Por Levon Nascimento
Imagine um mapa que não mostra só rios e montanhas, mas histórias de resistência. É assim o estudo para criar a Reserva Tamanduá-Poções-Peixe Bravo no Norte de Minas. E ao lê-lo com os olhos da Encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco, a gente entende: esse projeto é um retrato vivo do que o Papa chama de “ecologia integral” – onde natureza e cultura se abraçam.
No coração do Cerrado mineiro, comunidades geraizeiras e quilombolas vivem há séculos seguindo uma regra sagrada: “cada roda tem seu fuso, cada terra tem seu uso”. Como disse o Papa (LS 63), os saberes tradicionais são “um patrimônio cultural” que protege a terra. Eles sabem que:
– Chapadas guardam água como esponjas;
– Carrascos (transição entre Cerrado e Caatinga) são farmácias naturais;
– Vazantes alimentam gente e bicho na seca.
Mas essa sabedoria está ameaçada. O estudo do ICMBio mostra o avanço do eucalipto que seca nascentes e da mineração que rasga o solo. É a “cultura do descarte” que o Papa critica (LS 22): tratar a terra como mercadoria, não como lar.
A Laudato Si’ é enfática: “O acesso à água potável é direito humano básico” (LS 30). Pois a região da RDS é um berço d’água estratégico:
– Abastece as bacias do São Francisco e Jequitinhonha;
– Protege campos ferruginosos – formações raras que filtram e armazenam água;
– Rios como o Peixe Bravo já sofrem com assoreamento e seca.
Sem a RDS, o “paradigma tecnocrático” (LS 109) – que vê a natureza como recurso infinito – continuará sugando a vida do sertão.
A ideia da Reserva nasceu das comunidades:
1. Geraizeiros pediram proteção quando viram seus “gerais” virando desertos verdes de eucalipto;
2. Quilombolas do Peixe Bravo uniram-se à luta, fortalecendo o tecido social (LS 149);
3. Até pesquisadores que queriam um Parque Nacional entenderam: aqui, gente e natureza são inseparáveis.
Como diz a Laudato Si’ (LS 143): “A ecologia também requer a preservação da cultura dos povos”.
Criar a RDS Tamanduá, Poções e Peixe Bravo não é só “fazer uma reserva”. É:
– Proteger a “casa comum” (LS 3) num bioma que já perdeu 80% de sua vegetação;
– Valorizar os “últimos” (LS 158) – geraizeiros e quilombolas que defendem a terra com sabedoria ancestral;
– Garantir água para o futuro, numa região onde o clima semiárido se agrava.
O estudo técnico do ICMBio e a voz do Papa Francisco concordam: não há justiça ambiental sem justiça social. Neste sertão mineiro, a vida teima em florescer. Cabe a nós regá-la.
“Tudo está interligado. Por isso, requer-se uma preocupação pelo meio ambiente unida ao amor sincero pelos seres humanos.”
(Laudato Si’, 91)
P.S.: Este artigo é um chamado. Apoie a criação da RDS Tamanduá, Poções e Peixe Bravo. É um passo concreto para ouvir “o clamor da terra e o clamor dos pobres” (LS 49). Afinal, como ensina o sertão: “Água parada vira lama, gente unida vira correnteza”.
Levon Nascimento é doutorando em Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável pelo Centro Universitário Dom Helder Câmara.
Referências
FRANCISCO. Laudato Si’: sobre o cuidado da casa comum. Vaticano, 24 maio 2015. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html. Acesso em: 3 jun. 2025.
MAIA, L. J.; VALARINI FILHO, L.; NOVAES, V. Síntese de estudos técnicos: proposta de criação da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Córregos Tamanduá-Poções-Peixe Bravo. Brasília: ICMBio, 2025. 39 p. Arquivo PDF.






















