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  • Valores éticos e políticos, os meus

    Essa bela narrativa do Frei Betto serve como explanação dos valores éticos e políticos que eu luto para cultivar em minha vida:

    “Verifique periodicamente se você é mesmo de esquerda. Adote o critério de Norberto Bobbio: a direita considera a desigualdade social tão natural quanto a diferença entre o dia e a noite. A esquerda a encara como uma aberração a ser erradicada. (…)

    Conviver com os pobres não é fácil. Primeiro, há a tendência de idealizá-los. Depois, descobre-se que entre eles há os mesmos vícios encontrados nas demais classes sociais. Eles não são melhores nem piores que os demais seres humanos. A diferença é que são pobres, ou seja, pessoas privadas injusta e involuntariamente dos bens essenciais à vida digna. Por isso, estamos ao lado deles. Por uma questão de justiça. (…)

    Em todos os setores da sociedade há corruptos e bandidos. A diferença é que, na elite, a corrupção se faz com a proteção da lei e os bandidos são defendidos por mecanismos econômicos sofisticados, que permitem que um especulador leve uma nação inteira à penúria. (…)

    A vida é o dom maior de Deus. A existência da pobreza clama aos céus. Não espere jamais ser compreendido por quem favorece a opressão dos pobres”.

  • Artigo do Levon: Isalino, Elvira e a juventude

    * Publicado na versão impressa do Jornal Folha Regional, página 3, ano IX, nº 194, janeiro de 2012.

    Quem viu nas redes sociais, em especial no Facebook, a repercussão positiva das comemorações dos cem anos de idade de Elvira e Isalino Miranda e dos oitenta anos do matrimônio dos dois, percebeu a quantidade de compartilhamentos, cliques no botão “curtir” e comentários elogiosos partindo de adolescentes e jovens que valorizaram o bonito exemplo de vida do centenário casal taiobeirense, e promoveram com entusiasmo a divulgação de sua duradoura e estável união conjugal.

    Essa ação da juventude “conectada” despertou curiosidade por felizmente ir contra uma realidade atormentadora. Atualmente se vive numa sociedade consumista onde o idoso é tratado de forma negativa, desrespeitosa e até violenta. A estabilidade da família, especialmente entre duas pessoas vivendo juntas por um longo período, como a relação do casal Isalino e Elvira, deixou de ser um objetivo de vida para muita gente. Nas relações de casal, ficou comum seguir a mesma lógica que o mercado definiu para as mercadorias: “comprar, usar e, por fim, trocar”, sacramentando o rito das relações descartáveis.

    Ainda que em parte justificado pela cobertura da mídia local e nacional (Fantástico, da Globo), foi diferente e estimulador ver tanta gente nova valorizando um casal de idosos, conhecendo suas vidas e experiências e aclamando o fato de estarem juntos – “e felizes”, como disse o Maurício Kubrusly – há oitenta anos. Derrotando os maus modos da sociedade descartável e fútil, os jovens demonstraram sensibilidade, carinho e respeito. Puseram-se abertos e dinâmicos para compreender e promover as boas coisas da vida. Sinal de que nem tudo é sombra no futuro que aguarda o mundo de hoje.

    Esses sinais de benevolência da juventude que se encantou com Isalino e Elvira destroem a amargura das notícias trágicas. Do tipo em que netos ou filhos deixam seus idosos jogados à própria sorte, ou quando exploram suas aposentadorias ou seus serviços. Pior ainda, quando parentes mais novos matam os mais velhos (pais, avós) por conta das drogas ou de dinheiro, como em exemplo bem recente e próximo da realidade de Taiobeiras e do Brasil.

    Nos passos dessa esperança é possível criar canais produtivos entre os mais novos e os idosos. Esperança numa juventude sensível, capaz de se abrir às experiências de quem já viveu mais tempo. Juventude que mire nos sinais de firmeza e solidez das relações humanas e identifique nelas os valores essenciais escondidos nas histórias simples dos seus entes mais velhos. Depende das famílias e da sociedade saber cultivar essa juventude.

    O centenário de nascimento e o octogésimo aniversário de casamento de Elvira e Isalino Miranda serviram para demonstrar às gerações iniciantes que é possível viver bem, feliz e com solidez de valores por toda uma vida. O casal exibiu raro e precioso exemplo de valorização da dignidade inerente à pessoa humana que, via de regra, deveria se estender a todas as famílias e a cada indivíduo, em especial.

    Há esperança de um mundo melhor.

  • Artigo do Levon: Doces ilusões

    Levon em palestra para estudantes
    * Levon do Nascimento, Professor de História e titular deste Blog. Publicado na edição impressa número 185, Ano IX, do Jornal Folha Regional, de Taiobeiras (MG), julho de 2011, página 10.

    Vivemos uma época mundial de hipercapitalismo. Em fase terminal, é verdade (vide crise financeira de 2008, ainda não resolvida nos EUA e na Europa). Tudo virou negócio e pode ser comercializado. O consumo é a regra. A satisfação hedonista do “eu” é o paraíso ou o nirvana a ser alcançado. As pessoas, assim como os produtos, tornam-se descartáveis. As relações humanas – familiares, inclusive – são quantificáveis no valor da cotação das moedas correntes nas bolsas de apostas do deus-Mercado. A Deus nada, a César tudo, especialmente nas igrejas e demais grupos religiosos. A ética, a moral e a fé se ajustam conforme as necessidades de posse dos bens tangíveis e dos burocratas ou dos hierarcas de plantão. Importa ter (possuir), poder (mandar) e satisfazer-se (prazer). Um cenário dantesco (infernal), depredador e deformado; agradavelmente maquiado, perfumado e bem-vestido com as melhores marcas de cosméticos e de confecções que a publicidade ilusória e inescrupulosa consegue forjar. Eis um retrato amargo de nosso tempo. Os calçados de marca desta era impedem que se vejam as pegadas de patas animalescas adquiridas nesta involução a que a humanidade se lançou.

    O planeta em crise climática. As energias, liberadas pelo descuido humano, destroem os biomas e ameaçam desalojar o próprio ser humano (vide caso da usina nuclear de Fukushima, no Japão). O aquecimento global é uma realidade que se nos impõe avassaladoramente. Tempestades destroem cidades inteiras, inundando e soterrando, especialmente as áreas onde moram os mais pobres e despossuídos para o deus-Mercado. As forças do capital financeiro se sobrepõem aos interesses das “democracias”. Aliás, democracias, será que existem?

    As intolerâncias e os ódios humanos se manifestam como se a civilização e os seus recursos tecnológicos e culturais ainda não tivessem sido alcançados. O desprezo com a vida, o elogio à violência, a admiração por agressores e corruptores, o desamor pelo próximo (especialmente o mais humilhado: o menor, a mulher, o negro, o índio, o deficiente, o homossexual, o mendigo) e o desapreço aos valores de bondade, respeito, solidariedade, honestidade e honra se manifestam a cada dia com mais força. Incrível, esquisito e lastimável como muitos grupos religiosos cristãos, depois de um tempo primaveril glorioso de amparo aos que sofrem, voltam a se fechar e a vomitar preconceitos, pusilanimidade e desprezo para com aqueles a quem a sociedade já havia tratado de humilhar. Fazem isto em nome de Deus. Na verdade, servem mais ao deus-Capital, a face visível do verdadeiro inimigo da divindade cristã.

    Resta aos que desejam um mundo mais à esquerda (solidário, igual, justo) das fórmulas à “direita” que construíram tais cenários de terror, lutar até o último fôlego contra toda essa catarse de coisas ilusórias, doces na aparência, amargas na essência. Para quem, em vez “do ter, do poder e do prazer”, busca um novo paradigma civilizatório, baseado no amor e no conteúdo, “no ser, no servir e no sentir”, contrariando as aparências esguias, produzidas pelos estúdios de conteúdo oco e perecível, abrem-se as portas da consciência cidadã universalista, da fé inteligente e ecumênica, e da razão lógica que se coloca a serviço das necessidades humanas e do planeta.

    Não se assuste o leitor ou leitora deste artigo com as constatações monstruosas dos três primeiros parágrafos. Saiba que há muitos homens e mulheres, de todas as idades e raças, de várias condições sociais e credos, trabalhando sem parar, a fim de que um novo tempo, melhor e mais justo, seja possível e concreto em nossas vidas. Liberte-se da cegueira ilusória do deus-Mercado. Junte-se àqueles que acreditam na proposta do “caminho, da verdade e da vida”.
  • Leonardo Boff: Crise terminal do capitalismo?

    Leonardo Boff
    * Via mensagem de e-mail proveniente de Sônia Gomes de Oliveira,
    do Secretariado de CEB’s da Arquidiocese de Montes Claros.

    ** Leonardo Boff

    Tenho sustentado que a crise atual do capitalismo é mais que conjuntural e estrutural. É terminal. Chegou ao fim o gênio do capitalismo de sempre adapatar-se a qualquer circunstância. Estou consciente de que são poucos que representam esta tese. No entanto, duas razões me levam a esta interpretação.

    A primeira é a seguinte: a crise é terminal porque todos nós, mas particularmente o capitalismo, encostamos nos limites da Terra. Ocupamos, depredando, todo o planeta, desfazendo seu sutil equilíbrio e exaurindo excessivamente seus bens e serviços a ponto de ele não conseguir, sozinho, repor o que lhes foi sequestrado. Já nos meados do século XIX, Karl Marx escreveu profeticamente que a tendência do capital ia na direção de destruir as duas fontes de sua riqueza e reprodução: a natureza e o trabalho. É o que está ocorrendo.

    A natureza, efetivamente, se encontra sob grave estresse, como nunca esteve antes, pelo menos no último século, abstraindo das 15 grandes dizimações que conheceu em sua história de mais de quatro bilhões de anos. Os eventos extremos verificáveis em todas as regiões e as mudanças climáticas tendendo a um crescente aquecimento global falam em favor da tese de Marx. Como o capitalismo vai se reproduzir sem a natureza? Deu com a cara num limite intransponível.

    O trabalho está sendo por ele precarizado ou prescindido. Há grande desenvolvimento sem trabalho. O aparelho produtivo informatizado e robotizado produz mais e melhor, com quase nenhum trabalho. A consequência direta é o desemprego estrutural.

    Milhões nunca mais vão ingressar no mundo do trabalho, sequer no exército de reserva. O trabalho, da dependência do capital, passou à prescindência. Na Espanha o desemprego atinge 20% no geral e 40% entre os jovens. Em Portugual 12% no pais e 30% entre os jovens. Isso significa grave crise social, assolando neste momento a Grécia. Sacrifica-se toda uma sociedade em nome de uma economia, feita não para atender as demandas humanas mas para pagar a dívida com bancos e com o sistema financeiro. Marx tem razão: o trabalho explorado já não é mais fonte de riqueza. É a máquina.

    A segunda razão está ligada à crise humanitária que o capitalismo está gerando. Antes se restringia aos paises periféricos. Hoje é global e atingiu os países centrais. Não se pode resolver a questão econômica desmontando a sociedade. As vítimas, entrelaças por novas avenidas de comunicação, resistem, se rebelam e ameaçam a ordem vigente. Mais e mais pessoas, especialmente jovens, não estão aceitando a lógica perversa da economia política capitalista: a ditadura das finanças que via mercado submete os Estados aos interesses dos capitais especulativos que circulam de bolsas em bolsas, auferindo ganhos sem produzir absolutamente nada a não ser mais dinheiro para seus rentistas.

    Mas foi o próprio sistema do capital que criou o veneno que o pode matar: ao exigir dos trabalhadores uma formação técnica cada vez mais aprimorada para estar à altura do crescimento acelerado e de maior competitividade, involuntariamente criou pessoas que pensam. Estas, lentamente, vão descobrindo a perversidade do sistema que esfola as pessoas em nome da acumulação meramente material, que se mostra sem coração ao exigir mais e mais eficiência a ponto de levar os trabalhadores ao estresse profundo, ao desespero e, não raro, ao suicídio, como ocorre em vários países e também no Brasil.

    As ruas de vários paises europeus e árabes, os “indignados” que enchem as praças de Espanha e da Grécia, são manifestação de revolta contra o sistema político vigente a reboque do mercado e da lógica do capital. Os jovens espanhois gritam: “Não é crise, é ladroagem”. Os ladrões estão refestelados em Wall Street, no FMI e no Banco Central Europeu, quer dizer, são os sumo-sacerdotes do capital globalizado e explorador.

    Ao agravar-se a crise, crescerão as multidões, pelo mundo afora, que não aguentam mais as consequências da super-exploracão de suas vidas e da vida da Terra e se rebelam contra este sistema econômico que faz o que bem entende e que agora agoniza, não por envelhecimento, mas por força do veneno e das contradições que criou, castigando a Mãe Terra e penalizando a vida de seus filhos e filhas.

    ** Leonardo Boff – Doutor em Teologia e Filosofia pela Universidade de Munique, nasceu em 1938. Foi um dos formuladores da “Teologia da Libertação”. Autor do livro Igreja: carisma e poder, de 1984, que sofreu um processo judicial no ex-Santo Oficio, em Roma, sob o cardeal Ratzinger. Participou da redação da Carta da Terra e é autor de mais de 80 livros nas várias áreas das ciências humanísticas.

  • E se falarmos de "eticamente correto"?

    Por Rodolfo Vianna, do Observatório do Direito à Comunicação

    Rafinha Bastos, humorista e apresentador do programa CQC, fez uma piada em um dos seus shows que logo repercutiu por toda a internet: mulher feia que é estuprada não tem que reclamar, tem que agradecer. O relato está no perfil do comediante publicado na edição de maio da revista Rolling-Stone.

    Auto-denominado politicamente incorreto, Rafinha insiste na pertinência da sua piada e diz que a função do humor é provocar. Aliás, ouve-se de praticamente todas as bocas dos atuais comediantes brasileiros (e com ecos significativos no conjunto da sociedade) a necessidade de se combater o “politicamente correto” pelo humor. Mas, afinal, do que se trata esse combate?

    É constituinte do humor a transgressão. Ele se estabelece por uma ruptura, um estranhamento, num “esforço inaudito de desmascarar o real”, nas palavras do historiador Elias Thomé Saliba em seu livro Raízes do riso. E existe toda uma longa tradição humorística que relaciona o riso à liberdade, à infração das normas que sufocam os sujeitos em determinados contextos históricos, à revelação do inaceitável frente ao aceitável imposto, etc.

    Mas também existe a tradição que relaciona o humor ao preconceito, às generalizações e às ofensas. As piadas, por esta tradição, refletem, cristalizam, e alimentam um universo simbólico calcado na desigualdade, na relação hierárquica com o Outro pelo vetor da superioridade/inferioridade, no desprezo e na segregação.

    É certo, por sua vez, que o que se denominou de “politicamente correto” também carrega certos excessos que atuam como normas sufocantes aos sujeitos, mas não se pode ignorar que o seu núcleo sólido é resultado de tensões, conflitos e lutas históricas e sociais daqueles agentes que antes eram alvos da segregação e preconceito manifestado pelo riso de outros agentes hegemônicos. E há de se ter claro também que a linguagem é um palco privilegiado onde se manifestam esses conflitos.

    Sendo assim, o que se percebe atualmente no combate ao dito “politicamente correto” é uma confusão relacionada a qual caminho seguir pela transgressão: transgride rumo à tradição libertária do humor ou transgride rumo à tradição preconceituosa e segregante? Cruza-se a fronteira do “politicamente correto” rumo ao progresso ou rumo ao atraso?

    Nota-se ainda que muitos humoristas atualmente, sob a premissa de ser contra o “politicamente correto”, marcham para trás: acreditando estarem avançando em direção ao caráter libertário do humor, recuam e reforçam justamente o caráter conservador e perverso do riso. Sob a bandeira do combate à hipocrisia tornam-se hipócritas.

    Ironicamente, a batalha desses humoristas contra o “politicamente correto” só explicita a necessidade de sua existência. E se a expressão está desgastada e pode soar para alguns como normas impostas que os sufocam, normas estas externas e que minam sua liberdade, pensemos, então, em “eticamente correto” (que é redundante: ou algo é ético ou anti-ético). A ética, por sua vez, é constituída por valores que devem nortear a relação de um indivíduo com os outros, implica responsabilidade e tem seus princípios fundamentais – e deve permear todas as esferas da prática individual.

    O riso não pode servir de álibi para uma ação eticamente condenável. E como escreveu Wittgenstein em um dos seus Aforismos, “o humor não é um estado de espírito, mas uma visão de mundo”, há de ser contra toda visão de mundo preconceituosa, que segrega e inferioriza. A história deve marchar para frente, avançar guiada pelo princípio ético da igualdade, e em hipótese alguma retroceder – nem se for de “brincadeira”.

    * Rodolfo Vianna é jornalista e membro do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social.