Autor: Levon Nascimento

  • A lista de Epstein

    A lista de Epstein

    A chamada “lista de Epstein” — e todo o processo que a envolve — expõe denúncias gravíssimas e relações obscuras entre figuras poderosíssimas do capitalismo global e redes de exploração e abuso. Nesse universo de poder, Donald Trump e outros bilionários aparecem como personagens centrais de um sistema profundamente corrompido, ao passo que Jair Bolsonaro surge como um de seus aliados políticos mais explícitos.

    Não é casual, portanto, que esse mesmo bloco de poder tenha se articulado contra o Papa Francisco, justamente por ele ter sido uma das vozes mais firmes na denúncia das injustiças estruturais, da mercantilização da vida e da idolatria do dinheiro.

    Se há algo que possa ser chamado de “besta do Apocalipse” ou “anticristo” em nosso tempo, ele não se apresenta em figuras míticas, mas nas engrenagens concretas desse sistema econômico desumanizante, amplamente revelado nos escândalos ligados a Epstein.

    O mais triste é ver setores da extrema-direita cristã curvarem-se diante desse poder, confundindo fé com submissão ao capital. Nesse sentido, assumir uma posição de esquerda — comprometida com justiça social, dignidade humana e solidariedade — é, a meu ver, estar muito mais próximo do ensinamento de Cristo do que das forças que o negam.


    Nome de Trump aparece em registros de voos ligados à Epstein — Foto: Reprodução
  • Otelina: Semente dos Gerais

    Otelina: Semente dos Gerais

    Dona Otelina Rodrigues dos Santos partiu nesta semana que ora se encerra, a poucos passos de completar seus 76 anos de vida – que chegariam em 20 de março próximo. Partiu cedo, é verdade, mas carregada de tempo vivido, de chão pisado e de gente cuidada.

    Filha dos gerais da Lagoa Dourada, em Taiobeiras, Otelina fez da própria existência um longo ato de doação. Por onde passou – e especialmente na comunidade da Lagoa Grande – deixou raízes profundas, fincadas na família extensa, no trabalho coletivo e na fé partilhada.

    Mulher afrodescendente, liderança comunitária e sindical, zeladora do Apostolado da Oração, presidenta de associação, guardiã do cerrado e do pequi. Mulher de luta, de palavra firme e mãos abertas. Madrinha de muitos. Como o pequizeiro generoso, que no tempo certo se cobre de frutos, Otelina fez florescer gente. E agora, nestes dias finais de janeiro, todo esse povo por ela cuidado, abraçado e amadrinhado se revela como fruto maduro de um legado maternal, pastoral, militante e profundamente espiritual.

    Velórios e sepultamentos são, por natureza, instantes de dor. E assim foi. Não poderia ser diferente. Ainda assim, ao acompanhar os ritos fúnebres de Otelina, vi algo raro: beleza. Uma beleza simples, quase sagrada. O corpo de Otelina desceu à sepultura no cemitério da Lagoa Dourada sob a sombra benfazeja de um pequizeiro frondoso, carregado de frutos. A luz do sol filtrava-se por entre os galhos, desenhando claridades mansas sobre a terra. Na noite anterior, de chuva – daquelas que os gerais sempre precisam – pequis haviam caído ao chão. Dentro da sepultura, antes que a urna baixasse por completo, os frutos estavam ali: sinais silenciosos, mas eloquentes.

    Otelina, catadora de pequi. Mulher que extraiu o óleo, que ajudou seu Hermelino a sustentar a família com os frutos do cerrado. Mulher que conhecia o tempo da colheita e o valor da espera. Ao fim, tornou-se também ela semente. Boa semente. Como os pequis que recolheu ao longo da vida, agora repousa na terra, certa de que seu exemplo há de brotar, geração após geração, nos gerais que tanto amou.

  • Mabaço

    Mabaço

    Por Levon Nascimento

    Desde criança, cresci ouvindo uma história curiosa que sempre despertou minha atenção: diziam que meu avô materno, Manoel José do Nascimento, era mabaço de seu irmão Manoel João do Nascimento. Baianos do sudoeste da Bahia, quase na divisa com o Norte de Minas Gerais, usavam – e ainda usam – essa palavra peculiar para dizer algo simples e poderoso: gêmeo. O que parecia apenas um regionalismo pitoresco escondia, na verdade, uma herança histórica profunda.

    “Mabaço” não nasceu ali, nem por acaso. A palavra vem do quimbundo, idioma africano falado no antigo Reino do Ndongo, na região que hoje corresponde a parte de Angola. Durante o período colonial, o quimbundo ganhou enorme relevância, sobretudo por sua presença em Luanda, centro político e econômico da colônia. Essa centralidade fez com que muitos termos do quimbundo fossem incorporados ao português falado em Angola.

    Com o tráfico de pessoas escravizadas, essas palavras atravessaram o Atlântico junto com histórias, saberes e modos de nomear o mundo. No Brasil, sobreviveram no vocabulário cotidiano, especialmente em regiões marcadas pela forte presença africana. Assim, quando alguém no interior da Bahia diz que dois irmãos são “mabaços”, não está apenas usando uma palavra antiga: está, sem saber, preservando um fragmento vivo da história africana no português brasileiro.

    O que parecia apenas uma lembrança de família revela-se, portanto, um elo linguístico entre continentes, tempos e identidades – prova de que a língua guarda memórias que nem sempre percebemos, mas que continuam a falar por nós.

  • O que foi o tempo dos revoltosos no Norte de Minas?

    O que foi o tempo dos revoltosos no Norte de Minas?

    Em abril de 2026, será lançado o livro A COLUNA PRESTES NOS GERAIS DE MINAS, revisitando este grande fato histórico que teve o Alto Rio Pardo como palco há cem anos

    Por Levon Nascimento

    A Coluna Prestes foi um dos acontecimentos políticos e militares mais marcantes da história do Brasil republicano. Entre 1924 e 1927, um grupo de jovens oficiais do Exército percorreu cerca de 25 mil quilômetros pelo interior do país, denunciando as injustiças da Primeira República, como a fraude eleitoral, o poder dos coronéis e a ausência de políticas públicas para a população pobre. Em abril de 1926, essa marcha chegou ao Norte de Minas Gerais, deixando marcas profundas na memória da região.

    O Brasil da década de 1920 era governado por elites agrárias que se revezavam no poder, principalmente São Paulo e Minas Gerais, no chamado sistema do “café com leite”. Nesse contexto, a maioria da população não tinha direito ao voto e vivia sob forte controle político local. O movimento conhecido como tenentismo surgiu como reação a essa realidade, defendendo reformas como o voto secreto, a moralização da política e a ampliação da educação pública.

    Ao entrar no Norte de Minas, a Coluna Prestes encontrou um sertão marcado pela pobreza, pelo isolamento e pela dominação dos grandes proprietários de terra. Para a população local, pouco integrada à política nacional, a chegada dos “revoltosos” foi cercada de medo e incerteza. Muitas famílias abandonaram suas casas e se esconderam no mato, sem distinguir claramente quem eram os rebeldes e quem eram as tropas do governo.

    Um aspecto importante desse episódio foi a violência praticada pelas tropas legalistas, enviadas pelo governo federal para perseguir a Coluna. Em diversos relatos históricos e de memória oral, essas forças aparecem como responsáveis por saques, espancamentos e destruição de propriedades, o que aumentou o sofrimento da população sertaneja. Essa situação contribuiu para a confusão generalizada e para o trauma coletivo vivido na região.

    A Coluna Prestes, por sua vez, adotava uma disciplina rígida e, em muitos casos, buscava negociar com comerciantes e moradores locais para obter alimentos e suprimentos. Embora tenha recorrido a requisições forçadas, há registros de tentativas de pagamento e de respeito às comunidades, o que diferencia sua atuação daquela das tropas governistas em vários momentos.

    No Norte de Minas Gerais, a Coluna realizou uma de suas manobras militares mais conhecidas: o chamado “Laço Húngaro”. Essa estratégia permitiu que os revoltosos enganassem as forças que os perseguiam, escapando do cerco e retornando à Bahia. A manobra demonstra a capacidade estratégica de Luiz Carlos Prestes e explica por que a Coluna nunca foi derrotada militarmente.

    Um episódio simbólico ocorreu em Taiobeiras, então chamada Bom Jardim das Taiobeiras. Ali, o comerciante João Rêgo dialogou com os revoltosos e conseguiu proteger a comunidade por meio da negociação. Segundo a memória local, Luiz Carlos Prestes teria deixado moedas como forma de pagamento pelos produtos retirados da loja, gesto que ficou marcado como sinal de respeito e reciprocidade em meio ao conflito.

    O contato com a miséria do sertão teve impacto profundo sobre Prestes e outros integrantes da Coluna. A marcha revelou os limites das ideias liberais defendidas pelos tenentes, que não conseguiam responder às desigualdades estruturais do campo brasileiro. Essa experiência foi decisiva para a radicalização política de Prestes nos anos seguintes, levando-o a defender transformações mais profundas na sociedade brasileira.

    A passagem da Coluna Prestes pelo Norte de Minas deixou um legado ambíguo: ao mesmo tempo em que gerou medo e sofrimento, também revelou as contradições do Estado brasileiro e a violência praticada em nome da “ordem”. Para a História, esse episódio ajuda a compreender a distância entre o Brasil oficial e o Brasil profundo, além da importância da memória das populações locais.

    Estudar esse tema hoje, à luz da Base Nacional Comum Curricular (BNCC: EF09HI et al. e EM13CHS et. al.), permite desenvolver a análise crítica das fontes, compreender diferentes perspectivas sobre o passado e refletir sobre cidadania, poder e justiça social. A Coluna Prestes, ao cruzar os gerais de Minas, não apenas fez história: provocou perguntas que seguem atuais sobre democracia, desigualdade e participação popular.

  • A Coluna Prestes nos Gerais de Minas

    A Coluna Prestes nos Gerais de Minas

    Lançamento em abril de 2026 – Paco Editorial

    Em abril de 2026, o Brasil celebra o centenário da passagem da Coluna Prestes pelo Norte de Minas Gerais — e também o lançamento de uma das obras mais aguardadas sobre o tema: A Coluna Prestes nos Gerais de Minas, organizada pelo historiador e professor Levon Nascimento, de Taiobeiras (MG), pela Paco Editorial. O livro reúne 15 autores e autoras em uma coletânea que renova a historiografia brasileira ao deslocar o eixo narrativo dos grandes centros urbanos para o sertão mineiro e baiano — o território do chamado “Brasil profundo”, onde a Coluna viveu, lutou e foi lembrada.

    Com prefácio de padre João Carlos Siqueira e posfácio de Milton Pena Santiago, a obra está dividida em oito capítulos temáticos que abordam, de modo multidisciplinar, as dimensões política, social, militar, educativa e simbólica do movimento tenentista. Participam da coletânea os pesquisadores e pesquisadoras Levon Nascimento, Márcia Sant’Ana Lima Barreto, Lídio Barreto Filho, Luiz Eduardo de Souza Pinto, Pedro Abder Nunes Raim Ramos, Sidney Batista Azevedo, Fabiano Alves Pereira, Vladimir Mendes Patrício, Joandina Maria de Carvalho, Maria de Fátima Magalhães Mariani, Leleco Pimentel, Silvânia Alves de Freitas, Mônica Rodrigues Teixeira, Padre João Carlos Siqueira e Milton Pena Santiago, formando um mosaico de vozes e perspectivas que se complementam.

    A coletânea articula história oral, micro-história, história regional e análise documental, explorando a tensão entre a propaganda oficial do governo Artur Bernardes — que retratava os revoltosos como “bandidos e sediciosos” — e as memórias transmitidas de geração em geração nas comunidades do Alto Rio Pardo, de Salinas, Taiobeiras e Condeúba. Como explica o organizador, a Coluna não é tratada como um mito distante, mas como uma experiência concreta vivida por famílias sertanejas, marcadas pelo medo, pela negociação e pela solidariedade popular. O livro resgata episódios emblemáticos, como o do comerciante João Rêgo, que negociou a paz em Taiobeiras, e a célebre “Manobra do Laço Húngaro”, exemplo da inteligência tática de Luiz Carlos Prestes e de sua tropa.

    Entre as contribuições, destaca-se o capítulo de Levon Nascimento, que combina pesquisa documental e memória familiar para reconstituir a passagem da Coluna pelo Norte de Minas. Márcia Sant’Ana Lima Barreto e Lídio Barreto Filho exploram o contexto político da Primeira República e as origens do tenentismo, enquanto Luiz Eduardo de Souza Pinto e Pedro Abder Nunes Raim Ramos traçam uma instigante biografia política de Prestes, evitando a hagiografia e revelando suas contradições humanas e ideológicas. Fabiano Alves Pereira investiga a dimensão militar e a mobilidade como método, e Sidney Batista Azevedo analisa o coronelismo mineiro e a propaganda legalista que tentou criminalizar os revoltosos.

    Na fronteira entre história e memória, Joandina Maria de Carvalho e Maria de Fátima Magalhães Mariani estudam a “Bahia próxima”, registrando narrativas orais que revelam como o povo reinterpretou a Coluna ao longo das décadas. Vladimir Mendes Patrício questiona “como o povo viu a Coluna Prestes”, propondo uma história “vista de baixo”, enquanto Leleco Pimentel, Silvânia Alves de Freitas e Mônica Rodrigues Teixeira investigam a surpreendente “Pedagogia da Coluna” — as escolas itinerantes, os diálogos formativos e o ideal educativo que aproximam o movimento das futuras teorias de Paulo Freire e da educação popular libertadora.

    O livro encerra-se com um posfácio reflexivo de Milton Pena Santiago, que propõe uma leitura reconciliadora da história: entre academia e sabedoria popular, entre o Brasil das capitais e o Brasil dos sertões. A Coluna Prestes nos Gerais de Minas é, assim, mais do que um registro histórico — é um exercício de escuta e reparação simbólica. Cada capítulo reafirma que a memória não é ruína, mas construção viva; e que o sertão, longe de ser apenas cenário, é sujeito histórico essencial na formação da nação.

    Com uma linguagem envolvente, acessível e sensível, a obra organizada por Levon Nascimento convida o leitor a revisitar um dos episódios mais fascinantes da história brasileira, unindo rigor científico e emoção narrativa. Em meio ao centenário da Coluna Prestes, o livro surge como um tributo à resistência, à justiça e à esperança — valores que continuam atravessando os Gerais de Minas e inspirando novas gerações de leitores, educadores e sonhadores.

  • Prestação de Contas: Governo Lula leva desenvolvimento e inclusão a Taiobeiras

    Prestação de Contas: Governo Lula leva desenvolvimento e inclusão a Taiobeiras

    Contra dados e fatos não há argumentos.Veja o que Lula já investiu em Taiobeiras em seu 3º mandato.
    Por Levon Nascimento

    O Governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem garantido, desde 2023, uma série de investimentos que fortalecem o desenvolvimento econômico e social de Taiobeiras (MG). Em apenas dois anos, o município recebeu mais de R$ 196 milhões em transferências diretas do governo federal — sendo R$ 99,4 milhões em 2024 e R$ 96,7 milhões em 2023 — valores aplicados em obras, programas sociais, saúde, habitação, cultura e agricultura.

    Na área social, o Bolsa Família é um dos pilares do apoio às famílias de baixa renda: 3.929 famílias taiobeirenses são beneficiadas, com média de R$ 656,99 mensais, e 86,49% delas são chefiadas por mulheres. Esse dado reforça a política de inclusão e combate à pobreza liderada pelo governo federal.

    Na saúde, o impacto é igualmente expressivo. O Mais Médicos conta hoje com 16 profissionais atuando no município, ampliando o acesso da população à atenção básica. O Brasil Sorridente mantém uma equipe de saúde bucal e um Centro de Especialidades Odontológicas custeado pelo governo federal. Além disso, o governo Lula garantiu R$ 6,39 milhões em repasses para o cumprimento do piso nacional da enfermagem, assegurando valorização e estabilidade aos profissionais da área. Pela Farmácia Popular, 3.043 pessoas foram atendidas em 2024, a maior parte com medicamentos gratuitos.

    A cultura também foi valorizada: Taiobeiras recebeu R$ 324 mil pela Lei Paulo Gustavo e R$ 263 mil pela Lei Aldir Blanc, destinados ao fomento de iniciativas culturais locais e à valorização de artistas da região.

    No campo, o incentivo à produção rural tem fortalecido tanto o agronegócio quanto a agricultura familiar. Em 2024, o Plano Safra garantiu 18 contratos de crédito que somaram R$ 5,7 milhões, enquanto o Pronaf firmou 326 contratos, totalizando R$ 5,8 milhões, beneficiando centenas de pequenos produtores e famílias agricultoras.

    A habitação também avançou: o programa Minha Casa, Minha Vida assegurou 128 moradias populares, com R$ 13,2 milhões investidos, e mais dois novos empreendimentos já selecionados atenderão 71 famílias de baixa renda, reforçando o direito à moradia digna.

    Esses resultados demonstram que Taiobeiras tem recebido atenção constante e concreta do Governo Federal. As ações coordenadas entre os ministérios e programas estratégicos reafirmam o compromisso do presidente Lula com o desenvolvimento regional, a justiça social e a melhoria da vida dos brasileiros — uma gestão marcada por competência, diálogo e capacidade de reconstruir o país com foco nas pessoas.

    Fonte: Secretaria de Comunicação da Presidência da República.

    Leia também: Dilexi te: o que a primeira exortação do Papa Leão XIV tem a dizer a Taiobeiras?

  • Dilexi te: o que a primeira exortação do Papa Leão XIV tem a dizer a Taiobeiras?

    Dilexi te: o que a primeira exortação do Papa Leão XIV tem a dizer a Taiobeiras?

    Por Levon Nascimento

    A exortação apostólica Dilexi te, do Papa Leão XIV, publicada em 4 de outubro de 2025, é um manifesto espiritual e social sobre o amor para com os pobres. O texto nasce como continuidade da encíclica Dilexit nos, de Francisco, e como herança de sua preocupação pastoral pelos marginalizados. Leão XIV abre seu pontificado convocando a Igreja a reencontrar, nos pobres, o rosto vivo de Cristo. O documento denuncia a cultura do descarte, o mito da meritocracia e o conformismo religioso que esquece o Evangelho vivido como serviço. O amor, recorda o Papa, não é abstração moral, mas compromisso histórico — é o verbo que faz Deus descer à sarça ardente dos sofrimentos humanos.

    O plano de trabalho da Dilexi te pode ser compreendido em três eixos principais. O primeiro é teológico: Deus escolhe os pobres não por ideologia, mas porque o amor divino se revela onde há dor, exclusão e clamor. O segundo é eclesial: a Igreja deve ser pobre e para os pobres, seguindo o exemplo de São Lourenço e São Francisco de Assis. O terceiro é prático e cultural: a opção pelos pobres implica educação libertadora, cuidado com os doentes e compromisso com as novas escravidões contemporâneas — do consumo, do individualismo e das desigualdades.

    Para Leão XIV, amar é ver, cuidar, perdoar e construir. Amar é ver — e, portanto, enxergar os invisíveis, os desfigurados pelas estatísticas e pelos rótulos. Amar é cuidar — não como quem faz beneficência, mas como quem reconhece o outro como parte de si. Amar é perdoar — em tempos de polarização, redescobrir a ternura como força política. E amar é construir — porque a caridade cristã, quando autêntica, não consola apenas: transforma estruturas e mentalidades. O Papa escreve com vigor: “Não estamos no horizonte da beneficência, mas no da Revelação” — ou seja, Deus fala por meio dos pobres.

    E o que essa exortação tem a dizer a Taiobeiras? Antes de tudo, que o desenvolvimento sem compaixão é vazio. A cidade, entre avanços e desigualdades, vive o paradoxo de se orgulhar do empreendedorismo enquanto muitos sobrevivem na informalidade e na carência de serviços essenciais. Dilexi te confronta diretamente esse modelo: o progresso autêntico é aquele que não exclui. A meritocracia, lembra Leão XIV, é “uma falsa visão segundo a qual só têm mérito os que tiveram sucesso na vida”. Em Taiobeiras, essa crítica ressoa no cotidiano: enquanto alguns exibem conquistas, outros carregam invisibilidades que o discurso da “terra dos vencedores” prefere ignorar.

    O Papa propõe um antídoto: o amor concreto, que se traduz em políticas públicas, justiça social e cultura do cuidado. Se o cristianismo local quiser ser fiel ao Evangelho, deve olhar para os pobres como protagonistas da história, não como destinatários de campanhas sazonais. Amar, aqui, significa reconhecer a dignidade dos agricultores familiares, das mulheres trabalhadoras, dos jovens sem oportunidades. É perceber que o rosto de Cristo está nas filas do hospital, nos bairros sem saneamento, nos professores que persistem sem estrutura.

    Dilexi te também convida Taiobeiras a revisar suas referências. Como os monges que uniam oração e trabalho, a cidade precisa integrar espiritualidade e ação social, fé e responsabilidade pública. Ser “cidade empreendedora” deve significar criar oportunidades solidárias, fortalecer cooperações, garantir educação libertadora e promover o bem comum. É tempo de superar o individualismo competitivo e reencantar o sentido de comunidade.

    Em última instância, Dilexi te é um chamado a amar de modo civilizatório. Para Taiobeiras, isso significa transformar o amor em política de vida: educar com ternura, administrar com empatia, crescer sem deixar ninguém para trás. O Papa Leão XIV fala à cidade com a clareza dos profetas: a fé que não toca a carne dos pobres é sombra, não luz. Amar — diz o título da exortação — é o verbo que sustenta a esperança. Que Taiobeiras, redescobrindo esse amor, encontre o caminho entre o que já avançou e o que ainda falta nascer.

  • Livro: A Coluna Prestes nos Gerais de Minas

    Livro: A Coluna Prestes nos Gerais de Minas

    TAIOBEIRAS, MG – No centenário da passagem da Coluna Prestes pelo Norte de Minas Gerais, será lançado em abril de 2026 o livro “A Coluna Prestes nos Gerais de Minas”, organizado pelo professor e historiador Levon Nascimento. A obra reúne artigos de pesquisadores, educadores e militantes que revisitam a histórica marcha liderada por Luiz Carlos Prestes, com foco especial na região do Alto Rio Pardo mineiro.

    📘 Sobre a Obra

    O livro é uma coletânea de textos que abordam desde a trajetória da Coluna Prestes (1924–1927) até seus desdobramentos políticos, sociais e culturais na região norte-mineira. A publicação conta com a colaboração dos seguintes autores:

    Levon Nascimento (organizador)
    Fabiano Alves Pereira
    Joandina Maria de Carvalho
    Leleco Pimentel
    Lídio Barreto Filho
    Luiz Eduardo de Souza Pinto
    Márcia Sant’Ana Lima Barreto
    Maria de Fátima Magalhães Mariani
    Milton Pena Santiago
    Mônica Rodrigues Teixeira
    Padre João Carlos Siqueira
    Pedro Abder Nunes Raim Ramos
    Sidney Batista Azevedo
    Silvânia Aparecida de Freitas
    Vladimir Mendes Patrício

    🧠 Destaques do Conteúdo

    • Capítulo 1: A passagem da Coluna pelo Norte de Minas Gerais, com ênfase em Taiobeiras e a estratégia do “Laço Húngaro”.
    • Capítulo 2: Trajetória de Luiz Carlos Prestes, do tenentismo ao comunismo.
    • Capítulo 3: Origens do tenentismo e o contexto político da Primeira República.
    • Capítulo 4: A marcha de 25 mil km e seu significado histórico.
    • Capítulo 5: A Coluna Prestes em Minas Gerais.
    • Capítulo 6: Memórias e representações na Bahia fronteiriça.
    • Capítulo 7: O legado de Prestes para a educação e as lutas trabalhistas.
    • Capítulo 8: A visão do povo sobre os “revoltosos”.

    🗺️ Contexto Histórico

    Em abril de 1926, a Coluna Prestes adentrou o território mineiro pela região do Alto Rio Pardo, onde executou a famosa manobra do “Laço Húngaro” para escapar do cerco das tropas legalistas. O livro recupera memórias locais, relatos orais e documentos históricos que revelam tanto o medo quanto a esperança despertados pela passagem dos revoltosos.

    🎯 Objetivo da Publicação

    Além de celebrar o centenário da passagem da Coluna, a obra busca:

    • Valorizar a memória regional e a identidade geraizeira.
    • Difundir pesquisas inéditas sobre o tema.
    • Estimular o debate sobre justiça social, democracia e resistência.
    • Servir como material educativo para escolas e comunidades.

    📅 Lançamento

    O livro será lançado em abril de 2026, com eventos presenciais em Taiobeiras/MG e outras cidades da região, além de divulgação nacional por meio de parceiros editoriais e institucionais.

    📧 Contato para Imprensa e Divulgação

    Levon Nascimento
    Organizador da obra
    E-mail: levon.nascimento@educacao.mg.gov.br
    WhatsApp: (38) 9 9202-9044

    “A Coluna Prestes nos Gerais de Minas” não é apenas um livro de história. É um convite para revisitar o passado com os pés no presente e os olhos no futuro.

    📖 Preparem-se para mergulhar em uma das epopeias mais fascinantes da história brasileira.

    Participe do apoio coletivo para a publicação do livro A COLUNA PRESTES NOS GERAIS DE MINAS, participando da vakinha virtual. Clique neste link: https://www.vakinha.com.br/vaquinha/apoio-para-publicar-o-livro-a-coluna-prestes-nos-gerais-de-minas

  • A falta que nos faz o Papa Francisco diante do genocídio em Gaza

    A falta que nos faz o Papa Francisco diante do genocídio em Gaza

    Por Levon Nascimento

    Há momentos na história em que uma voz se torna maior do que qualquer cargo ou instituição. Durante o papado de Francisco, essa voz se ergueu como um clamor contra as guerras, um chamado insistente para que o mundo não se acostumasse ao sofrimento humano. Ele não apenas discursava; telefonava, chamava pelo nome, dizia “não tenham medo”. E é justamente essa presença, terna e firme, que hoje nos falta diante da brutalidade que se desenrola em Gaza. O genocídio em curso, negado por uns e silenciado por outros, expõe a ferida mais profunda da humanidade: a capacidade de justificar a morte em massa em nome da segurança, da política ou da vingança.

    Francisco, mesmo debilitado pela bronquite que o acompanhou até seus últimos dias, ousava sonhar com uma visita a Gaza. Não por protagonismo, mas porque compreendia o peso simbólico de estar ao lado dos que sofrem. Sua ausência deixa um vazio não apenas religioso, mas profundamente humano. É duro constatar que, sem ele, a Santa Sé volta a se esconder atrás de comunicados cautelosos, evitando palavras como “genocídio”, como se a clareza pudesse ferir a neutralidade. Mas neutralidade diante da morte não é virtude, é cumplicidade.

    As manifestações que marcaram seu papado não foram apenas rituais. Ele esteve ao lado dos migrantes afogados no Mediterrâneo, denunciou a guerra na Síria, chorou pelas crianças da Ucrânia. Nunca aceitou que a violência fosse normalizada como parte do jogo geopolítico. É por isso que sua falta dói tanto agora: porque sabemos que ele não hesitaria em dizer que Gaza é um escândalo moral, um crime contra a humanidade. Para Francisco, paz não era apenas ausência de guerra, mas presença de justiça.

    Se estivesse vivo, Francisco provavelmente faria o que sempre fez: ligaria para um padre em Gaza, perguntaria pelos nomes das crianças, pediria que não perdessem a esperança. Pequenos gestos que, na verdade, são gigantescos, porque humanizam o que a guerra desumaniza. Ele sabia que a compaixão concreta é mais poderosa do que qualquer discurso diplomático. E diante da ofensiva terrestre israelense e do apagão das comunicações, o que falta é justamente alguém que nos lembre que, por trás das trincheiras, estão famílias como as nossas, mães como as nossas, crianças que poderiam ser nossos filhos.

    Hoje, mais do que nunca, sentimos a falta desse pastor que ousou ser humano em um mundo desumanizado. O genocídio em Gaza não pede apenas relatórios e resoluções: pede lágrimas, coragem e ação. Que a memória de Francisco nos incomode, nos mova e nos faça compreender que a fé — e também a humanidade — se mede pelo lado em que escolhemos estar quando a vida é esmagada.

  • Anistia nunca mais: por que o Brasil não pode perdoar golpistas que querem implantar a ditadura de novo

    Anistia nunca mais: por que o Brasil não pode perdoar golpistas que querem implantar a ditadura de novo

    A Lei da Anistia de 1979, apesar de suas graves limitações — como o perdão aos torturadores e ditadores —, teve um papel histórico: permitiu a incorporação dos que lutavam contra o regime militar à vida política e abriu caminho para a redemocratização. Foi nesse processo que emergiram lideranças como Ulysses Guimarães, Lula, Dilma Rousseff, Fernando Henrique Cardoso, Brizola e Luiz Carlos Prestes, culminando na eleição indireta de Tancredo Neves. A anistia, naquele contexto, funcionou como uma ponte para a democracia.

    O cenário atual é muito diferente. Vivemos em plena democracia e, por isso, propor anistia para os envolvidos na tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 não significaria reconciliação, mas sim impunidade. Diferentemente de 1979, não há um regime autoritário a ser superado. O que existe é uma tentativa frustrada de destruir o Estado democrático de direito. Conceder perdão a extremistas de direita seria um convite para novos atentados contra as instituições.

    A história mostra que a indulgência com golpistas nunca ensinou a lição necessária. Juscelino Kubitschek, por exemplo, concedeu anistia a militares que tentaram derrubá-lo em sucessivas conspirações. O resultado foi que eles continuaram tramando até conseguirem, em 1964, instalar uma ditadura que perseguiu, torturou e matou opositores. A lógica é clara: quando golpistas percebem que não serão punidos, voltam a agir com ainda mais ousadia.

    O voto recente do ministro Alexandre de Moraes no Supremo Tribunal Federal foi exemplar. Em exposição firme e didática, ele demonstrou que os crimes de 8 de janeiro foram uma tentativa organizada de golpe de Estado, com ataques ao Congresso, ao STF e ao Palácio do Planalto. Não se tratou de “pichação” ou “protesto pacífico”, mas de uma ofensiva coordenada para romper a ordem constitucional. Julgar e punir esses crimes não é vingança: é defesa da democracia.

    É a primeira vez que a Justiça brasileira enfrenta golpistas com verdadeiro rigor. Que isso sirva de lição. Perdoar novamente, como em tantos episódios do passado, seria repetir os erros que custaram caro ao país. O Brasil precisa mostrar que democracia não é negociável: quem tenta destruí-la deve responder por seus atos, sem atalhos, sem anistia e sem impunidade.

  • Anistia agora mata a democracia e pode matar você no futuro

    Anistia agora mata a democracia e pode matar você no futuro

    A anistia em questão refere-se a um projeto de lei em debate no Congresso Nacional que busca perdoar investigados, processados e condenados por participação na tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023 — incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro, militares, financiadores, articuladores e fomentadores da ruptura democrática e instalação de uma ditadura liderada pela extrema-direita. A proposta não é apenas uma medida jurídica, mas um gesto político que visa resgatar a elegibilidade de Bolsonaro e aliviar a situação dos réus e condenados que atentaram recentemente contra a democracia no Brasil.

    Esse movimento ganha fôlego dentro do PL e do Centrão, com líderes como Sóstenes Cavalcante e o governador paulista Tarcísio de Freitas articulando um texto que abarca crimes contra a democracia, desinformação e manifestações violentas, ampliando o alcance da anistia. Trata-se de uma manobra para apagar as consequências jurídicas do maior ataque institucional desde a redemocratização, recolocando o ex-presidente no jogo eleitoral e alimentando o discurso mentiroso de perseguição de seus apoiadores.

    O histórico do processo mostra que a tentativa de golpe foi estruturada de forma minuciosa. O chamado “Punhal Verde-Amarelo”, revelado pela Polícia Federal, configurava plano militar para depor o STF e assassinar Alexandre de Moraes, Alckmin e Lula. Quem mais seria assassinado depois? É fácil imaginar. Indiciamentos, confissões e documentos comprobatórios já foram reunidos nos autos que tramitam no Supremo Tribunal Federal, reforçando a gravidade da ação criminosa. Não se tratou de uma manifestação espontânea, mas de uma conspiração golpista organizada para implantar um novo regime de terror no país.

    No plano jurídico, especialistas e ministros do STF têm sido taxativos: não há respaldo constitucional para anistiar crimes contra a ordem democrática, uma vez que a democracia é cláusula pétrea da Constituição Federal. Alexandre de Moraes já declarou considerar inconstitucional qualquer projeto desse tipo, e juristas como o advogado Kakay reforçam que a proposta carece de fundamento legal. Portanto, o perdão político pretendido colide diretamente com a própria essência do Estado de Direito.

    No campo político, a articulação da anistia recebeu críticas até de veículos de comunicação tradicionalmente conservadores. O Estadão qualificou como “pornográfico” o acordo no Congresso para salvar os golpistas, enquanto O Globo criticou o governador Tarcísio de Freitas por articular a medida, colocando-o como cúmplice de uma pauta antidemocrática. O Brasil 247, por sua vez, classificou a iniciativa como fruto da “escória do Congresso Nacional”, denunciando sua essência fisiológica e oportunista.

    A própria comunidade jurídica reforça que não há espaço para absolvição nesse caso. Como lembrou o advogado Fernando Fernandes, as provas reunidas — muitas delas confissões explícitas — tornam impossível a defesa dos acusados. Se o projeto prosperar, não se estará promovendo justiça, mas apenas decretando a impunidade de quem atentou contra o regime democrático e autorizando-os a matar milhões de brasileiros que não pensam como a extrema-direita.

    Minha posição é clara: sou radicalmente contra a anistia a réus por tentativa de golpe de Estado no Brasil. Conceder perdão legal a quem atentou contra as instituições democráticas, por conveniência ou ganho político, equivaleria a legitimar a violência política e enfraquecer a própria democracia. Reconciliação nacional não se faz com impunidade, mas com responsabilização. O Brasil precisa consolidar o respeito às regras constitucionais e não abrir precedentes para que novos golpes sejam ensaiados sob a promessa de esquecimento futuro.

  • A Coluna Prestes no Norte de Minas: entre o mito e a realidade

    A Coluna Prestes no Norte de Minas: entre o mito e a realidade

    Em 1926, o Norte de Minas Gerais foi palco de um episódio marcante da história brasileira: a passagem da Coluna Prestes. Liderados por Luiz Carlos Prestes, um grupo de jovens militares idealistas percorria o país combatendo o governo oligárquico da época, defendendo bandeiras como o voto secreto e a moralização política. Sua incursão de dez dias pela região (19 a 29 de abril) revelou o abismo entre o Brasil urbano e a realidade do sertão.

    Apesar de serem os “revoltosos”, a maior violência partiu das próprias tropas do governo, os chamados “legalistas”. Financiadas pelo poder federal, milícias comandadas por coronéis como Horácio de Matos agiam com brutalidade, saqueando cidades, extorquindo civis e espalhando um rastro de terror. Para a população local, era difícil distinguir quem era quem, e o medo das represálias oficiais muitas vezes era maior do que o medo da própria Coluna.

    A estratégia militar de Prestes foi brilhante. Encurralado por forças superiores em Serra Nova, município de Rio Pardo de Minas, ele executou a famosa manobra do “Laço Húngaro”, uma série de movimentos circulares que confundiu completamente os perseguidores. Essa astúcia permitiu que a Coluna escapasse do cerco e continuasse sua marcha, demonstrando superioridade tática mesmo estando em menor número e com menos recursos.

    Um dos episódios mais simbólicos dessa passagem ocorreu em Taiobeiras (26/04/1926). Enquanto a maioria da população fugiu para o mato, o comerciante João Rêgo decidiu ficar e negociar. Ele recebeu os soldados da Coluna, abriu seu armazém e lhes forneceu suprimentos. Em um gesto de surpreendente honra, Luiz Carlos Prestes lhe pagou, deixando para trás uma bota cheia de moedas. Esse caso mostra que a iniciativa e a coragem local podiam mitigar a violência do conflito.

    A experiência no sertão mineiro foi um choque para os jovens tenentes de formação urbana. O contato direto com a miséria extrema e a estrutura de poder dos coronéis fez Prestes questionar suas convicções liberais. Aquele idealismo mostrou-se insuficiente para resolver os problemas profundos do Brasil rural, acelerando um processo de radicalização que mais tarde o levaria ao comunismo.

    A memória que ficou na região é um trauma duplo. Não foi apenas a passagem rápida dos rebeldes, mas a violência sistemática e predatória das tropas legalistas, que agiam em nome do Estado, que deixou marcas profundas na população. O episódio ficou na história local como um momento de medo, mas também de resistência e astúcia.

    Por fim, a passagem da Coluna Prestes pelo Norte de Minas é mais que uma simples nota de rodapé histórica. Ela simboliza o encontro (e desencontro) entre dois Brasis e foi decisiva para a transformação ideológica de seu principal líder, mostrando que a realidade do sertão pode ser a mais poderosa professora de política.

    Em breve, o livro: OS REVOLTOSOS PELO NORTE DE MINAS GERAIS: CENTENÁRIO DA COLUNA PRESTES (1926-2026). Um século depois, a história dos chamados “revoltosos” volta a ganhar voz! Organizado por Levon Nascimento, o livro reúne pesquisadores e guardiões da memória sertaneja para revisitar a passagem da Coluna Prestes pelo Norte de Minas — um episódio que mexeu com comunidades inteiras, entre medos, estratégias militares e lembranças que atravessaram gerações. Autores: Fabiano Alves Pereira · Joandina Maria de Carvalho · Leleco Pimentel · Levon Nascimento · Lídio Barreto Filho · Luiz Eduardo de Souza Pinto · Márcia Sant’Ana Lima Barreto · Maria de Fátima M. Mariani · Milton Pena Santiago · Monica Rodrigues Teixeira · Padre João Carlos Siqueira · Pedro Abder Nunes Raim Ramos · Sidney Batista Azevedo · Silvânia Aparecida de Freitas · Vladimir Mendes Patrício. Uma obra que mistura história, memória e emoção, trazendo à tona episódios que marcaram Taiobeiras e toda a região do Alto Rio Pardo. Falta pouco para esse encontro entre o sertão e a história do Brasil. Prepare-se para caminhar novamente com a Coluna Prestes — agora pelas páginas deste livro.

  • Pequenos corpos, grandes riscos: por que regular as redes já?

    Pequenos corpos, grandes riscos: por que regular as redes já?

    O influenciador Felca expôs como perfis com crianças sexualizadas lucram no TikTok e em outras redes da internet, denunciando um problema grave: a adultização infantil. Mas antes disso, a própria primeira-dama Janja já havia alertado sobre a necessidade de regular a plataforma, em conversa com autoridades da China. O motivo é simples: não é seguro.

    Adultização vai além da erotização precoce. Inclui exploração laboral disfarçada de “influenciador mirim”, exposição emocional cruel e uso da intimidade como mercadoria. 93% das crianças e adolescentes brasileiros estão online — são 24,5 milhões de vidas vulneráveis aos algoritmos que premiam o extremo.

    Fotos inocentes viram combustível para redes criminosas. Crises infantis se tornam “conteúdo”. Estudos mostram que adolescentes com +3h/dia em redes têm 60% mais risco de depressão. E políticos que deveriam proteger a infância preferem travar a regulação — para continuar usando essas mesmas redes como fábrica de discurso de ódio.

    O PL 2.628/2022 é um passo urgente: idade mínima para redes, verificação robusta, punição financeira para plataformas que lucram com a violação da infância. Outros países já avançaram: Austrália e União Europeia restringem acesso para menores de 16.

    Proteger a infância não é censura, é dever. Não se trata de impedir que pais postem fotos do aniversário dos filhos, mas de evitar que essa imagem seja explorada por criminosos. Não é liberdade lucrar com a inocência violada. É crueldade.

    Hoje, nossas crianças não estão brincando no quintal — estão expostas numa vitrine global, aberta 24 horas por dia para quem pagar por atenção. E a cada dia sem ação, fechamos mais um olho e deixamos que o outro seja vendido ao algoritmo.

    Referências
    CETIC.br. TIC Kids Online Brasil 2024: principais resultados. São Paulo: Cetic.br/NIC.br, 2025. Disponível em: https://cetic.br/media/analises/tic_kids_online_brasil_2024_principais_resultados.pdf. Acesso em: 15 ago. 2025.
    CETIC.br. TIC Kids Online Brasil 2024 (livro eletrônico). São Paulo: Cetic.br/NIC.br, 2025. Disponível em: https://cetic.br/media/docs/publicacoes/2/20250512154312/tic_kids_online_2024_livro_eletronico.pdf. Acesso em: 15 ago. 2025.
    BRASIL. Senado Federal. Projeto de Lei n.º 2.628, de 2022. Brasília, DF. Disponível em: https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/154901. Acesso em: 15 ago. 2025.
    CÂMARA DOS DEPUTADOS. Denúncia sobre uso indevido de imagens de crianças motiva 32 projetos na Câmara. Brasília, DF, 12 ago. 2025. Disponível em: https://www.camara.leg.br/noticias/1187375-denuncia-sobre-uso-indevido-de-imagens-de-criancas-motiva-32-projetos-na-camara-dos-deputados/. Acesso em: 15 ago. 2025.
    EXAME. Janja defende sua fala na China sobre TikTok: “Não há protocolo que me faça calar”. São Paulo, 19 maio 2025. Disponível em: https://exame.com/brasil/janja-defende-sua-fala-na-china-sobre-tiktok-nao-ha-protocolo-que-me-faca-calar/. Acesso em: 15 ago. 2025.
    CORREIO BRAZILIENSE. “Não há protocolo que me faça calar”, diz Janja sobre fala a Xi Jinping. Brasília, DF, 19 maio 2025. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2025/05/7150331-nao-ha-protocolo-que-me-faca-calar-diz-janja-sobre-fala-a-xi-jinping.html. Acesso em: 15 ago. 2025.
    REUTERS. Australia widens teen social media ban to YouTube, scraps exemption. Sydney, 30 jul. 2025. Disponível em: https://www.reuters.com/legal/litigation/australia-widens-teen-social-media-ban-youtube-scraps-exemption-2025-07-29/. Acesso em: 15 ago. 2025.
    EUROPEAN COMMISSION. Are there any specific safeguards for data about children? Bruxelas, s.d. Disponível em: https://commission.europa.eu/law/law-topic/data-protection/rules-business-and-organisations/legal-grounds-processing-data/are-there-any-specific-safeguards-data-about-children_pt. Acesso em: 15 ago. 2025.
    FORBES BRASIL. Adolescência: o perigo invisível das redes sociais para os jovens. 23 abr. 2025. Disponível em: https://forbes.com.br/forbes-tech/2025/04/adolescencia-o-perigo-invisivel-das-redes-sociais-para-os-jovens/. Acesso em: 15 ago. 2025.

  • O “Perigo Social” que atingiu Laudemir, o gari

    O “Perigo Social” que atingiu Laudemir, o gari

    A jornalista Lais Gouveia, com bisturi afiado, nos apresentou o retrato falado de uma criatura que prolifera no Brasil como dengue em água parada: o fubango de autoestima inflada e valores morais murchos. Não é apenas uma figura folclórica ou uma aberração de reality show. É a engrenagem humana de um projeto socialmente letal, fundado na arrogância da aparência, na exclusão meticulosa e na violência — tanto a que se disfarça em “opinião” quanto a que mata de fato. Foi assim que o gari Laudemir de Souza Fernandes, de 44 anos, trabalhador, pai, cidadão, acabou morto em Belo Horizonte, enquanto o suspeito de matá-lo seguiu para a academia, porque, afinal, bíceps não se fazem sozinhos.

    Começa pelo prato principal dessa dieta mental: “anabolizante com batata doce”. Leitura, nem pensar, um veneno! Não é só nutrição; é liturgia. O corpo como altar e arma, o culto à hipertrofia como substituto de caráter. “No pain, no game”, berra diante do espelho, ignorando que a dor que importa é a dos outros — invisível, descartável ou, na melhor das hipóteses, motivo de piada. O corpo é a blindagem e o atestado de “superioridade natural” do que se acha a viver num jogo de seleção artificial.

    O figurino desse espécime é um desfile de pretensão barata: “duas horas na fila da Disney com moletom da Tommy Hilfiger”. Aqui, consumo não é prazer; é hierarquia. Cada marca é uma cerca elétrica invisível separando “gente de bem” da “gentalha que estraga o glamour dos aeroportos”. Glamour, claro, entendido como apartheid social — aquele em que pobre é tolerado como funcionário, nunca como passageiro. Laudemir não foi vítima apenas de um crime; foi vítima de uma lógica que elimina fisicamente quem ousa existir fora do lugar designado.

    A fé, quando existe, é um fast-food espiritual: “café com Deus Pai” e “frases motivacionais do André Valadão”. É a versão gospel do coaching, onde Deus é personal trainer da sua conta bancária e a pobreza é vista como erro estratégico de quem “não correu atrás”. A teologia da prosperidade aqui serve de cimento para a moral do esgoto: direitos humanos são só para “humanos direitos”, ou seja, clones do próprio fubango.

    E há, por baixo de toda essa pose, a mais patética das couraças: a síndrome de vira-lata. É o sujeito que ostenta a bandeira dos Estados Unidos na camiseta, mas acha cafona a brasilidade. Camisa da seleção brasileira só como uniforme da guerra cultural de extrema-direita. Que fala mal do próprio país como quem comenta o tempo — automático, preguiçoso —, e se refere à cultura nacional como coisa menor, “brega”, “pobre”, “inadequada”. Que só respeita lei, arte e soberania quando vêm carimbadas com selo de importação. E, ironicamente, é capaz de matar um brasileiro para provar a si mesmo que pertence a um clube que jamais o aceitará como membro legítimo.

    Na playlist cultural, uma sinfonia do vazio: “foto do braço no volante ao som de Gusttavo Lima”. É a ostentação pasteurizada, a vida filtrada em Instagram Stories, o volante como cetro de um reinado imaginário. Botox aos litros, placas dentárias que refletem o sol e um vocabulário que não resiste a dois parágrafos sem o “Você sabe com quem está falando?”. Quando a máscara escorrega e o privilégio é ameaçado, o fubango responde com esse SOS aristocrático, denunciando a crença mais íntima: existem vidas que valem menos que um treino de tríceps.

    E é aqui que a coisa deixa de ser caricatura e vira protocolo de guerra social. O fubango não é um acidente isolado; é um manual vivo de desumanização. Ele circula nas academias, nos aeroportos, nas timelines e, o que é mais preocupante, nas urnas. Alimenta e é alimentado por um Brasil que confunde força com virtude e confere imunidade moral a quem ostenta o pacote completo: bíceps, marca, desprezo e complexo de inferioridade cultural.

    Por isso, reconhecer e nomear esse arquétipo é mais que sátira: é medida de segurança pública. Atrás do moletom da Tommy, da frase motivacional, da bandeira estrangeira no peito e do sorriso de porcelana, há sempre o risco do soco, do tiro ou da indiferença que mata. E quando ele perguntar, com o peito estufado e o maxilar travado, “Você sabe com quem está falando?”, a única resposta possível é clara, seca e sem reverência: “Sim. Com um perigo social.”

  • Nen Sena: Presente!

    Nen Sena: Presente!

    Não é segredo para ninguém que me conhece: gosto de política. Não a nego, nem a minimizo. Para mim, ela é a mais nobre das atividades humanas, aquela capaz de qualificar a vida em sociedade. Talvez por isso, minha memória pessoal sobre um dos elementos-chave da política — as eleições — remonte à infância. A primeira de que me recordo aconteceu em 1982, municipal e estadual ao mesmo tempo. Eu tinha apenas seis anos. Guardo na lembrança Tancredo Neves enfrentando Eliseu Rezende pelo governo de Minas, e, em Taiobeiras, a disputa entre Nen Sena e Jorge pela prefeitura.

    É justamente daí que vem minha primeira memória da imagem e do nome de Geraldo Sarmento de Sena — Nen Sena: vereador, presidente da Câmara, juiz de paz, vice-prefeito, prefeito e esposo de prefeita. Uma carreira política extensa, sólida e irretocável.

    Mais do que os cargos, Nen Sena foi um homem que atravessou o cenário conturbado da vida pública com uma biografia limpa. Em uma época em que a educação ainda não era vista como prioridade, ele investiu maciçamente na escolarização do povo de Taiobeiras. Foi em seu mandato que se construíram algumas das maiores escolas do município. Enquanto hoje há quem se apresse em municipalizar responsabilidades do Estado, ele conseguiu o inverso: estadualizou o 2º grau (atual Ensino Médio) local, garantindo maior estrutura e qualidade. Também foi dele o mérito de dar ao Poder Executivo Municipal uma sede digna.

    Mas Nen Sena foi além da política institucional: foi amigo, conselheiro, alguém capaz de transcender diferenças geracionais e ideológicas. Como fundador do PSDB histórico em Taiobeiras, demonstrou ser um democrata entusiasmado, um batalhador pelas boas ideias e um homem confiante no progresso humano.

    Com sua partida nesta data (12/08/2025), Taiobeiras perde um de seus grandes pais fundadores, mas herda um legado que a História há de reconhecer.

    Nen Sena: Presente!

    Por Levon Nascimento

  • A nova era global de ódio aos pobres

    A nova era global de ódio aos pobres

    Por Levon Nascimento

    Nos últimos anos, o mundo tem assistido à consolidação de uma racionalidade política que combina elementos do passado mais sombrio com novas formas de exclusão. O nazifascismo, que historicamente legitimou a perseguição e o extermínio de grupos considerados “indesejáveis”, ressurge hoje sob roupagens adaptadas, mas com a mesma lógica de hierarquizar vidas e descartar as que não se encaixam no ideal de pureza social. “O fascismo não é um fenômeno morto, mas uma gramática política que se atualiza” (TRAVERSO, 2019). Essa atualização se manifesta em práticas estatais e urbanas que violam diretamente os direitos humanos, em especial dos mais pobres.

    O higienismo social, originado no século XIX como política de saúde pública, rapidamente se converteu em instrumento de controle moral e espacial, associando pobreza à sujeira, doença e criminalidade (CHALHOUB, 1996). Essa ideologia segue viva nas remoções forçadas de pessoas em situação de rua e na chamada “arquitetura hostil” — picos de metal, bancos com divisórias, pedras sob viadutos — que expulsa os indesejáveis da paisagem urbana. No Brasil, o Padre Júlio Lancellotti denuncia que “é proibido ser pobre na cidade” (LANCELLOTTI, 2022), e sua atuação resultou na Lei 14.489/22, que proíbe tais dispositivos, mas não impede que gestores sigam buscando formas de invisibilizar a pobreza.

    A aporofobia, conceito criado por Adela Cortina (2017), descreve precisamente essa aversão aos pobres, não apenas como preconceito individual, mas como política de Estado. Trata-se de uma recusa ativa em conviver com a presença do outro que nada possui. Ao contrário do racismo ou xenofobia, que podem se suavizar diante da riqueza, a aporofobia é implacável: mesmo o nacional ou o branco, se pobre, será alvo de hostilidade. “Não é o estrangeiro que incomoda, é o pobre” (CORTINA, 2017). Essa hostilidade é visível no aumento da criminalização da mendicância em cidades de diferentes países.

    A necropolítica, conceito formulado por Achille Mbembe (2018), ajuda a compreender como governos decidem, conscientemente, quais vidas merecem ser protegidas e quais podem ser expostas à morte. Durante a pandemia de Covid-19 no Brasil, a gestão de Jair Bolsonaro minimizou riscos, atrasou vacinas e estimulou aglomerações, aumentando a mortalidade entre os mais pobres e periféricos (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 2021). “O poder de matar ou deixar morrer é o exercício último da soberania” (MBEMBE, 2018, p. 71). Essa escolha política configurou um crime ético contra as populações vulneráveis.

    No cenário internacional, exemplos recentes evidenciam a continuidade dessa lógica. Em agosto de 2025, o governo de Donald Trump em Washington, D.C., determina a remoção em massa de acampamentos de pessoas em situação de rua com apoio de forças federais (THE GUARDIAN, 2025). A medida, classificada por ativistas como higienista e autoritária, não oferece alternativas de moradia, apenas “limpa” o espaço público de corpos indesejados. Não se trata de política social, mas de um gesto simbólico de exclusão, alinhado à estética política neofascista.

    O neofascismo contemporâneo, como alerta Stanley (2018), não precisa replicar a estética dos anos 1930 para ser reconhecido: basta retomar a essência de suas práticas — nacionalismo agressivo, culto à força, inimigos internos e desumanização dos pobres. No Brasil, esse padrão se manifesta no bolsonarismo, que, ao desprezar a vida dos pobres e priorizar agendas de militarização, reforça a ideia de que o Estado deve servir apenas a quem pode pagar. “A democracia morre quando a desigualdade se naturaliza” (STANLEY, 2018).

    O fio que une nazifascismo, higienismo social, aporofobia, necropolítica e neofascismo contemporâneo é a institucionalização do desprezo. Trata-se de um projeto que, em vez de combater a pobreza, combate o pobre; que, em vez de garantir direitos, retira-os; que, em vez de acolher, expulsa. Denunciar essa lógica não é apenas exercício intelectual, mas uma obrigação ética: cada banco dividido, cada viaduto cercado, cada morte evitável é uma evidência de que, no século XXI, o ódio aos pobres deixou de ser vergonha e voltou a ser política oficial.

    Referências
    CHALHOUB, Sidney. Cidade febril: cortiços e epidemias na Corte imperial. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
    CORTINA, Adela. Aporofobia: o rechazo al pobre. Barcelona: Paidós, 2017.
    LANCELLOTTI, Júlio. “É proibido ser pobre na cidade”. Folha de S.Paulo, 19 fev. 2022.
    MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: n-1 edições, 2018.
    ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. WHO Coronavirus Disease (COVID-19) Dashboard. Genebra, 2021. Disponível em: https://covid19.who.int. Acesso em: 11 ago. 2025.
    STANLEY, Jason. How Fascism Works: The Politics of Us and Them. Nova York: Random House, 2018.
    THE GUARDIAN. Trump deploys federal forces to clear homeless encampments in DC. Londres, 8 ago. 2025.
    TRAVERSO, Enzo. The New Faces of Fascism. Londres: Verso, 2019.

    Créditos: Homem dorme nas escadarias em frente ao Teatro Municipal, no Rio de Janeiro (Luiz Souza/NurPhoto/Getty Images).

  • Taiobeiras: entre avanços e desigualdades no coração do Alto Rio Pardo

    Taiobeiras: entre avanços e desigualdades no coração do Alto Rio Pardo

    Texto de Levon Nascimento, produzido a partir da observação e análise de dados disponíveis no IBGE Cidades

    Taiobeiras, localizada no Norte de Minas Gerais, apresenta um perfil socioeconômico que combina avanços significativos com limitações estruturais persistentes. Com população estimada em 34.392 habitantes em 2024, segundo o IBGE, e Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) de 0,670 em 2010, o município alcançou melhoria contínua nas últimas décadas, especialmente em longevidade (0,815), mas mantém fragilidades nos componentes educação (0,578) e renda (0,639) (IBGE, 2010). Essa discrepância reflete a combinação de um sistema de ensino básico com bons índices recentes — taxa de escolarização de 6 a 14 anos próxima de 99% e IDEB de 6,8 nos anos iniciais (2019) — com o baixo nível educacional histórico da população adulta.

    No campo econômico, o Produto Interno Bruto per capita, de R$ 16.085,74 em 2021 (IBGE), é superior ao de parte dos municípios da região imediata de Salinas, mas inferior à média da região intermediária de Montes Claros e ao patamar estadual. A economia municipal é fortemente concentrada em serviços e na administração pública, que juntos respondem por cerca de 80% do valor adicionado bruto, enquanto a indústria é incipiente e a agropecuária, embora presente, tem baixo valor agregado. Essa estrutura produtiva, associada à elevada dependência de transferências governamentais, limita a autonomia fiscal e a capacidade de atração de investimentos privados, restringindo as oportunidades de trabalho qualificado e incentivando a migração de jovens.

    Os indicadores sociais expõem desafios ainda mais urgentes. A mortalidade infantil, de 14,42 óbitos por mil nascidos vivos em 2023, permanece acima da média nacional e supera a de cidades vizinhas como Salinas, que registra aproximadamente 5,8 (IBGE, 2023). Embora o município tenha ampliado sua capacidade hospitalar, com destaque para o Hospital Santo Antônio e sua inclusão na Rede de Atendimento ao AVC, a persistência de taxas elevadas indica que problemas estruturais, como a cobertura incompleta de saneamento básico, continuam afetando a saúde pública. Em 2010, apenas 16,1% dos domicílios possuíam esgotamento sanitário adequado; dados mais recentes sugerem avanço para cerca de 47% (IBGE, 2022), ainda insuficiente para garantir padrões adequados de salubridade.

    A comparação com a região imediata reforça a necessidade de políticas estruturantes. Apesar de Taiobeiras apresentar desempenho econômico ligeiramente superior ao de parte dos municípios vizinhos, seus indicadores sociais revelam desigualdades e vulnerabilidades comparáveis ou até mais acentuadas. A falta de diversificação produtiva e a insuficiência de políticas de desenvolvimento humano que articulem educação acadêmica de jovens e adultos, qualificação profissional e infraestrutura básica impedem que o município converta seu papel de polo regional em ganhos sustentáveis de qualidade de vida.

    Conclui-se que Taiobeiras enfrenta um paradoxo: mesmo reunindo condições para liderar o desenvolvimento da microrregião de Salinas, ainda convive com déficits estruturais que comprometem seu potencial. Investimentos prioritários em saneamento, atenção primária à saúde, diversificação econômica e qualificação educacional são essenciais para romper o ciclo de dependência fiscal e de baixo dinamismo econômico. Sem enfrentar essas fragilidades de forma integrada e planejada, o município continuará oscilando entre avanços pontuais e limitações crônicas, incapaz de alcançar níveis mais elevados de desenvolvimento humano e equidade social.

    Referências

    INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Cidades@: Taiobeiras – panorama. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mg/taiobeiras/panorama. Acesso em: 6 jul. 2025.

    INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Pesquisa de Informações Básicas Municipais – Taiobeiras. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mg/taiobeiras/pesquisa/19/143491. Acesso em: 6 jul. 2025.

    INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Produto Interno Bruto dos Municípios – Taiobeiras. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mg/taiobeiras/pesquisa/10102/122229. Acesso em: 7 jul. 2025.

    INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Indicadores de Saneamento – Taiobeiras. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mg/taiobeiras/pesquisa/24/76693. Acesso em: 8 jul. 2025.

    INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Indicadores de Saúde – Taiobeiras. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mg/taiobeiras/pesquisa/21/28134?ano=2023. Acesso em: 8 jul. 2025.

    INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Mapa municipal de Taiobeiras – MG. Disponível em: https://geoftp.ibge.gov.br/cartas_e_mapas/mapas_municipais/colecao_de_mapas_municipais/2022/MG/taiobeiras/A0_3168002_MM.pdf. Acesso em: 9 jul. 2025.

  • Fé para romper a indiferença, não para lucrar

    Fé para romper a indiferença, não para lucrar

    Vivemos tempos estranhamente silenciosos diante da dor. Enquanto milhões sofrem com fome, violência — como nas ruas de todo o mundo, em geral, e em Gaza, no particular —, abandono ou solidão, seguimos com nossas rotinas apressadas, rostos grudados nas telas e corações distraídos. A era da indiferença, como muitos a chamam, é marcada por uma anestesia coletiva: vemos tudo, mas não sentimos quase nada. É como se o sofrimento alheio tivesse perdido o peso, como se os laços humanos tivessem sido substituídos por curtidas, lucros e algoritmos.

    Essa indiferença não surgiu do nada. Ela se construiu aos poucos, num mundo que valoriza mais o desempenho do que a presença, mais a eficiência do que a empatia. Mais o lucro do que o ser humano. Somos levados a acreditar que não temos tempo para cuidar, para ouvir, para sofrer com o outro. E assim, nos tornamos especialistas em nos proteger das dores que não são nossas, às vezes até estimulados pelo discurso da toxicidade alheia. Porém, essa proteção cobra caro: nos desumaniza. Perdemos a capacidade de chorar com quem chora, de nos alegrar com quem se levanta.

    É nesse contexto que a encíclica Dilexit Nos (outubro de 2024), do Papa Francisco (1936 – 2025), brilha como uma luz em meio ao cansaço espiritual da atualidade. Ao propor o Coração de Jesus como símbolo e fonte de amor verdadeiro — humano e divino — Francisco nos convidou a romper o gelo que endurece o mundo. Ele falou de um “mundo sem coração”, dominado por tecnologias que nos unem superficialmente, mas nos afastam na essência. A Dilexit Nos não é um chamado à religiosidade superficial (muito louvor e pouca compreensão), mas à conversão profunda: para que deixemos de viver como espectadores e voltemos a ser irmãos.

    A encíclica nos lembra que o coração é lugar de verdade, de feridas, de ternura e também de decisão. E é a partir desse lugar que podemos reconstruir o tecido esgarçado da solidariedade. Ser cristão — ou simplesmente humano — nessa era da indiferença é escolher, todos os dias, não se calar diante do sofrimento, não se conformar com a exclusão e não se render ao conforto da apatia. O amor que nos é revelado no Coração de Cristo é exigente, mas profundamente libertador: nos chama a ser presença, escuta, abraço.

    Superar a era da indiferença não exige heróis, mas corações despertos. Exige menos pressa e mais atenção. Menos julgamento e mais compaixão. A Dilexit Nos aponta um caminho espiritual e humano para reencontrarmos o que de mais essencial existe em nós: a capacidade de amar e ser afetado pelo outro. Porque no fim das contas, só um mundo com coração pode ser verdadeiramente justo e habitável.

  • Hiroshima: Há exatamente 80 anos, o mundo conheceu o inferno

    Hiroshima: Há exatamente 80 anos, o mundo conheceu o inferno

    Por Levon Nascimento

    Era 6 de agosto de 1945, 8h15 da manhã, horário local, quando o avião B-29, batizado de Enola Gay, lançou sobre Hiroshima a primeira bomba atômica usada em combate: Little Boy. A explosão ocorreu a cerca de 600 metros do solo, no coração da cidade.

    Três dias depois, seria a vez de Nagasaki.

    Esses dois ataques nucleares — os únicos da história em um cenário de guerra — não atingiram alvos militares. Foram os corpos de civis que arderam. Homens, mulheres, crianças, idosos… vidas comuns, vidas inteiras, desapareceram em segundos. Nenhuma trincheira. Nenhuma chance.

    E não foram grupos terroristas, como Hamas, Al-Qaeda, Talibã ou Hezbollah, que acionaram as bombas. Tampouco foram os comunistas, os socialistas, a União Soviética, a China ou a Coreia do Norte. Não foram os negros, os LGBTQIAPN+, os petistas, o MST ou o MTST.

    As bombas caíram por decisão do governo dos Estados Unidos da América. E não, isso não nos leva ao ódio contra o povo estadunidense.

    Mas é impossível ignorar que o comando partiu do imperialismo capitalista ocidental — que se apoia no poder do Estado e de suas forças armadas para alimentar um sistema global movido por ganância, medo, terror e morte.

    Lembrar de Hiroshima e Nagasaki, hoje, é mais do que olhar para o passado. É reconhecer os reflexos dessa tragédia no presente: a ascensão de uma extrema-direita violenta, nos EUA e no Brasil bolsonarista; o genocídio do povo palestino em Gaza; a volta de políticas econômicas predatórias que empurram milhões ao desemprego e à fome, como as prometidas por Donald Trump.

    Como nos alertou o Papa Francisco na Laudato Si’: “Tudo está interligado.” E infelizmente, isso vale também para os ciclos de violência, exploração e injustiça.

    Fazer memória é resistir. É não permitir que a insanidade volte a tomar o lugar da razão. Que o horror volte a se repetir.

    Que nunca mais uma manhã seja escurecida por bombas que caem do céu.

    Imagem: Redes sociais da internet.

  • Viralatismo no calor dos trópicos

    Viralatismo no calor dos trópicos

    A síndrome de vira-lata, ou simplesmente viralatismo, é uma postura psicossocial marcada pela desvalorização da própria cultura em favor de expressões estrangeiras, geralmente de origem colonialista e tidas como mais avançadas ou superiores. Trata-se, em essência, de uma forma de baixa autoestima coletiva e intelectual.

    É o desejo inconsciente — e por vezes explícito — de ser europeu ou estadunidense, como se isso acrescentasse algum valor à existência que não se encontra no simples fato de ser brasileiro. Como se houvesse um status maior em negar suas raízes do que em afirmá-las.

    O viralatismo prospera onde o pensamento crítico enfraquece. Quanto menos se lê, quanto mais se consome sem reflexão, quanto menos se alimenta a inteligência com conteúdos de substância, mais se está vulnerável a essa síndrome que aliena e distorce a própria identidade.