* Levon Nascimento
Enquanto Donald Trump abandona o Acordo de Paris e busca salvar os canudinhos de plástico, em prejuízo do clima, de rios, mares, oceanos e da vida aquática; taxa os países pobres e em desenvolvimento de maneira exorbitante para garantir a riqueza de poucos bilionários, vindo a causar desemprego e fome nas periferias do mundo e de sua própria nação; expulsa os imigrantes dos Estados Unidos, à custa da contradição de ser ele próprio filho e marido de mulheres que migraram para aquele país; ameaça deportar massivamente os palestinos de suas casas e terras na Faixa de Gaza; em rebeldia, devemos nos recordar da poesia da criação, no capítulo primeiro do Gênesis, independentemente de crença ou descrença religiosa.
O sagrado autor da tradição hebraica, ao elencar a criação da luz, do dia, da noite, do céu, da terra e do mar (Gn 1,3-10); da vegetação, (Gn 1,11-13); do sol, da lua, das estrelas (Gn 1,14-19); dos animais aquáticos e das aves (Gn 1,20-23); dos animais terrestres (Gn 1,24-25); e do ser humano (Gn 1,26-31), sempre arremata com “E Deus viu que era bom” (Gn 1,10b.12b.18b.21b.25b); e finaliza exultante, diante da humanidade, “Então Deus viu tudo quanto havia feito, e era muito bom” (Gn 1,31).
No início do segundo milênio cristão, Francisco de Assis retoma essa visão de bondade criativa e exalta a natureza como presente divino. Il poverello de Assisi, assim cantou em êxtase, diante da beleza do mundo:
“Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas, especialmente o meu senhor irmão sol, o qual faz o dia e por ele nos alumia. E ele é belo e radiante com grande esplendor: de Ti, Altíssimo, nos dá ele a imagem. Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã lua e pelas estrelas, que no céu formaste claras, preciosas e belas. Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão vento, pelo ar, pela nuvem, pelo sereno, e todo o tempo, com o qual, às tuas criaturas, dás o sustento. Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã água, que é tão útil e humilde, e preciosa e casta. Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão fogo, pelo qual iluminas a noite: ele é belo e alegre, vigoroso e forte”.
O padroeiro da ecologia enxergou a criação como extensão da bênção do criador. Retomou no cristianismo a visão religiosa que liga espírito e criação, humanidade e todos os demais seres vivos, o cósmico e o natural, a divindade e o mundo.
Mais recentemente, o Papa Francisco, em sua Carta Encíclica Laudato Si’, retorna ao Gênesis e a São Francisco. Nela, o primeiro papa latino-americano aborda o cuidado da “Casa Comum”, que é o nosso Planeta Terra, destacando uma ecologia integral, que una as preocupações ambientais e sociais. Francisco convoca todos, crentes e não crentes, a refletirem sobre a degradação ambiental, como as alterações climáticas, a perda de biodiversidade e as desigualdades sócio-econômicas entre os seres humanos, propondo uma mudança de paradigma, para um desenvolvimento sustentável e solidário.
Francisco conclui a Laudato Si’ convidando a todos para adotarem um novo estilo de vida, mais simples e solidário, expurgando a tentação consumista. Ele enfatiza a importância da esperança e da ação. Para o argentino, a criação é um ato de amor de Deus, logo, ela não pode ser encarada como objeto de troca econômica, de ganância e lucro, mas como dom e presente para todos os seres humanos e para todas as criaturas não-humanas. Tudo interligado.
Partindo dessas três fontes irretocáveis da tradição cristã: o Gênesis, São Francisco de Assis e o Papa Francisco, pode-se proclamar que as escolhas de Trump, de seus asseclas da extrema-direita mundial e de sua demoníaca teologia do domínio são heréticas. Instrumentalizam Deus e seu Filho Jesus em nome do capital, da guerra e do lucro. Contaminam e profanam a criação, tanto quanto poluem as águas, os solos e os ares. Ignoram que “tudo está interligado, como se fôssemos um”. Entregam-se à morte e condenam os inocentes a morrer.
É urgente resgatar a teologia do cuidado dentro da tradição cristã, quaisquer que sejam as denominações. Fontes teológicas é que não faltam. A fraternidade e a ecologia integral serão as formas pós-contemporâneas da verdadeira fidelidade de todo crente ao Evangelho de Jesus.
* Levon Nascimento é leigo católico, professor de história e doutorando em Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável.