A jornalista Lais Gouveia, com bisturi afiado, nos apresentou o retrato falado de uma criatura que prolifera no Brasil como dengue em água parada: o fubango de autoestima inflada e valores morais murchos. Não é apenas uma figura folclórica ou uma aberração de reality show. É a engrenagem humana de um projeto socialmente letal, fundado na arrogância da aparência, na exclusão meticulosa e na violência — tanto a que se disfarça em “opinião” quanto a que mata de fato. Foi assim que o gari Laudemir de Souza Fernandes, de 44 anos, trabalhador, pai, cidadão, acabou morto em Belo Horizonte, enquanto o suspeito de matá-lo seguiu para a academia, porque, afinal, bíceps não se fazem sozinhos.
Começa pelo prato principal dessa dieta mental: “anabolizante com batata doce”. Leitura, nem pensar, um veneno! Não é só nutrição; é liturgia. O corpo como altar e arma, o culto à hipertrofia como substituto de caráter. “No pain, no game”, berra diante do espelho, ignorando que a dor que importa é a dos outros — invisível, descartável ou, na melhor das hipóteses, motivo de piada. O corpo é a blindagem e o atestado de “superioridade natural” do que se acha a viver num jogo de seleção artificial.
O figurino desse espécime é um desfile de pretensão barata: “duas horas na fila da Disney com moletom da Tommy Hilfiger”. Aqui, consumo não é prazer; é hierarquia. Cada marca é uma cerca elétrica invisível separando “gente de bem” da “gentalha que estraga o glamour dos aeroportos”. Glamour, claro, entendido como apartheid social — aquele em que pobre é tolerado como funcionário, nunca como passageiro. Laudemir não foi vítima apenas de um crime; foi vítima de uma lógica que elimina fisicamente quem ousa existir fora do lugar designado.
A fé, quando existe, é um fast-food espiritual: “café com Deus Pai” e “frases motivacionais do André Valadão”. É a versão gospel do coaching, onde Deus é personal trainer da sua conta bancária e a pobreza é vista como erro estratégico de quem “não correu atrás”. A teologia da prosperidade aqui serve de cimento para a moral do esgoto: direitos humanos são só para “humanos direitos”, ou seja, clones do próprio fubango.
E há, por baixo de toda essa pose, a mais patética das couraças: a síndrome de vira-lata. É o sujeito que ostenta a bandeira dos Estados Unidos na camiseta, mas acha cafona a brasilidade. Camisa da seleção brasileira só como uniforme da guerra cultural de extrema-direita. Que fala mal do próprio país como quem comenta o tempo — automático, preguiçoso —, e se refere à cultura nacional como coisa menor, “brega”, “pobre”, “inadequada”. Que só respeita lei, arte e soberania quando vêm carimbadas com selo de importação. E, ironicamente, é capaz de matar um brasileiro para provar a si mesmo que pertence a um clube que jamais o aceitará como membro legítimo.
Na playlist cultural, uma sinfonia do vazio: “foto do braço no volante ao som de Gusttavo Lima”. É a ostentação pasteurizada, a vida filtrada em Instagram Stories, o volante como cetro de um reinado imaginário. Botox aos litros, placas dentárias que refletem o sol e um vocabulário que não resiste a dois parágrafos sem o “Você sabe com quem está falando?”. Quando a máscara escorrega e o privilégio é ameaçado, o fubango responde com esse SOS aristocrático, denunciando a crença mais íntima: existem vidas que valem menos que um treino de tríceps.
E é aqui que a coisa deixa de ser caricatura e vira protocolo de guerra social. O fubango não é um acidente isolado; é um manual vivo de desumanização. Ele circula nas academias, nos aeroportos, nas timelines e, o que é mais preocupante, nas urnas. Alimenta e é alimentado por um Brasil que confunde força com virtude e confere imunidade moral a quem ostenta o pacote completo: bíceps, marca, desprezo e complexo de inferioridade cultural.
Por isso, reconhecer e nomear esse arquétipo é mais que sátira: é medida de segurança pública. Atrás do moletom da Tommy, da frase motivacional, da bandeira estrangeira no peito e do sorriso de porcelana, há sempre o risco do soco, do tiro ou da indiferença que mata. E quando ele perguntar, com o peito estufado e o maxilar travado, “Você sabe com quem está falando?”, a única resposta possível é clara, seca e sem reverência: “Sim. Com um perigo social.”