que Maria revela a face materna do Divino, integrando o feminino na compreensão do sagrado. Sua história, assim, torna-se acessível a todos, independentemente de credo.

    4. Maria na pós-modernidade: respostas a uma crise de sentido

    Em meio à fragmentação pós-moderna, Maria emerge como figura de reconciliação. Artigos do IHU (Instituto Humanitas Unisinos) destacam que sua “glorificação” não a distancia da realidade, mas a aproxima das crises humanas. A poesia de Pedro Casaldáliga, que a transforma em “todas as mulheres”, ilustra como sua imagem transcende o religioso, simbolizando esperança para os oprimidos. Ela é, nas palavras de Casaldáliga, a mãe dos sem-terra, das viúvas, dos excluídos — uma metáfora da compaixão ativa.

    Maria: espelho do humano e do divino

    Maria não é importante apenas por quem gerou, mas por quem ela foi: uma mulher que encarnou paradoxos — humilde e revolucionária, silenciosa e profética, humana e transcendente. Sua história desafia dogmas estéreis e convida a uma espiritualidade encarnada, onde o divino se manifesta no cotidiano. No 13 de maio de 2025, celebrá-la é reconhecer que, em sua trajetória, encontramos um mapa para navegar as complexidades da existência, unindo céu e terra, tradição e renovação. Como síntese do feminino sagrado e da disponibilidade ao mistério, Maria permanece, afinal, uma resposta viva aos anseios mais profundos da humanidade.

    Referências
    ARQUIDIOCESE DE UBERABA. A Virgem Maria na Teologia. Arquidiocese de Uberaba, [s.d.]. Disponível em: https://arquidiocesedeuberaba.org.br/a-virgem-maria-na-teologia/. Acesso em: 12 maio 2025.
    CASALDÁLIGA, Pedro. Poesia de Pedro Casaldáliga transforma Maria em todas as mulheres. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/605492-poesia-de-pedro-casaldaliga-transforma-maria-em-todas-as-mulheres. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Como Maria, a mãe judia de Jesus, se tornou a virgem que deu à luz a Deus. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Entrevista com James D. Tabor. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/78-noticias/602004-como-maria-a-mae-judia-de-jesus-se-tornou-a-virgem-que-deu-a-luz-a-deus-entrevista-com-james-d-tabor. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Contemplação do encontro de Maria com o Ressuscitado. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/78-noticias/597943-contemplacao-do-encontro-de-maria-com-o-ressuscitado. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Dom Leonardo: Em Maria, encontramos respostas; nos tornamos pessoas mais disponíveis. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/categorias/615135-dom-leonardo-em-maria-nos-encontramos-respostas-nos-nos-tornamos-pessoas-mais-disponiveis. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Francisco encerra polêmicas seculares sobre Nossa Senhora: “Maria é mãe, não deusa”. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/607814-francisco-encerra-polemicas-seculares-sobre-nossa-senhora-maria-e-mae-e-nao-deusa-expressoes-as-vezes-exageradas. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Maria, a glorificada, e a crise pós-moderna. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/185-noticias/noticias-2016/559142-maria-a-glorificada-e-a-crise-pos-moderna. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Maria de Nazaré à luz da mariologia desenvolvida a partir do Concílio Vaticano II. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/78-noticias/598632-maria-de-nazare-a-luz-da-mariologia-desenvolvida-a-partir-do-concilio-vaticano-ii. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Maria, a mulher mais jovem do que o pecado. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Artigo de Michele Giulio Masciarelli. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/185-noticias/noticias-2016/563199-maria-a-mulher-mais-jovem-do-que-o-pecado-artigo-de-michele-giulio-masciarelli. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Não façam isso com a mãe de Jesus. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/78-noticias/589385-nao-facam-isso-com-a-mae-de-jesus. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Para Maria, por Jesus: A virgem na teologia feminista. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/categorias/615453-para-maria-por-jesus-a-virgem-na-teologia-feminista. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. “Num momento da história, o centro de tudo está numa mulher”. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/sobre-o-ihu/78-noticias/574634-num-momento-da-historia-o-centro-de-tudo-esta-numa-mulher. Acesso em: 12 maio 2025.
    BOFF, Leonardo. A porção feminina de Deus. Leonardo Boff, 30 ago. 2014. Disponível em: https://leonardoboff.org/2014/08/30/a-porcao-feminina-de-deus/. Acesso em: 12 maio 2025.
    ROSARY CENTER. Maria na Teologia dos Padres – Parte 2. Rosary Center, [s.d.]. Disponível em: https://rosarycenter.org/pt/ll73n2-mary-in-the-theology-of-the-fathers-part-2. Acesso em: 12 maio 2025.
    REVISTA CULTURA TEOLÓGICA. Maria de Nazaré: Perspectivas teológicas. Revista Cultura Teológica, [s.d.]. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/culturateo/article/download/14360/11834/38580. Acesso em: 12 maio 2025.

  • Dia Internacional da Mulher 2025

    Dia Internacional da Mulher 2025

    Em um mundo marcado por guerras, como em Gaza, na Palestina, na República Democrática do Congo (RDC), e pelo avanço de governos de extrema-direita que ameaçam direitos femininos, o Dia Internacional da Mulher ganha um significado urgente: não é apenas sobre celebrar conquistas, mas sobre reafirmar a luta coletiva pela dignidade.

    Mulheres em zonas de guerra enfrentam violências específicas: estupros como arma de conflito (como na RDC), deslocamentos forçados (em Gaza) e a perda de redes de apoio. Celebrar, hoje, é amplificar suas vozes. Doar para organizações locais lideradas por mulheres ou pressionar governos por políticas humanitárias, são gestos concretos. A solidariedade global fortalece a ideia de que nenhuma mulher está isolada.

    A extrema-direita ataca direitos reprodutivos, igualdade no trabalho e a própria noção de autonomia feminina. Combater isso exige união entre movimentos sociais. Vote em candidatas que defendam pautas feministas, participe de protestos e use as redes sociais para denunciar discursos de ódio. Lembre-se: a Marcha das Mulheres de 2017, contra Trump, mostrou que ocupar espaços públicos ainda é uma arma poderosa.

    Não há feminismo universal. Mulheres negras, refugiadas, indígenas ou LGBTQIA+ enfrentam opressões distintas. Incluir suas demandas é essencial. No Brasil, por exemplo, a luta de lideranças como Maria da Penha ou Sônia Guajajara ilustra como justiça de gênero se conecta a combates raciais e ambientais.

    Em tempos de polarização, informação é resistência. Promova debates em escolas, comunidades ou online sobre como guerras e autoritarismos afetam mulheres. Histórias como a da ativista palestina Ahed Tamimi ou das congolesas que criam cooperativas em meio à guerra revelam coragem e inspiram ação.Celebrar o 8 de Março, hoje, é honrar as que resistem nos escombros e as que combatem o fascismo cotidiano. É reconhecer que, mesmo na escuridão, a luta feminina acende fogueiras. Como escreveu a poeta palestina Najwan Darwish: “Não há vitória sem que o chão inteiro se torne nossa pátria”. Que nossa pátria seja a justiça — e que nenhuma mulher fique para trás.

    Celebrar o 8 de Março, hoje, é honrar as que resistem nos escombros e as que combatem o fascismo cotidiano. É reconhecer que, mesmo na escuridão, a luta feminina acende fogueiras. Como escreveu a poeta palestina Najwan Darwish: “Não há vitória sem que o chão inteiro se torne nossa pátria”. Que nossa pátria seja a justiça — e que nenhuma mulher fique para trás.

  • Dia Internacional da Mulher – 2014

    As mulheres mais bonitas são as que lutam por um mundo melhor!
  • Viva as mulheres que lutam

    Viva as mulheres que lutam…
    Especialmente as mulheres negras, pobres, faveladas, arrimos de família…
    Sensibilize-se por elas.

  • A direita católica rejeita o lava-pés

    José Lisboa Moreira de Oliveira*
    Texto de José Lisboa Moreira de Oliveira no site Adital


    A mídia tem noticiado que grupos ultraconservadores da Igreja Católica Romana estão criticando o papa Francisco por ele ter incluído na cerimônia simbólica do Lava-pés, na última quinta-feira santa, duas mulheres, sendo uma delas mulçumana. Tais grupos defendem que neste ritual (que, diga-se claramente, não é sacramental, mas apenas simbólico) só devem ser admitidos “varões”, ou seja, pessoas do sexo masculino. Tal atitude é profundamente lamentável porque rompe clara e diretamente com o profundo significado de toda a simbologia do Lava-pés. Tais pessoas comportam-se como Pedro, o qual, compreendendo bem o que o gesto de Jesus significava, recusou-se terminantemente a ter os pés lavados pelo Mestre (Jo 13,6-8).

    Antes de tudo é preciso dizer que o gesto do lava-pés, que costuma ser repetido na missa da Ceia do Senhor da quinta-feira santa, não é um gesto sacramental, no sentido técnico da expressão, mas apenas algo meramente simbólico, apesar da profundidade do seu significado. Ao lavar os pés de seus discípulos, Jesus entendia comunicar por meio deste gesto uma mensagem profunda acerca da essência do seu seguimento. Ele quis se comportar como um escravo (em grego: doulos) que realizava um serviço (diakonia) considerado dentro do contexto cultural de então como humilhante e indigno de uma pessoa livre. Naquela época somente os escravos e as mulheres faziam esse tipo de serviço. Ao realizar aquele gesto Jesus entende claramente reverter a lógica cultural de então, deixando bem claro que todos aqueles e aquelas que queriam entrar no seu seguimento deviam “lavar os pés uns dos outros” (Jo 13,14). Quem quisesse ser seu discípulo ou discípula devia ser servidor ou servidora (diákonos) de todos os outros (Mc 10,44), de modo particular dos que estavam prostrados, cansados e abatidos (Mt 9,36).

    Dentro deste contexto, os discípulos (o texto não fala de apóstolos) representam a comunidade dos seguidores e das seguidoras de Jesus de todas as épocas e de todos os lugares. Não tem o menor sentido entender a simbologia do lava-pés como sendo um gesto sacramental que instituía naquela ocasião um ministério ordenado hierárquico androcêntrico (formado só por homens) no sentido restrito que se entende atualmente na Igreja Católica Romana. Isso seria violentar o texto e tirar-lhe todo o significado que Jesus quis lhe dar (Jo 13,12-17). A crítica ao papa Francisco não tem sentido, uma vez que a inclusão de duas mulheres (sendo uma mulçumana) na cena do lava-pés ajuda a entender, em pleno século XXI, a profundidade do gesto de Jesus e o que deve significar o cristianismo em nossos dias. O gesto do papa Francisco ajuda-nos a perceber com mais clareza que a Igreja Católica Romana, se quiser ser uma comunidade de discípulos e de discípulas de Jesus, deve inclinar-se diante da humanidade e lavar os pés doloridos e chagados de todos aqueles e de todas aquelas que são mantidos na exclusão, inclusive pelo próprio sistema religioso católico romano.

    Neste sentido o gesto do papa Francisco se conecta com outros gestos de Jesus: a acolhida e inclusão da mulher estrangeira (Mc 7,24-30) e o deixar-se tocar por outra que sofria de sangramento permanente (Mc 5,25-34). Jesus, no seu tempo, rompe com padrões e normas religiosas consideradas sacrossantas e chega a denunciar os chefes religiosos que, para manter leis humanas, deixavam de lado o mandamento divino (Mc 7,9), que pode ser resumido no cuidado com as pessoas sofridas (Mc 3,1-6). Lamentavelmente, vinte séculos depois, ainda existem cristãos que não entendem nada disso e continuam com práticas absurdas excludentes e sem mais nenhum sentido para o cristianismo. Com isso deturpam a verdadeira mensagem de Jesus e impedem à Igreja de anunciar a Boa Notícia do Evangelho.

    A crítica da direita ultraconservadora católica se fundamenta na hipótese, hoje cada vez mais insustentável, de que na última ceia Jesus se reuniu apenas com os doze apóstolos, ou seja, com seus discípulos varões. Digo insustentável porque cada vez mais estudos sérios vão revelando que esta hipótese não tem o menor cabimento e foge inclusive da lógica dos próprios evangelhos. Jesus, contrariando os costumes culturais de seu povo e de sua época, permitiu que no grupo de pessoas que o seguiam existisse certo número de mulheres (Lc 8,1-3). Segundo o relato de Lucas havia inclusive mulheres casadas (Joana, mulher de Cuza, alto funcionário de Herodes), o que era considerado absurdo para os padrões culturais da época. Digo absurdo porque, segundo os costumes de então, a mulher devia permanecer em casa e quando saísse em público devia passar despercebida. Não se admitia, por exemplo, que uma mulher, especialmente se casada, conversasse em público com um homem (Jo 4,27).

    Ora, se Lucas admite a presença de mulheres discípulas no grupo de Jesus e se todos os quatro evangelhos canônicos registram que estas mulheres discípulas estavam em Jerusalém no momento da morte e da ressurreição de Jesus, fica impossível, senão contraditório, afirmar que elas não estavam presentes no momento da última ceia. Não teria o menor sentido Jesus dispensá-las num dos momentos mais significativos de sua vida. Jesus não teria sido coerente com a sua prática subversiva de inclusão se, após utilizar-se do dinheiro das mulheres para montar a ceia (Lc 8,3), as tivesse proibido de sentar-se com ele naquele momento celebrativo tão importante.

    Além disso, sabemos pela história do judaísmo da época de Jesus que as mulheres tinham uma participação significativa na celebração da ceia pascal. Além de preparar as iguarias e as mesas, eram as mulheres que davam início à celebração, acendendo as luzes do ambiente, enquanto o chefe da casa recitava as famosas sete bênçãos. Cabia à mulher do dono da casa acender as luzes do Menorá, o famoso candelabro judaico formado por sete hastes e sete velas. Cabia ainda à mulher do dono da casa passar-lhe as taças de vinho para que o marido rendesse graças a Javé. Lucas, mesmo que indiretamente, acena para uma possível presença de mulheres no recinto da última ceia, pois ao narrar o episódio não diz que Jesus “tomou o cálice”, mas que “recebendo a copa de vinho, deu graças” (Lc 22,17). É lamentável que os tradutores machistas, inclusive da Bíblia Edição Pastoral e da versão protestante conhecida como de João Ferreira de Almeida, continuem usando o verbo “tomar” e não “receber”. A exceção é a Tradução Ecumênica da Bíblia (TEB) na qual se lê a seguinte versão: “Ele recebeu então uma taça…”.

    A Igreja Católica Romana sempre chegou atrasada em muitas conquistas da humanidade. Ela, até pouco tempo atrás, foi contra a liberdade, a liberdade religiosa, a liberdade de consciência, a autonomia da pessoa etc. E hoje muitos membros da hierarquia aceitam estas conquistas mais por oportunismo do que por fidelidade ao Evangelho. Já está passando da hora de repensar com seriedade o lugar da mulher na Igreja. Continuar a tratá-la como “mão de obra barata”, como “pau para toda obra”, excluindo-a dos ministérios ordenados e dos cargos de coordenação mais altos na Igreja é, antes de tudo, ir na contramão do Evangelho e causar um grande estrago na missão evangelizadora. Não dá, pois, para continuar assim. Já passou da hora de mudar esta situação de exclusão, de discriminação e de preconceito.

    [* Autor de Viver em Comunidade para a Missão. Um chamado à Vida Religiosa Consagrada, por Paulus Editora. Mais informações: http://www.paulus.com.br/viver-em-comunidade-para-a-missao-um-chamado-a-vida-religiosa-consagrada_p_3083.html].
  • Dia da Mulher: 80 anos do voto feminino no Brasil

    Há 80 anos atrás a mulher conquistava o direito de votar no Brasil. Dois anos após, o direito de ser candidata. Hoje a mulher já conquistou até a Presidência da República. Mulheres alcançando a cidadania. Mas ainda falta muito. Feliz Dia Internacional da Mulher!

  • 30 de outubro: Dia Nacional da Juventude 2011

    Tema: Juventude e Protagonismo Feminino.
    Lema: Jovens mulheres tecendo relações de vida.