O que lentamente se desvela sob a poeira espessa da chamada “lista Epstein” não é apenas o inventário grotesco de crimes individuais — abusos, exploração, violência e tráfico humano —, mas a anatomia moral de um sistema. Um sistema no qual banqueiros, magnatas e operadores políticos se entrelaçam nas sombras para servir aos interesses de uma elite global intoxicada por poder. Entre os nomes e conexões que emergem, aparece também o circuito ideológico: viagens financiadas para influenciadores travestidos de ortodoxia católica, campanhas digitais sistemáticas contra aquele que ousou confrontar os ídolos do mercado.
Segundo relatos amplamente divulgados, o financista teria confidenciado a Steve Bannon — estrategista ligado a Donald Trump e influente nos círculos da família Jair Bolsonaro — a frase que soa como síntese de um projeto: “Eu vou derrubar Francisco”. Não era apenas uma divergência teológica. Era a percepção de que havia, em Roma, uma voz que desorganizava a engrenagem.
Papa Francisco foi atacado com fúria desproporcional. Chamaram-no de ingênuo, de herege, de comunista. Acusaram-no de trair a tradição — quando, na verdade, retornava à fonte mais radical do Evangelho. Sua fidelidade não foi à lógica das armas, mas à paz. Não ao lucro predatório, mas à Ecologia Integral. Não à indiferença diante das migrações forçadas, mas ao acolhimento dos pobres e descartados. Denunciou o massacre em Gaza, clamou pelo fim da guerra na Ucrânia, confrontou a idolatria do dinheiro dentro e fora da própria Igreja.
E isso tem preço.
Os poderosos deste mundo — financeiros, midiáticos, políticos — não toleram profetas. Muito menos quando o profeta ocupa a Cátedra de Pedro e fala em nome dos que não têm voz. Francisco tornou-se incômodo porque desmontava a teologia do mercado, porque desmascarava o nacionalismo travestido de fé, porque recordava que o cristianismo não é uma bandeira identitária, mas uma cruz carregada ao lado dos crucificados da história.
Epstein foi preso em 2019. Um arquivo humano dos subterrâneos do capitalismo ocidental. Um mês depois, morreu em circunstâncias que jamais cessarão de levantar perguntas. O escândalo, contudo, não terminou com ele; apenas revelou a extensão da podridão estrutural.
Francisco, ao contrário, não recuou. Foi até o fim. Até a Páscoa de seu Senhor e Mestre. Permaneceu com os pobres, com os migrantes, com a Casa Comum ferida, com as vítimas da guerra. Não se curvou à lógica do medo nem ao cálculo do poder.
Enquanto uns sucumbem nas celas do escândalo, outros atravessam a história como testemunhas.
Francisco: santo súbito!





















