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  • A nova era global de ódio aos pobres

    A nova era global de ódio aos pobres

    Por Levon Nascimento

    Nos últimos anos, o mundo tem assistido à consolidação de uma racionalidade política que combina elementos do passado mais sombrio com novas formas de exclusão. O nazifascismo, que historicamente legitimou a perseguição e o extermínio de grupos considerados “indesejáveis”, ressurge hoje sob roupagens adaptadas, mas com a mesma lógica de hierarquizar vidas e descartar as que não se encaixam no ideal de pureza social. “O fascismo não é um fenômeno morto, mas uma gramática política que se atualiza” (TRAVERSO, 2019). Essa atualização se manifesta em práticas estatais e urbanas que violam diretamente os direitos humanos, em especial dos mais pobres.

    O higienismo social, originado no século XIX como política de saúde pública, rapidamente se converteu em instrumento de controle moral e espacial, associando pobreza à sujeira, doença e criminalidade (CHALHOUB, 1996). Essa ideologia segue viva nas remoções forçadas de pessoas em situação de rua e na chamada “arquitetura hostil” — picos de metal, bancos com divisórias, pedras sob viadutos — que expulsa os indesejáveis da paisagem urbana. No Brasil, o Padre Júlio Lancellotti denuncia que “é proibido ser pobre na cidade” (LANCELLOTTI, 2022), e sua atuação resultou na Lei 14.489/22, que proíbe tais dispositivos, mas não impede que gestores sigam buscando formas de invisibilizar a pobreza.

    A aporofobia, conceito criado por Adela Cortina (2017), descreve precisamente essa aversão aos pobres, não apenas como preconceito individual, mas como política de Estado. Trata-se de uma recusa ativa em conviver com a presença do outro que nada possui. Ao contrário do racismo ou xenofobia, que podem se suavizar diante da riqueza, a aporofobia é implacável: mesmo o nacional ou o branco, se pobre, será alvo de hostilidade. “Não é o estrangeiro que incomoda, é o pobre” (CORTINA, 2017). Essa hostilidade é visível no aumento da criminalização da mendicância em cidades de diferentes países.

    A necropolítica, conceito formulado por Achille Mbembe (2018), ajuda a compreender como governos decidem, conscientemente, quais vidas merecem ser protegidas e quais podem ser expostas à morte. Durante a pandemia de Covid-19 no Brasil, a gestão de Jair Bolsonaro minimizou riscos, atrasou vacinas e estimulou aglomerações, aumentando a mortalidade entre os mais pobres e periféricos (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 2021). “O poder de matar ou deixar morrer é o exercício último da soberania” (MBEMBE, 2018, p. 71). Essa escolha política configurou um crime ético contra as populações vulneráveis.

    No cenário internacional, exemplos recentes evidenciam a continuidade dessa lógica. Em agosto de 2025, o governo de Donald Trump em Washington, D.C., determina a remoção em massa de acampamentos de pessoas em situação de rua com apoio de forças federais (THE GUARDIAN, 2025). A medida, classificada por ativistas como higienista e autoritária, não oferece alternativas de moradia, apenas “limpa” o espaço público de corpos indesejados. Não se trata de política social, mas de um gesto simbólico de exclusão, alinhado à estética política neofascista.

    O neofascismo contemporâneo, como alerta Stanley (2018), não precisa replicar a estética dos anos 1930 para ser reconhecido: basta retomar a essência de suas práticas — nacionalismo agressivo, culto à força, inimigos internos e desumanização dos pobres. No Brasil, esse padrão se manifesta no bolsonarismo, que, ao desprezar a vida dos pobres e priorizar agendas de militarização, reforça a ideia de que o Estado deve servir apenas a quem pode pagar. “A democracia morre quando a desigualdade se naturaliza” (STANLEY, 2018).

    O fio que une nazifascismo, higienismo social, aporofobia, necropolítica e neofascismo contemporâneo é a institucionalização do desprezo. Trata-se de um projeto que, em vez de combater a pobreza, combate o pobre; que, em vez de garantir direitos, retira-os; que, em vez de acolher, expulsa. Denunciar essa lógica não é apenas exercício intelectual, mas uma obrigação ética: cada banco dividido, cada viaduto cercado, cada morte evitável é uma evidência de que, no século XXI, o ódio aos pobres deixou de ser vergonha e voltou a ser política oficial.

    Referências
    CHALHOUB, Sidney. Cidade febril: cortiços e epidemias na Corte imperial. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
    CORTINA, Adela. Aporofobia: o rechazo al pobre. Barcelona: Paidós, 2017.
    LANCELLOTTI, Júlio. “É proibido ser pobre na cidade”. Folha de S.Paulo, 19 fev. 2022.
    MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: n-1 edições, 2018.
    ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. WHO Coronavirus Disease (COVID-19) Dashboard. Genebra, 2021. Disponível em: https://covid19.who.int. Acesso em: 11 ago. 2025.
    STANLEY, Jason. How Fascism Works: The Politics of Us and Them. Nova York: Random House, 2018.
    THE GUARDIAN. Trump deploys federal forces to clear homeless encampments in DC. Londres, 8 ago. 2025.
    TRAVERSO, Enzo. The New Faces of Fascism. Londres: Verso, 2019.

    Créditos: Homem dorme nas escadarias em frente ao Teatro Municipal, no Rio de Janeiro (Luiz Souza/NurPhoto/Getty Images).

  • Será que a gente precisa vencer na vida?

    Será que a gente precisa vencer na vida?

    Resumo de leituras de Levon Nascimento

    “Vencer na vida” — quem nunca ouviu essa expressão como se fosse uma meta natural, quase uma sentença? Desde pequenos, somos atravessados por essa ideia como se ela fosse a luz no fim do túnel: para uns, vencer é ter muito dinheiro; para outros, estabilidade, respeito, ou talvez um diploma pendurado na parede. Há ainda quem enxergue a vitória como um estado subjetivo, de autorrealização. Mas, em quase todas essas versões, existe um pano de fundo comum: a meritocracia — a crença de que, com esforço e força de vontade, todo mundo chega lá.

    O site A Firma Preta (2024) resume bem essa lógica: trata-se de uma “narrativa que associa sucesso a consumo e reconhecimento”. E não faltam estudos acadêmicos para reforçar o quanto esse ideal de sucesso está entranhado nas promessas da educação, da performance e da autoimagem (UFBA, 2019; LIPOVETSKY, 1986).

    No entanto, quando olhamos de perto, essa ideologia começa a mostrar suas contradições — e feridas. Ela pressiona especialmente quem já nasce em desvantagem: jovens, pretos, pobres, mulheres. Sob o mito de que todos têm as mesmas chances, transforma a exclusão em culpa pessoal. A pesquisa da UFBA (2019) é clara: para os jovens das periferias, buscar um emprego formal vira quase uma fuga do abismo social — uma estratégia para escapar da vulnerabilidade —, mesmo quando a porta do mercado está fechada para eles.

    Com mulheres e pessoas negras, o peso é ainda maior. Elas enfrentam a dureza das estruturas desiguais e, ainda assim, são responsabilizadas pelos “fracassos” que o próprio sistema impõe. Como explica Demarchi (2010), a meritocracia funciona como um mecanismo de “naturalização das desigualdades”, mascarando injustiças sociais sob a aparência de incompetência individual.

    E os paradoxos não param por aí. Na escola pública, por exemplo, ensina-se com convicção que “estudar abre portas” (UNESP, 2015). Mas quem frequenta essas escolas sabe que as portas não são as mesmas para todos — e que há trancas invisíveis para muitos. Lipovetsky (1986) alerta que até mesmo a busca por felicidade interior, vendida como alternativa ao sucesso material, virou uma exigência sufocante. A nova regra é ter que dar certo por fora e por dentro, ser bem-sucedido e ainda parecer autêntico, calmo, resiliente.

    Essa lógica esconde um jogo cruel: ao eleger o indivíduo como único responsável por sua trajetória, ignora que o ponto de partida não é o mesmo para todos. Para quem nasce nas bordas da sociedade, “vencer na vida” é como correr uma maratona com pedras nos sapatos — e ainda sorrir para as câmeras. O fracasso vira motivo de vergonha. A Firma Preta (2024) chama atenção para isso: essa cultura gera “ansiedade e culpa”, e mina silenciosamente a saúde mental de quem não consegue alcançar o inalcançável.

    Talvez por isso seja urgente repensar o que significa “vencer”. Será que essa palavra precisa continuar sendo um troféu que poucos alcançam? E se vencer fosse, simplesmente, viver com dignidade, com tempo para respirar, com afeto e segurança? Talvez, como sugerem tantas vozes dissidentes, a verdadeira vitória seja existir sem ter que se justificar o tempo todo.

    REFERÊNCIAS
    DEMARCHI, Guilherme Silva. Crítica da ideologia meritocrática. 2010. Disponível em: https://www.academia.edu/download/104695524/2010_GuilhermeDemarchiSilva.pdf. Acesso em: 1 ago. 2025.
    FIRMA PRETA. Vencer na vida é uma ideologia? Substack, 2024. Disponível em: https://firmapreta.substack.com/p/vencer-na-vida-e-uma-ideologia. Acesso em: 1 ago. 2025.
    LIPOVETSKY, Gilles. A era do vazio. 1986. Disponível em: https://www.academia.edu/download/56368823/Gilles_Lipovetsky_-_A_Era_Do_Vazio_1.pdf. Acesso em: 1 ago. 2025.
    UFBA. Jovens e trabalho no contexto baiano. Repositório Institucional, 2019. Disponível em: https://repositorio.ufba.br/handle/ri/32266. Acesso em: 1 ago. 2025.
    UNESP. Meritocracia na educação pública. Repositório Institucional, 2015. Disponível em: https://repositorio.unesp.br/entities/publication/c8f4ad2d-4bc5-40ba-b7d7-ab165d328b47. Acesso em: 1 ago. 2025.

  • Chuva e "Balada da Caridade"

    Chuva o dia inteiro aqui no sertão de Minas. Muito bom! Precisamos de água! No entanto, a chuva me relembra uma canção “de igreja” bastante conhecida. Um canto que motiva a contemplar nos sinais da vida a necessidade a que muitos estão expostos, especialmente os mais pobres, os excluídos dos bens necessários à vida com dignidade. Antiga? Não. Atualíssima por este mundo a fora. Confira a “Balada da Caridade”


    Balada da Caridade
    Composição: Gomes/Ribeiro

    Para mim a chuva no telhado
    É cantiga de ninar
    Mas o pobre meu Irmão
    Para ele a chuva fria
    Vai entrando em seu barraco
    E faz lama pelo chão

    Como posso
    Ter sono sossegado
    Se no dia que passou
    Os meus braços eu cruzei?

    Como posso ser feliz
    Se ao pobre meu Irmão
    Eu fechei meu coração
    Meu amor eu recusei? (bis)

    Para mim o vento que assovia
    É noturna melodia
    Mas o pobre meu irmão
    Ouve o vento angustiado
    Pois o vento, esse malvado
    Lhe desmancha o barracão