Autor: Levon Nascimento

  • O álibi de Trump: defendendo Bolsonaro para atacar o Brasil 

    O álibi de Trump: defendendo Bolsonaro para atacar o Brasil 

    A carta de Donald Trump em defesa de Jair Bolsonaro, divulgada em 17 de julho de 2025, foi chamada pelo governo Lula de “efeito nulo”. Mas a verdade é mais grave: a suposta solidariedade ao ex-presidente brasileiro é uma cortina de fumaça para atacar nossos interesses econômicos. Trump mesmo admitiu ao justificar tarifas de 50% contra o Brasil: “Estamos fazendo isso porque eu posso” (G1, 2025). 

    Por trás do discurso de “liberdade”, esconde-se uma guerra comercial. Eduardo Bolsonaro, atuando nos EUA, pressionou Trump após pedidos de condenação de seu pai, como confessou em nota: “Mantivemos diálogo com autoridades americanas […] para apresentar a realidade do Brasil” (GGN, 18.jul.2025). O resultado? Tarifas que atingem US$ 20 bilhões em exportações brasileiras de aço, petróleo e aviação. 

    O alvo real é nossa soberania econômica. A agência comercial americana (USTR) ataca o Pix, sistema público usado por 170 milhões de brasileiros, acusando-o de “prática desleal”. Para o jornalista Luís Nassif, isso revela o pânico das empresas americanas ante um sistema que reduziu o domínio de Visa e Mastercard (NASSIF, 2025). 

    A contradição é gritante: Trump alega defender liberdades, mas tenta estrangular uma ferramenta que democratizou o acesso financeiro. Como alertou o economista Paul Krugman: “É tudo sobre punir o Brasil por julgar Bolsonaro” (apud NASSIF, 2025). 

    O custo é real: as tarifas podem reduzir nosso PIB em 0,4% (GOLDMAN SACHS, 2025). Mas a reação uniu o Brasil: 72% dos brasileiros rejeitam as medidas (Datafolha, jul.2025), e até governadores de oposição buscam saídas diplomáticas. 

    Como sintetizou Lula: “O Brasil não é quintal de ninguém” (2023). A defesa de Bolsonaro é só um cavalo de Troia para enfraquecer um país que ousa desafiar a hegemonia econômica americana – com BRICS, moedas locais e tecnologia própria. A medida judicial que restringe Bolsonaro em julho de 2025 simboliza o fim dessa aliança tóxica. 

    A lição de Nassif ecoa: sem autonomia industrial e tecnológica, seremos reféns.

    Fontes:

    – G1. “Governo Lula reage a tarifas de Trump”. 17.jul.2025. 
    – GGN. “Eduardo Bolsonaro admite lobby por medidas contra Brasil”. 18.jul.2025. 
    – FOLHA DE S.PAULO. “Impacto das tarifas nas exportações”. 16.jul.2025. 
    – USTR. “Investigação sobre práticas comerciais do Brasil”. 15.jul.2025. 
    – NASSIF, L. “A indústria do cartão e o Pix”. GGN, 10.jul.2025. 
    – MDIC. “Balança comercial Brasil-EUA”. 14.jul.2025. 
    – GOLDMAN SACHS. “Relatório de impacto tarifário”. 19.jul.2025. 
    – DATAFOLHA. “Avaliação da política externa”. Jul.2025. 
    – ESTADÃO. “Governadores buscam diálogo com EUA”. 20.jul.2025. 
    – VALOR ECONÔMICO. “Haddad classifica tarifas como agressão”. 17.jul.2025. 
    – LULA. Discurso na Cúpula do Mercosul. 2023.

  • Brasil Soberano: Quando a Constituição vira escudo

    Brasil Soberano: Quando a Constituição vira escudo

    Texto voltado para alunos que vão fazer o ENEM. Tema: Soberania nacional.

    Em julho de 2025, o Brasil acorda com uma notícia pesada: Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, decide cobrar uma tarifa de 50% sobre tudo o que o Brasil exporta para lá. A medida passa a valer no dia 1º de agosto.

    O motivo? Trump alega que o Brasil está censurando redes sociais americanas e critica o julgamento de um ex-presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, acusado de não respeitar o resultado das eleições democráticas e tentar dar um golpe de Estado. Ele chama o processo no Supremo Tribunal Federal (STF) de “vergonha internacional” e “caça às bruxas”.

    Mas essa não é só uma briga comercial. É um ataque direto à soberania do Brasil, ou seja, ao direito de decidir os próprios caminhos sem interferência de outros países. Esse direito está logo no começo da nossa Constituição de 1988, no Artigo 1º: o Brasil é um Estado Democrático de Direito fundado na soberania popular.

    A resposta do governo brasileiro vem rápida e com base na lei. O atual Presidente do Brasil, Lula, usa a Lei de Reciprocidade Econômica, mostrando que o país também sabe se defender. Ele cita o Artigo 4º da Constituição, que fala da não-intervenção nos assuntos internos de outros países. Em um discurso no Congresso da UNE (União Nacional dos Estudantes), o Presidente Lula afirma: “Esse país só é soberano porque o povo brasileiro tem orgulho dele.”

    E anuncia: “Vamos cobrar imposto das empresas digitais norte-americanas.”

    Ou seja, a resposta é clara: se tentam prejudicar o Brasil, o país reage – mas sempre respeitando as regras do jogo.

    O problema fica ainda mais sério porque Trump tenta dar palpite em decisões da Justiça brasileira. Ele pede a anistia do ex-presidente acusado de tentar um golpe, algo que ataca diretamente o Artigo 5º da Constituição, que garante a independência do nosso Judiciário. Como diz Rubens Ricupero, ex-embaixador do Brasil nos Estados Unidos: “É uma intervenção inaceitável contra a soberania nacional.”

    Essa situação traz uma lição importante: a Constituição de 1988 não é só um papel guardado em Brasília. Ela é um escudo real que protege o Brasil de ameaças externas e internas. Quando o Presidente Lula declara que Trump “não é imperador do mundo”, ele repete a ideia de Ulysses Guimarães, que em 1988 chama a Constituição de “repúdio ao autoritarismo”.

    Outro ponto importante da crise é a liberdade de expressão. Trump acusa o Brasil de censura, mas esquece que o Artigo 220 da Constituição diz que é proibido restringir a liberdade de imprensa. Só que a mesma Constituição também afirma que as plataformas digitais precisam ser responsabilizadas se espalharem fake news, discurso de ódio ou ameaças à democracia. Como o atual Presidente Lula diz na UNE: “Não aceitamos que, em nome da liberdade de expressão, se façam agressões e mentiras.”

    O STF (Supremo Tribunal Federal) decide recentemente que as big techs precisam moderar postagens criminosas. Isso não é censura; é proteger a sociedade.

    Se você vai fazer a redação do ENEM, esse caso é um ótimo exemplo para discutir temas como:

    1. Soberania popular (Art. 1º da Constituição): o povo brasileiro decide os caminhos do país. As manifestações das “Diretas Já” e a eleição de 2022 mostram isso.

    2. Autodeterminação (Art. 4º): cada país tem o direito de resolver seus problemas sem interferência externa. Por isso, o Presidente da República afirma: “Somos um país soberano.”

    3. Função social do Estado (Art. 3º): quando um país mais rico impõe tarifas pesadas, isso prejudica a economia e aumenta as desigualdades. Isso vai contra a Constituição, que quer um Brasil mais justo e menos desigual.

    O ministro Ayres Britto resume bem: “A harmonia entre os Poderes é desejável, mas a independência é imprescindível.”

    Em 2025, o Brasil está sendo testado justamente nessa independência. E o seu papel, jovem, é entender que soberania não é um discurso vazio; é a base da democracia.

    O Artigo 3º da Constituição diz que devemos construir “uma sociedade livre, justa e solidária”. Isso significa que o Brasil não pode ser submisso a interesses estrangeiros.

    💡 Dica para o ENEM: Use a frase do Presidente Lula – “O Brasil não é refém de ninguém” – para mostrar como a soberania está ligada à dignidade humana. O Artigo 1º, III da Constituição diz que a dignidade é um dos pilares do Estado brasileiro.

    Fontes:
    BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. 1988.
    Carta de Donald Trump ao governo brasileiro (09/07/2025). Tradução: Agência Brasil.
    Discurso do Presidente da República no 60º CONUNE (17/07/2025). G1 e Teletime.
    RICUPERO, Rubens. Entrevista à CartaCapital (09/07/2025).

  • O livro Memorial da Juventude de Taiobeiras (2010)

    O livro Memorial da Juventude de Taiobeiras (2010)

    O Memorial da Juventude de Taiobeiras (NASCIMENTO; NASCIMENTO, 2010) é uma obra que celebra a trajetória transformadora dos jovens taiobeirenses, tecendo memória afetiva e política de suas lutas desde a década de 1970. Mais do que um registro histórico, o livro é um tributo às gerações que “não aceitaram ser tratadas como mera mercadoria” e “ousaram construir o futuro no coletivo” (p. 5), superando individualismos e preconceitos. Taiobeiras, município mineiro marcado pela cultura sertaneja e pela resistência, revela em suas páginas uma juventude “sonhadora, capaz e atuante” (p. 13), cuja identidade se forjou na luta por justiça social e expressão cultural.

    A obra destaca a emergência de grupos pioneiros como O Beija-flor (1974), dedicado a campanhas solidárias, o JUVITA (1976), inspirado na caridade vicentina, e o JUAC (1978), focado em ação comunitária no bairro Vila Formosa. Essas iniciativas pavimentaram o caminho para a chegada da Pastoral da Juventude (PJ) em 1987, um marco que amplificou o protagonismo juvenil. Sob a PJ, os jovens transcenderam o assistencialismo, desenvolvendo uma “formação social e política” (p. 27) articulada em cinco dimensões: afetividade, espiritualidade, cidadania, sociabilidade e ação concreta. Surgiram dezenas de grupos urbanos e rurais, como o JULEST (1992), que adotou a pedagogia freireana para formar consciência crítica, e a Tri-União (1992), aliança entre coletivos para atuar em bairros periféricos.

    O Dia Nacional da Juventude (DNJ), celebrado anualmente desde 1989, tornou-se palco de reivindicações e expressões culturais. Temas como “Juventude, cadê a Educação?” (1989), “Juventude: do nosso suor, a riqueza de quem?” (1990) e “Ouça o Eco(logia) da Vida” (1992) (p. 33, 35, 42) ecoaram nas ruas de Taiobeiras, mobilizando a comunidade para causas urgentes. A Campanha da Carriola, ação perene de arrecadação de alimentos e roupas, e o Grito dos Excluídos, manifestação contra as desigualdades no 7 de setembro, simbolizam o engajamento contínuo da juventude, que “soube ‘gritar’ pelos direitos de todos” (p. 80). Intercâmbios com cidades vizinhas fortaleceram redes de colaboração, materializando o “conceito de Rede de Juventude” (p. 82) na prática.

    A cultura emerge como eixo vital dessa história. Projetos como a Banda Divina Providência, com repertório que honrava as raízes do Norte de Minas e Vale do Jequitinhonha, e o Coral Cantarte, fruto de um trabalho musical sistemático na Escola Tancredo Neves, demonstram como a arte foi instrumento de emancipação. O projeto Cantarte, premiado pelo edital Microprojetos Mais Cultura, capacitou jovens em música entre 2010, reforçando que “educar é mais do que apenas ensinar a ler e a escrever” (p. 103). Poesias produzidas pelos alunos, como “A dor da rejeição” (p. 124) e “Canção do coração” (p. 125), revelam a sensibilidade gerada nesse processo.

    Textos reflexivos encerram a obra com chamados à autonomia e ao combate ao preconceito. Levon do Nascimento argumenta que o jovem autônomo é aquele que “consegue unir o conhecimento […] com a capacidade de criar e transformar” (p. 128), recusando-se a ser “marionete dos sistemas econômico e político”. Já o ensaio “Conceito e preconceito” (p. 129-130) alerta que apenas o “verdadeiro contato solidário” desfaz estereótipos, convidando a uma ética do encontro.

    Este memorial, portanto, é um testemunho vibrante de como a juventude de Taiobeiras “teceu sonhos” (p. 64) e transformou dor em esperança, deixando um legado indelével: a certeza de que, nas palavras do poeta Zé Vicente, “miremos bem no espelho da memória. Faremos jovem e linda nossa história” (p. 9).


    Referência:
    NASCIMENTO, Flaviana Costa Sena; NASCIMENTO, Levon. Memorial da Juventude de Taiobeiras. Belo Horizonte: Editora O Lutador, 2010.

  • Norte de Minas: Um Brasil profundo entre cerrados, sertões e fronteiras

    Norte de Minas: Um Brasil profundo entre cerrados, sertões e fronteiras

    Este texto é um artigo de opinião construído a partir da reflexão sobre os estudos de João Batista de Almeida Costa e Geová Nepomuceno Mota, considerando os conteúdos de Norte de Minas: Cultura Catrumana, Suas Gentes, Razão Liminar (COSTA, 2021), Fronteira regional no Brasil: o entre-lugar da identidade e do território baianeiros em Minas Gerais (COSTA, 2002) e O fenômeno religioso da romaria sob a perspectiva da fé cristã: a romaria ao Santuário de Bom Jesus da Lapa (MOTA, 2012). A abordagem tem por objetivo promover um olhar sensível e crítico sobre o Norte de Minas, suas gentes e seus territórios, respeitando as referências dos autores citados.

    Por Levon Nascimento

    Quando se fala em Minas Gerais, o imaginário nacional costuma evocar as montanhas históricas, o ouro colonial, as cidades barrocas e a mineiridade da prosa mansa. Mas quem olha para o mapa percebe que, ao Norte, Minas guarda um território diferente, um sertão que não se encaixa nos estereótipos das Gerais. O Norte de Minas é outra coisa. É mistura de cerrado e caatinga, de Minas e Bahia, de catrumano e baianeiro. “É um sertão de múltiplas vozes, marcado por fronteiras simbólicas e sociais, onde se misturam o vaqueiro e o lavrador, o catrumano e o baianeiro, o religioso e o profano” (COSTA, 2021).

    Escrever sobre o Norte de Minas é, portanto, falar do Brasil profundo. Daquele Brasil que as capitais não enxergam, mas que resiste com teimosia às injustiças históricas. É falar de um povo que conhece a dureza da terra, o tempo da seca e o tempo da esperança. Que celebra a vida nos batuques dos quilombos, nas rodas de São Gonçalo, nas romarias ao Bom Jesus da Lapa/BA. “As práticas dos romeiros revelam a força da religiosidade popular nordestina e sertaneja, que transita entre o catolicismo oficial e as expressões locais de devoção, muitas vezes permeadas por elementos mágicos e simbólicos” (MOTA, 2012). “É um Brasil que, como disse Guimarães Rosa, ‘ajunta de tudo, os extremos, delimita, aproxima, propõe transição, une ou mistura: no clima, na flora, na fauna, nos costumes, na geografia, lá se dão encontro, concordemente, as diferentes partes do Brasil’” (ROSA, 1978 apud COSTA, 2002).

    O Norte de Minas nunca foi prioridade no projeto mineiro. Durante séculos, a política e a economia do estado giraram em torno do ouro, do café e das cidades históricas. Enquanto isso, o Norte ficou relegado ao esquecimento, visto como periferia, como sertão inóspito, como problema a ser resolvido ou ignorado (COSTA, 2021).

    Mas essa exclusão não foi apenas econômica. Ela também foi simbólica. “O Norte de Minas é ‘o outro’ dentro de Minas. Seus habitantes carregam o estigma de não serem os mineiros típicos. Falam diferente, comem diferente, rezam diferente. São chamados de baianeiros, como se fossem quase baianos, quase nordestinos, quase mineiros” (COSTA, 2002). Essa identidade liminar – entre ser e não ser – é, na verdade, uma riqueza cultural, mas o preconceito insiste em tratá-la como desvio.

    O Norte de Minas é, historicamente, um território de fronteira. Não apenas uma linha no mapa, mas um lugar onde culturas se misturam e se reinventam. “Durante a colonização, o sertão foi palco de conflitos entre a Bahia e Minas, disputa que terminou com a anexação do território norte-mineiro à capitania das Minas Gerais no século XVIII” (COSTA, 2002). Desde então, essa região carrega em si a marca da fronteira, do entre-lugar, da encruzilhada.

    Essa condição fronteiriça molda o jeito de ser das pessoas. O baianeiro – como se autodenomina boa parte da população – sabe transitar entre as tradições mineiras e nordestinas. Nas feiras, ouve-se o forró e o aboio, mistura-se o feijão tropeiro com o mocotó, o baião com o frango com pequi. “É o sertão em sua síntese, uma cultura plural e viva, que resiste mesmo diante das ameaças do agronegócio e da monocultura que avança sobre os Gerais” (COSTA, 2021).

    Se há algo que une esse povo, além da terra, é a fé. A religiosidade popular no Norte de Minas é um traço fundamental da identidade regional. E ela não é a fé do altar de ouro das catedrais, mas a fé do chão de terra batida, dos terços rezados em roda, das promessas feitas nas estradas de poeira. “É a fé do romeiro que sai de casa com o bornal nas costas, atravessa o sertão e vai até o Bom Jesus da Lapa, levando esperança e pagando promessas” (MOTA, 2012).

    A romaria é, mais do que um evento religioso, um ritual de pertencimento. “Quem vai à Lapa, vai também para reencontrar os seus, para reafirmar a própria existência diante do sagrado e da sociedade” (MOTA, 2012). É um ato de resistência cultural, um modo de dizer: “nós existimos, com nossa fé, nossa cultura e nosso jeito de viver”.

    Apesar de sua riqueza cultural, o Norte de Minas continua sendo uma das regiões mais vulneráveis do Brasil. A pobreza, a seca e a falta de políticas públicas ainda marcam a paisagem. Mas essa realidade não é sinônimo de passividade. “As comunidades tradicionais da região – quilombolas, geraizeiros, veredeiros, apanhadores de flores, indígenas Xakriabá – vêm se organizando para afirmar seus direitos e preservar seus modos de vida” (COSTA, 2021).

    O batuque ressoa como denúncia e celebração. As festas, as danças, as folias de reis, os Catopês, Marujos e Caboclinhos de Montes Claros, as Camponesas e Margaridas de Taiobeiras, as práticas agrícolas sustentáveis e os modos de cuidar da terra são parte de uma luta maior: a de permanecer no território, enfrentando o avanço do agronegócio e a lógica do capital que vê o cerrado apenas como commodity.

    O Norte de Minas é o Brasil profundo. É a síntese de um país marcado por contradições, fronteiras e encontros. Não podemos continuar a ignorar essa região como se fosse um apêndice esquecido de Minas Gerais ou do Nordeste.

    Ouvir as vozes do sertão norte-mineiro é essencial para entender o Brasil real. “Um Brasil que vive nas veredas, nos currais, nas romarias, nos batuques e nas lutas diárias pela dignidade” (COSTA, 2021). Como disse João Batista de Almeida Costa, “não se trata de romantizar o sertão, mas de reconhecer as gentes que ali vivem e resistem” (COSTA, 2021).

    O Norte de Minas não é apenas um lugar no mapa. É um território de memória, cultura e esperança. E, mais do que nunca, merece ser ouvido, respeitado e incluído.

    REFERÊNCIAS:

    COSTA, João Batista de Almeida. Norte de Minas: cultura catrumana, suas gentes, razão liminar. Montes Claros: Editora Unimontes, 2021.

    COSTA, João Batista de Almeida. Fronteira regional no Brasil: o entre-lugar da identidade e do território baianeiros em Minas Gerais. Sociedade e Cultura, v. 5, n. 1, p. 53-64, 2002.

    MOTA, Geová Nepomuceno. O fenômeno religioso da romaria sob a perspectiva da fé cristã: a romaria ao Santuário de Bom Jesus da Lapa. Montes Claros: Editora Unimontes, 2012.

    ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 10. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1976.

    FOTOGRAFIA:

    SANTOS, Eliana Alves dos. As Camponesas de Taiobeiras. 2024. Disponível em: https://www.facebook/eliana.alvesdossantos.94. Acesso em: 16 jul. 2025.

  • SOB O PEQUIZEIRO SAGRADO: a epopeia do Cruzeiro que trouxe a chuva

    SOB O PEQUIZEIRO SAGRADO: a epopeia do Cruzeiro que trouxe a chuva

    Tentei transformar em prosa as 164 sextilhas de Hermínio Miranda Costa, publicadas em 1997 sob o título Santo Cruzeiro dos Martírios, sobre o monumento de mesmo nome, em Taiobeiras. Eis o resultado:


    O sol do Alto Rio Pardo não dava trégua. Era 1897, e a seca mais cruel em décadas transformara os gerais de Taiobeiras num deserto de poeira e silêncio. O gado tombava nas cercanias da Taboca, as veredas secaram e os olhos do povo, acostumados à esperança, viam seus sonhos virarem areia.

    Foi então, sob a sombra retorcida de um pequizeiro antigo, árvore sagrada do sertão mineiro, que os moradores se reuniram e fizeram uma promessa ousada, quase desesperada:

    “Se Deus nos mandar chuva, ergueremos um Cruzeiro santo onde a estrada para Matrona cruza o descampado!”

    Homens de barba grisalha, mulheres com crianças no colo, jovens de olhos úmidos de fé: todos partiram em romaria. Vieram a pé, das roças distantes, carregando pedras na cabeça, botijas d’água nas costas, flores nas mãos e esperança no coração. Caminharam do Coqueiro, onde as cacimbas já tinham secado; do Catolé, trazendo imagens de santos em panos vermelhos; e do Curral Queimado, com os pés sangrando entre pedregulhos.

    Até os bravos do Mato Grosso, em Rio Pardo de Minas, atravessaram léguas e léguas sob um céu de chumbo, trazendo nos ombros imagens santas, madeiras e um sonho coletivo. À frente, João Velho conduzia o terço, sua voz rouca rompendo o silêncio dos gerais:

    “Não é esmola que pedimos, Senhor…
    É justiça para a terra!”

    Quando chegaram ao descampado marcado pela fé, o milagre começou a acontecer. No exato momento em que ajoelharam na terra rachada, uma brisa fresca, improvável, quase impossível, soprou entre eles. Parecia um suspiro dos próprios gerais, aliviados pela devoção do povo.

    Ali mesmo, com as mãos calejadas de quem sabe manejar enxada e esperança, começaram a erguer o madeiro santo. Clementino, carpinteiro de Salinas, liderou o trabalho. Seu serrote, como quem esculpe a fé, moldava a cruz enquanto o povo cantava:

    “Madeiro pesado, dor redimida…
    Cravaremos aqui a nossa vida!”

    No dia 2 de julho de 1897, enquanto o sol se escondia atrás de nuvens escuras, o Cruzeiro dos Martírios foi fincado no chão ressequido. Dizem os mais velhos que, na mesma hora, Zezinho Costa selou o casamento ali mesmo, e as primeiras gotas de chuva tocaram a testa das crianças: bênção para quem espera com paciência de sertanejo.

    Mas o verdadeiro milagre estava nos símbolos pendurados na cruz: os cravos, lembrando o sofrimento que se transforma em esperança; a coroa de espinhos entrelaçada com flores de sempre-viva; e a escada de José de Arimateia, porque naquele instante, o céu encontrou o chão, ao alcance dos humildes do sertão.

    Anos depois, quando a seca voltou a ameaçar, o povo retornou em procissão. Desta vez, já havia uma igrejinha, construída por Dona Josefa, que doara o terreno. Durante um temporal, as paredes de barro desabaram, mas a imagem de Nossa Senhora do Amparo permaneceu intacta entre os escombros – sinal claro de que a fé resiste até às tempestades.

    Em 1997, no centenário do Cruzeiro, a cidade celebrou com foguetes e missa campal. O vigário, erguendo a voz ao vento, anunciou:

    “Esta cruz é testemunha!
    Enquanto o geraizeiro tiver coragem de semear em terra seca e esperar a chuva, o sertão viverá!”

    E nas noites de lua cheia, quando o vento varre o cerrado em silêncio, alguns juram ouvir sussurros. São as 164 sextilhas de Hermínio Miranda, poeta geraizeiro, que eternizou em versos a coragem de um povo que nunca deixou de acreditar.

  • Quer saber mais sobre Frei Jucundiano de Kok em Taiobeiras?

    Quer saber mais sobre um personagem principal na formação de Taiobeiras? Adquira o livro “Quando o chão e o céu se encontram”, de Levon Nascimento, e conheça Frei Jucundiano de Kok, o holandês que ajudou a construir Taiobeiras.
    quandoochaoeoceuseencontram #levon #taiobeiras #freijucundiano
    https://www.instagram.com/reel/DMDN1YTA1VD/?igsh=d2JtOHZ4ZTFkb3d2
  • Homenagem ao Professor Antônio Ribeiro Neto

    Homenagem ao Professor Antônio Ribeiro Neto


    Por Levon Nascimento

    Com profundo pesar, registro o falecimento do professor Antônio Ribeiro Neto, ocorrido em 11 de julho de 2025. Mestre aposentado de Geografia, ele dedicou anos de sua vida à educação na Escola Estadual Oswaldo Lucas Mendes, em Taiobeiras.

    Foi sob sua orientação, nas salas de aula da 8ª série e do 1º ano do Técnico em Contabilidade, que aprendi não apenas a localizar países no mapa-múndi e seus nomes, mas também a compreender a complexidade do mundo. O professor Antônio nos apresentou conceitos fundamentais: as economias planificadas, a divisão entre Primeiro e Terceiro Mundos, iluminando realidades distantes.

    Seu magistério foi vivido em um período histórico efervescente: o fim da Guerra Fria, a emblemática queda do Muro de Berlim, a dissolução da URSS, a primeira Guerra do Golfo e, no Brasil, a redemocratização com a primeira eleição direta para presidente após o longo período da ditadura militar (1964-1985). Com ele, tive o privilégio de não apenas testemunhar esses fatos marcantes, mas de compreendê-los através da lente precisa de quem dominava profundamente a Geografia e a História.

    Na sala de aula, era conhecido pelo rigor e pela exigência. Nos corredores da escola, revelava-se um companheiro acessível. No trato diário, destacava-se pela fina educação e pela cortesia que lhe eram características.

    A ausência do professor Antônio Ribeiro Neto deixará um vazio. Taiobeiras perde um de seus grandes mestres.

    Que os aplausos ecoem em sua homenagem. Um grande professor, uma memória que permanecerá.

  • A semana que encerra e os desafios do Brasil: soberania, justiça e o futuro da Nação

    A semana que encerra e os desafios do Brasil: soberania, justiça e o futuro da Nação

    O Brasil sob ataque

    A semana que finda em 12 de julho de 2025 entrará para a história como um divisor de águas na trajetória brasileira. Entre ameaças externas, tensões políticas domésticas e desafios econômicos estruturais, o Brasil viu-se diante de uma encruzilhada que testou sua soberania, sua coesão institucional e seu projeto de nação. A imposição de tarifas de 50% por Donald Trump aos produtos brasileiros, justificada como represália às investigações contra Jair Bolsonaro, não foi apenas um ato econômico: foi uma declaração de guerra assimétrica contra a democracia brasileira.


    1. A ingerência externa e a resposta brasileira

    A chantagem como ferramenta geopolítica

    A carta pública de Donald Trump, vinculando tarifas comerciais à interferência no processo judicial contra Bolsonaro, configurou um inédito ataque à soberania nacional. Como destacou José Dirceu, trata-se de uma “conspiração contra o Brasil”, onde o bolsonarismo atuou como vetor de interesses estrangeiros: “Bolsonaro e seus filhos devem ser processados por traição e conspiração contra a segurança nacional”. A reação de Lula foi imediata e contundente: invocou a Lei de Reciprocidade Econômica e afirmou que o Brasil “não aceitará ser tutelado por ninguém”.

    O paradoxo de Trump: um tiro no pé

    Analistas como Juan Pablo Spinetto (Bloomberg) apontam que a medida de Trump pode fortalecer Lula politicamente. Ao unir a opinião pública em torno da defesa da soberania, Trump desvia o foco da oposição e fragiliza aliados de Bolsonaro, como Tarcísio de Freitas, que se alinhou publicamente ao presidente estadunidense.

    “Ao se envolver no caso de Bolsonaro, Trump acaba prejudicando inadvertidamente as melhores chances da direita de derrotar Lula” – JP Spinetto.


    2. As fraturas internas: bolsonarismo e submissão

    Tarcísio e a inversão institucional

    O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, protagonizou um episódio surreal: telefonou a ministros do STF para propor a devolução do passaporte de Bolsonaro, permitindo que ele “negociasse” com Trump o fim das tarifas. Leonardo Sakamoto sintetizou o absurdo: “Tarcísio jogou a institucionalidade no lixo e agiu como office boy de Bolsonaro”. A atitude ignora que o confisco do passaporte visa impedir a fuga de um investigado por tentativa de golpe de Estado.

    A elite conivente e seu despertar tardio

    Dirceu critica a conivência das elites econômicas com o bolsonarismo, que fecharam os olhos ao financiamento do 8 de janeiro e à estadia ilegal de Eduardo Bolsonaro nos EUA. Agora, com perdas concretas – como 58 contêineres de pescados barrados nos EUA –, parte delas reage.


    3. Os desafios estruturais: entre a reindustrialização e a justiça tributária

    A economia fechada e a desindustrialização

    Vitor Lippi (deputado federal) alerta que o Brasil tem “baixa integração às cadeias globais de valor” e é uma “economia fechada”, dependente de commodities. Apesar de cases de sucesso como Embraer e Weg, falta uma estratégia agressiva de inserção internacional.

    A taxação dos super-ricos: uma questão de equidade

    Neste contexto, a defesa da taxação de grandes fortunas por Walter Salles Jr. – ele mesmo herdeiro de uma das 50 maiores fortunas do Brasil – ecoa como um manifesto ético: “É importante corrigir as distorções de um sistema que cobra mais de quem tem menos”. Sua posição simboliza o amadurecimento de setores privilegiados que entendem que a justiça fiscal é um pilar da coesão social.


    4. Geopolítica: BRICS, China e o novo multilateralismo

    A solidariedade dos BRICS

    A resposta de Lula às tarifas não se limitou ao plano bilateral: articulou-se no âmbito dos BRICS. A China já criticou publicamente as tarifas de Trump, afirmando que “não devem ser usadas como instrumentos de coerção”. O bloco representa um contraponto ao unilateralismo estadunidense e um canal para diversificar parcerias.

    A guerra cibernética e a soberania digital

    Celso Amorim (ex-ministro da Defesa e das Relações Exteriores) lembra que o Brasil já sofreu ataques cibernéticos contra empresas e instituições de Estado. Em um mundo onde “a linha entre espionagem e guerra é tênue”, a soberania digital é um novo front de defesa nacional.


    5. Os pilares para reconstrução

    A semana que encerra expôs feridas abertas, mas também apontou caminhos:

    1. Soberania como valor absoluto: A resposta à chantagem de Trump deve ser técnica (Lei de Reciprocidade) e diplomática (articulação com BRICS).
    2. Justiça tributária como projeto nacional: A taxação de grandes fortunas, como defendida por Salles, é um passo para reduzir desigualdades históricas.
    3. Reindustrialização inclusiva: Integrar-se às cadeias globais de valor exige abrir a economia sem abdicar de políticas industriais estratégicas.
    4. Unidade democrática: A defesa das instituições – STF, TSE, Presidência – não é uma bandeira partidária, mas um imperativo cívico.

    “O Brasil é dos brasileiros” – Lula.

    Em um momento onde forças externas e internas buscam fragilizar o projeto nacional, a resposta deve ser a construção de um pacto social pela soberania, envolvendo empresários, trabalhadores e Estado. Como alertou Dirceu: “Hoje parece claro que quem está com Trump está contra o Brasil”. A semana que passou não foi apenas um teste: foi um chamado à reinvenção do Brasil como nação soberana, justa e globalmente relevante.

    REFERÊNCIAS

    DIRCEU, J. “Bolsonarismo e submissão a Trump colocam em risco a soberania nacional”. Brasil 247, 9 jul. 2025. Disponível em: https://www.brasil247.com/brasil/bolsonarismo-e-submissao-a-trump-colocam-em-risco-a-soberania-nacional-alerta-jose-dirceu. Acesso em: 11 jul. 2025.

    LULA, L. I. Reação a anúncio de tarifas de Trump. Twitter, 9 jul. 2025. Disponível em: https://iclnoticias.com.br/economia/lula-reagem-trump-tarifa-lei-brasileira/. Acesso em: 11 jul. 2025.

    SAKAMOTO, L. “Tarcísio joga institucionalidade no lixo e age como office boy de Bolsonaro”. UOL, 11 jul. 2025. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/colunas/leonardo-sakamoto/2025/07/11/tarcisio-joga-institucionalidade-no-lixo-e-age-como-office-boy-de-bolsonaro.htm. Acesso em: 11 jul. 2025.

    SPINETTO, J. P. “Ameaça tarifária de Trump pode fortalecer Lula”. Bloomberg via ICL Notícias, 11 jul. 2025. Disponível em: https://iclnoticias.com.br/economia/tarifa-trump-fortalecer-lula-spinetto/. Acesso em: 11 jul. 2025.

    LIPPI, V. “O desafio do Brasil para ser competitivo na produção global”. Poder360, 11 jul. 2022. Disponível em: https://www.poder360.com.br/opiniao/o-desafio-do-brasil-para-ser-competitivo-na-producao-global/. Acesso em: 11 jul. 2025.

    AMORIM, C. “Segurança Internacional: novos desafios para o Brasil”. Contexto Internacional, v. 35, n. 1, 2013. Disponível em: https://www.scielo.br/j/cint/a/BQqGv36X8LW7CN4tGbBRFrb/. Acesso em: 11 jul. 2025.

    SALLES, W. Discurso no Prêmio Faz a Diferença. ICL Notícias, 8 jul. 2025. Disponível em: https://iclnoticias.com.br/walter-salles-defende-taxacao/. Acesso em: 11 jul. 2025.

  • O tarifaço de Trump: agressão econômica e ofensa à soberania brasileira

    O tarifaço de Trump: agressão econômica e ofensa à soberania brasileira

    Segue uma síntese das leituras jornalísticas que fiz no calor da repercussão do injusto e equivocado “tarifaço” de Donald Trump ao Brasil. Compartilho para contribuir na sua formação de opinião.
    Levon Nascimento

    A decisão unilateral de Donald Trump de impor tarifas de 50% sobre exportações brasileiras aos EUA, anunciada em 9 de julho de 2025, transcende uma mera disputa comercial. Trata-se de uma manobra política articulada para interferir nos assuntos internos do Brasil, conforme demonstram as justificativas apresentadas pelo presidente norte-americano. Em sua carta oficial ao governo brasileiro, Trump vinculou explicitamente as tarifas ao processo judicial contra Jair Bolsonaro, classificando as investigações do STF como “caça às bruxas” e exigindo seu fim “IMEDIATAMENTE!” (CARTA CAPITAL, 2025c; BRASIL 247, 2025b). Essa intromissão descarada em nossa soberania judicial foi definida pelo ex-embaixador Rubens Ricupero como “intervenção inaceitável contra a nação brasileira” (CARTA CAPITAL, 2025b).

    A alegação de “déficits comerciais insustentáveis” apresentada por Trump colapsa ante aos dados concretos. Como destacam analistas, os EUA mantêm superávit comercial com o Brasil há 15 anos consecutivos, acumulando US$ 410 bilhões nesse período (BRASIL 247, 2025d). Só em 2025, até maio, esse saldo positivo já atingia US$ 1,6 bilhão. A incoerência revela o verdadeiro propósito: servir de instrumento de pressão para beneficiar politicamente Bolsonaro, cujo filho, Eduardo Bolsonaro, encontrava-se nos EUA durante o anúncio das tarifas (CARTA CAPITAL, 2025a).

    Economicamente, a medida afetará setores estratégicos como café (onde o Brasil fornece 8 milhões de sacas/ano aos EUA), carnes, suco de laranja e aeronaves da Embraer – esta última com 60% de suas vendas atreladas ao mercado norte-americano (CARTA CAPITAL, 2025c). Estimativas do BTG Pactual projetam perdas de US$ 7 bilhões em 2025 (0,3% do PIB), com impacto inflacionário pelo dólar a R$ 5,60 (BRASIL 247, 2025g). Contudo, a capacidade de redirecionar exportações para os BRICS e Ásia atua como amortecedor, reduzindo a vulnerabilidade brasileira.

    A resposta do governo Lula combinou firmeza diplomática e ação prática. O presidente anunciou a Lei de Reciprocidade Econômica, estabelecendo tarifas equivalentes sobre produtos norte-americanos caso a OMC não suspenda a medida trumpista (ICL NOTÍCIAS, 2025a). Paralelamente, criou um comitê empresarial para reestruturar relações comerciais e articula uma frente internacional com parceiros estratégicos (ICL NOTÍCIAS, 2025b; BRASIL 247, 2025a). Como afirmou Lula: “Não aceitamos tutela. Somos um país soberano” (ICL NOTÍCIAS, 2025c), ecoando o sentimento de setores do agronegócio que apoiam a retaliação (BRASIL 247, 2025g).

    Ironicamente, a agressividade de Trump fortaleceu a unidade nacional em torno da soberania. A deputada norte-americana Alexandria Ocasio-Cortez denunciou o ato como “corrupção descarada” ao favorecer Bolsonaro (BRASIL 247, 2025f), enquanto o STF reafirmou sua autoridade ao ignorar as pressões externas (CARTA CAPITAL, 2025d). O episódio expõe a transformação dos EUA, sob a liderança trumpista, em “adversário do Brasil“, nas palavras do ex-embaixador em Washington (CARTA CAPITAL, 2025e).

    O tarifaço consolida-se como um marco geopolítico: demonstra que o Brasil possui instrumentos para defender seus interesses e que o unilateralismo comercial gera reações coordenadas. A articulação com os BRICS e a OMC sinaliza que a era da submissão a decisões extraterritoriais chegou ao fim. Nas palavras de Ricupero, essa “agressão sem precedentes exige resposta no mesmo nível” (CARTA CAPITAL, 2025c) – resposta que o Brasil está construindo com soberania e estratégia.

    REFERÊNCIAS

    BRASIL 247. Bolsonaro se curva a Trump e justifica tarifas contra o Brasil. 2025a. Disponível em: https://www.brasil247.com/regionais/brasilia/bolsonaro-se-curva-a-trump-e-justifica-tarifas-contra-o-brasil. Acesso em: 11 jul. 2025.

    BRASIL 247. Lula critica intromissão de Trump no Brasil: “Desaforo inaceitável e inadmissível”. 2025b. Disponível em: https://www.brasil247.com/brasil/lula-critica-intromissao-de-trump-no-brasil-desaforo-inaceitavel-e-inadmissivel. Acesso em: 11 jul. 2025.

    BRASIL 247. Lula anuncia mobilização internacional para enfrentar tarifaço de Trump. 2025c. Disponível em: https://www.brasil247.com/brasil/lula-anuncia-mobilizacao-internacional-para-enfrentar-tarifaco-de-trump. Acesso em: 11 jul. 2025.

    BRASIL 247. Entidades do agro e de setores empresariais apoiam reação de Lula contra Trump. 2025d. Disponível em: https://www.brasil247.com/economia/entidades-do-agro-e-de-setores-empresariais-apoiam-reacao-de-lula-contra-trump. Acesso em: 11 jul. 2025.

    CARTA CAPITAL. Bolsonaro “sentou na boca do canhão” que apontava para Lula. 2025a. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/mundo/bolsonaro-sentou-se-na-boca-do-canhao-que-apontava-para-lula/. Acesso em: 11 jul. 2025.

    CARTA CAPITAL. Intromissão de Trump em favor de Bolsonaro é um presente eleitoral para Lula, diz Ricupero. 2025b. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/politica/intromissao-de-trump-em-favor-de-bolsonaro-e-um-presente-eleitoral-para-lula-diz-ricupero/. Acesso em: 11 jul. 2025.

    CARTA CAPITAL. Tarifa de Trump não tem precedentes e exige reação do Brasil no mesmo nível, diz Ricupero. 2025c. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/economia/tarifa-de-trump-nao-tem-precedentes-e-exige-reacao-do-brasil-no-mesmo-nivel-diz-ricupero/. Acesso em: 11 jul. 2025.

    CARTA CAPITAL. A reação do STF à defesa de Donald Trump a Jair Bolsonaro. 2025d. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/politica/a-reacao-do-stf-a-defesa-de-donald-trump-a-jair-bolsonaro/. Acesso em: 11 jul. 2025.

    CARTA CAPITAL. Descontrolado, Trump torna os EUA adversários do Brasil, diz ex-embaixador em Washington. 2025e. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/economia/descontrolado-trump-torna-os-eua-adversarios-do-brasil-diz-ex-embaixador-em-washington/. Acesso em: 11 jul. 2025.

    ICL NOTÍCIAS. Tarifaco: Lula anuncia lei de reciprocidade se OMC não agir. 2025a. Disponível em: https://iclnoticias.com.br/tarifaco-lula-lei-reciprocidade-se-omc-nao-agir/. Acesso em: 11 jul. 2025.

    ICL NOTÍCIAS. Lula anuncia comitê com empresários como resposta a Trump. 2025b. Disponível em: https://iclnoticias.com.br/lula-anuncia-comite-empresarios-resposta-trump/. Acesso em: 11 jul. 2025.

    ICL NOTÍCIAS. Lula critica tarifacos, exalta multilateralismo e diz que Brasil não aceita tutela. 2025c. Disponível em: https://iclnoticias.com.br/lula-critica-tarifacos-exalta-multilateralismo/. Acesso em: 11 jul. 2025.

  • Educação popular e resistência no Alto Rio Pardo são tema de tese de doutorado defendida na UFG

    Educação popular e resistência no Alto Rio Pardo são tema de tese de doutorado defendida na UFG

    Tese de Érika Fernanda Pereira de Souza investiga processos formativos populares em territórios do Norte de Minas e revela como a educação foi fundamental na construção da organização social camponesa

    Foi defendida no final de 2024, na Universidade Federal de Goiás (UFG), a tese de doutorado da educadora Érika Fernanda Pereira de Souza, intitulada “Educação Popular e Organização Social: Processos Formativos e Resistência Popular no Território Alto Rio Pardo – MG”. Fruto de uma extensa pesquisa de campo e análise documental, o estudo mostra como, entre os anos 1970 e 2019, diversas experiências de educação popular contribuíram decisivamente para a formação política e a organização coletiva de camponeses, geraizeiros e comunidades tradicionais na região norte-mineira.

    A pesquisa, orientada pelo professor José Paulo Pietrafesa, insere-se na linha de Trabalho, Educação e Movimentos Sociais do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE/UFG). Com base em referenciais teóricos marxistas e freireanos, a tese analisa a constituição histórica dos conflitos no território do Alto Rio Pardo, intensificados pela expansão do capital agrário e da monocultura de eucalipto, e busca compreender de que maneira os processos formativos populares se articularam à resistência social e política das populações locais.

    Dois eixos centrais atravessam o trabalho: a atuação das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e o Programa de Formação do Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas (CAA/NM). Ambas as experiências foram fundamentais para criar espaços de formação política, consciência crítica e engajamento em práticas coletivas de enfrentamento às expropriações de terra, degradação ambiental e às violações de direitos das populações tradicionais.

    A autora propõe o conceito de “Pedagogia do Balaio” como forma de designar a metodologia comunitária adotada pelas CEBs — inspirada em práticas que valorizam a partilha, a escuta e a construção coletiva do saber, em oposição à lógica individualizante do capital. Em contraponto, apresenta também a noção de “Pedagogia da Porrada”, expressão atribuída às formações desenvolvidas em contextos de conflito direto, especialmente sob a mediação da Comissão Pastoral da Terra (CPT), quando comunidades precisavam decidir entre resistir ou recuar frente à ofensiva do agronegócio e da mineração.

    Para construir a narrativa, Érika realizou dezenas de entrevistas com sujeitos que vivenciaram esses processos formativos, como educadores populares, lideranças sindicais, agentes pastorais, membros de comunidades camponesas e egressos do Curso de Formação do CAA/NM. Entre os entrevistados estão nomes como Paulo Faccion (CPT), Mirian Nogueira (CAA/NM), Valdir Dias, Aurindo Ribeiro, Udilésio Oliveira, além do professor e pesquisador Levon Nascimento, que colaborou cedendo parte de seu acervo pessoal de cartilhas usadas nas formações das CEBs. Esses documentos se revelaram fontes preciosas para a reconstituição das metodologias pedagógicas e dos conteúdos debatidos ao longo das décadas.

    A tese apresenta ainda um panorama da história agrária do Norte de Minas, com especial atenção à formação do campesinato geraizeiro, às práticas de solidariedade territorial e às conquistas recentes, como o Projeto de Assentamento Agroextrativista Veredas Vivas e a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Nascentes Geraizeiras, ambas frutos da organização popular. Ao mesmo tempo, evidencia o esvaziamento das práticas formativas nas últimas décadas como um dos entraves à continuidade da ação coletiva no território, em um contexto de avanço da racionalidade neoliberal e desmonte de políticas públicas voltadas para o campo.

    Por fim, a pesquisadora destaca que compreender a história das formações populares no Alto Rio Pardo é essencial para pensar alternativas à crise da democracia e ao modelo predatório de desenvolvimento que marca a região. A tese se soma ao esforço de construção de uma memória social insurgente e de afirmação de práticas educativas comprometidas com a transformação social, a soberania dos povos do Cerrado e a justiça socioambiental.

  • Os párocos de São Sebastião de Taiobeiras

    Os párocos de São Sebastião de Taiobeiras

    1935: Criação da Paróquia e início da presença dos frades franciscanos

    1° Pároco:
    Frei Jucundiano de Kok (1940 – 1974)

    2° Pároco:
    Frei Salésio Heskes (1975 – 1988)

    3° Pároco:
    Frei João José de Jesus (1988 – 1992)

    4° Pároco:
    Frei Ronaldo Zwinkels (1993)

    5° Pároco:
    Frei Feliciano van Sambeek (1994)

    6° Pároco:
    Frei Berardo Kleuskens (1995 – 1998)

    7° Pároco:
    Frei José da Silva Pereira (1999 – 2000)

    8° Pároco:
    Frei Antônio Teófilo da Silva Filho (2001 – 2007)

    2007: Fim da presença dos frades franciscanos e início da presença dos padres diocesanos

    9° Pároco:
    Padre Inivaldo Fernandes de Lima (2007 – 2009)

    2010: Fim da presença dos padres diocesanos e início da presença dos padres Missionários da Sagrada Família

    10° Pároco:
    Padre José Ivan Alckimim (2010 – 2020)

    11° Pároco:
    Padre Vanderlei Souza da Silva (2021)

    2022: Fim da presença dos padres Missionários da Sagrada Família e retorno da presença dos padres diocesanos

    12° Pároco:
    Padre Gilberto Rodrigues dos Santos Júnior
    (2022 – Atual)

  • Lançamento do livro “Quando o chão e o céu se encontram” reúne educadores, agentes culturais e estudantes em noite de emoção e reflexão em Taiobeiras

    Lançamento do livro “Quando o chão e o céu se encontram” reúne educadores, agentes culturais e estudantes em noite de emoção e reflexão em Taiobeiras

    Na noite de 18 de junho de 2025, a Biblioteca Pública Zenilde Mota Maia, em Taiobeiras (MG), foi palco de um encontro que uniu literatura, memória, espiritualidade e compromisso social. Entre 19h e 21h30, aconteceu o lançamento do livro “Quando o chão e o céu se encontram”, de Levon Nascimento, publicado pela 3i Editora, com expressiva participação de educadores, agentes políticos e culturais, jovens, estudantes, amigos e familiares do autor.

    A escolha da data não foi por acaso: o evento celebrou os 10 anos da publicação da encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco, um dos principais inspiradores da obra. O apoio cultural veio do coletivo Juntos Para Servir, que congrega os mandatos do Deputado Federal Padre João (PT/MG) e do Deputado Estadual Leleco Pimentel (PT/MG).

    A cerimônia foi conduzida com leveza e emoção pela servidora da própria Biblioteca, Eliana Alves, que atuou como mestre de cerimônias. Diversas homenagens marcaram a noite, entre elas à memória de Anelza Rita de Miranda, bibliotecária que por décadas cuidou com zelo do espaço cultural que agora sediava o lançamento, e a Frei Jucundiano de Kok, primeiro pároco de Taiobeiras e personagem destacado nas páginas do livro. Também foram recordados o Papa Francisco e sua luta por uma Ecologia Integral, uma das linhas centrais da obra.

    O autor, Levon Nascimento, trouxe ao público um discurso marcado pela emoção e pela denúncia social, reforçando o caráter engajado do livro, que transita entre memórias do sertão mineiro, crítica ao modelo econômico destrutivo e reflexões sobre espiritualidade libertadora.

    Durante a cerimônia, convidados fizeram leituras de trechos da obra, apresentando ao público personagens como o próprio Frei Jucundiano, as educadoras Duca Queiroz e Célia Egídio, o escritor Milton Santiago, a declamadora Nair Freitas, o cronista Vlade Patrício, o ativista Uenio Thuary e o padre Júlio Lancellotti, além de reflexões sobre o meio ambiente, a crise climática, os desafios políticos contemporâneos e a resistência dos povos tradicionais do Norte de Minas, como os geraizeiros.

    Com uma linguagem que entrelaça poesia, história, espiritualidade e análise social, Levon propõe em “Quando o chão e o céu se encontram” uma leitura comprometida com a vida, com os pobres e com o futuro da Casa Comum. A obra é um convite ao diálogo entre fé e política, entre o chão sertanejo e o céu das utopias possíveis.

    Ao final do evento, o autor agradeceu aos presentes, aos apoiadores culturais e à equipe da Biblioteca Pública de Taiobeiras, além de reforçar o chamado à esperança, à resistência e ao cuidado com as pessoas e com o planeta.

    Laudato Si’, meu Senhor! — como resumiu Levon, encerrando a noite com um agradecimento coletivo.

  • Água, gente e sabedoria: a lição do sertão que o Papa Francisco aplaudiria

    Água, gente e sabedoria: a lição do sertão que o Papa Francisco aplaudiria

    Por Levon Nascimento

    Imagine um mapa que não mostra só rios e montanhas, mas histórias de resistência. É assim o estudo para criar a Reserva Tamanduá-Poções-Peixe Bravo no Norte de Minas. E ao lê-lo com os olhos da Encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco, a gente entende: esse projeto é um retrato vivo do que o Papa chama de “ecologia integral” – onde natureza e cultura se abraçam. 

    No coração do Cerrado mineiro, comunidades geraizeiras e quilombolas vivem há séculos seguindo uma regra sagrada: “cada roda tem seu fuso, cada terra tem seu uso”. Como disse o Papa (LS 63), os saberes tradicionais são “um patrimônio cultural” que protege a terra. Eles sabem que:
    – Chapadas guardam água como esponjas; 
    – Carrascos (transição entre Cerrado e Caatinga) são farmácias naturais; 
    – Vazantes alimentam gente e bicho na seca. 

    Mas essa sabedoria está ameaçada. O estudo do ICMBio mostra o avanço do eucalipto que seca nascentes e da mineração que rasga o solo. É a “cultura do descarte” que o Papa critica (LS 22): tratar a terra como mercadoria, não como lar. 

    A Laudato Si’ é enfática: “O acesso à água potável é direito humano básico” (LS 30). Pois a região da RDS é um berço d’água estratégico: 
    – Abastece as bacias do São Francisco e Jequitinhonha; 
    – Protege campos ferruginosos – formações raras que filtram e armazenam água; 
    – Rios como o Peixe Bravo já sofrem com assoreamento e seca. 

    Sem a RDS, o “paradigma tecnocrático” (LS 109) – que vê a natureza como recurso infinito – continuará sugando a vida do sertão. 
     
    A ideia da Reserva nasceu das comunidades: 
    1. Geraizeiros pediram proteção quando viram seus “gerais” virando desertos verdes de eucalipto; 
    2. Quilombolas do Peixe Bravo uniram-se à luta, fortalecendo o tecido social (LS 149); 
    3. Até pesquisadores que queriam um Parque Nacional entenderam: aqui, gente e natureza são inseparáveis. 

    Como diz a Laudato Si’ (LS 143): “A ecologia também requer a preservação da cultura dos povos”.

    Criar a RDS Tamanduá, Poções e Peixe Bravo não é só “fazer uma reserva”. É: 
    – Proteger a “casa comum” (LS 3) num bioma que já perdeu 80% de sua vegetação; 
    – Valorizar os “últimos” (LS 158) – geraizeiros e quilombolas que defendem a terra com sabedoria ancestral; 
    – Garantir água para o futuro, numa região onde o clima semiárido se agrava. 

    O estudo técnico do ICMBio e a voz do Papa Francisco concordam: não há justiça ambiental sem justiça social. Neste sertão mineiro, a vida teima em florescer. Cabe a nós regá-la. 

    “Tudo está interligado. Por isso, requer-se uma preocupação pelo meio ambiente unida ao amor sincero pelos seres humanos.” 
    (Laudato Si’, 91) 

    P.S.: Este artigo é um chamado. Apoie a criação da RDS Tamanduá, Poções e Peixe Bravo. É um passo concreto para ouvir “o clamor da terra e o clamor dos pobres” (LS 49). Afinal, como ensina o sertão: “Água parada vira lama, gente unida vira correnteza”.

    Levon Nascimento é doutorando em Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável pelo Centro Universitário Dom Helder Câmara.

    Referências

    FRANCISCO. Laudato Si’: sobre o cuidado da casa comum. Vaticano, 24 maio 2015. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html. Acesso em: 3 jun. 2025. 

    MAIA, L. J.; VALARINI FILHO, L.; NOVAES, V. Síntese de estudos técnicos: proposta de criação da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Córregos Tamanduá-Poções-Peixe Bravo. Brasília: ICMBio, 2025. 39 p. Arquivo PDF. 

  • O que são as Reservas de Desenvolvimento Sustentável (RDS) e por que incomodam tanto?

    O que são as Reservas de Desenvolvimento Sustentável (RDS) e por que incomodam tanto?

    Por Levon Nascimento

    As Reservas de Desenvolvimento Sustentável (RDS) são um tipo de unidade de conservação criado para proteger a natureza sem excluir as populações humanas que dela dependem. Ao contrário de áreas de preservação estrita, as RDS conciliam o uso sustentável dos recursos naturais com o modo de vida de comunidades tradicionais. Previstas pela Lei nº 9.985/2000, que institui o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), elas representam um modelo alternativo de desenvolvimento: mais ecológico, participativo e descentralizado (BRASIL, 2000).

    1. O que é uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável?

    De acordo com o Art. 20 do SNUC, uma RDS é uma área natural que abriga populações tradicionais cuja sobrevivência depende de formas sustentáveis de uso da natureza, desenvolvidas ao longo de gerações. Essas práticas são adaptadas ao ambiente local e desempenham papel importante na proteção da biodiversidade (BRASIL, 2000).

    As RDS não apenas preservam a fauna e flora, mas também reconhecem o valor dos saberes tradicionais. Cada reserva deve ter um Conselho Deliberativo, formado por representantes das comunidades locais, órgãos públicos e sociedade civil, e ser regida por um Plano de Manejo, que estabelece regras de uso e conservação (MATTOS et al., 2011).

    2. Para que serve uma RDS?

    As RDS têm dois objetivos principais: conservar o meio ambiente e melhorar a qualidade de vida das populações tradicionais (BRASIL, 2000). Em outras palavras, elas funcionam como áreas protegidas que promovem a biodiversidade sem excluir as pessoas, ao contrário do modelo clássico de “florestas intocadas”.

    Como mostram Queiroz e Peralta (2006), as RDS permitem a realização de atividades como pesca artesanal, coleta de frutos, cultivo de roças e até o ecoturismo, desde que essas ações estejam em harmonia com a conservação ambiental. Além disso, elas incentivam a pesquisa científica, a educação ambiental e o uso racional dos recursos naturais, tudo isso com a participação ativa das comunidades (PERALTA, 2002).

    3. Como funcionam os fluxos econômicos em uma RDS?

    Nas RDS, o dinheiro circula a partir de atividades sustentáveis que geram renda sem destruir a natureza. Entre os principais fluxos econômicos estão:

    • Extrativismo vegetal, como a coleta de castanha-do-Brasil, açaí, óleos e fibras, com processamento artesanal e venda por meio de cooperativas;
    • Pesca artesanal, respeitando os períodos de reprodução e as cotas estipuladas pelo plano de manejo;
    • Roças tradicionais, com sistemas de policultura adaptados ao solo e ao clima local;
    • Ecoturismo comunitário, onde visitantes pagam por hospedagem, trilhas, passeios e produtos locais (QUEIROZ & PERALTA, 2006; DIAS et al., 2007).

    Essas atividades geram benefícios econômicos diretos e indiretos, como aponta o estudo de Peralta (2002) sobre a RDS Mamirauá, no Amazonas. Lá, a autogestão comunitária aumentou a renda familiar sem comprometer a floresta.

    4. A importância das RDS para a natureza e as pessoas

    As RDS são espaços de convivência equilibrada entre seres humanos e o meio ambiente. Elas ajudam a proteger espécies ameaçadas, restaurar florestas, manter rios limpos e conservar solos férteis. A RDS Mamirauá, por exemplo, abriga mais de 400 espécies de aves, 45 de mamíferos e cerca de 300 espécies de peixes, além de ser um exemplo de modelo participativo de gestão (WIKIPÉDIA, 2024).

    Além do impacto ecológico, as RDS têm um papel social e cultural importante. Elas valorizam identidades locais, línguas, rituais e práticas tradicionais, protegendo comunidades que muitas vezes sofrem com a exclusão social. Como destacam Lima-Ayres e Alencar (1993), as populações locais passam a ter voz ativa nas decisões sobre o território, o que fortalece a cidadania ambiental.

    Essas reservas também funcionam como barreiras ao desmatamento, controlam queimadas e reduzem o avanço do agronegócio predatório, mantendo corredores ecológicos essenciais para o equilíbrio climático (KITAMURA, 2001).

    5. Por que políticos e empresários resistem às RDS?

    Apesar de seus benefícios, a criação de RDS costuma enfrentar forte resistência de setores políticos e empresariais. Isso ocorre por diversos motivos:

    • Restrição à expansão econômica convencional: a criação de uma RDS impede o avanço de grandes empreendimentos como soja, pecuária ou mineração (MATTOS et al., 2011);
    • Conflitos fundiários e políticos: prefeitos e parlamentares muitas vezes representam interesses de fazendeiros e investidores locais, que temem perder espaço e influência (RIBEIRO, 1994);
    • Lobby empresarial no Congresso: grupos ligados ao agronegócio pressionam por leis que flexibilizem o uso da terra, criando um ambiente de insegurança jurídica para as RDS (MATTOS et al., 2011).

    Esse cenário faz com que a demarcação de novas reservas enfrente atrasos, judicializações e campanhas de desinformação, mesmo quando o território já cumpre função ambiental e social essencial.

    Conclusão

    As Reservas de Desenvolvimento Sustentável representam uma alternativa viável ao modelo predatório de desenvolvimento, pois unem proteção ambiental, valorização cultural e justiça social. No entanto, seu sucesso depende da vontade política e do reconhecimento do direito das comunidades locais de viver com dignidade e autonomia.

    A resistência que enfrentam revela o conflito entre dois projetos: o do lucro rápido, concentrado e destrutivo, e o do futuro comum, sustentável e partilhado.

    Referências

    BRASIL. Lei nº 9.985, de 18 de julho de 2000. Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC).

    DIAS, A. et al. (2007). Aspectos socioeconômicos e ambientais em RDS Ponta do Tubarão. Gaia Scientia.

    KITAMURA, P. C. (2001). Biodiversidade na Amazônia: por uma abordagem regional das unidades de conservação.

    LIMA-AYRES, D.; ALENCAR, E. (1993). Ocupação humana na área da RDS Mamirauá. Anais da ABEP.

    MATTOS, P. P. et al. (2011). Reserva de Desenvolvimento Sustentável: avanço na concepção de áreas protegidas? Sociedade & Natureza.

    PERALTA, N. (2002). Implantação do Programa de Ecoturismo na RDS Mamirauá. OLAM – Ciência e Tecnologia.

    QUEIROZ, H. L.; PERALTA, N. (2006). Manejo integrado e gestão participativa em RDS. Gaia Scientia.

    RIBEIRO, N. F. (1994). Um novo modelo de proteção ambiental para Mamirauá.

    WIKIPÉDIA (2023). Reserva de Desenvolvimento Sustentável.

    WIKIPÉDIA (2024). Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá.

  • Sertão: o mito do progresso e a realidade que engole o futuro

    Sertão: o mito do progresso e a realidade que engole o futuro

    Por Levon Nascimento

    Há dez anos, o Papa Francisco lançou a encíclica Laudato Si’, um grito de alerta: o “paradigma tecnocrático” – essa crença cega na tecnologia como solução para tudo – está destruindo o planeta e esmagando comunidades. Hoje, no semiárido brasileiro e em Minas Gerais, essa profecia se realiza diariamente. A mineração, travestida de “progresso” e “eficiência”, impõe uma lógica perversa: natureza é estoque, gente é obstáculo.

    Os desastres de Mariana e Brumadinho não foram acidentes. Foram a materialização desse pensamento. Barragens “estáveis” segundo laudos técnicos viraram túmulos porque ignoraram a vida humana rio abaixo. A técnica, supostamente neutra, serviu ao lucro rápido. O resultado? Lama tóxica, 272 mortos, rios assassinados.

    No semiárido, o drama é mais lento, mas não menos cruel. Empresas perfuram poços profundos com bombas de alta vazão para extrair minério, enquanto comunidades veem suas cacimbas e cisternas secarem. No Vale do Rio Peixe Bravo (Norte de Minas Gerais), a comunidade historicamente enraizada é constrangida por políticos e grandes empresários; seus saberes tradicionais são ridicularizados e desqualificados pelo “paradigma tecnocrático” denunciado pelo Papa Francisco; e o discurso de que “o progresso está chegando” suplanta os princípios de prevenção e precaução para com o frágil ambiente local, um dos últimos ainda razoavelmente preservado. Na Bahia e em Sergipe, o lençol freático baixou, secando fontes essenciais. Aqui, a guerra não é por ouro ou ferro: é por água. Quem perde são quilombolas, geraizeiros, agricultores familiares – tratados como “atraso” ao projeto de “modernidade” das mineradoras e dos políticos de província.

    A tecnocracia tem um rosto concreto:

    • Saberes locais apagados: Conhecimentos ancestrais sobre o manejo da terra e da água são desprezados em audiências públicas cheias de jargões técnicos incompreensíveis.
    • Natureza reduzida a números: Estudos de impacto medem água em “metros cúbicos afetados”, não em vidas humanas ou culturas destruídas.
    • Democracia esvaziada: Licenças são aprovadas em “fast-track”, comunidades são removidas à força ou manipuladas pelo poder do dinheiro, e recursos da CFEM (compensação financeira) desviados da saúde e educação.

    A Laudato Si’ não é um tratado teórico. É um chamado à revolução ética: a “ecologia integral”. Isso significa:

    1. Colocar a vida acima do lucro: Proteger nascentes, restringir mineração em áreas frágeis, priorizar água para pessoas, não para britadores.
    2. Ouvir quem sabe cuidar: Incluir comunidades no planejamento, valorizar saberes tradicionais junto ao conhecimento técnico.
    3. Exigir responsabilidade real: Fim da impunidade corporativa. Quem polui, paga e repara. Auditorias independentes e controle público.

    Não basta tecnologia “verde” se a lógica for a mesma: extrair até esgotar. O semiárido clama por um novo paradigma, onde a técnica sirva à vida, não ao mercado. Dez anos depois da Laudato Si’, é hora de escolher: ou rompemos com essa engrenagem que transforma terra em commodity e gente em estorvo, ou seremos cúmplices da próxima tragédia anunciada. A água que falta no sertão hoje é o mesmo futuro que seca para todos nós.

  • Novo livro de Levon e o 10° ano da Laudato Si’, do Papa Francisco

    Novo livro de Levon e o 10° ano da Laudato Si’, do Papa Francisco

    O novo livro de Levon Nascimento, Quando o chão e o céu se encontram (3i Editora, 2025), a ser lançado em 18 de junho, às 19h, na Biblioteca Pública de Taiobeiras, conversa diretamente com os 10 anos da encíclica Laudato Si’ (2015), do Papa Francisco. Mais que uma homenagem, a obra atualiza e encarna os princípios da ecologia integral, conectando fé, justiça e cuidado com a vida em três caminhos principais:

    1. Ecologia integral como base de tudo

    Inspirado na ideia de que tudo está interligado — pessoas, natureza, espiritualidade — Levon propõe uma visão em que cuidar do planeta é também lutar por justiça social. Capítulos como “A Quaresma e a Campanha da Fraternidade 2025: um chamado à conversão ecológica” e “Tudo está interligado” mostram como o consumismo, o agroextrativismo predatório e o descarte de vidas humanas fazem parte do mesmo sistema que destrói a Terra. Aqui, ecoa a crítica do Papa ao “paradigma tecnocrático” e à cultura do descarte.

    2. Espiritualidade que pisa o chão da realidade

    A espiritualidade que o livro propõe não é desconectada da vida real. É encarnada — feita de gestos concretos, como os de Frei Jucundiano de Kok, que dedicou sua vida ao sertão mineiro, e de Padre Júlio Lancellotti, símbolo de resistência nas periferias. A peça sobre Frei Jucundiano, por exemplo, mostra como a simplicidade franciscana e o cuidado com os pobres são formas reais de viver a fé. O livro também provoca: “É possível salvar as almas sem se importar com os corpos?” — uma pergunta que cutuca qualquer fé que fuja da responsabilidade social.

    3. Brasil no centro: denúncia e esperança

    Levon traz a crise climática global para o nosso quintal. Fala das queimadas no cerrado, da violência contra os povos geraizeiros, da exploração do Alto Rio Pardo. E vai além: denuncia o ecofascismo e o tecnofeudalismo, nomes difíceis que representam sistemas que concentram poder e espalham injustiça. O autor mostra que lutar por justiça ambiental no Brasil é também lutar pela vida de quem mais sofre. E reafirma o legado do Papa Francisco: fé, ecologia e fraternidade como farol em tempos sombrios.

    Quando o chão e o céu se encontram é mais do que um livro. É um grito de esperança e um chamado à ação. Dez anos depois da Laudato Si’, Levon Nascimento mostra que os ensinamentos da encíclica estão mais vivos do que nunca — não como teoria, mas como prática que nasce no sertão, nas lutas populares e na coragem de quem insiste em cuidar da Casa Comum.

  • Minha Casa Minha Vida em Rio Pardo

    Minha Casa Minha Vida em Rio Pardo

    Por Levon Nascimento

    Da esquerda para a direita: deputado Leleco Pimentel (PT), eu, vereador Gean Marcos (PT/Rio Pardo de Minas) e Romário Rohm, assessor dos deputados Leleco e Padre João, com a bandeira de Rio Pardo de Minas em destaque.

    Sempre admirei Rio Pardo: povo gentil e guerreiro, cidade-mãe da nossa região. Sem ela, não existiriam Salinas, Taiobeiras, São João do Paraíso e tantos outros.

    Agora, a admiração cresce com esta conquista: 150 famílias assinaram contratos para a construção de moradias rurais (Faixa 1) do Minha Casa Minha Vida, do presidente Lula. Resultado da luta do vereador Gean, do assessor Romário, das lideranças das comunidades de Ilha das Cabras, Raiz e Sobrado, com apoio fundamental dos deputados Padre João e Leleco.

    Na foto, aponto para a bandeira como símbolo da luta coletiva. Não foi presente de prefeito, foi fruto da organização das comunidades e do PT. Um exemplo da importância de eleger vereadores e deputados do PT, comprometidos com o povo.

    As 150 moradias serão na zona rural, e outras 50 já estão previstas para a área urbana. Parabéns, Rio Pardo!

  • A celebração dos 90 anos da Paróquia de Taiobeiras

    A celebração dos 90 anos da Paróquia de Taiobeiras

    Por Levon Nascimento

    A cuidadosa e significativa seleção dos cantos litúrgicos entoados na missa em ação de graças pelo Jubileu de 90 anos da Paróquia São Sebastião de Taiobeiras, realizada na noite de 20 de maio de 2025, merece aplausos. Canções como “Quem disse que não somos nada” (Zé Vicente) e “Se calarem a voz dos profetas” (Cecília Vaz), entre outras, são verdadeiras músicas da caminhada. Elas expressam com profundidade as origens e a trajetória de uma evangelização encarnada, construída com fé e compromisso pelo nosso Povo de Deus em Taiobeiras.

    Outro momento marcante foi a exibição, ao final da celebração, de vídeos com mensagens de ex-párocos e religiosas que exerceram suas vocações e ministérios neste chão. Um gesto simples, mas repleto de memória, gratidão e reverência à história da comunidade.

    De modo especial, foi profundamente comovente para mim ouvir e ver Frei João José de Jesus, OFM, com seu hábito franciscano, e Irmã Nilza Cascaes, vestindo a camiseta que homenageia nossa querida Irmã Neusa Nascimento. Eles me remetem ao tempo precioso do meu chamado vocacional — o ser leigo batizado, engajado na evangelização libertadora, a serviço da vida e da justiça social, no coração do Norte de Minas.

    Viva a Paróquia São Sebastião de Taiobeiras! Viva o Povo de Deus que caminha com esperança e fé pela história!

  • Inédito: Foto da 1ª Coroação de N. Sra. de Fátima em Taiobeiras

    Inédito: Foto da 1ª Coroação de N. Sra. de Fátima em Taiobeiras

    A fotografia, em sépia, foi obtida graças à pesquisa de Levon Nascimento junto ao Arquivo da Província Franciscana de Santa Cruz, em março de 2025, e registra uma grande concentração de fiéis reunidos em frente à Igreja Matriz de São Sebastião de Taiobeiras, MG, no dia 13 de maio de 1957, por ocasião da primeira coroação de Nossa Senhora de Fátima naquele município. Ao centro e em destaque, sobre a carroceria de um caminhão adaptado como andor móvel, ergue-se a imagem de Nossa Senhora de Fátima em tamanho natural, talhada e pintada com vestidos longos e mantos drapeados. Quatro crianças, vestidas de anjos — com túnicas claras e auréolas delicadas — posicionam-se aos pés da estátua, enquanto outras coroam simbolicamente a Virgem com guirlandas de flores ou pequenas coroas.

    Imediatamente atrás do grupo que sustenta a imagem, o altar improvisado exibe toalhas brancas e estandartes; hasteadas, duas bandeiras tremulam levemente ao vento. Atrás do caminhão, logo à entrada da porta principal da matriz, encontra-se Dom José Alves Trindade, bispo de Montes Claros, em sua primeira visita pastoral a Taiobeiras, trajando sua batina escura e a cruz peitoral, em atitude solene e contemplativa, abençoando a assembleia.

    Em primeiro plano, a multidão de homens, mulheres e crianças — muitos vestidos com trajes do cotidiano dos anos 1950, como saias rodadas e camisas sociais — preenche toda a praça em frente ao templo. Observa-se também um grupo de senhoras com vestidos florais e mangas curtas, enquanto acompanham reverentes o rito religioso. Ao longe, casas simples de alvenaria branca com portas e janelas escuras formam o pano de fundo, e algumas árvores esparsas marcam o início da principal praça do pequeno centro urbano, recém-emancipado (1953).

    O registro capta não apenas o momento litúrgico — a coroação sacra de uma devoção mariana que atraiu fiéis de toda a região —, mas também o ambiente festivo e comunitário que deu origem, naquele exato dia, à tradicional Festa de Nossa Senhora de Fátima e, depois, à secular Festa de Maio de Taiobeiras. A cena transpira religiosidade popular, fervor piedoso e o entrelaçamento de fé e identidade cultural local, em plena praça pública diante do edifício-matriz, erguido pela liderança de Frei Jucundiano de Kok, OFM.

    Ficha descritiva
    Identificador: 11869
    Descrição do registro: Primeira Coroação de Nossa Senhora de Fátima, em Taiobeiras, MG, em 13/05/1957
    Data de produção: 13/05/1957
    Lugar de produção: Taiobeiras, MG
    Entidade custodiadora: BR MGOFMPSC – Arquivo da Província Santa Cruz
    Grupo Religioso: OFM ― Ordem dos Frades Menores
    Grupo Religioso – Instituição: OFM – Província Santa Cruz
    Notas sobre este registro fotográfico: Primeira Coroação de Nossa Senhora de Fátima, em Taiobeiras, MG, em 13/05/1957

  • 13 de maio: Por que Maria é importante para a humanidade?

    13 de maio: Por que Maria é importante para a humanidade?

    A figura de Maria, mãe de Jesus, transcende fronteiras religiosas e temporais, consolidando-se como um dos pilares mais complexos e inspiradores da espiritualidade ocidental. Sua relevância histórica não se restringe ao papel biológico de dar à luz o Cristo, mas se expande em camadas teológicas, sociais e culturais que a tornam um arquétipo universal. No contexto do 13 de maio de 2025, data que celebra Nossa Senhora de Fátima, refletir sobre sua importância exige um olhar que integre tradição e contemporaneidade, dogma e humanidade.

    1. A teologia clássica: mãe de Deus e nova Eva

    Na teologia cristã, Maria é definida como Theotokos (Mãe de Deus), título consolidado no Concílio de Éfeso (431 d.C.), que enfatiza sua centralidade no mistério da Encarnação (Arquidiocese de Uberaba). Os Padres da Igreja, como Irineu de Lyon, a viram como a “Nova Eva”, cujo “sim” ao anjo Gabriel reparou a desobediência da primeira mulher (Rosary Center). Essa perspectiva a coloca não apenas como protagonista da salvação, mas como mediadora graciosa, ponte entre o divino e o humano. Dom Leonardo Steiner, citado pelo IHU, reforça que em Maria “encontramos respostas” para inquietações existenciais, pois sua disponibilidade a Deus a torna modelo de fé ativa.

    2. A mariologia feminista: entre a revolução e a tradição

    A teologia feminista, porém, desafia visões tradicionais que reduziram Maria a um ícone passivo de pureza. Analisando criticamente sua figura, teólogas recuperam sua agência: ela foi uma mulher judia que enfrentou riscos sociais ao aceitar uma gravidez fora dos padrões (James Tabor, IHU). Para Michele Giulio Masciarelli (IHU), Maria é “mais jovem do que o pecado”, não por negação da realidade, mas por sua coragem em abraçar um projeto disruptivo. Essa releitura a transforma em símbolo de resistência, especialmente em contextos onde mulheres são marginalizadas. Como afirma o IHU, “num momento da história, o centro de tudo está numa mulher”, ecoando a ideia de que Maria personifica a força do feminino sagrado.

    3. Maria pós-Vaticano II: humanidade e universalidade

    O Concílio Vaticano II (1962-1965) reposicionou Maria como “membro eminente da Igreja”, evitando excessos devocionais que a divinizavam. O Papa Francisco, conforme destacado pelo IHU, lembra que “Maria é mãe, não deusa”, reafirmando sua humanidade. Essa abordagem ressalta sua trajetória terrena: uma mãe judia que viveu dúvidas, dores e alegrias, como qualquer pessoa. Leonardo Boff, em A Porção Feminina de Deus, assinala que Maria revela a face materna do Divino, integrando o feminino na compreensão do sagrado. Sua história, assim, torna-se acessível a todos, independentemente de credo.

    4. Maria na pós-modernidade: respostas a uma crise de sentido

    Em meio à fragmentação pós-moderna, Maria emerge como figura de reconciliação. Artigos do IHU (Instituto Humanitas Unisinos) destacam que sua “glorificação” não a distancia da realidade, mas a aproxima das crises humanas. A poesia de Pedro Casaldáliga, que a transforma em “todas as mulheres”, ilustra como sua imagem transcende o religioso, simbolizando esperança para os oprimidos. Ela é, nas palavras de Casaldáliga, a mãe dos sem-terra, das viúvas, dos excluídos — uma metáfora da compaixão ativa.

    Maria: espelho do humano e do divino

    Maria não é importante apenas por quem gerou, mas por quem ela foi: uma mulher que encarnou paradoxos — humilde e revolucionária, silenciosa e profética, humana e transcendente. Sua história desafia dogmas estéreis e convida a uma espiritualidade encarnada, onde o divino se manifesta no cotidiano. No 13 de maio de 2025, celebrá-la é reconhecer que, em sua trajetória, encontramos um mapa para navegar as complexidades da existência, unindo céu e terra, tradição e renovação. Como síntese do feminino sagrado e da disponibilidade ao mistério, Maria permanece, afinal, uma resposta viva aos anseios mais profundos da humanidade.

    Referências
    ARQUIDIOCESE DE UBERABA. A Virgem Maria na Teologia. Arquidiocese de Uberaba, [s.d.]. Disponível em: https://arquidiocesedeuberaba.org.br/a-virgem-maria-na-teologia/. Acesso em: 12 maio 2025.
    CASALDÁLIGA, Pedro. Poesia de Pedro Casaldáliga transforma Maria em todas as mulheres. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/605492-poesia-de-pedro-casaldaliga-transforma-maria-em-todas-as-mulheres. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Como Maria, a mãe judia de Jesus, se tornou a virgem que deu à luz a Deus. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Entrevista com James D. Tabor. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/78-noticias/602004-como-maria-a-mae-judia-de-jesus-se-tornou-a-virgem-que-deu-a-luz-a-deus-entrevista-com-james-d-tabor. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Contemplação do encontro de Maria com o Ressuscitado. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/78-noticias/597943-contemplacao-do-encontro-de-maria-com-o-ressuscitado. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Dom Leonardo: Em Maria, encontramos respostas; nos tornamos pessoas mais disponíveis. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/categorias/615135-dom-leonardo-em-maria-nos-encontramos-respostas-nos-nos-tornamos-pessoas-mais-disponiveis. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Francisco encerra polêmicas seculares sobre Nossa Senhora: “Maria é mãe, não deusa”. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/607814-francisco-encerra-polemicas-seculares-sobre-nossa-senhora-maria-e-mae-e-nao-deusa-expressoes-as-vezes-exageradas. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Maria, a glorificada, e a crise pós-moderna. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/185-noticias/noticias-2016/559142-maria-a-glorificada-e-a-crise-pos-moderna. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Maria de Nazaré à luz da mariologia desenvolvida a partir do Concílio Vaticano II. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/78-noticias/598632-maria-de-nazare-a-luz-da-mariologia-desenvolvida-a-partir-do-concilio-vaticano-ii. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Maria, a mulher mais jovem do que o pecado. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Artigo de Michele Giulio Masciarelli. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/185-noticias/noticias-2016/563199-maria-a-mulher-mais-jovem-do-que-o-pecado-artigo-de-michele-giulio-masciarelli. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Não façam isso com a mãe de Jesus. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/78-noticias/589385-nao-facam-isso-com-a-mae-de-jesus. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Para Maria, por Jesus: A virgem na teologia feminista. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/categorias/615453-para-maria-por-jesus-a-virgem-na-teologia-feminista. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. “Num momento da história, o centro de tudo está numa mulher”. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/sobre-o-ihu/78-noticias/574634-num-momento-da-historia-o-centro-de-tudo-esta-numa-mulher. Acesso em: 12 maio 2025.
    BOFF, Leonardo. A porção feminina de Deus. Leonardo Boff, 30 ago. 2014. Disponível em: https://leonardoboff.org/2014/08/30/a-porcao-feminina-de-deus/. Acesso em: 12 maio 2025.
    ROSARY CENTER. Maria na Teologia dos Padres – Parte 2. Rosary Center, [s.d.]. Disponível em: https://rosarycenter.org/pt/ll73n2-mary-in-the-theology-of-the-fathers-part-2. Acesso em: 12 maio 2025.
    REVISTA CULTURA TEOLÓGICA. Maria de Nazaré: Perspectivas teológicas. Revista Cultura Teológica, [s.d.]. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/culturateo/article/download/14360/11834/38580. Acesso em: 12 maio 2025.