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  • Direito com propósito: entre Kafka e o Alto Rio Pardo

    Direito com propósito: entre Kafka e o Alto Rio Pardo

    Por Levon Nascimento, mestre em Políticas Públicas e doutorando em Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável

    Há histórias que não envelhecem. Há histórias que nos perseguem. Há histórias que nos interrogam e, por vezes, nos acusam. O Processo, de Franz Kafka, é uma dessas.

    Josef K. acorda em uma manhã qualquer e descobre que está sendo processado. Não sabe por quem. Não sabe por quê. Não sabe sequer qual é a acusação que pesa sobre si. Ainda assim, o processo segue. Avança. Se impõe. E, quanto mais ele tenta compreender, mais se afasta da compreensão. O que se revela, ao longo da narrativa, não é apenas um sistema jurídico opaco, mas um mundo em que o Direito perdeu o seu sentido ou, talvez, nunca o tenha tido.

    Essa imagem inquietante não pertence apenas à literatura. Ela nos serve como advertência.

    Porque o Direito pode ser isso: instrumento de opressão, engrenagem burocrática, ritual vazio. Mas não deve ser.

    E é precisamente nesse ponto que se abre o verdadeiro debate: o que é, afinal, o Direito, e para que ele serve?

    O Direito não nasce nos códigos. Não começa nas leis. Ele emerge da vida social, das relações humanas, dos conflitos que atravessam o cotidiano e das tentativas, sempre imperfeitas, de organizá-los. É linguagem, é poder, é norma, mas, acima de tudo, é construção histórica. E, por isso mesmo, carrega em si uma ambiguidade fundamental: pode servir à dominação ou à libertação.

    Quando se fala em formação jurídica, especialmente em regiões como o Alto Rio Pardo mineiro, essa ambiguidade deixa de ser teórica e se torna concreta. Aqui, o Direito não é uma abstração distante. Ele se manifesta nas dificuldades de acesso à justiça, nas desigualdades persistentes, nos conflitos por terra, nas questões ambientais, nas vulnerabilidades sociais que marcam a vida de tantas comunidades.

    É nesse cenário que a formação jurídica ganha densidade e urgência.

    A criação de um curso de Direito em Taiobeiras não é apenas um marco educacional. É um acontecimento histórico regional. Representa a interiorização do saber jurídico, a ampliação de oportunidades e, sobretudo, a possibilidade de formar profissionais comprometidos com a realidade que os cerca. Não se trata apenas de ensinar normas, mas de formar sujeitos capazes de interpretá-las criticamente e aplicá-las com responsabilidade social.

    O próprio projeto pedagógico do curso aponta nessa direção ao afirmar que o Direito deve ser compreendido como instrumento de transformação social e de construção da cidadania. Essa afirmação, longe de ser meramente formal, estabelece um horizonte ético para a atuação profissional. Significa dizer que o bacharel em Direito não pode se limitar ao domínio técnico; deve desenvolver sensibilidade social, capacidade de diálogo e compromisso com os direitos humanos.

    Nesse sentido, a formação jurídica contemporânea exige mais do que conhecimento dogmático. Exige compreensão da sociedade. Exige escuta. Exige posicionamento.

    Não por acaso, disciplinas introdutórias já colocam o estudante diante de temas como desigualdade social, inclusão e direitos humanos. Isso porque o Direito não se exerce no vazio. Ele se realiza na vida concreta, nos conflitos reais, nas histórias singulares que chegam aos fóruns, aos escritórios, às instituições públicas.

    E é justamente aí que se define o propósito do Direito.

    Não basta conhecer a lei. É preciso saber a quem ela serve.

    Não basta interpretar normas. É preciso compreender contextos.

    Não basta aplicar o Direito. É preciso transformá-lo quando necessário.

    O Estado Democrático de Direito, frequentemente invocado, mas nem sempre plenamente realizado, é a estrutura que deveria impedir que o mundo de Kafka se torne realidade. Nele, ninguém é acusado sem saber por quê. Ninguém é julgado sem defesa. Ninguém é condenado sem prova. Trata-se de um modelo que se sustenta na legalidade, na transparência e na garantia de direitos.

    Mas esse modelo não se mantém sozinho. Ele depende de instituições e, sobretudo, de pessoas.

    Depende de advogados, juízes, promotores, defensores, professores, pesquisadores. Depende de profissionais que compreendam o Direito não como privilégio, mas como responsabilidade.

    Os caminhos que se abrem a quem ingressa na formação jurídica são múltiplos. Vão desde as carreiras tradicionais até novas áreas de atuação que dialogam com as transformações sociais e tecnológicas do nosso tempo. No entanto, independentemente da escolha profissional, há um elemento que deve permanecer constante: o compromisso com a justiça.

    E aqui, mais uma vez, o Alto Rio Pardo se impõe como horizonte concreto.

    Formar juristas nesta região significa, também, formar agentes de desenvolvimento local. Significa preparar profissionais capazes de contribuir com a construção de políticas públicas, de fortalecer o acesso à justiça, de mediar conflitos e de promover a cidadania em contextos historicamente marcados por desigualdades.

    O Direito, nesse espaço, precisa ser vivido como prática social transformadora.

    Precisa sair dos livros e caminhar pelas ruas.

    Precisa dialogar com as comunidades.

    Precisa reconhecer a diversidade cultural e social que compõe o território.

    Se assim não for, corre o risco de repetir Kafka, não como literatura, mas como realidade.

    E talvez essa seja a maior lição que se pode extrair de O Processo: não a descrição de um sistema distante, mas o alerta sobre aquilo que o Direito jamais deve se tornar.

    Que não haja, entre nós, processos sem sentido.

    Que não haja cidadãos sem voz.

    Que não haja justiça sem humanidade.

    E que os novos estudantes de Direito, que agora iniciam sua trajetória no Alto Rio Pardo mineiro, compreendam desde o início que sua formação não é apenas acadêmica, é também ética, social e histórica.

    Porque, no fim das contas, o Direito só faz sentido quando tem propósito.

    E propósito, aqui, tem nome, tem lugar e tem urgência: o nosso Alto Rio Pardo mineiro.

  • Otelina: Semente dos Gerais

    Otelina: Semente dos Gerais

    Dona Otelina Rodrigues dos Santos partiu nesta semana que ora se encerra, a poucos passos de completar seus 76 anos de vida – que chegariam em 20 de março próximo. Partiu cedo, é verdade, mas carregada de tempo vivido, de chão pisado e de gente cuidada.

    Filha dos gerais da Lagoa Dourada, em Taiobeiras, Otelina fez da própria existência um longo ato de doação. Por onde passou – e especialmente na comunidade da Lagoa Grande – deixou raízes profundas, fincadas na família extensa, no trabalho coletivo e na fé partilhada.

    Mulher afrodescendente, liderança comunitária e sindical, zeladora do Apostolado da Oração, presidenta de associação, guardiã do cerrado e do pequi. Mulher de luta, de palavra firme e mãos abertas. Madrinha de muitos. Como o pequizeiro generoso, que no tempo certo se cobre de frutos, Otelina fez florescer gente. E agora, nestes dias finais de janeiro, todo esse povo por ela cuidado, abraçado e amadrinhado se revela como fruto maduro de um legado maternal, pastoral, militante e profundamente espiritual.

    Velórios e sepultamentos são, por natureza, instantes de dor. E assim foi. Não poderia ser diferente. Ainda assim, ao acompanhar os ritos fúnebres de Otelina, vi algo raro: beleza. Uma beleza simples, quase sagrada. O corpo de Otelina desceu à sepultura no cemitério da Lagoa Dourada sob a sombra benfazeja de um pequizeiro frondoso, carregado de frutos. A luz do sol filtrava-se por entre os galhos, desenhando claridades mansas sobre a terra. Na noite anterior, de chuva – daquelas que os gerais sempre precisam – pequis haviam caído ao chão. Dentro da sepultura, antes que a urna baixasse por completo, os frutos estavam ali: sinais silenciosos, mas eloquentes.

    Otelina, catadora de pequi. Mulher que extraiu o óleo, que ajudou seu Hermelino a sustentar a família com os frutos do cerrado. Mulher que conhecia o tempo da colheita e o valor da espera. Ao fim, tornou-se também ela semente. Boa semente. Como os pequis que recolheu ao longo da vida, agora repousa na terra, certa de que seu exemplo há de brotar, geração após geração, nos gerais que tanto amou.

  • O que foi o tempo dos revoltosos no Norte de Minas?

    O que foi o tempo dos revoltosos no Norte de Minas?

    Em abril de 2026, será lançado o livro A COLUNA PRESTES NOS GERAIS DE MINAS, revisitando este grande fato histórico que teve o Alto Rio Pardo como palco há cem anos

    Por Levon Nascimento

    A Coluna Prestes foi um dos acontecimentos políticos e militares mais marcantes da história do Brasil republicano. Entre 1924 e 1927, um grupo de jovens oficiais do Exército percorreu cerca de 25 mil quilômetros pelo interior do país, denunciando as injustiças da Primeira República, como a fraude eleitoral, o poder dos coronéis e a ausência de políticas públicas para a população pobre. Em abril de 1926, essa marcha chegou ao Norte de Minas Gerais, deixando marcas profundas na memória da região.

    O Brasil da década de 1920 era governado por elites agrárias que se revezavam no poder, principalmente São Paulo e Minas Gerais, no chamado sistema do “café com leite”. Nesse contexto, a maioria da população não tinha direito ao voto e vivia sob forte controle político local. O movimento conhecido como tenentismo surgiu como reação a essa realidade, defendendo reformas como o voto secreto, a moralização da política e a ampliação da educação pública.

    Ao entrar no Norte de Minas, a Coluna Prestes encontrou um sertão marcado pela pobreza, pelo isolamento e pela dominação dos grandes proprietários de terra. Para a população local, pouco integrada à política nacional, a chegada dos “revoltosos” foi cercada de medo e incerteza. Muitas famílias abandonaram suas casas e se esconderam no mato, sem distinguir claramente quem eram os rebeldes e quem eram as tropas do governo.

    Um aspecto importante desse episódio foi a violência praticada pelas tropas legalistas, enviadas pelo governo federal para perseguir a Coluna. Em diversos relatos históricos e de memória oral, essas forças aparecem como responsáveis por saques, espancamentos e destruição de propriedades, o que aumentou o sofrimento da população sertaneja. Essa situação contribuiu para a confusão generalizada e para o trauma coletivo vivido na região.

    A Coluna Prestes, por sua vez, adotava uma disciplina rígida e, em muitos casos, buscava negociar com comerciantes e moradores locais para obter alimentos e suprimentos. Embora tenha recorrido a requisições forçadas, há registros de tentativas de pagamento e de respeito às comunidades, o que diferencia sua atuação daquela das tropas governistas em vários momentos.

    No Norte de Minas Gerais, a Coluna realizou uma de suas manobras militares mais conhecidas: o chamado “Laço Húngaro”. Essa estratégia permitiu que os revoltosos enganassem as forças que os perseguiam, escapando do cerco e retornando à Bahia. A manobra demonstra a capacidade estratégica de Luiz Carlos Prestes e explica por que a Coluna nunca foi derrotada militarmente.

    Um episódio simbólico ocorreu em Taiobeiras, então chamada Bom Jardim das Taiobeiras. Ali, o comerciante João Rêgo dialogou com os revoltosos e conseguiu proteger a comunidade por meio da negociação. Segundo a memória local, Luiz Carlos Prestes teria deixado moedas como forma de pagamento pelos produtos retirados da loja, gesto que ficou marcado como sinal de respeito e reciprocidade em meio ao conflito.

    O contato com a miséria do sertão teve impacto profundo sobre Prestes e outros integrantes da Coluna. A marcha revelou os limites das ideias liberais defendidas pelos tenentes, que não conseguiam responder às desigualdades estruturais do campo brasileiro. Essa experiência foi decisiva para a radicalização política de Prestes nos anos seguintes, levando-o a defender transformações mais profundas na sociedade brasileira.

    A passagem da Coluna Prestes pelo Norte de Minas deixou um legado ambíguo: ao mesmo tempo em que gerou medo e sofrimento, também revelou as contradições do Estado brasileiro e a violência praticada em nome da “ordem”. Para a História, esse episódio ajuda a compreender a distância entre o Brasil oficial e o Brasil profundo, além da importância da memória das populações locais.

    Estudar esse tema hoje, à luz da Base Nacional Comum Curricular (BNCC: EF09HI et al. e EM13CHS et. al.), permite desenvolver a análise crítica das fontes, compreender diferentes perspectivas sobre o passado e refletir sobre cidadania, poder e justiça social. A Coluna Prestes, ao cruzar os gerais de Minas, não apenas fez história: provocou perguntas que seguem atuais sobre democracia, desigualdade e participação popular.

  • Prestação de Contas: Governo Lula leva desenvolvimento e inclusão a Taiobeiras

    Prestação de Contas: Governo Lula leva desenvolvimento e inclusão a Taiobeiras

    Contra dados e fatos não há argumentos.Veja o que Lula já investiu em Taiobeiras em seu 3º mandato.
    Por Levon Nascimento

    O Governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem garantido, desde 2023, uma série de investimentos que fortalecem o desenvolvimento econômico e social de Taiobeiras (MG). Em apenas dois anos, o município recebeu mais de R$ 196 milhões em transferências diretas do governo federal — sendo R$ 99,4 milhões em 2024 e R$ 96,7 milhões em 2023 — valores aplicados em obras, programas sociais, saúde, habitação, cultura e agricultura.

    Na área social, o Bolsa Família é um dos pilares do apoio às famílias de baixa renda: 3.929 famílias taiobeirenses são beneficiadas, com média de R$ 656,99 mensais, e 86,49% delas são chefiadas por mulheres. Esse dado reforça a política de inclusão e combate à pobreza liderada pelo governo federal.

    Na saúde, o impacto é igualmente expressivo. O Mais Médicos conta hoje com 16 profissionais atuando no município, ampliando o acesso da população à atenção básica. O Brasil Sorridente mantém uma equipe de saúde bucal e um Centro de Especialidades Odontológicas custeado pelo governo federal. Além disso, o governo Lula garantiu R$ 6,39 milhões em repasses para o cumprimento do piso nacional da enfermagem, assegurando valorização e estabilidade aos profissionais da área. Pela Farmácia Popular, 3.043 pessoas foram atendidas em 2024, a maior parte com medicamentos gratuitos.

    A cultura também foi valorizada: Taiobeiras recebeu R$ 324 mil pela Lei Paulo Gustavo e R$ 263 mil pela Lei Aldir Blanc, destinados ao fomento de iniciativas culturais locais e à valorização de artistas da região.

    No campo, o incentivo à produção rural tem fortalecido tanto o agronegócio quanto a agricultura familiar. Em 2024, o Plano Safra garantiu 18 contratos de crédito que somaram R$ 5,7 milhões, enquanto o Pronaf firmou 326 contratos, totalizando R$ 5,8 milhões, beneficiando centenas de pequenos produtores e famílias agricultoras.

    A habitação também avançou: o programa Minha Casa, Minha Vida assegurou 128 moradias populares, com R$ 13,2 milhões investidos, e mais dois novos empreendimentos já selecionados atenderão 71 famílias de baixa renda, reforçando o direito à moradia digna.

    Esses resultados demonstram que Taiobeiras tem recebido atenção constante e concreta do Governo Federal. As ações coordenadas entre os ministérios e programas estratégicos reafirmam o compromisso do presidente Lula com o desenvolvimento regional, a justiça social e a melhoria da vida dos brasileiros — uma gestão marcada por competência, diálogo e capacidade de reconstruir o país com foco nas pessoas.

    Fonte: Secretaria de Comunicação da Presidência da República.

    Leia também: Dilexi te: o que a primeira exortação do Papa Leão XIV tem a dizer a Taiobeiras?

  • Dilexi te: o que a primeira exortação do Papa Leão XIV tem a dizer a Taiobeiras?

    Dilexi te: o que a primeira exortação do Papa Leão XIV tem a dizer a Taiobeiras?

    Por Levon Nascimento

    A exortação apostólica Dilexi te, do Papa Leão XIV, publicada em 4 de outubro de 2025, é um manifesto espiritual e social sobre o amor para com os pobres. O texto nasce como continuidade da encíclica Dilexit nos, de Francisco, e como herança de sua preocupação pastoral pelos marginalizados. Leão XIV abre seu pontificado convocando a Igreja a reencontrar, nos pobres, o rosto vivo de Cristo. O documento denuncia a cultura do descarte, o mito da meritocracia e o conformismo religioso que esquece o Evangelho vivido como serviço. O amor, recorda o Papa, não é abstração moral, mas compromisso histórico — é o verbo que faz Deus descer à sarça ardente dos sofrimentos humanos.

    O plano de trabalho da Dilexi te pode ser compreendido em três eixos principais. O primeiro é teológico: Deus escolhe os pobres não por ideologia, mas porque o amor divino se revela onde há dor, exclusão e clamor. O segundo é eclesial: a Igreja deve ser pobre e para os pobres, seguindo o exemplo de São Lourenço e São Francisco de Assis. O terceiro é prático e cultural: a opção pelos pobres implica educação libertadora, cuidado com os doentes e compromisso com as novas escravidões contemporâneas — do consumo, do individualismo e das desigualdades.

    Para Leão XIV, amar é ver, cuidar, perdoar e construir. Amar é ver — e, portanto, enxergar os invisíveis, os desfigurados pelas estatísticas e pelos rótulos. Amar é cuidar — não como quem faz beneficência, mas como quem reconhece o outro como parte de si. Amar é perdoar — em tempos de polarização, redescobrir a ternura como força política. E amar é construir — porque a caridade cristã, quando autêntica, não consola apenas: transforma estruturas e mentalidades. O Papa escreve com vigor: “Não estamos no horizonte da beneficência, mas no da Revelação” — ou seja, Deus fala por meio dos pobres.

    E o que essa exortação tem a dizer a Taiobeiras? Antes de tudo, que o desenvolvimento sem compaixão é vazio. A cidade, entre avanços e desigualdades, vive o paradoxo de se orgulhar do empreendedorismo enquanto muitos sobrevivem na informalidade e na carência de serviços essenciais. Dilexi te confronta diretamente esse modelo: o progresso autêntico é aquele que não exclui. A meritocracia, lembra Leão XIV, é “uma falsa visão segundo a qual só têm mérito os que tiveram sucesso na vida”. Em Taiobeiras, essa crítica ressoa no cotidiano: enquanto alguns exibem conquistas, outros carregam invisibilidades que o discurso da “terra dos vencedores” prefere ignorar.

    O Papa propõe um antídoto: o amor concreto, que se traduz em políticas públicas, justiça social e cultura do cuidado. Se o cristianismo local quiser ser fiel ao Evangelho, deve olhar para os pobres como protagonistas da história, não como destinatários de campanhas sazonais. Amar, aqui, significa reconhecer a dignidade dos agricultores familiares, das mulheres trabalhadoras, dos jovens sem oportunidades. É perceber que o rosto de Cristo está nas filas do hospital, nos bairros sem saneamento, nos professores que persistem sem estrutura.

    Dilexi te também convida Taiobeiras a revisar suas referências. Como os monges que uniam oração e trabalho, a cidade precisa integrar espiritualidade e ação social, fé e responsabilidade pública. Ser “cidade empreendedora” deve significar criar oportunidades solidárias, fortalecer cooperações, garantir educação libertadora e promover o bem comum. É tempo de superar o individualismo competitivo e reencantar o sentido de comunidade.

    Em última instância, Dilexi te é um chamado a amar de modo civilizatório. Para Taiobeiras, isso significa transformar o amor em política de vida: educar com ternura, administrar com empatia, crescer sem deixar ninguém para trás. O Papa Leão XIV fala à cidade com a clareza dos profetas: a fé que não toca a carne dos pobres é sombra, não luz. Amar — diz o título da exortação — é o verbo que sustenta a esperança. Que Taiobeiras, redescobrindo esse amor, encontre o caminho entre o que já avançou e o que ainda falta nascer.

  • A Coluna Prestes no Norte de Minas: entre o mito e a realidade

    A Coluna Prestes no Norte de Minas: entre o mito e a realidade

    Em 1926, o Norte de Minas Gerais foi palco de um episódio marcante da história brasileira: a passagem da Coluna Prestes. Liderados por Luiz Carlos Prestes, um grupo de jovens militares idealistas percorria o país combatendo o governo oligárquico da época, defendendo bandeiras como o voto secreto e a moralização política. Sua incursão de dez dias pela região (19 a 29 de abril) revelou o abismo entre o Brasil urbano e a realidade do sertão.

    Apesar de serem os “revoltosos”, a maior violência partiu das próprias tropas do governo, os chamados “legalistas”. Financiadas pelo poder federal, milícias comandadas por coronéis como Horácio de Matos agiam com brutalidade, saqueando cidades, extorquindo civis e espalhando um rastro de terror. Para a população local, era difícil distinguir quem era quem, e o medo das represálias oficiais muitas vezes era maior do que o medo da própria Coluna.

    A estratégia militar de Prestes foi brilhante. Encurralado por forças superiores em Serra Nova, município de Rio Pardo de Minas, ele executou a famosa manobra do “Laço Húngaro”, uma série de movimentos circulares que confundiu completamente os perseguidores. Essa astúcia permitiu que a Coluna escapasse do cerco e continuasse sua marcha, demonstrando superioridade tática mesmo estando em menor número e com menos recursos.

    Um dos episódios mais simbólicos dessa passagem ocorreu em Taiobeiras (26/04/1926). Enquanto a maioria da população fugiu para o mato, o comerciante João Rêgo decidiu ficar e negociar. Ele recebeu os soldados da Coluna, abriu seu armazém e lhes forneceu suprimentos. Em um gesto de surpreendente honra, Luiz Carlos Prestes lhe pagou, deixando para trás uma bota cheia de moedas. Esse caso mostra que a iniciativa e a coragem local podiam mitigar a violência do conflito.

    A experiência no sertão mineiro foi um choque para os jovens tenentes de formação urbana. O contato direto com a miséria extrema e a estrutura de poder dos coronéis fez Prestes questionar suas convicções liberais. Aquele idealismo mostrou-se insuficiente para resolver os problemas profundos do Brasil rural, acelerando um processo de radicalização que mais tarde o levaria ao comunismo.

    A memória que ficou na região é um trauma duplo. Não foi apenas a passagem rápida dos rebeldes, mas a violência sistemática e predatória das tropas legalistas, que agiam em nome do Estado, que deixou marcas profundas na população. O episódio ficou na história local como um momento de medo, mas também de resistência e astúcia.

    Por fim, a passagem da Coluna Prestes pelo Norte de Minas é mais que uma simples nota de rodapé histórica. Ela simboliza o encontro (e desencontro) entre dois Brasis e foi decisiva para a transformação ideológica de seu principal líder, mostrando que a realidade do sertão pode ser a mais poderosa professora de política.

    Em breve, o livro: OS REVOLTOSOS PELO NORTE DE MINAS GERAIS: CENTENÁRIO DA COLUNA PRESTES (1926-2026). Um século depois, a história dos chamados “revoltosos” volta a ganhar voz! Organizado por Levon Nascimento, o livro reúne pesquisadores e guardiões da memória sertaneja para revisitar a passagem da Coluna Prestes pelo Norte de Minas — um episódio que mexeu com comunidades inteiras, entre medos, estratégias militares e lembranças que atravessaram gerações. Autores: Fabiano Alves Pereira · Joandina Maria de Carvalho · Leleco Pimentel · Levon Nascimento · Lídio Barreto Filho · Luiz Eduardo de Souza Pinto · Márcia Sant’Ana Lima Barreto · Maria de Fátima M. Mariani · Milton Pena Santiago · Monica Rodrigues Teixeira · Padre João Carlos Siqueira · Pedro Abder Nunes Raim Ramos · Sidney Batista Azevedo · Silvânia Aparecida de Freitas · Vladimir Mendes Patrício. Uma obra que mistura história, memória e emoção, trazendo à tona episódios que marcaram Taiobeiras e toda a região do Alto Rio Pardo. Falta pouco para esse encontro entre o sertão e a história do Brasil. Prepare-se para caminhar novamente com a Coluna Prestes — agora pelas páginas deste livro.

  • Nen Sena: Presente!

    Nen Sena: Presente!

    Não é segredo para ninguém que me conhece: gosto de política. Não a nego, nem a minimizo. Para mim, ela é a mais nobre das atividades humanas, aquela capaz de qualificar a vida em sociedade. Talvez por isso, minha memória pessoal sobre um dos elementos-chave da política — as eleições — remonte à infância. A primeira de que me recordo aconteceu em 1982, municipal e estadual ao mesmo tempo. Eu tinha apenas seis anos. Guardo na lembrança Tancredo Neves enfrentando Eliseu Rezende pelo governo de Minas, e, em Taiobeiras, a disputa entre Nen Sena e Jorge pela prefeitura.

    É justamente daí que vem minha primeira memória da imagem e do nome de Geraldo Sarmento de Sena — Nen Sena: vereador, presidente da Câmara, juiz de paz, vice-prefeito, prefeito e esposo de prefeita. Uma carreira política extensa, sólida e irretocável.

    Mais do que os cargos, Nen Sena foi um homem que atravessou o cenário conturbado da vida pública com uma biografia limpa. Em uma época em que a educação ainda não era vista como prioridade, ele investiu maciçamente na escolarização do povo de Taiobeiras. Foi em seu mandato que se construíram algumas das maiores escolas do município. Enquanto hoje há quem se apresse em municipalizar responsabilidades do Estado, ele conseguiu o inverso: estadualizou o 2º grau (atual Ensino Médio) local, garantindo maior estrutura e qualidade. Também foi dele o mérito de dar ao Poder Executivo Municipal uma sede digna.

    Mas Nen Sena foi além da política institucional: foi amigo, conselheiro, alguém capaz de transcender diferenças geracionais e ideológicas. Como fundador do PSDB histórico em Taiobeiras, demonstrou ser um democrata entusiasmado, um batalhador pelas boas ideias e um homem confiante no progresso humano.

    Com sua partida nesta data (12/08/2025), Taiobeiras perde um de seus grandes pais fundadores, mas herda um legado que a História há de reconhecer.

    Nen Sena: Presente!

    Por Levon Nascimento

  • Taiobeiras: entre avanços e desigualdades no coração do Alto Rio Pardo

    Taiobeiras: entre avanços e desigualdades no coração do Alto Rio Pardo

    Texto de Levon Nascimento, produzido a partir da observação e análise de dados disponíveis no IBGE Cidades

    Taiobeiras, localizada no Norte de Minas Gerais, apresenta um perfil socioeconômico que combina avanços significativos com limitações estruturais persistentes. Com população estimada em 34.392 habitantes em 2024, segundo o IBGE, e Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) de 0,670 em 2010, o município alcançou melhoria contínua nas últimas décadas, especialmente em longevidade (0,815), mas mantém fragilidades nos componentes educação (0,578) e renda (0,639) (IBGE, 2010). Essa discrepância reflete a combinação de um sistema de ensino básico com bons índices recentes — taxa de escolarização de 6 a 14 anos próxima de 99% e IDEB de 6,8 nos anos iniciais (2019) — com o baixo nível educacional histórico da população adulta.

    No campo econômico, o Produto Interno Bruto per capita, de R$ 16.085,74 em 2021 (IBGE), é superior ao de parte dos municípios da região imediata de Salinas, mas inferior à média da região intermediária de Montes Claros e ao patamar estadual. A economia municipal é fortemente concentrada em serviços e na administração pública, que juntos respondem por cerca de 80% do valor adicionado bruto, enquanto a indústria é incipiente e a agropecuária, embora presente, tem baixo valor agregado. Essa estrutura produtiva, associada à elevada dependência de transferências governamentais, limita a autonomia fiscal e a capacidade de atração de investimentos privados, restringindo as oportunidades de trabalho qualificado e incentivando a migração de jovens.

    Os indicadores sociais expõem desafios ainda mais urgentes. A mortalidade infantil, de 14,42 óbitos por mil nascidos vivos em 2023, permanece acima da média nacional e supera a de cidades vizinhas como Salinas, que registra aproximadamente 5,8 (IBGE, 2023). Embora o município tenha ampliado sua capacidade hospitalar, com destaque para o Hospital Santo Antônio e sua inclusão na Rede de Atendimento ao AVC, a persistência de taxas elevadas indica que problemas estruturais, como a cobertura incompleta de saneamento básico, continuam afetando a saúde pública. Em 2010, apenas 16,1% dos domicílios possuíam esgotamento sanitário adequado; dados mais recentes sugerem avanço para cerca de 47% (IBGE, 2022), ainda insuficiente para garantir padrões adequados de salubridade.

    A comparação com a região imediata reforça a necessidade de políticas estruturantes. Apesar de Taiobeiras apresentar desempenho econômico ligeiramente superior ao de parte dos municípios vizinhos, seus indicadores sociais revelam desigualdades e vulnerabilidades comparáveis ou até mais acentuadas. A falta de diversificação produtiva e a insuficiência de políticas de desenvolvimento humano que articulem educação acadêmica de jovens e adultos, qualificação profissional e infraestrutura básica impedem que o município converta seu papel de polo regional em ganhos sustentáveis de qualidade de vida.

    Conclui-se que Taiobeiras enfrenta um paradoxo: mesmo reunindo condições para liderar o desenvolvimento da microrregião de Salinas, ainda convive com déficits estruturais que comprometem seu potencial. Investimentos prioritários em saneamento, atenção primária à saúde, diversificação econômica e qualificação educacional são essenciais para romper o ciclo de dependência fiscal e de baixo dinamismo econômico. Sem enfrentar essas fragilidades de forma integrada e planejada, o município continuará oscilando entre avanços pontuais e limitações crônicas, incapaz de alcançar níveis mais elevados de desenvolvimento humano e equidade social.

    Referências

    INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Cidades@: Taiobeiras – panorama. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mg/taiobeiras/panorama. Acesso em: 6 jul. 2025.

    INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Pesquisa de Informações Básicas Municipais – Taiobeiras. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mg/taiobeiras/pesquisa/19/143491. Acesso em: 6 jul. 2025.

    INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Produto Interno Bruto dos Municípios – Taiobeiras. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mg/taiobeiras/pesquisa/10102/122229. Acesso em: 7 jul. 2025.

    INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Indicadores de Saneamento – Taiobeiras. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mg/taiobeiras/pesquisa/24/76693. Acesso em: 8 jul. 2025.

    INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Indicadores de Saúde – Taiobeiras. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mg/taiobeiras/pesquisa/21/28134?ano=2023. Acesso em: 8 jul. 2025.

    INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Mapa municipal de Taiobeiras – MG. Disponível em: https://geoftp.ibge.gov.br/cartas_e_mapas/mapas_municipais/colecao_de_mapas_municipais/2022/MG/taiobeiras/A0_3168002_MM.pdf. Acesso em: 9 jul. 2025.

  • Taiobeiras e a caverna de Platão

    Taiobeiras e a caverna de Platão

    por Levon Nascimento

    Por décadas, Taiobeiras aprendeu a se ver pelas sombras que tremulam na parede. Alimentada por frases de efeito como “terra dos vencedores” e “cidade empreendedora”, foi se acostumando a confundir brilho com luz, movimento com progresso, aparência com verdade. A alegoria da caverna de Platão, escrita há mais de dois mil anos, nunca fez tanto sentido: enquanto muitos se encantam com as imagens cuidadosamente produzidas para as redes sociais, para as campanhas publicitárias e os eventos de marketing institucional, outros lutam para sair da escuridão — e encaram o desconforto de enxergar aquilo que não querem mostrar.

    E o que se vê, quando se olha com coragem, são feridas abertas. Taiobeiras tem sido marcada, há muito tempo, pela hegemonia de grupos conservadores, herdeiros de um ciclo político que atravessa gerações — da UDN à ARENA, do coronelismo às oligarquias mais modernas, sempre com novos nomes, mas velhas práticas. A cultura clientelista, disfarçada de eficiência ou liderança, sufoca a democracia com promessas rasas e favores. É o “joelismo sem Joel”, como me peguei pensando um dia — um sistema que sobrevive à queda de seus próprios líderes, porque mantém intacta a estrutura de poder e de privilégios. E, enquanto isso, quem vive nas margens continua à deriva. A renda se concentra. O debate político empobrece. E o silêncio, muitas vezes, é comprado, cooptado ou simplesmente imposto.

    A realidade, contudo, insiste em escapar da maquiagem. Em 2016 e 2017, Taiobeiras esteve entre as cidades mais violentas da região. O número de homicídios cresceu quase 30% em apenas um ano (10° BPMMG, 2017 apud NASCIMENTO, 2018, p. 35). Quem perdeu a vida — ou perdeu um filho — sabe que não se trata de estatística, mas de um luto que se repete. Jovens negros, pobres e periféricos pagaram o preço de uma sociedade de mercado, desumanizada. A herança do autoritarismo fez irradiar a violência.

    Foi nesse vácuo que floresceu um novo discurso: o do empreendedorismo redentor. Agora, quem fracassa não é vítima de um sistema injusto, mas de sua própria incompetência. A responsabilidade social virou responsabilidade individual. A pobreza virou culpa. E o sucesso, privilégio travestido de mérito.

    Mas a caverna não aprisiona só pela política e pela economia. Ela se estende à cultura, ao meio ambiente, à memória coletiva. Em 2023, o pequizeiro centenário do Cruzeiro — mais que uma árvore, um símbolo de fé e identidade comunitária — foi derrubado por uma motosserra. O gesto, longe de ser apenas técnico ou administrativo, foi brutal em sua simbologia. Revelou um modelo de desenvolvimento que atropela o que não entende, que finge não ouvir os clamores da terra e da gente, e que chama de “progresso” o que, no fundo, é destruição.

    Essa prisão simbólica, construída tijolo por tijolo ao longo de décadas, também ajuda a explicar por que ideias autoritárias encontram tanto eco em nossa cidade. Em 2022, quando me perguntaram como Bolsonaro venceu em Taiobeiras, respondi sem hesitar: não foi ruptura, foi continuidade. O conservadorismo daqui não é um acidente. É parte de uma construção histórica, feita de exclusão, de silenciamentos e de valores coloniais que ainda nos atravessam. Vivemos uma cultura em que o “ter” vale mais do que o “ser”, e em que os modos de vida das classes trabalhadoras são engolidos por um modelo de aparência burguesa e solitária. Mesmo na cidade, onde vive mais de 80% da população, falta a prática de solidariedade e organização coletiva que, por vezes, resiste com mais força no campo. Desde os anos 1970, o agronegócio molda não só a economia, mas o imaginário local, concentrando renda e padronizando mentalidades.

    Taiobeiras será, de fato, uma cidade empreendedora — no melhor sentido da palavra — quando descobrir que o maior investimento possível é na dignidade de seu povo. O maior lucro, a justiça. O maior feito, a liberdade compartilhada. Romper com as sombras exige coragem, mas é também um gesto de amor. Amor à cidade, às suas histórias escondidas, às vozes caladas, às sementes que ainda resistem no chão. Nenhuma caverna dura para sempre quando há quem se levante, quem questione e, sobretudo, quem escolha caminhar para fora dela. Porque há luz. E ela começa onde termina o medo de ver.

  • Encontrão das CEBs de Taiobeiras: Ainda rezo pelo Reino

    Encontrão das CEBs de Taiobeiras: Ainda rezo pelo Reino

    Faz quase três décadas. Lembro como se fosse agora. Eu, ainda jovem, no 1º Encontrão das CEBs de Taiobeiras, de microfone em punho, saudava cada comunidade que chegava ao salão comunitário do Marruaz com entusiasmo e fé. Bradava palavras de vida: Viva o Povo de Deus! Viva o novo jeito de ser Igreja! Viva a caminhada do povo de Jesus! Viva a justiça e a fraternidade!

    As Comunidades Eclesiais de Base marcaram profundamente minha formação, tanto na fé quanto na cidadania. O jovem Levon que despertava ali nascia de uma teologia que não separa a vida da fé. Uma teologia encarnada no chão do povo. Serei eternamente grato por isso.

    Vieram o 2º Encontrão, o 3º, e tantos outros. Parecia que aquele sonho jamais acabaria. Foram momentos de comunhão, esperança e compromisso com o Evangelho vivo nas comunidades.

    Sigo até hoje dando testemunho. Defendo, propago e conto, com orgulho, a bela história das CEBs de Taiobeiras nos espaços onde atuo. Sem cobranças, mas com profunda admiração. Mais de dez livros meus fazem referência ao espírito e ao programa das CEBs. Eles estão em mim — e eu sigo com eles.

    Por isso, neste dia em que mais um Encontrão das CEBs acontece em Taiobeiras, rezo com todo o meu coração para que um novo ardor missionário se irrompa. Que o Espírito Santo continue a soprar entre os pequenos, os simples e os sonhadores.

    Venha o Teu Reino, Senhor. O mundo precisa dele mais do que nunca.

    Crédito da fotografia: Frei Gilvander.

  • O que há por detrás da ideologia empreendedora em Taiobeiras?

    O que há por detrás da ideologia empreendedora em Taiobeiras?

    Taiobeiras, no norte de Minas Gerais, orgulha-se de ser “cidade de gente vencedora” e “terra do espírito empreendedor” — frases que se repetem em discursos oficiais, campanhas midiáticas e até nas salas de aula. Celebrar o talento e o esforço é legítimo, mas essa narrativa pode esconder uma armadilha: reduzir o sucesso humano apenas ao lucro e ao mérito individual, encobrindo desigualdades profundas e cultivando mentalidades excludentes e até mesmo supremacistas.

    Estudos sobre o empreendedorismo no Brasil mostram que quase 40% dos trabalhadores por conta própria atuam por necessidade, não por escolha ou oportunidade (Raasch et al., 2020). Em Taiobeiras, muitos dos chamados “empreendedores” são agricultores familiares ou trabalhadores em serviços essenciais — muitos na informalidade — que lutam pela sobrevivência, não pelo enriquecimento. A retórica do “vencedor nato”, portanto, ignora aqueles que enfrentam falta de crédito, infraestrutura precária, ausência de formação humanística e políticas públicas moldadas apenas para atender aos interesses de oligarquias locais.

    Por trás dessa exaltação, há um projeto ideológico. Como apontam Leite e Lindôso (2018), o neoliberalismo transformou o empreendedorismo em uma “resposta individualizada a problemas sociais”, transferindo para o cidadão a culpa pelo desemprego, pobreza e ausência de perspectivas estruturantes, as quais somente alguns têm acesso. Enquanto muitos sonham em “virar o próprio chefe”, os direitos trabalhistas vão sendo negligenciados, e a condição humana do trabalhador é deixada de lado. Mascara-se a exploração por meio da promessa de riqueza que só vem para alguns por motivos óbvios e historicamente determinados.

    A meritocracia vendida como solução é, na verdade, um mito perverso. Quando se insinua que “quem não vence é porque não se esforçou” (Costa, 2009), apagam-se os fatores estruturais que moldam a realidade: heranças familiares, apadrinhamentos político-econômicos, informações privilegiadas, acesso desigual à educação e privilégios históricos de propriedade. Isso constrói uma hierarquia simbólica que marginaliza quem não se encaixa no perfil idealizado do “empreendedor de sucesso”.

    A saída está em repensar o próprio conceito de sucesso. A educação, aqui, é chave. É urgente educar filosoficamente o taiobeirense. Ser grande não é apenas acumular bens econômicos. Há um mundo vasto a ser descoberto — e é fundamental se lançar nele com criticidade e sensibilidade. Em vez de reforçar clichês, poderia se valorizar histórias da coletividade: produções culturais e artísticas, trajetórias intelectuais, realizações nos esportes, na música, no fazer alternativo. Isso também é vitória. Isso também é potência transformadora.

    No fim das contas, a pergunta persiste: quem perde quando uma cidade só celebra os “vencedores” do dinheiro? Taiobeiras só será verdadeiramente empreendedora quando entender que o maior lucro é a dignidade compartilhada. Como diz um velho ditado sertanejo: “Sozinho você corre rápido; junto, você vai longe”. O espírito coletivo, e não o individualismo, é o único caminho para um desenvolvimento que realmente não deixe ninguém para trás.

  • As consequências da monocultura de Eucalipto no Alto Rio Pardo: entre lucros e riscos socioambientais

    As consequências da monocultura de Eucalipto no Alto Rio Pardo: entre lucros e riscos socioambientais

    Por Levon Nascimento

    A seguir, um texto síntese das leituras que fiz de dois autores regionais, em campos científicos distintos, Rômulo Soares Barbosa, na sociologia, e Lucineia Lopes Bahia Ribeiro, na economia, sobre a monocultura de Eucalipto no nosso Alto Rio Pardo, Norte de Minas Gerais.

    Desde as primeiras plantações comerciais de eucalipto no Alto Rio Pardo, durante a Ditadura Militar (1964-1985), a paisagem e a economia da região passaram por transformações profundas. Terras antes dedicadas ao extrativismo dos frutos do cerrado, como o pequi, ao cultivo de subsistência e à pecuária familiar foram progressivamente cedidas a grandes empresas florestais, atraídas pela demanda crescente de carvão vegetal para a siderurgia mineira. Esse modelo de monocultura trouxe lucros expressivos: projeções de projetos exclusivos de carvão vegetal indicavam taxas internas de retorno superiores a 30 %, mesmo em cenários de preços conservadores, e margens líquidas que chegavam a quase 100 % quando combinados carvão, madeira, lenha e óleo essencial (RIBEIRO, 2020).

    Contudo, a mesma força que impulsionou a economia local passou a ameaçar o frágil equilíbrio socioambiental dos gerais. A elevada taxa de transpiração do eucalipto – quatro vezes maior que a de espécies nativas durante o período seco – acelerou o rebaixamento de nascentes e o assoreamento de córregos, reforçando as pressões sobre a disponibilidade hídrica numa região que em regra enfrenta cinco meses secos por ano (BARBOSA, 2023). Enquanto estudos técnicos ressaltavam que, sob manejo responsável, o eucalipto poderia consumir água de forma comparável a outras florestas plantadas e oferecer benefícios como sequestro de carbono e proteção do solo (RIBEIRO, 2020), as comunidades tradicionais relatavam diminuição de vazão e até o desaparecimento de pontos de captação que sustentavam o consumo doméstico e a criação de pequenos animais.

    A tensão entre visões técnicas e vivenciais tornou-se evidente na disputa por políticas públicas. Por um lado, pesquisadores econômicos elogiavam o arcabouço regulatório brasileiro – da Política Nacional do Meio Ambiente ao Novo Código Florestal – como suficiente para garantir a sustentabilidade das plantações e abrir caminho a programas de créditos de carbono (RIBEIRO, 2020). Por outro, lideranças geraizeiras denunciavam que tais normas não freavam a expansão desigual da monocultura, obrigando-as a promover autodemarcações e articular esforços para demarcar assentamentos agroextrativistas e reservas de desenvolvimento sustentável (BARBOSA, 2023). Essa mobilização não surgiu por acaso: confrontos como o “Trancamento da Rodovia 251” em 2013 e greves de fome em 2014 deram voz a quem via no “deserto verde” um cerco ao modo de vida e ao direito à água.

    O impacto socioambiental se fez mensurável. Mapas de uso do solo comparando 2000 e 2020 mostram que, em áreas onde houve reconversão de eucalipto para sistemas agroextrativistas, a cobertura de cerrado alcançou 41 %, contra apenas 18 % duas décadas antes, e os corpos d’água passaram de 0,03 % para 0,17 % da paisagem (BARBOSA, 2023). Ao mesmo tempo, essa reconversão tornou-se vetor de revitalização de mananciais e de práticas tradicionais de manejo sustentável, reforçando o caráter multifuncional do cerrado como fonte de recursos e preservação da biodiversidade.

    As empresas, por sua vez, continuam a explorar as vantagens competitivas do monocultivo, beneficiando‑se de tecnologias genéticas que reduzem ciclos de crescimento e custos de produção, enquanto as comunidades avançam em processos de regularização fundiária. A diferença de perspectiva ilustra um dilema central: o eucalipto pode ser modelo de empreendimento economicamente rentável e teoricamente sustentável, mas sem uma gestão que integre demandas socioambientais, perpetua desigualdades e agrava a crise hídrica local e climática global (RIBEIRO, 2020; BARBOSA, 2023).

    Na prática, a monocultura intensificou a vulnerabilidade do entorno rural ao ciclo de secas, ampliou riscos de erosão e diminuiu a resiliência dos ecossistemas. Ao mesmo tempo, o potencial de diversificação dos projetos florestais – explorando óleo essencial, madeira e lenha – mostrou‑se promissor para reduzir riscos financeiros, mas não abordou integralmente a urgência de conservar os recursos hídricos (RIBEIRO, 2020). Somente a partir da conscientização crescente e da organização das comunidades geraizeiras, por meio de conferências locais e redes de articulação nacional, será possível pressionar por uma reconversão que alie produção e proteção ambiental (BARBOSA, 2023).

    Por fim, o Alto Rio Pardo vive um momento de virada: os ganhos econômicos oriundos da monocultura de eucalipto não podem ser dissociados dos danos socioambientais que impuseram ao cerrado e às populações tradicionais. A tomada de consciência coletiva e a mobilização em torno de políticas territoriais de base comunitária mostram-se fundamentais para redefinir esse modelo. É imprescindível que o equilíbrio entre lucro e preservação seja reconfigurado, de modo que os próximos ciclos de plantio garantam água, biodiversidade e justiça social para as gerações futuras.

    Referências Bibliográficas

    BARBOSA, Rômulo S. Comunidades Geraizeiras do Alto Rio Pardo – MG: Reconversão Territorial e Produção de Água no Cerrado. Revista Verde Grande: Geografia e Interdisciplinaridade, Montes Claros, v. 5, n. 2, 2023.

    RIBEIRO, Lucineia Lopes Bahia. Análise do Resultado Financeiro da Produção de Eucalipto das Cidades do Território do Alto Rio Pardo – MG. 2020. Guarujá, SP: Editora Científica Digital, 2020.

  • O livro Memorial da Juventude de Taiobeiras (2010)

    O livro Memorial da Juventude de Taiobeiras (2010)

    Memorial da Juventude de Taiobeiras (NASCIMENTO; NASCIMENTO, 2010) é uma obra que celebra a trajetória transformadora dos jovens taiobeirenses, tecendo memória afetiva e política de suas lutas desde a década de 1970. Mais do que um registro histórico, o livro é um tributo às gerações que “não aceitaram ser tratadas como mera mercadoria” e “ousaram construir o futuro no coletivo” (p. 5), superando individualismos e preconceitos. Taiobeiras, município mineiro marcado pela cultura sertaneja e pela resistência, revela em suas páginas uma juventude “sonhadora, capaz e atuante” (p. 13), cuja identidade se forjou na luta por justiça social e expressão cultural.

    A obra destaca a emergência de grupos pioneiros como O Beija-flor (1974), dedicado a campanhas solidárias, o JUVITA (1976), inspirado na caridade vicentina, e o JUAC (1978), focado em ação comunitária no bairro Vila Formosa. Essas iniciativas pavimentaram o caminho para a chegada da Pastoral da Juventude (PJ) em 1987, um marco que amplificou o protagonismo juvenil. Sob a PJ, os jovens transcenderam o assistencialismo, desenvolvendo uma “formação social e política” (p. 27) articulada em cinco dimensões: afetividade, espiritualidade, cidadania, sociabilidade e ação concreta. Surgiram dezenas de grupos urbanos e rurais, como o JULEST (1992), que adotou a pedagogia freireana para formar consciência crítica, e a Tri-União (1992), aliança entre coletivos para atuar em bairros periféricos.

    Dia Nacional da Juventude (DNJ), celebrado anualmente desde 1989, tornou-se palco de reivindicações e expressões culturais. Temas como “Juventude, cadê a Educação?” (1989), “Juventude: do nosso suor, a riqueza de quem?” (1990) e “Ouça o Eco(logia) da Vida” (1992) (p. 33, 35, 42) ecoaram nas ruas de Taiobeiras, mobilizando a comunidade para causas urgentes. A Campanha da Carriola, ação perene de arrecadação de alimentos e roupas, e o Grito dos Excluídos, manifestação contra as desigualdades no 7 de setembro, simbolizam o engajamento contínuo da juventude, que “soube ‘gritar’ pelos direitos de todos” (p. 80). Intercâmbios com cidades vizinhas fortaleceram redes de colaboração, materializando o “conceito de Rede de Juventude” (p. 82) na prática.

    A cultura emerge como eixo vital dessa história. Projetos como a Banda Divina Providência, com repertório que honrava as raízes do Norte de Minas e Vale do Jequitinhonha, e o Coral Cantarte, fruto de um trabalho musical sistemático na Escola Tancredo Neves, demonstram como a arte foi instrumento de emancipação. O projeto Cantarte, premiado pelo edital Microprojetos Mais Cultura, capacitou jovens em música entre 2010, reforçando que “educar é mais do que apenas ensinar a ler e a escrever” (p. 103). Poesias produzidas pelos alunos, como “A dor da rejeição” (p. 124) e “Canção do coração” (p. 125), revelam a sensibilidade gerada nesse processo.

    Textos reflexivos encerram a obra com chamados à autonomia e ao combate ao preconceito. Levon do Nascimento argumenta que o jovem autônomo é aquele que “consegue unir o conhecimento […] com a capacidade de criar e transformar” (p. 128), recusando-se a ser “marionete dos sistemas econômico e político”. Já o ensaio “Conceito e preconceito” (p. 129-130) alerta que apenas o “verdadeiro contato solidário” desfaz estereótipos, convidando a uma ética do encontro.

    Este memorial, portanto, é um testemunho vibrante de como a juventude de Taiobeiras “teceu sonhos” (p. 64) e transformou dor em esperança, deixando um legado indelével: a certeza de que, nas palavras do poeta Zé Vicente, “miremos bem no espelho da memória. Faremos jovem e linda nossa história” (p. 9).


    Referência:
    NASCIMENTO, Flaviana Costa Sena; NASCIMENTO, Levon. Memorial da Juventude de Taiobeiras. Belo Horizonte: Editora O Lutador, 2010.

  • SOB O PEQUIZEIRO SAGRADO: a epopeia do Cruzeiro que trouxe a chuva

    SOB O PEQUIZEIRO SAGRADO: a epopeia do Cruzeiro que trouxe a chuva

    Tentei transformar em prosa as 164 sextilhas de Hermínio Miranda Costa, publicadas em 1997 sob o título Santo Cruzeiro dos Martírios, sobre o monumento de mesmo nome, em Taiobeiras. Eis o resultado:


    O sol do Alto Rio Pardo não dava trégua. Era 1897, e a seca mais cruel em décadas transformara os gerais de Taiobeiras num deserto de poeira e silêncio. O gado tombava nas cercanias da Taboca, as veredas secaram e os olhos do povo, acostumados à esperança, viam seus sonhos virarem areia.

    Foi então, sob a sombra retorcida de um pequizeiro antigo, árvore sagrada do sertão mineiro, que os moradores se reuniram e fizeram uma promessa ousada, quase desesperada:

    “Se Deus nos mandar chuva, ergueremos um Cruzeiro santo onde a estrada para Matrona cruza o descampado!”

    Homens de barba grisalha, mulheres com crianças no colo, jovens de olhos úmidos de fé: todos partiram em romaria. Vieram a pé, das roças distantes, carregando pedras na cabeça, botijas d’água nas costas, flores nas mãos e esperança no coração. Caminharam do Coqueiro, onde as cacimbas já tinham secado; do Catolé, trazendo imagens de santos em panos vermelhos; e do Curral Queimado, com os pés sangrando entre pedregulhos.

    Até os bravos do Mato Grosso, em Rio Pardo de Minas, atravessaram léguas e léguas sob um céu de chumbo, trazendo nos ombros imagens santas, madeiras e um sonho coletivo. À frente, João Velho conduzia o terço, sua voz rouca rompendo o silêncio dos gerais:

    “Não é esmola que pedimos, Senhor…
    É justiça para a terra!”

    Quando chegaram ao descampado marcado pela fé, o milagre começou a acontecer. No exato momento em que ajoelharam na terra rachada, uma brisa fresca, improvável, quase impossível, soprou entre eles. Parecia um suspiro dos próprios gerais, aliviados pela devoção do povo.

    Ali mesmo, com as mãos calejadas de quem sabe manejar enxada e esperança, começaram a erguer o madeiro santo. Clementino, carpinteiro de Salinas, liderou o trabalho. Seu serrote, como quem esculpe a fé, moldava a cruz enquanto o povo cantava:

    “Madeiro pesado, dor redimida…
    Cravaremos aqui a nossa vida!”

    No dia 2 de julho de 1897, enquanto o sol se escondia atrás de nuvens escuras, o Cruzeiro dos Martírios foi fincado no chão ressequido. Dizem os mais velhos que, na mesma hora, Zezinho Costa selou o casamento ali mesmo, e as primeiras gotas de chuva tocaram a testa das crianças: bênção para quem espera com paciência de sertanejo.

    Mas o verdadeiro milagre estava nos símbolos pendurados na cruz: os cravos, lembrando o sofrimento que se transforma em esperança; a coroa de espinhos entrelaçada com flores de sempre-viva; e a escada de José de Arimateia, porque naquele instante, o céu encontrou o chão, ao alcance dos humildes do sertão.

    Anos depois, quando a seca voltou a ameaçar, o povo retornou em procissão. Desta vez, já havia uma igrejinha, construída por Dona Josefa, que doara o terreno. Durante um temporal, as paredes de barro desabaram, mas a imagem de Nossa Senhora do Amparo permaneceu intacta entre os escombros – sinal claro de que a fé resiste até às tempestades.

    Em 1997, no centenário do Cruzeiro, a cidade celebrou com foguetes e missa campal. O vigário, erguendo a voz ao vento, anunciou:

    “Esta cruz é testemunha!
    Enquanto o geraizeiro tiver coragem de semear em terra seca e esperar a chuva, o sertão viverá!”

    E nas noites de lua cheia, quando o vento varre o cerrado em silêncio, alguns juram ouvir sussurros. São as 164 sextilhas de Hermínio Miranda, poeta geraizeiro, que eternizou em versos a coragem de um povo que nunca deixou de acreditar.

  • Quer saber mais sobre Frei Jucundiano de Kok em Taiobeiras?

    Quer saber mais sobre um personagem principal na formação de Taiobeiras? Adquira o livro “Quando o chão e o céu se encontram”, de Levon Nascimento, e conheça Frei Jucundiano de Kok, o holandês que ajudou a construir Taiobeiras.
    quandoochaoeoceuseencontram #levon #taiobeiras #freijucundiano
    https://www.instagram.com/reel/DMDN1YTA1VD/?igsh=d2JtOHZ4ZTFkb3d2
  • Homenagem ao Professor Antônio Ribeiro Neto

    Homenagem ao Professor Antônio Ribeiro Neto


    Por Levon Nascimento

    Com profundo pesar, registro o falecimento do professor Antônio Ribeiro Neto, ocorrido em 11 de julho de 2025. Mestre aposentado de Geografia, ele dedicou anos de sua vida à educação na Escola Estadual Oswaldo Lucas Mendes, em Taiobeiras.

    Foi sob sua orientação, nas salas de aula da 8ª série e do 1º ano do Técnico em Contabilidade, que aprendi não apenas a localizar países no mapa-múndi e seus nomes, mas também a compreender a complexidade do mundo. O professor Antônio nos apresentou conceitos fundamentais: as economias planificadas, a divisão entre Primeiro e Terceiro Mundos, iluminando realidades distantes.

    Seu magistério foi vivido em um período histórico efervescente: o fim da Guerra Fria, a emblemática queda do Muro de Berlim, a dissolução da URSS, a primeira Guerra do Golfo e, no Brasil, a redemocratização com a primeira eleição direta para presidente após o longo período da ditadura militar (1964-1985). Com ele, tive o privilégio de não apenas testemunhar esses fatos marcantes, mas de compreendê-los através da lente precisa de quem dominava profundamente a Geografia e a História.

    Na sala de aula, era conhecido pelo rigor e pela exigência. Nos corredores da escola, revelava-se um companheiro acessível. No trato diário, destacava-se pela fina educação e pela cortesia que lhe eram características.

    A ausência do professor Antônio Ribeiro Neto deixará um vazio. Taiobeiras perde um de seus grandes mestres.

    Que os aplausos ecoem em sua homenagem. Um grande professor, uma memória que permanecerá.

  • Os párocos de São Sebastião de Taiobeiras

    Os párocos de São Sebastião de Taiobeiras

    1935: Criação da Paróquia e início da presença dos frades franciscanos

    1° Pároco:
    Frei Jucundiano de Kok (1940 – 1974)

    2° Pároco:
    Frei Salésio Heskes (1975 – 1988)

    3° Pároco:
    Frei João José de Jesus (1988 – 1992)

    4° Pároco:
    Frei Ronaldo Zwinkels (1993)

    5° Pároco:
    Frei Feliciano van Sambeek (1994)

    6° Pároco:
    Frei Berardo Kleuskens (1995 – 1998)

    7° Pároco:
    Frei José da Silva Pereira (1999 – 2000)

    8° Pároco:
    Frei Antônio Teófilo da Silva Filho (2001 – 2007)

    2007: Fim da presença dos frades franciscanos e início da presença dos padres diocesanos

    9° Pároco:
    Padre Inivaldo Fernandes de Lima (2007 – 2009)

    2010: Fim da presença dos padres diocesanos e início da presença dos padres Missionários da Sagrada Família

    10° Pároco:
    Padre José Ivan Alckimim (2010 – 2020)

    11° Pároco:
    Padre Vanderlei Souza da Silva (2021)

    2022: Fim da presença dos padres Missionários da Sagrada Família e retorno da presença dos padres diocesanos

    12° Pároco:
    Padre Gilberto Rodrigues dos Santos Júnior
    (2022 – Atual)

  • Lançamento do livro “Quando o chão e o céu se encontram” reúne educadores, agentes culturais e estudantes em noite de emoção e reflexão em Taiobeiras

    Lançamento do livro “Quando o chão e o céu se encontram” reúne educadores, agentes culturais e estudantes em noite de emoção e reflexão em Taiobeiras

    Na noite de 18 de junho de 2025, a Biblioteca Pública Zenilde Mota Maia, em Taiobeiras (MG), foi palco de um encontro que uniu literatura, memória, espiritualidade e compromisso social. Entre 19h e 21h30, aconteceu o lançamento do livro “Quando o chão e o céu se encontram”, de Levon Nascimento, publicado pela 3i Editora, com expressiva participação de educadores, agentes políticos e culturais, jovens, estudantes, amigos e familiares do autor.

    A escolha da data não foi por acaso: o evento celebrou os 10 anos da publicação da encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco, um dos principais inspiradores da obra. O apoio cultural veio do coletivo Juntos Para Servir, que congrega os mandatos do Deputado Federal Padre João (PT/MG) e do Deputado Estadual Leleco Pimentel (PT/MG).

    A cerimônia foi conduzida com leveza e emoção pela servidora da própria Biblioteca, Eliana Alves, que atuou como mestre de cerimônias. Diversas homenagens marcaram a noite, entre elas à memória de Anelza Rita de Miranda, bibliotecária que por décadas cuidou com zelo do espaço cultural que agora sediava o lançamento, e a Frei Jucundiano de Kok, primeiro pároco de Taiobeiras e personagem destacado nas páginas do livro. Também foram recordados o Papa Francisco e sua luta por uma Ecologia Integral, uma das linhas centrais da obra.

    O autor, Levon Nascimento, trouxe ao público um discurso marcado pela emoção e pela denúncia social, reforçando o caráter engajado do livro, que transita entre memórias do sertão mineiro, crítica ao modelo econômico destrutivo e reflexões sobre espiritualidade libertadora.

    Durante a cerimônia, convidados fizeram leituras de trechos da obra, apresentando ao público personagens como o próprio Frei Jucundiano, as educadoras Duca Queiroz e Célia Egídio, o escritor Milton Santiago, a declamadora Nair Freitas, o cronista Vlade Patrício, o ativista Uenio Thuary e o padre Júlio Lancellotti, além de reflexões sobre o meio ambiente, a crise climática, os desafios políticos contemporâneos e a resistência dos povos tradicionais do Norte de Minas, como os geraizeiros.

    Com uma linguagem que entrelaça poesia, história, espiritualidade e análise social, Levon propõe em “Quando o chão e o céu se encontram” uma leitura comprometida com a vida, com os pobres e com o futuro da Casa Comum. A obra é um convite ao diálogo entre fé e política, entre o chão sertanejo e o céu das utopias possíveis.

    Ao final do evento, o autor agradeceu aos presentes, aos apoiadores culturais e à equipe da Biblioteca Pública de Taiobeiras, além de reforçar o chamado à esperança, à resistência e ao cuidado com as pessoas e com o planeta.

    Laudato Si’, meu Senhor! — como resumiu Levon, encerrando a noite com um agradecimento coletivo.

  • Inédito: Foto da 1ª Coroação de N. Sra. de Fátima em Taiobeiras

    Inédito: Foto da 1ª Coroação de N. Sra. de Fátima em Taiobeiras

    A fotografia, em sépia, foi obtida graças à pesquisa de Levon Nascimento junto ao Arquivo da Província Franciscana de Santa Cruz, em março de 2025, e registra uma grande concentração de fiéis reunidos em frente à Igreja Matriz de São Sebastião de Taiobeiras, MG, no dia 13 de maio de 1957, por ocasião da primeira coroação de Nossa Senhora de Fátima naquele município. Ao centro e em destaque, sobre a carroceria de um caminhão adaptado como andor móvel, ergue-se a imagem de Nossa Senhora de Fátima em tamanho natural, talhada e pintada com vestidos longos e mantos drapeados. Quatro crianças, vestidas de anjos — com túnicas claras e auréolas delicadas — posicionam-se aos pés da estátua, enquanto outras coroam simbolicamente a Virgem com guirlandas de flores ou pequenas coroas.

    Imediatamente atrás do grupo que sustenta a imagem, o altar improvisado exibe toalhas brancas e estandartes; hasteadas, duas bandeiras tremulam levemente ao vento. Atrás do caminhão, logo à entrada da porta principal da matriz, encontra-se Dom José Alves Trindade, bispo de Montes Claros, em sua primeira visita pastoral a Taiobeiras, trajando sua batina escura e a cruz peitoral, em atitude solene e contemplativa, abençoando a assembleia.

    Em primeiro plano, a multidão de homens, mulheres e crianças — muitos vestidos com trajes do cotidiano dos anos 1950, como saias rodadas e camisas sociais — preenche toda a praça em frente ao templo. Observa-se também um grupo de senhoras com vestidos florais e mangas curtas, enquanto acompanham reverentes o rito religioso. Ao longe, casas simples de alvenaria branca com portas e janelas escuras formam o pano de fundo, e algumas árvores esparsas marcam o início da principal praça do pequeno centro urbano, recém-emancipado (1953).

    O registro capta não apenas o momento litúrgico — a coroação sacra de uma devoção mariana que atraiu fiéis de toda a região —, mas também o ambiente festivo e comunitário que deu origem, naquele exato dia, à tradicional Festa de Nossa Senhora de Fátima e, depois, à secular Festa de Maio de Taiobeiras. A cena transpira religiosidade popular, fervor piedoso e o entrelaçamento de fé e identidade cultural local, em plena praça pública diante do edifício-matriz, erguido pela liderança de Frei Jucundiano de Kok, OFM.

    Ficha descritiva
    Identificador: 11869
    Descrição do registro: Primeira Coroação de Nossa Senhora de Fátima, em Taiobeiras, MG, em 13/05/1957
    Data de produção: 13/05/1957
    Lugar de produção: Taiobeiras, MG
    Entidade custodiadora: BR MGOFMPSC – Arquivo da Província Santa Cruz
    Grupo Religioso: OFM ― Ordem dos Frades Menores
    Grupo Religioso – Instituição: OFM – Província Santa Cruz
    Notas sobre este registro fotográfico: Primeira Coroação de Nossa Senhora de Fátima, em Taiobeiras, MG, em 13/05/1957

  • Antiga matriz de Taiobeiras (90 anos da Paróquia São Sebastião de Taiobeiras)

    Antiga matriz de Taiobeiras (90 anos da Paróquia São Sebastião de Taiobeiras)

    Por Levon Nascimento

    A história da presença católica em Taiobeiras remonta ao final do século XIX, quando a região ainda pertencia à Paróquia Nossa Senhora da Conceição de Rio Pardo de Minas. Em 1897, o pároco daquela cidade, Esperidião Gonçalves dos Santos, benzeu e inaugurou o Santo Cruzeiro dos Martírios, no dia 2 de julho, marco importante da religiosidade local. Nessa época, Taiobeiras era apenas um povoado, mas já contava com uma comunidade católica ativa.

    Foi nesse contexto que surgiu a primeira capela do lugar, construída por Vitoriano Pereira Costa, proprietário do Sítio Bom Jardim. Ela foi erguida no local onde hoje se encontra a Praça Joaquim Teixeira, nos fundos do atual Mercado Municipal. Essa capela simples, mas significativa, seria o embrião da futura Paróquia São Sebastião de Taiobeiras.

    Em 1924, com o distrito já instalado e passado a pertencer ao município e paróquia de Salinas, diante do crescimento da comunidade e da dedicação dos moradores, a capela passou por sua primeira ampliação, graças aos esforços liderados por dona Raquel Torres, que organizou campanhas para arrecadação de recursos. Como era de costume nas capelas particulares da época, pessoas de destaque social eram sepultadas em seu interior. Ainda se viam, no piso da igreja, as lápides de figuras notáveis como Martinho Antônio Rêgo — o primeiro vereador de Taiobeiras para a Câmara de Rio Pardo de Minas, falecido em 1911 —, Aleixo Martins de Oliveira, Conrado José da Rocha e sua esposa, Maria Quintina da Rocha.

    Com o passar dos anos, a população do povoado aumentou e a capela original já não comportava os fiéis. Em 1939, uma segunda ampliação foi realizada, promovida por Frei Acário Heuvel, então administrador da recém-criada paróquia de Taiobeiras, mas ainda residente em Salinas. Essa estrutura permaneceu até 1962, quando foi lamentavelmente demolida.

    A Paróquia São Sebastião de Taiobeiras seria oficialmente criada em 20 de maio de 1935, por decreto do bispo diocesano de Montes Claros, Dom João Antônio Pimenta, sendo desmembrada da Paróquia Santo Antônio de Salinas. Mas foi apenas em 1941, com a chegada de Frei Jucundiano de Kok, primeiro pároco efetivo de Taiobeiras, que se iniciaria a construção da nova e atual matriz de São Sebastião, localizada na praça de mesmo nome.

    Fontes
    1. Taiobeiras: Seus Fatos Históricos. Volumes I e II. Autor: Avay Miranda.
    2. Efemérides Riopardenses. Volumes I e IV. Autor: Cônego Padre Newton de Ângelis.
    3. Arquivo da Arquidiocese de Montes Cla
    ros.